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A 'cultura do futuro' transformou ansiedade em modo de vida

18 de maio de 202613min
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Entre previsões climáticas, crises econômicas, guerras, inteligência artificial e feeds infinitos de notícias, nunca se falou tanto sobre o futuro. Mas o excesso de antecipação está produzindo uma geração incapaz de viver plenamente o presente. Estudos recentes sobre ansiedade e o conceito de “permacrise” ajudam a entender como a cultura contemporânea transformou o amanhã em fonte permanente de tensão. Confira.

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Participantes neste episódio3
F

Fernando

HostJornalista
T

Tati

HostApresentadora
M

Michel Alconforado

Convidado
Assuntos5
  • A Geração do Medo e da Ansiedade (Gen Z)Cultura do futuro · Permacrise · Gerações baby boomers · Niilismo juvenil
  • Reflexões sobre o FuturoIluminismo e ciência · Individualismo · Movimento punk · Franco Berardi
  • Impacto do passado no presenteFernanda Montenegro · Populações subalternizadas · Diáspora negra · Populações indígenas
  • Impacto da tecnologia na ansiedadeInteligência artificial · Novas tecnologias
  • Culpa e vitimizaçãoProblemas climáticos · Crise do mundo do trabalho · Falência de modelos tradicionais
Transcrição37 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Oi, eu tenho aqui um recado do Léo Santana pra você. Escuta aí. O GG na área pra dizer o seguinte, o Magalu e eu queremos convocar todos os brasileiros pra gente voltar a se ver do tamanho que de fato somos gigante. Chega de se ver pequenininho, bora botar o Brasil no telão. Ouviu? E mais, em qualquer compra a partir de R$199, você ainda pode concorrer a uma sala completona. São seis salas por dia até a nossa estreia.

Pra Onde Vamos, com Michel Alconforado. Fala, Michel. Boa tarde.

Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Boa tarde, Michel. Bom, Michel hoje vai nos contar como é que a cultura do futuro transformou ansiedade em modo de vida. E dizendo assim, pode parecer elementar, né? Se a gente tá preocupado com o futuro, a gente tá ansioso, é ou não é, Michel? É, mas antigamente a gente tava ansioso por algo de bom que tava por vir. E agora a gente tá morrendo de medo daquilo que vem pela frente. Do mundo acabar. É.

O mundo acabar, né? Mas se ele só acabar se a gente acabasse junto, estava bom. O problema é que a promessa é que o mundo acabe e a gente continue aqui, né? Sabe uma matéria super interessante na New York, com essa revista americana? Sobre a relação data com a nossa nova percepção sobre aquilo que é o futuro. E eu... É um tema muito interessante, porque...

Michel, a gente está com uma pequena falha na nossa comunicação. Estamos perdendo uns... Está picotando. É o famoso picotando. Estamos perdendo... Vamos tentar dar um passo para a esquerda. Vamos ver se melhora o sinal. Aquele momento... A tecnologia é isso. Na hora que você precisa, ela não funciona. Mas agora acho que está perfeito. Vai. Tá. Deixa... Eu acho que eu vou... Bom, está resolvido. Tá.

E aí é muito interessante, porque a gente tem um olhar super conflituoso com essa ideia de futuro, e isso parece que é desde sempre, mas não é não. Ao longo dos últimos 50 anos, a nossa relação com a ideia daquilo que vem no amanhã vem se transformando de forma muito importante. E tem um livro que eu gosto muito, do Franco Berardi, que é um pensador italiano, publicado aqui no Brasil pela UBU, que nos mostra um pouco desse panorama.

Ele vai dizer de maneira muito clara que a ideia de pensar o futuro não é algo que está desde sempre na humanidade. Porque pensem vocês, quando a gente estava no tempo medieval, onde a igreja tinha um papel importantíssimo na organização da nossa perspectiva de mundo, o futuro era aquilo que a igreja ou as escrituras sagradas decidiam.

era o famoso futuro a Deus pertence. Você vinha aqui com determinado destino e o teu papel era cumprir o destino que o teu lugar no mundo, o Deus, tinha planejado para você. O Berardi vai mostrar que tem dois movimentos fundamentais que são decisivos na nossa mudança de relação com o futuro.

O primeiro ponto é que o iluminismo, sobretudo o desenvolvimento da ciência, vai cobrar de nós, indivíduos, a capacidade de planejar e prever aquilo que a gente busca para amanhã. Então, quando você tem, sei lá, tecnologia, quando você tem desenvolvimento científico, quando você tem conhecimento para além do discurso religioso...

em voga na sociedade, a gente vai desenvolvendo de maneira muito clara uma habilidade de não só planejar o futuro, mas buscar se antecipar o futuro.

Nesse ciclo, o Berardo será que é um outro movimento que vai causar uma série de problemas para a gente, que é o crescimento do individualismo. A gente não só pode se antecipar e planejar o futuro, mas a gente começa a acreditar que, para além do grupo, para além do destino da família, para além do karma, para além daquilo que Deus pensou para a sua família, você tinha a chance de criar o seu próprio futuro e inventar.

ou ambicionar um amanhã diferente daqueles que o seu pai, sua mãe, seu irmão, seu tio, seu primo ou sua família tiveram. E isso coloca sobre nós uma necessidade de pensar sobre o amanhã, mas também de se organizar em torno disso.

O que é o jogo aqui que é muito interessante? É que até os anos de 1980, a gente tinha um olhar muito positivo sobre esse amanhã. O futuro era sempre pensado como um lugar melhor, de mais abundância e com mais oportunidades. E dos anos 80 para cá, isso se transformou.

Para o Berardi, o que vai marcar essa grande mudança era o pessoal do punk, do movimento punk aqui na Inglaterra. Vocês gostam de punk, punk rock, essas coisas, né? Vocês dois, né? Sim, sim. Então, Six Pistols. Six Pistols, né? Six Pistols, é. Isso, isso.

Então, eles fazem aquela música, se eu não me engano, em 78, que se chama God Save the Queen, né? Que no começo, o primeiro título que eles tinham dado era No Future, sem futuro, né? Essa ideia de que não tinha nenhum futuro. E eles vão dizer lá num determinado momento que nessa Inglaterra que estava numa crise de desemprego, com greve de gari em Londres, as ruas lotadas de ir para tudo quanto era lado e a juventude sem nenhuma perspectiva de crescimento.

Eles vão entender que, apesar do olhar negativo sobre o futuro, estava no colo da própria juventude a invenção de futuro novo. Mas aquilo foi o primeiro momento onde a gente começa a olhar para o amanhã de um jeito negativo. E aí, o Berardi vai mostrar que esse modo de pensar futuro com medo começa a se instaurar ou se generalizar na relação do Ocidente com esse amanhã.

E o que é o jogo? O jogo é que, com o desenvolvimento das tecnologias, esse futuro se apresenta de uma forma ainda mais duvidosa e produtora de ansiedade. Porque a ansiedade não é só uma ideia ou uma busca.

de antecipar movimentos que são movimentos futuros. A ansiedade é quando você procura se antecipar o futuro, mas você prevê esse futuro de um jeito infinitamente pior do que o presente que você está vivendo. Então, todos nós vivemos isso hoje, os nossos ouvintes também. Você está com a vida mais ou menos confortável, quem está com direito...

de ter um empreguinho, a família mais ou menos organizada, no final do mês cai o salário, no começo do mês cai o salário, no final do mês, todo mês você fica preocupado com como é que o salário chega lá. Mas, de algum modo, você aprendeu a desenvolver um conjunto de ferramentas para lidar com isso. Se a vida tivesse a chance de continuar mais ou menos desse modo, estávamos em paz. O problema é que todo dia você acorda e você fica pensando, caramba, até quando eu vou conseguir manter isso?

E o aparecimento das novas tecnologias acirram isso de um jeito infinitamente pior. Inteligências artificiais, aplicativos para tudo quanto é lado, dando conta de fazer o nosso trabalho. E, dentro desse jogo, como a matéria da New York mostrou, o futuro se transforma em mais fonte de ansiedade do que de expectativa ou de organização de um hoje para a gente se encaixar nesse amanhã do jeito que cabe. Tem alguém que sofre mais com isso?

Os mais jovens, né? Os mais jovens, né? Esse negócio de quem? Gente que tem mais futuro tem mais problema pela frente. Ninguém manda ser jovem. E eles têm uma raiva da geração anterior, né, Michel?

Muito forte, muito forte. Porque, sobretudo os baby boomers, né? Para os ouvintes ficarem na mesma página, que os baby boomers são aqueles indivíduos que nasceram no pós-guerra, entre 1945 e os anos de 1960. E de maneira muito clara, o que se estrutura para esse grupo mais jovem é que os problemas que se mostram quase como sem solução no hoje foram problemas que foram criados pelas gerações anteriores. Então, problemas de clima, problemas... Essa coisa da bancarrota climática que a gente está enfrentando.

O dilema do mundo do trabalho, a reinvenção ou a falência dos modelos tradicionais de família, de trabalho, de formação, de instituições, das múltiplas que povoam a nossa vida cotidiana, do ponto de vista dos mais jovens, isso é culpa do pessoal que inventou isso antes.

E, então, eles estão morrendo de medo do amanhã e, de um jeito, culpando as gerações anteriores por terem inventado esse hoje recheado e marcado por uma série de problemas. Esse é um fenômeno global. É muito interessante a gente marcar isso, porque às vezes você está com seu filho em casa, olhando para ele, achando ele mais ansioso, um pouco desgostoso em relação ao futuro.

E eu queria marcar aqui que pesquisas na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil reforçam que essa desilusão diante do amanhã não é algo de hoje, não. É algo que já vem de bastante tempo e nem é fruto só das especificidades da tua família, da trajetória do teu filho. É um fenômeno compartilhado. O Tales Absaber, que é um psicanalista importante, professor, se não me engano, da Unesp,

Tem um livro do começo dos anos 2000, onde ele vai acompanhar, fazer um trabalho de pesquisa, etnográfico, apesar de psicanalista, em festas raves, né? Que são essas festas de música eletrônica que duravam horas com jovens embalados por bebida, música alta e um conjunto de drogas sintéticas que lhes ajudavam a enfrentar ali essa maratona de música.

E ele vai reparar com muita sabedoria e um olhar muito clínico diante desse fenômeno que ele estava observando, um certo niilismo diante da vida, uma percepção de que não fazia muito sentido essa vida e nem o jogo social ao qual esses jovens estavam submetidos e uma certa incapacidade de atribuir sentido mesmo para aquilo que estava fazendo.

Boa parte desse niilismo, dessa incapacidade mesmo de atribuir um sentido para além do acordar, escovar o dente, tomar banho e trabalhar, vem por conta dessa dificuldade de imaginar o amanhã. Então, toda vez que o futuro deixa de ser fonte de produção de significado e se transforma num lugar de muito medo e ansiedade, o presente fica mais pesado.

Eu queria te ouvir, Michel, pra gente não ficar assim, pra gente não ir embora chorando, o que é que você sugere de como, porque, óbvio, se a gente olha pra um futuro que parece amedrontador, que parece o fim do mundo, a gente vai viver ansioso mesmo. Como viver hoje livre dessa ansiedade, mesmo com essas previsões?

Não, eu não queria ser amedrontador. Amedrontador, tá bom. Tá cabido, pronto. Estou cinco horas na frente, o fuso está me perturbando. Mas o que eu queria dizer aqui, para deixar todo mundo calmo, é uma frase da nossa grande Fernanda Montenegro, que numa história contada por Fernanda Torres, eu acho que revela...

não só a sabedoria de alguém que tem 96 anos, mas de alguém que já viu muita coisa.

Fernanda Torres conta, numa entrevista, que às vésperas de saber se ia ter mais um filho ou não, Fernanda Montenegro chama ela e diz, minha filha, o mundo teve prestes a acabar desde sempre, né? E não acabou, né? Então, dentro desse cenário, certamente, apesar do tamanho dos problemas que se avizinham, a gente vai conseguir encontrar algum jeito, porque o mundo está para acabar.

pelo menos desde o século XV, da Idade Média. Agora, um outro cenário dentro desse movimento, que eu acho que é uma coisa que, sobretudo, grupos subalternizados ou as famosas maiorias minorizadas, e aí chamando a atenção para a população da diáspora, os negros, mas também populações indígenas.

O passado pode ser um ótimo produtor de sentido, né? Diante de um futuro que se mostra como incógnita, olhar para trás pode ser um aconchego maior do que ficar orientando o teu hoje a partir daquilo que vai vir no amanhã, porque isso é imprevisível, incontrolável e a gente jamais saberá.

Então, voltar às origens, olhar para o passado e entender de onde você veio, talvez seja a melhor saída quando a gente não sabe muito bem para onde está indo. Ótimo, excelente. Michel Conforado conosco às segundas, quartas e sextas-feiras em Pra Onde Vamos. Valeu, Michel. Um beijão para você. Até quarta. Se ainda tiver mundo na quarta-feira.

Não sabemos muito bem pra onde vamos, mas a gente precisa saber de onde a gente veio, né? Isso. E é o famoso a gente vai levando, né? A gente vai levando. É isso aí. Beijos. Até quarta. Tchau, tchau. Tem podcast que te inspira a conhecer lugares novos, a ir mais longe. É como o Dili EX5 EMI. Conheça o super híbrido Plugin com até 1.300 quilômetros de autonomia combinada com conforto de primeira classe.

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