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O deboche como antídoto para um mundo que desaprendeu a ouvir

22 de maio de 202611min
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Vivemos em uma época em que discordar parece cada vez mais difícil. Estudos em neurociência mostram que ouvir opiniões contrárias ativa no cérebro áreas associadas à dor, ameaça e desconforto emocional. Talvez por isso o humor, o deboche e a galhofa tenham se tornado ferramentas tão importantes para manter algum nível de convivência social. E no Brasil, poucas pessoas entenderam isso tão bem quanto Dercy Gonçalves.

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Participantes neste episódio3
F

Fernando

HostJornalista
T

Tati

HostApresentadora
M

Michel Alcorforado

Convidado
Assuntos4
  • Deboche como antídoto socialNeurociência e a aversão a opiniões contrárias · Dercy Gonçalves · Humor, deboche e galhofa como ferramentas de convivência · Carlos Lacerda · Ditadura militar · Antropologia do deboche
  • A vida e obra de Dercy GonçalvesAdriana Negreiros · Biografia de Maria Bonita · Livro sobre violência sexual e estupro no Brasil · Ética do desejo · Santa Maria Madalena (RJ)
  • O deboche como regulador social e criador de sociabilidadeConexão e inclusão através do deboche · Regulação do clima social · Novas formas de sociabilidade · País polarizado
  • O papel do humor em momentos de tensãoAlívio social · Conscientização · Humor contra autoridades
Transcrição30 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Pra Onde Vamos, com Michel Alcorforado. Fala, Michel. Boa tarde. Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Boa tarde, Michel. Hoje o Michel vai falar de deboche nesse espaço. Adorei.

É o que salva, né? Só sobrou pra gente isso. Acho que sim. Não tem outro caminho. Baseado num livro, porque toda sexta-feira agora será assim, não é mesmo? Ou tem sido assim?

É uma nova tradição. Eu vou pedir logo desculpa pela minha voz, porque nessa loucura do tempo de São Paulo e nessas mudanças todas de voo, aí acabei pegando uma gripe. Mas vou me esforçar aqui. Se vocês não me entenderem, por favor, me interrompam a qualquer momento. Acabou de sair um livro super interessante da Adriana Negreiros.

Essa jornalista com uma longa trajetória na imprensa brasileira, já fez um belíssimo trabalho em vários veículos de comunicação, mas há bastante tempo já vem nos brindando com toda uma grande qualidade no mundo dos livros. A Adriana acabou de lançar seu terceiro livro, o primeiro livro dela.

Foi uma biografia sobre Maria Bonita, a rainha do cangaço, mulher de Lampião. Muito interessante, que acabou até se transformando numa série aí nos streamings, onde ano passado, se eu não me engano, a gente teve a sorte de acompanhar também no audiovisual.

A Adriana tem um livro muito legal, Tati, não sei se você já leu, sobre violência sexual e estupro no Brasil, que se chama A Vida Nunca Mais Será a Mesma. Ela tenta entender que sociedade é essa que violenta mulheres com uma frequência absurda, comparado sobretudo com outros países do mundo. E agora acabou de lançar uma biografia maravilhosa sobre a vida de Dersi Gonçalves. É isso mesmo, né? Quem tem aí...

não importa a idade, até aqueles que nasceram há pouco tempo já se depararam com algum meme ou com algum trecho da carreira dessa atriz, comediante, humorista, importantíssima, que foi Desi Gonçalves, que morreu com mais de 100 anos e teve tempo de atravessar gerações com seu jeito peculiar de produzir arte, mas, sobretudo, de fazer a gente pensar sobre o Brasil.

E a Adriana, nesse livrinho publicado pela Editora Objetiva, faz um mergulho na vida de Dercy. E Michel, peraí que deu um defeitinho aqui na nossa comunicação. Não é nem a sua voz, é algo técnico. É a conexão. Ah, então. Peraí, voltou, voltou. Tá bom. Vai, vai. A Adriana faz um mergulho maravilhoso na vida da Dercy e acabou de publicar esse livro pela Editora Objetiva.

E o mais interessante, para além das histórias hilariantes, obviamente, que a vida da Dersi apresenta, é que dá para a gente aprender duas grandes coisas, não só do ponto de vista pessoal, para cada um de nós, olhando para essa figura, mas também sobre um jeito de estar no mundo que a Dersi magistralmente deu conta de fazer ao longo da vida.

O primeiro ponto que é decisivo é que Desi orientou a carreira dela e a vida dela por aquilo que ela queria fazer. Se os psicanalistas estão aqui ouvindo a gente, certamente o que guiou a vida da Desi foi a tal da ética do desejo. Desi deu conta de viver a vida que quis viver e pagou um preço altíssimo por viver essa vida. Então, desde a infância, em Santa Maria Madalena, uma cidade do interior do Rio de Janeiro,

Dercy, porque vivia a vida que queria viver, recebeu as alcunhas mais terríveis daquela pequena cidade, mas conseguiu dar a volta nesse lugar e terminar, ou dar conta de inventar uma vida, não só terminar a vida, fazendo aquilo que queria fazer.

Então, no final das contas, viver é duríssimo, é difícil, mas é mais fácil quando a gente vive a vida que a gente quer viver, independente do desejo ou da vontade dos outros. E Desi faz isso lindamente, faz isso em contraposição à ideia do que a família dela pensava sobre o que era estar no mundo, sobre os namorados e os maridos que teve, sobre o mercado de trabalho no Brasil.

sobre a perspectiva mesmo da família brasileira, sobre que jeito é esse de ter família. Desci vai lá e reinventa tudo isso. Agora, o ponto que eu queria trazer... Oi? Vai, o ponto que você queria trazer. O ponto que eu queria trazer aqui hoje é a questão do deboche, né? Que quem aqui não se deparou com essa figura e não viu a importância da maneira como Desci mostrava os seus personagens ou chamava a atenção da sociedade brasileira.

E esse é um ponto interessantíssimo porque ela acabou virando referência para um jeito de estar no Brasil ou para um jeito de viver o Brasil. Eu gosto sempre de contar essa história. O Carlos Lacerda, que foi governador do estado do Guanabara, uma figura importantíssima do movimento conservador brasileiro, ali pelos anos 50 e 60.

E antes mesmo, nos anos 40, ele uma vez, às vésperas da ditadura militar, ele foi preso. Às vésperas do AI-5, ele foi preso. E aí, ele decidiu fazer uma guerra, uma greve de fome. E o irmão dele, muito preocupado com aquele ato, que é um ato gravíssimo, vai até a cela dele e diz, Carlos...

não queira fazer Shakespeare. Aqui não adianta você se meter a ser um Hamlet. Esse não é o país de Shakespeare, isso aqui é o país do Dersi Gonçalves. Quando o irmão dele estava dizendo isso, muito mais do que uma crítica, uma comparação, entre a Inglaterra, sofisticada de Shakespeare.

ou a jocosidade de Decy, ele estava chamando a atenção para uma forma possível de pensar contato ou de pensar um lugar no mundo a partir do deboche. E por que o deboche é importante? O deboche é importante, Decy provou isso com a trajetória dela, porque é através do deboche que a gente, apesar da oposição, apesar do ponto de vista diferente, apesar da discórdia...

E apesar da crítica, a gente consegue gerar conexão e gerar inclusão daqueles que a gente imagina ser diferentes. Os antropólogos vêm há muito tempo pensando o deboche, sobretudo desde o começo do século XX. E eles vão mostrando que o deboche aparece, de maneira mais clara, em sociedades onde o tipo de contato seria proibido.

Então, quando você está diante de uma figura, ou diante de um arranjo, ou de algum encontro, que qualquer tipo de contato não seria bem visto, o deboche aparece como uma forma de conexão. E ao invés dele gerar conflito, de gerar ruptura, de gerar um mal-estar, ao contrário, o deboche permite que gente que jamais se falaria começasse a se falar e tivesse a possibilidade de estabelecer ali algum canal de interação.

Então, dentro desse modelo, essa sociedade brasileira muito conservadora, que jamais aceitaria uma moça do interior do Rio de Janeiro falar as coisas que Dersitava, Berta falar, ou a pensar, ou a dizer, ou a viver, ela se vale do deboche como um caminho de encontrar um lugar na cena e atrair a atenção da sociedade brasileira para as coisas que ela estava querendo dizer. Só que tem uma coisa legal também no deboche, que eu acho que é importante para a gente pensar.

é que o deboche é um baita regulador do clima social. Sabe quando o clima pesa? O deboche pode ser uma oportunidade da gente tentar regular aquela relação ao ponto de você pontuar o que você tem a dizer, continuar colocando o seu ponto de vista.

mas aquilo não implicar na quebra do diálogo. E decidiu fazer isso bem pra caramba também, e fez isso muito bem ao longo da vida. E o terceiro ponto, já pra depom ver pra vocês, é que o deboche é criador de novas formas de sociabilidade, ou seja, novas formas da gente interagir com os outros ou gerar contato com os outros. Toda vez que você sai com uma piadinha, uma piadinha óbvia, que é uma piada que faça parte do contexto,

Você conecta, você atrai a atenção, você captura o olhar do outro e você estabelece novos canais de construção de afeto e de diálogo. Então, Desci fez isso desde quando nasceu, no começo do século XX, até o começo do século XXI, sorte de quem teve uma vida muito longa e eu acho que pode ser um baita aprendizado para a gente pensar num país polarizado como o nosso.

Como é que rir da gente e rir do outro pode ser uma chance de entender a gente mesmo de voltar a construir diálogo. Demais, demais. Tem uma função muito legal que é descomprimir, né? O deboche descomprime. É, é. E essas figuras tiveram um papel muito importante, sobretudo nos momentos de grande tensão. Assim, quando você olha para o papel...

Para os momentos que Desi vai fazer muito sucesso, e aí a comunicação de massa, não estou nem falando do começo da carreira dela, quando ela era uma figura importantíssima no teatro brasileiro. Mas sobretudo na ditadura militar, nos períodos mais duros, Desi não estava deixando de questionar nada, mas fazendo isso de um jeito onde gerava conscientização e ao mesmo tempo um alívio para um clima pesado que estava apresentado ali, dado na sociedade brasileira.

Então, a chance de usar a deboche como caminho de conexão com quem é hierarquicamente superior a você. Então, não é por acaso que boa parte do humor no Brasil a gente faz troça e piada de autoridades. A gente devia voltar a fazer mais.

Porque isso questiona, isso conscientiza, isso gera conexão. E coloca todo mundo, aquele que está debochando e quem está rindo da piada, no jogo, no debate. Então, o Fernando colocou muito bem, essa descompressão, esse alívio social, o deboche tem um papel importantíssimo e isso é fundamental para a vida e a sociedade. Muito bom.

Michel Conforado conosco às segundas, quartas e sextas neste Estúdio CBN. Um beijo, Michel. Bom fim de semana. Com melhor voz e melhor sinal, né? Se Deus quiser. Tchau, tchau. Até segunda. Beijo, beijo.

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