Episódios de Comentaristas

Gênero dos substantivos: por que varia entre as línguas?

23 de março de 202615min
0:00 / 15:32
O professor Pasquale responde à dúvida do ouvinte Edgar Massaaki, que quer entender por que nas línguas latinas os substantivos comuns têm gênero, enquanto nas línguas germânicas alguns são identificados como de gênero neutro. Ouça o comentário.

Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices

Assuntos6
  • Variação do gênero entre línguasGênero em línguas neolatinas · Gênero em línguas germânicas · Dificuldade para aprendizes de língua estrangeira · Não há padrão universal · Variação dentro de grupos linguísticos
  • Gênero das palavras em francêsMar é feminino · Artigo definido feminino 'la' · Canção 'La Mer' · Caetano Veloso · Filme Infamy
  • Gênero das palavras em espanholMar é masculino em espanhol · Alfonsina e o Mar · Mercedes Sosa · Variação Argentina vs Venezuela · Quando la Mar
  • Gênero em inglês e línguas germânicasSubstantivos neutros · Artigo definido universal 'the' · Sem distinção masculino/feminino · Teacher (professor/professora) · Artigo indefinido 'a' ou 'an'
  • Exceções e variações do gênero em portuguêsDó masculino vs dó feminino coloquial · Libido feminino mas termina em O · Problema masculino mas termina em A · Palavras enganosas · Gênero baseado no uso
  • Perda de gênero no inglês: razões históricasInvasões de povos · Mil a 1500 anos atrás · Evolução linguística · Mudança gramatical
Transcrição25 segmentoswhisper-cpp/large-v3-turbo

A nossa língua de todo dia, com o professor Pasquale. Professor, boa tarde. Tatiana, boa tarde. Fernando, boa tarde. Boa tarde. Ouvintes, boa tarde. Hoje, dúvida de Edgar Massaac, igual ali de São Paulo, e gostaria de saber por quê. Nas línguas latinas, até onde sei, dizeria que português, italiano, espanhol e francês, os substantivos comuns têm gênero masculino e feminino.

como o inglês, substantivos como mesa, cadeira e até mesmo animais, como cachorro, são identificados como de gênero neutro, indicado pelo pronome it. E aí, professor? A pergunta é boa, a gente precisaria fazer um tratado aqui sobre isso, mas isso é uma grande dificuldade para quem estuda outra língua, uma língua estrangeira, colocar na cabeça que o gênero, gênero é aquela coisa masculino, feminino,

Colocar na cabeça que o gênero de uma palavra numa língua não necessariamente é o mesmo em outra língua. E isso acontece até entre as línguas do mesmo grupo. Caso que ele cita lá línguas neolatinas, ele cita essas e outras, além dessas.

E não ao português, mas eu quero mostrar para o ouvinte e para todo mundo, para esse ouvinte e para todos, como a coisa funciona, que é realmente uma coisa que não tem relação matemática. Bom, então eu começo com uma canção cujo nome eu não vou dizer, só vou dizer que em francês, mar é mer, escreve-se com três leis.

M de Maria, E de Europa, R de Roma. O gênero da palavra mar em francês e em espanhol é uma coisa muito interessante. A gente vai começar com uma canção que foi composta por Charles René e Albert Larsry, que foi gravada por muita gente. A canção é antiga, muito antiga.

Caetano Veloso, um single de 2024, que ele gravou a pedido da diretora de um filme, um filme chamado Infamy. A diretora se chama Christine Angot. Ela viu Caetano cantar essa música em Paris, num show, ficou encantada, ela estava gravando o filme e pediu a ele que gravasse e a canção acabou entrando na trilha do filme. Vamos ver como canta Caetano Veloso essa canção francesa.

Vamos lá. Voz, professor. Pois é. Aí a diretora do filme vai ver o Caetano cantar em Paris, fica encantada e diz, vem cá, meu filho.

Você não quer cantar pra nós, não. Tá certa ela, né? Tá certa ela, né? Como é que diz a canção? Logo de cara. La mer, né? La mer convoa dancer. O mar que nós vemos dançar pelos golfos claros. Esse mar tem reflexos de prata, tem reflexos mutáveis sob a chuva e por aí vai. La mer.

O la, em francês, é artigo feminino. Isso quer dizer que, em francês, mar é palavra feminina. Seria como se em português fosse amar, não é? Não o verbo amar. Eu gosto da mar do litoral paulista, por exemplo, mas não é assim, né? Agora, em espanhol, acontece uma coisa impressionante, muito interessante. A gente vai começar com uma canção monumental chamada, eu não vou dizer o nome também,

senão já dou spoiler, a canção composta por Ariel Ramírez, que é o autor da melodia, e Félix Luna, que escreveu a letra, quem vai cantar para a gente é ninguém mais, ninguém menos do que outra sumidade vocal do mundo, Mercedes Sosa. Essa música está num disco que ela gravou em 1969, chamado Mujeres Argentinas.

mar em espanhol, que é mar, como em português, M-A-R, tá? Vamos ouvir.

É impossível não ter vontade de chorar ouvindo essa mulher cantar. A voz dessa mulher é uma coisa incrível, né? É um absurdo. Ela me leva para um tempo, assim, é engraçado. É um absurdo. La Negra, chamada Mercedes Sosa. Essa canção se chama Alfonsina e o Mar, porque Alfonsina é o nome de uma escritora argentina que se chamava Alfonsina Storni,

ela se matou, ela se jogou na água, se jogou no mar. Dá para colocar só o comecinho de novo? Sim. Pronto. Por la blanda arena que lame el mar. Pela areia branda, suave, que lambe o mar. Ela disse el mar. Agora a gente vai sair da Argentina e vai para a Venezuela.

A gente vai ouvir uma cantora chamada Cecília Todd. Escreve-se T-O-D-D. Ela vai cantar uma canção composta por Henry Martínez, compositor venezuelano, já falecido. Participa da gravação William Sigismondi. E eu também não vou dizer o nome da canção. A canção anterior é Alfonsina e Elmar. E esta agora, prestem atenção.

Vejam o que vai acontecer. Vamos lá.

Pois é. Hoje eu estou roubando o quadro do João Marcelo. Música do mundo. Quando Lamar. O nome da música é esse. Quando Lamar, Lamar. Quando Lamar se torna

apaciguada, calmada, quando o mar se torna pacificado, calmo. Normalmente o mar rouba o azul dos céus quando está pacificado, é o que diz a letra. Suele, que é um verbo que em português é o verbo soer, só ia acontecer. Suele la mar. Então vocês viram que saímos da Argentina e fomos para a Venezuela, mar deixou de ser palavra masculina e virou palavra feminina. Ou seja,

O gênero não é uma coisa, uma pedra que é igual em todas as línguas, nem dentro da mesma língua acontece isso. No inglês, como cita o ouvinte, diz a história que houve há muito tempo, muito, muito tempo, a coisa de mil anos, 1500 anos e por aí vai,

por invasões de povos e tal, em inglês tinha, gênero deixou de ter. Então, em inglês, o artigo definido, por exemplo, é sempre de, que é T de tatu, H, E, para qualquer coisa, singular, plural, e por aí vai. The men, the women, os homens, as mulheres, é tudo de. The book, que é o livro, e por aí vai.

Se for artigo indefinido, é A, que se escreve com A, ou aquele outro artigo que se escreve com A, isso depende da inicial, da palavra seguinte. Quando a gente vê nos filmes, a gente vê lá A, um nome qualquer aí, de um diretor qualquer, film. E esse A, muita gente pensa que é o nosso artigo A. Não é, é um filme de fulano de tal, é um filme de fulana de tal.

Não há esse gênero em inglês. Os substantivos todos são neutros quando nomeiam coisas e mesmo quando nomeiam pessoas. Teacher é professor e é professora e por aí vai. Agora, em português, há palavras que nos traem. Então, vamos rapidamente para o próximo auxílio, que vai ser bem curtinho. Chico Buarque vai cantar dele uma canção que está no disco Almaná.

A voz do dono e o dono da voz. Rapidinho, vamos lá. 100 anos fazendo a santa é italianismo, é bom demais, né? O Chico e a sua influência italiana.

Deus deu ao dono as nozes, as vozes Deus só deu seu dó. Essa canção foi feita há muito tempo, em 81, e foi feita porque houve uma discussão entre o Chico e a gravadora dele, ele brinca com essa coisa do dono da voz, e ele diz as vozes Deus só deu seu dó.

ou quando designa pena, é palavra masculina no português culto. Você não imagina o dó que eu sinto, embora todo mundo diga na língua do dia a dia, você não imagina a dó que eu sinto. E para encerrar, Tom Jobim, que vai cantar Querida, uma canção que está no último disco que ele gravou, que é o Antônio Brasileiro, de 94. Vamos lá, rapidinho.

Você provoca a minha libido. Libido é palavra feminina, embora termine em O. Assim como o problema termina em A e a palavra masculina é o problema. Então, gênero é concernente basicamente ao uso e não se transfere de uma língua para outra. É isso. Obrigado, professor. E até amanhã. Um beijo. Beijo para vocês. Até amanhã.