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Multitarefa é ilusão: o custo invisível da atenção fragmentada

24 de março de 202613min
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Michel Alcoforado destrincha um estudo alemão que revelou que o cérebro humano não faz multitarefa de verdade, apenas alterna rapidamente entre tarefas, acumulando erros, estresse e perda de desempenho. Em um mundo em que nossa atenção média caiu para cerca de 40 segundos, entender esse limite pode ser decisivo para segurança, produtividade e saúde mental. Ouça.

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Assuntos8
  • Mito da multitarefaAlternância rápida de tarefas · Ilusão de simultaneidade · Velocidade de transição entre atividades · Cérebro não processa paralelo · Especialização em reduzir tempo de mudança
  • Custo cognitivo da multitarefaExaustão mental e física · Gasto calórico cerebral · Custo psíquico · Esforço mental enorme · Fadiga crônica
  • Estudo científico sobre multitarefaTeste com círculos e sons · Eletrodos EEG · Comunidade grande de participantes · Sala controlada · Metodologia experimental
  • Gênero e divisão do trabalhoSocialização diferencial feminina · Treinamento desde infância · Viés de gênero estrutural · Mito de habilidades inatas · Desigualdade de responsabilidades
  • Diferenças de exaustão por gêneroPrivilégio masculino ao descanso · Mulheres impossibilitadas de parar · Falta de direito ao repouso · Desigualdade no cuidado doméstico · Custo desproporcionalmente feminino
  • Ambiente moderno de estímulosRedução da atenção média · Sobrecarga sensorial contemporânea · Vida cotidiana com múltiplos estímulos · Demanda por simultaneidade · Evolução cultural acelerada
  • Soluções e pausas cotidianasRespiração deliberada · Momentos de pausa · Ritmo mais lento · Descanso estruturado · Redução da exaustão
  • Competência ProfissionalDesenvolvimento de velocidade · Apresentadores de rádio/TV · Treinamento contínuo · Reconhecimento profissional · Performance vs saúde
Transcrição25 segmentoswhisper-cpp/large-v3-turbo

Pra Onde Vamos, com Michel Alcoforado. Oi, Michel, boa tarde. Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Boa tarde. A gente, no início do Estúdio CBN, falava aqui sobre o seu assunto, né? Qual é o custo de ser multitarefa? O custo invisível, eu acrescentei. Alguns são bem visíveis, dependendo do surto, né? É verdade. Você sabe que a primeira vez que eu fui aí no estúdio da rádio, eu fiquei chocado com a habilidade de vocês, né? Eu lembro. Eu fiquei muito impressionado.

como vocês conseguiam falar, prestar atenção na Jana, ouvir a entrada e a saída dos repórteres que estavam preparados para as notícias mais quentes, ficar atento ao que o comentarista estava falando, interagir. Vocês são hábeis nisso, né? Mas tem um preço. Ô. Ô. Ô se tem. Olha, eu quis trazer essa pauta aqui hoje porque a gente gosta de acreditar que dá para fazer duas coisas ao mesmo tempo. E acabou de sair uma pesquisa quentinha aí,

pelos psicólogos de uma universidade americana, mostrando que isso não é verdade. Não dá para fazer duas coisas ao mesmo tempo, não. Isso é uma ideologia, é uma ideia nossa que foi propagada e repetida durante muito tempo, de que o cérebro humano tinha a possibilidade de fazer duas atividades ao mesmo tempo. O que eles repararam? Qual foi a conclusão que eles chegaram? Eles fizeram testes em uma comunidade grande de pesquisados e aplicando uma coisa muito simples,

e mostrava para essas pessoas na frente de uma sala fechada um videozinho onde tinha o tamanho de um círculo sendo projetado na tela. Então, a ideia era que as pessoas tivessem a capacidade, depois de ver esse vídeo curto, de dizer mais ou menos qual era o tamanho do círculo. Só que, ao mesmo tempo, elas tinham que ouvir um som e definir se aquele som era agudo, grave ou médio. Então, depois perguntava para essas pessoas o que elas tinham feito, e aí, com elotrodos ali na cabeça da pessoa,

do cérebro. E o que eles repararam como conclusão final, né, conclusão que eles chegaram, é que não, não é que as pessoas conseguem fazer duas coisas ao mesmo tempo, é que elas vão alternando de uma atividade pra outra e esse tempo de mudança de uma atividade pra outra, às vezes, é tão curto que dá pra você a sensação de que você tá fazendo duas coisas ao mesmo tempo. Qual que é o grande aprendizado que sai daí, né? O primeiro é que depois de repetir muitas vezes a mesma mudança de atividade,

você começa a ficar tão bom nessa modulação de mudar de uma coisinha para outra, que parece que você está hábil em fazer duas coisas ao mesmo tempo. Mas não, você está hábil em diminuir o tempo da mudança de uma atividade para outra. Então, vocês aí no estúdio, que são ótimos profissionais e têm muita experiência na ancoragem de programas, há um estranho, tipo eu, quando chego aí, fico surpreso com a habilidade que vocês têm de controlar várias atividades, mas vocês não estão controlando várias atividades.

estão tendo capacidade de mudar mais rápido do que eu, por conta da experiência do treinamento, de uma atividade para outra, com uma habilidade invejável. Só que o que é o ponto interessante desse jogo todo? Dado que esses indivíduos pesquisados modulavam ou mudavam de uma atividade para outra com uma habilidade invejável, assim como vocês, o que acontecia é que os pesquisadores foram tentar mapear qual era o custo disso. E o custo é enorme.

que saem aqui, depois de apresentarem três horas de programa, ficam exaustos. Exaustos por quê? Porque a modulação e a troca de ações é tão grande que isso te cobra um custo psíquico e de esforço mental enorme. E olha que interessante, tem uma dimensão de gasto calórico que é ótima, porque o cérebro, apesar de representar, se não me engano, só 2% da nossa massa corporal, ele consome 20% das nossas calorias diárias.

Então, gente como vocês, ou como uma mãe que tem que cuidar do filho, dar conta da televisão, permanecer sã, atender ali as coisas, a dinâmica cotidiana toda também, ou os pais quando estão ali naquelas primeiras, nos primeiros meses dos filhos. Então, esse negócio tem um gasto calórico enorme, mas também tem uma exaustão enorme dentro desse pacote. Então, gente que faz várias coisas ao mesmo tempo, nessa modulação de uma coisa a outra,

cansada e exaurida, porque o gasto físico e mental é infinitamente maior. Então, qual que é a grande conclusão que os pesquisadores chegam? É que, de novo, a gente está tendo que lidar com uma nova forma de relacionamento com os estímulos que a vida cotidiana tem apresentado. Quem está morando escondido no mato, ou está vivendo numa região com poucos estímulos, tem a possibilidade de fazer uma coisa atrás da outra.

tinha que desenvolver uma habilidade de tentar focar em alguma coisa para conseguir viver diante desse ambiente que tinha muitos estímulos. E agora? Agora a habilidade mais desejada por todos nós é gente que consegue achar que está fazendo tudo ao mesmo tempo. Então, quem desenvolve isso ganha prepoderância e protagonismo, é bem falado, a mãe acha que você é ótimo, o chefe chama e dá um aumento, diz que você está performando muito bem,

é uma pessoa muito desenvolvida, mas o custo desse pacote todo é muito grande. E qual é o custo, como já dissemos? Exaustão, né? Você fica exaurido de acordar de manhã. Então, essa sensação de segunda-feira você está cansado não é culpa só da vida que você escolheu viver, não. É culpa de que ambiente é esse que está te cobrando equilibrar 500 pratos ao mesmo tempo. Essa coisa de a gente está em março, já estamos mortos de cansados, já pensando que parece dezembro,

de eventos que nos acometeu esse ano é fruto dessa necessidade de modulação. Então, o caminho para tentar se livrar disso é... Vá devagar, né? Como diria lá no Rio, vá na maciota. Vá devagar, porque devagar também é pressa e essa pressa toda que a gente está vivendo, tentando fazer tudo ao mesmo tempo, só está dando mais prejuízo do que ganho. Você, qual é a sua característica? Você faz uma coisa atrás da outra?

de forma simultânea. Qual é a sua loucura? Eu tenho uma incapacidade gigantesca de fazer duas coisas ao mesmo tempo, ou de modulando. Eu sou daqueles que, quando foca numa coisa, fica. Sabe alguém que pega no celular e aí perde a estação do metrô? Ou alguém que pega no celular, a pessoa fala com você, você não tem capacidade de responder? Eu fiquei lendo seu livro e passei a estação do metrô. Te falei isso aqui. Isso foi a maior logica que eu recebi nessa jornada inteira. Eu, inclusive, você não acha que eu gravei esse trecho?

trecho. Isso é coisa de rico? Bom, depende da cidade onde você pegou o metrô. Eu passei e fui até o Tucuruvi. Não sei, não sei. Mas tava feliz, tava inteligente. Se fosse no metrô de Paris, iam dizer que é coisa de rico, tá vendo? Né, Michel? Michel, eu queria trazer uma outra questão aqui sobre a história de ser multitarefa e o quanto isso foi também virou uma marca das mulheres.

E o quanto isso foi construído também culturalmente, socialmente. Mulher faz um monte de coisa ao mesmo tempo, homem não. E o quanto isso nos sobrecarrega. Não, exatamente. A gente gosta de acreditar ou foi treinado a acreditar que as mulheres são dotadas de habilidades que lhes são únicas nesse campo de conseguir fazer 1.200 coisas ao mesmo tempo. O que precisa ficar muito claro aqui é que isso não é uma habilidade de homens e mulheres,

que a gente, desde sempre, coloca dentro das meninas e vai se acentuando ao longo do processo de socialização muito pautado por um viés de gênero, que faz com que essas moças sejam treinadas a conseguir pular de uma ação para outra com uma habilidade maior do que os meninos. Não é que eles não têm essa habilidade, é que eles não são estimulados a ou não são treinados a.

próprio trabalho, com a agenda, com a fraude da criança, com a agenda do outro filho, se a empregada vai ou não vai, se o ônibus vai chegar na hora, ou responder ainda no meio disso tudo, o cuidado com os pais e com se o condomínio, a fechadura está funcionando ou por aí vai. E ser uma profissional bem sucedida. E ser uma profissional bem sucedida, como comecei falando, não é só por conta, aliás, não é por elementos genéticos, é porque elas são treinadas a isso. Agora, o fato de elas serem treinadas,

diminuir esse tempo da tomada de decisão, de passagem de uma atividade para outra, não tira delas a exaustão. Como eu reforcei aqui no comentário, tem um custo, um custo calórico, um custo mental, um custo social, um custo físico enorme, que acomete as mulheres com muito mais frequência do que os homens, porque eles podem, ou têm o tempo, ou a liberdade, ou o privilégio de fazer uma coisa de cada vez. Então, se o mundo está querendo que todo mundo faça tudo ao mesmo tempo,

tarefas aí pra todo mundo ficar exausto junto. Mais ou menos do mesmo jeito. A despeito da sobrecarga ser diferente, o custo é parecido entre os gêneros? É, o custo, é o custo da exaustão, né? Agora, eu diria que não é parecido por uma questão simples, né? Se, no caso dos homens, a exaustão ou o descanso se coloca muito mais como uma possibilidade, né? Então, o fulano tá cansado, ele vai dormir mais cedo, a família se organiza pra tentar deixar o papai dormir. Ela anda devagar, o outro,

anda com meia no pé para não fazer barulho, por aí vai, as mulheres não é dada essa opção. Cansadas ou não, elas têm que continuar na multitarefa. Então, no final dessa conta, como você colocou muito bem, a gente tem aí um preço que não é dividido de forma igual entre esses dois gêneros. Então, o jogo aqui, que eu acho que precisa ficar claro, é que as mulheres não são multitarefas

elas são dotadas de um conjunto de genes que os colocam nessa posição. Ao contrário, a gente dá pra elas um lugar e uma posição social que não tira, que não dá pra elas a chance de sair desse lugar. Eu peço desculpas pelo barulho que passou aqui uma creche atrás de mim, aquelas turmas de escola com 40 crianças atrás. Não deu pra ouvir. Isso é multitarefa. Isso é, olhar 40 crianças ao mesmo tempo. Ô Michel. Eu tô no Harlem aqui em Nova York e aí

você sabe que agora tá na hora, né? Você sabe bem. Tá na hora que as crianças saem da escola. E aí eu parei aqui num quarteirão, tava calmo, mas o mundo de criança tá saindo agora. Legal. Pra gente se despedir, como é que a gente sai dessa, hein, Michel? Porque tá bom, eu já entendi quais são os problemas. Como é que a gente se livra deles? Não, há um elemento importante que até os pesquisadores dessa pesquisa colocam, que é a ideia da necessidade da gente identificar ou inventar momentos de pausa

cotidiana pra tentar respirar diante do caos. Então, o primeiro ponto é esse, individualmente, se tiver muito cansado, porque tá fazendo tudo ao mesmo tempo, pare e respira, que é a solução. Agora, socialmente, é a gente pensar, né, como é que podemos encontrar momentos de pausa e respiro numa vida que tem cobrado cada vez mais ação, faz, faz, presta atenção, como é que você não viu, e por aí vai. Só pra gente se despedir, quem vai, quem vai devagar,

primeiro. Sabia? Devagar também é pressa, né? Devagar também é pressa. Devagar também é ir, né? Tem um ouvinte aqui falando, e o fim da escala seis por um, hein? Seria muito melhor pra diminuir essa exaustão, hein? Assunto pra outro dia. Esse aí eu não vou me meter, não. Nós vamos perguntar. Você não perde por esperar, queridinho. Um beijo, obrigada por hoje. Até quinta. Um beijo, até quinta. Tchau, tchau.