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Sentimos ‘saudade’ ou ‘saudades’?

24 de março de 202610min
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Professor Pasquale responde à dúvida do ouvinte quanto ao uso do plural para substantivos abstratos. Ele explica que tanto ‘saudade’ quanto ‘saudades’ são formas corretas e aceitas, e ilustra seu ponto com exemplos musicais. Ouça.

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Assuntos4
  • Plural de 'saudade'Substantivos abstratos no plural · Saudade vs saudades · Reconhecimento em dicionários · Formas corretas de uso · Comparação com ciúmes e felicidades
  • Música Cristã BrasileiraDorival Caymmi 1957 · Roberto Carlos e Erasmo Carlos 1971 · Tom Jobim 1976 · Análise de plural nas letras · Exemplos musicais de uso
  • Posição do possessivo e significadoMinhas saudades vs saudades minhas · Mudança de sentido conforme ordem · Possessivo antes vs depois · Casos na língua portuguesa
  • Crítica de pleonasmo em 'Detalhes'Verso 'ronco barulhento' · José Fernandes como crítico · Debate sobre redundância · Defesa da expressão
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A nossa língua de todo dia. Com o professor Pasquale. Professor, boa tarde. Boa tarde, Tatiana, querida. Boa tarde, ouvintes. Fernando não tá aí, não. Foi ver o mundo, foi ver o mundo. Fugiu. Foi ver o mundo. Fugiu. Quando ele foge, a gente acha, fugiu, porque agora ele, sei lá, tá tomando uma cerveja. Não, tá indo lá falar de guerra. Vamos aqui com a nossa dúvida do Terence Veras. Você quer falar alguma coisa e observar minha pronúncia a respeito do nome, não?

mandei o e-mail pra vocês, eu pus Terence. Sem acento nenhum. Depois eu vi que ele pôs acento no nome dele. Um acento agudo no primeiro. É por isso que eu fiz uma observação aí. Notem o acento. Porque ele fez questão de pôr lá que é pra gente ler Terence. Então pronto, tá aí. Muito bem. A dúvida dele é muito básica. Básica no sentido de muito direto a pergunta.

Eu sinto saudade ou eu sinto saudades? É exatamente assim que ele põe aqui a coisa. Serei reto e direto, diz ele. Afinal, professor, eu sinto saudade ou saudades? Sinta o que você quiser, Terence, querido. Você pode sentir as duas coisas, não há problema algum. E por que o nosso ouvinte faz essa pergunta? Porque durante muito tempo e ainda hoje, alguns chatos de plantão

tentam uma história assim, ah não, é substantivo abstrato, substantivo abstrato não tem plural, não sei o que e tal, e fica essa coisa, não pode. O que não pode? A gente não diz os ciúmes, né? Claro que diz. Eu implico. Muita gente diz o, como? Eu implico com o plural. Você não gosta? É, não me soa bem. É, mas é possível, né? O que não dá é o ciúmes, aí não dá. Aí não dá, porque fica errado mesmo a concordância.

felicidades, muitas felicidades para você. Então, a gente põe determinados substantivos abstratos no plural. E é o caso de saudade, que se usa tanto no singular quanto no plural. Os dicionários, felizmente, reconhecem isso, registram isso, abonam isso. Todos eles dizem que se usa no singular e no plural.

Dorival Caymmi compôs e gravou mais de uma vez, a primeira vez em 1957. E a gente vai ouvir essa gravação, um trechinho, só o comecinho, de uma canção que o Brasil inteiro conhece, creio. Vamos lá.

Que saudade dentro do meu peito. Ai, que saudade eu tenho da Bahia. Tenho muita saudade da Bahia. Faz tempo que não vou lá. Depois que meu querido irmão, amigo Jorge Portugal se foi em 2020,

eu nunca mais tive coragem de ir para a Bahia. Tati, você viu que ele diz saudade duas vezes, logo no começo e depois diz saudade de novo e ele poderia ter dito estas saudades dentro do meu peito e por aí vai. Agora, eu vou matar dois coelhos com a mesma cajadada, como se diz por aí, a respeito do plural, do uso do plural, com o clássico da música brasileira,

o rei Roberto Carlos vai cantar para a gente um trecho da antológica canção Detalhes, composta por ele, Roberto, e por Erasmo Carlos, disco de 71. Veja o que acontece aí, é um caso muito interessante. Vamos lá.

O ronco barulhento do seu carro, a velha calça desbotada, ou coisa assim, imediatamente você vai lembrar de mim. Robertão já gosta mais do plural. É, Roberto e Erasmo. Você se lembra do José Fernandes, do programa do Silvio Santos, fazia parte do corpo de jurados? Não, não. Lembra? Não lembro.

Ele não ria de jeito nenhum e ele dava nota baixa para todo mundo. Não era o Pedro de Lara, esse? Esse também, mas antes do Pedro de Lara, o Zé Fernandes. Antes, acho que não vai dar para mim, professor. Antes do Pedro de Lara, eu precisaria consultar meus antepassados. Ele é de antes, antes do seu nascimento, em 78. Então, ele um dia falou dessa música e disse que não poderia dar nota alta para essa música,

por causa do trecho o ronco barulhento do seu carro. Existe ronco que não é barulhento? Isso é pleonasmo e tal. Ei, Zé Fernandes, falando bobagem. Claro que a gente pode dizer o ronco barulhento do carro para ressaltar e tal, mas a questão é outra. Se um outro cabeludo aparecer na sua rua e isto lhe trouxer saudades minhas, a culpa é sua. Bom, além da opção pelo plural, existe uma questão aí interessante.

que é esse negócio de minhas saudades e saudades minhas. Tuas saudades, saudades tuas. Quando nesse tipo de construção a gente põe o possessivo na frente e isso trouxer minhas saudades, são as saudades que eu sinto. Mas isso lhe trouxer saudades minhas, o minhas, o possessivo posto depois, são as saudades que você sente de mim.

muito interessante da língua portuguesa e que vale a pena notar, observar. Certo? No caso aí da letra do Roberto e do Erasmo, e isso lhe trouxer saudades minhas, e isso lhe trouxer saudades de mim. É esse o sentido. E para ir embora, eu vou colocar um clássico maravilhoso da música brasileira, um clássico, o relógio está quase batendo. Vão soltar a música, eu não vou dizer nada, depois eu digo muito rápido.

Rapidamente. Vamos lá. Um milhão de vezes e me arrepio toda vez que ouço essa música. Não tem letra. É de Tom Jobim. A melodia, a orquestra aí regida por Klaus Ogerman. Tá no disco Urubu, de 76. E o nome dessa música, sabe qual é, Tati, querida? É. O nome dessa música é Saudade do Brasil. É bonita demais, né? Lindeza, lindeza. Saudade. Viva Tom Jobim. É, saudade do Brasil.

colocou na música. Um arranjo lindíssimo, uma orquestra lindíssima. O disco Urubu é pra ser ouvido de joelhos. Vamos lá que acabou meu tempo. Beijo pra vocês. Até amanhã. Beijo, professor. Até amanhã.

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