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A ciência da gratidão: o que se sabe sobre a ‘receita da felicidade’?

25 de março de 202615min
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Álvaro Machado Dias destrincha o sentimento de gratidão. Livros, aplicativos e redes sociais nos dizem para praticá-la todos os dias como receita de felicidade. Mas o que a ciência realmente sabe sobre quando a gratidão funciona, quando ela falha e o que a ingratidão pode revelar de surpreendente sobre quem somos? Ouça o comentário.

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Participantes neste episódio2
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Álvaro Machado Dias

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Maria Cristina Fernandes

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Assuntos1
  • Gratidão e Bem-EstarEfeitos da gratidão na felicidade · Gratidão e saúde mental · Gratidão como obrigação · Gratidão e relações sociais · Manipulação através da gratidão
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Visões do Futuro, com Álvaro Machado Dias. Oi, Álvaro, boa tarde. Boa tarde.

A gente vai falar hoje sobre gratidão. Gratidão que virou uma espécie de mandamento universal dos nossos tempos, usado até para agradecimento, né, Álvaro? Livros, aplicativos, redes sociais, ficam lá martelando que a gente tem que praticar gratidão como receita de felicidade todos os dias.

Aqui a gente vai recorrer à ciência para entender como é que, ou quando é que a gratidão de fato funciona, quando ela falha e o que é que ela pode revelar de surpreendente sobre nós. Todo mundo, e eu tenho a impressão, não sei se você vai abordar isso, Álvaro, mas que a gratidão pode escamotear algo bastante perigoso. Mas vamos lá, vamos um passo por vez.

Todo mundo diz, ou pelo menos a gente está cansado de ouvir, que a gratidão faz bem. Que pessoas gratas são mais felizes. Isso é verdade ou virou mais um dogma replicado incessantemente nas redes sociais e que a gente passou a acreditar por osmose? Eu vou responder, mas depois eu queria muito te escutar, tá? Sobre gratidão, sua tese sobre o que está sendo escamoteado. Acho que é muito importante. Olha só, existe base empírica sim.

A questão é que ela é mais restrita do que o discurso popular sugere. Tem um cara que é o mais importante estudioso nesse campo, que se chama Robert Immons, que eu estudei na última semana, retomei os artigos para esse papo de hoje, e ele conduziu um estudo que achei muito bacana. Ele simplesmente ficou registrando numa amostra gigante de pessoas.

quando elas anotavam que elas tinham motivos para gratidão. E para você anotar isso, na prática você está, enfim, acessando na sua mente experiências de gratidão, mesmo que naquele momento elas tenham sido atropeladas pela correria do dia a dia. E o sujeito fez isso por 10 semanas. O que acontece? No final ele viu que, aplicando escalas de bem-estar, as pessoas que reportavam mais gratidão...

Elas estavam se sentindo melhor. Então, esse mito tem um fundo de verdade, sim. E o estudo foi replicado de outras maneiras. Muita gente fala, poxa, quando eu me sinto mais grato, mais grata, pelas coisas boas e também pela minha própria existência, eu me sinto muito mais tranquilo ou tranquila. É como se a gente estivesse fazendo as pazes com a vida. Isso é super legal e eu acho que não pode ser perdido de forma alguma. Mas como eu estou sempre aqui...

para puxar o coro dos contrários, mostrar uma visão nova ou no mínimo mais multifacetada das coisas, para a gente aprofundar entendimentos, eu acho que vale a pena considerar um problema que pouca gente nessa área discute.

É o seguinte, a grande maioria das pessoas precisa mudar, precisa começar a exercer a gratidão, enfim. Não é uma coisa que esteja introjetada em todo mundo. Isso pede uma intervenção, quer dizer, um app que vai te estimular, um livro ao qual você vai voltar, a cadernetinha, ou um profissional, o que quer que seja. E o ponto é que essas intervenções funcionam pior.

justamente para quem precisa mais delas. Ou seja, pessoas com sintomas depressivos, pessoas vivendo situações de sofrimento real, mega estresse. Nesses casos, a gratidão funciona menos. Quer dizer, a gratidão parece que opera, Tati, como um amplificador de um estado que já estava razoavelmente bom. As coisas estão rolando na tua vida?

Nossa, exercer a gratidão por isso dá um boost. Agora, assumir que a gratidão vai ser um antídoto contra a felicidade quando você está para baixo, aí não. Aí eu diria até que é o contrário, entendeu? Você está super mal, as coisas estão dando errado, você ainda tem que se sentir grato ou grata. Parece que você está sendo invalidado nas suas emoções, entende? Então, está aí o lado perigoso da história. Gratidão funciona como coisa boa? Funciona. Desde que tenha motivo para ser grato.

De onde vem a gratidão, Álvaro? Porque ela é algo que a cultura inventou ou ela é um afeto, uma emoção que evolui com alguma função biológica? Essa é uma belíssima pergunta, né? Das mais complicadas de se responder de maneira muito direta. O que a gente pode falar...

é que em todas as sociedades humanas existem ciclos de você dar, você receber, de retribuir. E esses ciclos não são opcionais, eles são parte da infraestrutura mesmo das alianças sociais. Tem um pesquisador, um etnógrafo francês, lá do começo do século passado, muito famoso, chamado Marcel Mons. Muita gente gosta desse sujeito porque ele escreveu coisas incríveis. Eu li um livro há muitos anos chamado Ensaio sobre a Dádiva.

em que ele mostra que justamente a gratidão é o mecanismo de cooperação entre quem não é parentes. Ele serve para manter isso nessa cola social. Então é um sentimento pró-social que ajuda a gente a ter mais harmonia e, consequentemente, mais força societária. Aliás, polarização é o oposto da gratidão. É o sentimento de que aquela pessoa nunca trouxe nada de bom para você. Pelo contrário, ela precisa ser eliminada.

do jogo social. Agora, saindo da cultura, indo para uma coisa mais evolucionária,

existem ideias sobre a gratidão ser uma espécie de um sistema para identificar os bons parceiros sociais e parceiras. Então, por exemplo, eu tenho um cara que está muito famoso hoje em dia, que é o Jonathan Hyde, que fala sobre celulares e tal. E ele tem uma teoria antiga. A geração ansiosa, né? O nome do livro. Isso, isso. Trabalha muito bom. E ele tem um trabalho anterior, uma teoria sobre gratidão. Olha que legal. Sistemas estão todos muito ligados, né?

E na visão dele, a gratidão não é exatamente uma emoção cultural, como o Marcel Mosse diz. Pelo contrário, é uma forma da gente identificar, sem ter que pensar, sem conscientização, quem vale a pena se relacionar na sociedade e assim, consequentemente, estabelecer elas num nível muito mais profundo do que a superficialidade recomenda.

O Álvaro, bichos, animais, eles sentem gratidão quando, sei lá, a gente dá um biscroque pro cachorro e ele abana o rabo? Ou quando o chimpanzé retribui um favor? Isso é Pavlov ou é gratidão? É condicionamento ou é gratidão?

Perfeita pergunta. Olha, Tati, eu vou responder a minha moda, tá? Sim, existe a gratidão, tá? Porque, para pra pensar uma coisa, a nossa gratidão tem especificidades, né? Tem coisas tipicamente humanas, mas ela é baseada nesse senso de reciprocidade, de, né, de, olha, eu entendi, vou lembrar de você, o que você fez foi especial pra mim, e tudo isso existe nas outras espécies.

Então se a gente pegar, por exemplo, primatas, que são os nossos primos próximos, quando um primata compartilha comida com o outro, esse outro retribui depois. E quando ele tem essa oportunidade, ele faz isso, porque não tem vários outros, ele vai dar mais para aquele que foi generoso na primeira vez consigo.

Quer dizer, não tem nada de aleatório aí, tem algo absolutamente preciso. E, aliás, existe uma proporcionalidade. Ele recebeu duas bananas, ele vai dar duas bananas a mais do que ele daria para os outros na média. Morcegos também fazem coisas parecidas, até vampiros. Então, tem o sangue que surge, tem toda uma discussão sobre isso, sobre reciprocidade baseada em sangue. Para os humanos é horrível, né?

e assim por diante. Só que a gente tem que ter cautela em função das especificidades humanas. Então, a gratidão humana envolve a percepção da intenção benéfica.

Essa coisa da intenção benéfica, ela é mais difícil de ser percebida pelas outras espécies, porque intenção é algo que não é visto no comportamento, é algo que a gente assume que está na mente das pessoas. E essa leitura mental chamada teoria da mente, é algo que parece que só humanos têm de maneira plena, alguns outros primatas têm um pouquinho, mas...

Não é nada que esteja aí disponível na natureza para todo mundo. Então, considere que quem está escutando a gente, que o seu cachorro, ele tem a gratidão, ele tem a reciprocidade, mas não assuma que ele tem uma capacidade de ler intenções como você tem, porque isso de fato não acontece. Vamos falar de religião e gratidão, porque as religiões, não sei se todas, mas muitas, colocam a gratidão como um dever.

Dever ser grato a Deus. Gratidão a Deus antes de tudo. Como é que você olha para isso? Esse dever pode ampliar a experiência da gratidão ou transforma a gratidão em outra coisa?

Eu gosto da maneira como você faz as perguntas, porque elas vão ficando cada vez mais complicadas, mas super simples de entender, mas complicadas, porque me botam numa sinuca de bico. Total, né? Eu acho que no fundo, no fundo, transforma em outra coisa, tá bom? Quando a gratidão, ela se torna, não exatamente na minha visão um dever, mas...

um elemento para você participar. Você não pode participar se você acha que você não deve gratidão nenhuma a Deus. Você mudou o sentido da gratidão, porque gratidão justamente deveria ser aquilo que surge momento a momento em função de ações específicas e bem identificadas, não em função de alguma coisa mais generalista, como, por exemplo, o fato de você estar vivo, ter saúde e assim por diante. Isso me faz pensar no Sêneca, o filósofo do século I.

que distinguia essa gratidão espontânea da gratidão como obrigação. Então, acho que é aí a coisa, tá? Religiões monoteístas, né? Então, o catolicismo, as religiões evangélicas, judaísmo.

O islamismo, elas colocam Deus como uma espécie de credor absoluto. Você recebeu a vida, o mundo, e você deve gratidão eterna por isso. O que não necessariamente é ruim, tá? A gente não tem que olhar a gratidão eterna como algo negativo. Pelo contrário, só precisa entender...

que a gratidão aqui tem um sentido diferente da gratidão que a gente está discutindo quando falamos de reciprocidade nas relações sociais, né? Aqui ela funciona muito mais como um enquadramento para você participar, como eu tinha dito. E, em alguns casos, eu acho que aí está a grande questão sensível, ela pode funcionar também como um instrumento de controle. Nem sempre, mas pode. Então, por exemplo, pense no caso da pessoa que sofre uma violência doméstica, ou sei lá, qualquer outra coisa.

E de repente ela é orientada a agradecer a Deus pela família. Ela não está sendo acolhida, né? Ela está sendo disciplinada. Isso hoje em dia é comum, bem menos comum do que já foi. Mas existe um histórico, sim, da gratidão ser usada como uma forma de normalizar situações que não deveriam ser normalizadas.

porque jamais deveriam ser tratadas como parte de uma estrutura aceitável. É nesse ponto que eu acho que a gente tem que ter um pouco de cuidado. De resto, eu não vejo problema nenhum. Muito pelo contrário, eu entendo que existem sistemas que simplesmente fazem um uso multiplicado da gratidão.

Eu queria me estender, Álvaro, nesse ponto que você traz do risco, porque é aí que a gente concorda. E você falou que você queria me ouvir sobre qual é a minha crítica em relação à gratidão, mas são três e meia. Então, eu vou pedir para você ser breve, porque eu tenho a impressão de que a gratidão pode nos colocar em dívidas.

Dívida de gratidão. Ah, eu preciso ser grato, grata àquela pessoa e tal. E essas dívidas de gratidão podem nos aprisionar, podem nos colocar em situações muito ruins, muito violentas, quando a gratidão talvez é usada para nos manipular, né? E aí a gente vai se encaminhando para o fim. Quero te ouvir.

Você foi maravilhosa nessa, eu concordo totalmente. Vamos fechar nesse assunto sim. Eu acho que é o seguinte, quando a gente faz algo por alguém, já na expectativa de que haja gratidão, a gente está na prática instalando ali naquela relação uma simetria de poder intencional, por querer.

Isso daí moralmente é controverso, né? E aliás, eu acho que as pessoas percebem isso, tá? Então imagina que você recebeu um favor não solicitado. O seu sentimento é de gratidão ou será que ele é mais de desconforto, de obrigação, de uma coisa que, poxa, podia ter passado sem essa? O meu quase sempre vai nessa segunda direção, tá? E eu acho que quanto maior o presente, maior a prisão. A minha sensação é não me dê nada.

nem puxe meu saco, não faça nada disso, porque tudo isso vai criar uma situação desconfortável, que é pior na relação. Eu acho que, enfim, existe um senso de endividamento social, esse é o grande negócio, que no final das contas está associado à percepção de potencial manipulação. E aí eu acho que a gente tem que olhar, para fechar essa história, o seguinte, quando a gratidão...

ela efetivamente emerge de uma relação genuína e ela faz você louvar algo de positivo na tua vida, ela é bem-vinda. Quando a gratidão é um mecanismo de aprisionamento ou manipulação, ela pode ser perfeitamente rechaçada e ser ingrato nessas horas nem é assim uma má ideia.

Eu gostaria de deixar aqui a sugestão que você aceita, se você quiser, obviamente, mas de repente a gente pode falar um pouco mais longamente sobre ingratidão a partir desta conversa sobre gratidão na semana que vem. O maior prazer do mundo. Acho que vai ser bom. Obrigada, Álvaro. Um beijão para você. Beijo e até lá.

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