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O peso prático da maternidade solo no mercado de trabalho brasileiro

27 de março de 20267min
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No Brasil, mais de 10,9 milhões de mulheres criam seus filhos sozinhas e são responsáveis pelo sustento de seus lares. Elas ganham, em média, quase 40% menos do que pais com cônjuge, enfrentam maior precariedade no trabalho e acumulam jornadas ampliadas de cuidado. Em um país onde as mulheres já são maioria na chefia dos domicílios, entender o peso prático da maternidade solo é compreender uma transformação estrutural que desafia o mercado e as políticas públicas.

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Participantes neste episódio1
M

Maria Cristina Fernandes

HostEspecialista
Assuntos1
  • Conciliação carreira e maternidadeDesigualdade salarial · Precariedade no trabalho · Seguridade social · Geração sanduíche
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Pra Onde Vamos, com Michel Alcoforado.

Ah, para o pessoal começar a se acostumar, né, Michel Conforado? Boa tarde. Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Boa tarde, Michel. Ontem não teve Michel, mas hoje tem. Ele vai falar sobre maternidade. Mas maternidade é muita coisa, né? Peso da maternidade solo no mercado de trabalho brasileiro. Conta tudo. É. Então, eu estou aqui na Universidade de Harvard e a gente está discutindo a besta.

nesse congresso que acontece todos os anos, que é o Brasil Conference, sobre as múltiplas desigualdades. E uma delas que mais tem atravessado a sociedade brasileira é a onipresença das mães solo. Para começo de conversa, para ficar claro, mãe sobrecarregada, que o marido não ajuda, ou mãe separada, que o marido só pega no final de semana.

E essas moças cunham, ou tentam disputar o conceito de mãe solo, que a gente vai falar que hoje é mãe solo, mãe solo mesmo. O que é isso? São mães que moram com os filhos, só elas e os filhos, numa única residência. E elas são as únicas responsáveis financeiramente, afetivamente, materialmente.

pelo sustento dessas crianças, tá? Essa pesquisa, que eu vou tentar trazer os detalhes aqui hoje, foi produzida pela Mariana Ramos. Ela fez um mestrado muito interessante no IPEA, que é um órgão público, né? Preocupado em entender os membros da sociedade brasileira e pra onde a gente tá indo e pra onde a gente quer ir.

E essa pesquisa que a Mariana fez, ela é uma jovem que sai de Tocantins, cresce em Brasília, rodeada de mães solos, e ela começou a observar ao longo da formação dela como o fato dos seus amigos serem criados por mães sozinhas impactavam fortemente na vida deles, mas na vida dessas mães também.

E o dado que ela traz é muito interessante, que pela primeira vez, a maior parte dos lares que são chefiados por uma única pessoa, pai ou mãe, as mulheres ganham uma preponderância nisso. São quase 11 milhões de domicílios.

que são chefiados por mães sozinhas no Brasil. E esse dado é importante porque ele revela que quase 52% desses lares chefiados por essas mães são atravessados por questões que a gente não imaginava antes. Questões financeiras, questões de perspectiva de trabalho, mas também questões relacionadas à seguridade social.

O primeiro dado que eu fiquei muito chocado é que as mães solo, essas mães que lideram a casa sozinhas, elas, em geral, ganham 40% menos do que homens, do que pais que são casados ou vivem aqui naquele modelo de família mais tradicional.

mas elas também ganham 12% a menos do que mães que estão casadas e vivem esse modelo de família mais tradicional. Então, o fato do peso do gênero já ser um agravante muito sério na vida profissional das mulheres no Brasil, quando elas são obrigadas a liderar suas famílias sozinhas, isso se agrava ainda mais.

Mas ela traz outros dados ainda que me chocaram a beça. Um outro deles é em relação à Seguridade Social. Essas mulheres, como são obrigadas a cair no mercado informal, elas não estão vinculadas aos meios tradicionais de seguridade. Então elas não pagam aquela contribuição para o INSS, e por conta disso a aposentadoria delas vai ficar mais dificultosa.

também elas não têm uma cobertura muito ampla, que permite que elas tenham alguma segurança. E isso impacta profundamente não só a vida profissional delas, mas também a dinâmica dessas famílias, que são jogadas de forma muito forte dentro do mundo da precariedade.

E aí, a questão aqui, que eu acho que é o principal elemento que a gente não pode deixar de lado, é como é que o fato de ser obrigado a liderar uma família sozinha tira essas mulheres de um campo de escolhas maiores do que outros indivíduos na sociedade brasileira têm? Mas isso também impacta nas coisas mais comezinhas. Impacta no salário, impacta no futuro, impacta na educação dessas crianças, impacta no mundo de uma forma geral.

Então, os homens precisam assumir suas responsabilidades quando fazem seus filhos, ou quando se tornam pais.

E também se, por um caso ou outro, esse modelo de família se romper dos modos mais tradicionais, eles precisam se responsabilizar pelas crianças. Porque quando cai no colo dessas mulheres, não são elas só as mais penalizadas, não são só essas crianças que são mais penalizadas, mas a sociedade brasileira como um todo.

Michel, tem um outro agravante em muitos casos que a mulher volta para casa, cuida dos filhos e cuida de alguém da família idoso. Então era uma jornada dupla que fica tripla. Tripla, tripla. A gente já falou disso aqui em outros comentários, que é o que a gente chama de geração sanduíche. Isso é muito comum e isso é infinitamente mais agravado quando a gente está falando desse tipo de parentalidade.

E é interessante que, às vezes, esse trabalho extra precisa ser uma solução possível, porque os mais velhos também têm um papel importantíssimo na gestão do orçamento familiar nas famílias de baixa renda no Brasil. Aquela avó que conseguiu uma aposentadoria por tempo de contribuição, ou por idade, ou porque fazia um trabalho na agricultura familiar, e aí foi aposentada mais cedo, e tem alguma renda fixa.

Ela compõe esses lares familiares, boa parte das vezes, mas também elas demandam cuidado que o processo de envelhecimento cobrará de todos nós. E aí essas mulheres ficam hiper, ultra, mega sobrecarregadas. E o ponto interessante, Fernando, é que não é uma questão só de um peso individual. É um peso para a sociedade brasileira. E isso que a pesquisa da Mariana Ramos mostra.

Se boa parte dos lares brasileiros já são se fiados por mulheres sozinhas, é o rumo da sociedade brasileira que está em risco. Então, a gente precisa pensar sobre isso. Muito bem. Michel, confurado conosco às terças e quintas regularmente em Pra Onde Vamos. Obrigada, Michel. Um beijo para você e até a próxima. Um beijo. Tchau, tchau. Tchau, Michel.

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