Qual é o certo?: 'muito boa vontade' ou 'muita boa vontade'; entenda
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Professor Pasquale Caminha
Maria Cristina Fernandes
- Diferenciação de termosUnidade semântica · Boa vontade · Hífen em expressões
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A nossa língua de todo dia, com o professor Pasquale. Não perca a hora, professor Pasquale está aqui mais cedo, são 3h38. Boa tarde, professor.
Eu morro de rir com essas coisas. Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando.
Boa tarde, ouvintes. O senhor bem sabe que rádio é hábito, né? Então o pessoal está no carro agora, acostumado a ouvir essa hora, o quê? Uma entrevista? Ou a nossa reportagem? Ou o pessoal que está no carro às quatro da tarde, acostumado a ouvir o professor Pasquale? Quando entra fora da ordem, dá uma desajeitada na vida dos nossos ouvintes. Então precisamos tratar isso com zelo, não professor?
Exatamente. Mais tarde eu certamente vou receber mensagem. O senhor não entrou no ar hoje? É, então. Rádio é hábito. Muito bem. Professor Ismael Ribeiro da Silva escreve, pergunta, qual frase está correta? Fulano tem muito boa vontade ou fulano tem muita boa vontade?
A pergunta é boa demais e mostra uma questão interessante em relação à grafia. Boa vontade é uma expressão consagrada que constitui uma unidade semântica, aquilo que a gente chama de unidade semântica, como boa fé.
por exemplo, não só, mas também. E você vai ao dicionário, você está com ele aberto aí, Fernando? Vou abrir agora, vamos lá. Então, você pode procurar boa-fé com hífen, boa-fé, e você vai encontrar. O seu depoimento garante a lisura do que eu estou dizendo. Boa-fé, sim.
Está com hífen, né? Está aqui. Agora, se você escrever boa vontade com hífen, você não vai achar. O dicionário vai dizer outra coisa. Ele vai dizer, está aí embaixo, separado. Leia para mim o que ele diz embaixo da palavra resultados. Boa vontade separado, uma locução de vontade. É, e aí se você clicar aí, você vai ver vontade. Vontade, é. Aí você...
Clica, por favor, em lock, que é a locução. Vai lá para baixo. Pode ir. Quase no fim. Está escrito o quê? Depois de a vontade. Boa vontade. Depois de? A vontade? Tem a vontade. Sem constrangimento. Também tem boa vontade. A outra entrada. Depois de a vontade. Com vontade? Boa.
Em negrito, destacado em negrito. Boa vontade, com vontade, contra vontade ou contra vontade, má vontade, tudo isso. Boa vontade está escrito como aí, Fernando, querido? Em duas palavras separadas. Agora, tanto boa fé quanto boa vontade constituem aquilo que a gente chama de unidade semântica. O que justificaria o hífen? Hífen que...
Ninguém dá, com exceção do professor Luft, Celso Luft, no excelente livro dele, ABC da Norma Culta. O professor Celso Luft era uma autoridade respeitadíssima, e ele no verbete Boa Vontade explica muito bem essa questão, e eu estou com ele. Eu grafaria Boa Vontade com hífen justamente pela questão da unidade semântica. E isso...
Fica claro quando a gente vê a resposta à mensagem do nosso ouvinte, que quer saber se é muito boa vontade ou muita boa vontade. Vamos primeiro perguntar para dois compositores brasileiros, Silvio Son e Roberto Correa, que compuseram uma canção chamada Faca de Ponta.
que a gente vai ouvir com a queridíssima Alcione, isso está no disco dela, chamado Gostoso Veneno, de 1979. Vocês eram dois bebês. E a Alcione canta, meu Deus do céu, ela já entra com tudo. Vamos ouvir e ver o que ela diz aí nessa expressão. Vamos lá.
Não sou de perdoar, vou partir pra outra você se quiser, que aguente a mão. Com muita boa vontade, eu lhe passo os papéis da saudade, e lhe deixo as lembranças que sempre vão subir de cotação.
Pois é, você viu, vocês viram, ela entra com tudo, né? Ela tem uma voz que, ela entra com o chamado pé na porta, impressionante. Não sou de perdoar, vou partir para outra, você se quiser que aguente a mão com muita boa vontade. Fernando, você comeu uma torta, a torta estava boa ou muito boa? Muito boa.
Muito boa, né? Quando a gente modifica um adjetivo como boa, a gente vai dizer que a torta é muito boa, a comida é muito gostosa, né? É muito. Adverbe que não varia. E por que que os compositores escreveram muita boa vontade e a Alcione seguiu o que eles escreveram? E isso está correto.
Muita boa vontade. Porque não se modifica aí o boa. É a unidade semântica boa vontade, criada justamente como boa-fé. É uma palavra feminina, um substantivo feminino, com muita dor, com muita alegria, com muita boa vontade. Então, a resposta ao nosso ouvinte é...
Muita, com muita boa vontade. Não se trata de modificador da palavra boa, só, isolada, que seria muito boa. E sim da unidade semântica boa vontade. Prevalece o substantivo vontade feminino com muita boa vontade. Como é que está o nosso tempo? Jana. Está tranquilo, vamos lá. Então vamos para o segundo auxílio para mostrar uma coisa que tem a ver com o assunto.
É uma canção escrita por duas criaturas lindíssimas que já estão no céu, a Sueli Costa, que fez a melodia, e o Tite de Lemos, que escreveu a letra.
A música se chama Medo de Amar, número 2. Está no disco Vida de Artista, de 78. Vocês veem que eu gosto de coisa velha, né? De coisa grande. Quer dizer, não estou chamando vocês de velhos. Sei, sei. Aliás, por falar em velho, hoje a minha filha mais velha faz 50 aninhos. É mole ou quer mais? Maravilha. Viva! Tem festa hoje, hein? Vamos lá.
Então, Medo de Amar, número 2, de Sueli Costa e Tite de Lemos, com Sueli Costa. Prestem atenção que vai haver uma coisa que tem a ver com o nosso assunto. Vamos lá. Você me deixa um pouco toda...
Assim, meio maluca, quando me conta Essas tolices e segredos E me beija na testa E me morde na boca E me lambe na nuca
Você me deixa surda e cega, você me desgoverna quando me pega. Assim nos chambos e na cena... É tela quente, né?
tela quentíssima o Tite estava inspirado quando escreveu a letra você me deixa um pouco tonta assim meio maluca é só para lembrar que quando a gente modifica adjetivo como maluca assim meio maluca
O advérbio meio não varia, meio tonta, um pouco tonta, meio cansada, meio estressada, só lembrar que é muito estressada, a gente não modifica o advérbio que vai modificar o adjetivo. Então, meio cansada, muito cansada, meio chateada, muito chateada.
É esse o caso. Naquele caso da muita boa vontade, nós temos a modificação da unidade semântica boa vontade, que pelo professor Celso Luft e por mim seria com hífen, os dicionários não entram nessa, não concordam.
E nós temos, então, muita boa vontade modificando esse muita, modificando a unidade semântica feminina substantiva boa vontade. É isso. Muito bem. Se você tem dúvidas sobre a língua portuguesa, quer escrever para o professor Pasquale, mande seu e-mail para anossalíngua, tudo junto sem acento, arroba cbn.com.br. anossalíngua, arroba cbn.com.br. Obrigada, professor. Um beijo. Bom fim de semana.
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