"Caderno Proibido": a obra surpreendentemente atual
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José Godói
Maria Cristina Fernandes
- Lei catarinense de proibição de cotasAlba de Céspedes · Libertação feminina · Identidade e domesticidade · Literatura italiana · Redescoberta de autoras
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Clube do Livro CBN, com José Bodói. Oi, Zé, boa tarde. Oi, Tati, boa tarde. Boa tarde, Fernando. Boa tarde, Josobiti. Boa tarde, Zé. Eita, Zé. Eita, Zé. Fala. Não sei, cara. Está tudo bem? Está mexendo em alguma coisa?
Não, mexeu aqui do lado, aqui, um vento. É, bateu um vento mesmo, segura aí. Bom, vamos lá. Hoje o Zé fala sobre o livro do mês. Esse é o Lígia, na Inabarros Leu, está lá na nossa pilha de favoritos. Caderno proibido de Alba de Céspedes. Bom, vocês fiquem à vontade aí a participar com um olhar de... Fernando jogou o microfone, ele jogou o microfone.
Já temos duas leitoras aí, tá bom, né? Duas leitoras do mesmo livro no estúdio, tá maravilhoso. 50%, tá joia.
Pô, tá maravilhoso. Se a gente tivesse essas médias no país inteiro, tava feito, né? Nossa, mudava o país. Tati, bom, vou falar aqui alguns aspectos da obra dela, né? A obra de Céspedes, Caderno Proibido. Esse é um livro dos anos 50, mais especificamente 52. Ele apareceu primeiro como fragmento de uma revista feminina. Depois foi coligido, compilado com uma edição de livro, no comecinho dos anos 50, na Itália.
O livro virou um fenômeno internacional naquele momento, mas como muitas autoras mulheres, como a gente sabe, com o passar das décadas, essas autoras não se tornaram canônicas, no sentido da universidade, do jornalismo, da sociedade, valorizá-las o suficiente, elas desaparecem.
Só que agora, mais recentemente, a gente está tendo um resgate, e acho que a Alba de Céspedes é um dos grandes nomes desse resgate de autoras importantes de outros períodos. Ela é italiana.
O livro teve uma edição no Brasil nos anos 60 da civilização brasileira, e ficou aí praticamente 60 anos sem ter uma nova edição no Brasil, até a Companhia das Letras, aproveitando esse boom de redescoberta da obra da Alba, reeditou o livro em 2022, e o livro é um fenômeno recente aqui no Brasil, com várias reedições e com muitas leitoras. Muita gente me escreveu depois que eu anunciei aqui, contando um pouco da experiência, outras perguntando por que só agora.
E essas perguntas que a gente, às vezes, não consegue responder direito, porque com um livro tão bom ficou tanto tempo sem circular. O livro é um, obviamente, esse caderno proibido é um caderno que existe mesmo, é o começo do livro. A gente acompanha a história da Valéria, da Valéria Cossati, uma mulher de classe média, de 40 e poucos anos, em Roma.
Essa é a Roma imediatamente após o final da guerra, comecinho dos anos 50. Ou seja, a gente vai ter muito essa atmosfera de uma sociedade empobrecida que está começando a se recuperar. E essa família de classe média, da qual a Valéria é o grande personagem, é uma família que foi muito impactada por essa...
pelas mudanças econômicas que a guerra trouxe. A Valéria vai no final de semana comprar cigala para o marido numa tabacaria, vê lá um caderno preto, o vendedor não quer vender porque não pode vender no domingo esse caderno, uma daquelas leis bizarras que a gente tem nos países, e ela compra esse caderno meio às escondidas, leva para casa, e a partir disso começa a fazer um diário seu, íntimo do seu dia a dia, e contando o seu dia a dia.
E esse pequeno ato de transgressão, essa compra e esse início desse diário, vai mudar completamente a vida que ela tem. Acho que é um livro que vai mostrar muito a importância da escrita, desse diálogo íntimo que a escrita nos possibilita, tanto para quem escreve como para quem lê.
A gente vai falar muito sobre... Aí tem uma série de elementos que a história vai revelar Sobre a invisibilidade da mulher, invisibilidade doméstica A questão de como você não conhece as pessoas mais próximas a você Porque a todo momento ela está ali Refletindo sobre as relações que ela tem com o marido e com os dois filhos E entendendo o quanto cada um... O quanto eles ainda são estranhos para ela em muitos aspectos É só...
Você tem a questão, que acho que vai ser um dos grandes pontos desse romance, que é a questão de como o patercado não apenas oprime externamente a mulher, mas, de certa forma, ele coloniza a mente da mulher. Faz que a mulher tenha culpa até do que ela pensa. E o diário é muito sobre isso. Até do que ela não fez.
O que ela não fez, o que ela pensou, e o diário acaba sendo, porque a todo momento ela tem uma... O diário, ao mesmo tempo que ele é libertador no sentido da escrita, ele vira uma angústia contínua, né? Porque ela esconde que ela está escrevendo esse diário da família, e ela fica toda hora preocupada onde guardar o diário para que ele não seja descoberto.
E o quanto aquilo que ela vai colocando ali é revelador das dificuldades de expressão dessa mulher, de falar exatamente o que pensa, o que sente. Ela não tem nenhum lugar para guardar esse caderno, a Janaína está lembrando aqui, né? Ela não tem uma gaveta dela, um armário dela onde ela possa guardar esse caderno.
Não, ela fica mudando o tempo inteiro dos lugares dentro da casa. É uma coisa muito angustiante para ela. Ela escreve quando todo mundo vai dormir, aí fica preocupada se alguém vai abrir a porta, se vai chegar na rua. Ela tem que criar vários subterfúgios para poder ter esse momento.
É um livro que eu acho que ele é muito antecipador nessa questão da discussão sobre a maternidade também, os papéis que a mulher desempenha dentro de uma família. Eu estava ouvindo agora vocês aí falando da questão da Sabesp em São Paulo, e a maior parte das sonoras que a gente ouvia eram de entrevistadas falando de problemas maiores para as mulheres, que trabalhavam o dia inteiro e voltavam para casa e ainda tinham que cozinhar.
E aí a água estava ruim, atrapalhava todo o trâmite doméstico. Isso só mostra como um livro como esse ainda é necessário hoje em dia. Desde os primórdios até hoje em dia. Até hoje, em 2026, a sociedade brasileira é a mulher que trabalha fora e volta para casa e ainda tem que cuidar de toda a casa, colocar comida na mesa e servir aos filhos e maridos e afins. Então é um livro que a todo momento está tocando nisso.
Tem uma coisa também meio infantilizada da relação dela com o marido, né? O marido que chama ela de mamãe, né? É um casamento de mais de 20 anos. Os filhos também a veem de uma forma meio infantilizada, como se ela não tiver... A filha, olha ela como se fosse uma velha, né? Ela tem 43 anos no nível. Porque é uma mulher que não existe para além do papel de mãe, né? Ninguém consegue vê-la como uma mulher desejante, que tem direitos, que tem gostos, que pensa, né?
Exatamente, isso a todo momento vai aparecendo, tem uma relação ali muito de visibilidade mesmo, os filhos não enxergam essa mãe e o marido também não enxerga mais a mulher como alguém dos papéis que ela desempenha. Tem uma questão muito forte da vergonha social também, porque a filha começa a ter uma relação, a filha aspira a uma vida muito diferente da dela e por uma ascensão social e a todo momento ela é...
essa questão aparece, eles se sentem pobres perto das pessoas com quem eles convivem, ao mesmo tempo a Valéria tem uma família dela que tem uma origem nobre, que ficou lá para trás, mas que a todo momento ela tenta resgatar de alguma forma para lidar com essas dinâmicas sociais nas quais ela vive. Então tem muitas questões, acho que são muito atuais, acho que faz um livro...
entender, porque é um livro que durou tanto, é um livro de mais de 70 anos, que é redescoberto e que encontra uma série, uma grande quantidade de leitores ou leitoras hoje, nos dias atuais.
Zé, a Jana está chamando a atenção. Bom, o Fernando ofereceu mesmo o microfone, né, Janaína? Você deveria vir aqui. Mas, enfim, eu estou aqui para te representar. O que a Jana chama a atenção aqui, Zé, para a capa do livro, quem está nos vendo, quem está nos vendo no YouTube, no Globoplay, no site da CBN, pode ver, que é a edição brasileira, o título do livro, vai bem na frente do rosto dessa mulher. Sim, sim, vendo essa cara. Está uma metalinguagem aqui essa imagem, hein?
Tá. É uma coleção, né? Que eles, a Companhia das Letras, não só a Companhia das Letras está publicando a Alba por aqui, a gente tem uma edição agora recente da Bazar do Tempo, mas o outro livro que a Companhia publica, que é na voz dela, é esse mesmo padrão gráfico, né? Com o rosto de uma mulher coberto com o título do livro. Mas muito bem observado, já é isso mesmo. É o moleque que pede a identidade.
E é curioso, essa mulher só consegue escrever quando ela está sozinha. E são muito poucos os momentos em que ela está sozinha. Porque, afinal de contas, ela é uma mulher, mãe de família, que é vista por quase todo mundo do livro. Não vou dar spoiler.
como uma mãe, né? Então, com seus afazeres, com os cuidados da casa, né? Os afazeres da casa, com os cuidados com os filhos, um monte de questõezinhas com cada um dos filhos. E só muito tarde da noite, quando tá todo mundo dormindo, ou quando eventualmente ela tá sozinha em algum momento do dia, é que ela consegue escrever. O que nos leva imediatamente, pelo menos a mim, levou pra Virginia Woolf, não? Sim, sim, muito, com certeza.
Ela não tem o tempo e ela não tem o espaço, né? Ela não tem o espaço dela dentro da casa, que também acho que é uma questão muito ainda presente nas estruturas familiares, né? Uma mulher que não tem um espaço, ela não tem um escritório como o homem mais rico tinha, por exemplo. Ou a sala com a televisão da família, que o pai dominava o controle remoto.
Os ambientes da casa são muito do homem dominando, mesmo o homem ficando fora de casa uma parte do tempo. E a mulher, a não ser a cozinha onde ela está trabalhando, ela não tem o espaço dela. Então ela tem uma dificuldade até de encontrar o espaço para escrever. Ela chega a escrever no banheiro o diário dela, entendeu? Que é uma coisa que tem que ser escondida a todo momento da própria família.
É muito interessante, eu acho, é uma sorte nesse sentido o impacto da Helena Ferrante como fenômeno, porque ela ajudou na redescoberta, no caso específico da Alba, que é uma autora italiana, eu acho que tem muito movimento de uma autora inglesa chamada Giupala Hiri.
que é uma super leitora de literatura italiana e ela fez algumas das introduções das edições em língua inglesa da Alba. É uma daquelas autoras que reapresentam antigas escritoras, entendeu? E eu acho que isso ajudou muito a redescoberta dela para a gente hoje em dia. Legal demais. Outra conclusão a que a gente chega é que Um Teto Todo Seu para escrever só tem...
Quem tem dinheiro pra comprar tempo e poder sentar, ter paz, tranquilidade, silêncio pra escrever. Desde os primórdios até hoje em dia. Zé, faz aquele resumo lindo pro nosso ouvinte do Livro do Mês, por favor.
Bom, tive aqui a participação da Janaína e da Tatiana, me ajudando aqui a comentar o Caderno Proibido, da Alba de Céspedes, autora italiana, a edição mais recente disponível aqui no Brasil da Companhia das Letras. Talvez você consiga aí um exemplar raríssimo da edição dos anos 60 da Civilização Brasileira, que foi a primeira a traduzir para o Brasil. Legal. Obrigada, Zé. Um beijo para você. Até a semana que vem.
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