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Relações hiperconectadas e solidão: comentaristas debatem paradoxo no aniversário do Estúdio CBN

17 de abril de 202624min
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Na edição especial de nove anos do Estúdio CBN, Michel Alcoforado, Carol Tilkian e Rossandro Klinjey se unem para discutir o contraste entre relações hiperconectadas e a epidemia da solidão. Ouça o bate-papo completo.

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Participantes neste episódio3
C

Carol Tchukian

Comentarista
M

Michel Coforado

Comentarista
R

Rossandro Klinjey

ComentaristaPsicólogo
Assuntos1
  • Solidão e ConexõesEpidemia de solidão · Autocobrança e performance · Privacidade e intimidade · Insegurança nas relações · Rituais e sua importância
Transcrição62 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Com a Bruna Santos, nossas comentaristas. Agora, esse juntão dessa meia hora, meus amigos. Eu vou começar, a gente vai começar aos poucos, né? Porque, enfim, mas vai virar um... Pra onde vamos com os nossos amores possíveis? Michel Conforado, Carolina Tchukian, boa tarde, bem-vindos. Parabéns! Parabéns, seus maravilhosos!

Oi, gente. Tô feliz demais de estar aqui, hein? Oi, Michel. Tudo bem? Esse é o Michel Conforado. Como vai, Michel?

Tô bem, um pouco com paz hoje. Por isso, tô até no escritório e voltei. Pra você que no último ano esteve em Marte, nunca ouviu falar do Michel Coforado, é ele aí, ó. Tá aí. Gente, muito obrigada por estar conosco hoje aqui. Tô feliz demais de ter juntado vocês. E a proposta desse nosso juntão é falar um pouco sobre os nossos tempos. E os nossos tempos são...

de hiperconexão e de epidemia de solidão. O doutor Luiz Fernando Corrêa ontem esteve aqui falando sobre solidão como uma questão de saúde pública. E essas duas coisas que eu disse parecem contraditórias. Como é possível que a gente esteja, ou que haja tantas possibilidades da gente estar conectado e se sinta tão sozinho, Carol?

Tati, eu sinto que essa solidão vem muito de uma autocobrança de uma performance, né? Porque mesmo nessa hiperconexão...

existe um super ego gritando, pedindo para a gente ser o amigo interessante, a mulher propositiva, o pai que resolve tudo. Eu acho que tem algo, e a Eve Luz fala muito isso, sobre as nossas intimidades frias, que a gente está o tempo inteiro falando sobre coisas.

mas está criando poucos contextos para os silêncios, para o que realmente importa, para não fazer nada, para não ser produtivo. Acho que está todo mundo no lugar do que eu posso fazer por você. A gente não está se dando tempo para simplesmente estar. E quando a gente está, a gente está hiperconectado aqui na jantinha dos amigos, mas também respondendo a um negócio de trabalho e de olho no booking, porque você precisa reservar algo.

E aí se perde o acaso, o silêncio, a presença que não serve para nada, mas que serve para muito. A gente está com tanto medo de perder tempo que eu sinto que a gente está se perdendo uns dos outros.

Michel, como é que você vê, você fala muito sobre redes sociais e como a gente está imbricado nisso tudo, como é que você vê uma relação hiperconectada com, por exemplo, um casal que se fala o tempo todo e que, inclusive, não é incomum, que um rastreia o outro? Meu Deus.

tem isso, rastreia, compartilha a senha, essa é a nova fase daquele momento que a gente viu nos anos 2000, que era o perfil da dupla, sabe o perfil do canal, vocês lembram daquela no Facebook, não tem mais isso, né graças a Deus, mas o fulano tinha

Então, vamos, por favor, respeitar as minorias. Se tiver algum casal aí que tem seu próprio perfil, a gente respeita, não é uma crítica, para ninguém ficar chateado com a gente. Mas eu acho que tem um elemento importante que as pessoas acham que intimidade é perder privacidade, não tem nada a ver uma coisa com a outra. A gente pode construir intimidade com o outro, não importa se na amizade, no seu relacionamento afetivo, sexual, ou em qualquer formato.

onde as individualidades estejam resguardadas, apesar disso. Então, quando a pessoa começa a confundir privacidade com intimidade, é o caminho para você começar a se confundir com o outro, ao ponto de que depois não dá mais para descolar. A Carol sabe disso infinitamente melhor do que eu, né? Toda relação é um encontro.

E um encontro para acontecer precisa ter duas partes. E essas duas partes, enquanto estão juntas, elas inventam uma terceira coisa. Mas elas precisam continuar sendo duas partes.

porque senão deixa de ter encontro. Toda vez que a gente se infunde com alguém, a gente deixa de encontrar alguém, porque você vira a mesma coisa, né? Então, e aí tem um outro aspecto também interessante relacionado com o que a Carol estava falando anteriormente, é que a gente, quando está mecanando nossas relações por redes sociais, a gente gosta de acreditar que toda troca é encontro, que todo encontro é uma troca, e nem sempre.

Uma resposta rápida no WhatsApp, enquanto você faz 40 coisas, é uma troca, mas não é um encontro. Ou, às vezes, quando você só encontra alguém no meio da rua e dá tchauzinho de longe, você encontrou aquela pessoa, mas você não trocou com ela nada. Então, relações que são relações íntimas ou aquelas que são verdadeiramente conectoras, são aquelas que a gente consegue juntar as duas coisas. É quando você encontra com o outro.

e quando você consegue trocar com aquele que você está encontrando. E esse é o desafio da vida, né? Acho tão maravilhoso isso que o Michel falou, da gente confundir privacidade com intimidade. E aí eu já trouxe essa pesquisa aqui, acho que vale a gente trazer esses dados, né? Tem uma pesquisa da Capers, que mostra que um a cada quatro brasileiros...

já colocou aplicativo no celular do companheiro ou companheira para rastrear. Colocou aplicativo. Não é nem que entrou com a senha enquanto a pessoa estava dormindo. É desesperador. E se o outro não está sendo hipertransparente, você fala, então você está mentindo.

Eu vejo essa dinâmica muito corrosiva nos casais, e aí é, então eu vou te ligar, mas você tem que atender de áudio. De áudio não, de vídeo, para eu saber exatamente onde você está. Você tem que dividir o life do celular. A gente usa esse argumento como se fosse por conta da segurança, mas você está...

rastreando o outro. E o direito à intimidade está sendo um indício de uma disponibilidade à traição. E não é. É só algo da ordem do privado. A gente está tão imerso na ideia de que o outro vai mentir para a gente, vai nos sacanear, que a gente não está conseguindo viver com essas duas pessoas separadas, como o Michel falou.

Vou ter que renomear esse quadro porque a gente recebeu mais um convidado. Então ele vai ter que chamar para onde vamos com os nossos amores possíveis de saúde integral. Rossandro Klinger, bem-vindo. Aê! Oi, Tatiana! Feliz aniversário para nós! Feliz aniversário! Feliz aniversário! Estou aqui com o Carol. Uma honra estar aqui com o Carol, com o Michel Cofurado. Michel Cofurado reinventou...

o marketing global do lançamento de livros. É, pode crer. É verdade. Depois de você, nada será do mesmo jeito. Outro patamar. A gente subiu o sarrafo de um dia, que a mesma documental precisou de...

É, eu vou estar em ajuda psicológica, porque soube o monte de chato. Eu também, eu quase fui bater aí no seu consultório, viu, Rossano? Tô brincando. Olha o que eu tô aqui com vocês, gente. Muito bom, muito bom. A gente tá falando aqui sobre como é que é possível nós estarmos tão conectados de maneira prática e nos sentindo tão sozinhos.

Falávamos aqui sobre a confusão entre privacidade e intimidade. Carol traz dados aqui de pesquisas de conges e conjas que instalaram ali um aplicativo espião no celular do outro. Uma doideira.

E ouvindo a Carol falar, me veio uma palavra que a gente usa tanto, eu acho que é tão banal, porque é insegurança. É de insegurança que se trata. Da onde que vem isso? Por que a gente está tão inseguro a ponto de querer vigiar todos os passos das pessoas que, em tese, a gente ama e em quem a gente confia? Em tese. A insegurança tem como base a baixa autoestima.

Ou seja, a gente vive uma sociedade que o grau de comparação ganha um status de loucura, por causa das redes sociais, não é mais a minha vizinha, nem minha prima, nem meu primo, nem meu cunhado. É o mundo da internet todo que vai gerar um nível de comparação que a gente não dá conta e baixa profundamente a autoestima das pessoas, saudável, capacidade de se perceber como alguém.

digno e merecedor do amor. Isso é uma questão aqui, que a tecnologia seria um plus de um universo em que o modelo de intimidade familiar foi disfuncional. Então você não recebeu amor suficiente, carinho suficiente, que começa com aquela quando o pai e a mãe vão colocar refrigerante, você bota o copinho do lado pra ver se tem mais pro irmão do que pra você, ou mais pra irmã do que pra você, porque tudo que a gente quer é algo que é impossível na vida, que é justiça e reciprocidade no afeto. E aí, para mais do paramento, algumas pessoas vão desenvolver isso.

E a grande questão que fica é assim, imagina o investimento que é feito para formar um ser humano. Em termos de, vamos pegar aqui, a toda a carga genética, toda a construção e o organismo complexo, a vida psicológica rica, num tempo histórico único. E se você tiver uma visão transcendente, como eu tenho e muitos de nós têm, até o investimento sagrado que foi feito para você estar no mundo e você achar que você se reduz a sua vida inteira com toda essa riqueza.

a fiscalizar o órgão sexual do outro. Olha que pobreza. Olha onde a gente vai parar quando a gente tem isso. Então, quando a gente passa por esse lugar, a gente passa a um lugar em que a gente abre mão da nossa própria vida e no afã fantasioso de controlar o outro...

perdemos o controle da nossa própria existência. Primeiro que a gente não controla ninguém. Quem quer trair, traiam. Tem jeito. Você sempre dá um jeitinho de fazer isso. Todo mundo que foi adolescente sabe do que eu estou falando. Então, eu atendi 20 anos em consultório. Então, eu ouvi dos pacientes estratégias. Sabe, cara, eu devia pronunciar um livro, Michel. Assim, como você... É, só que eu não vou fazer isso. Eu não vou fazer isso porque eu tenho bom senso. Eu não vou fazer um livro ajudando a galera a ser ruim, né? Piorar a situação.

Mas a gente precisa entender que a vida é muito complexa, que a gente está num momento em que o nível de angústia aumentou muito. E o que me preocupa quando eu penso nisso, pensando agora, e Michel, que é um antropólogo, que tem uma visão tão rica do mundo, na geração atual e sem aquela visão simplista, e dizer, até essa geração está perdida, porque essa geração é nossa, porque quem está vivo, todo mundo aqui tem essa geração. Mas a geração mais jovem, ela está vivendo um paradoxo, porque a gente tem a geração que vive um mundo mais complexo,

de todos os tempos, um mundo líquido, um mundo completamente... Que a gente percebe aí, seja você pegando o que o Val Anora Arari reflete do ponto de vista histórico, ou o Bianchu Han, que é um filósofo que a gente tanto curte aqui, no mundo que a gente vive hoje, dessa sociedade do cansaço. Mas esse mundo líquido de Bauman e todas as leituras que estão sendo feitas, tecnologias, IA e tudo isso, o nome do tempo agora, temos ao mesmo tempo a geração mais frágil emocionalmente. Então, se eu tenho um negócio

Um tempo mais complexo e uma geração mais fragilizada, eu tenho uma tempestade perfeita por causa em vários níveis. E nas relações afetivas, não é diferente. Trazer uma vida real aqui, Rodrigues. Minha esposa fez isso com meu celular, rastreou. Descobriu?

Porque o celular quebrou e aí no concerto me mostraram o rastreamento. Eu nunca mais confiei nela. Claro. A gente está numa crise de confiança, né, Michel? Para tudo. Para notícia, para... Político, instituições. Amor, amizade, tudo.

Você sabe que, segundo a Edelman, que é essa instituição da sociedade civil que mede o grau de confiança, o Brasil está na lanterninha, né? A gente vai de mal a pior, você começa não confiando no governo, aí você não confia no presidente da sua empresa, a gente vai levando isso para as relações mais comezinhas. Eu tenho dito que toda vez que a gente tem um esvaziamento de confiança, as relações cotidianas terminam em dois lugares. Ou é em documento ou é em processo. É em documento por quê?

Porque se eu não confio em você, eu preciso ter sempre um terceiro que vai dizer que aquilo que você está dizendo é aquilo que você está dizendo mesmo. E o Brasil é isso, né? Você precisa aprovar que você tem um contrato. Não adianta só você dar a sua palavra. E quando isso chega...

no relacionamento, a gente alcança esse momento onde o outro não pode dizer só tô no futebol. Ele precisa provar com a localização de que tá no futebol, que é esse terceiro que vai garantir que você tá dizendo o que você tá dizendo. Agora, quando a gente não consegue se resolver via esse terceiro, que pode ser a tecnologia, pode ser o juiz, pode ser o padre, pode ser, sei lá, um amigo que liga pra dizer que você tá fazendo o que você tá fazendo.

a gente termina em processo, que aí a justiça assume o papel de definidor das relações. E aí é ruim para todo mundo, porque a vida fica invadida por terceiros e a vida fica burocratizada. Todo encontro precisa ser checado. A gente deixa de viver e começa a ficar mais preocupado com a prova do que o outro falou, com a prova do que a gente está vivendo, com a prova do que sustenta aquela relação.

Então, confia, né? Se tá desconfiado assim de uma vela, eu diria isso, assim, né? Muito mais do que se valer de qualquer coisa dessa. Você sabe que eu... Pede ajuda, assim. Costumo dizer que eu tenho fé na vida. Tenho fé na vida, porque tem um negócio que você tem que ter fé e ir, porque senão não adianta. Se você for traído, isso diz da outra pessoa, não diz de você.

A gente aposta no tigrinho, mas não aposta no amor, né? Pois é, pois é. Isso é simbólico do nosso país. Mas eu queria fazer uma provocação em cima do que o Michel falou, que eu concordo completamente que a gente não tem que ter essa hipervigilância, mas tem algo do... E também, juntando com a insegurança que o Rossandro trouxe, que é a gente tem que poder falar para o outro. Eu estou inseguro. Vamos fazer alguns combinados?

Porque eu acho que uma coisa é hipervigiar e transformar tudo em documento. A outra coisa é dar nome contorno. Vamos namorar? Aqui pode ficar com mais gente ou não pode? Porque eu acho que também é tanto medo de que o contorno seja amarra que a gente está se angustiando.

porque não está podendo falar para o outro. Estou insegura. Estou insegura porque não sei se a gente pode transar sem camisinha ou não pode, se eu vou te apresentar para os meus filhos ou não.

Ter contornos é diferente de cercear a liberdade do outro completamente. É ter combinados e não precisar deixar tudo claro, mas algo do contorno é importante também. Até para conter angústia e para a gente poder falar para o outro, olha, isso me deixa inseguro, isso me angustia, sem atacar. Porque como a gente invalida a nossa insegurança, você fala, eu estou assim porque você também é um narcisista.

Vamos só falar das nossas fragilidades. Amores saudáveis. Amores saudáveis, adultos, maduros, em que são colocadas as cartas na mesa. Ontem eu ouvi a Elisama falando uma coisa muito bonita, a Elisama Santos, na internet sobre isso.

Você fica tentando adivinhar qual é a carta que está na mão do outro. Apenas proponha que ele baixe as cartas na mesa, como você está fazendo, e vocês montem o seu quebra-cabeça juntos. Porque é isso que também caracteriza uma relação saudável. E eu concordo com ela.

Eu queria mudar completamente de assunto e falar sobre a importância dos rituais. Porque é isso que a gente está fazendo aqui hoje. Poderíamos fazer um programa convencional, um estudo CBN, como você ouve toda sexta-feira aqui na CBN, mas não. A gente escolheu ritualizar e marcar nove anos no ar, trazendo os nossos comentaristas, que são uma parte muito importante do nosso programa.

Qual é a importância dos rituais, Michel? Os rituais são fundamentais na vida cotidiana, porque, primeiro, eles têm dois papéis que são decisivos ao dia a dia. Primeiro que eles dão noção de tempo. O tempo, para quem não gosta de pensar sobre isso, é um grande fluxo, esse negócio que a gente inventou, que se a segunda é ruim, sexta é bom.

Quarta é mais ou menos, sábado e domingo é outra coisa. Mas o que faz a segunda-feira ser diferente da sexta-feira são os rituais que compõem cada um desses dias. Então, na vida cotidiana, a gente precisa de ritual como marcador de tempo. Porque senão parece que a gente só está. A vida vira um grande durante, né? E a vida precisa ter esses momentos que são marcos, que vão dando consciência para a gente do que a gente está vivendo e, ao mesmo tempo, vão dando consciência para os outros. E essa é a segunda dimensão fundamental de um ritual.

Ritual são eventos comunicativos, né? Quando a gente passa por um ritual, a gente comunica para a gente mesmo e para os outros que a gente alcançou um novo estágio. Então, você que nunca casou, quando entra na igreja e casa, você comunica para a sociedade, comunica para si mesmo e todo mundo entende que você mudou de status.

Sem esse ritual, fica tudo meio nebuloso, fica difícil de dar nome. É o drama que Carol estava colocando, né? Uma relação que começa de forma, vamos ficando, ela tem mais dificuldades do que uma relação que passa pelos rituais clássicos, porque tem menos momentos de conversa clara, que vão ritualizar a mudança daquele estágio.

os novos acordos que vão aparecer, as expectativas que um tem sobre os outros. Então, os rituais são decisivos, né? Eu sou a favor de ritualizar tudo. Não à toa que eu comecei a defender a rotina agora, né? Rotina é lindo, né? Porque quando você tem rotina... Uma inveja danada de quem tem rotina. Rossandro, Carol também tem pouca. Mas Rossandro, que é um baita palestrante, tá pra tudo quanto é lugar, tem zero rotina, a vida fica do avesso, né? A sensação é de que você tem que arrumar rotina onde não tem. Então, ritualizar é um ponto importantíssimo.

Ritualizar ajuda a gente a se organizar internamente também, Carol? Tá mutado, Carol? Tá mutado. Vai. Ajuda muito porque ela cria contorno, cria intencionalidade. Eu acho que o ritual, e aí pensando muito o Lacan, né, que traz a importância do simbólico, o ritual cria símbolos.

Então a gente sai de um lugar do automático para criar significados compartilhados. E a gente se conecta com o outro de uma outra forma. Então eu tenho um símbolo em comum, algo que significa uma intencionalidade. Isso faz com que a gente também entre nisso que o Mechá falou, que é uma outra relação com o tempo. É poder suspender...

poder marcar, sair do automático, para também entender que há novas camadas e novas formas da gente lidar com as emoções. Eu falo muito sobre a importância da gente ritualizar o luto e também os lutos amorosos.

E tem algo disso dos símbolos, que é você trazer concretude. É poder escrever e queimar uma carta. É assoprar a vela e fazer um pedido. A gente está em tempos tão digitais e muito mentais, que acho que parte da beleza dos rituais é também a gente trazer para o concreto algo que simbolize.

aquele momento, aquela emoção. Isso vai criando esse mapa, esse baú de pequenos dicionários amorosos e afetivos da nossa vida e dos nossos vínculos. Rossandro. Você sabe que o Michel falando dessa coisa da gente que viaja muito e tal, como é difícil manter rotina. Eu lembrei, gente, que quando eu fazia estágio em psicologia hospitalar, estava em hospitais do SUS, você sabe que eu estava naquela lá que tem 10 camas?

E aí você observava que naquela mesinha do cantinho, encostada na cama, cada paciente colocava aquilo que criava a sua identidade. Às vezes uma Nossa Senhora, às vezes uma Bíblia, às vezes alguma coisa, a foto da família, como que a gente diz assim. Apesar de eu estar nesse ambiente em que eu estou, em minha identidade está esfacelada entre 10 e o atendimento é meio mecânico, eu estou criando um espaço que me faz lembrar quem eu sou. Os rituais também têm esse lugar.

Por exemplo, com filhos pequenos, se você não tiver ritual, você vai para o caos. Tem que ter hora para acordar, hora para dormir, hora para tomar banho, para escovar os dentes, para ir para a escola. Se você tira o ritual, você tira a capacidade de formatação mínima dos contornos que a Carol tem falado. E quando a Carol fala, se a gente fizer os combinados, então quais são os contornos, quais são os limites? Mas se você não criar esses limites entre você, você não sabe nem como propor isso para o outro, nem sabe como é que você vai aceitar.

E os rituais todos fazem isso acontecer. E é interessante porque Michel é um cara super antenado, uma pessoa super capaz e moderna. Quando ele fala, agora eu estou defendendo as rotinas, que pode parecer um discurso, digamos assim, tradicionalista. Não, é perceber que em todas as coisas tem coisas positivas. E sim, nos rituais. Às vezes as pessoas acham que o tédio é um problema. O ritual às vezes parece confundido com o tédio, na verdade.

E, na verdade, o TED é um momento de criação. A gente sabe que tem o ócio criativo e tem o ócio que não dá para nada. Tem o ócio de que cabeça desocupada é sendo o demônio e para quem já está com o demônio dentro, precisando de um lugar para se manifestar. Mas para quem tem um ser criativo, o ócio é o lugar de criar. É o lugar de você criar. E a rotina também é isso. A rotina para quem é uma pessoa engessada é uma prisão. Mas a rotina para uma pessoa que busca organização psicológica é um lugar de florescimento de potência. E é um pouco sobre isso que a gente pensa nos rituais.

Legal demais. Ritualizando para lembrar quem a gente é. Ritualizando os nove anos de Estúdio CBN para lembrar do que a gente faz aqui todos os dias, para lembrar que temos ouvintes maravilhosos do outro lado da latinha, do microfone, que ouvem com muita atenção tudo o que a gente diz, seja informação em cima da pinta com a nossa equipe de reportagem, sejam as análises e as reflexões dos nossos comentaristas. E olha, eu juro, eu olho para essa tela e olha, eu olho para essa tela.

O ano que vem a gente vai fazer isso no auditório. Pode cobrar, tô brincando, cobrar não pode. Mas deveria. Vai ser nosso ritual, o ano que vem. A qualidade desse time me emociona, de verdade. Eu quero agradecer muito vocês, Carol Tchukian, Rosandro Klinger, Michel Coforado, nossos comentaristas que você só ouve aqui no Estúdio CBN. Obrigada, seus lindos. É um privilégio. Parabéns, parabéns, parabéns.

Verdade. Isso. Muito obrigado pela parceria e pela paciência com a gente esse tempo todo.