Episódios de Comentaristas

O impacto dos produtos culturais no debate público

17 de abril de 202619min
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Patrícia Kogut, Zé Godoy e Professor Pasquale participam de programa especial em homenagem aos 9 anos do Estúdio CBN.

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Participantes neste episódio3
P

Patrícia Kogut

ComentaristaJornalista
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Professor Pasquale

ComentaristaProfessor
Z

Zé Godói

ComentaristaJornalista
Assuntos1
  • Produtos culturais e debate públicoAdolescência como fenômeno cultural · Literatura e mudanças sociais · Mac Livros e democratização da leitura
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Vou colocar um áudio de um ouvinte que vai ilustrar um pouquinho nessa celebração que a gente está fazendo e tem um recado também para um dos nossos convidados. Vamos lá. Olá, Tati, Fê e ouvintes da CBN, aqui é Erika de Brasília. Quero muito parabenizar pelos nove anos do estúdio CBN que ao longo de quase uma década nos mantém muito bem informados com essa equipe de jornalistas pelo Brasil e pelo mundo.

E eu destaco ainda essa equipe maravilhosa de colunistas que a cada dia, a cada programa, nos enchem, nos enriquecem com conhecimentos que talvez nem passassem pela nossa cabeça. Então, assim, é muito legal como ouvinte aprender bastante com Ariel Palácios, com Rossandro Klinger, com todos os colunistas que se eu citasse um a um...

este áudio viraria um podcast. Então, parabéns a vocês todos por fazerem deste programa uma revista, por serem as nossas companhias ao longo das tardes, durante a semana. Muito, muito obrigada. Feliz nove anos e que venham outros.

E meu único problema é o Zé Godói, com essa lista de livros que me deixa, assim, enlouquecida, porque eu não vou ter tempo para ler tudo o que o Zé indica. Mas parabéns a todos vocês, feliz aniversário e parabéns pelo programa. Que linda! Zé Godói, você já pode aí, fica à vontade. Microfone aberto para você. Bem-vindo, parabéns. Queridos, boa tarde. Está aparecendo travesseiras, essas coisas aí?

Parabéns para vocês. Hein? Hein? ...para a rádio todo dia. Janaína, o berrão para você ser produtor.

Legal, a gente está com uma questãozinha no áudio, está te ouvindo meio esquisito, mas enfim, estamos aqui recebendo seus cumprimentos, Zé, Jana, Dani, Fernando, eu, a nossa ouvinte, que tem um problema aí com as suas indicações. Patrícia Cogut, bem-vinda! Parabéns! Parabéns! Parabéns para vocês, Tati, Fernando, parabéns para todo mundo.

Janaína também. Janaína principalmente, eu diria. Professor Pasquale, que honra tê-lo aqui, nesse nosso juntinho. Bem-vindo, parabéns. Com imagens, saudades. Saudades. Muito bom. Tudo bem com vocês? Tudo bem. A honra é minha. A honra é minha, Patrícia.

Zé, vocês estão me ouvindo bem? Agora sim. Estamos. Ótimo, ótimo. Eu fiz até a barba para participar hoje. Pô, esqueci. Eu disse para a Janaína ontem, vou lavar o cabelo e fazer a barba. É uma honra estar com você, Patrícia, com você, Zé Godó, e seus livros intermináveis. A Patrícia com as suas memoráveis séries e indicações preciosas.

E com os nossos queridos Fernando e Tatiana, a Jana, que está aí na retaguarda, que nos aguenta há nove anos, não sei como é que ela consegue isso. É isso. Bom, o Zé está aqui toda quinta, a Patrícia toda sexta, Zé falando de livros, a Patrícia falando de séries. E para o nosso combinadinho hoje, eu pensei em falar um pouco sobre como é que os produtos culturais, as séries, os filmes, os livros, e aí

pautam debates sociais. E aí eu quero trazer como exemplo, para a gente começar, o adolescência, que eu acho que é um dos mais recentes fenômenos que a gente viu que estourou a bolha dos fanáticos de série. Aí a gente viu vários adultos indo assistir a série para entender exatamente...

até como lidar com as suas crianças. E acho que esse é um bom exemplo de quando a discussão da série vaza para fora da bolha e acaba pautando os debates de toda uma sociedade. Patrícia, você quer começar falando sobre isso? Você que assiste a tanta coisa e que certamente tem outros exemplos para nos trazer.

Vou começar e antes eu queria dar um oi e dizer que eu sou ouvinte. Zé Godói, professor, Pascoal, eu sou fã, acompanho as colunas de vocês e eu estou muito feliz de estar aqui com vocês, fiquei muito feliz com isso.

Adolescência é uma série muito importante, porque às vezes a série é puro entretenimento, mas às vezes ela pode ter essa cauda longa, esse espelhar.

Coisas sociais, coisas que estão no ar. Uma novela também pode fazer isso. Um filme pode fazer isso. Capturar o espírito do tempo e traduzir isso num produto audiovisual. A adolescência fez isso.

Uma série em quatro episódios, britânica. O garoto que faz o... Ele ganhou um Emmy de melhor ator coadjuvante. Eu acho que foi a pessoa mais jovem a ganhar esse importantíssimo prêmio da televisão americana. A série britânica.

E são quatro episódios, ela foi exibida em 2025 e ela foi fazendo sucesso devagarzinho. Não teve muita propaganda, muito lançamento, foi um boca a boca. Eu me lembro que eu soube dessa série assim. Um amigo leitor me escreveu e falou, já viu, acabou de chegar na Netflix uma série, é diferente de tudo. E ela une emoção...

sentimento e discussões com uma questão técnica, porque ela é toda filmada em plano sequência. É um plano por capítulo inteiro. A câmera não para, ela vai andando com os personagens. É muito difícil.

Fazer isso em série, eu acho que ninguém tinha feito, eles fizeram. Então, assim, ela é muito perfeita, é uma combinação de vetores felizes ali, né? É a história de um garoto acusado de matar uma colega de escola. Então, ela levanta temas como machismo, né? Ela furou um pouco a bolha dessa conversa da machosfera.

coisa depois dela. E o pai defende o menino, a mãe defende o menino e fica essa dúvida pairando. Será que ele cometeu esse crime? Eu não vou estragar para quem ainda não assistiu, mas eu acho que quase todo mundo assistiu. E ela realmente foi uma série muito importante. Depois dela vieram outras.

séries falando desse assunto, mas não com esse frescor, com essa força, com esse alcance. Então, de vez em quando aparece uma série encantadora, arrebatadora, e a adolescência foi uma delas. Zé Godói, desses produtos culturais que extravasam suas bolhas, que viram um assunto que influenciam pessoas, comportamentos, acontece na literatura? O que você tem em mente que fez isso?

Fernando, Tati, a literatura, para mim, tem a ficção, a ficção literária, acima de tudo, tem um papel de acelerador de mudanças. Eu acho que a ficção literária, acho que essa é a grande conquista que ela tem para a gente como sociedade. O escritor tem, até por ser, os tempos da leitura e os tempos da escrita não são tempos mais...

eles não são totalmente conectados à nossa contemporaneidade. A gente vive num tempo da imagem e num tempo da aceleração, e a literatura é o oposto disso, é um tempo de reclusão, é um tempo de reflexão, de escrita. Eu acho que, por um outro lado, ela abre uma porta enorme de aceleração de mudanças. O que eu quero falar com isso?

é onde você tem a capacidade de provocar, estimular, procurar perspectivas diferentes, pontos de vista diferentes, que vão fazer aos poucos a sociedade refletir e chegar a mudanças fundamentais.

Acima de tudo, a ficção literária tem um papel transformador no jeito como a gente vive e se relaciona em sociedade ou com indivíduos. A Patrícia fala muito bem no caso do adolescência, acho que é uma série que pautou muito fortemente o debate.

Eu acho que os debates que são estimulados pela literatura, eles vêm mais em grupos, eu acho assim. Então, são escritores que começam a entender que, por exemplo, no Brasil não existe só o eixo Rio-São Paulo, ou não é apenas a elite que escreve no Brasil.

ou que não são apenas os brancos que escrevem no Brasil, ou que não são apenas os homens que escrevem no Brasil, ou que não são apenas os homens e mulheres que escrevem no Brasil, há pessoas que também estão escrevendo no Brasil sobre outras questões, sobre outras perspectivas. E eu acho que essa diversidade vai estimulando demais o debate e vai fazendo a gente andar para frente. Então eu vejo mais o lugar da literatura nesse espaço, Fernando, Tati.

Eu quero trazer o MEC Livros para a nossa conversa, mas antes eu quero fazer uma pergunta para o professor. O quanto obras culturais, como os livros sobre os quais o Zé fala, as séries sobre as quais a Patrícia fala, têm o poder...

de influenciar a nossa linguagem, professor, a língua portuguesa. Eu me lembro, por exemplo, do Tropa de Elite, que tinham muitas frases que viraram bordões na boca de jovens e que acabaram sendo incorporadas ao nosso vocabulário. Queria te ouvir um pouco sobre isso antes de falar do Mac Livros.

Eu não sei o que vem primeiro, o ovo ou a galinha. Não sei se vocês já entenderam aonde eu vou chegar com isso. Porque os livros refletem aquilo que já está em uso na linguagem ou é o contrário, os livros lançam coisas que depois são absorvidas. A impressão que eu tenho é que os livros simplesmente, simplesmente entre muitas aspas,

os livros propagam aquilo que já está, já é vivo, aquilo que já existe é vivo, não só os livros, as músicas também, e, de certa forma, fortalecem essa linguagem, porque são uma espécie de, eles, livros, são uma espécie de legitimação.

dessa linguagem que é viva, que está aí, que representa a forma de expressão de muita gente no Brasil e no mundo, e, consequentemente, existe essa propagação, essa difusão. Mas acho que eles primeiro captam o autor, o bom autor, ele ouve, ele é um cidadão que está vivo, que está andando pela rua.

que conversa com as pessoas, e aí ele absorve, põe, propaga e por aí vai. Eu acho que é por aí. Perfeito. É dialético, né, professor?

É. Os livros são objetos transcendentes, mas podemos amá-los do amor táctil que votamos aos maços de cigarro. Perfeito. Viva Caetano. Isso está numa canção monumental de Caetano Veloso. Eu queria rapidamente falar sobre o Mac Livros. Eu troquei uma ideia rápida com o Zé nos bastidores, porque desde o dia 6 de abril...

O governo federal disponibilizou o Mac Livros. É uma biblioteca pública digital. Tem quase 8 mil títulos divididos em cerca de 20 categorias. Então, se você quiser ler Harry Potter, tem. Se você quiser ler Machado de Assis, tem. Se você quiser ler Hong Kong, tem também.

Como é que... Bom, primeiro, acho que isso diz da democratização ou de uma tentativa do governo de democratizar a leitura. Queria te ouvir um pouco, Zé, sobre a efetividade dessa tentativa, se colocar os títulos ali à disposição das pessoas tem efeito na democratização da cultura, e falar um pouco sobre a organização do mercado editorial ou a desorganização do mercado editorial.

A Tati, a gente estava conversando, é um tema complexo, a gente vai debater bastante. Eu acho a iniciativa excelente.

no primeiro momento. Acho que tem uma série de dúvidas, porque são vários atores num processo como esse. Você tem a plataforma, que é o Mac Digital, você tem uma distribuidora, que é a Bookwire, que licencia as licenças das editoras. Você tem as editoras e você tem os autores. Então é uma cadeia longa, onde todos esses atores precisam estar de acordo com o que está sendo feito.

Dito isso, eu acho o processo ótimo. É um processo de tentativa de democratização do acesso ao livro. Qualquer pessoa que tenha um Gov.br tem condição de acessar, e é muito fácil de acessar, embora eu, navegando, não tenha conseguido ler o livro. A inscrição é muito fácil, a navegação é muito fácil, mas na hora da leitura o programa não funcionou para mim. Eu acho que são questões de ajuste.

A cultura digital do livro digital no Brasil é muito pequena ainda. A gente ainda lê muito pouco o livro digital comparando com o mercado de língua inglesa. Então, acho que é um espaço interessante para avançar na leitura, porque o brasileiro é completamente conectado. O brasileiro, qualquer transporte público, você vê.

Todo mundo está conectado num celular, num tablet ou algo do tipo. Então, realmente, é o dispositivo número um da população. Então, é muito importante que nesse dispositivo você também possa ler. Porque acho que as pessoas leem muito pouco em termos de livro e nesses dispositivos. Então, em termos de portabilidade desse material, desse acervo, é maravilhoso.

Eu, como grande defensor do livro Objeto Físico, minha única dúvida realmente é o que vai acontecer com o Programa Nacional do Livro Didático, que é uma ferramenta fundamental nesse mercado, que sustenta a parte importante desse mercado, tanto das editoras como dos autores. Eu sou um autor que tenho livros no PNLD e é um ano que faz diferença para a gente como autor, quando você tem um livro contemplado.

Então, eu espero que isso venha adicionar e não subtrair, que isso realmente seja uma nova plataforma e que não brigue com o que já tenha. E também espero que nesse ano eleitoral isso não seja politizado, porque a ideia é boa. A gente tem uma tendência no Brasil de jogar ideias boas fora por questões ideológicas ou por pressa.

Se tem problemas, vamos discutir, vamos tentar melhorar a plataforma e vamos batalhar, independentemente de qual seja o próximo governo, que se mantenha iniciativas como essa. E não vamos entrar nesse jogo rápido e banal, que as redes sociais estimulam na gente de falar que tudo é ótimo, tudo é uma porcaria. Eu acho que tem um espaço enorme para isso.

Se você quiser, Zé, a gente pode voltar a esse assunto, esmiuçar um pouco melhor como é que o MacLivros está organizando, como é que é essa negociação com as editoras, por exemplo, com os autores. Tenho ouvido alguns autores um pouco, primeiro, sem saber se o livro dele está lá ou não, segundo, de que maneira ele vai ser remunerado pelos direitos autorais dos livros digitais que estão sendo disponibilizados e lidos. Enfim, a gente pode voltar nesse assunto mais para frente, se você quiser. Com certeza.

Eu sabia que ia faltar tempo em algum momento. Chegou esse momento. Ô, Patrícia, sabe o que a gente queria também abordar com você e que pode pautar também para um outro momento? Falar de séries nacionais, porque eu acho que a gente está vivendo um ótimo momento. E, bem, ninguém melhor do que a especialista para falar com propriedade sobre esse tema. Então, acho que a gente podia deixar também combinado de voltar esse tema mais para frente. O que você acha?

Vamos, vamos voltar. Vamos voltar e deixar esse tema mais para frente. Eu queria falar para o Zé Godoy que eu acho que esse tipo de coisa tem uma possibilidade, produz possibilidades de ampliação do alcance dos livros, na essência. Tem tudo para dar certo.

Eu acho que a gente tem que torcer por esse tipo de iniciativa mesmo. Isso aí. Professor Pascoal, adivinha, a gente tem que ir embora. Você está cansado de ouvir isso na sua vida todos os dias aqui? Pois é, de ganhar cartão vermelho. Existe o domínio público também, que vocês devem conhecer, e que é muito interessante, mas sempre que eu vou lá, eu fico...

cadê, né? Nem sempre acho que quero, mas é bom saber que existe. É isso. A gente pode também combinar de falar mais para frente o quanto iniciativas como essa podem ter impacto na quantidade de leitores do nosso país, que é um tema que a gente sempre trata aqui, né? Fazendo um esforço danado para fazer as pessoas lerem uma série de entraves e tal, a gente sabe dos problemas, mas, enfim, a gente não desiste.

Eu quero agradecer muito vocês três. O professor Pascoal está com a gente desde o primeiro dia na nossa língua de todo dia. Professor, muito obrigada. Patrícia, muito obrigada. Toda sexta-feira conosco, dando dicas preciosas de série para os nossos ouvintes. Eles amam. E o Zé Godói agora em novo dia horário, em novos dias horários, as quintas-feiras conosco no nosso Clube do Livro. Vocês são demais. É um orgulho tê-los no nosso time. Muito obrigada. Obrigada a você.

Um beijo para vocês. Obrigado, gente. Parabéns. Parabéns. Nós agradecemos.