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Os sentidos do verbo 'alvejar'

16 de abril de 202612min
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Professor Pasquale explica origem da palavra e mostra como o termo pode ir de “limpar” a “atingir um alvo”.

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Participantes neste episódio1
P

Professor Pasquale

HostProfessor
Assuntos2
  • Verbo AlvejarUso do verbo em contextos diferentes · Origem da palavra alvejar · Relação com a cor branca · Alvo e alvo no sentido de atingir
  • Mensagem na músicaTiro ao Álvaro · Alvorada
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A nossa língua de todo dia. Com o professor Pasquale. Oi professor, boa tarde.

Boa tarde, querida Tati, boa tarde, querido Fernando, boa tarde, ouvintes. Eu preciso começar fazendo uma pequena correção no boletim de ontem. Eu dei a entender, falei lá, é por se move, e dei a entender que se tratava...

do nosso Galileu mas não era eu não citei o nome dele mas pelo contexto e eu fiz confusão entre o Galileu e o Giovanni Bruno e o Girolamo Savonarola esses sim foram pra fogueira o Giordano o Galileu não foi pra fogueira

E eu agradeço muito ao nosso querido ouvinte Davis Rocha, ouvinte e amigo, psiquiatra, está sempre atento, e ele me mandou essa observação. Eu agradeço demais a ele. Fiz confusão, fiz lambança. Perdão, está feita a correção. Como diriam os meus pais, acontece nas melhores famílias, professor. Vamos lá. Exatamente.

Professor, hoje dúvida de Edilson Ferreira Gomes, conta o seguinte, com a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, ele ouviu no noticiário que o Ayatollah do Irã, Ali Khamenei, foi alvejado pelos americanos. Ele se lembra de quando criança, de ouvir muita gente dizendo que precisava alvejar meu avental diante de tanta sujeira.

Então, professor, qual é o significado do verbo alvejar nesses dois contextos? E se existem outros? Você viu que na mensagem dele ele põe, quando era criança, você se saiu muito bem. Dei um Pelé. Mas ele pôs aí, quando era criança, da minha, dizendo, deve ser a mãe, a avó. É, eu ia falar, mas eu não sei.

Mas ele não pôs, ele se atrapalhou, como todo mundo se atrapalha. E a pergunta é ótima, porque como é que mandam alvejar o avental e dizem que o Ayatollah foi alvejado? A questão é a seguinte, as duas palavras têm a mesma raiz, uma raiz latina.

que significa branco, luz, branco. E havia, no tempo do Império Romano, havia espaços, diz aqui o nosso Uais, cobertos de gesso nas paredes de uma casa, e nesses espaços se escreviam anúncios, avisos.

E aí também havia o sentido de uma pequena tábua com gesso, na qual se escreviam as determinações dos pretores, e por aí vai. E também se diz que o branco era a cor daquilo que se usava como alvo no sentido daquilo que se queria atingir, onde se atirava nessa tábua, e por isso...

A ideia de alvo, o alvo que se quer atingir, onde se atira, também tem esse lado. Então, alvejar acaba tendo esses dois sentidos, de tornar alvo, tornar branco, e de ser o alvo no sentido de ser o lugar que se quer atingir com uma pedra, com...

um dardo e com coisas piores, infinitamente piores. Eu tenho dois auxílios para ilustrar isso. Professor, só citar o terceiro que eu achei interessantíssimo também, que é o alvorecer, o despontar.

Também tem que falar. Perfeitamente. Eu ia falar disso na canção que a gente vai ouvir. Tá bom, tá bom. Você é um ótimo aluno, você tá ligadíssimo. Vamos começar com o primeiro auxílio, que é uma composição de Adoniram Barbosa e Oswaldo Moles. Oswaldo Moles é uma figura que tem que ser estudada, um jornalista, uma figura muito interessante, morreu muito cedo, morreu em 67, com 54 anos.

E ele trabalhou com o nosso Adonirã. Então a gente vai ouvir uma canção chamada Tiro ao Alvaro, composta por Adonirã Barbosa e Oswaldo Molles, quem canta? Elis Regina e Adonirã Barbosa. Isso está num disco chamado Adonirã Barbosa e Convidados, de 1980. Prestem atenção na brincadeira que o Adonirã e o Oswaldo fizeram. Vamos lá.

De tanto levar frechada do teu olhar De tanto levar frechada do teu olhar Meu peito até parece sabe o que

Não tem mais onde for Não tem mais De tanto levar Frechada do teu olhar Meu peito até Parece sabe o que Talboa De tiro ao Álvaro Não tem mais onde for

Olha, mata mais do que bala de carabina. Fala, professor. É uma brincadeira muito legal e o tiro ao Álvaro, que seria o tiro ao alvo, né? E a letra é recheada de palavras que apresentam uma forma diferente daquela a que estamos habituados e acredite se quiser. O Adoniram gravou isso em 60, em 1960, mas depois...

nos tempos da amaldiçoada ditadura dos milicos, essa canção foi proibida. Acreditem, se quiserem, o despacho da censura, maldita censura, dizia assim,

A falta de gosto impede a liberação da letra, graças a certas palavras escritas com ortografias marginais à norma padrão da língua, como frechada, táubua, artomorve e revolve, e por aí vai. Agora eu peço a você, querido Fernando, veja a barbaridade dessa censura idiota, que não reconhece as variantes, as variedades linguísticas e tal.

Das quais eu tanto falo aqui. Fernando, escreva aí. Você está com o seu oas aberto? Sim. Escreva frecha, com R. Frecha. Pode escrever com C-H-A-F-R-E-C-H-A. Primeira coisa que está aí. Esse M-Q quer dizer mesmo o quê? Flecha.

flecha. Agora, você faz um favor. Escreve aí frauta, com R de Roma. Frauta. Frauta. E a primeira coisa que está escrita é? Flauta. Flauta, mesmo que flauta. Agora você escreva froco. Mentira. Floco.

mesmo que... Floco. Floco. E que se você for ler Camões, você vai encontrar naquele analfabeto chamado Luiz de Camões, aquele burro, aquele ignorante. O louco. Você... Hã? O louco.

É, mas de acordo com esses débeis mentais da censura, esses imbecis, esses cretinos que não tinham o que fazer, que não estudavam e que ficavam pregando idiotices, né? Eles são capazes de escrever um despacho com esse mundaréu de besteira, né? Mundaréu de bobagem. Então...

Nós vimos aí o tiro ao Álvaro, que é uma brincadeira, do Adoniram e do Oswaldo Moles, e nessa brincadeira eles trocam Alvo por Álvaro.

O alvo é aquilo que eu disse já, é aquilo que se quer atingir com um dardo, uma pedra, um tiro, sei lá o quê. E vamos para o segundo auxílio, que é justamente relativo àquilo que você tinha dito, Fernando. Nós vamos ouvir uma canção composta por Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Belo de Carvalho, quem canta é o Cartola acompanhado pelo coral do Joab.

Há uma canção que se chama, diga você o nome, Fernando, querido. O nome da, desculpa? Da música. Da canção. Tá aí no... Deixa eu ver, deixa eu ver aqui. Tá aí no e-mail. Alvorada. Alvorada, que tem a ver com o que você disse. Vamos ouvir o que diz o nosso Cartola nessa canção que é dele, Carlos Cachaça e Hermínio Belo de Carvalho. Vamos lá.

Alvorada, lá no morro, que beleza. Ninguém chora, não há tristeza. Ninguém sente de sabor. O sol colorido é tão lindo, é tão lindo. E a natureza sorrindo, tingindo, tingindo. Alvorada, lá no morro, que beleza.

E aí temos Alvorada, que é da mesma família de Alvo, da mesma família do que você disse, Alvorecer, que é o raiar do dia, quando o dia fica claro, quando o dia fica branco. Agora, Fernando, o nosso ouvinte pergunta se há outro sentido, você pode escrever Alvo no dicionário e ir para o número 3?

Acho que a Janaína já levantou o cartão vermelho, né? Sim. Álvaro não, alvo número três, ponto de mira. Não, o três. Tem um que é o adjetivo, o substantivo, depois de novo. O três, o três. Medicina, obsoleto.

O que é? O ventre. O ventre, o abdômen e suas vísceras. Pronto, nosso ouvinte perguntou se há outros sentidos. Ah, tá aí. É isso, meus queridos. Vamos lá. Obrigado, professor. Beijo pra vocês. Até amanhã. Até amanhã.

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