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A erosão da confiança: por que as relações humanas estão em crise?

15 de abril de 202616min
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A crise entre Senado e STF é só o sintoma mais visível de algo que atravessa toda a vida social: a erosão da confiança. Mas confiança não é só um problema das instituições. Ela é o mecanismo que permite a qualquer relação humana funcionar de forma fluida. O especialista Álvaro Machado Dias se aprofunda no assunto e mostra por que confiar é a aposta mais sofisticada que o cérebro faz. Ouça.

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Participantes neste episódio2
E

Eduardo Rauen

HostEspecialista em bem-estar
Á

Álvaro Machado Dias

ConvidadoEspecialista
Assuntos2
  • Crise de confiança nos Estados UnidosConfiança nas instituições · Desconfiança no Brasil · Impacto da confiança na sociedade · Burocracia e desconfiança · Comparação com países escandinavos
  • Mentalidade e confiança pessoalRedução de complexidade social · Confiança e relações humanas · Jeitinho brasileiro · Sinais de confiabilidade
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Visões do Futuro, com Álvaro Machado Dias. Oi, Álvaro, boa tarde. Muito boa tarde.

Bom, temos visto, temos vivido, na verdade, nos últimos tempos, uma espécie de crise de confiança nas instituições. O nosso tema hoje é confiança, confiança e desconfiança. Confiança é o mecanismo que permite a qualquer relação humana funcionar. A Álvaro vai mostrar hoje porque é que confiar é a aposta mais sofisticada que o cérebro faz e o que acontece quando essa aposta dá errado.

Álvaro, a gente vive uma crise de confiança. É uma crise de confiança institucional, mas eu acho que é uma crise de confiança geral. Esse é um fenômeno novo, contemporâneo, dos nossos tempos, ou a confiança sempre foi frágil no Brasil? Como é que você olha para ela?

Olha, a confiança no Brasil, ela nunca foi estruturalmente sólida, tá? Então, eu sou da opinião que a confiança sempre foi frágil por aqui. E a gente tem vários dados reveladores disso, tá? Então, muito além de pesquisas de opinião e tudo mais. A gente pode olhar para a arquitetura institucional, quer dizer, como as instituições estão organizadas no Brasil e daí já inferir essa baixa confiança. Vou dar um exemplo.

o Brasil mantém um sistema de cartórios, né? Cuja função, se a gente parar para ver, é trocar confiança por certificação burocrática, né? Reconhecimento de firma, autenticação, registro. Eu lembro uns anos atrás que tinha uma forte discussão sobre a possibilidade dos blockchains, né? Que eram essas novidades.

de, enfim, confiança diluída em código e coisas assim meio misteriosas, mas que no final das contas podiam substituir cartórios. Pareciam grandes sacadas. É, só que você vai, por exemplo, nos Estados Unidos e nunca teve um cartório. Nunca precisou de blockchain para substituir cartório nenhum, entende? A ideia de que o cartório é necessário é uma ideia equivocada. O cartório é a transmissão da ideia de que a confiança não é possível. Por isso que você precisa reconhecer firme e tudo mais.

Luhmann, que é o sujeito que mais estudou a fundo a confiança, ele define a confiança de uma maneira que eu acho perfeita para o Brasil. Ela é...

um mecanismo de redução de complexidade social. Olha só que interessante. Quando a gente confia, a gente não precisa calcular todos os cenários possíveis, tudo que pode acontecer de ruim. Isso libera capacidade cognitiva e também afetiva. E aí a gente consegue viver uma vida mais plena e as instituições, as empresas, as escolas, o que for, conseguem funcionar melhor.

Tem um instituto de pesquisa que faz muita coisa na América Latina inteira e tem um índice chamado Latino Barômetro. Não tem fins lucrativos, nada disso. E uma das pesquisas mede o grau de confiança na América Latina. No Brasil...

a taxa gira em torno de 4% a 7%. Para vocês terem uma noção, um parâmetro, ela é mais de 60% nos países escandinavos. Quer dizer, tem uma diferença abrupta. E olha só, está mais do que demonstrado em muitos estudos de economia.

que a confiança é um dos grandes preditores de sucesso econômico. Então, na minha visão, se a gente olhar hoje em dia, por exemplo, a desconfiança do Senado em relação ao STF, do STF em relação ao Senado, do governo em relação aos dois, da população em relação aos três e assim por diante, meramente expressa uma espécie de ampliação digital, uma atualização de uma fragilidade que sempre esteve aí e que eu acho que agora ela simplesmente se tornou mais visível.

Agora, Álvaro, tem uma ideia forte de que a sociedade com mais confiança prospera mais, mas o Brasil funciona, ainda que precariamente, com níveis de confiança muito baixos. Como é que a gente explica essa resiliência? Ela não contradiz a ideia que você apresentou anteriormente?

É, parece contradizer, né? Parece que a gente pode dizer, não, no fundo o Brasil tem baixa confiança institucional, tudo você precisa fazer algum processo burocrático para garantir que aquilo realmente esteja escrito em pedra, mas é uma sociedade que funciona muito bem. Eu acho que isso é falso, infelizmente, tá?

Eu diria que é muito mais o contrário. O Brasil funciona, mas funciona abaixo do seu potencial, justamente por causa da baixa confiança. A gente usa muitos mecanismos compensatórios. Tem um antropólogo que eu acho que descreveu isso muito bem. É o Roberto da Mata. O que ele falou? Ele falou que no Brasil a gente tem que distinguir entre o mundo da casa e o mundo da rua.

Na rua, ou seja, entre estranhos, mesmo pessoas não tão estranhas, as pessoas que você vê, mas não são íntimas, a desconfiança é total. É cada um por si, a lei é sempre um obstáculo, o Estado é visto como adversário, quer dizer, o governo. Na casa, é o oposto, é confiança radical, lealdade, proteção incondicional. E aí a gente olha bem e vê, nessa história toda, o que entra? O tal do jeitinho brasileiro.

que muita gente romantiza, né? Tem algo que parece que sugere uma espécie de inteligência prática e tal, mas para mim é muito mais um band-aid, tá? Que cobre essa fratura. Imagina você ter uma fratura e você querer cobrir ou colá-la com band-aid.

entre esse mundo da desconfiança e esse mundo da confiança total. Ou seja, a confiança institucional, a confiança que o outro não vai roubar alguma coisa que eventualmente você deixou, furtar alguma coisa que você esqueceu em cima da mesa e assim por diante, ela é compensada por essa ideia de que entre os íntimos a confiança é absoluta. E aí, para mim, o preço disso é brutal, tá? Como a gente não tem uma passagem homogênea entre as duas coisas...

A gente gasta muita energia e muito capital tentando manter as coisas funcionando. Então, por exemplo, no Brasil, o custo da burocracia é gigantesco.

E uma parte disso reflete desconfiança. A burocracia é uma tradução da desconfiança no cidadão. E não necessariamente é uma desconfiança falsa. A questão é que ela define tudo o que você precisa fazer. Pensa numa perícia do INSS. Ela é baseada na mais pura desconfiança. E assim por diante. Por isso que ela é um absurdo kafkaniano. O Kafka escreveu...

livros sobre processos burocráticos infinitos, e é isso, tá? O INSS é kafkaniano, e não só ele, tá? A justiça é. E, aliás, a gente vê, hoje em dia, uma explosão nos litígios, né?

É muito processo, recordes de processos que custam bilhões para o país. Por quê? Porque existe uma premissa da desconfiança. Então, eu acho que o Brasil funciona apesar da desconfiança, mas paga um preço alto por isso. O Brasil, em relação a outros países, para a gente ter uma referência, Álvaro, é mais desconfiado ou menos desconfiado? Vive uma crise maior ou menor de confiança?

muito maior. Hoje, em especial, os Estados Unidos estão vivendo uma crise de confiança muito grande porque tem um governo que, do ponto de vista de uma parte cada vez maior da população e também dos congressistas, toma decisões erráticas, sem entrar em juízos de valor.

sobre esse ponto, o fato é que a confiança americana institucional caiu vertiginosamente. Ela também cai em todos os países que têm guerras ou conflitos internos mais violentos e tal. Preservados esses pontos, eu diria que a confiança no Brasil é das mais baixas, tá? E a gente pode opô-la a vários países e mesmo grupos de países.

e entender princípios muito fundamentais sobre por que a nossa confiança interna é tão baixa. Então, por exemplo, se a gente pega os países escandinavos que eu já mencionei, muita gente acha, diz, que a grande questão é que são sociedades pequenas, homogêneas, você pega, sei lá, Suécia, a questão é que a confiança funciona porque é paisico, sabe essa ideia? Mas o que foi demonstrado já muitas vezes é que não é isso, é que a qualidade das instituições é o que demonstra...

E reforça essa confiança. É como se... Emana do Estado, de qualquer coisa que você vai fazer, a confiança. As pessoas acreditam que você vai fazer. Até um mês e pouco atrás, eu estava na Islândia e eu fui devolver um carro no aeroporto. E é uma coisa muito interessante. Você simplesmente deixa o carro lá, tá? E você deposita a chave.

num negocinho, numa caixinha e vai embora. A confiança é total, está lá estabelecida, mesmo em relação a estrangeiros. Então, é algo que a gente não tem aqui. O Japão é outro caso revelador, tá? A confiança japonesa é altamente contextual. Ela funciona dentro de grupos, tá? E ela praticamente desaparece fora deles. Mas o fato é que esses grupos funcionam muito bem. E assim vai, quando a gente vai...

olhando os vários exemplos, sobretudo esses mais virtuosos, a gente vai vendo arranjos sociais muito diferentes dos nossos e aí a gente encontra até um norte, um parâmetro para um tipo de transformação que seria muito importante no Brasil. Eu acho que confiar é muito bom e países que desenvolvem isso internamente, institucionalmente, e que transmitem isso através das leis e das relações, realmente funcionam muito melhor.

Álvaro, tome uma aguinha enquanto eu vou ler aqui participação de ouvintes e você depois comenta. Vamos lá, tenho aqui a participação do Pedro Rocha. Olha, conta o seguinte, na verdade não, é o Edson que conta que Pedro Rocha, uruguaio, ex-jogador de São Paulo, uma vez falou numa entrevista que aconselhou também o uruguaio Dário Pereira para se adaptar ao Brasil que aqui precisava confiar desconfiando.

A Rosa diz que a confiança na família também é uma falsidade, uma mentira que todo mundo gosta de contar. E o Rogério fala o seguinte, ele coloca o smartphone na história, porque ele é professor e conta o seguinte, quando a gente está contando algo para alguém, e aí quando a gente recorre, vai dar uma outra opinião, sempre nos perguntam, tem imagens? E aí ele fala assim, nas conversas mais tensas sempre emerge, para confiar tem que ter imagem, tem que ter registro. Ele fala que isso dá uma angústia nele.

Pois é, é muito interessante, se a gente pegar esses dois depoimentos da ponta, o confiar desconfiando e a tese de que sem imagens a gente não confia, a gente encontra um princípio comum, que a palavra por si só não basta. Isso a gente nota muito no Brasil, é a terra cartorial, você precisa não só dizer como você precisa escrever, como você precisa reconhecer a firma, coisa que, enfim, em muitos países soa como um absurdo completo.

Eu acho que realmente a gente precisaria superar esse modelo, tá? Eu vou sentir mais orgulho do país o dia que os cartórios desaparecerem. Agora, sobre o que a Rosa trouxe, né? De fato, como o Roberto da Mata colocou, né? Essa diferença entre o mundo da rua e o mundo da casa, ou seja, da confiança total e da desconfiança total.

a gente tem mesmo essa necessidade quase que moral de confiar excessivamente na família, mesmo quando as evidências não estão alinhadas com isso. Para mim é simplesmente reflexo da mesma distorção, da inexistência de uma passagem homogênea em que a gente confia, pelo menos razoavelmente, em todo mundo a princípio. Essa é a ideia.

E aí, como a gente não confia no mundo da rua, a gente acaba confiando demais ou tendo essa obrigação moral de confiar demais no mundo da casa. Álvaro, para a gente se despedir, existe algum sinal em que a gente deva confiar de que uma pessoa pode ser confiável, de que ela mereça a nossa confiança ou isso é um truque do nosso cérebro?

Olha, a resposta honesta é que existem poucos sinais, tá? Então, o que de fato rola, tem um autor muito interessante chamado Todorov, que mostrou isso lá de Princeton, é que a gente identifica nesses sinais de confiança familiaridade.

Então a gente vê alguém que lembra uma pessoa na qual a gente confia, ou um parente, ou a gente mesmo, o que quer que seja, ou alguém, enfim, um grupo no qual a gente encontra algum tipo de confiança, eventualmente porque a gente faz parte ou se identifica, e aí a gente passa a confiar nessa pessoa intuitivamente. Mas...

Quando você vai fazer testes, jogos chamados neuroeconômicos, ou seja, você põe a pessoa para tomar decisões, muitas delas usando paradigmas de confiança, distribuição de recursos, usando, por exemplo, mapeamento do cérebro em tempo real, o que é observado?

é que essas pessoas cuja confiança a gente intui, não agem de maneira mais solidária, baseada na reciprocidade, mais ética, como você quiser dizer, do que uma pessoa pegar o acaso aleatoriamente. Portanto, essa ideia de que a gente consegue identificar a confiança a partir de traços ou de uma primeira impressão, não é verdadeira.

O que funciona, curiosamente, é algo muito mais racional e fácil de ser utilizado. Algo que quem está nos escutando agora pode incorporar na sua vida. O princípio é o seguinte, quando as pessoas têm mais a perder, elas tendem a restringir qualquer ação que possa ferir o senso de confiança do outro. Então, na prática, você, por exemplo, tem um comércio.

Existe o cliente assíduo. O cliente assíduo tem mais a perder se ele fizer alguma coisa ali, sei lá, furtar uma mercadoria, do que o cliente que está passando pelo comércio, sei lá, pela primeira vez, talvez única vez na vida. E isso vale para tudo. É o quanto existe de custo potencial numa ação que vai ser denunciada como antiética ou ilegal, que vai prever, em última análise, o quanto você pode confiar.

No final das contas, a gente não é totalmente racional, mas até que a racionalidade funciona de vez em quando.

Álvaro Machado Dias está conosco toda quarta-feira em Visões do Futuro e é uma das presenças confirmadas no nosso Estúdio Palusa de sexta-feira, aniversário de nove anos deste Estúdio CBN, em que traremos os nossos comentaristas para falar de assuntos que têm a ver com a sua vida. E eu não vou falar mais que isso, porque a gente fez uma dobradinha de Álvaro com outro comentarista para falar de... Não vou contar, vai ter que vir sexta-feira.

Álvaro, obrigada por hoje, um beijo pra você, até sexta. Eu agradeço muito, um abração pra vocês dois, e só pra reforçar, uma coisa eu garanto, vai ser incrível. Então, sexta-feira, olha, esteja sintonizado na CBN. Beijo, até lá. Tchau, Álvaro.

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