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O uso contínuo de uma palavra ou de um tempo verbal errado pode torná-la correta?

15 de abril de 20269min
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Professor Pasquale responde à dúvida do ouvinte Luiz, do Rio de Janeiro, que toma como exemplo a forma verbal incorreta ‘vareia’. A questão central de Luiz é se o uso contínuo e informal de uma palavra ou tempo verbal errado pode, eventualmente, torná-lo correto ou incorporá-lo à norma culta. Ouça o comentário.

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Participantes neste episódio1
E

Eduardo Rauen

HostEspecialista em bem-estar
Assuntos3
  • Erros comuns na fala coloquialIncorreção verbal · Vareia · Norma culta
  • Língua PortuguesaVerbos irregulares · Conjugação de 'variar'
  • Conceitos e palavrões em portuguêsPortuguês do Brasil · Português de Portugal
Transcrição23 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

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A nossa língua de todo dia, com o professor Pasquale. Oi, professor. Boa tarde.

Tati, querida, boa tarde. Boa tarde, Fernando. Boa tarde, ouvintes. Dúvida do nosso ouvinte do Rio de Janeiro, Luiz Eugênio Vilaverde, a respeito de uma palavra em tese errada. Ele pergunta assim, uso errado de uma palavra ou de um tempo verbal pode torná-la correta ou até incorporá-la à norma culta por causa do seu uso contínuo na linguagem falada informal? Por exemplo, aliás, eu falei essa palavra no ar recentemente.

vareia, professor. Pois é, aí vareia. Qual é o brasileiro que não diz isso? Aí vareia. E isso vem de uma brincadeira que a gente faz brincando com essa coisa da regularidade, da irregularidade das conjugações verbais. Então, os verbos que terminam em iar, como é o caso de variar, né?

apresentam normalmente uma conjugação regular. Anunciar fulano anuncia, denunciar fulano denuncia, reverenciar fulano reverencia, adiar fulano adia.

E aí, odiar fulano não odia, né? Fulano odeia, né? Ansear fulano não ansia, fulano anseia, né? E são cinco verbos, por sinal, já falei deles aqui, o tal do Mário, né? Coloque na vertical Mário, M, A, R e O. O M é mediar, o A é ansiar, o R.

É remediar, o i é incendiar, o o é odiar. E no i, a gente pode... Perdão, no m, lá de mediar, a gente pode pôr também de lado, do lado esquerdo, inter. Que aí vale intermediar e mediar. Esses verbos têm conjugação irregular. No português do Brasil, eu odeio, eu anseio, eu remedeio, que é feio de doer.

Eu anseio, eu odeio, eu intermedeio, que é feio de doer. Em Portugal, essa lista é maior. Muita gente em Portugal, e é o padrão lá, muita gente negocia. Você pega o verbo negociar no dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, negociar. O exemplo que eles dão é Portugal negocia.

e premiar, eu não vou dizer que senão eu vou matar um auxílio luxuoso. O variar, que o nosso ouvinte pergunta, não ganhou essa forma vareia, não ganhou legitimidade no padrão formal, fica como forma da linguagem informal, mas muita gente usa.

Eu vou começar, eu tenho dois auxílios, eu vou começar com o Cartola e o Paulinho da Viola juntos, uma gravação póstuma, pegaram um pedaço de um, depois um pedaço do outro, a composição é do Cartola, chama-se Fiz por Você o que Pude. Segure-se na cadeira, querida Tati, e vamos lá.

Todo o tempo em que eu viver Só me fascina você Mangueira Guerriei na juventude Fiz por você o que pude Mangueira

Continuam nossas lutas, podam-se os galhos, colhem-se as frutas e outra vez se semeia. E no fim desse labor surge outro compositor com o mesmo sangue na veia. Sonhava desde menino.

Conta toda a tua história Este sonho realizei Um dia lhe empunhei E cantei todas as tuas glórias Perdoa-me a comparação Mas fiz uma translução Eis que Jesus me presta

Eu ouvi direito, professor? Ouvi o direito, né? Eis que Jesus me premeia, disse o grande Cartola, que é o autor da canção, Sozinho. E ele usa a forma que é comum em Portugal. Em Portugal é isso, é premeia, né? Uma vez o...

eu vi isso num texto dele, e o mundo caiu de pau nele, né? E ele me pediu socorro, Pasquale, pelo amor de Deus e tal. Eu, na semana seguinte, eu era colunista do Globo, lá escrevi durante nove anos e tal. E ele também era colunista do Globo. Na minha coluna, na semana seguinte, eu tratei do assunto e disse que o premeia que ele sapecou lá, ele...

Ele já bor, e esse premeia que o Cartola sapecou, esse premeia é do padrão culto português, não é do padrão culto brasileiro, mas é língua portuguesa, né? Eis que Jesus me premeia. E vamos ver agora o Adoniram Barbosa cantando uma canção dele sozinho, letra e música dele, tocar na banda, que é uma maravilha, genial, vamos lá.

Toca na banda, pra ganhar o quê? Duas mariocas e um cigarro e holanda. Toca na banda, pra ganhar o quê? Duas mariocas e um cigarro e holanda. Um relógio é 4,20, o outro é 4,6. É que de um relógio pra outro, agora a vareia. Ai, amor.

E é a Zora Vareia, que é uma maravilha, porque nessa variedade do português oral brasileiro, não existe aquilo que nós chamamos de plural redundante. O que é o plural redundante? A gente põe o artigo, o substantivo, o adjetivo, o verbo, tudo no plural. Na variante popular, só um elemento.

Por isso, as hora vareia. Essa frase é típica dessa variedade de língua e essa variedade existe. Não adianta a gente fechar os olhos e dizer que ela não existe. Existe. As hora vareia. Só que no padrão formal, esse verbo variar com essa forma vareia, como se dizia antigamente nos livros de linguística, de língua, não ganhou fóruns de cidade. Ou seja...

Não ganhou legitimidade. Ela flutua aí nessa variedade rural, na variedade popular, mas não na variedade formal. Então, o nosso ouvinte quer saber como é que é. É assim, se o...

aparece nos textos que dão vida a esse registro formal, torna-se formal, torna-se... Eu não gosto da palavra correto, né? Torna-se e incorpora-se ao padrão formal. Esse vareia não ganhou esse registro ainda não e a gente não sabe se um dia vai ganhar. Mas que existe, existe. Como dizia lá o cientista italiano que foi para a fogueira, é pur si muove, lembra?

Mas que se move, se move. É isso. Muito bom. Muito bom, professor. Obrigada. E até amanhã, né? Isso não vareia, né? O senhor está aqui todo dia. Até. Isso não vareia de jeito nenhum. Sexta-feira é festa, é aniversário, nove anos. Estaremos juntos. Obrigada, professor. Um beijo. A gente espera amanhã. Tá bom? Beijo. Tchau, tchau.

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