Síndrome das vidas paralelas: a aparente calmaria e estabilidade que escondem um esvaziamento perigoso
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Maria Cristina Fernandes
- Mantes e relacionamentos paralelosRelações conjugais · Divórcio silencioso · Rotina nos casais · Conexão e conveniência · Intencionalidade nas relações
CDN Amores Possíveis com Carol Tilguian. Oi Carol, boa tarde.
Boa tarde, Tati. Boa tarde, Nando. Boa tarde, ouvinte. Bom, Carol, hoje vai falar de relações tranquilas, relações conjugais, calmas, estáveis e que podem esconder turbilhões perigosos, né, Carol? Exatamente. Qual é a diferença do silêncio que conforta?
para o silêncio que só escancara um esvaziamento dessa relação. São essas palavras incômodas que eu quero trazer. Eu acho os americanos maravilhosos, porque eles criam termos para tudo.
Sempre dizendo que a gente não pode hiperdiagnosticar. Mas já hiperdiagnosticando, né? Mas eu acho que tem algo do nomear, é dar um contorno para a gente prestar atenção em algo que está acontecendo e está normalizado, principalmente neste caso. Então, recentemente, muitos artigos de grandes...
espaços, veículos ligados à psicologia, psicanálise e a comportamento, tem falado da síndrome das vidas paralelas. Eu falei há não muito tempo aqui sobre o divórcio silencioso.
E mergulhando na síndrome das vidas paralelas, eu penso que talvez esse seja o estágio que precede. Exatamente. Então, a gente poder olhar essa síndrome das vidas paralelas com cuidado, talvez seja um jeito da gente se convidar a reconstruir as nossas relações e reconhecer as nossas parceiras e parceiros.
O que são essas vidas paralelas? Como você trouxe, Tati, no início da coluna, é aquela dinâmica de casal onde a transformação vai sendo silenciosa.
onde o outro deixa de ser interlocutor e passa a ser coabitante. Eu falo muito aqui sobre quantas vezes a gente não vira uma microempresa e vai esvaziando o vínculo conjugal. E aqui é interessante também, eu quero trazer um dado inédito, depois eu vou mergulhar nessa pesquisa, mas eu fiz...
Um senso do amor para o brasileiro, como a gente está vivendo o amor e o que a gente deseja do amor. E é muito interessante que o principal fator de felicidade nos casais que se sentem felizes é a rotina. E o principal fator de desgaste nos casais é também a rotina. Que ótimo!
Paras opção, hein? Paradoxal. Exatamente. As vidas paralelas são vidas onde o casal permanece, mas o vínculo emocional, os sonhos, os planos vão se esvaziando. E a vida vai se deslocando pra fora da relação. Eu acho muito importante a gente descentralizar
os afetos conjugais e desromantizar a simbiose. Então é maravilhoso e é importante para que o amor seja possível, que a gente tenha espaço para liberdade, experimentação individual, sonhos e rotinas. E que este investimento no eu...
ou num nós com outros nós, então vou fazer uma pós-graduação, vou participar de um grupo de corrida de aventura, ou eu vou ter o meu jantar semanal com as minhas amigas. Isso não é um demérito à relação. Quando a gente começa a prestar atenção, quando esse investimento que a gente tem em outras paixões,
fora da relação, não encontra nenhum eco dentro da relação.
quando a gente começa a ver, e não é que o espaço da casa tem uma negligência consciente, muitas vezes vocês acham que é super funcional, até porque essas vidas paralelas são feitas muitas vezes para a gente organizar a rotina. Então, olha, eu fico em casa, quartas-feiras com as crianças, e você vai fazer o seu curso de pós-graduação, e aí depois você fica quinta e eu vou fazer o meu treino de corrida no parque à noite.
Então, a gente vai dividindo as funções da casa com as companheiras e companheiros para que essa casa funcione melhor, e muitas vezes ela funciona melhor, mas a gente vai perdendo os microgestos de carinho ou os planos conjuntos. E assim, o que eu tenho visto muito, até queria perguntar para os ouvintes.
se eles se sentem nessa síndrome das vidas paralelas, porque a síndrome é interessante porque ela tem duas coisas, né? Um é eu viver o presente de uma forma paralela do meu companheiro ou companheira. E o outro é eu fantasiar uma vida paralela.
O que a minha vida poderia ter sido se eu não tivesse feito essas escolhas em nome do casal? Então, quando a nossa rotina está esvaziada, a gente vai para aquele lugar do e-se. Para a gente não romper o vínculo, porque afinal de contas, você não está brigando, né? Está tudo bem. E aí a gente nem se autoriza a achar que a gente está numa crise. Porque está tudo bem, a casa funciona, a gente divide as tarefas.
a gente transa, mas está morno, está opaco. E aí, ao invés de trazer o conflito ou de fazer um movimento de, olha, durante anos, o que eu tenho visto muito, né? Pessoas cada vez mais se dando conta nos processos de análise que elas casaram com o casamento e não com a companheira ou companheiro.
Então, durante muito tempo, o tesão desse casal foi, vamos ter filhos. E aí o plano é ter filhos, é criar os filhos, ou é sair do aluguel e comprar a casa. São esses marcos mais clássicos de uma relação familiar tradicional. O que acontece é que, quando esses marcos são alcançados...
Você percebe que vocês não têm outros sonhos juntos. Que vocês mudaram. Eu falo aqui muito da gente pensar no amor como um caleidoscópio.
E você quer fazer pós-graduação e está pensando que você vai poder se aposentar e viajar pelo Brasil e conhecer mil lugares que você nunca conheceu. E o seu companheiro está pensando que ele quer ficar em casa com os dois labradores e que ele não quer conhecer lugar novo, gente nova.
E aí a gente vai para esse e se. Então, tem fantasias de outras vidas, de outras relações, de outras versões de si mesmo. E muitas vezes a gente culpa o outro por não ter vivido isso. Então, é a pessoa que não fez o doutorado e imagina a carreira acadêmica que teria tido. Ou o profissional que aceitou.
fazer uma pausa na carreira para acompanhar a companheira que foi promovida e mudou de cidade, mas sente a vida totalmente esvaziada de amigos, outros vínculos, e aí fica observando as fotos dos amigos que estão na cidade natal, falando, olha, como talvez a minha vida fosse mais feliz.
Se eu tivesse o churrasco do fim de semana, se a gente talvez tivesse menos dinheiro, ao invés de ter a nossa casa na praia, a gente dividisse com cinco amigos. E acho que a rede social traz uma grande amplificação para essa projeção da vida paralela. Porque a gente está sempre vendo vidas que poderiam ser as nossas, em recortes aparentemente incríveis.
E tem, inclusive, uma meta-análise que foi publicada no Clinical Psychology Review com mais de 13 mil participantes, que mostra que quanto mais a gente se implica nesse movimento de reescrever mentalmente o passado, então, se a gente não tivesse tido...
esse terceiro filho? Será que o casamento não teria entrado em crise? Ou, e se eu tivesse investido na minha carreira? E se eu tivesse traído e largado o meu casamento por aquele romance? Menos essas pessoas, mais essas pessoas apresentam sintomas de depressão.
arrependimento crônico e autocrítica, e mais paralisadas elas ficam. Porque esse pensamento, que a gente chama de pensamento contrafactual, ele vai te enredando no outras vidas poderiam ser muito melhores, eu fiz tudo errado, já não há mais tempo para...
Mudar. Tem um conceito do Winnicott que eu acho muito interessante que ele distingue o que é playing e o que é fantasying. Então, playing seria o brincar criativo. É a gente poder convocar a companheira ou companheira que estão com a gente há 10, 20, 30 anos e voltar a brincar, porque muitas vezes a gente nem puxa o conflito porque fala, ah, ele é assim. Ah, nem adianta. Vou falar que eu quero é...
fazer um clube do livro já que você falou em brincar, caiu uma ótima opinião aqui, que é da Sônia, por aqui diz ela já criamos, formamos os filhos pagamos a casa, queremos agora comprar um trailer, cair na estrada, só falta concluir a segunda graduação e bora olha que legal, legal demais
Esse talvez seja um tempo em que exista espaço pra que essa situação apareça mais, né, Carol? Que é filhos criados. Então, a mulher não tá mais com a atenção dela sendo absorvida quase totalmente pelos filhos. E pela própria vida profissional, enfim. E aí, olha pro lado e fala, ué, quem é esse homem aqui que mora comigo?
E vice-versa, né? O homem olha e fala, ué, quem é essa mulher aqui? Porque deixaram de se ocupar com as questões dos filhos. Agora um tem que olhar pro outro, e aí? E Tati, é tão maravilhoso, porque quando você faz esse ué, gente, quem tá só ouvindo a gente, depois entra no YouTube da CBN pra ver nossas caras. Porque pode ter esse ué do estranhamento esvaziado, né? Do tipo, gente...
E pode ter um, ué, quem é essa pessoa que tá aqui? Deixa eu descobrir e me dar... Por exemplo, esse relato que o Fê trouxe do trailer, talvez você nem achasse que a sua mulher ia querer comprar um trailer pra viajar o mundo. Porque quando as crianças eram pequenas, ou quando vocês casaram, essa era a pessoa metódica.
muito focada numa estabilidade financeira, muito próxima da família nuclear original. E às vezes por a gente achar que a gente era assim...
A gente não volta a se perguntar para o outro, né? E é por isso que eu acho bonito o playing do Inicot, que é do que será que a gente pode brincar juntos agora? Baseado em dados de realidade, né? Hoje, de hoje, porque acho que o erro é, ai, eu queria resgatar, eu ouço isso muito na clínica. A gente era conectado logo que a gente casou, antes das crianças. Há 20 anos. E aí você quer voltar para um casal de 20 anos que não existe mais.
Ou você fica hiperfocado nas diferenças, que é isso, do tipo, nossa, eu mergulhei no conhecimento da psicanálise, da filosofia, do cinema e a minha companheira segue sendo...
super pragmática e o mergulho dela e o tesão foi para os esportes. E aí um fica querendo puxar o outro para a brincadeira que gosta. Eu vejo muito isso que é. Não, então vem, vem correr comigo. Ou não, vamos lá. Uma vez por semana tem debate no cinema, no Belas Artes. Vamos assistir. E às vezes é, vamos achar uma nova brincadeira juntos. Que os dois gostem. Vamos dar um trailer. Exatamente.
E aí, poder não saber e convidar o outro a testar. Também não saber que o outro não vai querer. É reintroduzir esse risco do encontro para colocar o vínculo em movimento. E talvez, para que a gente faça isso, a gente tenha que sair dessa rotina funcional e também poder falar, olha, isso não está legal. Ou a gente não tem... Oi. Termina, termina. A gente não tem...
se divertido mais juntos. Eu acho que tem um movimento consciente da gente voltar a criar esses momentos de conexão e de intimidade. Então, quais são pequenos momentos de intimidade nossos? É agendar esses momentos de conexão. Eu já falei aqui sobre a gente agendar as DRs e agendar também... Sim.
Os momentos de namoro, agendar a transa. Carol, a Solange está perguntando se você está fazendo, em cima desse comentário, algum recorte de classe ou se é tudo mais homogêneo mesmo. Qual o recorte de classe que ela faz, diz aqui a Solange? Solange, é tudo mais homogêneo.
Porque o que eu percebo? É claro que classes mais altas vão ter mais estrutura para dividir as funções da casa.
Então, teoricamente, poderia sobrar tempo para esse casal namorar mais do que casais de classes mais baixas que passam três horas no trânsito e tem que chegar em casa e cozinhar. Mas ainda assim, existe uma intencionalidade nesse convívio, que pode ser a hora que as crianças vão dormir...
É o que eu estava colocando agora, né? É o agendar o momento, é talvez uma vez por mês vocês vão combinar que é o primeiro sábado do mês as crianças vão ficar com a sua irmã e vocês vão fazer um programa de namorados e deixar o celular no silencioso.
É entender como a gente escolhe conexão ao invés de conveniência e como a gente traz isso da intencionalidade. Aí eu vou trazer um exemplo pessoal de uma outra natureza de relação, mas que para mim foi muito assim, né? Meu pai ficou viúvo, eu tinha cinco anos, meu irmão tinha três, ele trabalhava numa multinacional, tinha que fazer muitas viagens internacionais.
E voltava tarde, durante muito tempo a gente morava em Moema, ele trabalhava no Parque Novo Mundo.
Ele não era o pai que almoçava com a gente. Muitas vezes ele não estava lá durante duas semanas porque ele estava viajando. Só que quando ele estava, ele estava. Todo sábado e domingo a gente brincava de cabana na cama dele. Amo. Não é sobre a quantidade de horas. Então, não é a gente ter pouco tempo para ser casal. Mas como é que a gente pode começar no pequeno possível?
E buscar novos pontos. A minha recomendação seria busque o novo ao invés de tentar resgatar algo antigo de vocês dois. E cuide para que isso vire rotina de uma forma tão...
tão agendada quanto você agenda o horário que você tem que sair com as crianças ou a forma como vocês dividem as compras da casa e as contas. Se me permite, vou incluir aqui o que diz o Tiago. Não precisa ir para as Maldivas para ter um momento de qualidade com o seu companheiro. Dá para ir ali tomar um sorvete. Dá para ir ali fazer uma caminhadinha na Praça da Cidade e bater um papinho durante essa caminhada. Eu assino embaixo.
Obrigada, Carol. Dá pra desligar o celular e conversar com o celular desligado. Já é um ganho, já é bastante. Carol Tchukian, tá com a gente toda segunda-feira pra gente começar a semana falando de amor, dos amores possíveis no dia do beijo. Uma beijoca, Carolina, até a semana que vem. Esses casamentos esvaziados não se beijam mais na boca. Beija na boca de língua demorado.
até a semana que vem beijos