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Quando escrever não prova mais nada: o retorno da voz na era da inteligência artificial

13 de abril de 202613min
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Trabalhos impecáveis, textos bem estruturados, argumentos sofisticados. Mas, quando o professor pede para o aluno explicar o que escreveu, o silêncio aparece. Com o avanço da inteligência artificial generativa, o ensino superior entra em um momento curioso: nunca foi tão fácil produzir respostas corretas, e ao mesmo tempo, tão difícil garantir que alguém realmente pense sobre elas. Universidades, então, começam a reagir e a resposta tem sido voltar ao básico, como olhar, escutar e perguntar. Confira!

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Participantes neste episódio2
T

Tati

HostApresentadora
Á

Álvaro Machado Dias

ConvidadoEspecialista
Assuntos3
  • Fala vs escritaControle na escrita · Modulação na fala · Persuasão na comunicação · Criatividade na fala
  • Bet EducarMétodos de avaliação · Inteligência artificial na educação · Desafios da comunicação oral
  • Inteligência ArtificialTransformação na educação · Avaliação de textos gerados por AI
Transcrição38 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Pra onde vamos? Com Michel Alcorforado. Oi, Michel. Boa tarde. Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Boa tarde, Michel. Michel hoje vai falar sobre voz.

O retorno da voz na era da inteligência artificial. Diferenças. Sorte é nossa, né? Os humilhados serão exaltados. Eu estava esperando por esse dia há 48 anos, Michel. Sorte é nossa. Me dê boas notícias. Me dê boas notícias. Desculpa, eu te cortei. Imagina, não. Eu ia falar isso mesmo. Me dê boas notícias. O que isso quer dizer?

Então, o que acontece é que todo mundo está reparando que as inteligências artificiais vão invadir todos os campos da vida. E aí, quem está muito preocupado com esse processo todo de transformação são os educadores e os professores. Não importa o nível, tanto do pessoal da escola, quanto do pessoal da universidade, mas o pessoal está muito preocupado que os métodos de avaliação de quem sabe ou não sabe o que diz que sabe, mudaram.

Mudaram porque a provinha já não é mais suficiente. Porque quem sabe se o aluno fez essa prova via inteligência artificial ou usa de algum dessas ferramentas aí, tipo o chat EPT, de Minai, esse outro, Cloud, e outros tantos que apareceram. Então, o que aconteceu? Duas universidades americanas têm usado um método antigo, mas que voltou com toda a força, que é a famosa prova oral. Vocês já fizeram prova oral na vida? Sim, muitas em inglês. Delícia. Sim. Muitas em inglês. Socorro.

Ah, é verdade. Mas normalmente tinha inglês, sempre tinha.

Então, a prova oral aqui é um pouco diferente, porque na provinha de inglês ele quer testar mais uma habilidade sua, que é a habilidade de ouvir e falar em inglês. Então, quando está no cursinho de inglês, você passa pela prova escrita, que ele quer testar se você consegue ler, se você consegue escrever, e aí você faz a prova oral e faz a prova de listening, que é aquelas que a gente só fica escutando, aquele monte de gringo falando para entender mesmo, para medir se a gente conseguiu entender o que eles disseram, o que eles estavam dizendo.

Essa prova é uma prova antiga, igual minha avó deve ter feito na escola, outros tantos ouvintes aqui que estudaram em escolas mais tradicionais devem ter atravessado também. Que é um modelo de avaliação onde o professor não pergunta ou não pede que você sente numa sala, na frente de um papel, escreva a resposta para aquela pergunta, mas você senta de frente, diante de um professor da sala inteira, e você expõe aquilo que você entendeu sobre isso, sobre um determinado assunto.

E por que eles estão usando isso? Porque, como já disse, nas universidades americanas, o uso das plataformas de inteligência artificial estão para tudo quanto é lado, e o professor não consegue garantir que aquela provinha bonitinha que chegou ali na frente dele, teve ou não o uso ou a ajuda de alguma inteligência artificial.

Todo mundo aqui começou a desenvolver nos últimos tempos uma habilidade para tentar identificar quando é que um texto era ou não moderado, mediado ou escrito por uma inteligência artificial. Uma das estratégias era olhar se o texto tinha travessão. Então, a morte do travessão está em jogo, né? O pessoal olha em travessão e já fala, Ih, foi escrito por uma AI, né? Ou por uma inteligência artificial.

Um outro ponto também, que chama-se muito a atenção, é um texto meio insosso, sabe? Com cara de bula de remédio. Ele não tem nenhuma personalidade. Ele nada mais é do que uma mera tentativa de reportar sem nenhuma escolha pensada sobre os verbos ou os adjetivos ou substantivos que a gente escolheu na hora de escrever esse negócio.

Então os professores, sem poder aferir de forma clara essa prova foi escrita, esse trabalho foi escrito por inteligência artificial, estão chamando os alunos na xinxa para eles dizerem ao vivo se aquilo que eles sabem sobre os conceitos apresentados, eles sabem mesmo, o que eles não conseguem fazer de forma escrita.

E aí, qual é o grande objetivo dos professores? É que tem dois aspectos que são fundamentais no aprendizado, em qualquer aprendizado, que são muito importantes para o professor medir, que é o tempo de aprendizado de um aluno e também como é que o aluno lida com o erro como forma de aprendizado.

Isso em qualquer campo da vida. Quando você está lá aprendendo alfabetização, sei lá, o alfabeto, você precisa seguir num ritmo, que é o ritmo esperado para uma criança da sua idade. Ao mesmo tempo, o professor fica muito atento a que tipo de erro você está cometendo. Porque aquilo revela o estágio que você está no aprendizado.

Quando a gente está fazendo trabalho com inteligência artificial, você não está levando em consideração esses dois parâmetros. Porque você faz muito rápido e nem sabe quando erra, porque que errou. Então os professores falaram o quê? Vamos chamar os alunos, a prova agora é oral. Mas tem um aspecto mais interessante aí quando a gente está pensando em prova oral. Primeiro ponto, que a gente não pode esquecer, é que falar é muito diferente de escrever.

Eu e vocês sabemos muito disso aqui, né? Todo mundo olha pra gente e fala Ah, vocês têm muita facilidade pra falar Certamente vocês vão ter facilidade pra escrever Nem sempre, né? Porque são dois modelos de comunicação

São linguagens diferentes. Isso, exatamente. Linguagens e formas de organização do pensamento muito distintas, que cobram habilidades diferentes também. O Jack Goody, que é um antropólogo inglês que só viveu a vida toda tentando pesquisar essa coisa da fala e da escrita.

Ele vai dizer que a escrita cobra da gente uma habilidade gigantesca de controle, porque você consegue escolher cada palavra que você vai usar, como é que você vai apresentar a ideia. Então, você tem um controle e um controle sobre a expectativa que o leitor vai ter sobre o teu próprio texto.

Mas o Jack Good vai dizer também que quando a gente escreve, a gente tem uma capacidade de elencar ideias e de criar sequência de ideias de um jeito que a fala não cobra da gente. Então, escrevendo, você está preocupado com o controle daquilo que você imagina que a audiência vai receber o teu texto e como é que você vai apresentar aquela ideia de forma contextual.

Quando a gente está falando, a dimensão das habilidades são outras. O primeiro ponto que o Jack Wood vai colocar é que a gente precisa construir um discurso apropriado. E o que é um discurso apropriado? É aquele que conversa com o contexto. Então, a gente modula muito facilmente, desde que a gente é pequeno, a nossa fala, de acordo com o contexto.

Então, quando eu falo com a minha mãe, igual eu estou falando com vocês, quando eu falo com vocês é diferente de quando eu estou falando com o presidente da República. Quando eu falo com o presidente da República é diferente, sei lá, do que quando eu estou falando com os meus alunos. Cada lugar a gente tem a chance de modular, o que a escrita não permite. Isso é uma habilidade muito importante que os professores estão medindo.

Porque no mundo dominado pelas máquinas, a tal da comunicação contextual vai ser o nosso principal atributo, porque a máquina ainda está com dificuldade de fazer isso.

Mas tem outras três habilidades que a comunicação verbal cobra da gente que as máquinas não conseguem fazer ainda, que é um baita atributo quando a prova oral é trabalhada bem e de forma que desenvolva esse negócio nos alunos. Segundo ponto, como já coloquei, é modulação. E modulação é o quê? Não só é estar atento ao contexto ao qual você está submetido, mas ficar atento quem é esse outro para quem você fala.

Então, quando eu estou falando, ao contrário de quando eu estou escrevendo, eu consigo ir percebendo que hum hum é esse que vocês fazem, o silêncio de vocês, a reação da audiência, aquilo que eu estou dizendo, para tentar ir modulando aquilo que eu estou falando para medir se aquilo está sendo entendido por aquele que me ouve.

Então, modulação é uma habilidade importantíssima. Mas tem um segundo aspecto importante também, que é diferente na fala, que é muito mais... Que é diferente na fala em relação à escrita. E que é muito mais desenvolvido na fala, que é a habilidade de persuasão. Quando você escreve uma petição, se você é advogado, um texto opinativo, se você é crítico, literário, sei lá, ou um artigo científico,

Você domina a persuasão, que é a forma como você vai elencar aquelas ideias. Quando a gente fala, o índice ou o grau de investimento em persuasão é infinitamente maior. Porque eu preciso falar para ser ouvido, eu preciso falar para ser entendido e eu preciso falar de certo modo para fazer com que o outro entre em diálogo com as minhas ideias.

Isso é uma habilidade dificílima, que as máquinas também não estão conseguindo resolver. Não à toa, quando a gente olha uma inteligência artificial lendo um texto, a gente não aguenta mais de 10 segundos, né? O troço enche o saco logo. Porque falta isso nas máquinas. E o terceiro ponto é criatividade, né? Que é muito importante quando você fala.

Se um texto, você tem uma criatividade prévia, na hora que você vai estruturar ele, depois você entregou, você não pode mais fazer nada, tá dado. Na fala, a gente vai recriando o nosso texto em pleno diálogo com as pessoas que estão ouvindo a gente. Então, gente que fala bem, e aí vocês dois são dois mestres nisso,

É gente que, lê aí a pauta que está na tua frente, mas consegue, na medida que vai falando, recriando aquele texto, ao ponto de, se não foram vocês que escreveram o texto que baliza o jornal, vocês viram com autores, porque vocês criam junto com quem escreveu.

E isso é muito importante, muito importante quando a gente está pensando em comunicação. E isso é muito legal, porque eu acho que nunca ouvi ninguém falar com tanta clareza, teorizar com tanta clareza algo que a gente faz aqui com tanta espontaneidade todo dia. Obrigada, Michel. Tem uma questão prática, porque aqui... Manda para o chefe e cobra caro.

isso aí é importante. Olha, uma questão prática, aqui no estúdio, eu e a Tati, a gente nós dois juntamos a pauta, e aí um pega a pergunta do outro, no momento que acha ideal, assim, ninguém é de ninguém, vai lá faz o que você... Uh, que loucura! E aí, e funciona, e mesmo assim funciona Funciona. É, mas olha que bonito que é isso, na hora que você pega uma pergunta que Tati fez, ou Tati pega uma pergunta sua, e você faz, você faz com teu tom e com a sua embocadura. Isso!

E eventualmente com o repertório dele. Isso, e aí vira tua também. Então é criativo, né? Então todo mundo se sente participante desse negócio. E aqui não tem nada. Olha, tem participações interessantes. A Cintia conta que o Abitur... Sabe o que é o Abitur? Não, o que é isso? Eu tive que pesquisar, também não sabia. É o exame final do ensino médio na Alemanha.

Ah, tá. É mais ou menos o método utilizado nas provas do Abitur alemão. O aluno dá uma aula sobre o tema e os professores ficam fazendo perguntas. Ótimo. Duro é falar alemão, o resto é fácil. O Ailton fala assim, a avaliação de percepção musical também tem prova oral. Como identificar intervalos melódicos ou células rítmicas.

Isso é muito bonito. Porque quando você olha alguém que é bom de comunicação, vocês dois são dois mestres nisso. E muito diferentes, né? Pra além da habilidade que vocês têm de não gaguejarem, de usar aquele monte de caco que gente normal usa, por aí vai.

Vocês têm baita pontuação, né? É uma forma de pontuar diferente do que pontuar do texto. Que não é uma pontuação só com a respiração. É uma pontuação da forma como você divide as palavras que vão dar uma baita identidade pra você. E é isso que dá ritmo, né? Que é isso que dá o jeito que só Tati fala, só Fernando fala. Ah, legal demais. Eu fiquei só pensando em quem é tímido. Pra voral deve ser difícil, né?

Vou dar um exemplo prático. Cauê, meu filho, 15 anos, machucou o braço. Aí a diretora falou assim, não tem problema, vem fazer prova oral. Pânico. Fez uma, não quis voltar mais. Não, não, não. Eu faço substituto. Não, não, não. Tadinho. Deve ser duro, hein, Michel? Porque aí a comunicação pode ser prejudicada pela timidez, né? O cara pode ser ótimo, a garota pode ser ótima.

É, é. Mas a escola é dura mesmo, né? É, a vida. A vida é difícil mesmo. A vida é dura, é isso aí. A escola é muito dura. E aí peço milhões de perdões aos pedagogos que devem estar ouvindo a gente. Eu sempre duvido de criança que diz que ama a escola.

Porque a escola é um período duro, óbvio que é um lugar de aprendizado, de sociabilidade, de formação, mas a escola tem um papel muito importante que é a socialização, né? E a socialização, ela é um movimento de castração desse eu que você é em torno de um eu que precisa viver em sociedade. Então a escola é dura mesmo, né?

Eu sempre pergunto para os meninos, qual foi o melhor momento da escola, o intervalo? Ai, gente, ninguém fala que foi aula de literatura, né? Que foi a, sei lá, a fórmula nova de física, ninguém fala isso. É, o futebol, tá bom. Michel Conforado conosco às segundas, quartas e sextas-feiras aqui no nosso Estúdio CBN em Pra Onde Vamos. Beijo, Michel, obrigada por hoje, até quarta.

Beijo até quarta e obrigado por tanto que eu aprendo com vocês. Obrigada a você. Beijo. Tchau, tchau.