Duplo negativo faz diferença?
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- Duplo negativo em línguas neolatinasUso de duplo negativo · Discurso de Caetano Veloso
- Exemplos em CançõesEdu Lobo · Vinícius de Moraes · Elis Regina
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A nossa língua de todo dia, com o professor Pasquale. Oi, professor. Boa tarde.
Boa tarde, Tatiana. Boa tarde, Fernando. Boa tarde, ouvintes. Essa história do dia do beijo me faz lembrar um episódio ocorrido há muito tempo numa universidade aqui da cidade de São Paulo, tida como conservadora. Dois alunos foram suspensos porque foram apanhados no pátio da escola beijando-se.
E aí, por incrível que pareça, a garotada solidária marcou a noite do beijaço. E foi uma beijação sem parar. Que delícia.
E aí, a tal da universidade enfiou o rabo no meio das pernas. E ótimo. É isso. Vivo beijo. Vivo beijo. Professor, hoje, Pedro Júlio, de Maceió, ele fala assim, costumo maratonar os episódios de A Nossa Língua de Todo Dia, enquanto treina na academia. É uma maneira de...
de se engrandecer duplamente, diz aqui. Há muito tempo, o senhor falou que duplos negativos são muito comuns em línguas neolatinas e que não fazem diferença coisa alguma ou nenhuma coisa. Não há de ser nada. E aí na oração, ninguém nunca esteve numa sala vazia, o duplo negativo faz toda a diferença, certo ou não, professor? Não!
Não. Por quê? Bom, mais uma vez eu digo que português não é inglês. Quem estuda inglês se vê diante dessa coisa, porque em inglês a coisa funciona de um outro jeito, a dupla negativa tem outro valor. E é sempre bom reforçar que em português, em italiano...
Em espanhol, negar duas vezes não quer dizer afirmar. Não vi ninguém, não quer dizer que eu tenha visto alguém.
Não vi ninguém, não e ninguém. Não vi ninguém quer dizer que eu não vi. Que eu realmente não vi ninguém. Que eu não vi pessoa alguma. Non ho visto nessuno, em italiano. Nessuno, que é ninguém. E non, esse começo da frase é não. E acontece a mesma coisa. No evito a nadie, em espanhol. Ai, que idioma maravilhoso.
Sim, nadie em espanhol é ninguém. E por aí vai, então não há problema. Agora, a pergunta que ele faz é específica, em relação a um caso de ninguém nunca.
Ninguém nunca esteve numa sala vazia. E aí alguém pode ficar encucado. Mas e ninguém nunca? Ninguém nunca esteve numa sala vazia. Ninguém nunca é uma construção da língua. E eu fui separar. Na hora, quando li essa mensagem, na hora eu me lembrei de uma coisa. Eu falei, será que lá naquele famoso discurso que o Caetano proferiu no Tuca,
Teatro da Universidade Católica, no dia 15 de setembro de 68, 68, veio-me isso à cabeça, eu disse, eu acho que nesse discurso ele usa essa construção. Aí lá fui eu ouvir o discurso, que é imenso, tem muitos minutos, é um discurso maravilhoso. E lá, pelas tantas, ele diz o que a gente vai ouvir agora. Vamos lá.
Ai, meu Deus.
Vocês jamais não serão ninguém. Vocês são iguais, sabe a quem? Vocês são iguais, sabe a quem? Tem som no microfone? Vocês são iguais, sabe a quem? Aqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores. Vocês não diferem em nada deles. Vocês não diferem em nada. E por falar nisso, viva Cacilda Becker! Viva Cacilda Becker!
Estou comprometido em dar este filme aqui. Não tem nada a ver com vocês. O problema é o seguinte. Vocês estão querendo policiar a música brasileira. Mas é americana. Mas é o Gil já abriu esse caminho. O que vocês querem? Eu vim aqui pra acabar com isso. Eu quero dizer ao júri. Me desclassifico. Eu não tenho nada a ver com isso. Nada a ver com isso. Gilberto Gil. Gilberto Gil está aqui comigo.
Nós só entramos em festival pra isso. Não é fingirmos, não fingirmos aqui, desconhecermos que seja um festival, não. Ninguém nunca me ouviu falar assim. Entendeu? Só quer dizer isso, baby. Sabe como é? Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas. E vocês, e vocês, se vocês forem, se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos.
Essa é a frase mais antológica. Se vocês forem em política, como são em estética, estamos feitos. Ele se referia diretamente à plateia, uma plateia composta por gente de classe média. Eu tenho uma vontade louca de enfiar uma consoante aí na palavra média, que vaiava.
Estreptosamente Caetano Veloso, pela música É Proibido Proibir, ele e os mutantes, quem está tocando aí são os mutantes. E o público não entendeu nada, Gilberto Gil também tinha se apresentado e tinha sido desclassificado pela música que pirou a cabeça de todo mundo. Mas lá pelas tantas o Caetano diz, vocês ouviram, ninguém nunca me ouviu falar assim.
Ninguém nunca me ouviu falar assim. Essa forma, ninguém nunca, é perfeitamente possível, é da língua, é um reforço negativo absolutamente usado, comum, registrado e por aí vai. E por falar nisso, como é que está nosso tempo? Dá tempo do próximo auxílio? Dá sim.
Vamos lá. Então a gente vai ouvir uma canção antológica de 1965, antes desse discurso do Caetano, uma obra-prima composta por Edu Lobo, que era um menino nessa época.
Edu Lobo é o autor da melodia e a letra é do poeta Vinícius de Moraes. Quem vai cantar para a gente é Elis Regina. Eu vou apresentar a canção duas vezes. A primeira parte é por uma razão que não tem a ver com ninguém e tal, não sei o quê, mas vale a pena a gente citar. E depois a gente vai ouvir a segunda parte que tem a ver com o nosso assunto. Vamos ouvir a primeira parte de Arrastão.
Elis acompanhada pelo Jongo Trio. Vamos lá.
E aí, professor? E aí que esses sites de letras tomam um banho, meu Deus do céu. Vocês ouviram aí, né? Jovem!
Joviu, é já ouviu, e aí vira joviu, o Vinícius assim escreveu para caber na melodia, ele coloca lá um apóstrofo, j apóstrofo ouviu, já ouviu, joviu. Nos sites de letras isso aparece de tudo.
Seja dita, há um site que escreve quase direito isso, não é direito, mas quase direito. Agora sim, vamos ver a segunda parte que contém aquilo que nos interessa em relação à dúvida do nosso ouvinte. Vamos ver.
Quero me casar com Xanaína Evo já vem devagar Evo já vem devagar
A rainha do mar Vem, vem na rede
É de arrepiar, né? É de arrepiar. É bonito demais. Edu Lobo tinha 22 anos quando compôs essa melodia. Vinícius já era um senhor. Quando escreveu a letra.
diz a letra nunca, jamais se viu tanto peixe assim. Nunca, jamais. É uma expressão antiga na língua portuguesa, milhares de exemplos populares e literários, expressão catalogada, se você procurar no AIS, na palavra nunca.
Você vai ver lá em locuções nunca jamais, com o sentido de em absolutamente nenhum tempo ou circunstância. Sua vida nunca jamais será a mesma. Então, não se preocupe com isso, meu caro ouvinte, cujo nome é Pedro Júlio da Costa Mota, lá de Maceió, Alagoas.
E obrigado pela mensagem. É isso. Viva Elis Regina, viva Edu Lobo, viva Vinícius de Moraes, viva Caetano Veloso, viva o Brasil Inteligente. É isso. Beijo, professor. Obrigada. Até amanhã. E viva o beijo. Viva. Beijo para vocês. Beijo. Um bacho.
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