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'Maternidade deixou de ser apenas destino esperado e passou a ser uma escolha atravessada por dúvidas'

10 de abril de 202615min
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O crescimento dos diagnósticos não é só uma questão médica. É também cultural. Entre avanço científico, busca por pertencimento e lógica algorítmica, estamos redesenhando o que significa “normal”, e isso tem implicações profundas. Porque se a neurodivergência é a nova identidade desejada, a busca por um diagnóstico deixa de ser uma necessidade médica e se torna um marco social.

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Participantes neste episódio2
M

Maria Cristina Fernandes

HostEspecialista
M

Michel Alcoforado

ConvidadoAnalista
Assuntos1
  • Paternidade e MaternidadeImpacto da maternidade na carreira · Pressão social sobre mulheres · Taxa de natalidade no Brasil · Relatos de mulheres sobre maternidade
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Foguete. Pra onde vai esse foguete? Com o Michel Alcorporado. Oi Michel, boa tarde.

Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Boa tarde. Você tá doido também? É alegria estar aqui na sexta, hein? Ô, você está com você? Outro nível, né, meu amigo? É, o clima é leve, assim, né? Toca música, entrevista a Gabriela Biló. Só trabalhamos assim. Porque o Brasil e o mundo estão bem tranquilos, não é mesmo? Não tem a ajuda do filho do Fernando mandando perguntas. Não tem a ajuda do filho do Fernando. Quem trabalha de sexta é desorganizado. É, mas ó, justiça seja feita.

Ninguém vai chegar mal informado nesse sexto aí, não. A informação aqui, ó, é em cima da hora. Porém, com umas descontrações, não é mesmo? Eu, inclusive, a gente tava falando aqui da missão Artemis e da playlist que acordava, né? Os astronautas e tal. Lembrei de uma música da CEL que diz mesmo não sabendo nem pra onde, nem porquê, a nave vai levantar voo.

Eu achei que podia ser a música de ilustração do Pra Onde Vamos. Porque a gente sempre tem muitos caminhos e não sabe bem pra onde a gente tá indo, né? Vamos lá, Michel. Você sabe que eu voltei a dar aula esses dias. É. E aí, muito legal, você entra em contato de novo com os meninos com 19, 20 anos, 22 anos.

E aí, com muita interrogação diante da vida e muita fome de viver, e a primeira coisa que eu falei quando fui lá da minha primeira aula era gente, olha, a gente não precisa saber pra onde tá indo e você não precisa ler as coisas e achar que vai entender. A gente só precisa ler. A gente só precisa ir na exposição de arte, ver a arte, a gente só precisa ver o filme, ver o filme. A gente precisa ouvir o comentário aqui, ganhando mais interrogações na cabeça, sem achar que vai sair com grandes respostas. Porque isso já é aprender também. Então, eu curto demais essa viagem.

Muito bom. Legal. Bom, o Michel trouxe um livro sobre o qual a gente deve conversar aqui e tem a ver com uma decisão que é um dilema na vida de muitas mulheres que é ter ou não ter filhos. Lá vamos nós.

Então, eu pensando no clima leve de sexta-feira, eu falei, cara, se a gente não começa a trazer alguns livros que o mercado editorial brasileiro está empolvorosa, a gente cresceu o número de leitores no ano passado e também de publicações, então a gente está subindo a rampa de novo. Eu fiquei muito animado de transformar esse comentário na sexta como um espaço para a gente discutir não livros de literatura, como belamente nosso amigo Godói faz.

mas trazer alguns livros que trazem temas que eu acredito que são puljantes dentro da sociedade brasileira. E hoje eu queria trazer um livro que acabou de ser publicado pela Editora Assistante, que é o livro da Ruth Manos. A Ruth Manos, para quem não conhece, além de ser uma advogada brilhante, que tem uma atuação muito importante no meio jurídico,

Ela foi, durante muitos anos, colunista do jornal Estado de São Paulo e também colunista do jornal público em Portugal. E com uma atuação muito importante também nas redes sociais, ela, através dos seus livros e nas redes, vem debatendo temas que são centrais à sociedade brasileira, mas também, sobretudo, às mulheres. Eu digo que ela é uma pensadora das questões do feminino e do feminismo de um jeito dela, superinteressante e instigante.

E ela acabou de lançar esse livro, que como Tati já anunciou, se chama Ter ou Não Ter Filhos, que é uma dúvida que, de algum modo, mesmo as mulheres mais decididas, aquelas que ou já sabem desde sempre que querem ser mães, ou aquelas que decidem desde sempre que não querem, chegam, em algum momento da vida, a ter de responder para si mesmas e para os outros também, esse é um problema, se serão mães ou não, se vão querer ter filhos ou não vão querer.

E a Ruth traz um livro muito interessante, com dados estatísticos e relatos de mulheres que passaram por esse crivo da escolha, para tentar responder que mudança foi essa no Brasil que aconteceu, que de 1960 para cá, a gente saiu do 6 para 1. Não é só no mundo do trabalho, não. É na taxa de natalidade também. Nos anos de 1960, a gente tinha uma taxa média de natalidade acima de 6 filhos por mulher.

E hoje, quando a gente olha para as mulheres brasileiras, essa taxa de natalidade está em 1,7. Então, é uma queda abrupta para pouco mais de 60 anos. E esse movimento é interessante porque, através dos relatos, a Ruth vai percebendo que a maternidade deixou de ser vista como algo natural no Brasil, quase uma imposição que era colocada...

Oi? Desculpa, eu estou aqui comemorando. Ufa? É, ufa. Então, deixou de ser algo visto como isso natural e as pessoas, as meninas tinham que aceitar isso quase como se fosse uma imposição e se transformou em uma escolha.

Só que a Ruth, como ela é muito sábia, ela sabe que essa escolha não é só individual. Ou ela não é só fruto do gosto. Gosto ou não gosto de ter filhos? Do desejo da mulher. Gosto ou não gosto de criança. É, porque toda vez que uma mulher diz que não quer ter filhos...

o outro interlocutor sempre parte do pressuposto que ela não gosta de criança. E aí é uma pergunta boba, né? Porque, primeiro, se você tem um filho e ele é a criança em algum momento, ele vai crescer, ele vai virar adulto. Então, por que a gente não se pergunta, ué, você não gosta de adultos também, né? Porque o filho vai te acompanhar ali o resto da vida, se tudo der certo. Mas há um outro aspecto interessante também, que ela vai mostrar, que essa escolha não é individual, porque esse processo de decisão está atravessado por questões estruturais.

que são questões do impacto da maternidade na vida dessas mulheres, mas também do impacto da maternidade na carreira dessas mulheres. E aí, eu quis trazer aqui, em diálogo com o trabalho da Ruth, uma dissertação de mestrado de uma outra mulher interessantíssima, que é a Maria Joaquim de Medeiros. Ela defendeu uma tese de doutorado na PUC do Rio de Janeiro, discutindo sobre a penalidade da maternidade no mercado de trabalho.

E eu acompanhei a leitura dessa pesquisa, que trata de dados de 2007 a 2018. E ela se debruça sobre as informações disponibilizadas pelo IBGE, pela PNAD.

E ela chega à conclusão, há dados que me chocaram. O primeiro ponto é que mães com filhos, ou seja, mulheres com filhos, mães, em geral, ganham 25% menos do que homens. 37% delas são mais afetadas, não só no impacto salarial, porque não ascendem na carreira do mesmo modo que os homens, elas ficam para trás nesse processo de promoção, então não viram chefes, não viram diretores, não viram CEOs e por aí vai.

mas também elas são marcadas fortemente por uma estabilidade na carreira, que vai impactar não só na saída delas no mercado de trabalho, mas também numa estabilidade que vai atravessar o dia a dia delas no mundo do trabalho.

E um outro dado interessante também, que ela vai mostrar, é que dentro desse jogo, as mulheres têm uma queda salarial porque a maternidade, boa parte das vezes, tira elas desse emprego onde elas engravidaram e aí quando elas se reinserem no mercado de trabalho, elas voltam ganhando menos.

Então, há uma série de aspectos aqui que estão para além da escolha individual, como se a gente, não, as mulheres colocassem o dedo dentro da boca e esperassem para onde está batendo o vento para decidir se vão ou não ter filhos.

Essa é uma decisão, obviamente, que deve caber à mulher, né? Ou à mulher junto com esse parceiro ou parceira. Mas ela está atravessada por uma série de aspectos que tanto na parte negativa quanto na parte positiva, que a Ruth mostra também que é um momento de muita alegria, satisfação, amor, um amor desmensurado, uma coisa impressionante. A gente tem muito da cultura e da sociedade aí. Então, vale a pena ter ou não ter filhos, Ruth Manos, eu indico.

Muito bom, muito bom. Mulheres estudam mais e ganham menos, trabalham mais porque acumulam funções, não tem creche para deixar as crianças enquanto trabalham, licença paternidade, apesar de ter sido ampliada recentemente no Brasil, continua sendo ridícula comparada a outros países.

foi aumentada de 5 para 20 dias gradualmente, porque onde já se viu abrir mão da força de trabalho do homem, não é mesmo? Até 2029, a decisão de ter ou não ter filhos, ela é, sobretudo, ou deveria ser, levando em conta tudo isso, circunstancial e coletiva, o que pode ser muito estranho quando a gente fala sobre ter filhos. O impacto que a maternidade tem é coletivo.

É. E, Tati, acho que o livro da Ruth tem um ponto positivo, que é muito interessante, sobretudo para as mulheres que estão atravessando esse momento, porque ela, com muita sabedoria e com uma linguagem fácil que motiva as pessoas a chegarem até o final do livro, ela coloca todo o impacto negativo, mas ela também ressalta que o vale a pena, sabe? Que é a percepção de mulheres que, depois que atravessaram a maternidade...

sentiram ou viveram experiências que elas têm plena consciência de que se não tivessem enfrentado esse período ou essa decisão, não viveriam. Então, o livro Equilibrado traz um olhar para o debate, acho que traz a discussão sem nenhum exagero para o debate público, para mulheres que não estão querendo ler nenhuma tese doutorado ou nenhuma pesquisa.

aprofundada, com números, mas sim um debate estruturado, bem equilibrado sobre esse assunto. Então, as nossas ouvintes que estiverem ou passando por isso ou conhecendo alguém passando por isso, eu acho que é um bom ponto pela capacidade dela de mostrar como a questão é complexa, como ela é estrutural e como ela é permeada como boa parte das coisas da vida.

com pontos positivos e negativos, e o que torna a escolha ainda mais difícil. Só uma questão, quando a gente olha agora a sociedade atual, você acha que aquela pressão diminuiu, a autonomia está mais evidente? A tia do Zap não fala mais assim, ah, não vai ter filhos, você acha que isso diminuiu? Não, não, a Ruth vai mostrando que é um inferno, né? Continua o inferno? É, e aí o inferno...

É um inferno, é um inferno porque, na medida, duas pressões se colocam muito fortemente sobre as mulheres, né? A primeira delas é a pressão da idade. Então, não importa o estado civil dessa moça, em algum momento a família, a sociedade, e aí eu falo a família porque é a tia do zap, a mãe, a avó, a prima, a amiga, o homem da padaria, o cara do Uber, o teu chefe no trabalho, você vai fazer uma entrevista, já te começam...

já começam a te atormentar com a pergunta fatídica que é e aí vai ter filho ou não? Então, a cobrança se impõe como um ponto importantíssimo. E ela vai mostrando que isso vai transformando a escolha quase como uma ansiedade contra o tempo, né? Porque você não tem o tempo de ah, vou ver como é que a questão se apresenta para mim.

Como acontece para os homens, né? Que como não tem algum impeditivo biológico mais claro, como o fim da ovulação, os homens podem tomar uma decisão na idade que usualmente os homens viram pai, mas essa escolha pode ser alterada de acordo com as circunstâncias. Um novo casamento, um novo amor, uma mudança completa de vida, uma transformação no jeito de estar no mundo.

E as mulheres não. Então, é uma escolha com cronômetro, sabe? Programa dominical na TV Globo ou em qualquer outra rede de TV que tinha aquela coisa, tome uma decisão em 10 segundos. É cruel demais. Elas são atormentadas por isso. O que é perverso demais, né? Então, melhorou porque não é mais imposição, é uma escolha, mas não é uma escolha.

com toda a liberdade como a gente gostaria de imaginar. Ela é uma escolha pressionada pelo tempo, pressionada pela sociedade e pressionada pelo custo, que hoje é infinitamente mais claro, temos consciência disso, que essas mulheres vão ter que pagar quando escolhem esse caminho, fazem essa trajetória.

mulheres não, vidas de mulheres não mães importam, viu, Michel Alcoforado? É. Porque tem isso também, passa a vida inteira incutindo na gente que a gente só vai ser completa se tiver, a nossa existência só vai ser completa se tiver um filho e bobagens como essa, das quais a gente também tem que se livrar pra conseguir examinar esse desejo e essas circunstâncias com ceticismo, né?

E acho que tem um outro aspecto interessante também para complementar o teu ponto junto com a pergunta do Fernando, é o saber médico também atuando nesse momento. Boa parte das vezes, a ginecologista, por conta da sua visão de mundo, não consegue entender a decisão dessa mulher. O médico obstetra não consegue entender a decisão dessa mulher. A enfermeira, o psicólogo.

o terapeuta, a massagista, sei lá. E aí, para além da tia chata, que só tem uma pressão familiar sobre você, a gente vê profissionais unindo um saber da ciência junto a uma perspectiva pessoal para pressionar a gente que pode tomar decisão que quer sobre a própria vida. Eu tenho repetido sempre que viver já é tão difícil, a gente precisa fazer uma escolha que caiba para a gente. E essa escolha pode envolver o fato de ter filhos ou de não ter. Perfeito.

Michel Coffrado, conosco as segundas, quartas e sextas e sabe o que ficou legal? se você vai trazer um livro cujo assunto a gente vai conversar aqui na sexta o Zé Godói agora é às quintas, então quer dizer a gente vai ter dois dias de grandes nomes aqui do nosso time falando sobre boas leituras para os nossos ouvintes, nada mal, gostei demais gostei demais, Michel e Patrícia Cobucci agora tá aqui out воз воз

4h20, daqui a pouquinho. Maravilha, eu já vou ficar aqui pra esperar que eu sou fã da Patrícia. Faz isso. Um beijo, Michel, bom fim de semana. Até segunda. Um beijo e até segunda. Tchau, tchau.

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