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Qual o papel da China nas discussões da trégua no Oriente Médio?

09 de abril de 202610min
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Marcelo Ninio aborda o papel dos demais países envolvidos nas negociações de trégua entre os Estados Unidos e o Irã, como Paquistão e China, e o que eles têm a ganhar ou perder com alianças políticas e as mudanças nos mercados financeiros pelo mundo. Ouça.

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Participantes neste episódio1
M

Marcelo Ninio

ConvidadoEspecialista em geopolítica
Assuntos1
  • Relações China-EUARelações China-Irã · Mediador Paquistão · Interesses econômicos da China · Influência diplomática da China
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CDN pelo mundo, com Marcelo Ninho. Com a gente diretamente de Pequim, na China, está Marcelo Ninho. Oi, Marcelo, bem-vindo mais uma vez. Tudo bem?

Oi, Fernando, tudo bem? Saudações de uma Pequim cinzenta hoje. Tem tempo e temperatura em Pequim? 10 graus e a primavera insistindo em não chegar. Vai chegar, vai chegar.

Nírio, é o seguinte, a gente já viu que foi o Paquistão o mediador principal nesse cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã. Inclusive, vai ser no Paquistão a reunião com todo mundo nesse final de semana para discutir o fim dessa guerra. Mas tem um outro país que teve uma participação importante, que foi a China. Queria saber mais qual foi o papel da China nas discussões dessa trégua, Marcelo.

Pois é, Fernando, a gente tem visto, a gente já conversou aqui, que seja qual for o desfecho dessa guerra no Irã, a China tem sido apontada como um dos vencedores, do ponto de vista, digamos, da geopolítica mais ampla. Porque não só ganha politicamente, porque pode se apresentar como uma superpotência confiável em contraste com esse comportamento errático dos Estados Unidos, do presidente Donald Trump.

Mas também tem um ganho em termos econômicos, tem a valorização, provável aumento da busca por energias renováveis para escapar da dependência do petróleo, com essa crise, aumento do preço do petróleo. E essa é uma indústria de energias renováveis que as empresas chinesas são totalmente dominantes, seja veículos elétricos, turbinas de energia eólica, painéis de energia solar, etc. A gente já falou.

sobre isso aqui. E até a influente revista britânica The Economist, que está muito longe de ser pró-China,

na última edição, que a China está ganhando no erro dos Estados Unidos. Então, desse ponto de vista, a China já é vista como um vencedor dessa guerra, embora também tenha perdas econômicas, porque importa petróleo do Irã. Agora, do ponto de vista diplomático, o que sobressai nesse momento é uma peça, digamos, uma peça que faltava na ascensão da China como potência, que é a capacidade de...

mover peças do jogo geopolítico. E no caso da trégua obtida entre os Estados Unidos, o Paquistão foi importante nessa mediação, na comunicação, para conduzir as propostas entre os dois lados e para fazer esse elo. Mas não tem peso político para chegar.

aos finalmentes. Quem interveio e quem conseguiu o sinal verde dos iranianos ali no último minuto, quando o prazo dado pelo Trump já estava estourando, foram os chineses, segundo agências internacionais de notícias e até o próprio presidente americano. Ele disse que os chineses foram importantes para convencer os iranianos a aceitar.

Esse acordo. Isso, Fernando, também é um detalhe interessante, né? Porque é meio inusitado, porque sem ser perguntado numa entrevista ao presidente americano...

Trump resolve dar crédito para a China, que é o maior rival estratégico dos Estados Unidos. Então, supostamente tem a ver com a preocupação do Trump em manter vivo aquele plano de visitar a China, que ele visitaria a China no início desse mês, mas por causa da guerra do Irã ele teve que adiar, mas parece que é um plano que ainda está vivo.

E também um reconhecimento dos Estados Unidos que estavam precisando de ajuda para sair desse beco sem saída e precisaram da ajuda da China, principalmente para reabrir o Estreito de Hormuz. Foi interessante porque a China teve esse papel.

mas nos bastidores de fazer pressão ou de oferecer recompensa, a China tem uma relação próxima tanto com o Irã quanto com o Paquistão, o Paquistão tem uma dívida externa enorme com a China, então tem uma relação muito próxima e com os Estados Unidos também, mas então a China teve um papel.

nessa triangulação nos bastidores e mostrou uma ação política mais atuante que, em geral, por tradição, a China não gosta de ter. Mas está mostrando peso e, nessas circunstâncias, mostrou um papel decisivo, Fernando.

Agora, Marcelo, um pouco mais sobre essa parte diplomática da China. A China tem capacidade de resolver conflitos, mas tem limites. Até onde ela vai? Até onde ela pode se envolver ou deve se envolver?

Primeiro, a China não tem uma experiência de negociação muito longa, não tem nem apetite, nem experiência de negociação. A gente tiveram um envolvimento numa mediação que restabelece relações diplomáticas até entre o Irã e a Arábia Saudita. Há alguns anos teve um papel de outros países da região, mas a assinatura do acordo foi aqui em Pequim.

Mas não tem uma experiência e também não tem apetite. Por tradição, a China não se envolve diretamente em conflitos que não tenham a ver diretamente com seus interesses. Agora, tem duas coisas diferentes. É bom fazer a distinção. Primeiro, a China, o que ela quer fazer. A China, como eu disse, pela história, por sua tradição diplomática e até por temperamento, não tem esse ímpeto de se lançar em conflitos que não lhe dizem respeito diretamente.

É verdade que nesse caso há interesses em jogo, a gente já falou aqui, para a China, os econômicos, né? Seria bom para a China normalizar o fornecimento de petróleo iraniano, seria bom também normalizar a navegação no Estreito de Hormuz, não só pelo fluxo de pós, mas o comércio exterior em geral é muito importante para a China. Politicamente, o Irã é um parceiro fiel da China e não interessa a Pequim a queda do regime.

Não quer dizer que a China tem capacidade ou desejo de conduzir ou de mover a política iraniana, num momento desse, para um lado ou para o outro. Tem, como a gente viu nesse caso, uma capacidade de influência. A China tem também boas relações com os países do Golfo e não vai tomar abertamente o lado do Irã.

para correr o risco de comprometer esses laços econômicos com os países do Golfo, e alguns são rivais de Teheran, e aí tem uma capacidade de influir no resultado que também depende de outras decisões. Uma coisa...

é botar pressão ou oferecer, digamos, recompensas para que as negociações aconteçam. Nesse caso, parece que a China teve um papel relevante para que a trégua acontecesse, que essas negociações comecem no Paquistão no fim de semana. Agora, outra coisa é garantir o resultado delas. O embaixador do Irã aqui, até uma coisa nova que tem acontecido aqui, porque geralmente os embaixadores...

não falam nesses momentos. O embaixador do Irã, aqui em Pequim, tem dado entrevistas, tem convocado coletivos e disse que espera que países amigos, como a China ou o Irã, deem garantias de segurança para preservar a trégua. Então, o que significa isso? Na prática, significaria oferecer algum tipo de proteção, seja diplomática ou militar.

contra novos ataques dos Estados Unidos e de Israel. Agora, Fernando, da parte da China, o Irã pode ficar esperando. Acho que dificilmente terá esse tipo de garantia, que os analistas já disseram que dificilmente isso vai acontecer. A China é muito cautelosa nesse ponto. Claro, a China está se tornando...

mais influente politicamente e diplomaticamente. Esse conflito mostrou que a China está mais disposta a usar seu peso diplomático em disputas internacionais, claro, em determinadas circunstâncias. A gente viu que no caso da Ucrânia...

O caso da relação com a Rússia também é próxima, a China não tomou um passo tão decisivo. Agora, não arriscaria um confronto direto com os Estados Unidos, acho que ainda não. Isso oferecer garantia significaria correr o risco de algum confronto.

com os Estados Unidos e com Israel. Então, vamos ver primeiro como essa trégua vai evoluir, se a China vai ter algum papel nas negociações, provavelmente nos bastidores, como aconteceu nessa reta final agora para que os iranianos dessem sinal verde para a trégua. Os chineses atuaram nos bastidores e vão ter também contato com os mediadores chineses, com quem eles têm boas relações, também com o Irã.

E agora, esses são os limites de Pequim e eles não vão, não têm nem interesse em ir muito além. Só mais um detalhe, Fernando, sobre limites, né? Já a gente está falando de limites e como jornalistas e a gente dá informações, é importante lembrar, há também limites sobre o que a gente sabe, né? Porque está tudo meio assim como está hoje em Pequim, assim, coberto por nervos, por neblina.

E é bom lembrar que dos países envolvidos, três desses têm restrições à liberdade de imprensa de informação, Irã, China e Paquistão. Então, a gente continua acompanhando, mas não dá para saber o que a gente não sabe. Perfeito. Lini, mais uma vez, obrigado pela participação e até a quinta-feira que vem aqui no Estúdio CBN. Um grande abraço. Obrigado, Fernando. Até a próxima.

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