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Tratamentos com células-tronco reprogramadas recebem aprovação clínica no Japão

08 de abril de 202617min
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Células-tronco reprogramadas acabam de receber aprovação clínica no Japão para tratar Parkinson e insuficiência cardíaca, as primeiras terapias desse tipo na história. A tecnologia existe há quase duas décadas, mas uma combinação de obstáculos científicos, econômicos e morais manteve essa abordagem fora da clínica. Álvaro Machado Dias explica o que mudou e o que isso revela sobre a ciência que escolhemos financiar. Ouça.

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Participantes neste episódio2
Á

Álvaro Machado Dias

HostEspecialista
T

Tati

Co-hostApresentadora
Assuntos3
  • Aprovação de células-tronco no JapãoTerapias para Parkinson · Insuficiência cardíaca · Células-tronco pluripotentes · Desafios éticos e científicos · Impacto na medicina
  • Tratamentos e TerapiasTratamentos para diabetes tipo 1 · Lesão medular · Doença de Alzheimer
  • Desafios biológicos da terapia celularContaminação de células-tronco · Custo dos tratamentos · Estrutura necessária para implementação
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Visões do Futuro, com Álvaro Machado Dias. Oi, Álvaro, boa tarde.

Boa tarde. Álvaro hoje vai falar sobre células-tronco, as que foram reprogramadas, acabam de receber aprovação clínica no Japão para tratar doenças como Parkinson, insuficiência cardíaca. São as primeiras experiências, as primeiras terapias desse tipo.

Na história, é uma tecnologia que já existe há 20 anos, mas uma nova combinação manteve essa abordagem fora da clínica. Alguns obstáculos, né, Álvaro? Eu quero te ouvir sobre eles. O que é que mudou? O que é que isso revela sobre a ciência que a gente financia? Primeiro...

Se você puder, descreve para a gente como é que funciona esse procedimento. Vamos começar desde o começo. De onde vem essas células? O que é que é feito com elas em laboratório? Como é que elas são colocadas no cérebro do paciente? O que é que acontece a partir daí?

Claro. Vamos lá. O que a gente está falando aqui é que as terapias baseadas em células-tronco finalmente estão ganhando o mundo. Elas estão sendo esperadas há muito tempo e agora estão se tornando realidade, o que eu acho que é uma tremenda boa notícia. O ponto de partida é uma célula comum, uma célula do sangue ou da pele, de um doador.

Então, no laboratório, essa célula é reprogramada para voltar ao seu estado primitivo, como se ela voltasse à condição embrionária. Por isso que se chama célula pluripotente induzida. Aliás, isso aí rendeu um prêmio Nobel em 2012. Olha quanto tempo, até para a gente pensar quais são essas curvas de amadurecimento da ciência. 2012, 2026, 14 anos para que a gente veja essas coisas práticas. Mas vamos lá.

Uma vez que essa célula é reprogramada, ela é conduzida por sinais químicos para se diferenciar nos mais variados tipos de células. No caso do experimento e, na verdade, da terapia para a doença de Parkinson, elas viram neurônios dopaminérgicos, que é o tipo de célula que mais morre nessa doença.

Aí tem uma etapa de purificação, eliminação de contaminantes, essas coisas técnicas e, enfim, complexas. Mas, enfim, essas células são finalmente introduzidas no cérebro dos pacientes, especificamente numa área chamada putamen, através de uma cirurgia. A cirurgia envolve fazer pequenos orifícios no crânio e aí uma agulha customizada que é guiada por ressonância magnética, dessas que a gente deita numa cápsula.

e faz essa imagem do cérebro, ela atinge essa região. Dos dois lados, a gente tem dois hemisférios no cérebro, esquerdo e direito, a coisa acontece nos dois.

E aí, essas células são injetadas no caminho, em vários pontos, até 10 milhões de células. Tá aí? Parece que é muita coisa, mas o nosso cérebro tem mais ou menos 80 bilhões de neurônios. Então, a gente vai ver que é uma proporção muito pequena que é injetada. E olha que interessante. A mágica acontece desse momento em diante. Porque depois que essas células são injetadas, não precisa fazer mais nada. Elas...

se diferenciam, elas se convertem nesses neurônios que estão faltando e elas se conectam aos outros, formando essas redes neurais que a gente precisa para o cérebro funcionar direito por si só. Está aí a magia do negócio.

Essa é uma visão diferente da ciência. Não é que você vai programar tudo como se o cérebro fosse concebido como uma espécie de traquitana, de hardware. Não, você deixa lá para a biologia fazer a sua missão, por assim dizer. E olha que legal, esse trabalho japonês, ele começou com um estudo científico bem rigoroso daqueles publicados na Nature, que é a revista de maior prestígio da ciência mundial e tudo mais.

O que foi observado é que a quantidade de dopamina nessa região, chamada potâmen, aumentou em 44%. E os sintomas dos pacientes diminuíram. Ou seja, há sim efeito e também nenhum tipo de tumor, nada adverso rolando. Portanto, eu acho que a gente está realmente de frente a uma visão de futuro muito animadora.

Agora, tem uma questão que é a seguinte. Bom, o Japão aprovou no mesmo pacote uma terapia para insuficiência cardíaca. Ou seja, são dois órgãos completamente diferentes tratados pela mesma lógica. Isso abre caminho para lesão medular, para diabetes, para Alzheimer ou não. Qual que é a tendência?

Pois é, é interessante a gente ver isso, porque a cobertura principal foi sobre Parkinson, mas na verdade eles aprovaram duas terapias, e isso é sim sinal de uma transição em que terapias por célula-tronco, que são restaurativas, não são só tratativas.

elas tendem a proliferar, ou seja, a gente vai ter bastante disso. Só que é importante a gente pensar que cada caso funciona de um jeito, então não é que dá para esperar que daqui a dois anos todas as doenças crônicas vão ter tratamentos baseados em células-tronco. Isso não vai acontecer com toda certeza, mas há sim um caminho. Vou dar um exemplo da diferença, né? No caso do Parkinson, como eu falei, as células são injetadas diretamente no tecido cerebral.

A gente vai ali no putamen e coloca com agulha as células. Agora, na insuficiência cardíaca, funciona diferente. São criadas umas polhas, por assim dizer, que recebem essas células-tronco sobre o coração e não dentro dele. E elas, ali de fora, estimulam a formação de vasos sanguíneos e ajudam a restaurar a função cardíaca. Quer dizer...

O princípio é o mesmo, mas o procedimento é completamente distinto. E eu acho que, em geral, é assim. Cada caso vai exigir uma abordagem criativa. Muita coisa precisa ser pensada para dar certo. Mas a gente tem vários ensaios clínicos aí rolando. Então, por exemplo, tem uma empresa chamada Vertex Pharmaceutics.

que está com um estudo bem avançado com células-tronco, realmente muito poderoso, em diabetes do tipo 1. Então eles já têm várias coisas publicadas, têm um pedido de aprovação da patente do procedimento junto ao FDA, que é o órgão de saúde americano. Tem uma clínica muito famosa nos Estados Unidos, chamada Clínica Mayo. E há dois anos eles publicaram um estudo para lesão medular, que é um assunto que está super em alta hoje em dia.

E é super animador. Sete de dez pacientes tiveram melhora, assim, com células-tronco, que eu acho que é bastante, assim, é expressivo. No caso da doença de Alzheimer, é um pouco mais difícil, tá? Por quê? Porque você tem tanto, assim, beta-amiloide que está em torno das células quando você tem a proteína tal que é intracelular. Então você tem dois mecanismos e está todo mundo aí batendo cabeça com isso e talvez a questão seja que ela não se resolva com o transplante, talvez.

seja necessária a reprogramação das células em situ, lá no próprio cérebro, que é o próximo passo nessa história. Mas, enfim, as coisas estão avançando e a gente vai vendo descobertas que agora já se baseiam num princípio fundamental que todo mundo aceita e que já se mostrou realidade.

Sinal de que vai acelerar o progresso dessa parte da ciência médica. Que boa notícia mesmo. A medicina, do jeito que a gente conhece e vive, funciona na base do tratamento. Você vai ao médico, recebe um diagnóstico e um tratamento para lidar com aquele diagnóstico. E não raramente você tem que se medicar para o resto da vida.

As células-tronco prometem cura. A gente pode dizer que, então, elas vão ter claramente um impacto na indústria dos tratamentos? Elas se contrapõem, se opõem à indústria dos tratamentos ou é outra coisa, Álvaro?

Essa tensão existe sim, eu acho que ela é uma tensão importante e que envolve tratamentos farmacológicos e remédios, mas também esses dispositivos novos da neurociência. Então, por exemplo, dispositivos da Neuralink, do Elon Musk e outros mais, eles também são concorrentes dos tratamentos biológicos.

que dispensam você colocar hardware dentro do cérebro. Se a gente parar para ver, tem um quê de radical. É lógico que é algo que a gente deseja que seja só uma etapa no caminho à evolução em sentido a procedimentos mais orgânicos. Então, existe sim. E a gente tem que pensar que essa história toda está envolvendo muitos bilhões. Então, por exemplo, a levodopa para o Parkinson precisa ser tomada várias vezes ao dia.

O preço é alto para as formulações mais modernas. Realmente é um mercado de 7 bilhões de dólares. Olha o tamanho. Em Parkinson muitas vezes se usa um estimulador elétrico profundo chamado DBS. A máquina...

custa 150, às vezes 200 mil reais e tem uma bateria que precisa ser trocada. Então, assim, é uma indústria grande, tá? Quer dizer, é uma indústria de técnicas caras e também grande, cada vez maior, né? Lembrando que Parkinson é a doença neurodegenerativa que mais cresce hoje em dia. Então, você tem um conflito, assim, nesse sentido, tá? É como se uma alternativa a essas...

a essa indústria ganhasse força, mas a gente não pode ficar achando que a evolução dessas técnicas mais orgânicas, tipo células-tronco, veio sendo barrada pela indústria farmacêutica, essa coisa meio hollywoodiana. Isso é bobagem.

Não é verdade. Por quê? Porque se a gente olhar bem, um tratamento como esse hoje em dia custa 2 milhões de dólares, ou seja, mais de 10 milhões de reais para implantar as células no cérebro de um único paciente. Quer dizer, tem toda uma questão aí também de uma economia inviável nesse momento para...

generalização desses procedimentos que precisa ser levada a sério. Também tem o fato de que a ciência atual é muito pensada sobre a lógica da fragmentação. A gente pega um problema e quebra ele até ele ficar bem pequenininho. As células-tronco não, elas abordam de maneira muito mais holística o corpo. Você solta as células lá e o corpo faz a sua mágica. Princípios da evolução por seleção natural são considerados para esse tipo de coisa.

Então, ou seja, tem muita coisa de mentalidade aqui que não cabe dentro de um raciocínio persecutório de interesses que estão bloqueando o desenvolvimento da ciência. Mas sim, no médio prazo, tende a ser concorrente.

Agora, Álvaro, há uma preocupação com essas terapias em que o ambiente doente do corpo pode acabar atacando as células novas. Essa próxima geração de células-tronco, ela pode ser editada geneticamente para resistir a isso? Quão eficientes são essas células-tronco?

Então, esse é um problema sério, acho que também é outro limitador aqui da empolgação. Então, esses estudos de célula-tronco, eles têm 40 anos, tá? E na década de 1980 e 1990, na Suécia, foram feitos experimentos com introdução de células-tronco no cérebro para pacientes, justamente com Parkinson. A mesma coisa. Aliás, bom para a gente entender o curso da ciência. 40 anos atrás...

Tinha isso. Só que as células eram embrionárias diretamente, o que tinha um problema moral, ético envolvido. E esses neurônios, elas se converteram em neurônios e sobreviveram, na média, 20 e poucos anos. Quer dizer, uau, tem aí realmente um salto absurdo. Você botou o neurônio lá e ele viveu mais 20 anos. Só que, quando você vai ver como é que está esse neurônio, fazer análise pós-mortem, ou seja, o sujeito já morreu.

você vê que muitos desses neurônios, mais ou menos 10%, 15%, estavam contaminados com os chamados corpos de Lewy. O que quer dizer isso? Quer dizer que existe um tipo de proteína que afeta os neurônios na doença de Parkinson, faz eles morrerem e essa proteína chegou às células novas, os neurônios que foram estimulados pelas células-tronco. Então, não dá para dizer que existe uma cura definitiva.

antes de você ter um anticorpo que impeça essa contaminação. É mais uma coisa de você pensar que você tem aí uma repaginação em potencial que vale por décadas. Acho que a espera é de uma próxima geração de células-tronco, de tratamentos, que já surjam imunes a esse tipo de ataque que acontece. Ou seja, a gente tem que manter um certo ceticismo sobre o oba-oba, mas não deixa de ser muito interessante.

Álvaro, para a gente se despedir, você citou aí uma cifra cabeluda, né? Você acredita que o SUS pode incorporar esses novos tratamentos? Quão distante ainda isso está da nossa realidade? Uau, Tati, essa é a questão, né? Sempre essa é a questão. Quando é que chega para a gente? Sempre essa. Que importante, que bom que você trouxe isso. Eu acho que a gente...

vai incorporar a tendência natural que isso aconteça, tá? Inclusive o SUS tem uma mentalidade bastante avançada de ciência, rigorosa, mas também avançada no sistema de saúde brasileiro em geral. Ele é orientado a evidências científicas, hoje em dia é muito mais que o americano, curiosamente, mas a gente tem que ser realista sobre o tamanho do desafio. Olha só, a questão não é simplesmente custo.

É que esse custo surge de uma série de procedimentos que precisam ser estruturados antes. Então, por exemplo, você precisa de um laboratório para produzir essas células em grande quantidade. Você precisa de centros cirúrgicos, onde você tem esse equipamento para você fazer o mapeamento, o imaginamento do cérebro enquanto uma agulha de alta precisão.

insere células-tronco em lugares muito precisos. Tudo isso exige um parque tecnológico, né? Tem pouquíssimos desses centros no mundo. E eu acho que a gente tem que entender que há um caminho por aí. Tem uma outra coisa. As células usadas no Japão, elas vêm de um único doador saudável. Uma pessoa.

E no caso, a linhagem dessa única pessoa já cobre quase 20% da população japonesa. Aqui a gente tem que pensar que não vai ser tão simples. A gente tem aqui uma diversidade populacional maior. Então também tem uma etapa intermediária de encontrar...

o procedimento de extração segura, as linhagens certas, e aí sim a coisa avançar. Mas o Brasil tem neurocirurgiões fantásticas, realmente é competitivo nessa área, produz ciência de ponta, e biologia molecular aqui também é muito forte. Curioso, né? O Brasil ser tão bom em biologia molecular, ter pessoas...

tão brilhantes, né? E eu acho, portanto, que com vontade política, eu espero que esse nosso quadro aqui ajude para isso, é possível que num horizonte de médio prazo o SUS incorpore essas terapias, que vale notar, viu? Acho que o ponto central dessa pergunta aqui para fechar, que não pagam royalties de propriedade intelectual ou patentes para ninguém.

E não exigem uma continuidade cara com os tratamentos tradicionais, que eventualmente vão ser mais baratos na implantação, mas vão seguir custando para o Estado, para o resto da vida do paciente. Muito bom. Álvaro Machado Dias, conosco toda quarta-feira em Visões do Futuro. Obrigada por hoje, Álvaro. Um abração. Até a semana que vem. Eu agradeço muito vocês dois, agradeço todo mundo que nos acompanhou. E até lá, espero que com mais boas notícias. Obrigado, Álvaro.

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