Episódios de Comentaristas

Ultimato de Trump indica mudança de patamar na guerra com o Irã

07 de abril de 202615min
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O presidente dos EUA afirmou que 'uma civilização inteira morrerá esta noite' caso o Estreito de Ormuz não seja reaberto no prazo estabelecido por ele. Cristina Pecequilo alerta que ameaças de Donald Trump e as ações conjuntas com Israel aumentam risco de crise humanitária e até contaminação nuclear. Ouça a análise.

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Participantes neste episódio3
M

Maria Cristina Fernandes

Co-hostEspecialista
M

Michel Coforado

Anuncio
P

Paulo Vinícius Foelho

AnuncioJornalista
Assuntos3
  • Conflito Irã-EUAGuerra no Irã · Genocídio · Escalada militar · Infraestrutura civil · Crimes de guerra
  • Negociações de PazJay D. Vance · Acordo de cessar-fogo · Direita transnacional
  • Relações InternacionaisUnião Europeia · Alemanha · França
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CBN pelo mundo com Cristina Pessequilo. Cristina Pessequilo conosco toda terça-feira no nosso CBN pelo mundo. Oi Cris, boa tarde.

Oi, Tati. Boa tarde. Boa tarde, Fernanda. Boa tarde aos ouvintes. Bom, já estamos no assunto. Maria Cristina Fernandes trouxe aqui o que ela conseguiu de informação com um diplomata que atua no Conselho de Segurança da ONU a respeito das razões pelas quais China e Rússia vetaram a proposta do uso de força para a liberação do estreito de Hormuz.

A Cris volta a se debruçar nessa ameaça. Eu não consigo ler essa frase e achar que está tudo bem, vamos seguir a vida. Uma civilização inteira morrerá esta noite. Donald Trump está ameaçando a população iraniana, está ameaçando exterminar a população iraniana. Como bem disse o Fernando agora há pouco, é genocídio que chama.

Os Estados Unidos intensificaram os ataques à ilha de Karg, fizeram novas ameaças de ataque à infraestrutura iraniana. Quero te ouvir a respeito dessa fala assombrosa de Donald Trump e a escala militar. O que é que significam em termos práticos para a guerra?

É, nós estamos passando por um momento muito difícil, eu concordo com você, Tati, não dá para ler nenhuma notícia ou pensar sobre qualquer coisa envolvendo a guerra do Irã hoje que não dê para a gente um certo pesadelo e uma ansiedade, né? Porque a gente tem aí esse ultimato vencendo em breve, no horário de Brasília, às 9 horas.

e a gente fica observando essa escalada militar. Então, o que está acontecendo nesse momento? Quando a gente fala de um extermínio civilizacional, o que o Trump está querendo dizer? Que ele está simplesmente desrespeitando todo um povo dentro de uma civilização, uma civilização persa, uma civilização histórica, e aí ele acaba não diferenciando aquelas próprias pessoas que ele diz estar ajudando.

ainda que ele diga que está ajudando o Irã a sair de uma situação muito difícil. E a escalada militar, qual que é a nova etapa que eles estão fazendo? E isso Israel também está junto, a gente tem sempre que lembrar que é meio que uma guerra conjunta, ainda que os objetivos eles sejam.

diferentes entre Estados Unidos e Israel, existe uma convergência no campo das operações militares. Então, Israel continua atacando o Líbano, continua atacando o Irã, e aí essa fala indica que os Estados Unidos estão dispostos, junto com Israel, a atacar o que a gente chama de infraestrutura civil.

Então, o que seria essa infraestrutura civil? Redes de energia, estando aí incluídas, usinas nucleares, isso é algo que a gente tem que ficar muito preocupado, a gente está vendo reportagens sobre os riscos de um desastre nuclear.

não necessariamente você precisa usar arma nuclear para ter um desastre nuclear. Então, vamos supor que uma usina nuclear no Irã, ela seja bombardeada pelas forças americanas e israelenses. A gente vai ter o que se fala em inglês, que é um nuclear fallout. Ou seja, vai se espalhar uma nuvem de radiação pela região do Oriente Médio, podendo chegar a vários lugares. Então, a gente já teve tragédias nucleares, como Fukushima, Chernobyl. Então, esse é um aspecto.

E Israel também falou de atacar infraestruturas de transportes. Então, esse momento que a gente está vendo, veja, não chegamos no ultimato ainda, mas é um momento no qual o próprio governo iraniano está convocando pessoas a fazer redes, abraços em infraestrutura energética, infraestrutura de transporte.

para que fique claro que os Estados Unidos não estão atacando exército, mas estão atacando civis e uma infraestrutura necessária para a sobrevivência. Então, é realmente uma ameaça civilizacional no sentido máximo do termo. É muito triste o que a gente está vivendo nesses últimos anos no sistema internacional.

Cris, entretanto, o vice-presidente J.D. Vance fala que tem negociações em andamento. Na verdade, tem proposta, tem conversas, mas quais têm sido as reações do Irã e o ultimato, haja visto tudo que a gente já viu o Donald Trump fazer, pode ser adiado mais uma vez? Não, pode ser adiado, eu não desconsidero nada com o Trump, eu acho que...

Até essa fala do Jade Vance, depois se juntou mais uma fala do Marco Rubio, porque hoje meio que a gente está correndo atrás das atualizações, está tudo acontecendo muito rápido. O Jade Vance está na Hungria, ele é um dos principais negociadores do acordo eventual, acordo de cessar fogo, o término da guerra, e esse acordo já havia sido proposto a partir de uma negociação trilateral entre Estados Unidos e Irã.

E aí você tem esses dois atores e o Egito, a Turquia também envolvidos, né? E principalmente o Paquistão. Então, o que o Jay D. Vance fala? Olha, aquele 45 dias de cessar fogo que havia sido proposto inicialmente, ele está fora da mesa. O Irã hoje diz que não conversa mais com os Estados Unidos diretamente, mas a gente não sabe quem no Irã eventualmente poderia estar conversando.

com os Estados Unidos, à medida que o Trump, nesse mesmo ultimato, diz que ele está vendo uma mudança de regime, e o Jay DeVance e o Marco Rumbio dizem, olha, como o presidente falou, as coisas estão se encaminhando para uma resolução. Então, eventualmente, esse ultimato pode ser suspenso. Mas o que eu queria sublinhar para os nossos ouvintes é de onde Jay DeVance está falando essas coisas. Está falando da Hungria, aonde ele está lá para apoiar.

a campanha eleitoral do Victor Orban, reforçando aquilo que a gente sempre fala para os nossos ouvintes da existência de uma direita transnacional. Então, mostrando que dentro da Europa, os Estados Unidos sim apoiam alguns países, mas os países que se alinham com ele. Então, é todo um jogo de xadrez geopolítico que vai além do Oriente Médio, à medida que a gente tem aí uma crise energética muito forte na Europa.

E o Orbán é uma das vozes que é contra a política europeia, tanto no caso iraniano e tanto no caso da guerra russa-ucrana. Então é bem interessante como esse xadrez foi montado esses dias. Agora, Cris, o mundo caindo, o mundo está segurando a respiração por causa desse ultimato. Jade Vance está lá em Budapeste para fazer campanha e o Orbán está mal nas pesquisas. A eleição é no domingo.

exatamente, ele tá mal nas pesquisas e o Jade Vance foi lá pra dar uma forcinha, né e aí a gente pensa assim, vai dar uma forcinha ou vai afundar de vez a candidatura a gente não sabe é fã ou hater, né

Não, é simbólico que um vice-presidente americano esteja num outro país estrangeiro fazendo campanha para um líder que claramente é pró-Trump. Então, a gente vai anotando essas coisinhas na agenda porque é um ano longo, né, 2026.

Bom, enquanto isso, os Estados Unidos e Israel continuam promovendo ações militares no sul do Líbano. Essas ações podem ser entendidas ou podem ser enquadradas de acordo com o antigo direito internacional, que aparentemente ninguém respeita mais, como crimes de guerra, Cris? Ah, com certeza, Tati, ouvintes, a gente está vendo uma repetição.

de crimes de guerra desde a época que Israel está invadindo a faixa de Gaza. Então, o que a gente tem observado agora são novos crimes de guerra. Então, além daqueles que vêm já sendo cometidos, e aí a gente volta até para aquela primeira parte, que é o seguinte, quando você ataca uma infraestrutura civil e você corre o risco de tirar da população...

o acesso a políticas públicas que são necessárias à sua sobrevivência, como água e energia, e tem civis que estão sendo usados como escudos humanos, e aí também o Irã estaria cometendo um crime de guerra, a gente está vendo claramente uma violação ao direito internacional aí. Agora, como você falou, Tati, a gente viu, está vendo nos bastidores, né, de todas essas negociações multilaterais. Política hoje está se fazendo Estado a Estado.

organização multilateral, regime internacional, está completamente em segundo plano. O que a gente vê são efeitos demonstrativos, ou seja, países se manifestando contra as guerras, mesmo que sejam, nesses organismos multilaterais, mas tribunal penal internacional, Nações Unidas, estão com um papel muito menor. Mas sim, são crimes de guerra, e a gente precisa deixar isso claro para o nosso ouvinte.

Cris, tem um debate que tem crescido nos Estados Unidos que é o seguinte, é utilizar a 25ª emenda da Constituição para tentar retirar Trump da presidência. O que diz essa emenda e é possível, é viável, qual é a sua avaliação? Veja, aí a gente tem um problema, né, Fê, Tati, ouvintes, que é o seguinte, essa emenda, ela diz que o presidente dos Estados Unidos, ele pode ser retirado do poder.

Por que a gente tem que falar disso hoje? Porque está ocorrendo dentro da oposição, principalmente a oposição democrata, movimentos sociais nos Estados Unidos, então a gente tem alguns republicanos mais moderados também se manifestando, dizendo que o Trump não teria mais condições de ficar à frente da presidência. Então essa movimentação tem ido muito para a mídia, ela tem sido muito falada, só que qual que é o problema?

a emenda constitucional prevê, sim, a possibilidade de que você possa tirar um presidente caso ele esteja inapto para o cargo, ou seja, que ele esteja com algum problema de saúde, que ele esteja cometendo algum crime, por exemplo, um crime de guerra, ou seja, que ele esteja tendo um comportamento que não condiz com a Constituição dos Estados Unidos. Aí a gente nem está pensando em lei internacional, mas está falando realmente no comportamento daquele presidente.

Já tentaram fazer isso com o Trump, depois da invasão do Capitólio, em 2021, invocar essa cláusula constitucional, mas é aí que vem o nó da questão. Para você invocar a cláusula constitucional que tira o presidente do poder, isso tem que vir de dentro do governo. Quem teria que iniciar o processo? O legislativo, o vice-presidente teria que estar de acordo, porque ele que irá assumir.

E a situação política dos Estados Unidos hoje é de um vice-presidente, que como nós estávamos falando, ele apoia claramente as ações do governo, ou seja, ele não tem nenhuma...

discordância com o Trump, talvez em metodologia, já teve no passado, mas agora, assim como outros secretários, né, então pensando na tríade, Jade Vance, vice-presidente, Marco Rumbis, secretário de Estado, Pete Hegson, secretário da guerra, estão todos eles alinhados com essa política do Trump, então a probabilidade de que eles entrem com um processo para que o Trump saia do poder...

é muito baixa. Então, também é baixa porque o legislativo é dominado pelos republicanos nas duas casas. Então, embora a popularidade do Trump esteja desabando e a gente tenha aí uma perspectiva de pressões internas mais econômicas, todo esse governo está alinhado. Então, a gente tem que deixar claro aí que a possibilidade, o mecanismo existe.

Está sendo muito falado, está sendo muito aventado, mas a probabilidade dele ser aplicado no contexto atual é muito baixa. Rapidinho, Cris, quando a gente olha o estado das coisas, sobretudo depois dessa declaração, essa ameaça muito séria e muito chocante para quem tem alguma sensibilidade ainda,

O que alguém no mundo pode fazer para deter o Trump? Eu estou te fazendo essa pergunta desse jeito, porque tem um ouvinte aqui dizendo e a Europa não faz nada. E estou pensando que sim, é no continente europeu em que há países e figuras poderosas o suficiente, talvez para fazer frente ao presidente dos Estados Unidos. Ou não.

Acho que não, né? Eu acho que... Vou até falar uma coisa que talvez não seja bem vista, né? Mas eu acho que a Europa se omite há muitos anos e tem permitido que os Estados Unidos avancem cada vez mais.

no seu poder. A gente tem algumas reações, como a da Alemanha, que está se armando, está tornando o serviço militar obrigatório, que é mais preocupante do que uma boa notícia. A França que se coloca. Sim, né? Mas, assim, eu vejo com muita preocupação, porque quando a gente fala de política, Estado, Estado, e fala de unilateralismo, ainda não tem ninguém para bater de frente. Eu acho que a nossa esperança, se ela vier...

é mesmo lá do outro mundo, né? E falando de quem? Falando de China, falando de Paquistão, mesmo o Paquistão estando envolvido numa guerra com o Afeganistão, eu acho que é um pouco por aí. Mas parar é muito complicado. Então, eu acho que de fora não para.

Talvez se parar, vai ser uma pressão interna, principalmente por conta das eleições de meio de mandato em novembro. Mas novembro está longe ainda. Até lá, uma população inteira pode ser exterminada. Cristina Pessequilo conosco toda terça-feira no nosso CBN pelo Mundo. Obrigada, Cris. Um beijo para você. Até a semana que vem.

Beijão. Obrigado, Cris. E ó, vou aproveitar e fazer aquela propaganda bonita desse quadro, porque você ouve o CBN pelo mundo todo dia, aqui. Ontem a gente teve uma estreia muito legal, Felipe Figueiredo, historiador, criador do podcast Xadrez Verbal, é o nosso comentarista às segundas-feiras. Toda segunda Felipe vai estar com a gente. A Cris Pessequilo às terças, o Ariel Palacios

O Ariel Palacios, às quartas. O Marcelo Ninho, diretamente da China, às quintas. E às sextas... Você vai ter que vir na sexta-feira pra saber qual é a novidade de sexta no nosso CBN Pelo Mundo.

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