Episódios de Comentaristas

Que bom que acabou: Divórcio, autonomia e a reinvenção de uma narrativa feminina

06 de abril de 202615min
0:00 / 15:20
O divórcio, que por décadas foi associado a fracasso e ruptura, começa a ganhar novos significados na cultura. Dados mostram que mulheres lideram os pedidos de separação e que, cada vez mais, esse movimento vem sendo reinterpretado não como fim, mas como recomeço e libertação.

Learn more about your ad choices. Visit megaphone.fm/adchoices

Participantes neste episódio1
M

Maria Cristina Fernandes

HostEspecialista
Assuntos2
  • Liberdade e autonomia feminina nas escolhas reprodutivasMudança na percepção do divórcio · Empoderamento das mulheres · Divórcios na geração prateada · Narrativa de recomeço
  • Crescimento de divórcios no BrasilCrescimento de divórcios · Divórcios requeridos por mulheres · Média de duração dos casamentos
Transcrição40 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Pra Onde Vamos, com Michel Alcorforado.

Não, você não está ouvindo errado. Não, você também não errou o dia. A partir de hoje, neste Estúdio CBN, teremos Michel Alcoforado fritando os nossos miolos segundas, quartas e sextas-feiras. Boa tarde, Michel. Boa tarde, Tati. Boa tarde, Fernando. Tudo bem, Michel?

Tudo bom, fui promovido, hein? Pois é, e quando a gente falava terças e quintas por enquanto, você falando, ih, você demitido, os ouvintes falando, ih, será que o Michel vai embora? A gente só não traz ele todo dia porque o bicho não tem agenda, senão você ia ver.

Não, enlouquecer, Janaína. Eu tô sempre pedindo a ela. Jana, tem como me jogar um pouquinho pra frente, um pouquinho pra trás? Um pouquinho pro lado, um pouquinho pro outro? Ela adora. Se fosse todo dia esse sofrimento, ela ia ficar desesperada. Jana tá fazendo uma cara aqui. Eu posso ler o balãozinho na cabeça dela. Se todo o meu problema fosse você, Michel Alcoforado.

Vamos lá, estamos muito felizes de tê-lo conosco mais vezes por semana. Acho que as nossas conversas são muito boas, muito bacanas e ajudam os nossos ouvintes também a, enfim, expandir o pensamento. Vamos falar hoje sobre divórcio para ver se eles expandem o pensamento.

Olha, eu queria agradecer imensamente a confiança no meu trabalho, sua, da Jana, do Fernando e de toda a direção da rádio. Eu fico muito emocionado porque eu gosto demais de estar aqui. Eu já estou há oito anos na rádio e todas as vezes que eu entro ainda sinto o frio na barriga e uma sensação de, será que vou conseguir? E todas as vezes que saio, eu fico com uma sensação de, é, consegui, consegui dar conta. Então, é um trabalho que me traz...

Vamos tentar hoje de novo. Muita alegria. E agora eu tô sofrendo com essa sensação de seragem que eu vou conseguir três vezes por semana. Então vou redobrar minhas idas ao psicólogo, psiquiatra e todo esse dilema. A gente aumentando a terapia do bicho.

Mas vamos lá. Mas você anda aumentando a terapia de muito ouvinte, eu posso apostar, vai. Olha esse assunto aí. Então tá bom. Então a associação, como é que fala? O Conselho Regional de Psicologia, o CRP, deveria estar patrocinando esse quadro, né? Porque a gente está potencializando o mercado. Mas vai, divórcio. O pessoal está se separando mais? Eita, tá. Dois movimentos muito interessantes foram apontados agora nos últimos relatórios divulgados pelo IBGE.

O primeiro ponto é que a gente a cada ano se separa mais. Um dado interessante é que desde 2022, pós pandemia, houve um boom do número de separações no Brasil ao ponto de a gente ter passado de mais de 425 mil divórcios no último ano. O que é interessante é que esse divórcio não está só crescendo, não. Ele revela uma mudança na percepção do que é separar, mas revela também uma outra percepção sobre o que é estar junto.

Por quê? Cada vez mais, a média dos relacionamentos no Brasil tem diminuído, ano a ano. Nos anos 80, as pessoas, em média, ficavam casadas em torno de 20 anos. 20 a 21 anos. E agora, segundo os últimos dados, a gente está se separando ali em torno de 13,8. Ou seja, 13 anos e 8 meses. Então, se o ouvinte está olhando para o próprio relacionamento, olhou para aquele querido ou aquela querida que você está dividindo a vida há tanto tempo.

passou de 13 anos e já sabe que está no lucro, que é lucro dentro desse jogo todo. É igual quando você passa da expectativa de vida do país, aí você olha para si mesmo, que eu acho que agora está em torno de 66, 77 anos, você olha e pensa, caramba, eu estou no lucro, dado que eu já ultrapassei a média da vida da maior parte dos brasileiros, se teu relacionamento está perto dos 14 anos, eu queria dizer para você que você é um vencedor, você está no lucro.

Isso é interessante por uma questão que revela um outro tipo de separação. O primeiro ponto que tem chamado a atenção dos especialistas é o fato de que 70% desses divórcios são requeridos ou são decididos por mulheres.

Quanto? 70%? 70% é. Então quem gosta de se separar, ou quem toma decisão na separação, a melhor palavra seja essa, são as mulheres. E são as mulheres por quê? Primeiro ponto, há uma ideia interessante da concepção de família. Já tem alguns trabalhos de alguns antropólogos chamando a atenção para isso.

Um homem, quando decide se casar, e aí é uma perspectiva de gênero muito forte, decide se casar e tem filhos, o pacto que ele faz é com essa ideia do que é ser uma família. E uma família, o casamento, tanto bom ou ruim, é composta por esse parceiro, por essa parceira e pelos filhos.

E as mulheres têm uma outra concepção de família, que está muito mais orientada pelo pacto que elas estabelecem com as crianças ou com os filhos de uma maneira geral. Então os homens acham que a família é a família Doriana, então casamento bom ou não, falido ou não, eles desejam persistir com isso.

E as mulheres acreditam que esse padrão de família não tem necessariamente a inclusão desse cara. Se o casamento não está bom e elas têm possibilidades de pagar as próprias contas, lidar com os próprios, ter autonomia diante da própria vida, elas, quando o negócio desanda, elas automaticamente vão pular fora dessa relação. Então hoje quem pede para separar no Brasil são as mulheres.

Mas há também um crescimento muito grande de divórcios naquela geração prateada, que são as pessoas que têm mais de 60 anos. Então, segundo casamento, terceiro casamento, quarto casamento, quinto casamento, vem se transformando em algo relativamente comum no Brasil de hoje.

O dado que chamava atenção também nesse relatório é que quase 25% dos casamentos em 2025 foram feitos por pessoas que já tinham se casado outras vezes. Então, casar mais do que uma vez no Brasil se transformou em algo comum, ao ponto de aquele juramento até que a morte os separe, na alegria e na tristeza, na doença e na saúde, aquela coisa toda já não faz mais muito sentido por aqui.

Mas o que é a grande novidade que se apresenta para além de todos esses elementos aqui que a gente já pontuou? A ideia de separação não está sendo mais pensada como um fim, ou como algo que determina uma morte dessa pessoa diante da vida. Dado que nos anos 70, sobretudo para as mulheres, o fato de elas serem mulheres separadas...

implicava muito a sua reputação e também a sociabilidade delas. Era o famoso, a gente já viu muita gente falar sobre isso, o fulano era filho da desquitada, o fulano era filho da separada, ou era filho de pais separados e por aí vai. Agora, o fato de você se separar tem permitido que as pessoas recuperem diante de si uma narrativa de autonomia e independência.

Então, a separação não é só o fim de alguma coisa, mas também é um convite, é uma retomada, uma outra história, e a retomada, a possibilidade de você inventar um novo eu.

Então, isso, atrelado, obviamente, ao empoderamento das mulheres no mercado de trabalho, a possibilidade de elas terem uma independência financeira que permita elas saírem das relações que já estão desandadas, tem também atraído, dentro do jogo social, a possibilidade de você se separar e dizer, olha, estou separado, estou vivendo um momento difícil, porque toda separação cobra um luto, e um momento de entendimento de quem é você depois do fim dessa relação.

mas estou pronto para o jogo e estou muito afim de inventar essa nova história. Então, quando a separação está atrelada ao vocabulário da autonomia e da independência, isso também vira assunto, isso traz uma nova ideia sobre o que é se separar. E a gente está vivendo esse momento, né?

Estou aqui pensando, te ouvindo com muita atenção, que talvez esse número também reflita que a instituição casamento nesses moldes e considerando essas diferenças de gênero, seja bem menos confortável para elas do que para eles. Porque se separar não é nem um pouco fácil, não é mesmo? É verdade. Você mexe em um monte de coisa prática e emocional.

Pra quê? Pra fazer esse movimento, você precisa ter energia pra botar nesse processo. Só estando muito desconfortável pra uma mulher começar, um ser humano, né? A mulher ou o homem, enfim, começar esse movimento, não? Faz sentido o que eu tô dizendo? Então, eu te ouvindo, Tati, me lembrei automaticamente da minha mãe, dona Noemi, a Regina lá em Niterói, quando eu disse pra ela, mãe, esse negócio de casamento, não quero me casar, não.

Esse negócio de casar, acho que é meio falido, assim, não faz sentido. Minha mãe virou pra mim um dia e disse...

Michel, casamento é bom para homem, tu não vai casar?

É, pois é, tá vendo? É óbvio, né? Sabe as palavras. A minha mãe falou, como assim, né? Casamento é tão bom pra homem, você não vai casar. É ruim pra mulher, né? Pra homem é ótimo. O ponto, e Tati, você coloca muito bem isso, né? O peso sobre uma mulher diante da instituição de casamento é infinitamente maior. Não só pela coisa que a gente já repetiu aqui inúmeras vezes, da economia do cuidado, de que cabe a elas boa parte das vezes.

todo o peso físico e mental para administrar essa família, mas porque também, algo que a gente já falou aqui anteriormente também, é que cabe às mulheres inventar uma família em geral. E o que é inventar uma família? Inventar uma família é dar conta de que é criança, vai para a escola com cara de criança que vai para a escola, é dar conta de que aquele marido vai cumprir suas funções de pai, e sabe mais ou menos o que é ser pai, ainda dentro desses modelos mais tradicionais.

É entender o que aquela família, ou como aquela família tem que se organizar para ela funcionar enquanto uma família. Isso tem um peso gigantesco, né? Porque tem um peso de treinamento e educação de todo mundo que faz parte desse quadrado. E aí, isso, às vezes, diante da separação, abre para essas mulheres a chance...

de conseguir fazer isso de um jeito mais leve. Quando estão sozinhas ou quando entram em novas relações, pactuarem ou repactuarem com seus novos parceiros e parceiras a ideia de que tem outros modelos de família a partir de novas premissas também. Então, esse é um dado. Agora, eu acho que também tem uma ideia que pode...

ajudar os casais que estão perto dos 14 anos a sair do limite é entender que todo relacionamento é uma troca e que não tem relação perfeita. Boa parte do drama que os casados vivem é que o preparo por casamento é um preparo também por um conjunto de idealizações que serão impossíveis.

de serem colocadas em prática, né? Você não vai ter a família que você sonhou na tua cabeça, no jogo do dia a dia. Você não vai ter o apetite sexual que você talvez tenha tido nas primeiras semanas do relacionamento depois de muito tempo de casado. Você não vai ter o filho perfeitinho. Inclusive porque a sua idade já é outra também, né? O casamento, mas você também é outro, né?

É, você é outro. Então, a gente precisa, talvez, lidar também com outro conjunto de imagens do que é estar junto e estar junto há tanto tempo para conseguir ficar junto, né? Porque, tirando aqui os casos onde a relação está falida por arranjos múltiplos, né? Seja o peso dos preconceitos sociais sobre homens e mulheres, seja as expectativas que se colocam sobre as mães depois que os filhos nascem.

seja as dificuldades que se dão de uma relação quando um segue por um caminho ou pelo outro, se a gente tivesse menos peso da imagem do que é casado, talvez ficasse mais fácil continuar casado. Então, vamos deixar... Vida real é vida real, né? Aquele negócio que a gente fazia quando era criança. É a vera ou é a brinca?

A Vera é mais sério, né? Lucas está dizendo aqui, ele mesmo já disse, homem hétero vai lá querer abrir mão de ter uma instituição que praticamente só é benéfica para ele. E aí teve alguém aqui que retrocou e ele falou, ah, faça-me o favor, ou você não casou, falando para um outro homem, ou não abriu a mente para ver que casamento é o negócio ideal para um homem. Grande parte troca a mãe pela esposa e continua na mamada.

É, mas os avanços sociais nos últimos 50 anos, ou até mais, né? A lei de divórcio, se não me engano, é de 1978 no Brasil. Vão dando conta de que aquilo, o sapato que tá apertado demais, ou apertar demais pra caber alguma coisa, não leva ninguém à felicidade, não dá bons momentos pra ninguém. E as mulheres estão buscando a separação como forma de se livrar.

dessa instituição de casamento ou desse casamento que parece pra elas mais perda de tempo do que qualquer coisa. E aí esse vocabulário de novas relações ou da separação não como um fim, mas sim como oportunidade de novos recomeços e autonomia, independência mesmo diante da própria vida, de alguém que acorda de manhã e decide isso aqui pra mim não dá mais, tem ganhado vulto e importância pra tudo quanto é lado.

Que as mulheres entendam que casar não é obrigatório. Que às vezes pode não ser melhor do que a vida que elas levam. Mas se quiser, pode, né? É, eu diria que nada é obrigatório, né? Nada é obrigatório. A gente tem que inventar a vida. Viver já é duro demais. Você tem que inventar uma vida que cabe pra você, pra você aguentar. É isso aqui do melhor jeito possível. Porque nada é obrigatório, né?

Bom demais. Michel Cofurado conosco a partir desta semana, segundas, quartas e sextas com Pra Onde Vamos. Eba, um beijo. Até quarta-feira. Um beijo e até quarta. Tchau, tchau. Tchau, Michel. Tchau, Fernando.

Quer proteger a experiência do seu adolescente online? No TikTok, a segurança vem desde o início. As contas de adolescentes já vêm com mais de 50 ferramentas de privacidade e proteção ativadas automaticamente. E com a sincronização familiar, os pais podem ajustar configurações de conteúdo e bem-estar digital com poucos cliques. Ambiente protegido para eles, mais tranquilidade para você. Saiba mais em segurança-tiktok.com.br.

Anunciantes1

TikTok

Ferramentas de privacidade para adolescentes
external
Que bom que acabou: Divórcio, autonomia e a reinvenção de uma narrativa feminina | Castnews Index — Castnews Index