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Entre o desejo e o orgulho: por que tantos amores se perdem sem realmente terminar?

06 de abril de 202619min
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Em amores possíveis, Carol Tilkian apresenta o filme ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, onde os personagens Cathy e Heathcliff servem como exemplos para abordar o impacto do orgulho e silêncio nas relações. Ouça o comentário.

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Participantes neste episódio2
C

Carol Tilkian

HostPsicanalista
M

Maria Cristina Fernandes

ConvidadoEspecialista
Assuntos2
  • Orgulho e silêncio em relações amorosasImpacto do orgulho · Silêncio como violência psicológica · Ghosting e silenciamento mútuo · Desistência em relacionamentos
  • Filme O Morro dos Ventos UivantesPersonagens Cathy e Heathcliff · Amores interrompidos
Transcrição49 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

CBN Amores Possíveis, com Carol Gilguian. Falamos muito de guerra, tá na hora de falar de amor. Oi, Carol, boa tarde. Amor sem orgulho, Tati. Boa tarde, Tati. Boa tarde, Nando. Boa tarde, Carol. Duvido que é possível.

Ah, mas eu sou uma mulher que acredita no amor e quero começar essa semana, né? Dizem que segunda-feira é o dia internacional de começar a dieta, de mudar as coisas. Então hoje o convite vai ser... Vamos ser menos orgulhosos nas nossas relações, porque pode ser que a gente esteja interrompendo amores por orgulho, por silêncio.

por achar que a gente já entendeu tudo e de repente um dia sem falar vira uma semana, vira um mês e quando a gente vê já vira da ordem do irreversível. Por que eu estou trazendo essa pauta? Eu fiz aqui no feriado um intensivão de vários filmes e eu vi o remake do Morro dos Ventos Uivantes. Estava no cinema recentemente, já está no streaming.

Ele é um romance da Emily Bronte que foi publicado em 1847. Teve uma primeira versão com o Laurence Olivier em 39. E mesmo se você não leu o livro, não viu o filme, não viu o remake, que agora ele já está, esse filme com a Margot Robbie e o Jacob Elordi, já está nas plataformas de streaming, vale a gente conversar.

sobre as reverberações desse filme. Acho que por que faz sentido a gente voltar a essa história. Essa história é uma dessas histórias que já foi vivida por muitos de nós que são amores interrompidos, não porque faltou sentimento, mas porque sobrou defesa.

quando a gente espera o outro se pronunciar, quando o silêncio faz com que a gente tome conclusões precipitadas e a ausência do outro, ao invés de ser interrogada, já vira sentença de humilhação, de rejeição, de que é melhor seguir em frente.

Acho que em tempos de WhatsApp, de ghosting, de indigestão afetiva e de ansiedade estrutural, esse orgulho e esse suposto entendimento do silêncio do outro nunca geraram tantos mal-entendidos. Então já queria também começar perguntando para os ouvintes que histórias amorosas de vocês ficaram em suspensão?

Pelo silêncio e porque você interpretou esse silêncio como algo. E se você já sentiu que o seu orgulho ou o orgulho do outro acabaram uma relação. Vocês percebem isso, Fê, Tati? O quanto a gente está mais orgulhoso, mais defendido. E como às vezes a gente cria abismos de histórias porque a gente espera que o outro venha conversar com a gente.

E aí, isso vai escalando? Pode acontecer, né? Sim, mas também eu penso e que vejo também, percebo, é que isso acontece, mas o fim está logo ali.

Será que estava logo ali, ver o fim? Ou a gente... Vi alguns casos, mas vamos lá. Porque sabe o que eu percebo na clínica? E era isso que eu queria trazer para a gente refletir. O quanto o fim está logo ali porque a gente cria esse tempo enorme de elaboração individual.

Então, ao invés de eu trazer o incômodo para essa pessoa, eu lido com o meu incômodo sozinho, eu levo para a terapia, eu levo para os amigos, a pessoa também. E aí, depois de dois, três, quatro meses, vocês vão tentar conversar. E aí o fim já se deu, porque a gente já está muito contaminado das nossas.

interpretações. Eu acompanhei recentemente isso com uma analisanda que estava vivendo um conflito na relação e ela falou preciso de espaço. E se afastou.

E na verdade, o que a gente foi vendo na análise é, o pedido não era, para quem está me vendo na câmera, não era o pedido de eu preciso de espaço, quero sair. O que ela queria dizer era eu preciso de espaço aí, nessa vida, na sua relação, me incomoda o jeito como a sua ex-mulher lida com a casa e os filhos. Só que ao se afastar...

e a outra pessoa também se afastou, cada um deles entendeu esse espaço, interpretou esse espaço de uma forma. E aí o fim esteve logo ali. O que eu vejo é que o não dito funciona como ato. O Lacan traz muito todas as nossas relações entremeadas por palavras. O amor passa pela palavra.

pela demanda, pelo endereçamento ao outro. Quando eu trago essa demanda, eu preciso de espaço. E uma pessoa que faz esse movimento de afastamento, a demanda era, eu preciso de espaço aí, nessa rotina. E aí, ao invés da gente falar, fiquei chateado, a gente passa horas sem responder. Ao invés de dizer, eu queria que você me procurasse, eu queria que a gente tivesse uma rotina juntos.

A gente se cala, observa, e aí a pessoa não procura e você fala, tá vendo? Não cabe uma nova pessoa nessa relação. Ao invés de perguntar, fala. Deixa eu aproveitar, olha só, duas interessantíssimas colocações. Um diz, o Matheus, tive um bom relacionamento em 2019 e 2020 que acabou, acabou se perdendo no silêncio da pandemia.

Poderia tê-la amado. Hoje tá feliz num casamento, mas já pensou nesse relacionamento perdido lá no passado. E o outro que diz assim, não digo meu nome. Já começa assim. Sobre esse tema, estou vivendo um inferno pelo tratamento do silêncio constante e recorrente da minha esposa. Estou revendo a minha rota. Quero ajuda.

Eu ajuda que eu poderia te dar é convoque a conversa e coloque o que você colocou aqui para a gente é esse silêncio está me matando quando o silêncio ele é recorrente.

o tratamento de silêncio que os americanos chamam de Stonewalling, que é fazer uma parede de pedras. Quando isso é intencional, isso é uma violência psicológica, porque faz com que o outro fique exatamente perdido, sem saber o que está acontecendo. O que eu te diria é não tenha medo de parecer vulnerável e dizer...

Eu preciso entender o que está acontecendo aqui. Isso está me machucando. Ainda que a gente vá seguir caminhos separados e decidir se separar, é muito ruim eu lidar...

com esse abismo. Vamos conversar sobre isso? Porque o silêncio acaba virando dispositivo de poder quando ele é usado dessa forma recorrente e manipuladora. Mas se a gente vai escalando, quando você trouxe o da pandemia, eu vejo, e aí eu quero trazer uma provocação, quantas vezes a gente chama de ghosting o que foi um silenciamento mútuo?

Porque uma coisa é eu mandei uma mensagem, eu procurei, eu convidei para um programa e a pessoa não respondeu. A outra coisa é a última mensagem ficou no ar, aí passou uma semana que viraram duas, que viraram três, que viraram três anos. E aí a gente fala levei um ghosting. Será que foi um ghosting ou...

O que existe foi esse silenciamento defensivo de, ah, não, mas a última pessoa que mandou uma mensagem fui eu, mas era uma mensagem que fechava um assunto. E aí os dois lados esperam que o outro venha.

Ambos se sentem feridos, têm medo de se expor, têm medo de que a pessoa já esteja com outras pessoas. E aí, de novo, a história definha não por falta de afeto, mas por excesso de cálculo defensivo. Quero que hoje você que talvez esteja aí pensando, ah, já faz duas semanas que eu não falo com essa pessoa.

pensar que talvez sejam dois orgulhos feridos, dois medos de humilhação, duas fantasias de que se o outro quisesse mesmo, ele teria vindo. E se a gente puder?

fazer o movimento. Eu acho que o WhatsApp, ele traz também para a gente uma amplificação dessa ansiedade, porque como teoricamente a gente está aqui com o celular o tempo todo, parece que dois dias viraram dois anos, porque a pessoa está lá.

Então ele amplifica essa ansiedade. É como se os dois tiques do Lido falassem, está vendo? Não quer nada. Ele está criando um campo infinito para a projeção, porque como a gente pressupõe que a gente tem acesso imediato ao outro, a gente também pressupõe que entende tudo pelos pequenos sinais.

Só que a gente tem só um fragmento. Muitas vezes a gente lê com outro tom, a gente interpreta de uma outra maneira e a gente vai para uma ambivalência ou o outro quer ou não quer. Ou se importa ou despreza ou está presente ou me abandonou. E tem algo de uma construção e reconstrução constantes que a gente não está se permitindo.

Fazer coisas. Eu ver... Oi? Eu estava aqui levantando o dedinho. Tinha algumas perguntas. O silêncio como sinônimo de orgulho e tal, como você começou dizendo, é diferente do silêncio como sinônimo de desinteresse, por exemplo?

E aí acho que depende das relações, né? Porque um ghosting, em geral, é uma relação que tem potencial, né? Ou que pelo menos a gente acha que tem potencial. Então é ali um começo de um tchururus qualquer, em geral, né? Claro. Um casamento...

É outro tipo de relação com outro tipo de estrutura de intimidade, de conhecimento do outro, de vício, inclusive, né? Das discussões e da maneira como se... As pessoas se comportam ali naquele núcleo. Porque eu fiquei um pouco na dúvida. Ah, o ghosting pode ser orgulho? O ghosting pode ser só desinteresse. Não necessariamente orgulho. Mas a gente só vai saber se ele...

A gente só vai saber se ele é orgulho ou desinteresse se a gente perguntar. Claro. Se a gente fizer o movimento, né? E se a outra pessoa disser, porque pode ser que a gente pergunte. Não, não. Porque pode ser que a gente... Se você perguntar e fizer o movimento e a outra pessoa seguir silenciada e silenciosa, você fez o seu movimento. E continua sem saber se é orgulho ou desinteresse.

Mas talvez seja menos orgulho, porque aqui, pensando no filme, o que acontece? Os dois, eles leem o silenciamento, então a história desses dois é, eles se conhecem desde criança, têm uma paixão platônica um pelo outro. O Heathcliff é alguém que ele é quase que adotado pelo pai da Catty.

Eles são criados ali como duas crianças juntas, mas é um menino que vem de uma condição mais simples, que foi abandonado pela família, que é atravessado por violências desse pai, dessa mulher, que é um pai alcoólatra, que bate nele. Então tem um lugar de um endurecimento e de um ressentimento e também de uma sensação de eu não pertenço a esse lugar.

que dizem da origem desse cara. Essa mulher, ela é uma mulher que vê o pai decadente, perder todo o dinheiro no jogo e na bebida, e vê a possibilidade de um casamento com um homem com uma condição financeira melhor, como a possibilidade de cuidar desse pai, dessa vida e da vida dela.

E ao mesmo tempo se vê completamente atravessada por uma paixão por Heathcliff, que também a ama. E aí ela decide aceitar o pedido de casamento desse homem e confessa à amiga, à dama de companhia, mas eu amo mesmo o Heathcliff e eu queria muito ficar com ele. Só que ele só escuta a parte do...

é melhor com que eu me case com a outra mulher. E aí ele vai embora. E ela espera que ele volte, que ele fale fica aqui. Eu te amo. Vai dar certo. Eu sei que você está com medo. Eu também estou. E ele espera que ela faça esse movimento. Você está com medo. Eu também estou. Eu acho que aqui tem algo que é importante a gente falar do quanto

Muitas vezes dá medo de entrar em relações onde vai quebrar esse ideal. É nossa, de repente eu estou numa relação onde a pessoa já tem quatro filhos ou onde a pessoa mora do outro lado do Brasil e a gente vai ter que ficar um tempo organizando passagens aéreas ou onde a gente tem uma diferença financeira e vamos ter que lidar.

Com isso, também tem algo sobre todos esses conflitos e a gente nem fala isso para o outro, porque a gente tem medo que isso suje o amor, que isso manche o amor. E é aqui que eu acho que o orgulho acaba gerando muitas vezes esses erros de comunicação, porque a gente quer ser entendido, mas a gente não se explica.

Porque ao se explicar, a gente acha que a gente tem que ter clareza também. E às vezes explicar, explicar a ambiguidade e a incoerência. É mostrar a vulnerabilidade sem que isso seja rebaixamento. E eu acho que quando eu trago orgulho, está um pouco nesse lugar, sabe? Eu espero que o outro faça o movimento ou eu já entendi tudo.

Alguém precisa se arriscar e falar eu quero, mas eu estou com medo. Eu não sei o que está acontecendo. Gostaria que a gente tentasse mais uma vez. A gente nunca vai saber o que o silêncio do outro significa. Mas a gente pode...

não presumir sozinho e poder perguntar olha eu estou achando que significa isso e para mim você significa isso aqui. Ainda há espaço para a gente construir algo?

Pega o celular e faz alguma coisa. Manda essa mensagem aí que você tá enrolando pra mandar. Vai. Manda, manda, manda. Não é tarde demais. Não vamos esperar que seja tarde demais. Me ocorreu uma outra coisa que não vai dar pra desdobrar muito. Mas o silêncio também pode querer dizer de uma descrença na solução daquela questão.

Aquelas questões que voltam sempre e você fala, putz, eu não vou de novo ter uma conversa sobre isso, eu vou ficar quieta. Pode ser também, né? De uma desistência, de uma descrença. Maravilhosa essa palavra. Desistência. Porque eu ia falar, aí é importante a gente assumir que a gente desistiu. Porque se o silêncio, ele é causado por essa descrença, e aí eu estico ele.

e o final estava logo ali como o Fê fala, eu não me coloco como a gente. Não fui eu que desisti, porque talvez eu estivesse cansada demais e eu estou cético. É porque, tá vendo? A pessoa realmente não ia mudar. E aí eu não me implico.

No meu silêncio também. E no porquê que eu silenciei. Carol Chukian, tá conosco toda segunda-feira falando de amores possíveis. Aqueles que a gente dá conta. Que são, portanto, imperfeitos. Claro que sim. E aqui a gente fala sobre esses detalhes de...

imperfeição, essas arestas, essas quinas, que também fazem parte do fazer amoroso. Ai, que bonito que eu falei agora, Carolina. Ai, lindo! E eu quero começar essa semana com esse convite. Vamos. Não tá tarde demais. Se tem alguém aí que ainda mexe com o seu coração...

Manda uma mensagem, convida pra um brinque. Faz isso. Ainda dá tempo. Faz isso. Depende da gente. Faz isso. Um beijo, Carol. Até a semana que vem. Boa semana pra gente. Beijo. Beijo, tchau. Pra nós. Beijo.

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