Episódios de Confraria do Tropeiro

204 - Aparício Saraiva

01 de maio de 20261h14min
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A figura de Aparício Saraiva ocupa um lugar singular na história política da região do Prata. Seu nome está associado a um período marcado por revoluções, intensas disputas de poder e a luta permanente para que o interior de um país tivesse tanto valor quanto sua capital.
Compreender sua trajetória exige mais do que acompanhar os acontecimentos de sua vida.
Exige mergulhar num contexto histórico de fronteiras fluidas onde a política frequentemente se resolvia pela força.
Venha conhecer a história desse personagem que se tornou lenda em sua terra, e lutou entre Brasil e Argentina pelo ideário da representação política do homem do campo.
Venha ouvir a história de Aparicio Saraiva.

​​​Produção e apresentação: Osmar Antonio do Valle Ransolin
Payada: Pedro Jr da Fontoura
Locução: Mario Lima
​​​​​
POESIAS E MÚSICAS
Muerte del General Aparicio Saravia
De Osiris Rodríguez Castillo,
Por Antonio “El Pampa” González
Como un jazmín del país
De Carlos Benavides
Por Carlos Benavides
1904
De Folclore Uruguaio
Por Carlos María Fossati
De la campaña
De Folclore Uruguaio
Por Carlos María Fossati
De Poncho Blanco
De Folclore Uruguaio
Por Carlos María Fossati
Huella del 96
De Folclore Uruguaio
Por Cimarrones
Presente mi general
De Folclore Uruguaio
Por Cimarrones

TRILHAS E VINHETAS:
Kayke Mello
Costado para os de antigamente . Pra um versito de campo . Costado à dom Cristóvão . Ao sol da manhã . Milonga al Pajonal . Un Buenos Dias, Senõres . Un Chasque al Pueblo .  Viejita Milonga . Guitarreada . Chamarrita pra um verso campeiro . Um chasque ao bolicheiro . Num trote . Rumando a Charqueada. 
Marcello Caminha Filho
Beira da Sanga . Campesina . Litoraleña . Lumiar . Plata.
​​​Charlise Bandeira e Júnior Müller
Cheiro de café . Eluarada . Esperanza . Misteriosa . Morena Faceira . Oração . Choro Campeiro . No interior . Na fazenda . Imigrantes .

​​Joaquim Velho
Chamamé pra ti . Entre nós . Eu sou gaúcho . Tango a teus pés . Milonga del camino.
​​
Jeferson Monteiro
Toada do Alfredo. Pra um domingo. Mirando horizonte. Recuerdo em Si menor. Balada para o Orelha. Sangrando.
Participantes neste episódio3
O

Osmar Ranzolin

Host
P

Pedro Jr da Fontoura

Co-host
M

Mario Lima

Narrador
Assuntos5
  • Aparício Saraiva e sua históriaRevoluções no Uruguai · Conflitos entre Brasil e Argentina · Identidade gaúcha · Liderança caudilhista · Movimento dos blancos
  • Contexto histórico da fronteiraFronteira Brasil-Uruguai · Integração social na fronteira
  • A Revolução FederalistaConflito entre maragatos e pica-paus · Participação de Aparício
  • A vida de Aparício SaraivaInfância e formação · Casamento e família
  • A morte de Aparício SaraivaBatalha de Massoler · Consequências da sua morte
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E aí

Buenas tropeiros e birivas do nosso Brasil. Do alto dos campos do Guardamor, para muito além das serras de Santa Catarina, no último caminho de tropas do sertão, aqui vos fala Osmar Ranzolin. E da invernada do tempo, repuntando histórias e sonidos de outras eras, vem chegando a comitiva da Confraria do Tropeiro, este programa que traz na alma a marca da cultura do interior do Brasil.

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A figura de Apariço Saraiva ocupa um lugar singular na história política da região do Prata. Seu nome está associado a um período marcado por intensas disputas de poder, transformações institucionais e, sobretudo, pela tensão constante entre modelos distintos de organização do Estado. Era um período em que o Uruguai ainda estava descobrindo como seria sua estrutura estatal.

Compreender sua trajetória exige mais do que acompanhar os acontecimentos de uma vida. É necessário mergulhar no contexto histórico onde as fronteiras eram permeáveis, as identidades eram compartilhadas e a política frequentemente se resolvia pela força. O final do século XIX e o início do século XX O final do século XIX

constituíram uma fase decisiva para o Uruguai e também para o sul do Brasil, especialmente para o estado do Rio Grande. Nesse espaço, principalmente na faixa da fronteira, formou-se uma realidade social própria, muito distinta, caracterizada por vínculos econômicos, culturais e familiares que atravessavam os limites das duas nações.

A fronteira do Rio Grande com o Uruguai construiu uma realidade social própria. Nessa região não havia uma separação, mas uma zona de integração, onde os indivíduos circulavam com muita liberdade e onde as lealdades políticas muitas vezes se sobrepunham às divisões formais que a história e os mapas de geografia ditavam. É nesse cenário que emerge a figura do caudilho.

Longe de ser apenas um chefe militar, Aparício representa uma força específica de liderança, baseada na proximidade com a população, na construção de redes de confiança e na capacidade de mobilização.

Seu poder não se apoia exclusivamente em alguma instituição formal, mas nas relações de amizade, de compadril e de companheirismo de armas profundamente enraizadas no dia a dia do homem da campanha gaúcha. Aparício se insere nesse universo.

A sua atuação deve ser compreendida à luz de um sistema político que, por muitos períodos, se limitou à participação de determinados grupos, gerando tensões que frequentemente desembocavam no movimento armado.

Nesse contexto, a revolução nunca foi uma exceção, mas um dos mecanismos disponíveis para disputar o espaço e redefinir o equilíbrio das forças. Ao mesmo tempo, sua trajetória conversa muito com esse movimento de transição. O modelo de organização política baseado na liderança pessoal é um dos mecanismos.

E na estrutura descentralizada começa a ser confrontado pelo projeto de Estado construído no Uruguai, que buscava maior centralização, institucionalização e controle territorial. Esse choque entre formas distintas de exercício de poder é um elemento central.

para compreender a relevância histórica deste período que nós vamos estudar. Outro aspecto fundamental para a análise da vida de Aparício Saraiva é o papel da fronteira. Além de ser um dado geográfico, ela se apresenta como um elemento estruturante das relações econômicas e sociais daquele período.

Nós tínhamos naquele tempo, como ainda existem determinados pontos da fronteira sul do Rio Grande, uma fronteira viva, em movimento constante, com a influência se projetando hora do Uruguai para o Rio Grande, hora do Rio Grande para o Uruguai.

Abordar esse personagem não significa apenas reconstruir uma biografia, mas compreender um fenômeno histórico mais amplo que moldou parte importante da campanha gaúcha. E no meio de todos esses elementos há de surgir um caudilho de poncho branco, que pela palavra e o exemplo liderou homens para lutar por liberdade. Venha ouvir a história do maior dos blancos. Venha ouvir a história da Paris Sussaraiva.

Começa agora a Confraria do Tropeiro, o lar dos guardiões da pátria antiga. Vuel mazzuzer.

Francamente não sei como explicar, nunca anduvimos tão fortes e tão bem armados, nem tantos. Desde Tupamba, a coisa começou a ir melhorando e essa tarde, éramos tuitos coronilhas e quebranchos, firmes, soportando o fogo que crepitava ao longo das líneas inimigas como um granizo cerrado.

Como víboras chiflaban as moras abriendo claros, caiba a gente em racina, se acalambraban os braços de rastrillar os juziles e avançávamos de errado, tropezando com o plomo, com os gritos, com os caídos, com um bárbaro horizonte de divisas desgoladas e um granido de clarines que se estavam atorados como puervos com a carne da patria, delirando.

Aí não mais, caiu meu chefe, caucho crudo até o tutão, que sabia espantar as moras com o poncho como taba. E aí não mais, outro valente, pico a espelas, abre o mar. E cairam outros chefes milagrosos, como santos de melena e barba blanca, capitanes com o grado oposto a dedos por a morte, ora juros como diabos. Firme.

Os cachorros gritavam, tropeçando. Mas nada, nós somos tuitos, coronilhas e quebracho. E o quebracho não se dupla, não se quiebra, nem chorando. Nós pitávamos a vida com o humo e os disparos. Por diante, a guerrilla, como quem anda passeando, ou com sua escolta e de bandera desplegada, tranco e tranco, desfilou o águila blanca do cordobês.

Veteranos que a guerra a lança se catallou em cernos de la Pacho, se sacaban o sombrero, os clamavam lacrimando, moribundos que boqueaban se acodaram entre o pasto para morir com essa imagem em seus olhos, para mirar, para mirar aquelas tampas que es orgulho de los gauchos, desfilar entre as barbas de sombrero e poncho blanco.

Agora sei que dois fantasmas le planqueaban o cabalho. Que Chiquito e Gumercindo esperaban para escoltá-lo, para levar-lo até a glória galopeando, galopeando. Viva o general! E gritaban, cabo viejo, viva o cabo! E o tostado se abalanzaba e o lotiva sujetando. As raleadas divisiones deliraban a seu passo. E de repente...

Viu um frio recorrendo o espinazo da tropa e um silêncio não cresceu entre as mãos. Sobre o cerro do lunares, deu ao lucero um grito largo que rodou por as laderas, tirou sobre os pastos, se erizou sobre a sangue derramada por o chano, se arrastrou por os abrojos, por as chilcas, por os cargos, se estagiou nas espadañas, tembloroso do bañado e morreu nos nia pintases, monte adentro.

Sou eu santo. Uma helada luna llena vinha os pálidos a besar. E os grãos se escutavam. A frescura dos pastos perfumou os cojinhos onde se ia desangrar. Eu o vi um pouco mais tarde. Os levavam entre quatro. Sobre um zar, semaneadores e de lanzas. Entre quatro.

Se levavam o coragem do ejército entre quatro. Morte do general Aparicio Sarabia, de Osiris Rodríguez Castillo, por Antonio El Pampa González.

Você está ouvindo a Confraria do Tropeiro. Apoio institucional do Grupo Supervisa.

Dijo o garoto a moça, desde o começo te vi. Dijo o garoto a moça, desde o começo te vi. Em ele sonhou a vigília como um jazmim do país. Em ele sonhou a vigília como um jazmim do país.

como um casmin do país, perfume da alta noite, pequena flor constelada, no patio com aljive, e no meu coração guardado.

Eu vou com a aparício, sei que outra divisa la abram. Eu vou com a aparício, sei que outra divisa la abram. Tos mãos se levarão os homens desta casa.

Tos mãos se levarão Os homens desta casa Eu me vou com aparício Mas me olhe na cara Que o que vou dizer-te Se diz uma vez e basta Só uma coisa poderia De ter uma palavra

Diz que me quede e me quedo, casmin do país, mochacha. Ela me olhou para os olhos, mas não disse nada.

Ela me viu a olhos, mas não disse nada, e nada disse depois, quando caiu com Saravia.

E nada disse depois, quando caiu com saradia, perfume da alta noite, pequena flor constelada, no patio com aljive, e no meu coração guardado.

I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I

Como um jazmim do país de Carlos Benavides. Por Carlos Benavides. Confraria do Tropeiro. Onde a história faz verso e prosa.

Eu já conheci a história do Aparício Saraiva, principalmente pela história do Gumercindo Saraiva, seu irmão ilustre, que para nós foi um personagem de muito destaque e relevo na Revolução Federalista.

Mas tem um fato curioso que aconteceu comigo esse ano, quando eu fui para Montevidéu. Passava numa das ruas da cidade de Ierra e uma caminhonete, uma caminhonete Ford prata, um pouco mais antiga, passou e me chamou a atenção. Ela parou, estacionou próximo de uma praça que eu estava visitando e atrás havia um adesivo.

com as cores do Uruguai, e um pouquinho mais para baixo tinha o rosto de um homem desenhado. E logo abaixo a legenda, Aparício vive. E aquilo me chamou a atenção, porque é difícil, por exemplo, nós vermos hoje, aliás, não me recordo ter visto, no Rio Grande ou em Santa Catarina, nós termos essa identidade com o personagem.

Nós não vemos, por exemplo, adesivos nos carros, escrito Tiradentes vive, ou Bento Gonçalves estava certo, ou todos por Garibaldi, uma coisa nesse sentido, entende? Nem com Anitta Garibaldi aqui em Santa Catarina, nem com Bento Gonçalves no Rio Grande, os heróis nacionais, infelizmente, especialmente em governos de viés mais marxista, eles são obliterados.

porque o socialismo tem a compreensão que os vultos históricos não devem ser enaltecidos, porque isso alimenta as vaidades pessoais, então ninguém pode ser o herói da pátria, embora que eles tenham lá os seus heróis da pátria, que são Lenin, Stalin e Companhia Limitada. E aqui nós temos na América Latina o Che Guevara, que é endeusado com todas as questões difíceis que ele tem, não vou entrar nesse mérito agora, quero só dizer o seguinte, me chamou a atenção...

um adesivo com o rosto do Aparício Saraiva. E eu reconheci na hora que era ele, quando me aproximei do carro, porque ele passou por mim e estacionou mais adiante, percebi aquela escrita. E isso me levou a esse episódio de hoje, a pesquisar a história do Aparício e a trazer ela para a nossa leitura.

Aparício nasceu em 16 de agosto de 1856, na estância Latilca, na região de Cotixa Grande, que pertence ao departamento de Cerro Largo, uma área que posteriormente daria origem também ao departamento de 33.

Essa é a região mais gaúcha do Uruguai, a região que talvez tenha mais identidade com o gaúcho, com a própria Rio Grande do Sul, com a cultura gaúcha, e tem aí todo um significado disso para nós entendermos depois os conflitos que alimentaram o país mais adiante.

O nascimento de Aparício já carrega em si a marca da fronteira. Ele era filho de brasileiros, Francisco Saraiva e Propícia da Rosa, que eram naturais da cidade de Lavras do Sul, no Rio Grande do Sul, e que haviam migrado para o território uruguaio entre a década de 1840 e 1850, se tornando grandes proprietários rurais. Essa condição de ser brasileiro de origem e uruguaio de nascimento Aparício

não era uma exceção naquele espaço geográfico, especialmente naquele espaço mais ao norte do Uruguai e que fica na fronteira com o Rio Grande. Porque a fronteira ali não é dividida por identidade, ela tem uma identidade própria, híbrida, em que o pertencimento político e cultural não se limita ao Estado.

mas sim ao tipo antropológico. E aí a pessoa deixa de ser brasileiro e uruguaio para ser gaúcho. Então, voltando naquele tema que nós estamos conversando nos últimos programas, quem é o gaúcho? Este aqui é o gaúcho.

não é nem o missioneiro, nem o serrano. Veio lá um esses dias linchando a paciência por causa do negro. Gente, nós temos dois ou três programas falando sobre o negro no Rio Grande do Sul. E claro que nós vamos ter os negros gaúchos, não tem nem como não existir, porque eles são um tipo também inserido dentro da cultura da fronteira. Basta que o negro nasça ali e se identifique com essa cultura.

assim como o índio, mas ele não é, o missioneiro é o missioneiro, o missioneiro pode ser de origem alemã, como nós temos vários, que tem uma coluna forte de alemães naquela região, de origem italiana e se identificar como missioneiro, preservar, defender os valores das missões.

Pode ser o gaúcho, o rio grandense, que daí é aquele gaúcho serrano, dos campos de cima da serra, da serra. E aí tem diferença entre uma coisa e outra, como diz o Henrique Fagundes da Costa, de forma muito bem desenhada, que os campos de cima da serra já é vacaria. E aí nós temos uma influência tropeira muito forte.

Os campos da Serra, Caxias e a região metropolitana, que vai abranger Garibaldi, Bento, Farroupilha, toda aquela região. E aí nós temos um outro tipo de gaúcho. São Francisco de Paula, São Chico, que é a terra do Léo Ribeiro. Lá existe um outro tipo de gaúcho serrano. Então, são gaúchos diferentes. Esse gaúcho da fronteira uruguaia...

Esse é o gaúcho de origem, é aquele gaúcho dos campos neutrais. E é justamente, talvez, por não existir um governo presente na fronteira, é que nasça esse tipo gaúcho diferenciado.

A infância do aparício se desenvolve justamente nesse universo que é formado muito pouco de estado, mas essencialmente de gente voltada para a atividade pastoril, não para a atividade agrícola. E isso tem também uma influência no tipo humano do gaúcho. A agrícola...

produtor rural que se dedica à atividade agrícola, ele não é propenso ao conflito, ao combate à guerra. E isso é histórico, porque ele é gregário, ele precisa estar onde está a sua produção. E a produção está plantada, ele não pode sair dali com ela. Diferentemente do...

do pastor que move o seu rebanho e pode retirar o rebanho dali e se mover para outro lugar. Então esse está mais propenso ao conflito. E isso é histórico em diversos lugares do planeta. E quem está dizendo isso não sou eu. Autores referenciados que nós já estudamos têm essa compreensão e é uma questão de lógica.

Então nessa atividade pastoril, nessas atividades da estância, acompanhando o trabalho com o gado, aprendendo muito cedo a dinâmica da vida rural, da economia pecuária, é que vai se formar o aparício Saraiva. E essa experiência não é apenas econômica, ela é também formadora do caráter e da relação social. Porque a estância gaúcha é um espaço de autoridade, de hierarquia e de lealdade.

E o jovem Aparício, convivendo com peões, capatazes, com seus familiares, foi assimilando esses códigos de comportamento que mais tarde vão definir a sua atuação como caudilho, como guerrilheiro.

A educação formal foi bastante limitada, ele frequentou uma das poucas escolas que existiam no departamento de Cerro Largo durante a década de 1860, mas essa instrução foi suficiente por sendo ele uma pessoa inteligente absorveu logo o domínio do cálculo e das letras.

Em 1869, ele é enviado a Montevideo para estudar no colégio dirigido pelo professor Baltazar Monteiro Vidalreta. E aí vem a questão seguinte, esse professor tinha um aspecto da formação dele muito cidadina. Então, o Aparício se sentia deslocado dentro da escola.

E em poucos meses, a questão de quatro ou cinco meses, ele acabou abandonando o colégio e retornou à região de origem. Esse traço, essa situação que parece ser trivial, ela revela uma questão decisiva da personalidade do aparício. Ele rejeita o mundo urbano em favor do ambiente rural e isso define o Uruguai.

A região de Montevideo, a região sul do Uruguai, é a região cosmopolita, desenvolvida, politizada, certo? Montevideo é uma metrópole, a capital do país, então ela tem um viés. E a região de Cerro Largo, onde ele vivia, tem um outro traço, tem uma outra característica, que é esse ambiente muito rural.

e que um praticamente repeleu o outro. Mas esse afastamento da escola não impediu a ascensão política do Aparício. Ao contrário, reforçou a identidade dele com o povo da campanha.

E aí

Por entre os chilcales gime o viento, presagio de tormenta na fronteira. A terra que se parte com estruendo e o pelotão que marcha para a guerra. Mas esses são os gaúchos da minha terra, contra a capital vão atrás da glória. Se todos esses doutores querem guerra, a força de lança só se hará história.

I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I

Se dizem que na campanha não há escola, pondremos de pizarra o horizonte. Que a Paris ensinou que as escolas cabem tanto a um pótoro como a um homem. Orgulho familiar a tropa leva. Pan, padre, irmão, nieto, lança e bola. Se há uma carabina...

em bandolera e se torna as almas uma só Têmpla a capital porque apareceu Dijo, não pedo mais agora o exijo Têmpla a capital porque apareceu Dijo, não pedo mais agora o exijo De la campaña de Folclore Uruguayo por Carlos Maria Fossati

Vai um biriva na estrada, quase dois séculos depois, Vem repontando outros bois nesta cruzada abençoada. Sabe bem dessa jornada e a sanga límpida e pura, sobra carinho.

E ternura, e que seja sempre assim, Ponteiro é o Osmar Ranzolin, um tropeiro da CUN.

Quando ele chega novamente em Serro Largo, nós temos um período de bastante instabilidade política no Uruguai. Ainda adolescente, com 14 anos, Aparício é integrado naquele momento às forças revolucionárias do Partido Blanco durante o episódio que foi chamado de Revolución de las Lanzas.

de 1870 a 1872, que foi liderada por um caudilho chamado Timóteo Aparício, que apesar de ter um sobrenome igual ao nome dele, não tem correlação de parentesco. Esse contato precoce com a guerra foi decisivo. Mais do que um episódio isolado, representou uma iniciação dele no mundo da disputa política armada, que vai lhe influenciar durante toda a vida.

Após esse conflito ele retorna para o campo, se dedicando às atividades típicas da região, principalmente como tropeiro, comprando e vendendo gado, fazendo deslocamentos tanto para a fronteira do Brasil para vender para os tropeiros daqui, que depois transportavam o gado para outras regiões, também indo até Montevideo para fazer a comercialização do gado no mercado do Porto.

Essa atividade amplia a rede de contatos dele e também a compreensão do território. Ele passa a conhecer os caminhos, as pessoas que havia naquela região, os líderes, os interesses que atravessavam a fronteira, formando um conhecimento que anos depois vai se transformar em uma vantagem estratégica.

A década de 1870, já quando ele já se torna um homem mais jovem, traz conflitos entre as duas principais forças políticas do Uruguai, o Partido Blanco e o Partido Colorado.

Em 1875, nós temos então uma nova revolução, que se chamou Revolução Tricolor, mobilizando novamente a Parício e seus irmãos Gumercindo e Antônio Florício. Todos eles se engajam na tropa do Coronel Angel Muniz e participam dos combates contra o Partido Colorado.

Mas a revolta foi rapidamente sufocada pelo governo comandado pelo colonel Lourenço Latorre. Essas derrotas iniciais tiveram um efeito importante na formação do Aparício.

Ele não emergiu imediatamente como um líder, mas acumula experiência prática no campo militar, compreendendo as limitações, as possibilidades que existiam no campo de batalha e as dificuldades que era fazer uma guerra, que era fazer um conflito.

Em 1877, aos 21 anos, ele se casa com Cândida Dias, que era uma moça que vivia, era de uma fazenda vizinha na região de Cotija Grande, e tiveram seis filhos para mostrar que não era só de guerra que ele vivia, também era de amor. Os filhos eram Aparício, Nepomuceno, Ramon, Mauro, Exaltacion e Vila Nueva.

A vinda da família, a formação da família, reforçou a raiz da campanha, consolidando a posição dele, já como, apesar de jovem, já um pai de família, então já passa a ter os próprios pessoas que vivem em torno dele, passam a ver ele com os outros olhos.

E durante os anos seguintes, a questão da família, dos filhos pequenos, a necessidade de dar educação para os filhos, vai afastar o aparício de grandes protagonismos políticos. Mas ele não fica totalmente inativo, ele ainda participa de alguma coisa.

da política, conversando com um com o outro, pegando informações, porque o fato de ele ser estanceiro e tropeiro também, acaba fazendo com que ele mantenha relações com diversas pessoas, relações econômicas e sociais, pequenos produtores, peões, comerciantes, lideranças políticas da região, e esses contatos, eles aparentemente dispersos, eles acabam formando...

a base do elo de poder que ele vai construir depois, mas mantém ele por dentro da questão. E ele também não se desgasta com os entrechoques políticos da época. Ele fica mais afastado disso. O caudilismo, que é esse movimento que nós estudamos em várias partes do Rio Grande. Santa Catarina tem pouco, mas no Rio Grande tem bastante, na Argentina, no Uruguai também.

Ele depende muito disso. Ele não se constrói só na guerra. Ele se constrói na capacidade de criar vínculos de lealdade e reconhecimento social. Assim foi com Bento Gonçalves, por exemplo. E no mesmo sentido, Aparício desenvolve um capital simbólico importante. Ele era reconhecido como um homem do campo.

como uma pessoa que conhecia bem a região, que era próximo das populações rurais, mas ele também era reconhecido como uma pessoa justa, como um homem que sabia dar valor à palavra e que valorizava as pessoas que estavam à sua volta. E isso vai ser o elo central da liderança futura que ele vai construir.

Em 1886 surgiu uma nova oportunidade de engajamento político-militar, que foi a Revolución del Quebrajo. E eu aqui estou citando e passando por cima dos fatos, porque a vida do aparício é tão grande que vai render um programa substancioso, como o ouvinte vai ver.

que se eu fosse detalhar cada uma delas, nós teríamos que fazer cinco programas. Então o objetivo é, nós vamos passar a vida do Aparício Saraiva hoje, e na frente, lá em outros programas, nós vamos trazendo essas revoluções, aí de forma pontual, mostrando o contexto geral de cada conflito. Aparício e os irmãos novamente se mobilizam para participar dessa revolução, mas eles não chegam a atuar diretamente.

do combate, porque o movimento foi derrotado antes de nascer, praticamente. Então, não houve combate, mas o episódio reforçou aquela chama revolucionária que havia no interior do Uruguai, principalmente se opondo ao formato de governo instalado pela metrópole uruguaia, que era o Partido Colorado, e que distanciava o interior.

da metrópole. Se você está se identificando com isso e se você acha que a capital de um país vive no luxo e na ostentação, enquanto o povo trabalha e tem que pagar o luxo e a ostentação dos nababos que vivem na capital do país e que vivem de conchavos,

nós estamos falando do Uruguai, não é do Brasil, fique tranquilo. Mas se você identificou que isso acontece no Brasil também, então veja que lá eles fizeram cinco revoluções para tentar eliminar esse problema. Me parece que conseguiram. Nós aqui ainda estamos tentando, de forma embrionária, fazer algum movimento.

político-democrático. E eu acho que isso sempre é a melhor solução. Lá eles entenderam, até pelo contexto da história, que era muito mais fácil pegar em armas e tentar resolver dessa maneira. Vamos ver como é que aconteceram as coisas e de que forma elas chegaram até o dia atual. Ao longo das próximas décadas, o Aparício vai se consolidar como esse grande líder da região da fronteira.

E tem um momento, digamos assim, de trajetória importante dele, quando, em 1893, o Claude, a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul. A Revolução Federalista vai trazer para dentro do teatro de guerra os federalistas, que eram os maragatos, e os republicanos castilhistas, que eram os pica-paus, os caramurus.

E ele rapidamente vai avançando para dentro da fronteira, trazendo a participação de grupos uruguaios, especialmente os blancos, para lutar ao lado dos...

Maragatos, dos revolucionários aqui no Rio Grande. O Aparício e Hugo Mercindo se integram ao movimento federalista, reforçando a ligação deles com o Brasil. E a sua participação no conflito não é circunstancial, ela também reflete uma lógica muito estabelecida na cabeça, que era o seguinte. Os Maragatos lutam, nós lutamos pelos Maragatos no Rio Grande e eles vencendo a guerra.

vem lutar conosco o conflito para o lado de cá, no território uruguaio. A Revolução Federalista deu à Paris uma experiência militar importante, ampliou a visibilidade

Mas em 1894, nós já contamos essa história, Gumercinho de Saraiva é morto, e o Aparício se torna, nesse caso, o comandante das forças federalistas, o comandante das armas das forças federalistas brasileiras, se tornando uma figura de liderança no conflito até o término da Revolução, em 1895.

Esse momento marcou a ascensão definitiva do aparício distanciero, de tropeiro, a combatente, até se tornar um líder militar reconhecido, não apenas no Brasil, mas também no Uruguai.

Um grupo de paisanos vai indo pela rua com tropia por dentro, vai juntar-se ao general. Eles levam todos a divisa, prolijamente bordada e uma lança de tacuara.

Acabada de cortar O paisano vai enchapeado Com estribos de campana Cabezada de plata e oro E um escudo no pretal Llevan toda sua riqueza

Vai ter morte de luxo se alguma bala nos para quando mandem a cargar. Ao sair de Santa Clara, nos emboca uma partida.

Uma descarga de fusil, deixa caído o tendal. Só um deles escapa, com três balas no corpo. Não escuta que mala suerte morir sem poder lutar.

O paisano do Chapeado está outra vez na rua As horas passam e passam e ele só pensa em chegar O homem leva a cara do color da divisa A badana ensangrentada lança firme e vontade A badana ensangrentada

lança firme e voluntad. E quando cruza as linhas em luz dos fogões, os sentinelas lhe miram sem perguntar a quem vai. Se dan conta pela estampa que esse paisano doblado vai marchando tranco e tranco, direito à eternidade.

O jimete em um tordilho de sombrero e poncho branco como se fosse uma nube que cruza a escuridade. O paisano junta forças, se afirma bem em sua lança.

e alcança justo a quadrar-se. Presente mi general. Presente mi general, de folclore uruguayo, por Cimarrones. Música de fundamento e verso de valor é na confraria do tropeiro.

Quando Aparício retorna ao Uruguai depois da Revolução Federalista no Brasil, ele encontra o Partido Blanco extremamente perseguido e marginalizado na política de Montevideo. Todas as estruturas de poder estavam na mão do Partido Colorado e a participação efetiva dos blancos era cortada em todas as possibilidades que havia.

E essa exclusão não era apenas formal, ela se tratava de um modelo político que concentrava o poder na mão da elite urbana de Montevideo, do Partido Colorado, ligado ao interesse econômico da capital.

E a campanha, que era o setor produtivo, que era onde se desenvolvia economicamente os commodities, vamos dizer assim, aquilo que era a riqueza do Uruguai, eles não participavam das deliberações. Então, se você, meu querido ouvinte, minha querida ouvinte, perceba como a coisa é triste, o setor produtivo não tinha voz e nem vez. Ele até tinha representantes, mas os representantes eram só para inglês ver.

Porque, na verdade, quem comandava o país era aquela elite burocrática, aquela elite palaciana, aquela elite, vamos dizer assim, aquela aristocracia de toga, sabe? Que existia no ambiente de poder da capital.

Mas nós estamos falando, volta a dizer, de Montevideo. Isso não acontece no Brasil. Essa percepção de desigualdade foi decisiva para a mudança de postura do aparício. Ele vinha retornando de uma guerra.

dizendo que não queria lutar novos conflitos. Ele inclusive deu uma declaração, foram entrevistar, um jornal da época foi entrevistar o aparício, e ele disse que não dava, que ele achava que para ele deu, ele tinha visto conflito, combate, achava que não dava mais. E voltou para as atividades dele.

Na década de 1890, o Uruguai vivia sob o comando do Partido Colorado e foi eleito Júlio Herrera Iobes, que não tinha formação militar, então ele era um civil.

mas era um civil comandado pelos militares. Então havia sido feita uma transição para um governo civil, mas essa transição era também apenas simbólica. E ele institui o tal do sistema de coparticipação, que previa a divisão...

das chefias dos departamentos, os departamentos equivalem a um estado menor, vamos dizer assim, dentro da estrutura do Uruguai. Aqui nós temos os estados, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande, lá eles têm departamentos que são estados menores, como é o caso de 33, Cerro Largo e assim por diante.

E eles previam, nesse modelo de governo que eles estavam implementando, a nomeação praticamente igualitária entre blancos e colorados. Então, se eu vou nomear, por exemplo, o comandante do Rio Grande do Sul vai ser um blanco, o de Santa Catarina vai ser um colorado, do Paraná vai ser um blanco, do Mato Grosso vai ser um colorado e assim vai. O que aconteceu lá?

As chefaturas, como eles chamavam, que é a chefia, o comando, o governo do departamento, do lado dos colorados foi desde logo estabelecida. Foram nomeados os representantes e eles foram lá e começaram a administrar.

E as chefaturas dos blancos foram retidas pelo governo, que nomeou intendentes provisórios, alegando que os blancos deveriam indicar pessoas de livre consenso entre eles e tal, e que eles não chegavam num consenso, se alegou isso, e que portanto ficavam então os representantes colorados administrando.

E esse truque, essa puxada de tapete que eles deram no Partido Blanco, piorou de vez a situação, que já era uma situação ruim.

E dentro do próprio Partido Blanco começa a haver uma divisão muito significativa, porque dentro do Partido Blanco existiam os doutores, como eles eram chamados, que eram ligados à ilita urbana, e do outro lado os caudilhos da campanha, entre os quais o próprio Aparício Saraiva, que eram os produtores rurais.

Essa divisão, enquanto, digamos assim, ela vai ser alimentada pelo Partido Colorado, porque enquanto os comandantes blancos da cidade buscavam soluções conversadas, institucionais, os líderes da campanha já tinham perdido a paciência e percebiam que estava sendo só uma enrolação gigante.

que não havia uma solução e nem possibilidade, nem perspectiva de solução para a questão da representação. E eles não eram atendidos nos seus pedidos, nas suas demandas.

Da mesma maneira, a situação econômica do país vinha se agravando, uma inflação alta, o governo perdendo a capacidade de investimento em obras públicas, que já eram poucas, e as poucas que aconteciam, aconteciam num TVD ou então na faixa litorânea. Não aconteciam no interior.

Enquanto Montevideo recebia investimentos e apresentava cada vez mais sinais de modernização, a região da fronteira norte foi enfrentando um processo constante de empobrecimento, de abandono, do êxodo. Muitas famílias indo embora para viver no litoral e viver na região de Montevideo.

E essa dualidade da cidade versus a campanha, ela se torna um dos elementos centrais do discurso político do Aparício Saraiva. Mais ou menos ali em 1896, ele começa então a liderar uma reorganização do Partido Blanco.

a partir da campanha, deixando de lado as lideranças políticas de Montevideo. E vai trazendo para dentro do partido aquelas pessoas que viviam na campanha e que eram pessoas com quem ele havia construído, ao longo das décadas anteriores, uma relação econômica, social, de amizade, de compadrio. Essas redes vão se ampliando.

E o poder do aparício começa a se tornar mais evidente pela influência baseada nos vínculos de confiança e reciprocidade, vamos dizer dessa maneira.

O processo vai se agravando com o tempo até que, em 1896, então se desenvolve a ideia, a proposta de uma revolução, que seria o único caminho, digamos assim, para tentar fazer uma mudança. E é a partir dessa compreensão que o Aparício, então, passa a buscar lideranças que apoiem a insurreição.

Na historiografia uruguaia, eles chamam esse movimento de Ruela del 96. Ruela significa trilho, caminho, rastro, que é deixado por alguém, por um acontecimento. Geralmente, é o caminho marcado que fica no campo da tropa.

Então, por que é chamado La Ruela? Porque em 1896 ele basicamente não tem nenhum conflito, não existe nenhum conflito nesse período. Ele passa o ano de 96 fazendo a mobilização, articulando os chefes na campanha, fazendo deslocamentos de homens e tropas e definindo os rumos da revolução de 1897.

A revolução tem início em 5 de março de 1897, quando Aparício cruza a fronteira pela região de Aseguá, entrando no Uruguai com 383 homens mal armados, iniciando o levante contra o governo colorado.

No mesmo dia, o general Diego Lamas desembarca na colônia de sacramento com apenas 22 homens, que entraram para a história como os 22 de Lamas, abrindo uma segunda frente revolucionária.

Em 17 de março de 1897 acontece a primeira batalha no Arroio Três Árboles, onde as forças revolucionárias enfrentam tropas governistas comandadas por José Vilar. Resultado, a vitória dos revolucionários, apesar de extremamente...

mal armados, mal estruturados e em poucos soldados, o acréscimo de outras forças que vieram se juntando a Parísio, que era aquela extensa rede que nós falamos aqui de compadres, amigos, que lutavam por ele, vai provocar esta derrota significativa contra as forças coloradas, abalando.

o moral do governo e consolidando o movimento inicial dos blancos. Em 19 de março de 1897 nós vamos ter o combate de Arbolito em Cerro Largo, envolvendo forças de aparício contra as tropas governistas lideradas por Justino Muniz. E nesse combate o fato decisivo foi a morte de Arbolito.

do Antônio Saraiva, irmão do Aparício, numa carga de lança, tendo um impacto muito direto sobre a família dele. Isso deixou ele bastante abatido. Em 28 de março de 97, uma grande concentração das tropas blancas acontece em Tupambaé, lá no distrito de Serro Largo, no departamento de Serro Largo.

e se juntando às colunas de Aparício e Diego Lamas, reorganizando as forças revolucionárias após esses combates iniciais. Em 16 de abril de 1897 nós vamos ter a Batalha de Cerro Colorado, no departamento de Florida, com vitória das forças governistas e uma contenção temporária do avanço do Exército Blanco.

Em 18 de maio, praticamente um mês depois, nós vamos ter uma batalha em Riveira, a Batalha de Serros Blancos. As tropas do general Lamas são atingidas, o próprio Lamas é ferido no tórax e no braço e há um enfraquecimento momentâneo da liderança revolucionária porque as tropas foram fustigadas nesse combate pelo exército legalista.

No dia seguinte, em 15 de maio, acontece a Batalha de Guavijú, em Rivera. O Aparício lidera uma carga de lança, as forças blancas conseguem romper a posição inimiga e os revolucionários saem vitoriosos. Em junho de 1897, Aparício marcha sobre Rivera e ocupa a cidade.

consolidando o controle da fronteira, gerando um fortalecimento logístico muito importante, trazendo reforços do Brasil.

e estacionam ali naquela posição para poder reorganizar as suas tropas. Em 8 de julho de 1897, nós vamos ter um novo combate em Aceguá, uma escaramuça de menor escala, com manutenção da região da fronteira no controle dos blancos e repelindo o exército colorado. Em agosto de 1897, I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I

Então ocorre o assassinato do presidente Juan Hiddiarte Borda em Montevideo. Isso gerou um colapso político no governo e a pressão pela paz, principalmente pelos grupos colorados que estavam percebendo

que a insurreição dos blancos não terminava e não dava amostras de aferrecer, então eles criam um entendimento, uma busca pela construção do entendimento. Em 18 de setembro de 1897, baseado nessa iniciativa de entendimento, é firmado o Pacto de la Cruz, que encerra formalmente a guerra.

Aí ali se define a divisão de poder entre blancos e colorados, o reconhecimento do Aparício como a liderança política dos blancos e o fim do conflito sem uma batalha final decisiva. E divide, então, obviamente, aquilo que era o objetivo lá do início, entregando, divide as chefaturas do país e entrega...

para o domínio dos blancos, para o comando dos blancos, as chefaturas de Cerro Largo, 33, Rivera, La Valleja, Flores e San José. Mas surgiu neste cenário, dentro do governo colorado, um líder político-militar, que era José Batol e Ordonês,

que era uma liderança jovem e se tornaria inclusive o presidente do Uruguai nos anos seguintes, e ele não via a situação do aparício, a situação da ascensão do aparício como um político, uma liderança político-militar com bons olhos, e nem podia ver da forma como estava.

E ele começa a trabalhar para que isso se desestabilize, levando a novas tensões e a outros combates futuros.

Os que nunca aparecem para pelear, mas de seguida saem a fazer a paz. Eu sei porque não querem revolucionários os gringos que pagam a esses autores.

Me dizem que não há dinheiro para a guerra e eles tiram os títulos de sua terra. Se o gaúchaje se alza, não lhes convém. Se a vaca se move, não há quem a ordem. Mas Parísio sabe mandar varones e não vão envolver os pelucões.

Por darme uma divisa que seja bem branca Que diga por a patria com letras ancha E no final se dá em conta de seus patricios Que o gancho não é de eles, é de aparição É de aparição

Desde a aparição Houveia del 96, de folclore uruguayo, por Cimarrones De norte a sul, a confraria do tropeiro é sua parada obrigatória

A paz que havia sido celebrada entre os blancos e os colorados vai durar praticamente até 1903. Em 1º de março de 1903, José Batal Eordonês, liderança política colorada, assume a presidência do Uruguai e inicia um governo voltado à centralização do poder

a redução da autonomia das chefaturas departamentais controladas pelos blancos e a ampliação do orçamento da República com cobrança de mais impostos. Durante o segundo semestre de 1913, o governo passa a restringir a influência política dos blancos, o que provoca uma reação de aparício que inicia novas articulações para um novo levante armado na campanha uruguaia.

Em janeiro de 1904, nós vamos ter início a Revolução, já com a mobilização das forças lideradas pelo Aparício no interior do país, marcando um rompimento definitivo com o governo colorado. Nos primeiros meses de 1904, as forças blancas organizam operações móveis na campanha, evitando confrontos diretos prolongados e utilizando o conhecimento do terreno para manter a capacidade de resistência. Aparício

Em junho de 1904, o exército governista intensifica essa ofensiva, avançando sobre as posições dos revolucionários e reduzindo gradualmente o espaço de atuação das tropas lideradas pelo Aparício. Em julho de 1904, a pressão política do governo, política militar,

vai provocando sucessivos recuos das forças blancas, dificultando a manutenção das linhas de comunicação e abastecimento. No início de agosto daquele ano, o cenário se torna muito desfavorável para os revolucionários, com a perda de controle territorial.

e o aumento de superioridade militar do governo. Em setembro de 1904, ocorre a Batalha de Massoler, na fronteira entre o Uruguai e o Brasil, confronto decisivo entre as forças governistas e as tropas lideradas por Aparício Saraiva.

Naquele mesmo dia, durante o combate, a aparício é gravemente ferida por um disparo de arma de fogo, se trata como uma bala perdida durante o combate, que comprometeu a sua capacidade de comando. No dia seguinte, o líder é retirado do campo de batalha e transportado para o território brasileiro, buscando refúgio e tratamento para os ferimentos numa estância de amigos.

Dez dias depois, em 10 de setembro de 1904, a Paris Saraiva morre na estância de Dona Luzia Pereira, em território brasileiro, em decorrência dos ferimentos sofridos na Batalha de Massoler.

Após sua morte, as forças blancas perdem a principal liderança, enfraquecendo a resistência e acelerando o fim da revolução. No final de 1904, o governo de José Bato consolida sua autoridade sobre o território uruguaio, encerrando o ciclo das grandes revoluções caudilistas no país.

De todas essas passagens do Aparício, que nós temos que resumir para tentar caber dentro do programa, eu vou separar aqui quatro momentos que para mim são os principais. Em março de 1897, na Batalha de Três Árboles,

quando as suas tropas estavam numericamente limitadas, não tinham tanto armamento, e enfrentavam a tropa do governo num terreno aberto, ele mantém a linha de combate, sustenta o avanço.

dessa tropa revolucionária até romper a posição adversária e garante a vitória da revolução naquele começo do processo, que foi muito importante. E consolida a liderança dele e mostra para aqueles cidadãos do interior, para aquelas pessoas do campo,

que eles eram importantes, que eles podiam derrotar uma tropa do governo, que eles tinham direito de sonhar com um país mais justo, onde eles tivessem expressão. Em 15 de maio de 1897, numa carga de cavalaria em Guavijú,

Após terem perdido a batalha de cerros blancos, o Aparício lidera pessoalmente essa carga de cavalaria, conduzindo o ataque à frente da tropa e ele é a primeira lança que rompe a linha inimiga num combate corpo a corpo.

demonstra essa liderança direta em combate, reforça o vínculo dele com as tropas e traz uma recuperação imediatamente, praticamente imediata, do outro combate que havia sido perdido.

Outro fato que eu acho interessante também na Revolução de 97 foi a tomada de Rivera. É uma operação conduzida com base na mobilização rápida, na coordenação entre as colunas revolucionárias.

que permitiu a tomada da cidade praticamente sem combate, sem esforço, pela inteligência do Aparício, pela forma com que ele trabalhava essas questões militares. E a batalha de Massoler...

Em setembro de 1904, que foi o último grande confronto da trajetória, ele permanece em campo, mesmo diante da superioridade das forças governistas, e vai lutando corpo a corpo até ser atingido por um tiro, se recusa a sair de forma antecipada e mantém o comando durante todo o combate. E isso vai acabar lhe matando, inclusive, depois.

Então essas para mim são passagens que mostram essa liderança direta do aparício, a exposição pessoal dele ao risco, ele não ficava numa barraca atrás do campo de batalha, deixando que os seus soldados lutassem, ele lutava junto com eles.

E isso transforma o aparício numa liderança inquestionável do ponto de vista histórico e do ponto de vista das transformações sociais do seu tempo. Ele não pode ser reduzido a um simples idem militar, um rebelde.

A atuação dele deve ser compreendida no contexto daquele tempo onde a luta pelo espaço do homem do campo, do homem do interior, ela tinha que ser feita no peito do cavalo e no fio da espada.

O poder naquele tempo derivava da capacidade de juntar pessoas em torno de si e o aparício tinha muito disso. Ele não era apenas um cidadão da fronteira, a fronteira andava com ele.

A infância na estância de Cotija Grande, até a morte após a batalha de Massoler, traz um grande período de transformações na história do Uruguai e na região sul do Brasil.

E se nós pudermos sintetizar tudo isso, nós vamos demonstrar que o movimento dos blancos, esse movimento que o Aparício defendia, ele continua vivo ainda hoje na luta de todos aqueles que buscam uma maior representação junto ao governo do seu país, geralmente centralizador, alienado e desvinculado das reais necessidades do povo do interior.

Por isso e por esse e por outros motivos é que o Aparício Saraiva figura como uma pessoa de relevo e importância no contexto da história do Brasil e do Uruguai. E este foi o nosso programa de hoje. Agradeço a tua audiência e antes de me despedir fica o nosso apelo de sempre. Adote um animal que está na rua, mude a tua vida e a dele também.

A todos os tropeiros e birivas do nosso Brasil, o meu agradecimento. Até a semana que vem.

Bajou ao llano de a caballo vestido color de pueblo e o vento trajo a seu lado um monte de ariscos lanceros. Em tarde federal se remontaban os teros quando, orillando a noite, tras eles, se venia o povo. Os cercaram quatro rumbos com pájaros de misterio, blancos pájaros jogando com o azul dos cielos. Um cinturão de tacuaras andava cuidando o pecho, e os olhos de morte baixavam ao entrevero.

Música

Quando Melitón Muñoz se vinha meando ferro E encontrou uma redota que fez o governo temblar Ele já não alzou cabaladas e sarabia todos os pechos Madrugando medias lunas porque o dia anda muito longe

Por passo do Parque de Nis...

Por passo do parque Denis cae de boca sobre o campo. E rosas súbitas crecem em seu corpo desangrado. E rosas súbitas crecem em seu corpo desangrado. A aurora anuncia uma luz blanca de rojo manchada.

Aparece crescendo em tiroteio Aparece o Sarabias, o nosso jefe Comersito e chiquito

E aí

Por a patria do cabo velho Porque as últimas luzes do cavalo o voltaram E o rompieron o poncho blanco, blanco, blanco Porque as roncas rodajas rotas de ruido rodaram E os homens angustiados a angustia ayer tanudaram Porque a noite sombrada, com seus grillos sombrados Quedou em pena chorando ao jefe do poncho blanco

Porque sua sangue caída, eu sou cunha no pasto da patria, que o viu erguido sobre sua cabaço. Porque está sobre este suelo, é que levanto mi canto. Foi em Massoyer, e não olhido quando caiu do cabaço vestido color de pueblo. Depois soplaram os vientos, desbandando os lanceros.

1904, de Folclore Uruguayo, por Carlos Maria Fossati.