Se05Ep03 - Agente Secreto (Feat. Pupilas em Brasas)
Nesse episódio colaborativo com o podcast Pupilas em Brasas comentamos sobre o filme O Agente Secreto, protagonizado por Wagner Moura e indicado ao Oscar em 4 categorias.
Nos siga no Instagram:
@notasemazul
Léo Agrelos
Wilde Jr.
Nito Xavier
- Agente SecretoVigilância e controle · Ditadura militar brasileira · Memória e apagamento · Violência e sociedade · Cultura e identidade brasileira
Azul. Azul. Albastro. Blé. Blé. Nibesco. Nibesco. Azul. Blau. Bem-vindo ao podcast Notas. Pupilas em brasas. Desde 2011, nunca me dobe.
Em 2025, Kleber Menosa Filho retorna com Agente Secreto, um thriller político que à primeira vista parece mais uma história sobre ditadura militar brasileira. Sem o mesmo apelo comercial de grandes produções ou promessas de ação convencional, o filme se destaca justamente por aquilo que não entrega de forma óbvia. Quem poderia imaginar que uma narrativa silenciosa, quase paranoica sobre vigilância e fuga seria também uma das reflexões mais densas sobre o Brasil contemporâneo.
Mais do que contar a história de um homem sendo perseguido, o agente secreto constrói de maneira inquietante a sensação de viver sobre constante observação. Como se forma uma sociedade onde o medo é permanente? Em que momento o controle deixa de ser explícito e passa a ser internalizado?
A história ambientada nos anos 70 dialoga diretamente com questões que ainda atravessam o presente. Vigilância, manipulação de memória, disputa de narrativas e os limites da liberdade individual. Economia, política, sociologia e teoria crítica já se debruçaram sobre essas estruturas de controle. E o que vemos aqui não é apenas um retrato histórico. É quase um estudo de caso sensorial e perturbador de como o poder se organiza, se infiltra e principalmente se perpétua.
E para conversar sobre esse tema, eu, Léo Agrelos, estou aqui com o Wilde Jr. Que sou eu aqui, o host do podcast Notas em Azul. Você, ouvinte do podcast Notas em Azul, tá achando estranho essa introdução diferente? É porque eu conversei com o pessoal do Pupilas em Brasa pra gente fazer esse episódio juntos. Porque eu acho que esse tema do filme O Agente Secreto tem tanto a ver com o Pupilas quanto o Notas em Azul. Então, esse episódio a gente vai fazer junto e vai estar no feed dos dois podcasts.
E sobre o agente secreto, começando, eu já faço a pergunta aqui. Quem é o agente secreto? Eu, Nito Xavier. Deixei o cara vir se apresentar nesse momento. Levantou a bola excelente, Will.
Muito bem, galera. Estamos aqui fazendo essa collab juntos, né? Fazendo essa mistura de podcasts para a gente poder conversar sobre esse filmaço. Embora aí tenha muita gente que não tenha gostado, né? Eu vi um pessoal reclamando do filme porque é um filme que não acontece nada. É um filme chato. É um filme que estava se esperando um 007 brasileiro. Ainda mais com Wagner Moura, né? Cadê o Capitão Nascimento infiltrado? O pessoal ficou meio decepcionado aí.
Muita conversinha, muita cena dramática. Quer dizer, algumas pessoas falaram isso, né? Tinha que ter cena de tortura, tinha que ter cena de tiro. Cara, mas olha só, esse negócio de cena de tortura, de tiro e tal, eu achei a forma que ele conta que saiu muito do usual, sabe? Porque, assim, se eu sou um cara a favor da ditadura militar, né? Ou melhor, da gloriosa Revolução de 64, eu ia ficar em dúvida com esse filme se ele tava me criticando ou não, sabe? Porque, assim, a crítica não é explícita, é isso que eu quero dizer, sabe?
Não é um filme que te entrega muito facilmente aquilo que você tem que achar. E eu acho que é intencional, né? Eu acho que tem muita dubiedade no filme inteiro. Por isso que eu acho que essa é a ideia do agente secreto, né? Essa ideia do filme é essa ideia da dubiedade no filme todo. Eu levantei essa pergunta, né? Quem é o agente secreto? Porque eu acho que essa é uma das perguntas mais importantes, tá ligado? Da interpretação de cada um desse filme.
Porque de acordo com quem você interpreta que seja o agente secreto, quem ou o que vai dizer, pelo menos do que eu entendi, daquilo que você tirou do filme pra você, tá ligado? Porque eu entendi, eu absorvi, acima de tudo, que o agente secreto, que muitas vezes tá por detrás de tudo e de todos, que é o grande fio da meada do filme inteiro...
É essa violência inescapável, meio que perpétua e incompreensível, tá ligado? Que tá em todo lugar o tempo inteiro acontecendo de uma forma tão banal e tão horrenda, tá ligado? Que é uma coisa que, infelizmente, é uma realidade do Brasil, tá ligado? O tempo inteiro tá acontecendo, né, esse embate de forças invisíveis pelo poder, pelo controle do Brasil. E a gente, como pessoas normais, batedores de ponto, pagadores de imposto... ...
A gente fica nessa posição muito maluca, né? Sendo vítima de uma parada que a gente nem consegue colocar um nome, nem um rosto, tá ligado? Só tá acontecendo. E você falou, nós pessoas normais, esse pra mim é um ponto positivo do filme, que ele não fala sobre uma celebridade ou sobre uma pessoa importante politicamente na época da ditadura, né? Qualquer um ali podia ser você, sabe? Não são pessoas como, sei lá, o Ainda Estou Aqui, né? É, né? Um deputado federal, né?
que tinha uma influência e tal. Não, é sobre pessoas mesmo. É sobre o comum, né? É sobre os lugares que estão simplesmente acontecendo, tá ligado? É que nem a parada do corpo lá na primeira cena, né? Por que aquele cara morreu? Quem matou ele? E é uma parada muito louca, porque eu nasci em 86, né? Já no finalzinho da ditadura.
Mas eu vivi no Capão Redondo Na década de 90, né? Ainda vivo, né? Mas peguei a década de 90 Onde a gente era, tipo Capão Redondo, Jardim Anja, São Luís Campo Limpo Era, tipo, os lugares mais perigosos, assim Do planeta, né? Na época Tinha muito essa parada mesmo, assim De você acordar pra comprar pão Ter um corpo jogado lá Há muito tempo
Você é uma criança. E aí vinha essa parada assim, tá, tem um corpo jogado. E quem é? Aí levava muito tempo pra você saber quem era, por que que tava ali, o que que aconteceu. Isso acontecia tão corriqueiramente, assim, era uma coisa tão comum que você parava de fazer essas perguntas. Era tipo, ó, tem mais um corpo lá no Terreno Baldio. Ah, eu fui comprar pão e passei por um corpo e tal. E aí uma coisa interessante que o chavoso da USP falou, quando ele fez a crítica do Ainda Estou Aqui, que a galera meio que reclamou, né, que ele faz uma crítica sobre o filme, que ele não gostou muito, porque era, pra ele, na visão dele era um filme elitista.
Mas era esse o ponto, porque, por exemplo, a ditadura acaba em 88. Só que nas quebradas de São Paulo, tipo, ela não acabou até hoje. É. Então, você pode simplesmente tomar um enquadro, eu não sei como é que se chama nos outros lugares, mas enquadro é quando a polícia te para. É à noite, você não voltar pra casa, e sua mãe tem que explicar depois pro bairro por que você era bandido, sendo que você nunca foi, sabe?
recentemente aqui, umas duas semanas atrás deram um tiro de fuzil aqui na praça perto de onde eu moro 6 horas da manhã num sábado 6 horas da manhã num sábado é a hora que a galera tá saindo pra trampar, aí pegou um senhor que tava saindo pra trampar, ele parou no bar pra comprar um cigarro, tomou um tiro na barriga
E a filha, que é da área de saúde, tentou ir lá, né, prestar os socorros. Isso eu tô falando que apareceu na TV, tá? Entrevista que ela dá no jornal. E ela fala que não conseguiu chegar perto porque o policial não deixou. Então ela tava vendo o pai dela morrer à distância. E ela chegou até pra ele e falou assim, não, então vai você lá e vê os sinais vitais, né, pra ver se ele ainda tá vivo. Falou que o policial não foi e não deixou ela chegar perto.
E esse cara morreu na calçada. E aí, o comentário dos posts, né, do jornal, tipo, mas o que ele tava fazendo na rua essa hora? Pô, era seis horas da manhã.
Ah não, mas ele vai no fluxo, no lugar de funk. Não é um lugar de funk, é onde o cara mora, sabe? Tipo, não existe essa separação. Os caras não estavam dentro de um ambiente pra festa. Era na praça do bairro. Podia estar passando ele, podia estar passando uma criança, podia passar qualquer pessoa. Ele foi o cara que teve o azar de passar na hora, entendeu? É isso. Só que aí você tem que justificar tudo isso depois.
você trouxe a expressão certa, foi esse foi o cara que deu azar de estar no lugar errado na hora errada, e eu acho que essa é uma sensação que a gente tem toda vez que a gente olha, acho que pro Brasil como um todo, tá ligado? Porque o Brasil é o lugar certo, né? Era pra isso daqui ser uma outra coisa, todo mundo percebe o potencial que esse lugar tem, só que pela conjuntura social e política que trouxe esse país à tona, que criou essa coisa toda, esse Leviatã gigante, esse monstro de um milhão de
faces, a gente tá nessa situação, tá ligado? Um dos países mais ricos em recursos naturais e não só recursos naturais brutos, né? Mas um país com uma diversidade de um povo com infinita capacidade de fazer tudo que fosse necessário acontecer, só que por essa conjuntura corrupta, atrasada, maléfica e que esmerilha mesmo o espírito da pessoa comum a um senso de que nada pode acontecer de bom.
a gente tá nessa situação, tá ligado? Esse, pra mim, né, é o agente secreto que o filme quer ser um espelho pra poder trazer pra nossa realidade, tá ligado? Isso tá acontecendo o tempo inteiro. Essa apatia que só cresce, essa repetição de tantos ciclos que tudo parece que nunca melhora, sabe? Tipo, um dia desse eu tava assistindo, cara, no YouTube, um canal muito interessante. Deixa eu procurar aqui rapidinho só um nome pra poder passar a referência completa aqui. Mas o nome, cara, era o Nordeste Gótico o nome do vídeo.
É um mini documentáriozinho, o nome do cara é Session, O-S-E-S-Y-O-M. É um cara, um estudante de história, que ele fala sobre o Nordeste de uma perspectiva mais honesta, sem cair no que seria o clichê da Globo, sabe? Do tomar cachaça em todas as refeições. Não tem nada a ver com isso, é uma análise histórica honesta.
Do mamãe falei, do pega peixeira e... Tá ligado? Não tem nada disso, pô. Ele fala a verdade como o nordestino, ele fala da verdade, né? Do sertão do nordeste e tal. E aí nesse vídeo sobre o nordeste gótico, ele faz esses paralelos com a questão da cultura lusitana, né? Da cultura ibérica, que o nordeste é que segura essa coisa. E aí você tem essa mesma parada que tem lá na Espanha, dessas rinhas, né? De famílias, que se repetem, cara.
Uma família odeia a outra desde sempre. E aí vão se matando. Um jovem mata o outro jovem. Aí se mantém esse ódio entre as famílias. Isso vem dessa rixa europeia. Isso se instaura no Nordeste. Isso acontece desde sempre. E quando essas pessoas chegaram aqui, elas já chegaram...
trazendo com elas o ódio e a destruição e a morte, porque eles chegaram e tiraram o espaço do índio. Eles mataram o índio, eles mataram a onça, eles tiveram que arrancar aquele espaço à força. Então quando acaba esse esforço civilizatório de expulsar o nativo, agora eles têm que continuar lutando entre si.
É a repetição da repetição da repetição da repetição. De um ciclo de uma geração precisar destruir os seus pares porque a geração anterior deixou esse legado e aí tá tudo bagunçado, tá tudo baseado nessa porcaria. Essa força cultural, essa negatividade muito pesada que quando a gente se torna, vamos dizer assim, mais consciente do que é a realidade do Brasil, quando você estuda, quando você observa, quando você viaja pelo Brasil, fica muito claro.
Que essa energia ela tá aqui Desde o nascimento desse lugar E infelizmente a gente se esforça muito pouco Pra poder se afastar dessa energia A gente tá o tempo inteiro multiplicando ela Eu tenho essa sensação
É, você falou dessa questão do matar as famílias e tal. Inclusive, um dos personagens do filme é baseado num personagem histórico, né? Que matou o cara, que matou o pai dele, sabe? Acho que tem até o mesmo nome do personagem, se bobear. Mas é aquele cara que eles encomendam pra matar o personagem lá do Wagner Moura. Eles contratam um jagunço, vamos dizer assim. Isso. Esse cara aí, ele é baseado em um maluco lá do Pernambuco mesmo.
O filme é muito preciosista nesse sentido de tentar transmitir muito bem essa atmosfera de realismo, né? De ir lá, de falar do Cinema São Luís usando o próprio Cinema São Luís, né? Não sei se vocês sabem, mas a sessão de inauguração desse filme, a Premiere, foi feita no Cinema São Luís, tá ligado? Que é citado no filme. Não, usou o cara que... o projetista do filme. É, exatamente, que era amigo, né? Do roteirista e diretor.
Uma coisa interessante pra quem não viu o filme é assistir aquele Retratos Fantasmas, o documentário dele. Isso, o documentário do Kleber. Cara, assim, complementa bem a ideia porque quando você vai assistir o Agente Secreto, você reconhece os lugares. Quando ele olha pela janela do cinema e vê ali, fala, opa, essa imagem eu já vi. Quem acompanha o cinema, né, do Kleber Mendonça Filho, meio que já conhece bem, né, Recife, assim.
Acho que o que o Kleber faz é ele transformar, a gente fala, fica até clichê, né? Você transformar a cidade em um personagem, né? Que traz essa parada de a cidade, ela ser algo vivo, né? Então, acho que você tem isso no documentário dele, né? Embora seja uma... No documentário você tenha uma impressão de que a cidade foi morrendo, aqueles espaços que ele vê com saudosismo. Mas no Agente Secreto, eu vejo muito a cidade como um lugar...
que ao mesmo tempo que ele é acolhedor, né, porque é um lugar de refúgio, onde ele se encontra ali, está fazendo um comérciozinho, trocando a comida do dia a dia, tem lá a dona Sebastiana que acolhe todo mundo e tal, então assim, essa cidade tem esse tipo de pessoas.
mas que também é um lugar super perigoso, onde a polícia age de maneira truculenta, onde tem lugares que a polícia se esbalda, que é o caso lá, que a gente vai falar mais pra frente, da perna que batia nos outros e tal. Tem muito disso na cidade, do mesmo jeito que ela é acolhedora, mas ela também é um lugar perigoso, é um lugar que o mal consegue se esconder ali, consegue se valer em alguns casos, né?
É, inclusive, você falou aí da perna, não adiantando o papo da perna cabeluda, mas da perna do tubarão. Vocês entenderam o que significava a perna do tubarão? Do pessoal fazendo a autópsia do tubarão, vocês entenderam o que aquilo ali significa? É que os policiais estão matando e jogando gente no mar, pô. Que a ditadura fez isso pra caramba, né?
de helicóptero e jogar num... Sim, sim, sim. Eles vão ver o rolê todo do tubarão lá porque eles não querem que as pessoas entendam que tem um monte de corpos sendo jogados no mar porque as pessoas estão simplesmente sendo mortas e descartadas, entendeu? Sim, por isso que chamam o delegado lá que vai pra abafar o... E aí eles fazem aquele esquema todo pra tirar a perna do necrotério, né? Pra sumir com qualquer tipo de prova, qualquer tipo de análise, qualquer tipo de coisa. Aí vira só uma história, entendeu?
E ali também tem uma parada de você já adiantando a história que o próprio Wagner Moura passa, né? Porque você tem ali uma professora que ela está focada em fazer o certo e tal, estudar o que está acontecendo ali, e você tem um poder que se faz maior ali naquele momento para impedir qualquer avanço de ciência que ela possa estar tentando, né? Que é algo que se repete quando a gente tem o flashback do Wagner Moura, né?
Pois é, o roletoro dele lá com o empresário, né? Então, isso que é muito louco, assim, né? Porque a história do Armando, ela é uma história que não tem um grande personagem, assim, né? Porque como o filme sugere, né? O agente secreto. Na verdade, ele não tá trabalhando pra ninguém. Ele só quer sobreviver, né? O esforço do homem comum de tentar sobreviver, né?
É um cara que tá metido numa situação que ele não antecipava e agora ele tem que lidar com ela, pô. E aí, ele não queria tá ali, ele não queria derrubar nenhum sistema, ele não tá trabalhando pra ninguém. O que eu acho que faz do agente secreto é porque ele tá escondido como agente secreto, ele tá tentando fugir de situações ali e tal.
Mas ele é um cara comum, só tentando sobreviver, ficar com o filho dele, entendeu? Não tem nada de excepcional. Isso que talvez fique mais assustador quando você reflete sobre o filme. Porque é uma parada que o principal ali, o Wagner Moura, ele foi sugado pra dentro daquele rolê todo. Porque ele não queria, entendeu? Porque a treta dele é com o empresário.
Não é nem contra a ditadura militar e tal, é contra o empresário, né? E é mais uma arrogância do empresário do que propriamente uma parada assim. Vou derrubar esse empresário. Na verdade, ele estava ali sendo resistência, né? Por causa daquele estudo que ele estava desenvolvendo com carros elétricos, né? Não me recordo agora.
Isso é uma coisa que existe, né? A Gurgel trabalhou firme na produção de um carro elétrico, né? Chegou a fazer alguns protótipos. Mas aí a gente entra, né? Onde que a arte imitou a vida, né? Tem toda a discussão do porquê que a Gurgel não se tornou...
uma montadora nacional com uma quantidade de produção expressiva, quem sabe se tornando o maior vendedor de carros do Brasil. Não sei se vocês sabem, mas a questão toda dos carros 1.0 é porque foi feita lá uma lei que dava vários descontos fiscais, né, de imposto para carros que tivessem 1.0, que o motor tivesse essa capacidade de 1 litro de introdução de oxigênio. É isso que significa 1.0, né? E o Gurgel, ele tinha um motor de moto.
que era 0,8. Então ele não se enquadrava nessa isenção fiscal. Então a empresa nacional tinha que competir com empresas de outros países que tinham capital muito maior, que tinham tecnologia sendo desenvolvida há 50, 70, 80 anos e não tinha o incentivo fiscal do governo brasileiro para poder fazer isso com um custo menor.
enquanto essas empresas tinham desconto do governo para poder vender os seus carros 1.0. É nessa leva que você tem carros como o Gol 1.0, o Fiat Uno 1.0, depois vai ter o Celta. Todos esses carros se valem dessa lei, que é a lei que torna a existência da Gurgel, uma empresa brasileira, inviável financeiramente.
Sempre quando eu tenho o meu ataque de patriotismo, a Gorgel eu sempre cito como um excelente modelo de negócio, né, cara? Uma parada que foi orgulho nacional e cai muito por entreguismo, né? Você pode olhar a história da Gorgel, tem muito entreguismo aí sistematizado para que a Gorgel não seguisse em frente. Inclusive, você falou aí do carro elétrico. Se vocês quiserem procurar depois, não sei se vocês já viram, no YouTube mesmo tem. O presidente da Gorgel, ele indo num programa do Silvio Santos...
E mostrando o carro 100% elétrico. Pois é. E ele andava. Imagina, na década de 80, o cara vindo com um carro que era super vanguardista. Tinha motor elétrico, era feito de microfibra, né? Sim. Que hoje a maioria dos carros usam e tal. O cara muito à frente do seu tempo. Uma tecnologia incrível, mas foi derrubado, né?
Na questão do Wagner Moura, o que me assusta, né? Porque torna o filme muito conectável, né? A gente. Eu acho que é esse lance do homem comum, sabe? Lógico, o cara era estudado e etc e tal. Mas ele não tava querendo tá ali, sabe? Então, mas ele era, né? A galera que tava com ele na casa eram pessoas de todo quanto é jeito, assim, tá ligado? É.
É, mas assim, não era propriamente pessoas, tinha um ou outro ali, mas não era propriamente pessoas que estavam lutando contra o regime, pelo menos foi o que eu entendi, né? Mas assim, você não precisava lutar contra o regime pra ser alguém que possa ser classificado como inimigo do regime, né? Ah, sim, isso que assusta. O adolescente, por exemplo, lá, que era homossexual, tem aquela frase que é interessante, que fala assim, ah, mas ele é homem, né?
Só que ele não é homem como as pessoas classificam o que é um homem, né? É um negócio assim, tem um...
Que tem o rolê dele quando ele troca ideia com a senhorinha lá. E é isso, é tipo, é todas as pessoas que podem ser classificadas como comportamento desviante. E o que é um comportamento desviante pra uma ditadura militar? Você só vai descobrir quando você for classificado como comportamento desviante.
No fim das contas, esses momentos de autoritarismo, eles são todos muito iguais, né, cara? É sempre uma repetição dessa parada, tipo, se cria um grupinho. Começa com um grupinho de pessoas extremamente polarizadas e essas pessoas, elas alavancam a influência delas por um momento de crise social e econômica. E aí a regra que essas pessoas ultra polarizadas, né...
Com uma visão de mundo muito específica e muito excludente do restante. Quando essas pessoas são vistas como heróis, aí vai tudo pra baixo, né? E aí todo o restante fica à margem, né? Todo o resto é visto como inferior. Quando a gente olha a história da humanidade, é sempre essa mesma dinâmica, cara.
É muito triste que a gente ainda caia na lábia de uns caras malucos que começam a inventar um monte de teoria que acham que sabem como o mundo funciona, sabem o que é melhor para os outros, tá ligado? É muito triste que a humanidade sinta tanto conforto na presença dessas pessoas, né, cara?
Não, e tem a questão das respostas simples, né, cara? A sociedade é muito mais complexa do que as respostas simples, né? Geralmente essas soluções estão sempre eliminando alguém, né? Esse que é o problema. Tem sempre essa questão da eliminação do outro, né? Você primeiro precisa descrever quem são seus inimigos, demonizar, né? Porque sempre passa por uma visão também religiosa do processo, demonizar essas ações.
E aí, a partir do momento que essas ações são demonizadas, elas podem ser eliminadas, né? Pra expurgar, né? Porque aí melhora a sociedade. Se você não tem essa pessoa pensando dessa forma. Pô, ontem eu assisti um filme que entra nessa mesma discussão, tá ligado? É o Ilha dos Cães, do Wes Anderson. Um daqueles filmes de stop motion dele. E, cara, é muito interessante porque esse filme aí, o Ilha dos Cães...
A história é o seguinte, é Japão meio que assim, década de 70, e aí os cachorros começam a ter uma gripe. Aí vira gripe dos cachorros. Todos os cachorros ficam gripados no país inteiro. E aí eles decidem jogar todos os cachorros numa ilha de lixo, tá ligado? Eles nem matam os cachorros, só jogam os cachorros lá. Eles deixam os cachorros entre si, vivendo no meio do lixo.
E aí a trama toda do filme é de que existe um esforço científico pra poder curar essa gripe dos cachorros. Porque essa gripe, além de deixar os cachorros gripados, deixa eles com uma coceira muito forte e muito agressivos. Então, com o tempo, eles vão se tornando inaceitáveis na sociedade, entendeu?
E aí o rolê todo é ter um esforço científico pra poder curar a gripe dos cachorros, mas o governo não quer que essa cura venha à tona. Porque é uma parada ideológica mesmo, de excluir os cachorros da sociedade, tá ligado? E aí o filme deixa toda uma narrativa não apontada assim no primeiro plano, né? Numa segunda e terceira camada, de que tudo isso aconteceu por manipulação dos gatos, tá ligado?
Então é um filme meio de criança, meio de adulto, de stop motion, né? Então meio infantil, assim, mas com essa parada mega pesada, tá ligado? Tipo um bando de cachorro tendo que sobreviver numa ilha só de lixo, tá ligado? E aí tem uns cachorros que são canibais. É uma parada muito triste, assim, que o cachorro é um ser que é muito simbólico, né? De amor, de carinho, de companheiro. E aí a sociedade vira as costas, tá ligado? Pros cachorros por causa dessa parada que no fim das contas... Vou dar o spoiler final do filme, né?
Foi o governo que criou a gripe, tá ligado? Pra se livrar dos cachorros. Música
Vocês falaram da perna cabeluda? Primeira vez que eu ouvi falar nisso foi na música do Chico Sainz, né? Da Nação Zumbi. Caraca, sério? Eu conheço praticamente zero de Chico Sainz. Mas é uma informação, então, que não vai acrescentar aí nada. Eu confesso que eu fiquei perdidaço, assim. Falei, caraca, por que da perna, né, tal? Aí depois eu acho que eu vi um vídeo, a pessoa falando, eu falei, caraca, faz todo sentido. Agora eu entendi esse negócio.
Quem não lembra, né, do filme, tá tendo uma discussão ali entre os policiais corruptos.
e esses dois caras que vieram do Rio, né, pra matar o Wagner Moura. E aí eles falam que vão fazer um passeio. E aí os cariocas ali não entendem, né? Tipo, passeio, velho, o que é isso e tal? E aí eles dão risada, corta a cena, e aí vira um filme de terror, trash, B, C, que é uma perna muito da Malfi.
Que chega a ser até engraçado, lembrando o clássico filme do pneu assassino. Onde a gente tem a perspectiva do pneu assassino. O pneu assassino não é um filme trash, assim.
Ah, ele é filmado de forma trash, cara. Ele pode ter todo um... Não, não. Não é? Você acha que ele é filmado de forma trash? Ah, eu acho, velho. Não, mole. Você acha que é bem feito? É, ele é muito bem feito. Tô com outra memória aqui. Não, reassiste, filho. Mas, enfim. É um filme que tem os seus cinco minutos de filme trash ali. Parece Tomate Assassinos. Pode ser, tá bom. Vamos concordar.
piranhas, assassinas voadoras. Quase um charquinado. Charquinado. E aí, cara, tipo, dá um apavoro lá na galera, bate em todo mundo e tal. E aí, beleza, corta, o filme continua e tipo, caramba, o que aconteceu aqui, né? Pois é. Esse filme, ele tem muito disso, tipo, de você precisar pensar, de você precisar ver referências, porque é um filme que segue a regra lá de Hollywood do Show Don't Tell, que é o Mostre e Não Explique. Tem muito diretor que faz isso.
E assim, né, minha opinião pessoal, e eu vi várias pessoas fazendo essa crítica, esse filme, ele é muito intelectual, no sentido que ele é pedante em alguns momentos, e eu tenho que concordar, tipo assim, ele é muito filme pra assistir de gola rolê. Eu acho que ele é só um filme pra não assistir com o celular na mão, cara. Eu acho que nós, assim, pra falar geral, a gente tá muito acostumado com o filme Netflix. Não, não, isso eu concordo 100%.
E eu vi essa reclamação desse filme, que eu não entendi, mas toda vez que o Marcos Grocesi lança um filme, também vem essa reclamação. Ah, não acontece nada, o filme é muito longo, é cansativo, porque nós estamos acostumados a assistir filme como se fosse segunda tela, assim.
Se você assistir um filme da Netflix do jeito que eu, que tenho 40 anos, assisto, que é com o celular fora da minha mão, é insuportável você assistir um filme. Porque o roteirista tá te chamando de burro. Porque a cada 10 minutos ele vai te reexplicando o que tá acontecendo. Agora, se você não estiver prestando atenção, meu, o filme fica bom.
Quando você vai pro Agente Secreto, realmente, não é um filme para se assistir com o celular na mão. É um filme que você tem que ficar, tipo, focado o tempo todo. Não sei se a geração TikTok... Tô nem julgando, falando que é certo ou errado. Tô falando assim, que talvez seja um filme para um público que não seja um público de hiperestímulos. E os últimos filmes que...
blockbuster de cinema e tal, o filme que tá todo mundo assistindo, são os filmes de hiperestímulo. Como o Agente Secreto foi o grande filme brasileiro do ano, assim, o filme brasileiro que teve essa repercussão pra todo mundo assistir, então foram todas as pessoas verem Agente Secreto. Inclusive as pessoas que tão acostumados com o filme de ação, e ainda mais que o nome do filme é Agente Secreto, né? Você já tá esperando que vai ter um 007 brasileiro.
E aí, pra mim, o Agente Secreto, ele é muito mais dinâmico do que eu ainda estou aqui. Tu achou, cara?
achei, eu dei boas risadas no Agente Secreto. Então, é que eu acho que o Ainda Estou Aqui, ele é mais linear, ele não brinca com essas histórias e tal, ele não brinca visualmente, então ele te pega na mão e te leva, né? Ó, por exemplo, nessa questão da perna ali, dando o apavoro, cara, você pode...
Até falar assim, ah, eu acho que é a polícia ali e tal. Mas se você tem um contexto que nem você teve da música, ou quem vive lá em Recife, né, que conhecia esse escritor de jornal, que fazia esse relato, mas colocava uma perna cabeluda no lugar de escrever polícia, pô, isso é muito mais... E aí
enriquecedor pra você assistir o filme. Então você depende de algumas coisas que eu, pelo menos, não tinha esse background pra compreender o que tava rolando ali, sabe? A partir do momento que eu falo, caraca, então tinha um jornalista que escrevia sobre os excessos da polícia nessa época, mas o editor dele não deixava ele escrever a palavra polícia.
e aí ele inventa essa história e tal. Caraca, dá um boom, assim. Só que eu acho que você precisa de um pouquinho de background, sabe? Tudo bem, aí você tá sendo muito específico na questão da perna cabeluda. Mas se você não tiver todo esse background, você consegue curtir mesmo a perna cabeluda dentro do filme. É porque a gente tá preso também, aí é outra coisa, as interpretações. Ah, a perna cabeluda é exatamente isso. Tudo bem, mas se você não souber da perna cabeluda...
você consegue colocar aquilo de uma outra forma no filme, e você consegue aproveitar essa história da mesma forma. Aí a gente vai pra uma outra coisa, nós somos a geração do final explicado, tá ligado? Então a gente viciou na ideia de que se você tá vendo algo no filme, você precisa compreender exatamente aquilo que tá sendo o filme. Alguém aqui assistiu Morra Amor? Não. Ok, é o filme do Eduardo do Crepúsculo e a mina do Jogos Vorazes.
filmaço. A impressão que eu tenho é que a mina teve uma depressão pós-parto, que pra mim parece ser óbvio. Ah, sei, eu vi o trailer desse filme. E você tá na cabeça dela ali, o filme todo. O filme vai acabar, você vai falar, tá, o que é realidade, o que não é realidade? Pouco importa. Você não precisa de um final explicado pra falar, ó, isso é isso, isso é aquilo, isso é aquilo. Senta aí na frente do filme, aprecia isso daí, porque se você vai na pinacoteca aqui em São Paulo, não vai ter ninguém pra ficar te explicando o que é Os Padres.
Você vai lá e tem a sua impressão sobre a obra, entendeu? E o que o Kleber Mendonça faz ali é uma obra de arte, assim, questão de filme, né? Não é aquele filme pra você sentar e passar as suas duas horas. É um filme pra você prestar atenção em todas as etapas. Cara, por não ter background, eu ignorei essa parte completa.
Beleza E aí o filme ficou menor? Tá bom, vamos Não E assim, tem muita coisa que ele colocou lá Que a gente não tem ideia Do que é Porque a perna cabeluda é algo que quebra o filme, né? Quando ela aparece, você fala Puta, tô vendo outro filme dentro do filme Mas tem coisas sutis que ele provavelmente colocou lá Que a gente nem percebeu O Aronovski lá, quando ele fez mãe Que todo mundo falou Não, é uma metáfora da Bíblia, tal E todo mundo foi pegando parte a parte O que tava acontecendo ali Pra entender o filme Porque o filme só funciona dentro da metáfora Mas o líquido amarelo que ela toma Então
Até hoje eu não tenho ideia do que é. Mas o filme continua a mesma coisa. Tem coisas que você não vai pegar e ok. Vida que segue. Pra experiência do filme, beleza. Vida que segue e tal. Agora, num papo que a gente tá tendo, por exemplo, aqui. Que aí a gente traz essa parada. Traz algumas coisas que são curiosidades e tal. Eu acho que enriquece pra caramba, sabe?
Por exemplo, igual você falou, vamos lá na pinoteca, não tem ninguém pra explicar. Você gostou, achou legal lá o quadro, mas aí depois alguém que conhece um pouco mais do que você, ou que conheceu o artista e tal, trouxe uma curiosidade ou te explicou o quadro, eu acho que a experiência acaba ficando melhor, né? Por exemplo, o Bacurau, que é o filme anterior dele, eu assisti, cara, eu não sei quantas vezes.
Não tenho ideia. Fui assistindo várias vezes, assim. Toda vez que alguém chegava aqui em casa e não tinha visto, eu falava, ah, vamos ver de novo. E aí eu vi várias vezes. Várias visitas à obra faz você pegar coisas que você não tinha pegado da primeira vez. Também é isso. Tipo, quando você lê um livro a primeira vez e um livro tem 400 páginas, cara, você não vai conseguir guardar tudo aquilo de informação. Mas numa segunda passagem por ele, você consegue pegar coisas que você não pegou da primeira. E a gente precisa também ter esse exercício de paciência. De, ah, vi o filme.
peraí, deixa eu ver de novo, como é que seria minha segunda interpretação da obra, entendeu? E aí, por exemplo, se você quer ter um papo como a gente tá tendo aqui, você foi atrás e aí você descobriu o que que era a perna cabeluda, ok aí beleza, é muito melhor essa parte pra mim, sim, sim, vai ficar melhor
E aí se você assistir ele agora, ele vai ser melhor do que a primeira vez. Porque esse é o bom filme, né? Eu acho, pelo menos na minha opinião do bom filme. Aquele filme que você tem uma segunda experiência e você acha melhor do que a primeira. Depois você vê de novo, você tem uma outra interpretação daquilo que às vezes você deixou passar.
Mas isso que eu acho que é a grande sacada de um bom filme. Quando você, mesmo sem entender, você consegue sentir, né? Que eu acho que é mais ou menos o que você está falando, né? O filme continuou bom. Eu só tive que ignorar aquela parte porque eu não conseguia entender, compreender, mas a gente seguiu em frente. Mas o filme não diminuiu para mim a experiência.
E eu acho que a grandeza do filme também é essa questão da conversa pós, sabe? Pode ser que tenha coisas que você não pegou. Aí você assistiu com alguém, nessa conversa, assim, quando você tá indo embora, você fala, putz, e tal coisa, pô, legal, é, não tinha reparado. E aí você cria outras interpretações do filme ali, nessa coletividade, né? De conversar sobre a obra que você acabou de ver. Então eu acho que o filme só cresce, né?
esse podcast inclusive é a prova disso né, que a gente tá aqui discutindo tipo assim, eu assisti o filme e falei cara, eu preciso fazer um podcast sobre esse filme só que não pode ser só eu falando tá ligado, aí na hora eu lembrei do Pupilas, porque pô, esse filme é um filme exatamente pra poder fazer esse tipo de coisa pra poder conversar, pra poder discutir, pra poder reassistir reinterpretar, porque cara
Eu tenho essa impressão de que a proposta, no fim das contas, desse filme, é fazer a gente parar e olhar pra trás pra poder tentar ver o que que tá lá no nosso passado, enquanto pessoas, enquanto sociedade, enquanto brasileiros, né? Que muitas vezes a gente tá vivendo sem perceber, pô. Eu tenho essa impressão, especialmente baseado no final.
Baseado no final, aí tem um paralelo que precisa ser feito com A Indus To Aqui, porque A Indus To Aqui, ele é um filme que também trata sobre memória. Esse símbolo da memória tá tanto no decorrer do filme, que ela passa o filme inteiro tentando organizar as fotos, e ela acaba não conseguindo organizar todas as fotos, depois ela perde essa foto era de onde, quando que foi, as datas, e aí no final, quando ela tem Alzheimer e não consegue lembrar das coisas ali. Esse filme também é sobre memória.
E a galera criticou muito o final, porque ele é anticlimático. Mas um governo totalitário, uma ditadura, é isso. A gente queria uma catarse no final, onde ele conseguisse derrotar os inimigos, né? Era isso que a gente tava esperando. Bom, é o Capitão Nascimento, né? Ele vai conseguir derrotar os inimigos. Mas é isso, cara. A ditadura, ela oculta a história. Eu acho genial, quando corta...
E lá no final, a mina vai entrevistar o filho dele. E o filho dele sabe menos sobre o pai do que elas que estavam vindo as fitas. Não existe história. Ele não conhece o pai. Existe um apagamento da memória. A última coisa que você tem do cara é uma foto do jornal dele jogado na rua, sabe? Esse cara morreu. Um morto, né?
Como que foi? Não dá pra saber, foi na ditadura. Ninguém sabe como as pessoas morreram. E não tem como contar essa parte no filme. Porque essa parte não existe nos relatos, entendeu? E aí você vai falar pro filho do cara, que também é um filme sobre família, né? Cara, o pai que queria estar junto com ele, assistir Tubarão...
Quando você consegue ter esse apego, né, da família, porque agora o cara faz questão e quer estar junto do filho, só que isso foi tirado. E a história desse cara foi tirada. Quantas pessoas foram apagadas, sabe? Quantos filhos não têm noção das histórias do pai? Se tivesse uma catarse no final e essa vitória dele, ou se tivesse muito bem documentado essa morte dele, o filme trairia a própria história do filme, que é tentar contar um pouco mais de realidade, né?
E eu vou te falar, Nito, você puxou o gancho pelo qual eu queria gravar esse episódio aqui, tanto no Pupilas quanto no Notas em Azul, cara. Porque assim, eu acho que no fim das contas, esse filme pode instigar a gente a reentender quem a gente é num nível muito profundo.
Porque eu acho que todos nós que somos brasileiros A gente carrega, cara Eu vou usar uma expressão aqui que não é do vocabulário do Pupilas Mas que pra mim faz muito sentido, cara A gente carrega um karma muito grande do nosso passado, cara Porque essa é a história de todas as nossas famílias
todas as nossas famílias carregam isso em algum lugar. Por exemplo, no caso da minha família, minha avó, mãe do meu pai, que morreu em 2018, ela era filha de uma mulher índia que foi literalmente pegar a força por um negro recém-libertado, tá ligado? Essa é a história da minha avó, pô. O que a minha avó não passou pra frente verbalmente que chegou até mim, que eu não tenho palavra só para poder descrever, mas que está dentro de mim, tá ligado? Eu sim.
que isso tá aqui comigo agora nessa altura da minha vida agora eu tô fazendo terapia de novo, vou me casar, né eu tenho pensado muito no que que veio comigo até aqui que eu não escolhi que tivesse comigo que eu nem sequer às vezes percebo que tá comigo, mas que eu tô carregando comigo o tempo inteiro
É quem a gente é, cara. É o Brasil, sabe? Eu tive meio que esse insight a primeira vez quando eu fui lá em Ouro Preto. Cara, quando eu entrei naquela mina e eu vi aquele lugar que foi inteiro cavado, tá ligado? Com o trabalho dos escravizados, a luz de velas feitas de cera de baleia que soltava uma fumaça constantemente. Pessoas que estavam naquela condição ali, às vezes nuas, às vezes seminuas, sabe? Trabalhando seis, sete dias por semana pra extrair ali. Literalmente, mano.
Eles cheiraram mil toneladas de ouro. De ouro preto em 100 anos, cara. É uma parada, assim, absurda. E você vê, assim, as minas. Tem várias minas muito grandes lá. Com literalmente centenas de metros escavados dentro da terra, cara. E aí você pensa...
Pensa na profundidade do sofrimento que aquilo ali tudo causou, sabe? O preço que foi pago silenciosamente, tá ligado? Todos os dias pra poder fazer aquilo ali acontecer. E você pensa que a face que é vendida pra gente desse país, ela trai, tá ligado? As costas desse país, sacou? Essa coisa, ela tá em todos nós. E a gente muitas vezes não percebe, cara. Não percebe, pô. Esse sangue que escorre na rua, falando do filme, né? A imagem do cara literalmente morto na calçada.
É só mais uma manifestação, tá ligado? Dessa história, cara, de 526 anos de destruição, de violência, de caos, de dominação, de escravidão, tá ligado? E às vezes a gente não percebe. E eu acho que é muito valioso a gente parar pra poder pensar, pra conversar com os nossos pais, com os nossos avós. Pra visitar os lugares dos quais a nossa família veio, pra ver da onde a gente veio, tá ligado? Porque não tem como a gente...
realmente lidar consigo mesmo de uma forma minimamente saudável sem enfrentar esses fantasmas, cara. Não tem como. Eles se manifestam o tempo inteiro na nossa vida, esses fantasmas, sabe? E a gente só vai conseguir ter o mínimo de paz com a gente mesmo. Eu, pelo menos, tenho essa impressão. Paz com uma pessoa adulta, honesta, que enxerga quem é, quem são as pessoas ao seu redor, quem são os meus pais, quem são os meus familiares, quando a gente entende quem são esses fantasmas, cara. E o...
tem essa impressão. Você falou uma coisa interessante dessa questão da história. Minha mãe, por exemplo, ela nunca foi considerada uma subversiva na época da ditadura, tá ligado? Mas... uma coisa que ela me ensinou desde moleque era que se eu fosse pra padaria comprar pão, eu teria que sair com o meu RG, tá ligado? Pra ir na padaria comprar pão. Mas por que que eu preciso disso?
preciso porque se aparece algum homem da lei, digamos assim, eu preciso apresentar quem eu sou pra que ele possa me liberar por eu não ser um criminoso. Esse é o primeiro ponto. Mas, se mesmo assim ele me interpretar como um criminoso, provavelmente na cabeça dela seria mais fácil me encontrar se eu tivesse com o RG no bolso. Só depois, se você vai crescendo, você vai entendendo. Hoje eu tenho mania, tá ligado? Tem hora que eu vou ali no mercado, eu pego o cartão e o RG. Coloco no bolso. Mesmo tendo tudo no celular, né?
Hoje tem outros métodos, né? Mas mesmo assim, tipo, vai sair de casa, não importa pra onde, pega o RG, porque você precisa ter essa parada, fica mais fácil de encontrar depois. E aí você não morre como indigente, não fica como um desaparecido. É essa herança que você recebe. Não sei se, sei lá, na...
A Argentina, que resolveu o problema deles com a ditadura militar de uma forma mais agradável do que o Brasil. Não sei se lá eles têm esse problema de, hoje mesmo pós-ditadura, você sair na rua e ter esse medo de não voltar, ou sabe, se você pode desaparecer. Aqui, hoje ainda é constante, pelo menos onde eu moro.
É complicado e essas conversas difíceis têm que acontecer, mano. Como você falou muito bem, mano, a gente tá nessa cultura aí de TikTok, da superficialidade, da repetição, das fórmulas, e a gente tá correndo um risco, cara, de que a próxima geração, essa geração aí vai estar completamente desconectada da história. Porque explicar essa história é muito difícil, é muito doloroso, exige atenção, exige repetição, exige...
disposição, e não dá pra fazer uma análise profunda e honesta sobre nenhum desses assuntos, sobre ditadura, sobre escravidão, sobre colonização do Brasil, sobre a mixigenação, o lado positivo, o lado negativo, toda a questão do que foi feito pra trazer imigrantes europeus e japoneses pra poder branquificar o Brasil depois da lei Áurea. Não tem como você discutir isso no TikTok, cara.
É um meio muito superficial pra poder ter essas conversas, cara. E eu acho que esse filme desperta a gente nesse 2026 pra olhar pro passado de uma perspectiva meio chata, né? Meio lenta, meio 2 horas e 40 de filme. Mas vê, cara, de que a gente só tá aqui por causa dessas coisas. A gente tem que lidar com esses fantasmas, a gente tem que lidar com esse passado. Tentaram apagar ele exatamente pra que a gente não percebesse o quão profundo
foi a violência que o nosso país sofreu de forma sistemática, tá ligado? Porque essa é a esperança dessa galera no passado. É de que ninguém fosse perceber de que a perna do assassinado não fosse parar na barriga do tubarão que morreu, tá ligado? Mas aconteceu. A gente tá aqui conversando e a gente tem que ter essas conversas, cara. É por isso que eu quis gravar esse episódio, porque eu acho que se todo mundo...
que tá ouvindo a gente, e nós aqui tirarmos um tempo pra honestamente conversar com os nossos pais, com os nossos avós, pra buscar entender o que é a história do Brasil, ver o que aconteceu de verdade, a gente vai ter opiniões que não vão seguir o que é a discussão da internet, tá ligado? Sobre os assuntos, que é sempre uma discussão dois ladista de Fla-Flu. A realidade não é Fla-Flu, a realidade é muito mais complicada, tá ligado?
Essa questão da memória, né, que a gente foi conversando aqui, a impressão que eu tenho da filmografia do Kleber e também por algumas entrevistas que eu vi dele é que ele tem, assim, um zelo, um cuidado, uma necessidade de resgatar essa memória, sabe? Aquele jeito que fez a gente chegar onde chegou, né? Se você for pegar tanto o documentário mencionado quanto o Aquário, que explora ali as memórias, né, de você...
Pô, isso daqui foi importante, não pode ser tomado pela pasteurização, por um negócio padronizado e tal. O que torna nós humanos diferentes são essas pequenas coisas e lembrar disso é importante. Então, quando se falou aí de resgatar essa memória desse período histórico, né? E aí eu acho que tem uma grande sacada, pelo menos pra mim, no início do filme, ela de já começar com a palavra pirraça, né?
É até uma palavra que está em desuso, né? Pouca gente usa essa palavra. Então, quando ele remete isso daí de, tipo, foram anos de pirraça, né? Ele poderia falar, foram anos de resistência. Não, mas foram anos de pirraça que o lance de você estar vivo era uma pirraça para um sistema que queria anular, um sistema que queria padronizar, né? Aí eu vejo hoje, assim, uma escola, falando aí do Nito, uma escola que se importa com aluno.
Ele vai contra uma escola cívico-militar, porque enquanto a cívico-militar está focada naqueles cidadãos que se padronizam, que bate continência, que faz tudo igual, fala igual, anda igual, se veste igual, corta cabelo igual, uma escola que está assim...
se importando com o aluno, ela é diferente, assim, mesma coisa o hospital, né, eu trabalhei em hospitais públicos e privados, um hospital que tem uma humanização, que se importa com a pessoa, tal, ela vai ter três, quatro, cinco assistentes sociais, enquanto uma instituição privada, ela vai ter um psicólogo e olhe lá.
porque todos são números, a gente tinha que lidar com a quantitativa de paciente, a gente não chamava dentro do serviço privado paciente, a gente tinha que chamar de cliente. Isso já mostra essa mudança, já mostra essa pasteurização, não se envolva, sabe? Então eu acho que o que o Kleber vê na filmografia dele, parece que ele tem essa missão pessoal de resgatar essa memória, resgatar esse passado, porque a gente é composto por nossas individualidades. Então, eu acho que o Kleber não tem mais, né?
Eu fico imaginando assim... Quando minha mãe... Faltar e tal... Olhar pra trás... E ver assim... Deve ser meio desesperador... Você não ter memórias... Daquilo que... Que te criou... Que te levou até ali... Sabe? Seja se você tem pais... Ou se outras pessoas te criaram... Mas você gostaria de manter aquilo... E aí eu acho que... A memória... Que se tem...
Nesses períodos de ditadura, o sonho, o fetiche é ser uma memória padronizada. Só quem morreu foi vagabundo, porque não tem outro tipo de pessoa. É só aquilo, né? O padrão é esse ser. Ah, mas foi por engano. Não, mas o padrão é esse. Ah, mas ele estava no lugar errado na hora errada. Com certeza era vagabundo. Que é meio que acontece quando a gente vê os excessos aí de algumas polícias estaduais fazendo, né? Isso meio que acontece até hoje, dependendo do teu... ...
Ou então também nos crimes contra a mulher também, né? É sempre esse o argumento. Ah, porque ela tava na rua essa hora. Ah, porque ela tava usando aquela roupa. Tem esse padrão, né? O padrão de você responsabilizar a vítima, né? Fica mais fácil responsabilizar.
estabilizasse, você já tem um padrão culposo, né? Qual que é o padrão da mulher ser estuprada na rua? Ah, ela tava de mini saia, ela tava no horário X e fazendo tal coisa possivelmente era uma vagabunda então fica mais fácil, você padronizou a vítima, então você não questiona o que aconteceu
E você falou, é uma parada da memória nas obras do Kleber. Cara, a memória é algo extremamente revolucionário. E aí você pode jogar pra qualquer lugar. E não é essa memória de um Brasil melhor, Deus acima de tudo, Brasil acima de todos. Não é sobre isso. Mas é sobre você...
conseguir dar valor a essas memórias é que a gente tá falando de um filme que tá falando disso praticamente o tempo todo, mas quando você vai lá pra Aquarius que ele fala sobre a questão dessa invasão, né, da pasteurização e de você pegar, né, residências ali que a galera já vivia há um tempo edifícios que a galera já vivia, que tinham história, e você simplesmente derrubar pra construir padrões aquelas caixas de concreto em São Paulo, agora é assim cara, você já foi assim, né, durante muito tempo
Mas hoje, todas as regras do plano diretor da cidade estão sendo quebradas pra empreiteira construir caixa de concreto, assim. Tem até documentários mostrando o assédio que esses moradores sofrem pra vender as residências. Tem uma moça, uma mulher que ela fala o seguinte, que o cara vai construir uma torre e ela não vai vender de jeito nenhum. E aí o cara fala, não, tudo bem. Se você não vender, a gente vai construir uma torre gigante e a gente vai tampar o sol. Você não vai ter sol o dia todo na sua casa. Você tem uma ameaça.
Tem um bairro em São Paulo que uma rua, os caras colocaram frente de todas as casas, uma placa falando assim, não está à venda. A placa geralmente é pra vender, né? Aqui é tipo, eles colocaram a placa de não está à venda. Porque eles já querem cortar o contato antes que chegue. Porque sabe que o assédio vai começar. E a galera vai pra cima pra fazer o que, exatamente o que tava acontecendo ali no filme.
E você vê que essa questão da memória, ela é revolucionária, na questão de tipo assim, eu vou citar a Netflix de novo, que só que é um padrão, quando eu falo Netflix, é qualquer outra coisa que você conseguir colocar nesse padrão aí. Que você vai ter toda semana um filme novo, que é a mesma coisa do filme da semana passada, mas eles não vão investir em nenhum momento em deixar o filme, sei lá, da década de 30, da década de 40, da década de 50.
Por quê? Porque você precisa abrir mão do antigo, você precisa abrir mão disso para aceitar um novo padrão, que é a questão do comércio, né? A sua expectativa é o próximo que vai sair. Nunca parar para refletir naquilo que você está vendo. E aí você tem sempre essa pasterização, sempre a mesma coisa. Ou parar, pensar, refletir, ou por que que isso foi feito dessa forma, por que que nesse momento da história a câmera era colocada desse jeito, o ator estava desse jeito.
a atuação era assim, e agora a gente tem essa mudança, isso não é pensado, que a gente tá, até na nossa, nosso consumo de entretenimento, ele é um consumo de entretenimento ansioso, que é tipo, a gente tá sempre querendo ver a próxima, isso acontecia muito, filmes da Disney, né, da Marvel, acontecia muito isso, assim, de você acabar de ver um filme, desculpa a palavra aqui, mas um filme bosta, mas você saia de lá empolgado, com pós-crédito, porque o Thanos falou alguma coisa, sabe, porque, ah, vai aparecer ali, ah, no fundo,
fundo daquela tela tinha alguma coisa acontecendo ali e você tá ansioso pro próximo filme. Então a sua conversa não era sobre o filme que você acabou de ver. Era sobre a expectativa do que vem depois, tá ligado? E com isso você vai tirando a memória. Você vai acrescentando sempre uma ansiedade do que vai acontecer no próximo dia, na próxima hora e a correria sempre vai tá muito maior e aí você não tem tempo de refletir na vida, nas coisas, de meditar e tal, de pensar nessas coisas.
Não tem tempo de viver, né? Sim. Porque viver é isso, né? Viver não é esperar pelo amanhã. Viver se vive no agora, né, cara? Isso é uma parada que é muito doida. A gente vive nessa sociedade do amanhã, do próximo, do scrollar o rio porque esse rio já não tá legal. Sendo que a vida, cara, a vida é vivida aqui no agora, pô.
Exatamente. E essa busca, né, por esse pseudo progresso, não traz progresso, né? Porque muitas vezes o progresso é você parar e viver e aproveitar, né, esse momento que você tem agora. Uma coisa que o ano passado eu tive bastante, que era uns picos de ansiedade no trabalho, assim, tá?
fazendo nada e me dava uma angústia assim, sei lá, parecia que tava alguma coisa dando errado é, lógico que eu fiz várias coisas, inclusive eu comecei terapia mas uma coisa que me ajudou muito nesse primeiro nesses primeiros meses de 2026 foi deixar o fone em casa, eu ando na rua sem ouvir nada, tá ligado? faz uma diferença absurda durante o dia. Eu tive essa exata conversa com a minha psicóloga e eu já gravei episódio do podcast Notas em Azul sobre isso, cara. Sim, e faz toda a diferença.
Pelo menos pra mim, né? Não estou falando que é um remédio que pra todo mundo vai funcionar. Na minha vida, cara, eu digo pra você, tipo assim, se eu passar uma semana inteira sem levar o fone de ouvido comigo pro trabalho e pra nenhuma das minhas atividades, eu sinto que eu termino a semana menos estressado, menos mentalmente cansado e com disposição pra poder, tipo assim, viver o final de semana mais no positivo do que no negativo.
No sentido de querer fazer coisa, ao invés de querer se imedificar dentro de casa, dormindo, que eu não aguento fazer nada. Sacou? Eu tenho essa percepção bem clara. E sabe como eu cheguei nessa conclusão? Pelo menos pra testar isso, eu lembrei que teve um momento, eu moro no Capão Redondo, né? Campo Limpa, aqui Zona Sul. E teve um momento que eu estudava em Itaquera. Pra quem conhece São Paulo, tá aí, é longe. Itaquera é Zona Leste, Capão é Zona Sul.
Eu ia pra Itaquera no começo da semana, ficava lá na casa da minha irmã, que era mais próxima, ali em São Mateus.
E voltava no final de semana pra casa. E nesse percurso. Que é aí que eu tava lembrando das histórias que a galera contava no ônibus, né. Que muitas vezes eu pegava, fazia esse percurso à noite. E aí eu passava pelo centro antigo de São Paulo ali. Perto das 11, meia-noite. E aí tinha muita gente diferente no ônibus. Várias histórias. E eu falei, cara, nessa época já tinha fone de ouvido. Já tinha Diskyman, Okman, tá ligado? E acho que esse pá já tinha até os primeiros MP3 player lá e tal.
Mas eu fazia esse percurso só com o meu livro e sem fone. E aí eu lembro, tipo, dos diálogos que eu tinha comigo mesmo e das conversas que eu ouvia no ônibus. Várias histórias, assim, absurdas e histórias legais também. Fiquei, cara, eu vou trabalhar andando. 25 minutos da minha casa até o trabalho. Eu faço todas as manhãs esse percurso andando. E esse percurso, se eu for ouvindo alguma coisa, não vai ser uma audição que eu vou poder aproveitar daquilo que eu tô ouvindo.
Vai ser só algo pra fazer a trilha sonora da vida, sabe? Como se fosse a trilha sonora do filme. Ou se eu for colocar, tipo, um podcast pra ouvir, eu também não vou ficar prestando atenção, sendo que eu tô andando na rua. Falei, meu, eu vou tirar. Simplesmente tirei. Agora eu vou pra trabalhar conversando comigo mesmo, sabe? Tipo, observando as coisas. E é um tempo que eu tenho pra desacelerar.
Falando, não, pera, eu não sou uma companhia tão ruim assim que eu não consigo ficar sozinho, tá ligado? Vamos aproveitar esse momento fazendo outras coisas, mesmo que seja, sei lá, observando os carros que passam por mim enquanto eu tô indo. Esse filme me fez pensar bastante, assim, como o Nito falou, durante o filme eu tava meio tipo assim, não sei, entendi, acho que entendi, beleza. Mas cara, imediatamente eu deitei pra poder dormir e...
Cara, eu passei a madrugada inteira sonhando e o dia depois pensando nesse filme, porque eu me senti muito confortável nele. Exatamente nessa maluquice, nesse caos, nessa violência, porque eu sinto que nós, nós brasileiros, a gente vive nesse mundo, cara.
Apesar de já ter passado tanto tempo, de 1977 para cá, o Brasil continua sendo esse mesmo país violento e muitas vezes injusto, muitas vezes desconfortável com aqueles que mereciam conforto e confortável para aqueles que mereciam desconforto.
É triste, mas a gente precisa encarar essa realidade para que a gente possa fazer alguma coisa, para que a gente possa agir no nosso dia a dia diferente daquilo que foi ensinado para a gente, daquilo que a gente recebe como sendo normal. Então, se o normal é ser insensível, ser violento, ser agressivo, ser ansioso...
Eu sinto que a gente precisa fazer um esforço pra não ser essas coisas. Pra não multiplicar essa energia. Porque senão a gente vai ser só mais um agente, né? Um agente do agente secreto que é essa violência maluca, essa maldade maluca. Essa vontade de mandar na vida dos outros, de descartar os outros, sabe? Se a gente não tiver a capacidade de refletir o passado do nosso país, da nossa família, da nossa vida. A gente não vai plantar um futuro melhor, não.
E eu quero acreditar de verdade que nós queremos um futuro melhor. Não só pra nós, mas pras pessoas ao nosso redor, pra nossa família, pros nossos filhos, pros nossos sobrinhos, pros nossos conhecidos, pra todo mundo. Pro Brasil que existe aí hoje, pra quem sabe a gente vê um futuro melhor pra nossa nação. Entenderam alguma coisa? Oh, yeah!
E eles me chamam de louco e falho Mas a verdade é que eu sou jacu Bagu de quieto, mas sou inseguro Eu tenho medo de tomar um pouco Tirando os dias que eu acordo torto Com pensamento umas dez e pouco
E o bagulho já começa louco Solta a cara nisso, hein, urubão!
Ai, eles me chamam de low profile Mas na verdade é que eu sou joku Pago de quieto, mas sou inseguro Eu tenho medo de tomar no cu
Tirar o dia que eu acordo, torno Com pensamento num mais mais e pouco E o orgulho já começa logo Sou da grande sangue no bom