Episódios de Cuida da vida - conversas reais

#99 o que as coisas que você já fez pelo menos 99 vezes dizem sobre você?

09 de julho de 202612min
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O episódio de hoje é um abraçinho em forma de palavras para todos aqueles que desejam uma vida com mais celebração das pequenas repetições.

O comercial de chiclete que menciono no episódio aqui!

Participantes neste episódio1
N

Nassim

HostPsicóloga
Assuntos4
  • Desenvolvimento PessoalCrescimento através da repetição · Aprendizado de bicicleta · Pressão e autocrítica na adolescência
  • Rotina diária e obrigaçõesInstalação de afetos · Comercial de chiclete Tsuru · Valorização de momentos repetidos
  • Antecipação mental e intençãoDiferença entre teimosia e perseverança · Consciência e sofrimento psíquico · Compromisso com a transformação
  • Inovação em produtos e processosSustentabilidade do processo · Flexibilidade na relação com o processo · Timing e aprendizado
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
NNassim

Oiê, meu nome é Nassim, trabalho como psicóloga, amo muito o meu trabalho e tenho esse podcast como forma de espalhar reflexões sobre saúde mental, cuidado e vida para pessoas além do consultório. A ideia é esse espaço ser o nosso abracinho semanal em forma de palavras. Ao final de cada episódio, eu espero que você sinta cuidado e afeto. Tal como ter um gatinho ronronando no seu colo, ler a mensagem de um amigo que você não esperava, receber o sorriso de um estranho na rua.

Meu objetivo é fazer você sair daqui cheio de reflexões e sentimentos para continuar a corrente de abracinhos na forma de palavras com outras pessoas do nosso mundo. Vem comigo! O que as coisas que você já fez pelo menos 99 vezes dizem sobre você? Ou melhor, o que as coisas que você já fez 99 vezes dizem sobre quem você foi se tornando ao longo da vida? Bom, falando de mim, pelo que eu sei, eu fui uma bebê calminha e tranquila.

Mas acredito que dentro do que um bebê tem de recursos pra se comunicar com o mundo, Com certeza devo ter chorado, mamado, mijado, cagado, arrotado, peidado, emitido algum grunhido pelo menos 99 vezes. Já maiorzinha, eu lembro com 6 anos de idade desejando muito aprender a andar de bicicleta sem rodinha, que nem vários coleguinhas meus já sabiam na época. Naquele tempo a gente morava numa casa com quintal grande. Com certeza eu caí pelo menos 99 vezes até aprender a andar de bicicleta sem rodinha.

Eu lembro que em cada uma dessas 99 quedas eu tinha muita determinação e motivação de pensar que era uma queda mais próxima de conseguir andar com a bicicleta sem rodinha. Na adolescência, a vida para mim começou a ficar mais sombria e as coisas que eu passei a fazer pelo menos 99 vezes também. Passar as manhãs na escola estudando muito e à tarde, à noite também estudando muito sozinha na minha casa. E pelo menos 99 vezes me colocando muita pressão e cobrança por possíveis pelo menos 99 vezes que senti culpa e vergonha de ser quem eu era.

E consequentemente tendo pelo menos 99 pensamentos e atitudes erradas com o meu corpo e minha saúde em nome de ideias de magreza que com certeza pelo menos 99 vezes vezes me pegaram, por coisas que eu vi na mídia, por comentários, etc. A partir daí, deixou de ser legal contar quantas vezes eu fiz alguma coisa pelo menos 99 vezes, porque passou a ficar na cara que eu não posso controlar e escolher sozinha todas as coisas que ocorrem comigo pelo menos 99 vezes.

No máximo, posso escolher 99 vezes o que fazer com o que a vida fez de mim. E essa é a pergunta que muitos adultos têm medo de se fazer. Você está sendo e se tornando as 99 coisas que a vida fez com você? Ou você tá se tornando as 99 coisas que você fez com que a vida fez com você? Crescer e se tornar adulto é difícil por muitas coisas, como por exemplo, algumas coisas vão ter que deixar de acontecer 99 vezes para que outras aconteçam 99 vezes, ou vão ter que deixar de acontecer pelo menos agora.

Muitas das histórias dos nossos sucessos e sensações de fracasso como adultos passam por dilemas e decisões que tensionam processo e produto. Quais processos valem a pena passar, repetir, tentar várias e várias vezes porque o produto final vale a pena para você? Mas até onde o processo é sustentável se a única coisa que te motiva a passar por ele é um produto que nem a certeza garantida? O quanto nossa relação com o processo e o produto é consciente sem ser rígida e é flexível sem ser frouxa?

Encontrar esse lugar não é um botão que você chega lá e aperta, é um movimento que se escolhe. O processo só é processo porque aponta para algum lugar, mesmo que esse ponto mude e vai mudar, viu? O produto final só tem aquele sentido e significado, porque ele foi todo um processo para ser o que se tornou. Sabe aquela sensação do momento de entrar na brincadeira de pular corda, com a corda batendo e você tendo que encontrar o timing certinho entre a corda começar a cair bem antes de bater no chão, mas ainda depois de ter estado no topo?

Você está a 99 tentativas entrando no jogo Ou você tá há 99 tentativas esperando a hora perfeita para entrar? Ou está 99 tentativas errando o tempo e aprendendo com cada uma delas? O tédio de fazer uma coisa 99 vezes é de um lado a paciência e a incerteza de que você vai conseguir chegar numa centésima vez. Porém, é dos repetidos tédios que surgem viradas de chave, transformações e afirmações. É de alguns tédios que se constrói a perseverança, a capacidade analítica e sintética de planejar, organizar, executar, tomar decisões, ter resiliência, autoconfiança, autoestima e muitas outras coisas.

Repetir tem muito a ver com permanecer, e isso também toca em muitos medos do adulto dos dias de hoje. Até onde repetir várias vezes uma coisa sem ter a menor ideia se vai dar certo ou não é ser cabeça dura? E até que ponto é ser perseverante? Tem uma coisa que responde isso. A intencionalidade no nosso agir ou não agir. O quanto repetir é sobre se fechar para só uma coisa e se isolar, sobre impaciência com o tempo do processo, evitação por ansiedade, rigidez no pensamento, aversão ao novo.

Nesses casos, o perseverar é perseverar em evitar buscar novas formas de viver problemas antigos, nem sempre por escolha e muitas vezes sem consciência, mas marcando ainda assim uma intenção que propicia sofrimento e adoecimento psíquico. O quanto repetir é estabelecer um compromisso com algo que testemunha possibilidades de transformar algo fora de você e algo dentro de você também. Em certos momentos, a gente deixou de contar quantas vezes a gente consegue fazer algo, mas algumas coisas na minha vida, por alguma motivo, eu fiquei e fico contando o número de vezes ainda.

E os episódios desse podcast estão sendo uma dessas coisas. Há ao menos 99 encontros e desencontros. Há ao menos 99 aulas de pós nesse meio tempo. 99 noites de estudo. 99 atendimentos de psicoterapia. 99 vezes saindo pra mexer meu corpinho. 99 vezes cozinhando eu mesma uma refeição de verdade. Em meio a pausas, retomadas, crises, com ocupar ou não a internet, como e pra quê ocupar a internet. Vivemos tantas outras 99 coisas que nos trouxeram a esse episódio número 99.

No livro Pequena Coreografia do Adeus tem um trecho entre as personagens Dona Cíntia e Júlia que é assim: A Dona Cíntia me avisou que sairia mais cedo do café. Precisava fazer suas compras de Natal. Você fecha pra mim? Sua frase de sempre. E aí a Júlia responde: a senhora sabe que pode contar comigo. Minha frase de sempre: nas repetições é que se instalam os afetos cotidianos. Então ela me deu um beijo na bochecha, retribuí fazendo um bico.

Quando eu li esse trecho do livro, eu me lembrei de um comercial de chiclete que uma psicóloga com quem fiz terapia há uns bons anos atrás me sugeriu de assistir na época. Eu consegui encontrar esse comercial, eu coloquei o link na descrição do Sorte. Mas já dando spoiler do comercial, caso você nunca tenha visto ele, é um vídeo de um pai acompanhando a filha dele em vários momentos da vida dela enquanto ela vai crescendo. E nesses momentos o pai sempre dá um origami de Tsuru que ele fez com papel do chiclete da propaganda.

Quando essa menina, né, a filha, ela vai para faculdade, eles estão lá colocando todas as coisas no carro para levá-la, e aí acidentalmente o pai derruba uma das caixas de onde caem todos os os origamis de tsuru que ele fez para ela ao longo da vida, e que pela reação dele parece que ele nem imaginava que ela tinha guardado os tsurus por todos esses anos. E aí ele começa a se lembrar de todos esses momentos importantes que ele fez parte da vida dela.

E aí esse comercial, depois que eu lembrei dele, reafirmou uma coisa muito importante, que sim, é nas repetições que se instalam os afetos cotidianos. E às vezes percebemos que algo é importante depois que se repetiu 99 vezes. Tem coisas que a gente precisa escolher elas para chegar 99 vezes, e tem coisas que cada uma das vezes foi tão especial que a 99ª vez de repente parece que ela só chega. Essas duas coisas, o você ter que escolher para chegar 99 vezes, mas também a 99ª vez só acontecer, elas elas não são necessariamente coisas excludentes, porque processo e produto envolvem muita coisa sim, mas também aceitar não ter controle de muitas outras coisas todos os dias pro resto da nossa vida.

Muitos adultos seriam mais felizes se eles se permitissem contar com empolgação as coisas que acontecem repetidas vezes, tal como quando a gente era neném contavam os nossos dentinhos quando começavam a nascer, Começavam a contar quantas palavras a gente já sabia falar, quando começaram a contar quantos dentinhos já tinham caído, e também contar quantas vezes você já caiu de bicicleta até aprender a andar de bicicleta sem rodinha.

E se o adulto de hoje um dia celebrasse as suas pequenas repetições? Bem-vindo Ao meu Abracinho em Forma de Palavras número 99, que quando eu comecei esse podcast eu nem sabia que abraçar as pessoas na forma de palavras seria algo que se tornaria um compromisso da forma que se tornou. Nos vemos no nosso abraço número 100.

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