#105 se você não trabalha na UTI o seu trabalho não é uma urgência
O episódio de hoje é um abraçinho na forma de palavras pra todas as pessoas que precisam recalibrar sua noção do que é urgente de fato o que pode ou ao menos deveria esperar.
- Aprender o conceito de urgência por coisas que não eram urgência de fatocobrança·pressão·controle
- Viver sob pressão de uma falsa urgência e suas consequênciassíndrome de burnout·teoria de modelo demanda-controle de Karasek·adoecimento físico e mental
- A urgência dita relações de poder e dominação na sociedadeempresa e empregado·pais e filhos·cuidadores e cuidados·amante e amado
- A importância de reconhecer a urgência em seu devido lugarsaúde·vínculos importantes·perda de identidade
Oiê, meu nome é Nassim, trabalho como psicóloga, amo muito meu trabalho e esse é o Cuida da Vida Conversas Reais, um podcast para levar reflexões sobre saúde mental, cuidado e vida para pessoas além do consultório. A ideia é esse espaço ser o nosso abracinho semanal em forma de palavras. Ao final de cada episódio eu espero que você sinta cuidado e afeto, tal como ter um gatinho ronronando no seu colo, Ler a mensagem de um amigo que você não esperava, receber o sorriso de um estranho na rua.
Meu objetivo é fazer você sair daqui cheio de reflexões e sentimentos, pra continuar a corrente de abracinhos na forma de palavras com outras pessoas do nosso mundo. Vem comigo! Urgência: situação que exige ação rápida, mas que não necessariamente traz risco imediato de morte. Qual a memória mais antiga de situação de urgência que você se lembra de ter na vida? Como a vida foi te apresentando o conceito do que é uma coisa urgente e do que não é urgente?
Eu não consigo me lembrar da minha memória mais antiga de urgência. Mas uma coisa que eu sei é que eu aprendi que urgência é coisa dos outros e não a minha. Urgência é cobrança, é o uso de pressão e controle. Eu, e talvez você também, tenha aprendido o conceito de urgência por coisas que não eram urgência de fato. Todo conceito vai ter uma base social, e quem pode definir o que é urgência ganha prioridade e passa na frente. A consequência toma a frente do motivo.
Aquele que pode impor sua necessidade como urgência toma a frente e não necessariamente quem de fato precisaria mais. A quem beneficia vivermos à base de urgência? Se de um lado, ser uma pessoa que acata com prontidão urgências verdadeiras ou falsas é culturalmente incentivado. De outro, a gente não sai ileso de passar a funcionar desse jeito. A urgência dita relações de poder e dominação: empresa e empregado, pais e filhos, cuidadores e cuidados, amante e amado.
Quem impõe e quem acata a urgência tem raça, gênero e classe. Conhecer os sensos de urgência de uma pessoa é conhecer o quanto e como os sentidos e percepções de alguém se moldaram em torno de estados de vigilância e alerta. Entender a história de como cada um aprendeu o conceito de urgência é conhecer o como as noções de conforto e segurança foram sendo construídas no campo dos significados e no campo do sentir de cada um. Romper completamente com o viver em estado de urgência em situações que não são urgência de fato nem sempre é uma questão de escolha, o que não significa que sejamos totalmente impotentes diante disso.
Ou seja, viver sob pressão de uma falsa urgência não é a única coisa adoecedora. Mais adoecedor ainda é viver em condições que impõem essa pressão sem perceber que isso tá muito errado e que não temos condições humanas para engajar com essa pressão indefinidamente. Se tem uma coisa que define muito bem uma consequência social de viver sob a pressão de uma falsa urgência, ela tem nome: síndrome de burnout. Uma das teorias para avaliar o estresse ocupacional do trabalho e o risco de burnout é a teoria de modelo demanda-controle de Karasek.
Essa teoria postula a seguinte, digamos que, fórmula: quanto mais um contexto tem de forma conjunta alta demanda com baixo controle, Maior a possibilidade de adoecimento físico e mental nesse contexto. Que essa teoria consegue resumir de um modo muito eficaz como identificar um risco de exaustão ocupacional, isso não precisamos discutir aqui. Agora, o que me assusta é pensar que foi preciso criar uma teoria para descrever um modo de funcionamento social que nem deveria existir.
Pessoas serem cobradas sem autonomia, pra lidar com essas cobranças. Não deveria ser um preço a se pagar pra ter um emprego, um cargo, um salário, um reconhecimento ou qualquer outra coisa relevante do tipo pra cada um. Alta demanda com pouca agência é sermos destituídos de humanidade, nos tornarmos uma peça de uma engrenagem que não se sente, não tem necessidades fisiológicas, não tem vida, não tem história e pior, Essas coisas, que são a vida, em vez de serem motivo de preocupação por estarem em último plano, passam a ser vistas como empecilho pra não entregar ainda mais resultado.
Se a urgência é a situação que exige ação rápida, mas não necessariamente traz risco imediato de morte, por outro lado, chamar de urgência coisas que não são urgentes tá matando muita gente. E não é só isso, mas fazendo a gente descuidar daquilo que de fato pode se tornar urgência: negligência com a saúde, descuido de vínculos importantes, perda de identidade, não ter mais uma música favorita, um momento de deitar e olhar pro teto e sonhar longe, um momento esperado empolgadamente que não seja terminar o trabalho ou ir dormir.
Não devemos ser contra o conceito de urgência, mas precisamos reconhecer que a urgência deve ser colocada no lugar dela. Ideias originais, criatividade, diversão, amor, paixão, cuidado, profundidade não são coisas que nascem da urgência. Além disso, quem de fato trabalha ou vive no contexto de urgência vive em outro tempo e em outras condições. Desde um plantonista a uma pessoa atuando em situações de calamidade, desastres e tudo mais.
Viver no modo de urgência sem as condições específicas para tal é ter ações esvaziadas em operações e carentes de propósito. É preciso saber viver fora do contexto de urgência para saber reconhecer a urgência quando ela de fato existir. Sabe aquele conto pra criança ninar do pastor e dos carneirinhos? Então, vai mais ou menos por aí. Um dia o lobo vai vir e comer os carneirinhos de tanto que você tentou responder a mais uma falsa urgência, acreditando ser urgência de fato.
E esses carneirinhos são nossa saúde, nossos sonhos, nossa identidade, nossas relações e muito mais. É preciso saber reconhecer e diferenciar o conceito e as sensações no corpo que temos em situações de tranquilidade e em situações de urgência, pra não esquecermos do que abdicamos quando entramos na urgência e o que permanece mesmo quando a urgência não é uma opção. Esse foi o episódio de hoje. Se essa reflexão fez sentido por aí, Indica o episódio e ajuda uma psicóloga com um podcast e um sonho chegar em mais pessoas. Forte abraço e até o próximo episódio.