Episódios de Cuida da vida - conversas reais

#103 um assunto vergonhoso … ou não

13 de agosto de 20269min
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O episódio de hoje é um abraçinho na forma de palavras pra todos aqueles que passam por dificuldades em lidar com sentimentos de vergonha e vulnerabilidade!

A música do Passenger que falo no episódio aqui!

Participantes neste episódio1
N

Nassim

HostPsicóloga
Assuntos3
  • Furúnculos e Vulnerabilidade· SaudeFurúnculo como limite imposto pelo corpo·Ciclos de crises e aprendizado·Vulnerabilidade e a busca por cuidado
  • Vergonha e Aceitação de Imperfeições· SociedadeVergonha social versus vergonha de si·Gremlins como analogia para pensamentos vergonhosos·Vulnerabilidade como força, não fraqueza·Passenger
  • Buracos como parte da jornada· SociedadeBuracos no coração e na vida·Aceitação dos buracos sem compensação·Resiliência para retomar projetos
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
NNassim

Oiê, meu nome é Nassim, trabalho como psicóloga, amo muito meu trabalho e esse é o Cuida da Vida: Conversas Reais, um podcast para levar reflexões sobre saúde mental, cuidado e vida para pessoas além do consultório. A ideia é esse espaço ser o nosso abracinho semanal em forma de palavras. Ao final de cada episódio, eu espero que você sinta cuidado e afeto, tal como ter um gatinho ronronando no seu colo, Ler a mensagem de um amigo que você não esperava, receber o sorriso de um estranho na rua.

Meu objetivo é fazer você sair daqui cheio de reflexões e sentimentos para continuar a corrente de abracinhos na forma de palavras com outras pessoas do nosso mundo. Vem comigo! Alerta gatilho: no episódio de hoje eu vou falar sobre feridas e buracos. Sugiro pular o episódio se esses assuntos são sensíveis para você. Há algumas semanas eu lancei o 100º episódio desse podcast com uma logo nova, vida nova, etc. E com isso um gás muito grande de manter o fluxo de criação entregando abracinhos em forma de palavras toda semana para vocês.

E aí o clássico aconteceu, fiquei doente e todo o gás de criar escrever, buscar referências, compartilhar minhas ideias com o mundo precisaram esperar. Primeiro eu tive uma pseudo crise alérgica e logo que começou a melhorar nasce um furúnculo na minha perna do lado de dentro da coxa. Em poucos dias esse furúnculo tomou dimensões assustadoras. Muito pela minha culpa de espremer e cutucar, querendo acreditar que era uma espinha como outra qualquer.

Quando todas as evidências indicavam que era pior. Eu já tive furúnculo algumas vezes na vida, mas como não é uma coisa que se tem todo dia, não lembrava do processo de inflamação, infecção e drenagem do pus tão característico do furúnculo. Assim que a drenagem começa a caminhar para cicatrização, o que que acontece comigo? Começa a nascer um novo furúnculo na perna, O Forúnculo 2: O Retorno, ou o Júnior, como passei carinhosamente a chamá-lo.

Poderia ter sido um pesadelo tenebroso? Poderia, mas não foi. Consegui identificar rapidamente que era um forúnculo porque eu tinha acabado de ter um, e me fez fazer tudo o que eu precisava e não fazer o que eu não deveria pra ele passar pra um ciclo muito, mas muito mais curto e muito menos doloroso que o Forúnculo 1. Mas eu não fiz você passar por toda essa repulsa e nojo em vão, tá? Confia em mim, não é sobre o furúnculo essa conversa.

Vai melhorar. Não foi só o podcast, muita coisa na vida precisou esperar por ficar nessa situação. Mas eu sei, e você sabe, que se não fosse pelo furúnculo, com certeza seria por outro motivo que eu ia ter que parar. Essa foi uma situação em que eu me vi agradecide por esse seu problema que me fez precisar parar um monte de coisa. Que engraçado, né? Fisicamente e emocionalmente, o corpo é capaz de nos impor limites bem duros e difíceis.

O corpo nos lembra ao longo da vida, de diferentes formas e para cada um de um jeito, que as leis do funcionamento dele são soberanas. A vida é composta por vários ciclos de crises. A questão não é só sobre o que nos acontece, mas como passamos pelo que nos acomete. Gostemos ou não, entendendo ou não, mas saber ouvir quando o nosso corpo comunica: agora você vai ter que dar uma parada. Como passamos por esses períodos de ter que parar conta muita história sobre o que aprendemos ao longo da vida que significa sermos insuficientes, limitados, estar em falta, precisar parar e retomar algumas coisas depois.

Temos muito a aprender sobre como viver momentos de vulnerabilidade, mesmo que você não goste, mas acolhendo como uma coisa que é parte da vida. Poder reafirmar a segurança de receber certos cuidados é uma coisa que pode tornar tranquilo e seguro se fazer vulnerável. São nessas situações que, se não sabemos, Temos a oportunidade de aprender a pedir ou buscar ajuda. Já parou pra pensar que cicatrizes contam histórias? Eu olho pro meu joelho e lembro daquela queda de bicicleta.

Olho pro meu nariz e vejo o ponto que eu levei quando criança ao cair tomando banho de banheira. Olho espinhas e senti prazer de espremer, mesmo sabendo que ia deixar cicatriz. Sim, eu cultivei uma mania feia de gostar de cutucar minhas feridas, de casquinha de picada de pernilongo ao furúnculo. Lidar com a ferida não é cutucar ela. Às vezes a vontade de explodir e se livrar logo daquilo é querer passar por cima do tempo que você já tá tendo que lidar com isso.

Às vezes a gente acha que tá cuidando de uma ferida quando na verdade tá só cutucando aquilo pra tentar fazer desaparecer mais rápido. Em A Coragem de Ser Imperfeito, a Brené Brown relaciona a dificuldade de sentir vulnerabilidade por conta da relação que foi socialmente sendo construída entre ela, a vulnerabilidade, e a vergonha. A vergonha é um sentimento que, quando acreditamos no que ela nos diz, podemos cair em lugares muito cruéis.

Uma coisa é você ter vergonha de situações, por exemplo, Sente vergonha quando você descobre que você andou na rua com o vestido preso na calcinha. Você cai de bunda no chão no meio de um shopping lotado. Agora, você sentir vergonha de você pelo que você é ou pelo que você não é, isso não é uma coisa boa. Mas o ponto é sobre se blindar de sentir vergonha. Isso continuaria sendo lutar contra a vulnerabilidade. Ou, como eu tô tentando construir aqui o raciocínio, isso seria lutar contra nossos buracos, queria arrancá-los de nós em vez de entender o processo de produção deles e do que eles se tratam.

A Brené Brown usa os gremlins como analogia para os pensamentos e sentimentos que temos quando sentimos vergonha. Você até pode tentar silenciá-los, mas eles sempre voltam, né? E volta pior, que nem o furúnculo que você tenta espremer e inflama ainda mais. A vulnerabilidade não é ouvir e acreditar. E o ser maduro, forte, etc., não é ignorar. Ao invés de tentarmos ser bom demais e de menos, que tal tentar só ser? Que tal ouvir os gremlins pra entender por que o som deles começou a ficar tão alto e começamos a dar corda pra eles?

Algumas infecções não precisam virar feridas se em vez de tentar arrancá-las de nós procurássemos entendê-las como algo que não nos define, mas diz muito sobre a gente. Essa conversa de buracos me fez lembrar da música Holes, do Passenger. No refrão ele diz: Nós temos buracos nos nossos corações, nós temos buracos nas nossas vidas, nós temos buracos, nós temos buracos, mas nós seguimos em frente. Fecho aspas. Talvez os buracos que existem em nós não sejam sinais de nossas faltas, mas do que somos capazes de passar por apesar de.

Talvez as nossas faltas não sejam falhas, apenas indícios de todo o caminho que já percorremos. Toda essa conversa pra voltarmos ao ponto inicial do episódio. Mesmo afirmando o compromisso de oferecer por aqui um abracinho na forma de palavra pra você, vão ter semanas que vai haver um entre nós. Eu escolhi ir deixando esses buracos acontecerem sem me cobrar de compensar, repor, correr atrás e não ficar explicando sempre, mas tratar como algo natural.

Quem sabe até como exemplo do que tem faltado por aí no mundo, né? Podemos tocar projetos desafiadores e importantes, e justamente para fazer isso precisamos ter a resiliência de retomar. Esse é um buraco que entende que nossa relação pode sustentar. O mundo não vai parar quando não tiver episódio. Quantos buracos da sua vida talvez pudessem simplesmente existir sem que você precisasse correr pra preenchê-los? Eu queria te contar também uma coisa: eu quase não gravei esse episódio por vergonha de ter tido furúnculo, medo que pensassem, sei lá, essa pessoa aí, porca fedida, não sei, com furúnculo aí na perna.

Se você tá ouvindo esse episódio é porque a vulnerabilidade do dia foi acolhida com sucesso por aqui. E esse foi o episódio de hoje. Se você curtiu o nosso encontro, manda esse episódio para um amigo, afeto, colega, alguém que precise ouvir isso. Forte abraço e até o próximo episódio.

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