#93 você não é importante, o que não quer dizer que seja insignificante
O episódio de hoje é um abraçinho na forma de palavras para todes aquelus que se cobram e culpam quando não conseguem dar um passo maior que a perna na vida.
Viver uma vida que faça sentido de viver também estar em se permitir ser desimportante, mas nunca insignificante.
- Saúde Pessoal e AutocuidadoDar passos maiores que a perna · Validação e amor através de feitos · Raízes sociais da autocobrança · Construção da história pessoal · Experiências que levam à intimidação e insegurança
- Dívidas Pessoais e IndividuaisSoltar o peso da suposta importância · Sentir o que é importante para si · Passo do tamanho que se escolhe dar · Sentir-se pertencente em vez de importante
Oiê, meu nome é Nassim, trabalho como psicóloga, amo muito meu trabalho e tenho esse podcast como forma de espalhar reflexões sobre saúde mental, cuidado e vida para pessoas além do consultório. A ideia é esse espaço ser o nosso abracinho semanal, em forma de palavras. Ao final de cada episódio, eu espero que você sinta cuidado e afeto.
Tal como ter um gatinho honronando no seu colo, ler a mensagem de um amigo que você não esperava, receber o sorriso de um estranho na rua. Meu objetivo é fazer você sair daqui cheio de reflexões e sentimentos, pra continuar a corrente de abracinhos na forma de palavras com outras pessoas do nosso mundo. Vem comigo. Quando foi a última vez que você deu um passo maior que sua perna?
Achou que aguenta ao dia seguinte, abrindo mão de uma noite de sono. Forçou pra além a carga e intensidade de algum exercício físico. Deu pra alguém mais atenção do que você tinha disponibilidade de tempo e emocional. Respondeu ao agora como se fosse uma possibilidade incerta de futuro que já estivesse acontecendo.
E quando foi a última vez que você acreditou que era sua obrigação dar um passo maior que sua perna? No episódio de hoje, o convite é para pensar. Por que acreditamos que alguns passos maiores que a perna são passaporte para validação e amor? A autocobrança rígida e excessiva afeta a vida de muitas pessoas. Tudo que se repete no individual tem uma raiz social.
Mas o como essa autocobrança vai sendo construída, reproduzida e reconhecida vai sendo muito particular. E o que torna cada um cada um. É no como, pra além do o quê, que aprendemos a contar a nossa história. Pra além da lógica do checklist de sequência de acontecimentos. E sim numa perspectiva de acúmulo, de conjunto de vivências que transformam a qualidade do nosso viver.
Por isso que mesmo que pessoas tenham histórias de vida muito parecidas, podem ter desdobramentos completamente diferentes. Como também pessoas de realidade super opostas podem ter pontos de confluência em suas histórias. Quais suas memórias mais antigas de acreditar que precisava ser mais do que podia ser?
De uma exigência de disciplina em casa, às notas da escola. De amores não correspondidos, a amizades que se romperam. De exigências insanas no emprego, a constrangimentos em ambientes sociais.
Muitas são as experiências que quando se repetem de você ser responsabilizado por algo que não te cabia, mas você ainda não tinha bagagem para reconhecer por si próprio suas responsabilidades, tampouco teve resguardo do seu espaço de poder questionar e discordar do que estava sendo exigido de você.
É no acúmulo dessas experiências que vai surgindo pessoas que não são tímidas, mas intimidadas. Que não são medrosas, mas foram amedrontadas. E que não são inseguras, mas foram desencorajadas.
O que mais me tira do sério nesse papo todo são ideias e posicionamentos que dizem que são a favor do autoconhecimento e da saúde mental, mas que pensam ferramentas para encontrar formas de ainda insistir em ajudar as pessoas a darem um passo maior que a perna, prometendo que isso vai ser bom para elas.
Seguir com essa narrativa é usar a manutenção do sofrimento e do adoecimento psíquico das pessoas como forma de descaso e proveito, que serve a tudo, menos ao bem-estar da humanidade.
Mas assim, mesmo se eu, você e muita gente saiba racionalmente que é incoerente relacionar a própria autoestima e realização com ser um ser sobrevivente premium no capitalismo, a gente sabe que emocionalmente não é tão fácil se desvencilhar dessa ideia.
Mesmo racionalmente entendendo que tudo isso é um absurdo, emocionalmente acreditar nisso tudo ainda tá sequestrado. Porque foi justamente construído dentro de uma lógica liberal de sujeito muito do nosso acreditar. O que sobra? Quando você não cabe mais no personagem que passou anos tentando ser. Mas ainda não conseguiu tirar o look desse personagem, que agora parece muito mais uma fantasia.
Acreditar seja lá no que for é algo que escapa o campo do cognitivo e do racional. É por coisas como essa que na psicologia histórico-cultural, a linha da psicologia que eu trabalho, que nós entendemos que o nosso desenvolvimento de consciência, que se reflete no nosso desenvolvimento enquanto sujeito, ele não é só um desenvolvimento cognitivo, mas ele também é um desenvolvimento afetivo.
Se em algum processo da sua vida você chegou super longe racionalmente nas suas elaborações, mas emocionalmente você ainda tá lá atrás, não é o emocional que vai ter que correr atrás do cognitivo. É o cognitivo que precisa voltar, dar a mão pro emocional pra que se desenvolva no seu tempo e com a ajuda dele.
Querer que o emocional alcance o cognitivo é, no final das contas, só mais um dos muitos passos maiores que a perna, que quando insistimos em dar, não só nos frustramos com o não dá certo, como também pode se tornar um motivo de desamparo, desgaste e sofrimento.
Sabe a conversa do último episódio aqui do podcast sobre diagnosticar TDAH em uma pessoa que ainda não tem condições de ter a atenção desenvolvida como uma coisa problemática? É aqui que essas reflexões e os outros exemplos que eu dei no último episódio entram de novo. A gente apressa o processo de desenvolvimento com a gente mesmo e aprendeu a acreditar que isso é saúde, isso é viver uma vida com propósito e o que faz sentido.
justamente pelo emocional também precisar ter seu percurso de maturação, é que precisamos de tempo para desacreditar naquilo que nos ensinaram, que só nos machuca, e acreditar naquilo que partiu de uma escolha consciente, e não imposta. Aqui entra o título do episódio de hoje.
Às vezes, precisamos de tempo pra parar de acreditar que somos tão importantes e que todas as responsabilidades que não te cabem, mas que te jogam, realmente estão todas só na sua mão e que vai ser o fim dos tempos se você não agarrá-las. Como construir equilíbrio é um processo? Quando vamos desgarrando da crença na própria importância, isso na verdade não confirma a nossa insignificância, tá? Que é um medo que leva muitos a temerem, a abdicar o peso que carregam.
Mas já parou pra pensar que justamente soltando o peso de uma suposta importância que você vai ter tempo pra sentir o que significa algo importante pra você no final das contas?
Soltar o peso de uma suposta importância que você foi ensinado a acreditar que é importante oferecer, acaba fazendo você ficar muito mais longe da consciência da importância do que sua vida deveria ter pra você e pras pessoas que você ama. Soltar o peso é dar um passo nem maior nem menor, mas do tamanho que você escolhe dar.
Saber se o passo que você dá hoje é maior que sua perna, passa por aprender a se olhar e saber qual é o tamanho da sua perna, qual a flexibilidade dela, qual a sua vontade e muitas outras coisas. Talvez você nunca tenha precisado ser importante, só precisava se sentir pertencente.
Esse foi o episódio de hoje. Segue o podcast se ainda não me segue e indica pra uma pessoa especial. E aí, o quanto o que tem significado pra você tá escondido pela urgência de ser importante? Forte abraço e até o próximo episódio.