Episódios de Garou Nordeste

EP. 09 - Ventos do Apocalipse - Lobisomem: O Apocalipse 5ed

30 de agosto de 20261h53min
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🐺 Ventos do Apocalipse está de volta! Depois de uma breve pausa, nossa crônica retorna com uma nova sessão. Desta vez, Madú, Ayana, Miguel e Gama visitam a misteriosa Lagoa Encantada para descobrir a força que a Jurema oferece. 🌿🔥 Quer viver uma aventura como essa? Temos mesas comissionadas de Lobisomem: O Apocalipse disponíveis, com histórias personalizadas e acesso ao Segredos da Fúria, nosso site exclusivo com fichas automatizadas, guias interativos, rolagem de dados e muito mais. Algumas mesas com vagas abertas estão disponíveis em https://mesaquest.com.br/mesas/01KKKPAW3N9R9F76PAEYJQR811 — mas atenção: nem todas estão no link! Se você procura uma mesa específica, entre em contato conosco. Quando o último uivo ecoar na noite... você se entregará à Fúria? 🐺🌑 Siga o Garou Nordeste no Instagram: https://www.instagram.com/garounordeste/

Assuntos7
  • Encontro com a misteriosa garota Inaê e sua conexão com a Lagoa EncantadaInaê·Lagoa Encantada·Sentidos penumbrais
  • O ritual de preparação e a manifestação de Iansã através de InaêInaê·Iansã·Rituais indígenas·Oferendas
  • A revelação da história de Yorok e o ritual de aprisionamento na Pedra do IngáYorok·Pedra do Ingá·Conselho dos Fantasmas·Itacoatiara
  • O tributo pago à grande serpente e a perda de memórias felizesTributo·Perda de memórias·Força de vontade
  • A matilha decide ir para Baía da Traição após a visão de MiguelBaía da Traição·Lagoa Encantada·Maria Florzinha
  • A chegada à Lagoa Encantada e o encontro com a Inaê mais velhaLagoa Encantada·Inaê·Baía da Traição
  • Inaê revela seu papel e entrega artefatos para a matilhaInaê·Sino·Apito·Legado
Transcrição246 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Vamos começar com um recap aí. Vocês falam para mim aí os pontos mais importantes da última sessão. Pode ser algo mais resumido, mais rápido, tá ligado? Não precisa também ser muita coisa não.

?Voz B

A gente decidiu que a gente ia atrás do rolê, ver os caminhos que a gente ia seguir, e a gente foi fazer a investigação feita pelo Miguel. Pontuado pelo Miguel. E aí, antes disso, a gente fez aquele, aquela nossa breve conversa depois de tanto tempo, onde a gente pontuou alguns babados. Essa é a forma mais resumida do que a gente fez na nossa conversa.

MMiguel

Depois disso, a gente, uma conversa indicada por um player que não tenha sido como uma conversa indicada por outro player no qual só ele queria falar. É isso. Foi uma conversa de verdade dessa vez, entre essa matilha indireta, meu Deus, entre essa matilha que o curso fala, né? E daí a gente foi para encontrar o meu contato, e depois que encontramos ele, ele nos deu talvez uma pista, porque houve um corte, vamos assim dizer. Miguel, eu estava na presença de uma entidade da floresta, né, um encantado da floresta.

Eu chamo de Cumadre Fluzinha, mas conhecem por Maria Fluzinha também. E ela literalmente destruiu com o físico do Miguel tal qual queria fazer também com o mental dele, a ponto de querer fazer com que ele pagasse o preço para ter as informações que ele queria. E Miguel não aceitou dar os seus, né, para ela. E isso foi o que ela realmente planejava. Logo então ela devolveu Miguel aos frangalhos para próximo dos seus. E onde Miguel acabou sendo quase que ressuscitado, não precisou disso, mas foi quase.

E tivemos uma cena triste que foi o enterro do contato do Miguel. E encerramos com Miguel contando sobre a visão A visão, não é a visão, foi uma visão, né, no qual tinha que ir para o assunto. Meu Deus, cadê minhas anotações?

?Voz A

Baía da Traição, a Lagoa Encantada. Você enxerga a Lagoa Encantada, isso aí, uma mulher já de idade olhando para você enquanto você flutua nos céus sendo carregado pela Maria Florzinha. E ela fala algo do tipo: pode vir, eu tô esperando você. É algo assim, né.

MMiguel

Isso, exatamente. Ela convida, convida já sabendo que estão para chegar.

?Voz A

Hoje eu quero saber o que que vocês vão, tipo assim, para onde vocês vão depois de ter conseguido essa informação. Porque não havendo a necessidade de existir um diálogo entre vocês, a gente vai cortar a cena em que vocês despertam depois do episódio com Maria Florzinha. E a gente começa exatamente nesse lugar, ou próximo ao lugar que vocês vão decidir onde vocês irão, qual será o próximo passo. Qual é a opinião de vocês a respeito disso?

MMiguel

Eu sugiro que sem muito rodeios nós vamos para Baía da Traição, mas aí aceito também, né, objeções.

AAyana

Amigo, casa para a gente ir para lá, porque a gente já pega o embalo do rolê do Miguel. A gente já vai estar no lugar só, então a gente pode ir para Baía da Traição e de lá a gente já pega de embalo. É jogo?

?Voz A

A terra indígena Potiguara, meus amigos, é composta por mais ou menos 25 mil habitantes, datado do censo de 2022. E uma parte considerável dessa, desses povos, ela mora em Baía da Traição. Fica já mais próximo ao litoral norte da Paraíba, um lugar muito famoso por sua força, resistência e representatividade de indígenas, povos potiguaras. E é para lá que vocês vão. Vocês vão de quê? Como recursos?

MMiguel

Eu acho que a gente poderia ir para Balbacá. A gente foi para Balbacá para primeiro ponto, ou a gente alugou, né?

AAyana

A gente foi, alugou uma van. Eu acho que foi isso, foi um carro mais espaçoso.

MMiguel

Eu imagino que dessa mesma forma, sei lá.

?Voz A

Vocês desembarcam nesse carro previamente alugado. Na praça principal da cidade. Um a um vocês descem e começam a perceber que Baía da Traição, ela sopra ventos diferentes dos litorais que vocês já frequentaram. Sobre suas cabeças, nuvens negras, como se uma tempestade fosse cair sobre vocês. Vocês se entreolham e quando vocês chegam, passa-se alguns minutos em que vocês estão olhando para os arredores e uma garota de pele escura, aproximadamente 12 ou 13 anos de idade, ela começa a se aproximar de vocês.

De início, ela começa a olhar para vocês como se ela tivesse tentando ter certeza. De alguma coisa, até que ela chega mais perto na praça, senta num banco. Aí ela faz: boa tarde.

AAyana

Boa tarde.

MMiguel

Boa tarde.

?Voz A

Tem alguém esperando vocês.

AAyana

Quem é você, garota? Mas eu vou falar garotinha, né, para não passar a impressão de que a gente tá, né, Tratando mal a criança no meio da rua, são uns adultos velhos.

?Voz A

Enfim, mas eu perguntei ela, ela disse que você não precisa saber meu nome, só o nome dela, Inaê.

AAyana

Eu olho para vocês e com a carinha de tipo, e é esse nome?

MMiguel

Esse nome é familiar, Bruno?

?Voz A

Para vocês não, velho.

MMiguel

Então O que Miguel devolve de olhar é tipo: ela tá esperando a gente aonde mesmo?

?Voz B

Você sabe dizer?

?Voz A

Eu acho que vocês sabem. Vamos brincar então de adivinha. Adivinha o lugar que eu tô pensando. Se vocês acertarem, eu levo.

GGama

Cadê?

AAyana

Ninguém tem negócio de lemente não aqui?

MMiguel

Vamos pensar, vamos brincar. É um lugar, é um lugar encantado.

?Voz A

Tá quente. E ela dá um sorriso.

MMiguel

É um lugar onde tem muita água, uma lagoa.

?Voz A

Ai, tô me queimando!

AAyana

Forçada.

?Voz B

Como é que você se chama?

?Voz A

Ela olha para você e repete: ela disse que vocês não precisam saber meu nome, só o nome dela, Inaí.

MMiguel

Tá bom então, garota misteriosa.

?Voz B

Você pode levar a gente lá?

?Voz A

Claro, eu vim aqui para isso. E ela levanta e prontamente começa a andar apressado, tal qual uma criança de 13 anos de idade, 12 anos de idade. Que não maturou o suficiente ainda age.

?Voz B

E aí eu olho para os meus queridos irmãos. E aí, gente, já vamos, né?

MMiguel

Aqui eu queria abrir um parênteses aqui, que a presença dessa— eu tô falando agora como pessoa, tá? Não é, não é algo ruim, mas me deixou extremamente incomodado. Mas sim, a gente vai atrás dela, tá?

AAyana

Bruno, o meu olhar Pelo menos a Iana até então tá confiando em você, Miguel, que pareceu muito interessado e aparentemente sabe do que que ela está falando.

?Voz A

Então você vai por aí, você questiona quem é aquela criança, você, algum questionamento demanda em seu peito, amigo?

GGama

Sim, sim, alguns. Essa história do vento que bate diferente nesse lugar É uma coisa que chama atenção de Gama e eu fico curioso nesse primeiro momento, mas tendo em vista a minha força de vontade, ah, tá de boa, mas eu não fiz nada não. Existe essa curiosidade dentro, dentro de Gama com relação a esse evento, né, que você Coloca que pareceu algo diferente. A interação dessa menina também é curiosa, mas eu estou, Gama está confiante na posição de Miguel, tanto em dizer qual seria a direção, em dizer os locais, em dizer, em ver que a menina confirmou que alguém nos espera.

E quando a gente tá indo, né, bem desse jeito doido de ser, eu vou repetindo baixinho o meu mantra: as sendas se abrem e me permitem passagem. Vou caminhando e prestando atenção, sabe, amigo? Inicialmente as inquietações são essas.

?Voz A

Ela vai levando vocês para fora dessa parte mais urbanizada da cidade de Baía da Traição, até que vocês fatalmente encontram uma trilha de estrada de terra e ela nega-se a segui-la e entra dentro da mata densa. Ela afasta, ela olha rápido assim, coloca o primeiro pé com seu chinelo, coloca o segundo e começa a avançar dentro da mata fechada.

GGama

Eu olho para ela.

AAyana

Pode só, pode só repetir novamente a última ação da menina.

?Voz A

Ela pisa, olha para mata, olha para um lado, olha para o outro, como se ela tivesse analisando os passos, os próximos passos que ela vai dar. Ela mete o pé um pezão lá no meio, no meio dos matos, meto o segundo e começa a andar na mata.

AAyana

Eu vou usar sentido de perna.

?Voz B

Eu ia falar isso, eu quero usar também.

AAyana

É porque eu notei então essa olhadinha para o lado e para o outro. Para mim parece existir a tal da famosa película que nós garotos sabemos que existem certos lugares, mas aí eu também não quero entrar onde É desconhecido demais para mim. Eu posso chamar algum tipo de atenção que eu não queira chamar. Enfim, vou usar sentido pelo pessoal por níveis de segurança mesmo, tipo atenção, ela tá afastando a gente de pessoas, de dar do lugar urbano, tá colocando a gente no meio do mato, aí a gente tá confiando-se que ela, tipo, querendo ou não, a gente tem que pensar no i em si, sabe?

Eu não acho que você faria isso com a gente, viu, meu bem? Vocês vão ter que fazer esse teste minha aí, tá?

?Voz A

Para vocês, vai lá no dom, seleciona o dom e rola o dom aí, tá?

AAyana

Dificuldade que tiver aí, só rolar. Isso, vamos, clã! Eu só não troco nem para acertar, para dar dano.

?Voz A

Olha aí, ambos tiveram sucesso, né? Mas os efeitos serão diferentes, tá? Primeiro Aiana, você não consegue prestar atenção em nada mais quando você desliga os seus sentidos naturais, os sentidos espirituais ali se ativam, a não ser aquela garota. Existe um poder saindo daquela menina que você não é capaz de mensurar. Talvez a única pessoa que você viu um poder semelhante a esse, que por sinal é o motivo pelo qual você não consegue prestar atenção em mais nada, foi Isabela.

A garota carrega um poder absurdamente assustador diante de seus olhos. Já Robson, ele escuta o uivo de Gaia, como se um lobo estivesse uivando de dor. Esse som, ele vai paulatinamente aumentando nos seus ouvidos até que você entende o que é aquele uivo, até que você entende que aquele é o prenúncio do fim. Como sempre é quando nós tentamos ter contato com a Umbra. As gotas da chuva, da chuva, elas já estão caindo na Umbra. Uma tempestade assim caudalosa caindo sobre sua cabeça.

A floresta parece viva, como se todos os espíritos de todas as árvores ao redor estivessem despertos. Eles meneiam mais do que os troncos das árvores poderiam balançar, o que faz com que você veja aquelas cores intensas saindo e voltando para dentro dos caules das folhas. Os animais também, toda essa explosão de cores, essa explosão de um colorido da mata você consegue enxergar. E, né, para além disso, um poder que quase lança você com joelhos ao chão em adoração, vindo daquela criança.

Algo que você nunca viu na vida, nunca experimentou na vida. E uma ideia começa a se construir na sua mente: será que era assim que a Raiane enxergava a Isabelle, que ela tanto falou que era a esperança para tudo, que carregava um poder incomensurável?

?Voz B

Só uma dúvida, no caso eu caí de joelho ou deu vontade? Não, é tipo assim, você entendeu, era só para entender, era a metáfora de fato aconteceu. Muito foda. Bom, vocês percebem a gente usando, né, ativando o nosso dom, e eu me mantenho de olhos fechados, sabe? Vocês veem as minhas mãos, eu cerrando os punhos. Sentindo toda essa descrição que foi falada até agora. E ao voltar, eu vou novamente acender um cigarro e de olhos fechados eu falo para vocês, é, meus irmãos, Tudo ao nosso redor grita, tudo ao nosso redor está vivo.

Nós estamos sendo mais do que observados, estamos sendo convidados a estar aqui. Se preparem, se preparem. E aí, Ana, eu começo a entender um pouco mais sobre o que a gente conversou. Começa a te entender um pouco mais. Você sabe do que eu tô falando.

AAyana

Eu acho que eu dei um tipo, como assim você sabe o que eu estou falando? Então você também viu?

?Voz B

Eu não só vi, eu senti. Tem algo que grita desesperadamente nesse lugar. Então aí eu olho para os meninos também, né, porque eu tava mais olhando para aí. Estejamos preparados para o que vai acontecer aqui. Vocês lembram o que aconteceu? Aí eu meio solto um sorrisinho de canto.

?Voz A

Vocês lembram o que aconteceu da última vez que a gente entrou Aqui vocês estão protegidos. A Yangá não é capaz de entrar nessas terras enquanto Inaê estiver viva.

MMiguel

Ai, ai, ai, a minha cara para ela, tipo, de dúvida gigantesca. É o mundo inteiro vai sobre mim, abrotar da minha cabeça assim.

?Voz B

Antes da gente adentrar Eu vou apagar o cigarro do peito, né? A gente tá entrando na mata.

GGama

Frente ao que Madu fala, frente à reação de Ayana, né, quando ela ativa os sentidos penumbrais, e a resposta da menina frente ao que o nosso Galeardo fala, né? Ela grita aos ventos, né, sobre uma força que está por vivo, mas é como se eu não tivesse nem olhado para ela. Eu tô olhando assim para Madu, sabe? Acho que os olhos, eles enchem de chama. Aí precisamos disso mesmo, de um galhar de que anuncia o futuro. Se não estão apenas gritando, estão nos convidando Parece que você antecipou o que a menina quis nos dizer.

Acho que nós não vamos precisar dizer muito. Eles sabem bastante sobre quem nós somos.

?Voz A

Ela dá uma, ela dá uma risada, tá ligado? Como se ela tivesse se divertindo assim, sabe? Com as conclusões que vocês estavam chegando. E assim, vocês vão andar por horas e horas na mata com essa criança, tá? Com essa garota, horas com ela na mata.

MMiguel

Eu, conforme, na verdade, eu pedi um cigarro ali. Provavelmente eu imagino que alguém tem me dado um cigarro.

?Voz B

Eu tenho, né? Eu sou um fumante vivo.

MMiguel

E antes, por mais que aí ela tenha dito que estávamos sendo esperados ali, tá? Eu pego o cigarro, eu vou a qualquer árvore ali e eu deixo ali, tá ligado? Enfim, algumas palavras e digo: pagam a nossa entrada.

?Voz B

Conformemente, já que a gente vai andar por horas Né, criança. Eu vejo que ela anda saltitando igual uma criança. E já que fomos recebidos tão bem, com tanta risada, acho que nada mais galearde do que tocar uma música durante, ao longo dessas horas enquanto a gente caminha, para dar uma respirada, sabe, enquanto a gente tá indo. E não só para aliviar a tensão, mas também para trazer certo um conforto para o coração do Miguel, que eu sei que tá passando por uma barra de novo.

Então é o meu jeito de demonstrar cuidado e dizer que é o jeito do galhardo de dizer que se importa não só com os seus, mas com a chegada na mata.

?Voz A

Qual é a música? Pera aí, vai coisando aí enquanto eu vou Quando Madu começa a tocar essa música com a gaita, a garota ela para, ela olha pra Ayana e fala: Eu já ouvi essa música. Aí ela olha pra você e aí vem uma voz na sua mente da garota e ela faz: Quem canta vai montar o búfalo.

?Voz B

Ô mano, eu escolhi a música de Oxóssi pra cantar no meio da mata.

AAyana

Mas o que significa o Búfalo? Eu não entendo.

?Voz A

Ela olha para você, ela fala: você sabe de quem é o Búfalo? Você tem um segredo, você não pode contá-lo. Eu também não vou contar. E ela dá uma gargalhada. Vocês veem a criança indo e se virando e começando a ir, continuando a andar.

AAyana

Eu dou, eu acho que eu dou essa risada assim meio que sem querer, sabe? Tipo Tipo, depois que ela fala isso, dá risada de tipo, caraca, que criança é essa, cara? Que que é isso? É tipo, é o rir de nervoso, sabe, que a gente chama? E isso por um momento me traz realmente lembranças da Isabelle, porque ela era essa pessoa, sabe? Ela, ela era, ai, é neném, cara. Enfim, mas bate e vai. Não deu, eu não fico triste por isso. Mas lembra um pouco, só que aí isso aí já me lembra um ponto que me liga a outro, e eu dou essa risadinha, mas eu me fecho para pensar sobre. Então continuei a cena aí, eu vou anotar negócio.

?Voz B

Chique. Enquanto esse estado que o mago entra quando ele tá em estado de tocar a gaita, geralmente quando ele não tá fazendo para sacrificar ou para fazer a passagem de outros espíritos, é algo que remete ele ao Hugo, que tá longe dele nesse momento. Então eu começo a cantar alguns cânticos também que remetem à festividade de São João. E lembrando disso, eu também tiro o triângulo que eu tirei do terreiro lá da casa de Ayana, do terreiro de Ayana, e vou tocando, fazendo esse misto entre cântico músicas ancestrais e algumas músicas de sanfona.

?Voz A

E essas interações, elas continuam ao longo da jornada?

GGama

Acho que quando Madu começa a tocar a flauta e a gaita, e de repente a Yena dá uma risada, né, que precede a da Guria, Gama, ele entra uma espécie de estado de êxtase. Fazia tempo que parece que está ficando recorrente esse sentimento de familiaridade. Vocês— aí eu baixo assim a cabeça. Quanto tempo eu sonhei em estar com vocês, em ouvir uma gaita tocar, em ouvir risadas e só caminhar pensando naqueles que são importantes para mim. Estou muito feliz por estar aqui com vocês.

?Voz B

Ao ouvir o Gama falar isso, uma alegria ela vem no meu coração de uma forma que ele narra, sabe? Uma nostalgia, tá ligado, de lembrar dos momentos que a gente era feliz. E tal. E aí vocês vão ver uma cena muito inusitada, que é ver o Madu simplesmente avançando na frente, indo dançar com a criança enquanto eles estão andando e cantando e conversando. Então enquanto ela vai mostrando o caminho, ele vai chegar do nada e vai começar a instigar ela a dançar, sabe?

?Voz A

Enquanto eles estão cantando e sei lá, vem, ela faz uma cara de quem tá Ela faz com uma cara de quem tá tipo assim quase que tentando conter o riso, sabe? Tipo, ela abre um sorrisão monstruoso e qual não é a sua surpresa, ela consegue cantar exatamente a música que você está tocando. E aí ela começa a fazer uns passinhos assim enquanto saltita por meio da floresta.

MMiguel

E eu também, apesar do luto do Miguel, É um momento muito, muito contagiante também, tá? Então, ouvindo, ouvindo o que Gama falou, vendo a cena de Madu, Miguel apenas abraça os ombros assim de Gama, que eu imagino que esteja mais próximo, e é possível ver um sorriso, tá ligado, no rosto de Miguel também, tá vendo?

?Voz A

E essa cena ela perdura por algumas horas enquanto vocês entram uma mata tropical, uma mata litorânea, da qual vocês conseguem seguir por ela em segurança, sem se cortar, sem se machucar com as árvores, de repente com algum espinho que possa ter, de repente com algum animal peçonhento que possa existir. Parece que a criança ela conhece aquela mata na palma de suas mãos, até que vocês finalmente começam a sentir o cheiro da água, e é momento que ela fala: chegamos. Que merda, tava tão legal, mas eu preciso voltar para o meu tempo.

AAyana

Oi, tempo, tempo, tempo.

?Voz A

É uma pena saber que eu só vou ver vocês essa vez, mas Eu, algo me disse que vocês vão conseguir. E ela estende a mão como se ela estivesse apontando para o fim da trilha.

?Voz B

Eu vou me abaixar assim e vou fazer um carinho assim na cabeça dela. Muito obrigado por me trazer o sorriso novamente de poder cantar uma canção. É muito tempo que eu não cantava tão feliz.

?Voz A

Ela estende a mão E como num passe de mágica, ela some a um piscar de olhos diante de vocês.

MMiguel

Que menina desgraçada, não disse o nome! Bem, eu acho então que esse é um mistério que vai ficar por mais tempo. Eu olho para todos, eu digo: Vamos então. E daí, enfim, abre o caminho para o pessoal. Vamos na frente, sei lá.

?Voz A

Vocês finalmente descortinam a tal da Lagoa Encantada, uma espécie de lago, uma forma um tanto de losango, vamos dizer assim, algo desse tipo, de águas cristalinas. Cheiro da água ali dá a vocês assim uma sensação de água limpa, água cristalina, água potável. Vocês enxergam esse lago gigantesco, sem quase, sem quase assim Não consegui ver o começo e o fim dele. Do outro lado existe uma mulher, a idade já avançada, pele escura e um cocar em sua cabeça, uma roupa branca e diversos e diversas e diversas guias colares em seu pescoço.

Ela olha para vocês com olhar amistoso do outro lado do rio, sentada na beira, enquanto ela mexe na água com seus pés.

MMiguel

Eu volto para eles, né, e digo: essa é a mulher que apareceu na minha visão. É exatamente isso. E daí eu dou essa descrição: uma mulher com carro. Enfim, eu descrevo ela ali para eles. É isso, acho que chegamos.

AAyana

E o que que a gente faz agora? A gente fala com ela?

MMiguel

Eu não vim aqui para nada. Vamos.

AAyana

Então a gente pode ir se aproximando?

?Voz B

Devemos.

?Voz A

É, vocês estão do outro lado do lago, tá?

AAyana

Mas aí é muito fundo. E eu dou essa hesitada quando eu acho que eu percebo, né, dá para perceber essa carinha dela de ora veja. E eu pergunto, acho que dá para eu, se eu gritar para ela, dá para ela escutar do outro lado? Sim, né? É possível. Vamo tá com o caralho também, é. Você queria que a gente viesse pra cá, estamos aqui.

?Voz A

Ela fala: Eu não. Ela fala, uma voz um pouco alta que se mistura com o barulho da água: Mas eu sabia que vocês iam. E como vocês vinham, eu precisava receber vocês.

AAyana

Eu olho assim pra cara do Miguel e a gente voa.

?Voz A

Ué, ela bateu muito, ela falou olhando para Miguel.

MMiguel

Eu dou tipo uma gargalhada nervosa assim, tá ligado? E eu digo, se não fosse esses aqui, eu não tinha chegado aqui não.

?Voz A

Saudades dos meus, mas tudo tem um fim.

MMiguel

E eu olho para eles e para ela, tá ligado? E eu vou tipo devagarinho até a margem. Vocês veem que Miguel se abaixa um pouco ali, tá ligado? De realmente entrar. Ele pega um pouco de água e joga um pouco no ombro, um de cada lado do ombro, solta um pouco em cima da cabeça, e ele diz Eu acho que a gente vai ter que atravessar. E vai entrando.

AAyana

Eu vou, né? Vamos lá, né? Eu vou repetir os mesmos movimentos que o meu amigo Miguel, porque ele parece saber o que ele está fazendo e eu confio totalmente nele.

MMiguel

Obrigado pela confiança.

?Voz B

Eu vou dar uma hesitada, sabe? Eu vou olhar assim, eu olho para o campo, eu falo, meus instrumentos, sabe? Olha os bichinhos! Mas eu tô falando isso, mas com a cara de quem tá hesitando de entrar na água mesmo, né? Tá frio.

GGama

Gama, essa altura, eu acho que ele tá uma coisa meio cascão. Depois de 15 anos sem tomar banho, vocês vão ver a cor de gama real, branco.

?Voz A

Amigo, eu ia dizer isso agora, amigo. Vocês atravessam o rio, o lago, nadando?

MMiguel

E aí, Gama, eu já tô, eu já tô com água na cintura, viu, andando.

AAyana

Eu tô indo boiando, que é seguro.

GGama

Eu vou, eu vou adentrando assim devagarinho, e aí eu vou chegar um momento que eu vou me molhar assim, né? Não chego a ser muito profundo, mas eu me abaixo assim para deixar molhar tudo. E aí eu sigo o Miguel. Tentando atravessar o lago.

?Voz A

Miguel, quando você começa a entrar na água, você vê que ela tira o chinelo e começa a entrar na água também.

?Voz B

Aí quando eu vejo ela entrando na água, então tem que ir, né? É contrato, fia. Aí eu vou assim meio que sem querer ir protegendo meus instrumentos. Sabe, meu talismã, e vou entrando aos pouquinhos, bem, bem por último.

?Voz A

Aquela mulher de seus 70, 80 e poucos anos de idade, pelo menos visualmente, né? Vai saber quantos anos essa mulher tem. Ela parece nadar que nem Michael Phelps, pô. Ela entra na água assim graciosamente, dá braçadas, ela chega ao meio do lago antes de vocês e fica boiando assim, brincando na água, sabe? Ela mergulha assim, mergulha a cabeça, depois ela volta, dá aquela respirada funda e fica brincando na água até que vocês alcançam.

E ela começa a nadar de costas junto com vocês, até que vocês chegam na beira e ela fala: esperava que vocês fossem de chegar mais rápido. Demoraram um pouco, mas importa chegar, né, minha gente?

?Voz B

A gente chegou, mas a guia que nos trouxe até aqui, ela fez um excelente trabalho, viu? A gente tava meio hesitando chegar aqui, mas ela nos fez se sentir seguro. Foi por isso que a gente demorou, a gente tava hesitando um pouco para poder chegar aqui. Tipo eu agora, para entrar dentro da água, até agora assim meio Sabe como era essa garota? Eu olho para todo mundo e tinha um, parecia uma pré-adolescente, acho que uns 13 anos.

Muito serelepe ela, chegou sorrindo, brincando com a gente, dizendo que ali era seguro. Com o tempo ela foi se soltando.

?Voz A

Ela disse seu nome?

MMiguel

Não.

?Voz B

Ela disse que a gente só precisava saber um nome. Seria o seu?

MMiguel

Eu pergunto, tá ligado?

?Voz A

Você vê que ela dá um sorriso, ela faz: vocês estão em um lugar de poder. Esse lugar, ele é capaz de trazer aqueles do passado e do futuro. E sim, eu sou Inaê. Voz de Oiá, galearde do Conselho dos Fantasmas, de sangue yorubá e filha dos verdadeiros donos de Baía da Traição. Vocês são bem-vindos à Lagoa Encantada. Vocês vêm com perguntas e hoje é noite de toré e nós vamos dançar o toré para encontrar as respostas. Vocês conseguem escutar esse nome que é sussurrado pelos ventos, pelos cantos mais escuros?

Esse nome que implora por ser chamado, um nome sombrio que meus ancestrais enterraram em Ingá. Vocês conseguem escutar esse som, essa voz? Vocês dormem e sonham com eles, com ele, porque ele os meus também, buscando por vingança. Mas vocês estão aqui para fazer o que aqueles que vieram antes de mim fizeram.

MMiguel

Eu sinto muito que esse lugar seja perturbado por isso também.

?Voz A

Eu sinto muito que vocês carreguem o fardo e cumpram a sina que terão que cumprir. Justiça Animal chegou há pouco tempo e Acho que vocês sabem a situação em que ele se encontra, mas não abandonarei meu irmão de Alcatena.

MMiguel

Eu sinto pelo menos um alívio de saber que ele chegou até aqui, apesar de saber nas circunstâncias que ele chegou.

?Voz A

Não se preocupe, ele virá, viverá seus últimos dias com a maior tranquilidade possível que ele poderá encontrar dentro de suas condições, Miguel. E ele cita, ela cita seu nome.

MMiguel

Isso traz um peso, tá ligado? Porque em momento nenhum Miguel se apresentou.

?Voz A

Tudo será esclarecido no final, Miguel. Eu tenho certeza que as palavras que tanto eu quanto a grande serpente tem a falar irão acalentar o seu coração. O seu também. Ela olha para a Yana.

AAyana

Eu acho que a Yana, assim que escutou as palavras dela sobre ter um jeito, sabe? Eles, eles, a responsabilidade tá na nossa mão, mas existe uma forma da gente resistir. Já assim encheu assim o coraçãozinho dela de esperanças, tá ligado? Porque como uma filha de Gaia, a Yana sempre acredita no que vai dar certo, tá ligado? Ela é uma pessoa extremamente otimista. E acho que de todos os momentos da nossa jornada, esse aqui foi o que mais chegou no auge de, ai meu Deus, graças a Deus uma coisa vai dar certo, pelo menos uma coisa vai dar certo, a gente vai ter o que fazer. Uma coisa só.

?Voz A

Você já tinha visto entre as guias e cordões dela, mas ela faz questão de abaixar a cabeça e escolher a guia certa. E ela fala, você carrega o poder da Rainha dos Ventos e dos os raios. Eu também. E ela mostra a guia de Ansan. Vocês são bem-vindos nesse lugar, que sirva de como um oásis para vocês, que vocês descansem, recuperem suas forças, acalentem o coração com a perda que vocês tiveram. Tantas perdas. A luta tem sido difícil para vocês ao longo combo de décadas.

E poucos garus, eles sabem o que é isso, mas eu sei. E eu preparei esse lugar para vocês, eu preparei os espíritos para vocês, eu fiz questão que eles entendessem que eles não têm a opção de criar um lugar em que vocês não fossem bem-vindos, porque nós somos os guerreiros de Gaia. Apesar de estarmos no Apocalipse, nós ainda somos a linha de frente, a vanguarda daquela que um dia talvez eu não enxergue, talvez meus dias estejam curtos e reduzidos, mas ela há de erguer-se novamente.

MMiguel

Conte conosco, se depender do nosso sangue.

AAyana

Sim, eu estou pronta para dar a vida.

?Voz A

Ela olha para Miguel e faz: vai vai render. Não sei quantas gotas, mas vai. E ela se vira e começa a sair da beira do lago em direção a um determinado lugar.

AAyana

Vamos embora, né? Seguir a dica.

MMiguel

Exatamente.

AAyana

Eu tô pronto para dar minha vida.

?Voz A

A essa altura vocês já são capazes de perceber que nós não somos as criaturas sobrenaturais capazes de definir como o mundo foi criado. Razael também é um velho amigo, mas não esse Razael que vocês conheceram, outro Razael. Não sei muito como explicar.

?Voz B

Eu só consigo olhar para a cara dela assim, a cada fala dela, com um olhar de tipo, mano, ela tá sempre em 50 passos da nossa frente, saber todas as informações.

AAyana

Esse padre é de onde é que você conhece?

?Voz A

Esse padre que é uma aí, vocês dois que perguntaram, né, para a Iana e para o Miguel, e faz outro rosto, sabe, outro corpo, outro Rafael. Antes de Padre Flávio, já dá de ombros como quem não soubesse de do que vocês estão falando, sabe?

?Voz B

É o novo corpo dele, é novo, é nova skin.

GGama

Eu, esse nome proferido faz com que Gama, ele tava na água aqui, ó.

?Voz A

Você que percebe que você não sente uma presença quando o nome é chamado.

GGama

Quando Gama sai da água, vocês veem os cabelos ralos brancos dele molhados. A coisa mais horrível do mundo, visão do inferno, Gama molhado. Apesar de você ter proferido esse nome e eu não consegui perceber aquele olhar que nos sonda, não me deixa tão confortável o suficiente. Eu gostaria de só lembrar aos meus irmãos E respeito você e o seu poder, mas esses nomes fora daqui, eles são perturbadores, eles trazem o mal por si só.

?Voz A

Não é esse lugar, meu amigo. É a intenção. Vocês ainda precisam aprender muito sobre aquelas criaturas.

AAyana

Você sabe muito então sobre aquelas criaturas?

?Voz A

O suficiente para saber que meus ancestrais derramaram sangue, suor e glória para enterrar Yorok. Uma nova palavra surge em meio a vocês.

?Voz B

E quem seria esse?

?Voz A

Ele tem outro nome sussurrado, vindo do escuro, carregado pelo vento, acompanhado nos pesadelos. Grande atormentador, a besta. Meu povo chama de Yorok, o espírito mau, a grande treva na nossa língua antiga. Esse é o significado.

?Voz B

Eu paro assim 2 segundos, refletindo a informação, e eu respondo: mas então, então vocês sabem um jeito de prendê-lo novamente? Vocês já fizeram isso alguma vez, não?

?Voz A

Hoje é noite de Toré. Vocês irão se preparar e eu mostrarei para vocês o caminho. E vocês aprenderão o que devem aprender, mas nada mais do que devem.

MMiguel

Eu agradeço.

GGama

Eu, em um momento, pensando sobre o Carcará, sobre a minha tribo e sobre aqueles presas de prata que um dia eu conheci, que foram honrosos, que fazem parte da minha linhagem asquerosa, mas que Me ensinaram sobre honra. E olhando para o lago, eu vou ativar sentido dos penumbrais, amigo, só para refrescar a memória também, sabe?

?Voz A

Teve 3 sucessos. Quando você olha para trás, não há o Uivo de Gaia naquele lugar.

GGama

Que delícia!

?Voz A

E não há água. Naquele lugar existe uma fenda e o lugar que deveria ser o lago é uma parte de uma grande serpente esverdeada e escura. Você escuta o sibilado dessa serpente que é forte, mais forte que os ventos, mais forte que a floresta. Mais forte que tudo naquele lugar.

GGama

Eu, ao olhar, eu, né, em corpo físico, eu só baixo assim a cabeça em direção à água e repito na minha mente, né, o meu mantra, mas dessa vez não apenas invocando o meu espírito protetor, mas invocando o patrono da nossa da nossa matilha, que abre caminhos. Então é isso, só isso, amigo.

?Voz A

Você escuta uma voz possante, grave, nos seus ouvidos, que fala: esta É uma noite de aprendizado, meu filho. Abra os seus ouvidos, esteja disposto, porque há muito a ser aprendido sobre seu povo, sobre sua raça. Você não está só. Se você chegou até aqui em segurança, fui eu que abri os caminhos. Se não há mais o que ser dito, a gente vai cortar a cena, tá? A gente volta. Vocês estão em uma construção, telhado feito de folhas de palmeira e de coco.

Só tem uma parede também construída com o mesmo material. Vocês estão sentados em um banco banco e aquela velha está pintando vocês como se ela tivesse preparando vocês para o que há de vir. Ela faz isso com todos menos com a Ayana, porque ela olha para Ayana e fala: você entende dos rituais tanto quanto eu, eu não posso tocar na sua cabeça e nem no seu E ela meio que, você vê, Ayana, que a forma como ela parece querer preparar Miguel, Madu e Gama parece muito com a maneira como você prepararia alguém para que essa pessoa deitasse para um santo, sabe?

Os elementos que ela tá usando. Só que você consegue ver isso para além das ações dela, como se você estivesse olhando e pensando: caralho, pô, olha, olha como os indígenas fazem isso, olha o quanto saber ancestral ela carrega consigo. Ela tá fazendo algo com uma intenção, e essa intenção talvez há centenas de anos atrás se juntou com a intenção de quem veio de África e criou uma crença. E essa é a crença que eu creio, tá ligado?

Então assim, eu sou capaz de enxergar uma raiz, um caminho que ela segue, que de certa forma é parecido com o caminho que eu sigo, tá ligado? Que de certa forma se encontra com o caminho que eu sigo.

AAyana

Eu vou pedir, perguntar para ela como é que eu posso me preparar, sabendo que ela não pode realmente tocar na minha cabeça, minha cabeça tem a coroa que não é minha, né? Enfim, mas aí eu quero participar de tudo aquilo, eu quero, eu quero as pinturas, eu quero as rezas, eu quero as palavras, eu quero toda, eu quero participar do ritual todo, é, todo em si. Para a Yana tá sendo uma experiência muito forte, muito forte assim, desde os tempos lá da Mara, que era professora dela, que ensinou tudo que ela sabe em relação ao conhecimento das, da religião de matriz africana.

Então todo esse apego que ela, que ela tem desse conhecimento, dessas memórias vividas, estão vindo todo à tona naquele momento. E para ela tá sendo, ó meu Deus, uma experiência incrível. Eu ia falar isso achando que estava participando também, mas agora que você falou que eu não estava, eu acho que eu prefiro perguntar a ela como eu posso me juntar a essa preparação, tá ligado?

?Voz A

Vocês enxergam aquela mulher já de idade, marcas, rugas no rosto preservadas pela característica ancestral originária e africana, olhando para a Ana e falando: você é uma mãe de santo, quem sou eu para falar para você como como você pode se preparar. Algo único que eu posso, a única coisa que eu posso falar para você é que você está prestes a encontrar um grande espírito, um poderoso espírito, o espírito que abriu todos os rios do Brasil.

Foi ele que traçou cada caminho que os rios correm. Foi ele que encontrou o caminho em direção ao mar. Ele é o portador de toda a sabedoria, ele que carrega todos os segredos do Conselho dos Fantasmas. Prepare-se como você acredita que deve se preparar. E quanto a vocês, peço apenas respeito, pois essa é uma oportunidade para toda a vida. Talvez nunca mais vocês a tenham. Então assim, ela não pinta vocês e coloca cares em vocês, tá ligado?

Não bota itens indígenas nas mãos de vocês, mas ela parece preparar banhos. Ela usa plantas locais, ela usa ferramentas, itens, objetos de sua própria cultura. E ela— e você percebe, Gama, que ela parece estar fazendo orações. É muitas vezes em palavras das quais nenhum de vocês são capazes de entender, porque vem de um idioma antigo dos povos indígenas daquele lugar. Mas ela, você, é como se ela tivesse selando vocês. Você tem essa percepção, sabe, Gama, que ela tivesse preparando vocês para o que há de vir.

O que faz você entender que a experiência que possa acontecer talvez não seja uma experiência comum na Umbra ou no mundo natural. Porque se ela está tendo todo esse cuidado para cuidar de vocês, o que está por vir é algo muito intenso.

MMiguel

Como Miguel, eu recebo todo esse preparo que ela dá, tipo o banho, a oração que ela acaba passando para gente, as ervas, enfim. Tudo que ela acaba passando com muita atenção, muito cuidado, muita delicadeza, entendeu? Para mim é algo assim, tá sendo entregue para mim uma coisa no qual realmente eu nunca participei. Então o mínimo que eu posso fazer é prestar muita atenção no que tá acontecendo para ter o máximo de cuidado e respeito, assim como ela ela pediu, né, e aceitar.

Afinal de contas, é para Miguel, que é uma pessoa que tem por superstição acreditar em muita coisa, aquilo acaba sendo para ele mais um conhecimento, mais uma coisa que ele pode passar a acreditar, que ele vai passar a acreditar. Entendeu? Então é isso, é mais uma superstição que Miguel assume. Eu vou botar dessa forma, mas eu acho que deu para entender.

GGama

Há um despertar de curiosidade, e de uma curiosidade no sentido de expectativa espiritual, sabe? Uma sensação de que faz muito tempo que eu senti, que talvez eu tenha me acomodado na Umbra e parece que algo grande está por vir, assim como todos os eventos que, né, antecederam a nossa chegada aqui. Então eu, assim como o Miguel, estou prestando atenção, estou tentando respeitar tudo que Nair tá conduzindo.

?Voz B

Para mim é um momento, como ela falou, de aprendizado, sabe? Eu tento ver todos os elementos das festividades que estão sendo preparadas, eu vou tentando aprender com que ela tá fazendo, as pinturas que ela tá colocando no meu rosto, no meu corpo. E aí eu também, enquanto ela tá fazendo principalmente essas pinturas, eu vou tentando perceber tanto a musicalidade A Arca é muito importante para mim nesse sentido. Eu estar aprendendo, estar num lugar novo, entendendo novas vivências para Magalu, quanto tentando perceber se tem espíritos aqui, que obviamente tem, e como eles se comportam, como eles dançam ao som dessa musicalidade.

Com uma música, ela tá muito intrínseca dentro do festival. E é o que importa para mim agora. Eu me sinto seguro, eu me sinto num lugar de aprendizado mesmo. Eu estou fazendo, mesmo sendo assim, parece que eu estou começando do zero, sabe, de novo.

AAyana

Como eu tive esse momento de questionar sobre como é que eu posso participar, e ela me deu essa liberdade de fazer o ritual como eu quisesse fazer. Eu vou bater cabeça com muito respeito aí, vou soltar um epa rei altíssimo, bater cabeça 7 vezes, e vou retornar ao— eu acho que eu vou para porta, tá? Tem que ir para porta. Vou para a porta e retorno aos meninos. Peço a ela as ervas que ela está usando neles para mim.

?Voz A

Quando ela te entrega as ervas, já não é mais ela, tá? Desde que você soltou o grito.

AAyana

Ai, que foi que eu fiz? O que que é? Eu não sei.

?Voz A

Você soltou o grito para quem?

AAyana

Aí, anção, quem veio? Mas eu só fui uma saudação. Mulher, saudade de novo, né? Então, mas ela vai dizer alguma coisa, gente?

?Voz A

Vocês sentem novamente essa— eu acredito assim que dentro do sistema que a gente tá jogando assim rola um momento de insignificância quando certas qualidades e castas de espíritos ou de entidades que vocês não são capazes de traduzir para o mundo espiritual chegam. Vocês sentem, sabe, essa vibe de tipo, meu irmão, eu tô na frente de alguma coisa infinitamente maior que eu, e a minha única— o meu único desejo é me ajoelhar diante dessa porra, tá ligado, velho?

E é isso que acontece. Vocês sentem que o aspecto da Inaê muda completamente. Aquela mulher que tem, apesar de carregar a sabedoria consigo, ela carrega agora um comportamento altivo, como se ela olhasse vocês de cima. E ela vagarosamente inclina o olhar para a Iana quando ela faz a segunda reverência. E ela solta o hilá, ela solta o hilá, aquele grito estrondoso toma conta do lugar, confirmando que existe uma presença entre vocês, e ela olha pra você com aquele tom possante.

AAyana

Aí, Ana... Eu acho que eu tô de joelhos, né? Tava batendo cabeça. Acredito que ela está na minha frente, né? Jesus, cabeça baixa. Eu falo que eu queria pedir a bênção dela para eu aguentar o que vai vir, o que está vindo por aí eu não faço a menor ideia, mas eu sei que é grande, eu sei que é muito além do que eu conheço. E eu peço a bênção dela para não deixar cair. Se eu estiver com a espinhela caída, que ela me levante, ela dê dois assoprão no meu ouvido e me dê o melhor que ela puder em relação à cabeça, a ter cabeça para enfrentar o que eu vou enfrentar.

Aí, Ana, ela tem fortes tendências a cair para o arano, tá ligado? Ela é muito— se ela sente demais, então ela sabe que não vai ser fácil, mas que também ela pode ficar fraca da cabeça, sabe? Que pode acontecer, pode deixar ela mal da cabeça. Então ela pede forças e essa bênção de inansã para os próximos passos.

?Voz A

Sua jornada não acaba em Arano. Você é minha filha, você não cairá. E seu segredo, seu lugar herdado deixará de ser só seu em pouco tempo. Confie nos seus. Um deles cavalgará o búfalo, um deles guiará aqueles, aqueles que eu guardo contra o mal que se impõe a vocês, mas maior é a que vive em você do que o que vive no mundo.

AAyana

Eu aceno com a cabeça pra dizer que eu entendi, e eu olho nos seus olhos, narrador, que você está interpretando, eu olho nos seus olhos, e eu entendi o que que você quis dizer. Eu dou uma confirmação pra ela de catei. Já sei o que, já sei, já sei como seguir a partir de agora.

?Voz A

Raios e trovões, ventos sopram e eles não sopram contra vocês. Meus ventos são maiores, meus ventos são mais fortes. Ergam-se, levantem a cabeça. E ela passa, tá tipo assim, colocando a mão no queixo de vocês assim, sabe? Um andado já diferente, um da possante. Ela levanta a cabeça de você, olha nos olhos de cada um de vocês. Vocês não entendem exatamente se aquilo pode ser traduzido como algo do mundo dos garotos, como um espírito que tomou posse de um corpo.

Talvez não seja, talvez não seja possível explicar, na verdade. Talvez esse dom só seja cabível e pertencido, talvez os homens, os humanos sejam capazes de explicar essa herança que a Inaia carrega consigo naquele momento. E ela faz: levantem-se! Os ventos sopram, as tempestades varam o mundo, e elas não destroem vocês, elas lutam por vocês.

MMiguel

Apesar de não ser exatamente talvez algo que seja uma resposta concreta para Miguel, tá, é encorajador a forma que ela tá, a impotência, a forma poderosa que ela se impõe contra a gente, tá entendendo, com a gente, e E isso, isso faz, tá ligado? Tipo, Miguel, é instintivo a sugestão dela, e Miguel se põe de fé, de fé também, de pé, tipo, observando o que ela fala, mas observando também os seus para se colocarem ali, tá ligado? Tomarem as palavras dela como força.

?Voz A

A minha campeã enfrentou o esquecimento em tempos de outrora, e vocês, assim como ela, enfrentarão a escuridão. E ela encerra olhando para Madu e fala: não tema os eguns. Você tem poder sobre eles. E aí, Nair, ela dá outro hilar assim possante e caindo ao chão, batendo cabeça, vocês veem a Nair erguer-se de novo.

AAyana

Aí eu seguro ela.

?Voz A

Ajuda ela.

AAyana

Eu ajudo.

?Voz A

Ela faz: muito obrigado, muito obrigado. Ela apoia assim em você, levanta, Ela levanta-se e ela volta a agir como se nada tivesse acontecido, gente.

AAyana

Meu bem, eu acho que eu tô impactada porque eu não achei que aí que a Ansel fosse vir nela ainda e fosse falar o que ela falou. Eu fiquei pensativa em relação a isso. Mas aí eu comecei a ligar pontos. Só que eu me sinto extremamente motivada a fazer o que vamos fazer, seja lá o que for. E vamos botar para notinha aí, deixar uma oferenda para gata, porque pedimos bênção a ela, pedimos proteção e equilíbrio emocional para o que está por vir, e ela nos deu avisos aí, né? E essa motivação aí de bora, galera, vocês não vão perder não. Então vamos lá.

?Voz A

E na ela fala: eu devo ter umas velas amarelas, brancas e vermelhas para a gente deitar e soltar ferida. Champanhe, licor de menta e cereja também não deve faltar.

?Voz B

Eu tenho meu bom cigarrinho. E muita música boa.

?Voz A

E manga, fruta, manga, uva e maçã também não deve faltar. Iremos fazer isso, aí, Ana, se é o que deseja.

AAyana

Eu agradeço muito. É muito importante para mim fazer isso agora. Se eu puder fazer agora, então eu gostaria sim.

MMiguel

É isso, tá ligado? Vou ajudar a buscar as coisas.

GGama

Para beleza.

?Voz A

As cenas seguintes são compostas por Yansan entregando todos esses materiais que ela citou nas mãos da Ayana, como se ela tivesse falando assim: é seu lugar, faça como você acredita, como você foi ensinada. Eu quero ver como você faz, eu estou aqui com você. Tá ligado?

AAyana

Tem uma, pode ter um aguidá, podemos ter um aguidá, né? E obrigado. Eu vou colocar champanhe no meio, as flores em volta. Vamos dizer que ela falou que tinha manga, uva e maçã. Fala que tinha o quê mais, meu amor? Só lembro da manga.

?Voz A

Desculpa, ela falou que tinha manga, uva e maçã.

AAyana

Beleza, vou colocar uma fruta de cada, uma em cima, uma do lado esquerdo, outra do lado direito, e colocar uma vela na frente. Ou seja, faz um, se fosse um X, sabe? E acendo a vela, eu acendo a vela amarela. Eu acredito que as flores eu vou escolher, se tiver opção. Se eu for até escolher branca, vou colocar flores brancas e uma vela amarela. E eu queria, se possível, a gente despachar lá na água onde a gente tava, ou não dá mais para voltar?

?Voz A

Seria mais que possível.

AAyana

Então eu gostaria de ir lá porque tem que ser lugar aberto, tá ligado? Tiver água é melhor ainda. Então lá seria perfeito para despachar. Eu monto a aguidada esse mesmo essa mesma sequência que eu descrevi. Acho que todos conseguiram imaginar como tá, né? E vou levar para despachar lá no rio, a lagoa.

?Voz B

A lagoa.

?Voz A

Se alguém preparasse uma comida normal ou algo normal em comemoração, em honra a uma pessoa, não cheiraria tão bem quanto vocês percebem que cheira aquela oferenda. Aquilo em parte é novo para todos vocês, e de certa forma aquilo compõe o que é o mundo garoto também. O mundo garoto é feito do que vocês sabem e do que vocês não sabem, do que vocês controlam e do que vocês não são capazes de controlar ou compreender. E aquele talvez seja um lugar em que só a Yana e aqueles que vieram antes dela são capazes de compreender.

A Yansan te ajuda também, a Rainha te ajuda em todo esse processo, até que ela fala, até que o sol já tá se pondo, e ela fala: chegou a hora. E vocês começam a escutar o som de percussões O som de vozes ao fundo na floresta.

MMiguel

Acho que, como ela bem disse, chegou a hora. Vocês escutam?

?Voz B

Não só escuto como adoraria participar. Vamos, meus irmãos.

?Voz A

Ela começa a andar em direção àquela aquele som que vocês estão ouvindo. E ela fala: existe um segredo na Pedra do Ingá, um segredo tribal, um segredo milenar e hereditário, algo que outras tribos não entenderiam e guardariam no passado como deveria, como deve ser guardado, só o Conselho dos Fantasmas. Ao longo de milênios, sempre houve um membro do meu povo que guardou aquele lugar. Esta geração, a geração de vocês, quebrou esse ciclo.

O último deles foi Cao Yuan, o Gavião, e essa geração Não terá alguém do Conselho dos Fantasmas. É tudo, tudo o que eu posso dizer. Vocês vieram com perguntas e nós iremos reencontrar a antiga serpente hoje. A sabedoria ancestral vai mostrar o caminho para cada um de vocês. E vocês começam a escutar Uma música em que vocês vão se aproximando e essa música ela vai aumentando.

?Voz B

Foda!

?Voz A

Pra ver a força da Jurema, pra ver a força que a Jurema dá, pra ver a força da Jurema. Vocês começam a escutar esse cântico, tá ligado? Chamei a cabocla de pena, eu chamei ela para vir me ajudar, para ver a força da Jurema, para ver a força que a Jurema dá. E aí chega um momento em que, aí, Ana, você começa a perceber que há diversos caboclos da Jurema entre as pessoas que estão ali. Aquele círculo feito que os potiguaras chamam de toré.

As pessoas, elas giram ao redor de um ponto específico e todas elas cantam intensamente. E você começa a distinguir quais são os encantados que estão chegando naquele lugar por meio daquelas vozes, quais são os encantados que estão baixando naquele lugar por meio daquelas vozes. E aí vocês começam a perceber que existem dois tipos tipo de pessoas naquele lugar: as pessoas que cantam e as pessoas que percussionam. As que percussionam estão mais ao centro, as que não percussionam estão mais afora bradando e cantando.

Elas começam a estender as mãos sobre os ombros umas das outras até que vocês começam a perceber que há algo a mais para aqueles que pertencem ao mundo garoto. Existe uma espinha de uma grande serpente serpente sendo construída naquele lugar, onde cada vértebra dessa serpente ela compõe uma daquelas pessoas que está ali estendendo a mão sobre o ombro da pessoa que está à frente. E aí, Nair, nesse momento que vocês são arrebatados por esse poder supremo e ancestral, ela fala: aqui nesse solo Não somos nós, garotos, que abrimos o caminho, são eles.

E vocês de repente se enxergam perdendo aos poucos os sentidos. Primeiro as percussões, elas desaparecem, vão se abaixando e abaixando e abaixando, como se fosse um fade out, tá ligado? E as percussões, elas começam a sumir, só que ao fundo ainda tá Pra ver a força da jurema, pra ver a força que a jurema dá. E até que fica só o som dessas pessoas que estão naquele lugar. Pra ver a força da jurema, pra ver a força que a jurema dá.

Até que de repente os povos indígenas, aqueles povos originários que estão ali, eles também desaparecem da visão de vocês. E o som, ele também vai se apagando aos poucos, até que vocês sentem os pés molhados. Os pés de vocês já estão na lagoa, a lagoa encantada. Existe uma névoa em todo lugar, ou seria a fumaça dos rituais dos povos originários, vocês não sabem definir. As águas, elas estão uma cor azul neon completamente transparente, até que vocês percebem que tem uma coisa diferente.

Algo que está compondo o cenário de repente começa a se mexer, e o que a visão paralela de vocês faz vocês imaginarem que é uma pedra é apenas o corpo de uma grande serpente. Serpente esverdeada gigantesca que vem da floresta e passa pela névoa. Do lado esquerdo também, o corrimento dessa serpente também se passa como se ela fosse quase infinita diante dos olhos de vocês. Quão grande é aquela criatura que se impõe diante de vocês na umbra?

AAyana

Mano, eu Gente, eu não, eu tô incrédula aqui, a gente vivendo essa experiência de pecadores.

MMiguel

Eu não sei, na verdade, eu como Miguel, tá, eu não sei como agir diante tamanha, tá ligado? E a única coisa que acaba trazendo, vou dizer, como vontade, né, ou sei lá, se sobrepondo a tudo, é a vontade de, sei lá, se inclinar, de se reverenciar, se ajoelhar, que seja tamanha a grandiosidade daquilo, tá ligado?

AAyana

Que sou eu aqui, né, perante aí a essa incrível criatura. Sério, eu acho que eu compartilho da mesma sensação, amigo.

MMiguel

Essa foi a essência que eu quis trazer.

AAyana

Boa.

?Voz B

Eu senti toda a festividade, eu observar todas as pessoas que estão ali cantando, na percussão, todo o nosso trajeto para poder chegar até aqui. Eu sinto uma euforia gritante tomar conta do meu corpo. Sinto cada célula do meu sangue vibrar nessa hora. A minha vontade de correr para me juntar ao pessoal da percussão, sabe, e aprender com eles ali na prática, emana de dentro de mim. Mas eu sou só guiado. Eu começo a ver os detalhes das roupas, do que tá acontecendo, das roupas das pessoas, dos instrumentos.

E os meus olhos vão pendendo, vão pesando, e aos poucos tudo vai sumindo. A primeira coisa que eu penso em fazer é me juntar a usar dos meus instrumentos para cantar, para tocar junto com eles, mas algo me impede. Não um impedimento ruim, não é isso que tá sendo pedido do meu coração, como se tivesse uma mão no meu coração pulsando. Isso não é, não é hora de você tocar, é hora de libertar o que há muitos anos Você não faz com tanto desejo.

E eu começo a aprender a música e eu começo a cantar a música em um alto tom, de uma forma quase como se fosse um guerreiro entoando esse cântico junto com eles, mesmo quase como se os meus movimentos fossem guiados. E eu contemplo tudo isso enquanto eu vejo só as palavras saindo da minha boca, enquanto contemplo os meus irmãos do meu lado. É o que eu sinto.

?Voz A

Pra ver a força da Jurema, pra ver a força que a Jurema dá.

AAyana

Eu queria perguntar se A serpente, ela é comunicável?

?Voz A

Você não consegue ver o começo e nem o fim dela. Isso não quer dizer que ela não é, ela não é comunicável. Você só vê uma parte passando pela sua direita que parecia ser algo estático, mas aí começa a se mexer vagarosamente. Lembra de Diablo 4, meu amor? Lembra daquelas coisas? Exatamente essa cena. E aí ela passa também pelo lado esquerdo, passa por trás, e lá na lagoa tem outro pedaço dela passando assim, saindo da água e entrando na água.

Ela é incomensuravelmente grande. Isso não quer dizer que você não é— ela não é incomunicável, entendeu?

AAyana

Não, eu só perguntei porque podia ser um espírito muito grandioso para a gente conseguir se comunicar, de tipo, ele não dá moral para a gente falar com ele, ele só mesmo, quem são vocês?

?Voz A

Mas a sua sensação é essa, tá?

AAyana

Mas então é porque eu tenho ritual do Shinigami para saber como é que eu posso abordá-lo da melhor forma, sabe, da forma correta, os etiquetas e tudo. O negócio é babado. Todo respeito para o espírito, tá ligado? Caso fosse necessário, eu só ia chamar atenção para isso, se fosse necessário. Mas eu queria tentar procurar com os olhos a cabeça, ou seja lá o que possa A boca, enfim, o rosto para eu tentar interagir, sabe?

?Voz A

Beleza, demora um pouco porque aí vão dar o tempo do Gama também descrever como ele se sente, né, nesse momento.

GGama

Acho que Gama tá extasiado em ver isso acontecer. Sentir a força ancestral que existe nesse lugar. É algo que ele não compreende, mas que ele sente o poder, né? Ele se curva, ele vai se apequenando na medida que o ritual ele vai acontecendo. Fora o Fonseca, né? Isso aí é outra coisa.

AAyana

Amigo Ayano está aqui.

?Voz A

Parece que o abismo chegou às raízes da minha floresta. E aí vocês veem aquela voz sibilante começando a tomar forma. Uma cabeça infinitamente maior do que vocês, olhos da cor de jade, uma serpente, uma cabeça de uma serpente que poderia engolir vocês mesmo que vocês fossem 20. Se ela abrisse a boca, ela engoliria vocês. E essa cabeça, ela sai de dentro da lagoa encantada, entre a transparência daquelas águas azul neon. Ela se posta diante de vocês, ergue-se sobre metros e metros e metros e contempla vocês de cima para baixo. Vocês trazem o abismo com vocês.

MMiguel

Só uma descrição sobre Miguel, tá? Toda aquela cena, toda aquela coisa que aconteceu, quando a voz começa a chegar e eu vejo de fato a cabeça da serpente, os olhos dela, tá ligado? Tipo, Miguel treme de medo como se nunca tivesse tremido na vida.

AAyana

Eu acho que se ela conseguiu sentir essa, essa, esse meu, essa minha hesitação, esse pensamento de tipo, pô, ela falou isso da gente e ela sentiu que eu pensei nisso, eu acho que logo após essa resposta dela ela possa conseguir sentir as intenções do que eu gostaria de perguntar a princípio, se era ele que é, caso a figura, né, que nos ensinaria sobre coisas que a gente não sabe, as respostas que tal que nos falaram mais cedo.

?Voz A

Quem rasteja ou corre ou voa pelo mundo que sabe mais que eu? Como uma resposta à sua pergunta, mas quero ouvir Por que vieram?

MMiguel

Essa parte eu vou deixar para vocês, tá, amigos?

GGama

Parece que há uma hesitação, né, entre a gente quando a serpente pede perguntas. E acho que todo mundo fica nessa do zero ou um. E aí, quem vai lá nessa hora? Por um breve instante, Gama olha para um lado, olha para o outro lado. O espírito é tão poderoso que, apesar de saber o que precisamos ouvir, ele quer ouvir da gente. Miguel Amador, eu me lembro de um tempo em que uma serpente também cruzou o nosso caminho em Ingá. E parece que mais uma vez um filho ou um pai ou uma nova boiúna chega até a gente.

Eu humildemente, junto dos meus irmãos de matilha, de Alcateia. Desejo conhecer como poderemos vencer essa criatura que não pode ser pronunciada e que traz o abismo, que rompe a pedra e que finda os segredos que haviam inundado. Que você quer ouvir, Miguel? Que você quer ouvir, Ayano? O que você quer ouvir, Madu? Talvez todos nós precisemos perguntar agora.

MMiguel

Eu preciso saber como devolver para a mata o que foi me dado como dádiva para estar aqui novamente.

AAyana

Para mim, é, acho que é um pouco, um tanto pouquinho assim constrangedor estar na presença desse espírito enorme e queria que ele me dê respostas para um problema que não é dele, mas que aparentemente só ele, quer dizer, ele tem as respostas, a solução para esse problema, que no caso é conter um bicho que não é contido há muitos e muitos anos. E enfim, fico meio receosa, mas eu compartilho isso com ele, essa minha angústia de como resolver isso de uma vez por todas, assim, de vamos trancar o cara.

Se vocês conseguiram uma vez, por favor nos ensine para que a gente consiga fazer também, pensando também nos nossos pilares. A angústia se mistura com todos esses pontos, sabe? Vem várias preocupações na cabeça. Pensa, meu Deus do céu, se aumentar mais do que está agora, se chegou até a gente, chega neles fácil. E pode chegar em pessoas que não tem como se defender, pô. Então, se chegou na gente, que é quem pode fazer algo, vamos lá, é o nosso momento. Então eu compartilho isso com a serpente.

?Voz A

Quando todos eles, quando todos se impõem seus questionamentos, seus pedidos, a grande serpente ela fala: há inimigos que não podem ser mortos e nem mandados para o lugar de onde vieram, pois eles voltam ainda piores. O conselho dos fantasmas sabe disso há milênios. E a história de Iorok, e o nome vem de novo, é a maior prova de que essa afirmação é verdadeira. Houve um tempo antigo, eons antes do tempo, quando a Umbra ainda era jovem.

Em que as tribos dos garus corriam juntos dos povos primitivos pelas matas profundas deste lugar, dividindo o território com outras raças de metamorfos e espíritos selvagens. Foi nesta era que surgiu Yorok, e vocês são capazes de enxergar nos olhos da serpente a história sendo contada, como se ele mostrasse o passado para vocês mostrassem o avançar dos garu, o avançar dos povos originários há milênios de anos atrás. Nem eu sou capaz de concordar sobre sua origem.

Alguns dos seus dizem que ele apareceu faminto pela vida e o medo dos humanos. Uns afirmam que foram membros do Conselho dos Fantasmas, outros afirmam que os Oradores dos Sonhos trouxeram ele de onde ele estava para nossa realidade. As lendas mais antigas falam que ele surgiu onde nem os espíritos ousavam ir, o ponto mais escuro da floresta, onde a Wild era selvagem demais e a Wyrm podre demais. Uma fusão profana. A sua influência cresceu com o passar do tempo, como uma doença.

Aldeias inteiras desapareciam em uma única noite. Aqueles que escapavam vagavam desnorteados pela mata, cegos de pavor do escuro, delirando até morrer dias depois, balbuciando um único nome: Iorok, o espírito mau, senhor das trevas e da morte, na língua dos antigos. Diziam que ele surgia junto do sono, atacando durante os pesadelos, se alimentando e arrastando mentes para seus próprios medos. Com o tempo, as matas ficaram mais escuras, criaturas deformadas surgiram, espíritos que jamais deveriam existir.

Muitos garus como vocês caíram para o Wild ou para o Irmi, enlouquecendo ao ver um ser de sombras vivas com almas tentando escapar de seu corpo. Atrás dele, um manto negro apagava toda a luz. As tribos se uniram para caçá-lo, humanos, garus e outros metamorfos, e deram fim a seu corpo físico. Dias depois, ele voltou. Sua ira ficou ainda maior nesse tempo, e como forma de retaliação, ele começou o que os povos primitivos chamam de a grande noite.

Yorok trazia um terror coletivo sobre as aldeias, paralisando-os. Depois, as criaturas vinham, e por fim, Yorok devorava suas almas. Sem alternativas, os garus buscaram respostas nas profundezas da eles me encontraram. E vocês veem que a serpente se impõe, ela aumenta de tamanho, sabe? A eles eu revelei o ritual que não o mataria, mas o aprisionaria. Através desse ritual, Ioróki foi sugado para dentro de uma uma pedra que foi usada como prisão física e espiritual dele e para outros que vieram, muitos outros que vieram depois.

Essa pedra passou a se chamar Itacoatiara. Você vê que o dialeto dele muda quando ele fala, parece que a fonética dele fica diferente. E sobre ela foi fundado o primeiro grande caerne destas terras, o caerne da Pedra do Ingá, sobre a minha vigília. O ritual de aprisionamento foi escondido até de mim, enterrado na própria Itacoatiara para que ele fosse esquecido para sempre. O segredo final foi ocultado de todas as demais tribos e entregue apenas a uma capaz de entender o poder dos segredos, o conselho dos fantasmas, guardiões das dores antigas e os mistérios proibidos.

Este é o conhecimento que ofereço a vocês, crianças de verão. Mas a você eu ofereço mais, filho do cervo. O que você procura está aprisionado e não morto. Jaz entre borboletas azuis e uma floresta antiga dominada por um mal antigo, um cervo branco de olhos escarlates que traz o medo consigo. Outrora ele aliou-se a Iorok. Existe uma criança presa por ele também. Uma criança capaz de definir os rumos de sua raça, para o bem e para o mal.

Mas o conhecimento cobra o seu preço. Vocês devem pagar o tributo pelo que ouviram.

?Voz B

Eu acho que com palavras, eu falo por todos, Eu não consigo expressar gratidão e ao mesmo tempo choque ao receber tanta informação, mas quero humildemente agradecer por isso. E com ingenuidade, talvez, não sei, eu gostaria de saber qual é o tributo a ser pago.

?Voz A

Amador, preciso que você volte um pouco no tempo e eu preciso que você me Me recorde qual foi o momento mais feliz que você viveu entre a sua alcateia. Todos esses anos, pouco mais de 15 anos, tem que existir um momento de toda essa história entre as lembranças e a segurança de—

?Voz B

a insegurança de nunca ter tido uma família fixa e ter caído nessa matilha aí sem querer interagir, mas aos poucos sendo impossível. Eu lembro, eu lembro de uma noite em que a gente tava numa casa Grande casarão, descansando antes de dar continuidade a uma missão. Foi nessa noite em que eu me abri sobre a minha vida com Miguel, com Gama. Uma noite rodeada de muita cachaça, muita música. De muitas lágrimas, onde eu pude perceber que mesmo tendo um destino tão solitário, foi ali que eu percebi que eu daria a minha vida por cada um deles, que eles seriam eternamente, até onde a gente pudesse dar o nosso último respiro, respiro, eles seriam os meus irmãos.

E esse mesmo sentimento, perdido depois de 15 anos, eu tive de novo ao encontrar o que hoje é a esperança para o futuro. Eu e os meus aqui já vivemos tanta coisa que todos nós estamos prontos para partir. Mas ele não. Ele é a ponta da esperança que eu tive quando eu saí, fui para o curso de casa. Ele é o que alimenta a minha força, ele é o que me dá a força de vontade para enfrentar um Deus e não hesitar nenhum momento se isso for dar a esperança de um futuro para ele.

Então ter encontrado os meus irmãos naquela noite e ter encontrado o meu filho naquele dia são os momentos mais alegres que eu posso te oferecer.

AAyana

Da minha antiga matilha, é estar com Nau no Bar de Lino de manhã, ter chegado, é uma E aí tá os meninos saindo para ir para escola e Dolores para ir trabalhar. Todos nós cumprimentamos, as crianças fala com a gente, mas vai para o ponto de ônibus. E a gente dá uma riada ainda antes de certas pessoas estranhas chegarem para pedir uma Heineken. E eu acho que essa foi a última reação que a gente teve como matilha, tá ligado? Tipo, foi o nosso único momento ali como Matilha que tava até então tudo bem.

E a gente não tinha nenhuma noção de que depois daquilo ali, pô, aquela cena nunca mais iria se repetir. Depois que aqueles bichos entrou naquele lugar, deu tudo errado. Mas para mim, a minha lembrança mais feliz é aquele exato momento, são aquelas exatas risadas, aquela exata reação. Esse começo do dia para mim é tipo Gente, é isso, é a minha família, era essa aqui. Olha como a gente era lindo juntos. E depois disso é isso. Olha eu aqui contando a história, apenas eu.

Mas eu deixo aí tipo com esse pensamento. Eu acho que vem na minha mente assim como veio na do Madu, mas eu deixo um extremo sorriso no rosto lembrando disso, tá ligado? É para mim, é muito bom lembrar De Isabelle reclamando do ponto de ônibus, de Nau arriando nos bichos, com os bichos, porque pediu, perguntou da Heineken. Enfim, essa é a minha lembrança mais feliz que eu não gostaria de perder, tá, narrador? Enfim, é isso.

GGama

Gama, ele tá muito no presente, ele tá muito ainda naquelas palavras Esse lugar, ele conecta passado e futuro. E se de alguma forma o Gama de agora fosse o Gama que encontrou Miguel, encontrou Madu, encontrou os outros irmãos de Caerne, pela primeira vez, e ele estava acuado, ele não quis beber, ele teve todo aquele jeitão tímido, mas é tímido, mas o Gama de agora é extremamente feliz por tudo que ele experimentou a partir daquele dia, que aquele encontro mudou a vida dele para todo sempre.

Se eu posso lembrar de um outro momento em que eu estive tão feliz, foi estar brincando na água há poucos instantes atrás, enquanto a gente atravessava, e ele sai da água molhado igual um Gabiru mago, e ainda assim feliz por estar com os seus, por saber que aquele sentimento de coletividade, de família, ele ainda existe sob uma nova ótica.

MMiguel

Eu me lembro de uma noite chuvosa onde eu e alguns amigos dividíamos uma garrafa de cachaça, cachaça essa colocada apenas por diversão, ao som de violão irmão, de um grande irmão, histórias e risadas de um velho ranzinza. E aos poucos chegavam figuras, pessoas que eu não fazia ideia, mas acabariam se tornando o motivo do meu viver e morrer. Uma figura sombria no qual me assustou chegar, mas é como meu irmão. É como não, é meu irmão.

Uma figura mais retraída que mal queria tocar o chão, mas sequer recusou o meu copo simples de cachaça. E uma outra figura na qual hoje eu já não me importo tanto. A esse meu passado eu devo o meu saber, a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, minha cultura, meu corpo. Que meu passado deixa para mim a liberdade. Hoje eu não sou mais escravo dele. Então essa é minha melhor lembrança para você.

?Voz A

Quando vocês voltam para o mundo espiritual e enxergam onde vocês estão, é como se a cabeça daquela serpente se dividisse e estivesse abocanhando o meio de cada um de vocês, como se ela bebesse o sangue de vocês, como se ela tivesse várias cabeças. Aos poucos vocês tentam se apegar a essas lembranças que trazem acalento a vocês, mas aos poucos elas vão se perdendo. Vocês lutam para impedir que essas lembranças sumam de suas memórias, mas vocês não conseguem.

E a grande serpente se alimenta dessas grandes lembranças que vocês têm. Vocês marcam 2 pontos agravados na força de vontade e vocês marcam 1 ponto em Roglovski, visto que vocês aceitaram pagar um tributo sem saber qual era ele, sem medir as consequências. E se essas memórias somem? Vocês lembram que viveram um grande momento feliz, mas vocês não conseguem mais lembrar. Quando ela solta vocês, vocês caem ao chão enfraquecidos, e a serpente fala: vocês devem derrotar os invasores, abrirão a passagem.

A partir daí, vocês devem encontrar o caminho até onde está culto esse ritual entre os cárceres da prisão que os ancestrais criaram na pedra. Que delícia!

MMiguel

Caralho, velho!

AAyana

Caralho, caralho, caralho!

MMiguel

Namorou mesmo, bicho!

GGama

Caguei tudo nas minhas calças agora.

?Voz A

Para ver a força da jurema, para ver a força que a jurema dá, para ver a A força, adagio, e as vozes voltam. E aí os sons das percussões também voltam. E aí as mãos das pessoas que estão segurando umas nas outras pelos ombros, formando a espinha dorsal da grande serpente, se soltam. E aí vocês estão novamente no mundo natural.

MMiguel

Eu não sei como é para vocês que têm talvez essa proximidade com esse outro lado, né, com espíritos da umbra, enfim, né. Mas para mim, para Miguel, quando retorno ali a esse mundo físico, tô com cara de cansado, tá ligado, cara de esgotado. É como se eu tivesse literalmente caminhado o dia todo e tipo são quase meia-noite e eu parei de andar literalmente agora. Então eu tipo, cara, esgotado, porém agora com uma resposta a mais.

?Voz B

Eu volto com peso no coração aliviado, né, por saber que cumprimos aquilo que a gente veio fazer aqui. Tivemos uma orientação. É nisso que eu tô tentando me apegar, mesmo sabendo que dessa vez foi um preço um pouco alto para mim. Mas aí eu não desenvolvo isso, guardo para mim e começo a me situar onde a gente tá.

AAyana

Ana volta, acho que um tanto desnorteada, mas é um sentimento de algo faz falta, mas ela não sabe o que é que faz falta. Gera um pouco de confusão. Não sei como é que eu me sinto em relação a isso, mas eu sinto essa falta de, enfim, de alguma alguma coisa, mas não lembro o que é. Então eu não falo nada em relação a isso, só, enfim, vou tentar me situar.

GGama

Eu tô com esse mesmo sentimento de cansaço, de esgotamento.

?Voz A

Ao lado de vocês está Inaê. Ela parece curiosa, como se ela não soubesse o que aconteceu. Olha para vocês e fala: encontraram as respostas que procuravam?

MMiguel

Pelo menos o começo delas.

?Voz A

Então cumpro o meu último objetivo na Terra. Anseio descansar há muito tempo, mas lá atrás, há décadas atrás, eu enxerguei vocês aqui vindo até mim. Lutei para estar aqui. E esperar vocês, pois eu sabia que o grande dia da grande noite chegaria e eu tinha meu papel a cumprir: guiá-los ao grande espírito da sabedoria.

MMiguel

Se ser permitido, tá ligado, Bruno, Miguel pega em uma das mãos de Inaê e a beija, tá ligado. Sei lá, como se fosse tipo agradecendo. Ele segura assim a mão dela com carinho, mas tipo já com saudade, já que ela tá dizendo que já está indo. E a beija, palma as costas da moça, um beijo longo, demorado, e agradece. Obrigado, obrigado por ter nos aguardado.

?Voz B

Tem alguma canção que você gostaria de ouvir uma próxima vez, como uma forma de um presente que eu posso te dar?

?Voz A

A Dona do Raio e do Vento, de Maria Bethânia.

AAyana

E olho para vocês para ver se vocês querem falar mais alguma coisa enquanto eu quero dar um abraço nela, é de coração com coração, que a gente chama aqui no Aquele assim de ladinho, sabe, sem encaixa os braços, de um lado, outro de outro.

?Voz A

Ela olha para você e faz: toda geração, toda geração desse lugar traz alguém como nós, aí, Ana. Mulheres guerreiras que sabem o preço da luta, que sabem o preço que devem pagar. Você mais do que qualquer outro sabe a dor de ser uma mulher, a dor de lutar para existir e manter o que você acredita. E você agora está incumbida de manter esse legado. Seu legado é o meu legado, meu legado é o seu legado, e o legado de tantas outras que nós sequer conhecemos.

Está sobre nós, porque nós podemos mais. Nós somos as representantes dessas pessoas. E que pena para o mundo seria se não existíssemos, se você não existisse. E você sente uma sabedoria assim para além da sua. Finalmente alguém que talvez viveu mais que você, sabe? E ela, ela assim corresponde o seu abraço e ela fala: nada em vão.

AAyana

Eu estou aqui. Ah, meu Deus, é isso! Vamos, minha senhora de idade! É isso, cara, é exatamente isso. Nada em vão e nada é por acaso, gente. É isso.

?Voz A

Ela te abraça, o último abraço o último lado, ela fala: a garota me contou o seu segredo, mas eu não contarei seu segredo nem quando chegar na terra dos ancestrais. Você deve escolher o momento certo para usá-lo, e você terá o momento certo para usá-lo. Não se esqueça da morada dos eguns. Que está sobre suas costas. Você detém a chave e alguém entre você que detém o domínio.

AAyana

Aí eu não falo nada.

?Voz A

Eu, a você, eu ofereço. E aí ela coloca a mão entre aquelas vestes dela e ela tira um sino e um apito. Vocês veem o sino e um apito saindo cada uma das mãos dela. O sino ela entrega para você, aí ela faz: o sino impedirá ao menos uma vez que espíritos de determinada casta de poder se materialize em um raio considerável de distância. Eu ofereço a você esse legado. E estenda a mão para você.

AAyana

Me dê, minha senhora. Tá aqui quem mais vai proteger esse negócio, vai usar toda a sabedoria.

?Voz A

E ela continua: o apito chama aliados antigos que eu encontrei nesse mundo. E ela estende a mão para um dos três. Quem pega?

AAyana

Vamos lá, galera, presente da senhora de idade, da idosa.

?Voz A

Ela olha para Madu e fala: você, guardião dos eguns. Deve saber que quando soar esse apito, o faça com antecedência, pois Hel e Talula, velhas amigas minhas, virão ao seu encontro. Lembre a elas do pacto que elas têm com Inayê, Voz de Oyá, galiarde do Conselho dos Fantasmas, de sangue orubá e filha dos verdadeiros donos anos de Baía da Traição.

?Voz B

Eu fico sem palavras toda vez que alguém fala comigo. Faço reverência a ela, pego o apito, olho para ele com muito carinho, coloco como se fosse um colar no meu pescoço e falo muito obrigado. Eu jamais esquecerei desse homem, jamais. E começo a me preparar para cantar a última canção que ela tanto desejou.

?Voz A

E essa sessão encerra-se ao som de Maria Bethânia cantando que o raio de Ansan sou eu.

EP. 09 - Ventos do Apocalipse - Lobisomem: O Apocalipse 5ed | Castnews Index — Castnews Index