Episódios de Petcast História Unifesp

#17:Rios de História: Rio Sorocaba

07 de maio de 202611min
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Olá, pessoal! O Rio Sorocaba é o destaque da vez no Rios de Histórias!

Muito além de um curso d'água, a história do rio envolve história indígena, cultura, meio ambiente e economia no interior paulista. Do significado tupi de seu nome às lutas operárias, exploramos a importância desse gigante da bacia do Tietê.

Neste episódio, mergulhamos em como suas águas impulsionaram o ciclo do tropeirismo, sustentaram a biodiversidade da Depressão Periférica e testemunharam transformações sociais profundas.

Participantes neste episódio1
J

Juliana Daluz

Host
Assuntos7
  • Povos indígenas pré-coloniaisOcupação humana pré-histórica (10-6 mil anos atrás) · Presença de grupos indígenas anteriores aos Tupiniquins/Tupis do Tietê · Artefatos de pedra e cerâmica · Sorocaba como rota de passagem indígena · Luísa de Almeida
  • Cidades históricas e rotas tropeirasImportância das tropas de molares (burros e mulas) · Sorocaba como ponto de descanso, abastecimento e comércio · Tributo/pedágio na ponte · Feira dos Muares · Impactos econômicos e ambientais do tropeirismo
  • Recuperação do Rio LeçaImpactos da urbanização e industrialização · Lixo industrial e esgoto doméstico · Canalização de córregos e alterações no curso do rio · Mortandade de peixes (1960-1990) · Metais pesados, microplásticos e outros poluentes
  • A Primeira Greve Geral em Portugal (1912)Trabalhadores pipeiros (imigrantes italianos) · Qualidade da água do córrego Supiriri · Proibição de coleta de água e exigência de subir rio acima · Greve de 1885
  • Renaturalização de RiosAção civil pública para tratamento de esgoto (1989) · Tratamento de esgoto a partir dos anos 2000 · Lixo difuso e dificuldade de controle · Condições atuais e missão de restauração a longo prazo
  • Colonialismo e ImperialismoChegada dos bandeirantes · Afonso Sardinha, o Velho e o engenho de ferro · Baltazar Fernandes e a fundação em 1654 · Construção da capela de Nossa Senhora da Ponte
  • Origem do nome CeilândiaSignificado tupi 'terra de Vossoroca' · Geomorfologia da depressão periférica
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Está começando mais um episódio do Rio de Histórias, o podcast produzido pelo Petcast História Unifesp. Acomode-se, pegue seu fone e venha conosco ouvir um pouco de conhecimento. Eu sou Juliana Daluz e hoje vamos conversar sobre o Rio Sorocaba. Mas calma, não é só um papo sobre um curso d'água, é uma história que envolve meio ambiente, cultura e economia, pois falar do Rio Sorocaba é também falar sobre a construção e o desenvolvimento do território que o circunda.

Antes de tudo, precisamos abordar a origem da nomenclatura do nosso rio. Aponta-se que a palavra Sorocaba vem do tupi e significa algo como terra de Vossoroca. Vossoroca é um tipo de erosão que, ao estar presente no solo, gera muitas fissuras ou buracos. E, curiosamente, a região na qual Sorocaba se localiza é geomorfologicamente uma depressão periférica suscetível a ação erosiva.

Ou seja, nesse caso, percebemos que o nome dado pelos nativos já se relacionava diretamente com a paisagem local, antes mesmo da existência da atual cidade interiorana de São Paulo. Atualmente, o rio Sorocaba é reconhecido como o maior afluente do rio Tietê. Ele nasce da confluência de dois outros rios, o Sorocamirim e o Sorocabuçu, na cidade de Buína. De lá, ele segue um caminho de 227 quilômetros, passando por mais sete cidades.

como Iperó, Boituva e Votorantim, até Desaguar, no Rio Tietê, em Laranjal Paulista. Ao longo de seu trajeto, o rio é alimentado por várias nascentes e córregos menores. Além disso, ele também forma áreas de varza e lagoas marginais, elementos que são de extrema importância tanto para a fauna e flora local, quanto para a escolha do território como local de fixação e sedentarização dos povos.

Sobre esse fator, alguns pesquisadores apontam que entre 10 mil e 6 mil anos atrás, a presença humana já podia ser detectada na região da bacia do rio Sorocaba, o que indica que a ocupação do território é muito anterior à chegada dos grupos indígenas pertencentes ao Tupiniquins ou aos Tupis do Tietê.

Antes da forte presença desses povos, outros grupos indígenas já habitavam a região e deixaram registro de suas tradições por meio de objetos confeccionados em pedras ou cerâmicas encontrados na bacia do rio Sorocaba. Mas por que, dentre tantos outros cursos d'água, escolheram justamente esse lugar para se instalar? Bem, além da justificativa lógica de que a área circundada pelo rio

oferecia vastos recursos naturais essenciais para a sobrevivência humana, a forte presença indígena também pode ser explicada pela perspectiva de que Sorocaba era um importante ponto para as rotas de passagem dos nativos. Um famoso historiador e escritor da cidade de Sorocaba, chamada Luísa de Almeida, relatou em uma de suas obras que os indígenas usavam a região como rota de ligação entre o território que hoje corresponde a São Vicente, o litoral paulista,

e a região que atualmente constitui o Paraguai. A partir dessa descrição, o doutor evidencia não apenas a importância das margens do rio Sorocaba para a subsistência dessas populações que por ali se encontravam, mas também a rica presença quantitativas dos nativos, e tal característica vai se tornar fundamental para a povoação do território devido ao intenso movimento das bandeiras no período colonial. Assim, em busca de riquezas e mão de obra indígena escravizada, os bandeirantes chegaram à região sorocabana.

Dentre eles, destacou-se Afonso Sardinha, o Velho, que no final do século XVI, à procura de ouro e prata, acabou encontrando minério de ferro no Morro de Araçoiaba, localizado no atual município de Peró, e por volta de 1597, implantou na área o engenho de ferro. Essa ação foi considerada como uma das primeiras iniciativas metalúrgicas da América Portuguesa. Mas, embora essa ocupação tenha modificado drasticamente as estruturas originárias sobre a lógica colonial,

ela não resultou numa fundação de uma vila estável naquele momento. Portanto, segundo a tradicional narrativa de fundação, a constituição efetiva do núcleo que daria origem à cidade ocorreu apenas em 1654, com a fixação de outro bandeirante chamado Baltazar Fernandes. Baltazar teria liderado a construção da capela de Nossa Senhora da Ponte

iniciado um povoado juntamente com seus familiares escravizados bem próximo das águas do rio, que continuam a fazer parte da vida cotidiana da população, sendo suas águas usadas para beber, lavar, pescar, irrigar plantações, para navegação e entre outras coisas.

Dentre essas diversas interações estabelecidas com o rio, é de suma importância destacar a existência de uma ponte que ligava suas duas margens. Esta ponte tornou-se um elemento fundamental para a consolidação da vila, transformando-a novamente, mas já no século XVIII,

em um ponto estratégico dentro do território colonial. Ainda no século XVIII, com a intensificação da floração aurífera, as tropas de molares, ou seja, as caravanas de animais constituídas principalmente de burros e mulas que eram usadas para transportar as mercadorias por longas distâncias, especialmente entre os pampas do sul do Brasil colonial, onde eles eram criados, e Minas Gerais, onde se encontravam as resíduas de minério, passaram a assumir um papel central como principal meio de escoamento da produção comercial.

Nesse trajeto, Sorocaba situava-se praticamente no meio do caminho, servindo como um ponto de descanso, abastecimento e comércio para os tropeiros antes de prosseguirem para o interior mineiro. Assim, ao se fixarem ali, mesmo que temporariamente, as tropas promoviam intensa movimentação em Sorocaba, o que já se iniciava na entrada da vila.

Ainda sobre a ponte, os tropeiros pagavam um tipo de tributo, como se fosse uma espécie de pedágio. Depois, em busca de alimento, água, abrigo e espaço para descanso dos animais, encontravam facilmente vendas, hospedarias e campos que eram alugados para o estabelecimento dos muares, o que produzia por si só um aumento expressivo na economia local. Ainda nesse século, ocorreu o estabelecimento da Feira dos Muares em Sorocaba.

Nela, além da venda das mercadorias trazidas pelos tropeiros, também se realizava a troca e venda dos próprios muares, que por serem animais de carga, geravam interesse em possíveis compradores. Nesse sentido, enreadando essa enorme capacidade de transação de capital, a feira demonstrou ser um forte atrativo para a migração de pessoas para a vila.

Porém, nem tudo era positivo. A presença constante dos tropeiros e dos seus animais causava estrago nas estradas e nas estruturas da vila. Além disso, o lixo e os dejetos dos animais poluíam as águas do rio, trazendo grandes riscos à saúde da população local, o que demonstrava que a intensa ligação entre o espaço e o rio possuía um enorme vetor vantajoso, mas também apresentava seus desafios. Bem...

Dentre tantos episódios factuais da história do Rio Sorocaba, um dos mais curiosos aconteceu no final do século XIX, quando Sorocaba começou a deixar para trás sua condição de vila tropeira e passou a se consolidar como um território crescente de atividade industrial. Nesse período, ocorreu a primeira greve registrada na cidade.

Ela foi liderada por pipeiros, trabalhadores que eram em sua grande maioria imigrantes italianos e que eram responsáveis por distribuir a água armazenada em seus barris, chamados de pipas, para aqueles que não se localizavam próximos ao Rio Sorocaba ou a qualquer outro curso d'água.

Entretanto, naquele momento, a água recolhida pelos pipeiros era proveniente do córrego Supiriri, um afluente do rio Sorocaba, que estava, conforme alguns relatos da época, com a qualidade da água comprometida. Em função disso, a Câmara Municipal...

proibiu que os trabalhadores coletassem água nesse córrego e exigiu que subissem rio acima para abastecer suas pipas. Em resposta, no ano de 1885, os trabalhadores declararam greve, marcando assim a história de Sorocaba com a primeira greve da cidade.

Além de relatos como esse registrados oficialmente, o rio também faz parte do folclore do território que o circunda. Uma narrativa conhecida conta que no início do século XX, moradores das proximidades das margens do rio Sorocaba escutavam todas as madrugadas um barulho estranho, como se fosse um tonel jogado no rio. Ninguém sabia de onde vinha esse som, mas contam que ele era muito alto, perturbava o sono e despertava medo em todos os habitantes.

Com o passar do tempo, o rio passou a sofrer cada vez mais com os impactos da urbanização. Ainda no século XX, tornou-se destino o final do lixo industrial e do esgosto doméstico, o que gerou forte poluição em suas águas e áreas marginais. Muitos de seus córregos foram canalizados.

inclusive o próprio rio Sorocaba, que sofreu fortes alterações ao longo de seu curso. Entre os anos de 1960 e 1990, o nível de poluição foi tão alto que houve uma mortandade em massa de peixes. As fotografias das carcaças dos peixes cobrindo o rio foram pauta de muitas manchetes nos jornais da época. Devido a toda essa degradação, o rio Sorocaba foi tema de muitos estudos, que identificaram altos níveis de metais pesados,

microplásticos e outros poluentes nos sedimentos do rio, aspectos que afetaram diretamente a fauna e fora do ambiente, impactando até mesmo a vida humana devido ao consumo direto de peixes através da pesca. Diante desse cenário, como medida de restauração da vitalidade do rio, em 1989, iniciou-se uma ação civil pública de natureza jurídica para obrigar Sorocaba a tratar seu esgoto.

Com isso, a partir dos anos 2000, o tratamento finalmente começou a ser realizado. No entanto, ainda assim, o rio continuou e ainda continua sofrendo, especialmente com o chamado lixo difuso, que é aquele resíduo que, por ser descartado impropriamente, chega às águas do rio por intermédio das chuvas e por esse motivo se mostra ser tão difícil de controlar.

Atualmente, com novas versões políticas de restauração, o rio Sorocaba encontra-se em condições melhor do que nas décadas de 1960, mas ainda está longe de voltar ao que era antes da poluição. Ele ainda enfrenta muitos desafios e torna-se perceptível que sua restauração completa é uma missão a longo prazo.

Contudo, o rio continua ali, testemunha viva da história de Sorocaba, demonstrando através das narrativas que sua atuação não se restringe apenas a servir como um recurso hídrico. Ele também é caminho, é identidade, é parte do território e, sobretudo, é memória. E com isso, o episódio de hoje termina por aqui. Se gostou, não se esqueça de seguir o Pet aqui no Spotify. E também nos siga lá no Instagram, onde estamos com o arroba PetHistoriaUnifesp. Até a próxima!