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Excesso de telas e seus impactos na saúde

07 de maio de 202631min
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No consultório, nem mesmo os pais se desgrudam dos celulares durante o atendimento dos filhos – essa é a experiência relatada pelo pediatra e professor Pedro Igor Guimarães neste episódio. O docente do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde da PUC Minas (ICBS) explica nessa conversa quais são os efeitos fisiológicos do uso excessivo de telas por crianças e deixa um alerta aos pais e responsáveis: a família tem um papel fundamental no esforço coletivo de redução do tempo detela de todos.

O PUC Play é o videocast quinzenal da Secretaria de Comunicação da PUC Minas e vai ao ar, também emáudio, às quintas-feiras nas principais plataformas. Ele é produzido em parceria com a produtora E-motion Audiovisual, responsável pela gravação, sonorização e edição.

Material mencionado neste episódio:

·        Relatório uso de internet entre crianças e adolescentes no Brasil (Tic Kids Online Brasil 2025): https://bit.ly/4qyKQ4Y

·        Como o uso excessivo de celular impacta o cérebro da criança – BBC News Brasil: https://bit.ly/4qwVCIL

·        Excesso de telas: impactos reais no cérebro de crianças, adolescentes e adultos – Neuro Conhecimento: https://bit.ly/4qwVGIv

·        Geração digital: por que pela 1ª vez, filhos tem QI inferior ao dos pais – BBC News Brasil: https://bit.ly/4t6rd62

·        Guia sobre usos de dispositivos digitais do Governo Federal para crianças e adolescentes – Resumo Executivo: https://bit.ly/4bbfDjo

Ouça o PUC Play no Spotify: https://bit.ly/4gjofnG

Acompanhe a PUC Minas nasredes sociais: www.linktree.com/pucminas

Participantes neste episódio5
M

Michele

Host
N

Natália

Host
R

Rafael Fischmann

Host
T

Tiago

Host
P

Pedro Igor Guimarães

ConvidadoPediatra e professor
Assuntos7
  • Papel da família na redução do uso de telasNormalização do uso de telas por adultos · Cascata crítica de reflexão · Oferta de equipamentos para crianças · Sinais de alerta em crianças e pais
  • Impactos neurológicos do uso de telasPlasticidade cerebral em desenvolvimento · Primeiros mil dias de vida · Córtex pré-frontal · Controle inibitório · Desenvolvimento criativo
  • Mecanismo de recompensa e dopaminaCircuito dopaminérgico · Algoritmos de redes sociais · Dependência tecnológica
  • Mensagem de esperançaUso positivo de telas · Dinâmicas sociais e cansaço parental · Guia do Ministério da Saúde sobre uso de telas · Reconexão com o mundo concreto e afetos
  • Uso de telas na educaçãoUso pedagógico vs. não pedagógico · Supervisão parental · Home schooling · Interação social na escola
  • Impactos físicos do uso de telasDistúrbios do sono · Sedentarismo e obesidade · Privação de brincar livre
  • Diminuição do Quociente de Inteligência (QI)Falta de estímulos para pensamento rápido · Privação de laços afetivos · Déficit de concentração · Imediatismo e hiperconsumo
Transcrição83 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Play PUC Minas. Sua conexão com o conhecimento. Viver fora das telas é uma tarefa que exige muito mais esforço do que podemos imaginar. Celulares, computadores e tablets estão em todos os lugares. No trabalho, no lazer e na educação. Qual será o custo para o organismo de passar todo este tempo conectado? Dados recentes mostram que a conexão é uma realidade para a grande maioria dos jovens no Brasil.

A pesquisa Tic Kids Online Brasil, de 2024, revelou que 93% da população de 9 a 17 anos está online, o que equivale a 24 milhões e meio de jovens. Destes, 95% usam a internet diariamente ou quase todos os dias.

O que mais preocupa pais e especialistas não é apenas a conexão, mas o controle sobre ela. Um quarto desses jovens já tentou, sem sucesso, passar menos tempo online. E não são apenas eles. Embora as pesquisas sobre adultos sejam mais raras, os relatos de fadiga mental, falta de atenção, irritabilidade e dependência digital são cada vez mais comuns nos consultórios.

Nesse episódio, vamos discutir os impactos neurológicos e de saúde do uso indiscriminado de telas para crianças, adolescentes e adultos. Será que o uso para trabalho e lazer é igualmente prejudicial? E o mais importante, como podemos tratar a dependência tecnológica e construir uma relação mais saudável com nossos dispositivos?

Para essa conversa, nós recebemos o professor e pediatra Pedro Igor Guimarães, docente do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde da PUC-Minas. Seja muito bem-vindo, professor Pedro. Em primeiro lugar, obrigado, Michele, todo mundo dos bastidores ali, Rafael, Natália, Tiago, obrigado pelo convite. Sou médico pediatra, sou formado em Medicina e Ciências Médicas 2011, pela residência de pediatria no Hospital da Baleia 2015.

Desde então eu sempre trabalhei pelo SUS e nesse tempo todo de trabalho. Atualmente sou vinculado à Prefeitura de Belo Horizonte, trabalhando pelo SUS de lá. E atuei pela PUC Contagem, atuo atualmente pela PUC Betim também como professor.

e tenho transitado nesses últimos dois anos também como graduando de psicologia, que é uma área que me encanta muito e é mais ou menos um resuminho. Bacana, professor. E qual que é a principal diferença entre o impacto do excesso de telas em um cérebro que está em desenvolvimento, em relação ao cérebro adulto, por exemplo, já formado?

Sim, uma ótima pergunta, porque assim, né, vamos começar por pensando na plasticidade cerebral mesmo, sabe? Começando até por recortes de idade. A gente vai pensar, um bebezinho, né, está sendo apresentado no mundo, né, aquele ser humaninho, ser humaninha, chegou no mundo ali e está tendo vários estímulos. Tem um recorte que a gente chama na pediatria de primeiros mil dias. Esses primeiros mil dias, até tem outros que falam os primeiros mil e seis dias, mas enfim, os primeiros mil dias seriam desde a concepção...

até a criança completar dois anos. Essa janela de tempo é extremamente passível de sofrer interferências maléficas, malefícios. Até que uma das recomendações é, abaixo de dois anos,

Não ter telas, né? Porque a gente tem toda uma plasticidade cerebral. Então até que as mães, os pais que vão levar a criança para o acompanhamento de saúde, a gente vai acompanhar um dos parâmetros e o perímetro cefálico, o crescimento da cabecinha. Então o que eu estou querendo dizer com esse processo? É um processo de plasticidade.

de crescimento, de ganho, de sinapses, de circuitos neuronais. E desde esse processo estrutural do cérebro, ele vai se formando até uma parte fundamental do nosso cérebro, que é o córtex pré-frontal, ele vai terminar de se adaptar e se constituir lá nos 25, 30 anos. Então, em todo esse processo, a gente tem uma plasticidade importante e hoje a gente sabe que tem até para mais, né? Mas esse primeiro recorte, criança, adolescente, adulto, jovem, e...

A gente tem várias habilidades que estão ali, vários desenvolvimentos por acontecer e a gente precisa ter atenção. Então, por exemplo, a atenção em si já é uma que a gente sai muito prejudicado. Por quê? Como a gente tem uma dinâmica, multitarefas, exposição a estímulos excessivos.

São várias complexidades que às vezes o adulto que não foi criado com telas, eu, por exemplo, tive uma infância sem telas. Então eu fui exposto a, por exemplo, controle inibitório, que a gente chama. O que é você ter controle? Faço isso ou não faço? Recuo ou espero mais um pouco?

Quando você desde sempre entende que existe um problema, ou estou entendiado, eu aperto o botão, esse problema resolve. Não estou gostando, aperto o botão e passo a gostar. Estou gostando muito, aperto o botão, me alegro, aquilo ali vira uma curtida. Eu estou treinando o meu cérebro a entender circuitos, desde o lado afetivo, desde o lado motor, que vai sendo privado, que a criança fica mais fechada.

e dar pouco à frustração. Então, o mundo, quando ele me entristece, eu não posso fazer assim, e aí o mundo passa, né? A tela passa. Então, todo esse processo, a criança que está aprendendo a viver no mundo, nas dinâmicas do mundo...

ela acaba aprendendo com todos esses atravessamentos. E até do ponto de vista fisiológico, neurológico, ela está todo no processo de desenvolvimento em si. Então, a partir do momento que a gente estimula essa criança normalizando o uso de telas, ela está sendo bombardeada por esses atravessamentos que ela precisaria, às vezes, brincando, ela vai manipular, ela vai planejar, ela vai pensar etapas, até ela estar ali, ela é aquilo que resolve, ela é aquilo que passa aquele problema. Ela vai desenvolver o lado criativo, né, do brincar.

Então eu, por exemplo, adorava brincar com caixa velha. Eu olhava uma caixa e pensava, isso aqui vira um carrinho, isso aqui vira uma casa, um barco, construía, recortava, colava. No celular você clica lá, barco, parece mais de um barco.

Então você prejudica a criança em diversos processos, inclusive no criativo. Então a questão da atenção, o impacto no raciocínio, quando você tem respostas muito fáceis. Antes, por exemplo, não no sentido de nostalgia, mas eu sou da época que tinha enciclopédia. Então a gente ia pesquisar um tema, você tinha que ir lá na letra do tema, e daquela letra você pesquisava, juntava com outra coisa. Ou você digita na internet, tal coisa, quero saber. Ela te aprecia.

e ponto. Você até é limitado na sua capacidade de querer saber, de querer procurar, querer resoluções de problemas, que isso vai de todo o processo, desde a infância, adolescência e a fase adulta. Então, tem todas essas implicações, eu acho. E muito se fala sobre o mecanismo de recompensa das redes sociais, que é um pouco isso que você falou, é tudo muito dinâmico, né? Poderia nos explicar um pouco em relação ao funcionamento do cérebro e como que isso impacta?

Sim. Então, assim, o mecanismo é um circuito de uma substância que especialmente chama dopamina, sabe? Então, é um circuito dopaminérgico que a gente tem ali, que é um sistema de recompensa. Então, por exemplo, quando eu vejo uma coisa boa, uma coisa que eu estou fazendo que me alegra, eu aumento esse circuito, esse circuito me dá prazer, me dá interesse de continuar e gera uma recompensa. Se estou gostando, quero continuar. Se estou gostando, quero continuar.

A partir do momento da tela, quando eu estou na frente de uma tela que está entediante, igual a gente falou da questão da frustração, eu deslizo, não me entedia mais, vai com o conteúdo que eu gosto. Quanto mais eu vou em conteúdos que eu gosto, mais o algoritmo direciona conteúdos que eu tendo a gostar. Então eu vou ficando, ah, gostei, clico no curtir, clico no compartilhar, clico e o algoritmo me manda coisas semelhantes. Então eu estou sempre nesse circuito de uma interação.

que parece ser dialógica, mas ela é muito viciada para tentar ter um design manipulativo onde eu esteja de fato preso àquilo ali. Então, além do próprio circuito, da dinâmica do funcionamento de algoritmos ser essa, neurologicamente também é, porque o meu circuito entende, isso me diverte, isso me entretém, isso me prende. Então, eu ignoro o mundo ao meu redor, fico preso naquela tela, num circuito viciante de retroalimentação.

não gostei, deslizo, aí algo me entretém, aí eu clico de novo, agora me entretém de novo e ali eu vou, e vou ficando então você gera um circuito dopaminérgico que acaba prendendo a criança e também o adulto. A gente pode comparar com o tipo de vício? Pode sim essa descarga de dopamina? Pode sim e os impactos disso a gente ainda não tem nem tempo sabe, pra gente poder estimar porque assim Obrigado

existem, né, que a gente chama de cortes, são estudos de grandes populações acompanhadas, né, de um dia zero, um tempo zero, até um tempo em recortes futuros. Se você for olhar, não tem um adulto de 30 anos que viveu desde a infância com telas, que não existia, né, então os recortes de crianças expostas desde cedo a telas é um recorte muito precoce. Então quais serão esses impactos de longo prazo, né?

Então, assim, muita coisa, acredito, né, a neurociência desenvolve de uma forma muito encantadora hoje, né, e vai cada vez mais, a gente ainda vai ter novas novidades, digamos assim, de benefícios, né, e de malefícios. Mas, de fato, tem essas dificuldades todas envolvidas, sim. E a questão dos impactos físicos, essa questão de dormir cada vez menos, mais tarde, como que isso repercute também no dia a dia da criança, no aprendizado, na escola?

repercute muito, assim, porque se for pensar, por exemplo, da escola. Uma criança, independente da idade que ela fica, né, chega em casa e quer mexer no celular. Se ela está mexendo no celular, está interagindo com o celular de uma forma não pedagógica, ela está deixando de estudar. Ela está deixando de estudar como? Às vezes sentada no celular ou num tablet.

Parada, basicamente parada, né? Clicando, clicando, deslizando, deslizando. Às vezes rindo, às vezes gostando, mas parada. Então se é uma criança parada, que era para estar explorando manuseio de objetos, manuseio de texturas, construindo coisas, usando a criatividade, socializando com outras crianças, ela está sendo privada de um monte de parâmetros fundamentais do ser humano como um todo, né?

Ora criança, mas amanhã será adulto, né? Então, do raciocínio de conseguir pensar, poxa, quando eu tenho um brinquedo de montar, essa peça encaixa aqui, essa aqui não, essa não encaixa não, essa aqui eu tenho que pegar de lá. Num videogame, numa coisa, eu aperto um botão, pum, isso resolve. E dentro desse processo todo, que é encantador...

a criança está divertindo de alguma maneira, só que de uma forma que lhe prejudica. Então, além desse processo todo, ela está sentada, parada, sem fazer atividade, então a gente acaba favorecendo sobrepeso, obesidade, que entram outros atravessamentos, alimentação, que a gente tem várias dificuldades hoje em dia.

do ponto de vista alimentar. Então isso gera um processo contínuo de dificuldades mesmo, da criança adaptar, de ter um brincar livre que antes era possível. Hoje tem várias questões até sociais que impedem a criança de poder ir para a rua brincar, etc. Mas ela vai ficando sequestrada dentro de um mundo dessa dualidade tela-eu-eu-tela, e ela se limita em diversos aspectos.

Depois da pandemia, a gente tem a tendência a ter um uso maior, mesmo para a educação, dessas ferramentas como celular, tablets. Existe uma diferença para o cérebro sobre o uso, para o lazer e para o trabalho, para a educação?

Sim, existe, e uma coisa muito importante a gente pensar é qual que é o uso pedagógico que está sendo feito ou não pedagógico que está sendo feito. Então, assim, já sabemos, o celular entretém, ponto. Já sabemos, o celular diverte a ponto de prender para um sistema que até conhecemos, que é o circuito dopaminérgico, ponto.

Mas a criança pode ser usada, o celular pode ser usado como ferramenta? Pode. Como ferramenta construtiva? Pode. E ela vai ser usada assim quanto mais a gente se envolver no processo de supervisão. Então hoje nós temos essa lei extremamente importante para evitar o uso dentro de escolas.

Mas mesmo que a gente for usar em casa de uma forma pedagógica, eu precisarei daquilo que sempre se coloca em todas as normativas. Até dois anos, nunca usar. Acima de um ano, se for usar, sempre supervisão. Então essa supervisão é extremamente importante. Então assim, a gente pode sim usar de modos pedagógicos, modos interessantes, modos construtivos, mas a gente não pode usar em detrimento de outras ferramentas. Por quê? Então ele não pode substituir completamente a sala de aula presencial, por exemplo, para criança.

Não, e até porque a sala de aula, hoje tem até um tema que se discute muito, homeschooling e tal, tem diversos benefícios da escola, que a gente daria talvez um outro podcast só para a gente falar sobre eles, mas a criança que já está usando telas, ela já tende a diminuir a interação social dela. Se ela vai para casa usar telas e fica privada da escola, eu estou criando um mundo dela de um isolamento cada vez mais aprofundado.

Falando só um dos temas que a gente poderia aprofundar. Então, assim, além do processo de, se eu não supervisiono, eu quero, por exemplo, dar para uma criança uma tarefa de pesquisar sobre música clássica, por exemplo. Ela vai ter que dizer, se ela não foi apresentada, vai procurar saber, vai pegar, às vezes, um livro, vai pedir ajuda da professora, a professora vai orientar. Mas se ela digitar na internet, e ela vai acabar entendendo em algum momento o desenvolvimento dela, que se ela digitar lá no Google, por exemplo,

Fale sobre música clássica. Pronto. Então até o processo de pensar etapas, de criar raciocínio, de planejar uma pesquisa, ele facilita imensamente. E essa facilidade não é no sentido positivo, é no sentido de induzir uma não preparo de criar etapas, criar uma lógica estruturada de buscar informações, de estudar, de aprender. Então assim, lembrar de outra coisa, que a criança que está ali direcionando que a criança que está ali... que a criança que está ali...

já tenha a direcionamento pelo lazer que nós entendemos hoje padrões tentamos orientar tempos específicos mas se para além disso vai ter um uso pedagógico, ele também tem que ser pensado até em tempo, porque a criança que está na tela ela, igual a gente comentou, ela está parada ela não está fazendo atividade

Cadê o brincar livre que é tão importante? Cadê o brincar de construir coisas, de pensar coisas, de pintar coisas, de montar coisas, né? Isso a tela pode te dar. Tem lá um software que faz as coisas 3D, encaixa e tal, tal, tal. O mundo não é uma tela, né? A questão da frustração, que vale a pena até a gente trazer de novo, né? É muito importante porque o celular, ele tende a te direcionar sempre a experiências positivas, né? Não gostei.

Aquele algoritmo direciona o que eu não gosto e direciona para o que eu gosto. Então, você falhar na vida, vou montar uma torre, parece para a gente uma coisa boba. Para a criança que está aprendendo desenvolvimento, montar uma torre tem todos os passos de motricidade e tal. Um joguinho, ela aperta o botão, a torre monta, caiu, acabou.

E não tem. Esse processo de construção, tanto física quanto do conhecimento, parece que é fundamental para o desenvolvimento infantil. Justamente, porque o nosso cérebro é uma caixa extremamente complexa. Então a gente entende que tem áreas específicas hoje que são especializadas em tal coisa, especializadas em outra coisa, mas elas todas se comunicam. Então se eu privo uma criança para colocá-la na tela e ela não dialoga com outras crianças e não interage, eu às vezes estou lá ensinando linguagem para ela na tela.

Mas se ela não usufrui de dialogar com pessoas, esse ensinamento de linguagem para ela numa tela vai repercutir em quê? Ela vai saber conversar. Justamente, ela vai saber ouvir outra pessoa, saber a hora dela de falar, a hora dela de parar, a hora dela de pegar o raciocínio da outra pessoa.

juntar com o dela e dar uma resposta. Então, assim, são vários os pontos que atravessam e estão, assim, da escola em si, repito, né? Seria um tema imenso e tão importante, mas a subtração da realidade, da concretude da realidade que a criança acaba sendo, se imposta a ela a questão das telas, tem sim, de fato, benefício, mas para ter benefício a gente precisa muito de supervisão, uso controlado pedagogicamente, né? Com a intenção de fazer aquele momento ali ser potente para a criança.

Sim. Professor, a Sociedade Brasileira de Pediatria, ela recomenda, como você comentou, que crianças menores de dois anos não tenham contato algum com as telas. Dos três aos seis, o limite seja de 30 minutos a uma hora, sempre com a supervisão, como você destacou. Qual que é o papel da família, dos pais, nesse momento?

Ótima pergunta, assim, ela vai, né, primeira coisa, participar dessa supervisão, então pra ela participar dessa supervisão, ela vai ter que problematizar o uso, e pra ela problematizar o uso, ela vai ter que problematizar o próprio uso do adulto, então isso tem que gerar uma cascata crítica de reflexão, né, e uma coisa assim que eu gosto muito de pensar é que a gente usa muito a perspectiva de uso excessivo de telas pelas crianças e adolescentes.

E eu acho que a linguagem é sempre muito potente no que ela carrega, né? Então, quando a gente fala dessa maneira, a gente coloca um protagonismo em cima das crianças e adolescentes do problema que é o uso excessivo de telas. Mas de onde que vem essas telas, né? Será que o problema não é a normalização excessiva dos adultos ou da sociedade ao uso de telas? Isso não só na criança e adolescente, né? É a normalização excessiva para todo mundo, inclusive. Então, assim, é um problema extremamente grande.

E também daria talvez um podcast inteiro, né? Porque, assim, essa normalização gera uma naturalidade de aceitar a criança sem interação, mas tá brincando no celular. Será que ela tá brincando no celular? Então, assim, todos os prejuízos advindos disso, a gente tem que refletir por quê.

Pensando nessa perspectiva, eu gosto de brincar, mas brincando provocativamente. Nenhuma criança sai de casa com pix, cartão, celular, vai na loja e fala por obsequio, senhor vendedor, você poderia me dar um celular? Poderia me dar um tablet? Alguém entregou esse equipamento para ela. Alguém entregou. Então, quem que ofereceu? Se eu sei que é uma ferramenta que inclusive gera um padrão de vício. Se eu sei que é uma ferramenta que gera prejuízos cada vez mais entendidos. E eu dou.

eu não tenho que refletir esse meu dar, entre aspas, né? Essa minha oferta. E seria justo também eu falar, você não usa, mas eu vou ficar aqui mexendo no celular, porque o papai pode? Sim. Então, assim, a gente jogar às vezes o prisma, né? Para entender que a normalização excessiva do uso, que talvez, de fato, na minha opinião, é o grande problema, né? Que repercute, obviamente, no uso excessivo das crianças e adolescentes, que nada mais são que ser humaninhos e ser humaninhas que estão sendo... Repetindo comportamentos.

E quais que são os sinais de alerta que a gente pode perceber em relação ao comportamento da criança? Ela fica mais irritada? Como que também os pais podem perceber que eles estão viciados, digamos assim? Sim. Tem muito, né, que a gente acabou tocando, mas, por exemplo, a questão do sono, né?

Ah, mas o meu filho não dorme sem ver tela. Eu sei que faz mal, então eu tenho que tentar, na maturidade que me é exigida de ser pai, de criar outras alternativas. Vou ler um livrinho com a minha filha ou meu filho, vou colocar uma música, vou abaixar as luzes da minha casa quando já entrar de noite, e telas eu não vou mexer, minha criança não vai mexer. Então, por exemplo, sono, a gente sabe que usar telas de uma até duas horas antes de dormir, seria ideal que a gente nem mexesse.

Mas o adulto faz isso, a criança reproduz isso, e se ela tem um celular, ela vai fazer igual. Então você prejudica um outro circuito, que é o de melatonina, que faz a criança e o adulto induzir o sono. Então a gente repercute no sono mal, a gente repercute mal na saúde física, a questão do sedentarismo, que a gente começou a falar. Repercute no desenvolvimento, pois a criança que não tem o brincar livre, ela vai ter mais dificuldades ou menos estimulação para motricidade, para equilíbrio.

Mas, assim, sinais de alerta que, assim, se eu fosse juntar, eu pensaria o seguinte, minha criança tem telas. Ok. Independente da idade que seja. Ela está tendo prejuízo na escola? E o que eu digo de prejuízo na escola? Ela está indo mal na escola, é o mais imediato, mas ela não está gostando da escola? Ela não está gostando do processo de aprender? Ela não está gostando de ir atrás de informações novas? Ela não está gostando de querer saber mais das coisas?

e ela usa a tela, isso é um sinal importantíssimo de alerta, né? Porque eu sei que a tela subtrai esses interesses. É uma falta de interesse pelo mundo real, concreto. Perfeito. A concretude do mundo. Opa, essa criança aqui está me mostrando. E ela usa a tela. Se ela não usasse, eu ia pensar outras coisas.

Se ela usa, opa, está acontecendo isso. E uma outra questão é, além dessa criança minha me mostrar esses sinais, é uma criança que não socializa mais. Ela vai numa festinha e ela quer ficar sentada no tablet, no celular. Tem outras crianças brincando e ela fica no tablet, no celular. Ela chega em casa à noite e estou lá, o pai e a mãe no celular, a criança no celular, ninguém conversando com ninguém.

E ela usa telas. Então, se isso, né, ela tem uma repercussão na sua iniciativa de brincar, no seu interesse pelo lúdico, no seu interesse de construir coisas, e tem interesse nesse prejuízo, tem prejuízo nesse interesse pela escola, pelo aprender, eu acho que são dois pontos, assim, fundamentais de toda figura parental de uma criança refletir, sabe? Sim.

Professor, tem alguns estudos que sugerem que há uma possível diminuição do quociente de inteligência devido à falta de estímulos que exigem um pensamento rápido e outras habilidades ativas. Como você chegou a comentar, esses estudos ainda são muito recentes porque a gente não tem várias gerações formadas a partir das telas. Mas, no seu ponto de vista, o uso excessivo das telas pode estar realmente ligado a essa, está moldando negativamente a capacidade cognitiva?

Sim, em vários fatores, a gente já tem até uma assertividade pensar que sim para isso, mas é um pouco daquilo que a gente conversou de a ciência e a história de Irão, mais dados, porque a gente tem recortes temporais ainda razoavelmente curtos.

os prejuízos das telas envolvem, como a gente comentou, desde o lado biológico em si, do lado de afetos em si, do lado de socialização em si, ou seja, da interação em si. Então são vários, né? Da estrutura de formação social. Então tem muitos assuntos por trás desse processo.

que vão de fato repercutir, né? Uma criança que a gente sabe, né? Que é privada, ela é colocada na tela e é privada dos laços afetivos, ela tem prejuízos sabidos há mais de décadas, sabe? E hoje isso acontece muito. E a gente às vezes tem que tomar muito cuidado porque fica parecendo assim que nossa, os pais estão errando, né? E geralmente cai em cima da mãe, né? Então assim, não é assim, né? A gente tem que pensar questões, eu costumo sempre dizer...

que questões sociais, elas vão cair no consultório pediátrico. E se a gente falha, elas vão acabar caindo na maca ou no leito de algum lugar. Por quê? Porque, assim, se eu tenho uma criança, que dependendo da idade dela, mas desde terra e idade, eu vou substituindo o meu estar perto, o meu brincar livre junto, a minha interação supervisionada, esse cérebro que está desenvolvendo coordenação motora, está desenvolvendo vínculos sociais, está desenvolvendo linguagem, está desenvolvendo afetos, ele está sendo privado. Obrigada.

Mas a gente vive numa sociedade que, por exemplo, até hoje normaliza a escala 6x1, né? Então, você tem lá uma mãe que trabalha em escala 6x1, quando o pai está presente, às vezes, né? É um pai no lar que trabalha em escala 6x1, pra que esse casal, que às vezes tem um filho, dois filhos, três filhos,

para que eles consigam coincidir os seus intervalos de descanso, para que eles possam ter um dia inteiro, desfrutar dos seus filhos, brincando e levando para um parque, fazendo um passeio, considerando se haver dinheiro para fazer isso. Então envolve muitas coisas mais.

Então a gente tem prejuízo sim, sabidamente a gente tem, tanto biológicos, da formação de circuitos, do prejuízo com déficit de concentração, esse imediatismo, esse design que a gente vê manipulativo e viciante, que induz ao hiperconsumo, induz, a gente vê hoje, as bets.

então são vários e vários circuitos que vão aprisionando não somente crianças e adolescentes, mas adultos inclusive então pensando na criança que está ali um ser humaninho, um ser humaninha em franco desenvolvimento ela vai prejudicar em diversos aspectos e vale até voltar de novo na questão da frustração que diria ela não aceita ser frustrado eu estou vivendo uma situação desagradável, eu queria apertar um botão aqui, deslizar para isso passar, isso não vai acontecer solucional

Justamente. Se não acontece, eu fico irritado. Então aumenta a minha irritabilidade. Se aumenta a minha irritabilidade, minha qualidade de vida diminui. Minha qualidade de vida diminui, às vezes eu durmo mal por isso. Mas além disso, eu durmo mal porque eu uso telas. Então vira uma bola de neve que tem tantos e tantos atravessamentos que a gente, enquanto sociedade, a gente está começando a discutir, mas a gente precisa de sentar e discutir muitas vezes.

Até parabeniza a iniciativa de trazer esse tema, que é muito fundamental. Porque, de fato, o tempo está correndo.

prejuízos estão acontecendo ganhos estão ocorrendo estamos observando isso tudo do ponto de vista como pessoas, como cidadãos, como pais como cuidadores, como profissionais de saúde, mas a tempo e a hora a gente tem que estar sempre refletindo e a gente tem, na minha forma de ver como pessoa, como

esse cidadão como pediatra, eu acho que a gente tem perdido, sabe, essa briga pelas telas, a gente tem que se reconectar, viver um mundo mais concreto, de mais afetos, de mais proximidade, de menos imediatismo. Professor, você chegou a comentar que você faz atendimentos no SUS, né, de forma contínua, o que você tem percebido no consultório, o que as famílias têm trazido, e qual é a mensagem que você deixaria para essas famílias, para esses pais, para essas pessoas que cuidam dessas crianças nesse momento de desenvolvimento?

Joia, é uma ótima pergunta, assim, né? Primeiro, uma mensagem de esperança, né? Eu acho que a gente está num caminho positivo de entender, né? Que essa ferramenta é uma ferramenta que tem que saber ser usada, né? A gente tem refletido, né? Nossas dinâmicas sociais, né? A gente conversou sobre os pais cansados, mães cansadas. Então, a gente está nesse processo de dialogar sobre isso. A gente tem, de fato, né? Um dispositivo que tem potências positivas, né?

mas, igual a gente comentou existe sim o uso excessivo de telas pelas crianças e adolescentes, mas isso começa no mundo que lhe ofertou lhe ofertou essas telas então até vale a pena trazer de sugestão para quem quiser pesquisar existe um guia recente do Ministério da Saúde sobre justamente o uso positivo o uso de telas

E ele fala muitas coisas extremamente interessantes. Tem o Guia inteiro, que tem mais de 100 páginas. E tem o livro, que é um resumo executivo. E esse resumo executivo, se não me engano, são 26 páginas. E ele é muito, até é auto-explicativo, tem muitos quadros e tal. O que é legal, o que não é legal. E uma coisa que ele traz e bate muito nessa técnica, e a gente tem entendido cada vez mais, até enquanto sociedade,

o uso das figuras parentais, né? Como é que as figuras parentais, o pai, a mãe, o avô, a avó, o mundo adulto ao redor dessa criança, dessa adolescente, tem feito o uso das telas, né? Então, na questão do consultório, é extremamente frequente isso.

E há pessoas que já chegam preocupadas, mas já normalizaram, né? Porque assim, poxa, eu sou pai, chego em casa cansado, meu filho quer brincar, não tô com energia, eu sei que ele fica alegre ali, ele brinca, ele sorri, então eu dou a tela. A mãe é a mesma coisa. Então, chegam esses pais, então a gente tem que conversar, e conversa sempre afetivamente pra gente pensar, não é na questão de estar falhando. Isso é uma cobrança, né?

justamente, vamos repensar, vamos criar formas de fazer outras atividades, então assim chegam também, e essas às vezes se preocupam mais, que são famílias que a criança já chega no celular, na consulta sabe, e na consulta, no celular a criança fica, e às vezes a mãe geralmente a mãe acompanha, a mãe fala, e não é incomum às vezes a criança está no celular e a mãe durante a consulta mexe o tempo todo no celular e não é incomum, não é incomum

Então, repito, não é nem de longe juízo de valor, é a gente refletir as nossas dinâmicas sociais e as práticas nossas. Isso assim, tento dialogar sempre para a família refletir, falar, poxa, de fato, eu não consigo, um exemplo bobo que eu dou, eu gosto muito, eu brinco, eu faço experimentos sociais, vou numa praça e fico observando como é que as pessoas se comportam, e eu falo que tem um experimento de elevador, a gente vai no elevador, vai no quinto andar, vamos lá, dez adultos desse elevador.

Observe quantas pessoas nesse intervalo descer do quinto andar para o terra não pegam o celular e olham alguma coisa. Sabe, é quase instintivo. A pessoa não consegue... É como se a gente não pudesse perder nada, né? Como se o tempo inteiro estivesse acontecendo, a gente tem que estar o tempo todo conectado. Perfeito, perfeito. A gente não está acompanhando. Perfeito. Então a pessoa desce no elevador com o celular. Ela anda na rua com o celular. Será que de fato...

Existe tanta demanda para estar contemplando a tela? Se existe, isso é saudável enquanto dinâmica de mundo? Se não é saudável, o que nós vamos fazer, pensar, criar legislações para que esse mundo melhore? E ainda mais trazendo a temática para a perspectiva da criança e do adolescente.

que quando a gente trabalha, igual eu trabalho na pediatria, eu falo muito que eu não estou somente focado na saúde daquela criança, daquele adolescente. Eu estou preocupado que ele se transforme num adulto próspero, saudável, feliz, e lá na frente uma pessoa idosa, saudável, longeva e feliz.

Então, a gente tem que, de fato, pensar em como resolver em passes sociais, de dinâmicas nossas, as ferramentas que a gente cria, e nós vamos criar outras, as IAs, são umas que nós estamos agora lidando, de uma forma positiva, propositiva, construtiva, de crianças que vão se transformar nessas pessoas adultas saudáveis, plenas e prósperas. Então, acho que existe o desafio, o desafio cada dia é mais claro.

Mas as dinâmicas sociais muitas vezes empurram isso para um segundo plano, né? Tô cansado, não quero nem pensar. Tô cansado, vou dar de fato no meu celular. Tô cansado, ah, eu vou praticar um exercício, eu vou ir na casa de um amigo. Ah, não, vou ficar em casa mesmo, ligar numa tela, assistir alguma coisa. Então a gente entra nesse ciclo vicioso que a gente precisa sair, né? A gente precisa se desviar.

Não pode ser isso para sempre e tenho certeza que não será. Espero muito que a gente consiga solucionar esses impasses e as crianças voltem a brincar, explorar o mundo, ter adultos do lado brincando, explorando, construindo coisas, olhando uma garrafa pet, imaginando um foguete e coisas nesse sentido, mas precisa muito dessa importância das figuras parentais e dos adultos que o guia do governo federal coloca também.

Muito bem, nós vamos deixar o link aqui para quem quiser acessar. Muito obrigada, professor. Que joia, muito obrigado. Até a próxima. Até. O PUC Play é o videocast quinzenal da Secretaria de Comunicação da PUC Minas e vai ao ar também em áudio às quintas-feiras nas principais plataformas digitais. Ele é produzido em parceria com a produtora Emotion Audiovisual, responsável pela gravação, sonorização e edição.

Neste episódio, o roteiro e a produção são da nossa estagiária de jornalismo, Ana Cecília Araújo, com supervisão do jornalista Rafael Calisto. Aqui na descrição do episódio, você encontra os links para o material mencionado na nossa conversa. Não se esqueça de avaliar o nosso conteúdo na sua plataforma favorita. Nos vemos em breve.