Episódios de Padre Pedro Willemsens - Meditações

Como a prata nas mãos do ourives

23 de agosto de 202631min
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Deus se apresenta como um ourives que purifica a prata e o ouro. A imagem ganha vida na história de um escapulário e abotoaduras de prata levados a Seu Elias, um velho ourives. Ali surgia uma verdade: para trabalhar um metal, é preciso reconhecer seu valor. Assim Deus olha para cada pessoa. São Josemaria recorda em Forja: “Tu és mais que um tesouro, vales mais que o sol, vales todo o Sangue de Cristo!”. Cristo viu em Simão aquilo que ainda precisava ser formado e lhe disse: “Tu és Pedro”. Viu possibilidades também em João, André, Bartolomeu, Mateus, na Samaritana e em Maria Madalena. Até Judas carregava uma possibilidade que nunca realizou. Há em cada vida uma beleza a revelar, mas Deus não trabalha sem a nossa liberdade.

Hans Urs von Balthasar descreve a existência cristã como o encontro entre duas liberdades: a de Deus e a do homem. Podemos viver um “egodrama”, querendo ser autores e protagonistas absolutos da própria história, ou entrar no “teodrama”, aceitando um papel numa história maior. Ao deixarmos Deus nos conduzir, encontramos quem somos: “Quem buscar salvar a sua vida vai perdê-la. Mas quem perder a sua vida por amor a mim e ao Evangelho vai encontrá-la”.

O trabalho do divino Ourives resume-se a duas ações: limpar e dar forma. Santo Agostinho compara a alma a um recipiente para o amor de Deus, que precisa ser purificado e ampliado para receber o mel sem misturá-lo ao vinagre que carregamos. Essa limpeza exige abandonar ressentimentos, perdas e narrativas construídas na dor. Direção espiritual, amizade, psicoterapia, boas conversas e, sobretudo, oração ajudam a rever a vida com olhos de eternidade.

Muitas vezes, a limpeza acontece quando ampliamos o coração. A angioplastia oferece uma imagem: ao expandir um vaso sanguíneo, o aumento do fluxo ajuda a retirar o que bloqueava a passagem. Na vida espiritual também pode ser assim. Em vez de gastar forças com injustiças sofridas ou imaginando como tudo poderia ter sido, podemos levantar os olhos. Deus quer nos fazer santos, receber-nos na eternidade e entregou-se por nós na Cruz. Diante disso, certas histórias perdem peso. A oração pode começar cheia de preocupações, frustrações e ansiedades, mas precisa deixar espaço para Deus dizer: talvez já esteja na hora de voar mais alto. Um casal, depois de um retiro, resumiu: “Nada mudou, mas agora tudo mudou. Parece que a gente deixou de viver uma correria para passar a viver uma aventura”.

Essa beleza aparece na docilidade à ação de Deus. “Eu sou o vento, você é o carrilhão”: o vento só produz música porque encontra tubos capazes de vibrar. O mesmo acontece com um órgão: seus tubos precisam estar limpos, retos e afinados para que o ar se transforme em beleza. O Espírito Santo quer passar pela nossa vida assim. Os Apóstolos eram medrosos, egoístas, impetuosos e limitados, mas aceitaram seguir Cristo e se tornaram homens capazes de transformar o mundo.

O Sítio Mira-Serra, que foi sonho e depois realidade fecunda, oferece outra imagem: também nós fomos um dia um sonho de Deus. “Ele nos escolheu desde antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados na sua Presença, no Amor.” Nossa Senhora mostra o resultado dessa docilidade. Chamada de Espelho da Justiça e apresentada no Apocalipse como a Mulher vestida de sol, não colocou obstáculos à graça e refletiu como nenhuma outra criatura a beleza de Deus.

O caminho é este: livres, mas dóceis, permitir que o divino Ourives limpe, amplie, molde e revele toda a beleza que Ele sonhou para nós.

📚 Referências
• São Josemaria Escrivá, Forja
• Hans Urs von Balthasar, Teodramática
• Sobre “story editing”: Art of Manliness — Dr. Tim Wilson

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