Episódios de Padre Pedro Willemsens - Meditações

Entre a humildade e a magnanimidade

12 de agosto de 202629min
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Há em nós um pouco de Boromir e um pouco de Aragorn. Boromir deseja o Anel porque enxerga nele a força necessária para vencer, mas não percebe que esse mesmo poder pode corrompê-lo. Aragorn, ao contrário, possui direito ao trono e hesita diante da própria grandeza, até compreender que assumir seu lugar não é vaidade, mas dever. Suas mãos não se estendem para tomar o poder, mas para curar. Essa tensão também aparece na nossa vida: às vezes desejamos uma grandeza que Deus nunca quis para nós; outras vezes fugimos da grandeza que Ele espera de nós. A questão não é simplesmente ter ou não ambição, mas aprender a desejar aquilo que realmente merece ser desejado.

A tradição cristã ilumina essa tensão unindo duas virtudes que parecem opostas: humildade e magnanimidade. Aristóteles exaltava a grandeza de alma, a megalopsychia, e via com desconfiança a alma pequena, que recua diante das possibilidades da vida. São Tomás de Aquino mostra que a oposição não precisa existir. A humildade impede que alguém queira aquilo que está acima do que deve desejar, enquanto a magnanimidade dá força para enfrentar o medo, a preguiça e os obstáculos quando uma grande missão realmente nos chama. São Paulo encarna essa força: corre para o prêmio, enfrenta dificuldades, reivindica seus direitos quando necessário e não permite que as barreiras o transformem numa personalidade encolhida. O cristão não é chamado à mediocridade, mas a perseguir grandes coisas segundo a reta razão e com a ajuda de Deus.

Por isso é tão importante aprender a enxergar a própria vida como uma história escrita a quatro mãos, as nossas e as de Deus. Uma música pode despertar coragem; uma história como O Senhor dos Anéis pode nos lembrar que existe um reino a servir; a vida dos santos mostra homens e mulheres que aceitaram viver como protagonistas da missão recebida. Até os fundadores dos Estados Unidos alimentavam o próprio imaginário com histórias heroicas, como quando George Washington promoveu uma representação teatral sobre Catão. Se homens sonharam grande por projetos políticos e militares, quanto mais um cristão pode sonhar diante do chamado à santidade. É preciso ter força, raça, sonho e essa estranha mania de ter fé na vida, não como um protesto vitimista, mas como quem descobre que sua existência recebeu de Deus uma missão.

Esse sonho, porém, precisa permanecer com os pés fincados na verdade. A psicologia contemporânea chegou a aproximar honestidade e humildade no modelo HEXACO, e a ligação é profundamente sugestiva: a humildade é a verdade. Sem ela, a busca pela grandeza pode degenerar em narcisismo, manipulação e insensibilidade; com ela, tornamo-nos capazes de reconhecer ao mesmo tempo nossa miséria e nossa grandeza. São Josemaria descreve a humildade justamente como a virtude que permite conhecer essas duas realidades simultaneamente. Nossa Senhora é a imagem perfeita desse equilíbrio: sabe que é serva, reconhece que tudo é graça e, justamente por isso, não foge das coisas grandes que Deus quer realizar nela. A verdadeira humildade não nos apequena. Ela nos ensina a não desejar uma grandeza que Deus não quer e, ao mesmo tempo, a não fugir da grandeza que Ele preparou para a nossa vida.

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📚 Referências

  • Texto de São Tomás de Aquino que resolve essa questão: Suma Teológica, II-II, q. 161, a. 1.
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