A armadilha da autorrealização
A falsa liberdade do egoísmo promete leveza, mas muitas vezes termina em queda livre: primeiro vem a sensação de alívio, depois aparece o vazio. Quando a vida gira apenas em torno da própria carreira, dos próprios sonhos, da própria felicidade e da chamada autorrealização, o coração pode acabar se fechando justamente àquilo que mais o faria crescer. A verdadeira realização não nasce de viver sem vínculos, mas de aprender a amar, servir e entregar-se com sinceridade.
O ser humano só se encontra plenamente quando se doa. A alma se expande quando sai de si mesma, quando deixa de ruminar o próprio umbigo e começa a viver para Deus e para os outros. O egoísmo enclausura, enquanto a caridade dá alegria, humildade e paz. Por isso, a felicidade cristã não é um projeto individualista de sucesso pessoal, mas um caminho de autotranscendência, onde cada renúncia feita por amor se transforma em vida mais plena.
Também o mundo só se constrói quando existe doação. Uma família, uma amizade, um casamento, uma comunidade ou um trabalho só florescem quando as pessoas deixam de viver isoladas em seus interesses e começam a cooperar, pedir ajuda, oferecer ajuda e cuidar umas das outras. A civilização começa quando alguém ferido não é abandonado, quando alguém com fome não come sozinho, quando a vida do outro deixa de ser peso e passa a ser missão.
Na relação com Deus, essa lógica se torna ainda mais profunda. A fé não pode ser tratada como uma “religião do eu”, uma ferramenta para prosperar, vencer ou realizar os próprios planos. Deus não é um recurso a serviço das nossas ambições. Amar a Deus implica vínculo, entrega, compromisso e confiança. E esses vínculos não nos aprisionam: eles nos dão chão, densidade e sentido. A liberdade verdadeira não é “free falling”, caindo sem direção, mas uma subida sustentada pelos vínculos certos, pelas cordas do amor, da fé, da oração, da devoção a Nossa Senhora e da união com Cristo.
📚 Referências:
- Música “Free Fallin’”, na versão de John Mayer
- Livro “A Paz na Família”, do Pe. Francisco Faus
- Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes 24, sobre o dom sincero de si
- Pe. Adrian van Kaam e a crítica à autorrealização fechada em si mesma
- São Josemaria Escrivá, Forja 591
- Projeto Aristóteles de pesquisa do Google sobre produtividade e cooperação em equipes: https://exame.com/carreira/pesquisa-do-google-mostra-o-principal-fator-dos-times-de-alta-performance/
- Documento do Pontifício Conselho para a Cultura sobre a “religião do eu”: https://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/cultr/documents/rc_pc_cultr_doc_20040313_where-is-your-god_sp.html
- Livros de fantasia: Brandon Sanderson, Wind & Truth
Meu Senhor e meu Deus
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- Servir com DedicaçãoA alma cresce na medida em que ama e se entrega · A experiência no Opus Dei e o entusiasmo com histórias de conversão · O preenchimento que vem de ajudar o próximo
- Reconciliação com DeusAmar outra pessoa é ver a face de Deus · Onde há amor, aí está Deus · A religião do eu versus a relação com Deus · A teologia da prosperidade e a visão utilitarista da religião · Os vínculos com Deus como sustentação da vida
- Gestão do EgoCrise dos 40 anos e abandono da família · Priorização da carreira e realização profissional · A armadilha de entender a realização por esse caminho
- O papel do cristão no mundoPesquisa do Google sobre produtividade em equipes · A importância da cooperação e ajuda mútua · O fêmur cicatrizado como símbolo do surgimento da civilização · A vida em sociedade e a ajuda mútua
- RenúnciaSeminaristas que deixam o seminário · Sacerdotes que abandonam a vocação · A sensação inicial de alívio seguida de vazio
- A música Free Fallin'A versão de John Mayer · A letra e o sentimento de queda livre
Pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus, nosso Senhor dos nossos inimigos, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Meu Senhor e meu Deus, creio fiemente que estás aqui, que me veis, que me ouves, adoro-te com profunda reverência. Peço perdão dos meus pecados e graça para fazer com fruto este tempo de oração. Minha Mãe Imaculada, São José, meu Pai e Senhor, meu Anjo da Guarda, intercedei por mim.
Por essas coisas de algoritmos Que influenciam a nossa vida bastante, né? Pelo menos a minha Me encontrei escutando uma música esses dias Essa música chamada Free Falling
E numa versão do John Mayer, que captura mais ou menos, me parece bem assim, um lado mais triste dessa letra, dessa música. E é interessante, a letra começa falando de uma menina, uma menina boazinha, sei lá, que reza, que gosta lá, que é patriota, gosta dos Estados Unidos, mas que está em casa com o coração partido porque ele terminou com ela.
E a princípio ele fala disso afetando uma certa indiferença, mas aos poucos vai ficando claro que não é bem assim. Inclusive o refrão diz, né? Now I'm free. Free falling. Agora eu estou livre como quem dissesse. Bem, agora não estou mais namorando, não estou mais amarrado, posso dizer o que eu quero, né? Tenho que prestar conta para ninguém, sou livre, né?
So, I'm free, but I'm free falling. Na verdade, eu estou em queda livre, no fundo. É um vazio, né? Interessante. Experiências que tive de acompanhando pessoas, algum seminarista que deixa de forma um pouco abrupta o seminário porque se envolve com uma menina ou se cansou lá de ter que prestar contas para os formadores. No primeiro momento, tipicamente, sente um certo alívio, né? I'm free, estou livre, né? Beleza, né?
mas depois vem um certo vazio, vem uma coisa assim. E também com os sacerdotes, que infelizmente abandonaram a vocação, às vezes sai lá, a pessoa que abandonou no casamento. É um mecanismo mais ou menos frequente, sabe? Num primeiro momento, uma sensação de liberdade, mas depois a de vazio, um vazio.
Faz pensar, nesse fim de semana eu estava pregando um retiro e nas refeições a gente está ouvindo esse livro A Paz na Família, do padre Francisco Fausto. E ele falava dos vários inimigos da paz na família, um deles sendo o egoísmo. Só que hoje em dia o egoísmo aparece com um nome um pouco disfarçado, que é o nome de realização, autorealização.
É a minha, eu preciso me realizar profissionalmente, eu preciso. E achei interessante, me fez pensar, egoísmo, realização, eu acho que tem a ver sim, né? Algumas vezes a gente escuta um pouco esse discurso, que pode ser isso, um homem meio na crise dos 40 anos, que resolve abandonar a família, a mulher e os filhos, porque eu tenho direito a ser feliz, me realizar como ser humano, como profissional, como homem. Algum caso também vi de namoro que termina porque a menina...
não está afim em absoluto de fazer nenhuma concessão, de atrasar o seu caminho profissional, acadêmico, não está disposto a fazer um sacrifício por aquilo, então chega uma hora, não faz mais sentido, né? Se a pessoa não está... Porque eu estou preocupado aqui, a minha carreira, isso aqui não pode atrapalhar o meu caminho profissional, eu preciso me realizar profissionalmente. Muitas vezes a gente traz decisões um pouco tristes desse tipo.
egoístas, a gente poderia dizer, está um pouco esse discurso da autorrealização. Eu preciso me realizar. E a ideia é essa, que para eu ser feliz, eu preciso, de certa forma, levar todas as minhas potencialidades profissionais, físicas, acadêmicas, eu preciso me desenvolver, me realizar profissionalmente. Eu não posso deixar que essa relação me atrapalhe.
E, bem, faz algum sentido você querer, de fato, realizar as suas potências. Mas aqui de trás, acho que não é difícil de ver, que se esconde uma grande armadilha, um grande engano de você entender...
por esse caminho à tua realização. A verdadeira realização na vida, a gente poderia dizer, não é tanto a autorrealização como a alterorrealização. Ou, talvez, formulando de outra maneira, não é tanto a verdadeira autorrealização, a verdadeira realização está na autotranscendência, o ir mais além de mim mesmo. Esse é o caminho para você realmente brilhar, encontrar a felicidade.
O Conselho Vaticano II formula isso de uma maneira precisa. O homem não pode plenamente encontrar-se a si mesmo. A não ser pelo dono sincero de si mesmo. Senão você nunca vai encontrar você mesmo se não for por isso.
As pessoas só se encontram, só se realizam nas relações, no amor, na doação. Então, no fundo, é sobre isso que eu queria meditar, refletir com vocês, nesses 30 minutos que temos aqui, para tentar ser um certo antídoto para essa mentalidade, que a gente vai se topar por aí, que a gente vive um pouco imerso nela, contrapando essa falsa liberdade do egoísmo.
fazer o que eu quero, sou livre, com a solidez luminosa do compromisso do amor, dos compromissos que a gente abraça por amor. Que isso sim é algo bom, né? E vamos fazer isso explorando três âmbitos. Primeiro, no efeito que isso tem conosco mesmos, na relação com o próximo, na relação com Deus. São esses três âmbitos que eu queria explorar com você. Começando pelo mais imediato, conosco mesmos.
que a gente poderia resumir dizendo que o egoísmo nos enclausura, nos fecha, ao passo que o dar-se nos expande, a alma cresce na medida em que ama, na medida em que se entrega, se compromete com os outros. A nossa alma quer crescer por aí, esse é o caminho. Já andei falando para vocês, já apresentei para vocês, esse é um psicólogo holandês, padre.
chamado Adrian Van Kahn. Tenho continuado escutando coisas sobre ele. É muito interessante, né? Ele, não sei se vocês lembram, mas ele estava na Holanda na Segunda Guerra Mundial, sobrevive com uma fome lá, terrível que ele passa lá, pela iluminação nazista.
se ordena sacerdote numa ordem religiosa, é enviado por essa ordem para os Estados Unidos, lá colocam ele para ser encarregada a formação de jovens, e por isso ele acaba estudando mais isso, faz lá um doutorado, e aí acaba se envolvendo com o pessoal que está surgindo naquela época, nessa área mais da psicologia, a chamada terceira força da psicologia.
Ele faz parte, de certa forma, desse movimento, acaba ficando amigo próximo dos principais autores e pensadores. Mas o que é esse negócio de terceira força da psicologia? Qual foi a primeira? Bem, se foi a terceira, se supõe que tem duas anteriores. Qual que é a primeira? Do behaviorismo.
que é a maneira de você entender a psicologia humana, um pouco mecanicista, materialista, muito objetiva. O homem é quase um robozinho, uma máquina que você aperta um botão e sai um resultado. O behaviorismo é assim. A segunda linha é a psicanálise de Freud, que, pelo contrário, puxa muito mais para o lado do subjetivismo. O homem é um conjunto de pulsões e impulsos interiores. Um é muito subjetivo, o outro é muito objetivo.
E essas duas linhas têm um enfoque mais negativo, de cura, um pouco como a medicina, de certa forma, nascem um pouco ligadas à medicina, que alguém tem uma doença, você vai lá e cura. Vai lá e agora tem alta. A terceira força foca de uma maneira mais positiva, não tanto em resolver um problema, mas em ajudar a gerar as pessoas a se desenvolverem como seres humanos, viver a liberdade humana.
E é muito interessante, é uma linha mais humanista, que entende o homem como um todo, evitando os excessos da coisa muito objetiva, mecânica, muito subjetiva, e o que importa só é o que eu quero, não é uma realidade objetiva. E aí entrou, então, o Van Kahn, porque, bem, era uma coisa mais compatível com o cristianismo.
Mas, ao mesmo tempo que ele fez parte desse movimento, na dúvida, ele se distanciou em alguns aspectos. Um deles foi esse, que esse pessoal focava muito nesse aspecto da autorealização, a pessoa se desenvolver nos seus vários aspectos, crescer e brilhar. E era muito isso, o objetivo dos estudos lá é que cada um possa se desenvolver plenamente.
E ele entendia e ele criticava abertamente, falando, olha, isso aqui parece bonito, mas na verdade não funciona. O ser humano não é só uma coisa de dentro para fora. Eu preciso, olha, o que há dentro de mim eu tenho que fazer emergir de uma maneira ordenada e eficaz. A gente precisa do que está fora, a gente precisa da transcendência, a gente precisa do outro, senão fica muito fechado e não funciona.
Nesse sentido, ele até falava da própria palavra existir, um pouco que essa terceira força está ligada um pouco ao existencialismo. Mas ele diz aqui, de onde vem existir? O que remete a essa palavra? Exit. Saída, né? E é assim mesmo, ex sistere, do latim. E é um pouco aquilo que emerge, o que está ali diante, pôr-se para fora, emergir.
E ele fala, o Van Kam, toda a vida humana sempre é isso, é um sair. É um projetar-se rumo a algo que não sou eu. Existir é isso, é você sair, você se apresentar ao mundo, você interagir com o restante da realidade. Por isso, uma vida muito fechada em si mesma acaba sendo menos vida e menos humana. O que a gente existe é para relacionar-nos com as pessoas.
Não sei, dá a impressão que a nossa sociedade hoje absorveu bem esses conceitos da terceira força da psicologia, de cada um se desenvolver, mas não escutou muito, né? Essa ressalva do Van Kamen não ficou muito, não foi levada muito em conta. E é algo importante, né? Que a gente entenda isso. O projeto, o Zé Me Desenvolver, de identificar os meus sonhos, tudo isso é bom, ok. Mas tem que ser acompanhado da transcendência, de superar-me a mim mesmo, senão...
não termina por me fazer realmente feliz. Não termina por funcionar.
Interessante esses estudos de neurologia, que eles põem lá uns eletrodos e aí vem que partes, ou faz alguma ressonância dessas, que partes do cérebro são acionadas quando você pensa em bombom, sei lá, né? Pensa agora num cachorro, né? Hum, aqui tem o lugar do cachorro, sei lá. Então você identifica que partes do cérebro estão acionando, né? Quando você está com raiva. E já vi várias vezes pessoas comentando isso, que as partes são muito coincidentes, as partes de quando você está triste, meio deprimido.
do que quando você está pensando em você mesmo, e ruminando uma coisa que aconteceu, e como é que ficou, e será que o pessoal gostou da postagem que eu fiz, da frase que eu... Aquilo são as mesmas partes do cérebro da pessoa que está triste, né? Está meio deprimido. Interessante, né? Você pensar em você mesmo é quase equivalente a você estar triste. A alegria passa por sair.
Romper, Santo Agostinho fala do homem adclinatus atse, voltado sobre si mesmo. O pecado me leva a voltar-me, estar encurvado. E por contraste, é o abrir-se, elevar-se, olhar, sair, que São José Maria escreve em Forja. Dar-se sinceramente aos outros é de tal eficácia que Deus o premia com uma humildade cheia de alegria. Dar-se.
sinceramente, tem uma eficácia, aquilo tem um efeito, tem uma mágica que Deus oprimia com uma humildade cheia de alegria. Uma humildade, a pessoa não está pensando em si mesmo, aquilo traz uma leveza para a alma e a vida se torna doce. Dar-se é de tal eficácia que Deus oprimia com uma humildade cheia de alegria. E eu acho que a gente pode ter, pensando na nossa vida...
Recentemente fiz o meu retiro anual e fiz bastante isso, né? Pensar na minha vida. Não sei, há muitas coisas, né? Pensava no meu caso. Na minha vida tem muitas coisas que me dão prazer.
O chocolate é uma delas. Enfim, não só, né? Mas também no plano físico, várias, e no plano intelectual, e no plano artístico. Sei lá, que bom, né? Que a nossa vida tem muitas coisas que nos dão muito prazer, né? Mas, assim, eu penso, nada me preenche tanto, sem contar, assim, como é lógico, a minha relação com Deus, a nossa vida interior, porque quando eu consigo ajudar alguém, né? Quando você vê que, poxa, essa pessoa aqui...
se beneficiou com algo que eu falei, ou alguma coisa, um trabalho meu de sacerdote, de padre, que é disso que se trata, como isso nos preenche. E eu acho que também...
a experiência no Opus Dei, a experiência na obra. É muito essa, né? Claro, o ambiente do centro é alegre, é jovial, tem um toque de seriedade da formação. Ao mesmo tempo, sei lá, brincadeira, uma certa leveza. Tudo isso é muito gostoso. Mas, assim, me parece que o grande entusiasmo na nossa história na obra são justamente as histórias das pessoas de conversão, de mudança, de crescimento, de você ver alguém ali que cresceu e está...
E, uau, como isso aqui... Essa semana mesmo, né? Vi um... Apareceu lá uma sorte de um vídeo de um seminarista que eu atendi depois. E hoje já é sacerdote, né? E aí dando uma aula lá.
E, poxa, que legal, né? Que eu peguei esse menininho, sei lá, né? Claro. Esse menininho, isso não é um... Mas você vê a pessoa crescendo, né? E vê todos os duelos e os combates e as dificuldades. E você vê depois, nossa, que legal, né? Que tá aqui brilhando, sei lá, né? Tá aqui crescendo e... Como é gostoso isso, né? Isso, sobretudo, é o legal, né? Você vê como essa pessoa que mudou e cresceu e amadureceu e como tá santa e como...
Isso nos preenche muito mais do que, sei lá, ganhei, zerei o joguinho lá, sei lá, né? Passei no melhor concurso, tô com um salário super gordão lá, legal, ótimo, cara, beleza, né? Você leu os seus livros e tal. Mas assim, o legal é o amor, né? Você se doar aos outros. Isso que é o que nos faz feliz. Isso aqui nos enche a nossa vida de sentido, né?
Então esse é o primeiro âmbito, a doação, o caminho da felicidade é esse, essa coisa interna, a gente experimenta alegria e paz na medida em que a minha vida é.
uma doação aos demais, é um serviço aos outros. Agora, um segundo âmbito é a eficácia externa disso daí. A gente poderia resumir que é a construção do mundo. Doar-se aos outros, o que constrói? O mundo, sei lá, uma família, uma instituição, uma casa como essa. As coisas funcionam só quando há isso.
Quando há doação, quando há generosidade, quando não estou cada um pensando em si mesmo, ainda na sua bolha, mas as pessoas estão realmente se doando, abertas. Não cada uma só no seu projeto de auto aperfeiçoamento. Nesse sentido, achei interessante uma pesquisa que fizeram na Google, na empresa, uma pesquisa corporativa sobre que fatores faziam os grupos de trabalho mais produtivos e eficazes.
Fizeram lá durante um tempo, vários grupos. E, curiosamente, um fator que não teve quase zero relevância, quase, era a competência ou fama dos indivíduos daquele grupo. Ah, esse grupo aqui tem fulano, que é um craque, é um cara famoso, sabe tudo. Da programação, Python, sei lá, né? Então, esse cara aqui sabe tudo de banco de dados. Então, não necessariamente, né? Aquele grupo rendia muito, porque tinha lá uma estrela. Ou mais de uma, né? O fator número um...
que se demonstrou ali ter uma correlação direta, positiva, com a produtividade dos grupos, era esse ambiente aberto de cooperação, de ajuda mútua, que as pessoas, ao mesmo tempo, pediam ajuda e davam ajuda umas às outras. Aquele grupo ali tinha uma forte cooperação, aquele grupo foi o que rendeu, muito mais do que o outro que tinha o bambambã lá do assunto. Interessante, né?
A coisa funciona quando há isso, quando as pessoas cooperam, quando elas se ajudam. O ser humano é um animal social. Não tem jeito, né? E qualquer sociedade é muito mais que a mera somatória dos talentos individuais. O efeito que se produz é algo muito maior do que essa somatória. Porque há toda uma dinâmica de multiplicação dos efeitos, dos esforços. Recebi da minha mãe uma historinha que você vê que é famosa de...
se atribui a uma antropóloga chamada Margaret Mead, que perguntaram para ela, nesses achados aí de ossos e de cerâmicas e de arqueológicos, o que dá para você identificar como o surgimento da civilização humana? É quando consegue fazer essa coisa de barro, é quando faz uma arma, é quando... E ela diz, esse fêmur aqui que eu encontrei, acho que esse aqui é o negócio. Porque esse é um fêmur...
que você vê que ele quebrou e ele cicatrizou, não sei se é a palavra, solidificou, reconstruiu outra vez, né? Quebrou, mas conseguiu colar de volta ali.
E isso aí leva muito tempo para um precioso colar outra vez. Um adulto assim, ele não era capaz de pegar água, se proteger dos bichos, caçar, pegar alimento com fêmur quebrado? Um animal morre, quebrou o fêmur, morre, não tem o que fazer. Não tem jeito, né? Se essa pessoa teve tempo suficiente para que colasse outra vez, ela sobreviveu durante muito tempo, ou seja, cuidaram dela.
lhe protegeram, levaram, trouxeram comida, trouxeram água. Para mim, isso aqui é o surgimento da civilização. Quando não é mais cada um por si, te vira aí, não vou ficar um peso para mim, é quando um cuida do outro. O ser humano é isso, né? Você querer negar isso, você viver como se a tua vida fosse um teu projeto, isso aí não é o que nós somos.
A pessoa fulana só fica olhando para o seu umbigo. A gente não sei se vai usar essa expressão, né? Fulano só olha para o seu umbigo. Para dizer que é uma egoísta, né? Mas, cara, mesmo o nosso umbigo...
Ele nos diz alguma coisa, ele nos diz que eu só existo graças a uma relação, o ser humano sempre existe relação, no caso o umbigo nasce de uma relação umbilical, uma relação material muito concreta que nos alimentou durante nove meses, ou sei lá, talvez um pouco menos do que isso, porque quando surge o umbigo, a gente só existe em relação umas pessoas com as outras.
E as amizades, isso começa na família, mas depois as amizades, no trabalho. Qualquer projeto na vida é assim, né? Os seres humanos não só sobrevivem, mas crescem, brilham. Eles vêm numa sociedade de ajuda mútua. O retiro que eu fiz, quem empregou foi o Dom Antônio Augusto, bispo auxiliar lá do Rio de Janeiro. Então, é cheio de histórias de favelas, né? Muito interessante as histórias dela, que ele conta, né? Algumas bem fortes.
E contou, não é de favela, mas de um morador de rua que tinha lá um remédio, uma doença. Então a médica dava para ele o remédio que ele precisava, mas às vezes não aparecia. Às vezes não apareceu semana passada, o doutor aqui estava sempre comendo, algumas vezes desmaiava. E uma vez pegaram ele lá na rua, levaram para o hospital e estava lá, a médica dava um prato de comida para esse homem aí, coitado, um pouco o remédio que ele precisa agora é comida, porque ele está desfalecendo de fome.
E aí ela sentou lá, sei lá, num refeitóriozinho que eles tinham e ficou lá um pouco para ver ele almoçar. E ele falando com ela, ele não tocava na comida. E um tempão, ele estava esfriando já, mas você não vai comer, a gente trouxe essa comida para você, você precisa comer. E ele falou, ah, doutora, não, eu vou sim, mas sabe que eu fico meio sem graça, sabe?
Porque lá onde eu moro, debaixo do viaduto, sempre que alguém ganha alguma comida lá, as pessoas que moram ali comigo, sempre a pessoa traz, a gente coloca lá o que cada um pegou numa lata que a gente tem, aquece, e cada um tem lá, sei lá, pega ali uma parte, não sei se tem um garfo com a mão mesmo, e a gente divide, sempre assim. Nunca come sozinho. Eu não estou acostumado a comer sozinho.
Interessante, ele sentia como uma falta de educação. O cara que almoçava lá da lata, no meio de baixo do viaduto. Mas aí ele criou uma etiqueta que é isso, olha. Comer sozinho é de mal tom, sei lá. É um pouco com você, para a sobrevivência daquele grupo, você criou um pouco aquela espécie de regra, que é algo muito humano, que é isso, cara. A gente precisa uns dos outros. Eu te ajudo hoje, você me ajuda amanhã. E é assim que a coisa funciona. O mundo se constrói a partir de eu sair de mim mesmo e pensar no outro.
É o que sustenta uma família, é o que sustenta um casamento, sustenta também um projeto acadêmico, profissional. Sempre assim. E, por último, o terceiro aspecto é esse, o nosso aspecto mais diretamente, a união com Deus. Nesse sentido, achei uma frase, me marcou, do musical Les Miserables.
que não tem no livro propriamente, mas tem mais ou menos sugerida, que é uma frase já quando o protagonista está morrendo, Jean Valjean, ele é recebido, como que recebido no céu, pela Fantine, que já morreu. E ela recebe ele no céu, e ele cuidou da filha dela, da Cosette, e por isso ele vai para o céu. E ela diz para ele essa frase, To love another person is to see the face of God.
Amar uma outra pessoa é ver a face de Deus. E essa música se repete na música. E fiquei pensando, será que isso é verdade mesmo? Ou será que é só mais uma frase bonita, né? O amor, sei lá, está cheio de frases bonitas sobre o amor, às vezes um pouquinho bregas, sei lá, nem sempre muito verdadeiras, né? O amor é a coisa mais incrível. Bem, a gente até cansa um pouco. Será que isso aqui é verdade?
E olha, tem aquela música que a gente canta na quinta-feira santa, a liturgia prevê, Ubicáritas et amor, Deus ibi est. Ubicáritas es vera, Deus ibi est. Tem essa variação. Onde há o amor, aí está Deus. Um pouco é isso, né? Ubicáritas ibi Deus. Deus ibi est. Onde há amor, Deus está. E São João escreve na sua primeira epístola, Ninguém jamais viu a Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós.
A gente não vê a Deus, mas se eu amo, Deus está comigo. Interessante, não é? Por mais que eu não veja. Se amamos, Deus permanece conosco. É uma verdade central da nossa fé. Que a caridade, o amor ao próximo, nos abre de forma muito direta ao amor a Deus. Esse amor a Deus entra por aí. A caridade me abre. O amor a Deus precisa desse amor ao próximo.
Precisa dessa doação, de vencer o meu egoísmo e ver a doação para as pessoas ao meu redor. E não só a doação para as pessoas ao meu redor, mas também a minha relação direta com Deus. Também isso, a religião, deve ser vivido nessa lógica da entrega da doação. E não como uma espécie de recurso. Em 2004, o Pontifício Conselho para a Cultura lançou um documento, que tem uma expressão que eu achei interessante, que é a religião do eu.
Hoje em dia existe a religião do eu. A nova religiosidade caracteriza-se por colocar o eu no centro. Se os humanismos ateus de outrora eram a religião da humanidade, na época do luminismo se propôs, vamos criar uma religião da humanidade, onde o centro vai ser a humanidade, não mais uma figura mitológica, divina, mas a própria humanidade, a religião da humanidade.
Há outros tempos era isso, os humanismos ateus de outrora eram a religião da humanidade, a religiosidade pós-moderna é a religião do eu, não da humanidade, eu, eu, fundada no êxito pessoal na realização das próprias iniciativas. Realização, eu, autorealização. Às vezes as pessoas podem se aproximar da religião com essa visão. Alguma pessoa me falava, quando? Ontem.
que às vezes entra um pouco, a gente vê nas redes sociais, essa teologia da prosperidade, que era uma coisa assim, antes, mais comum entre os evangélicos. O que é a teologia da prosperidade? Reza aí, dá o dízimo e aí você vai passar no concurso. Você vai, né? Deus vai te abençoar, você vai ter saúde, né? Você vai prosperar.
E que isso começa a se ver mais em âmbito católico, às vezes, que era uma coisa mais protestante. Também, no âmbito católico, você acaba, não, vai lá no Opus Dei, você vai ficar rico, sei lá. Reza e vai na missa, que às vezes você vai ficar rico. Cara, não é bem assim. Se você lê o Evangelho, você vê que não é bem isso. O Evangelho não é isso, é o contrário. Não sei se é o contrário, mas certamente não é isso. Jesus não promete a prosperidade, mas perseguições.
Não fala de acumular bens, mas de viver o desprendimento. Não é isso. Essa religião do eu, que seria uma versão da religião do eu, que me aproxima da religião como uma espécie de mercado no qual eu vou ver o que me interessa, o que vai me ajudar para os meus fins, para o meu objetivo de autorealização, de crescimento pessoal. Você imagina que você se aproximasse do teu namorado, sei lá, de uma amiga, dos teus pais. O que eu posso tirar desse... Não ia dar certo, né?
Sai para lá, né? E com Deus dá menos certo ainda, sabe? Você se aproximar de Deus como se ele fosse um recurso, que você vai lançar a mão para conseguir os teus objetivos. Não é assim, não pode ser assim a nossa relação com Deus. Uma coisa utilitarista. E um outro extremo é justamente a pessoa que percebe que a religião exige alguma renúncia, algum sacrifício, como qualquer relação. A relação com Deus não é diferente. E ao invés de querer usar daquilo, então se afasta.
Não quero. Sai para lá, vou me complicar a vida, isso aqui vai ser um peso para mim. É um pouco a atitude que vem desenhada no Salmo 2. Os nações rebeldes que falam, quebramos seu jugo, disseram eles, sacudamos para longe de nós as suas cadeias. Joga fora, é um negócio que vai me atrapalhar a moral, sexual, ter que ir na missa, ter que rezar. Cara, é um negócio complicado.
vai me atrapalhar a vida. Derumpamos as víncula eorum. Rompamos as suas cadeias. Em latim, víncula. Os vínculos. É como se você dissesse, eu não quero ter nada contigo, nada que me ligue a você, não quero ter nenhum vínculo com você. Porque isso aqui é um peso, é uma dívida.
E o amor não há dúvida que implica um vínculo, uma conexão. Acho interessante, nos livros de fantasia do Sanderson, que eu gosto, tem lá um personagem que é o Bondsmith, que é o que cria bonds, que cria vínculos, cria conexões. E uma hora ele toca nas pessoas, ele vê raios saindo, feixes de luz, com o que essa pessoa está conectada, o que ela ama no fundo, o que é importante para ela.
E agora estou concreto numa frase lá da história, que ele está num mundo maluco lá, e a única coisa que agarra ele, que pode ficar nadando naquele mundo infinitamente, a única coisa que agarra ele são os vínculos que ele tem com as pessoas, com as pessoas que ele ama. E acho interessante essa imagem, porque no fundo, os teus vínculos é o que dão solidez para a tua vida. É o que permite que você tenha uma base sólida para se agarrar na realidade. Senão você é um...
O egoísta é um náufrago boiando no oceano. Ficou marcada na minha... Quando faleceu meu avô, casado com a minha avó há muitos anos, sete filhos.
E ela ficou muito desconcertada e ela dizia, eu não posso ficar sem o meu parceiro, sem o meu companheiro. A vida não fazia muito sentido para ela sem o meu avô. Era um choque, não dava para imaginar. Aquilo que ele ancorava na vida era aquele casamento, aquele relacionamento que ela viveu já, já não sei quantos anos que eles viviam aquilo. E é assim, sei lá, vocês têm essa experiência, terminam um namoro, a pessoa fica meio sem chão às vezes. Agora imagina um casamento, né?
Imagina, não sei, uma ruptura com um filho. Você fica meio sem chão, sabe? A vida como que desperde densidade, as coisas meio que se dissolvem. São os vínculos que dão solidez para a nossa vida. E é lógico, né? Muitos desses vínculos, como entre eles o casamento, são realidades que, cedo ou tarde, vão desaparecer do nosso horizonte. Amizades do colégio, minha relação com a minha universidade, são coisas que passam.
Tem algo realmente sólido? Sei lá, tem coisas que são mais sólidas em relação com nossos pais, não há dúvida. Mas assim, realmente sólido mesmo é a relação com Deus, né? É o nosso vínculo com Deus. Isso realmente é. Tem uma solidez absoluta, total e eterna. E a boa notícia é que a gente pode se apoiar em Deus. É que esse vínculo nosso com Ele está chamado e pode crescer cada vez mais.
E aquilo pode dar uma grande suridez para a tua vida, nesse amor que é o amor a Deus. De forma muito real. Você pode entrar aqui no oratório e como você sente quando você vê uma amiga que você não via há tempos, que viajou, fez intercâmbio, ou sei lá, o teu pai, ou um irmão, você fala que legal, minha prima, meu sobrinho, que séculos. Você fica feliz, porque aquela pessoa é importante para você, é relevante para você.
E você sente que a vida faz mais sentido com aquele contato. Isso pode acontecer, sabe? Você entrar aqui e, nossa, Senhor, que bom estar aqui contigo, né? E quando você comunga São Felipe Neri, uma cena que eu acho singela, ele está lá de cama, levam a comunhão para ele, e o padre que está levando a comunhão abre a porta, e lá com a teca, com o Santíssimo.
École, meu amor, dá temelo súbito. Diz assim, eis o meu amor, me dá logo ele. Cara, não, peraí, tem um rito da comunhão. Tem que rezar o Pai Nosso, tem que fazer ato penitencial, começando com o sinal da cruz, vamos devagar, segura a onda aí. Mas é bonito, sabe? O meu amor, eu encontrei aqui, é o sentido da minha vida. Amor meu, pão dos meus, dizia Santo Agostinho. O meu amor é o meu peso, aquilo que dá densidade, que a minha vida tem sentido, que é real. Isso não é.
Perda da liberdade, né? Pelo contrário, é. Não é uma entrega que esmaga, que oprime, mas liberta e dá vida. Meu jugo é suave, minha carga é leve. O ramo que se separa da videira seca e morre. Ah, vou me separar. Perde a vida, mas unido é quando a gente se ente de vida e de fruto. O vínculo não é uma prisão. A felicidade não está na ausência dos vínculos, mas na presença dos vínculos corretos, dos vínculos do amor.
desse amor com maiúscula, que se dá, é verdade, livrando-nos dos vínculos errados, né? A pessoa precisa se libertar, sim, sei lá, do vício, das drogas e da bebida. A gente precisa se libertar de muitas coisas pra conseguir crescer, pra estar livre. Não free falling, mas free climbing, a gente poderia dizer, né? Escalando, né? Escalando é uma imagem espiritual muito tradicional, né? É subida do monte. E pra você subir a montanha, você não quer levar peso aos mortos, né?
Mas num alpinismo você precisa sim de cordas e mosquetões e nós, você precisa estar bem amarrado ali, que isso permite subir. São os vínculos da vida, são as entregas, são os compromissos que me permitem isso sim crescer de verdade. Na Capela Sistina tem o Jesus Final, aquela cena no retábulo, e é um detalhe assim, uma alma que está no inferno, está quase no inferno, mas um anjo está puxando ela para fora.
E não está puxando pela mão, está puxando por um cordão de contas. E o padre especialista que estava nos falando, isso aí deve ser um terço primitivo, um terço, não é o terço. Ainda de uma forma um pouco, naquela época, estava começando a devoção no terço, mas ele provavelmente era um terço.
Ou seja, aquela pessoa, aquela alma que estava lá no inferno pelos seus pecados, mas pelo terço se agarrou e estava sendo puxada. Então, pela sua devoção do terço, pela devoção à Nossa Senhora, não há dúvida que a devoção à Maria vai ser esse apoio sólido na nossa vida para nos puxar para cima, para nos levar para Deus.
Dou-te graças, meu Deus, pelos bons propósitos, afetos e inspirações que me comunicaste nessa meditação. Peço-te ajuda para os pôr em prática. Minha Mãe Imaculada, São José, meu Pai e Senhor, meu Anjo da Guarda, intercedei por mim.