Trocando o espírito crítico pela misericórdia
Jesus ressuscitado entra no cenáculo, mostra as suas chagas e oferece a paz. Não apresenta as feridas para acusar, nem para cobrar vingança, mas para revelar que a misericórdia venceu o pecado. Diante da verdade da vida, cada um descobre que não é apenas o justo ofendido, mas também o pecador necessitado de perdão. Por isso, o coração cristão não pode viver atirando pedras: a mesma medida com que medimos os outros poderá se voltar contra nós.
O espírito crítico nasce quando escolhemos sempre a pior interpretação para as atitudes alheias. Uma palavra, um gesto, um silêncio ou uma falha podem virar uma história inteira de suspeitas, mágoas e condenações. Esse olhar vai semeando joio nas famílias, nas amizades, nas comunidades e até na Igreja, afastando as pessoas e enfraquecendo a visão sobrenatural. A experiência da expedição Endurance, liderada por Ernest Shackleton, mostra bem esse perigo: em meio ao frio, à fome e ao fracasso da missão na Antártida, a ameaça mais destrutiva podia ser a discórdia interna, a murmuração e o espírito crítico contaminando o grupo. Para salvar todos, era preciso proteger também o clima de confiança, unidade e esperança.
Para combater esse espírito crítico, é preciso aproximar-se das pessoas. A distância facilita a condenação, mas a proximidade desmonta caricaturas. Cristo fez exatamente isso: não veio para condenar, mas para salvar; não permaneceu longe da nossa miséria, mas assumiu a nossa natureza, tocou os feridos, purificou os leprosos e carregou sobre si o peso dos nossos pecados. Quem se sabe frágil diante de Deus aprende a olhar o outro com mais compreensão, lembrando que também carrega suas próprias lepras interiores.
Também é necessário elevar o olhar e abraçar o sacrifício. A fé cristã acredita que Deus pode tirar o maior bem até da pior tragédia, como fez da Cruz de Cristo a redenção do mundo. Por isso, em vez de reclamar de tudo, alimentar fofocas ou colecionar ofensas, o cristão aprende a carregar peso, trabalhar, corrigir com caridade, conversar com lealdade e sofrer com sentido. A misericórdia exige fortaleza: não é fechar os olhos para o erro, mas buscar salvar o irmão sem feri-lo com indiretas, dureza ou desprezo.
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Referências:
- Música “Faroeste Caboclo”, Legião Urbana
- Sobre a expedição de Ernest Shackleton: Alfred Lansing, Endurance
- Filme “Oslo”
- Fulton Sheen, O sacerdote não se pertence
- Ernest Hemingway, O velho e o mar
- São Máximo confessor, As quatro centúrias sobre a caridade
- Sobre a devoção dos cinco primeiros sábados: Diário da Irmã Lúcia
Padre
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- Proximidade e acesso socialA experiência no avião · O filme Oslo e a convivência forçada · A lógica da encarnação de Jesus
- Reza do Terço e devoçõesPromessa de Nossa Senhora de Fátima · As cinco chagas de Cristo
Pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos de Deus, nosso Senhor dos nossos inimigos, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Meu Senhor e meu Deus, creio firmemente que estás aqui, que me veis, que me ouves. Adoro-te com profunda reverência. Peço-te perdão dos meus pecados e graça para fazer com fruto este tempo de oração. Minha Mãe Imaculada, São José, meu Pai e Senhor, meu Anjo da Guarda, intercedei por mim.
Jesus entrou e, pôndo-se no meio deles, disse, A paz esteja convosco. Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. A gente escutou essa passagem do Evangelho já no segundo domingo da Páscoa, no domingo seguinte ao próprio domingo de Páscoa, que é Jesus quando aparece no cenáculo e está lá a Tomé.
E a gente vai escutar, curiosamente, outra vez, no último dia do tempo pascal, que é o domingo de Pentecostes. A gente vai voltar a escutar essa mesma passagem. Que ele está lá e mostra as suas chagas e diz, na paz, esteja com vocês. E preparando a homenia para o domingo segundo de Páscoa, que tinha esse evangelho.
Me lembrei de uma música da minha adolescência, de quando eu comecei a gostar de música. Eu comecei a gostar de música com dois discos que as minhas irmãs mais velhas tinham. Alguma coisa boa a gente tem que pegar das nossas irmãs, né? Então comecei a gostar de música em inglês, que era um do Dire Straits, muito sucesso naquela época, músicas muito boas. E um em português, o Legião Urbana, que também é super sucesso, né?
As primeiras músicas que eu decorei para cantar foram essas músicas, né? E eram meus amigos todos. A gente estava caminhando, fazendo uma excursão, alguém puxava Eduardo e Mônica, sei lá. Vamos ver quem se decorou a letra inteira, né? Mas a mais desafiante era Faroeste e Caboclo. São nove minutos, eu conferi. É um negócio gigante, né? E não tem refrão, não repete. É uma história que vai sendo contada.
E boa parte do meu conhecimento sobre Brasília se devia às letras do Anjo Urbano, né? Dasa Norte, sei lá, Taguatinga, essas coisas que aparecem nessa música em concreto. E me lembrei dessa estrofe no final já da música. Eu voltei a escutar ela hoje, depois, sei lá, de 20 anos que eu não escutava essa música. E tem essa estrofe no final que ele está morrendo. O João de Santo Cristo é o nome do protagonista da história, né?
que vem para Brasília e tudo, ele levou uns tiros à traição do seu inimigo Jeremias, e ele então vê a sua namorada lá, a Maria Lúcia, que traz para ele uma arma, e ele então morrendo, as últimas palavras do João de Santo Cristo são, Jeremias, eu sou homem, coisa que você não é, e não atiro pelas costas não.
Olha para cá, seu carinha sem vergonha, dá uma olhada no meu sangue e vem sentir o seu perdão. Ele mostra as feridas, né? E Santo Cristo, com a encheça em 22, deu cinco tiros no bandido traidor. Maria Lúcia se arrependeu depois, meu rejunto com João, seu protetor. Enfim, vocês devem ter ouvido essa música alguma vez, né? E no final diz João, e o povo declarava que João de Santo Cristo era santo porque sabia morrer.
E você acompanha toda a história e é legal, legal, o cara, né? Matou o inimigo, sei lá, aquele traidor desgraçado, né? Quando termina uma história, dá uma satisfação que o malvado apanhe no final, sei lá, né? Que seja punido de alguma maneira, né? O nosso senso de justiça pede algo disso, assim, né? O cara fez uma série de coisas erradas e se deu super bem, para ele ter errado essa história. Não é assim que a coisa tem que terminar, né?
Então vem uma satisfação que, bom, ele matou o inimigo, matou lá o desgraçado do Jeremias. Só que, ao mesmo tempo, pode ser um problema, porque é claro que a gente quer que a justiça se faça. O problema é que quando a gente morre, quando a gente se depara com a verdade da vida, a gente se dá conta que nós somos Jeremias. A gente se depara com o mal que há em nós.
durante a vida a gente tende a camuflar um pouquinho mais a nossa malícia. Mas na hora do juízo a gente enxerga as coisas com clareza. E se a gente vai pela vida atirando pedras nos pecadores, interessante, Davi enfrenta Golias com cinco pedras.
e mata lá o gigante inimigo, né? Mas se você vai pela vida atacando, você vai se dar conta, ao final da vida, que você é aquela pessoa, aquela mulher pecadora que Jesus coloca no meio lá, que não é ele que coloca, né? As pessoas colocam lá e querem apedrejá-la. Ele diz, aquele que tivesse pecado que atire a primeira pedra, né? No fundo, condenando elas, eles estão condenando a ser mesmos porque eles são pecadores. A gente vai se dar conta que eu sou assim.
Ok, sendo um homem mau, merece ser punido, ele merece sofrer por tudo que ele fez. Tá, mas esse homem sou eu, né? Isso é o que vai acontecer. Só que a boa notícia é que, ao mesmo tempo que a gente vai ver isso, que a gente tirou pedras no espelho, né? E a tendência é que esses juízos severos que a gente passou pela vida se voltem contra nós mesmos.
Por isso Jesus fala, né? Bem-vitorados os misericordiosos, porque alcançaram a misericórdia. Com a mesma medida que vocês mediram, vocês vão ser medidos. Se você foi duro com demais, você vai acabar sendo duro com você mesmo. Aquilo vai rebotar para você de certa forma. Mas o que vai nos segurar, o que vai nos defender, a boa notícia, é que entre nós e aquela mulher Jesus se colocou. E Ele levou as nossas cinco pedradas.
Ele levou os nossos cinco tiros com a Inchessa 22, que o João do Santo Cristo dá no Jeremias. E ele mostra as suas cinco chagas, como fez esse domingo. E ao mostrando ali, olha, são as feridas que eu sofri pelos teus pecados. Ele não mostra aquilo dizendo, então agora você fez isso comigo, né? Como faz, João do Santo Cristo? Então agora você vai sentir a tua falta de perdão, né? Vou dar cinco tiros em força. Não, não é isso, né? Ele diz a paz. A paz, né?
vai dizer a vingança, o castigo, a punição, Ele nos dá a paz. Ele nos comunica a sua misericórdia. E isso nos faz pensar como é o caminho que a gente tem que ter também. A gente quer viver nesse plano, não no plano de uma justiça seca, que é da história, sei lá, do faroeste caboclo. Porque no final da história a gente se dá mal, mas não funciona, né?
a gente precisa de viver no plano da misericórdia. A gente precisa se apoiar no perdão e saber dar o perdão aos demais. Então é sobre isso que vai ser a nossa meditação, esse combate ao espírito crítico que a gente pode ter e essa luta por viver na misericórdia, na misericórdia. Combater o espírito crítico. Algumas pessoas podem ser especialmente dominadas.
por um espírito crítico, por essa tendência pela vida, jogando pedras nos outros. Às vezes pode ser uma tendência do temperamento, eu acho que meu temperamento tende um pouco a isso. Às vezes pode ser um momento, sei lá, uma pessoa que está muito ferida ou cansada, e aí a gente pode ficar mais crítico, porque, sei lá, minha paciência esgotou, então qualquer coisa já me irrito e acho ruim da minha mãe ou das minhas amigas.
E pode ser uma coisa muito ruim, pode fazer muito mal. Como é que se concretiza esse espírito crítico? Um pouco nas narrativas. A gente vai pela vida sempre construindo histórias, construindo narrativas. Os mesmos eventos podem dar raiz a narrativas muito diferentes. O que faz a pessoa com espírito crítico? É aquela que escolhe sempre a pior narrativa. Ela fez isso, com certeza, foi só para me irritar.
E a princípio, quem sabe você... Por que a pessoa falou essa palavra e não aquela outra? Ah, pode ser porque ela queria me provocar. Fica aquela hipótese. Mas no momento seguinte você fala, não, com certeza foi por aquilo. E daqui a pouco você começa a construir em cima de certezas que não são certezas, né? Que são juízos, no fundo. E a pessoa é capaz de montar toda uma história de que sou perseguida. E às vezes aquilo não tem nada a ver com a realidade, né? Mas o espírito crítico que me domina...
Me produz isso, né? Acabo brigando com todo mundo, porque todo mundo, todas as pessoas são falsas, sei lá, e todo mundo quer o meu mal, né? É algo muito perigoso isso daí. Às vezes a gente vê, sei lá, eu escuto brigas de casais, né? E às vezes contam a narrativa e o negócio, nossa, faz todo sentido, né? Pô, esse cara, de fato, é um...
É um idiota, né? Como é que ele faz isso? Aí você escuta o cara, nossa, essa mulher é maluca, né? Você escuta assim. E talvez nenhum dos dois está mentindo, sabe? Mas é que aqueles mesmos eventos, sabe? Você ponta uma narrativa, puxa um pouquinho para lá, aí depois puxa um pouquinho mais para lá. É coerente. Só que é injusto, né? Porque se você sempre escolhe a interpretação pior, você vai acabar sendo injusto, né? E vai acabar te afastando das pessoas.
Pode acontecer isso, né? Pode ser difícil conviver com pessoas assim, com essa tendência. Faz muito mal, sabe? Para uma família, para uma instituição. É aquela pessoa que sempre está semeando o joio, né?
tem me chegado às vezes pais de colégio que escutam com certeza aqui de trás, se a gente viu isso é porque tem tantas coisas que a gente não viu e o cara já monta uma teoria. Ou com relação à igreja, algum padre amigo meu que falou, olha, eu fico lendo esses sites ali que ficam fofocas eclesiásticas, está me fazendo mal, está me alimentando o espírito crítico. E isso me afasta das pessoas, me atrapalha a ter visão sobrenatural. Estou escutando o livro Endurance.
que é o relato da expedição fracassada do Shackleton. Já ouviram falar dessa expedição? Não, né? Sim. Não? Sim. Que é uma expedição lá para a Antártida, no inglês. Quando estourou a Primeira Guerra Mundial, eles vão...
E dá tudo errado, né? Mas talvez a edição mais famosa da história seja essa que deu tudo errado. Mas é toda a aventura e a liderança do Shackleton, que é o chefe lá em inglês. E você vê que ele se preocupa muito com isso, sabe? Com o clima, são 29 que estão ali, ele mais 28 marinheiros. E ele consegue salvar todos, que é uma proeza absurda de tudo que eles passaram. Nenhum morre, é uma coisa assim, é a grande proeza dele. E ele se preocupa muito com isso.
com que não haja alguém lá com espírito crítico, semeando a discórdia, gerando insatisfação. Ele entende que isso é mais perigoso do que o frio, do que a falta de comida, é começar a gerar um grupo contra o outro, uma certa insubordinação. Então ele está muito atento a isso, porque ele tem a experiência, olha, isso aqui num barco, isso aqui numa expedição, é um inimigo funesto, né? Um espírito crítico que vai contaminando os outros.
E a gente tem que, então, lutar contra isso. Como é que a gente pode lutar contra o espírito crítico? Três atitudes. Aproximar-se do outro, buscar essa proximidade. Elevar o olhar, ter uma visão sobrenatural. E carregar peso, ter disposição ao sacrifício. Me parece que são três elementos que podem nos ajudar a combater o espírito crítico em nós. Primeiro, essa coisa da proximidade. Estava fazendo o meu retiro.
Várias vieram me repreender, porque eu não estava aqui semana passada para atender vocês. Enfim, não foi exatamente assim. Mas estava lá fazendo no Rio de Janeiro e foi muito bom. Quem rezou por mim, brigadão. Quem não rezou também. Mas voltei, né, domingo e... E aí cheguei lá, típico no avião, né? Aí tinha um cara ocupando a minha cadeira, assim, né? Aí, vai, o seu assento é... Ah, não, não, tá já sem um rapaz ali. Aí já trocou, tá beleza, sentei ali.
E aí, sei lá, o cara estava ali meio espaçoso, né? Comecei a me incomodar. Pô, esse cara aqui... E essa coisa de picuinha, né? O cara fica ali com uma coisa, já começa... Mas aí ele puxou papo, não lembro qual foi a história. Ele me pediu para gravar, a gente estava decolando. Você pode gravar para mim aí no celular? E a gente começou a conversar, né? Mas é a primeira vez que o cara está no Rio, o cara do Berlim do Pará e contou.
Você é padre? Sou. Pô, minha avó é muito católica, né? Todo mundo tem uma avó católica, né? Graças a Deus.
Então, rapidamente, aquela minha indisposição de ser um cara um pouco picuinhas, que eu posso ser, às vezes, um pouco crítico, quebrou aquilo. Pô, sei lá, um rapagão ali, um cara divertido, um cara assim, desarmado. E já ficamos amigos ali, a coisa já ajuda. É muito interessante, quando você é uma pessoa estranha, é muito mais fácil você gerar um espírito crítico. Agora, quando você já conhece, você entende, você tem uma certa proximidade,
Um filme interessante que chama-se Oslo, que é uma história real de quando conseguiram fazer um tratado de paz entre palestinos e israelenses. Palestinos e Israel, né, israelenses. E eles levam os líderes lá para Oslo, para uma espécie de um castelo lá. E é toda uma estratégia, uma técnica que tem de negociação, que é você fazer as pessoas conviverem muito.
Então eles passam lá, fazem uma espécie de convívio, tem lá uma comida, sei lá, né? E não podem falar sobre o tratado de paz, a não ser nos horários lá específicos do dia. Então eles estão meio só obrigados meio a conviver. Nas coisas assim, do dia a dia, né? Ah, passa ali, pode passar manteiga, sei lá, né? E aí, não funcionou meio ar-condicionado, tem mais cobertor. E isso dava, isso fez com que funcionasse muito melhor as negociações.
Porque passa a ser difícil você demonizar uma pessoa. Sei lá, você almoçou com ela ali, jogou bola, sei lá. É alguém próximo, né? Quando não, é uma figura meio desconectada com a minha realidade, é mais fácil a gente julgar, a gente condenar. Toda a lógica da encarnação é essa, né? Jesus, no Evangelho de hoje, ele fala, não vem para condenar, mas para salvar. Ele vem para nos salvar, ele se coloca próximo. Ele encarna, ele toma a nossa natureza.
Eu acho bonita a cena do leproso, que ele estende a mão e o toca. Se queres, pode limpar-me. Eu quero. Ele toca, é o que limpa. A encarnação é um pouco isso, sabe? Deus que rompe, vence a distância que há entre nós e Ele. E toca, e se faz próximo. E assim Ele nos entende, assim Ele nos perdoa. E a gente tem que fazer isso também com os outros. É claro, Ele faz isso, sendo que Ele não tem lepra, né?
Ele não tem pecado, ele poderia tirar pedras, porque ele não tem pecado. Mas ele não faz isso. E quanto mais nós, portanto, que temos pecados, carregamos a lepra dos nossos vícios, temos que olhar para o outro que peca, como eu, e tratar de compreender. Bem, eu também, né? Ah, mas essa pessoa tem esse defeito que eu não tenho. Ah, mas eu tenho outro. Temos todos aqui, somos filhos de Adão e Eva.
Temos nossos defeitos. Então, quem sou eu para julgar, para condenar, para dizer que é absurdo que essa pessoa tenha feito isso? Olha, eu não seria capaz de fazer coisas piores. Santo Agostinho diz isso, os santos dizem isso. Me sinto capaz de todos os erros e os horrores. Falava São José Maria, os errores e os horrores. Me sinto capaz, né? Não sou uma pessoa diferente, né?
Então é bom, sabe, quando eu começo a julgar os outros, pensar, será que eu sou tão diferente assim? Será que eu estou... Ah, mas essa pessoa agiu com certeza com essa má intenção. Olha, é tão complicado as intenções humanas, né? A gente faz, tem mil motivos que se misturam nas nossas ações. Por que eu vou, não, só vou selecionar o lado ruim dessa pessoa e vou filtrar as coisas boas? Todos nós somos ambíguos, né? Tem coisas boas e coisas ruins. Eu sou assim também, então...
Por que eu vou olhar para os outros só sobre esse lado ruim? Fazer-se próximo às pessoas para tentar evitar esse espírito crítico. E como o nosso Senhor que não veio ao mundo para condenar, mas para salvar, e se Ele faz assim conosco, quanto mais a gente deve fazer assim com os outros. E aqui então a segunda atitude que eu queria explorar com vocês, que é essa visão mais sobrenatural. Elevar o nosso olhar, olhar para Deus.
ter um olhar mais parecido ao de Deus. Olhar misericordioso não tem que ser um olhar ingênuo, mais bobo, menos real, menos verdadeiro, mas sim um olhar mais profundo, que trata de enxergar a possibilidade das pessoas. Deus olha para nós assim.
Vendo a nossa potencialidade. Ele vê o nosso espelho, ele mostra o seu pecado aqui. Estão carregando aqui as chagas. Ele carrega aquilo. Mas, no mesmo tempo, ele diz, pai, perdoe-os, porque eles não sabem o que fazem. Mas, no mesmo tempo, ele perdoa, ele traz a paz. Ele quer nos trazer a vida, a vida em abundância. Ele aposta que a gente é capaz disso. A gente tem uma história interessante, uma história do Fulton Sheen, esse bispo americano. Ele conta num livro...
Recentemente eu via que teve uma vez num hotel numa cidade, tava almoçando lá no restaurante, e aí tinha um menininho, um engraxate, que engraxa sapatos. Mas ele tava lá meio sem muito o que fazer, começou a se pendurar nas cortinas lá do restaurante, de brincadeira. Aí o dono lá, o garçom, falou assim, sai daqui, moleque, nem expulsou ele, porque vai, sei lá, estragar as cortinas. Não é uma boa ideia você ficar se pendurando em cortina, não é um apoio tão forte assim. Aí o Fultonchim ficou meio...
Triste, né? Foi lá atrás do menino. Ele sentou, começou a conversar com ele. Ele falou, não sei se era bispo ou padre, ah, padre, eu fui expulso do colégio católico, porque eu fiz lá um negócio. E aí a freira lá e o padre me disseram que eu nunca mais ia poder estudar em colégio católico. Depois que eu tinha feito, então eu vou lá contigo. Aí ele foi lá naquele colégio.
E aí sentou lá com o diretor, que era um padre. Olha, sabe, três rapazes foram expulsos do colégio, que eu escutei a história. Um por desenhar nas aulas de geografia. Quem nunca desenhou nas aulas de geografia, né? Outro por brigar com os coleguinhas. E outro por guardar livros ruins debaixo da cama. O primeiro se chamava Hitler, o segundo Mussolini e o terceiro Stalin.
Os três expulsos. Será que a história do mundo não teria sido um pouquinho diferente se não tivessem desistido deles com tanta facilidade? Então, lançou essa pergunta assim, lá o diretor na hora já reabilitou o menino. E o menino depois entrou para o seminário, se ordenou e foi como missionário no Alasca, lá no frio, nos esquimós. Interessante, o engraxate lá que ficava pendurando na cortina, aprontou alguma coisa.
Interessante, né? As pessoas têm muitas potencialidades. Ah, mas fez muita coisa errada, essa menina não fala mais com ela porque ela é uma falsa, porque ela fez isso. Bem, pode ser, sei lá. Mas as pessoas são capazes de muitas coisas boas. Você não deveria desistir tão facilmente das pessoas. Apostar. É uma coisa muito cristã, esse otimismo. Apostar nas pessoas.
Talvez seja o embate mais antigo da criação, seja justamente esse otimismo dos anjos bons e o pessimismo dos anjos maus. O pessimismo infernal, que nada tem jeito, está tudo errado, todo mundo vai se condenar, o que adianta? Deus nos criasse depois, as pessoas fazem tudo o que fizeram, tanta desgraça. E a tese dos anjos bons de São Miguel é que, olha, tudo bem, existe o mal, mas o bem prevalece.
E eu escolho olhar para isso. Eu escolho olhar para a realidade, para as pessoas, a partir da fé, a partir da esperança, a partir da misericórdia. Isso é muito do cerne do espírito cristão. Nessa viagem, uma pessoa comentava dos judeus na Segunda Guerra e falava disso, que eles não gostam de usar o termo holocausto.
Porque o holocausto dá a ideia de sacrifício, pode dar a ideia que a lei tem um fim, que aquilo tem uma coisa boa. E por isso o termo que eles usam é shoah, que significa desgraça, catástrofe, nada de bom sair daquilo. Você não pode considerar que é uma coisa, não, tudo de ruim. E me fez pensar, eu falei, cara, acho que isso aqui pode ser muito da essência do cristianismo. Você acreditar que mesmo da pior coisa,
você consegue tirar a melhor coisa, que essa é a essência da nossa fé. O que é a pior coisa? Qual foi o pior pecado que os homens já cometeram? Matar Cristo, matar o próprio Deus. E daí veio a redenção da humanidade.
Então, é muito do nosso cerne cristão é esse otimismo muito radical. Ah, mas agora aconteceu isso e tal, e a pessoa morreu e foi um jovem. Cara, mas pode ser, mas Cristo recitou, entendeu? Então, sei lá, no fim as coisas dão certo, né? Tem um happy end no final. Porque isso é muito da nossa fé, é isso, sabe? Vai acabar bem, entendeu? Porque Cristo recitou, né? Então, por mais que pareça que está tudo errado, está tudo ruim, eu tenho essa visão sobrenatural, eu tenho fé.
Isso me permite olhar para pessoas e para a realidade com esperança sempre. Não sendo puxado para esse espírito crítico, ruim e negativo. Isso me abre para o terceiro elemento, que é a disposição de abraçar o sacrifício. Jesus ressuscita, e isso é a nossa fonte de esperança, mas antes ele morreu na cruz.
E ele me convida a fazer o mesmo, né? Porque ele quiser ser meu discípulo, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga. Passa pelo sacrifício. Também isso ajuda a vencer o meu espírito crítico. Recentemente, eu escutei o livro O Velho e o Mar, que eu gostei muito, muito interessante, assim, né? A figura do Esteban, o velho pescador cubano, que é uma figura que eu achei apaixonante, assim.
e faz sonhar, poxa, lá um dia eu seja que nem o Esteban, que é um cara super pobre lá, mas é um homem, sabe? É um cara completamente despojado de todo tipo de vaidade, muito curtido lá entre o céu e o mar, e a dureza daquela vida e daquela luta lá para cada dia pescar o seu peixe, e a maneira como ele liga com as dificuldades e com os azares da vida, com a resignação, a humildade que ele tem diante daquele. Mas, ao mesmo tempo, é uma humildade de muita fortaleza.
Eu achei muito bonito isso daí. Ele é capaz de levar as coisas com paciência porque ele é muito forte também. Porque ele não se desmanta, desmancha, desmanta, desmancha diante da primeira dificuldade, porque ele é forte. Então, reclamando de tudo o tempo inteiro. Não, tudo bem. Ele apanha de um lado, apanha do outro, mas ele está lá, ele é firme. Pensava num contraste com uma outra música da minha adolescência.
que dizia uma hora, com tanta riqueza por aí, onde é que está? Cadê a tua fração? É uma fração absurda, porque como você disse, cara, tem tanto carro por aí, tanto carro bacana, como é que ninguém veio me oferecer um até agora? Que injustiça é essa? Que mundo injusto é esse? Eu vou reclamar, vou... Você fala, cara, que idiotice, né? Digo, cara, faz o seu dever de casa, faz a tua cama, né?
Antes de você reclamar, vou dar um discurso da ONU e dizer para os grandes líderes tudo o que eles estão fazendo de errado e salve a Amazônia, sei lá. Tudo bem, faz todo o livro de casa, faz o mínimo, ao invés de reclamar, antes de reclamar do mundo, faz a tua parte. Aprende a sofrer um pouco. Aprende a levar peso. Antes de você se dominar por um espírito crítico, você tem que ser capaz de ser forte, de ser paciente.
de fazer aquilo que te cabe fazer. É um grande antídoto contra o espírito crítico, é isso, sabe? Disposição ao trabalho. Foi uma luz que eu tive, sei lá, 15 anos atrás. Eu estava especialmente crítico lá no centro onde eu morava. Aumenta o meu espírito crítico quanto aumenta a minha preguiça, sei lá. Quanto maior a minha disposição para trabalhar, menos eu fico crítico com os demais. É uma relação muito direta isso daí, né?
Quando não, vamos lá, eu faço. Quando não estou disposto a fazer, eu reclamo. Por que ninguém fez nada? Cara, porque não faz você, então. Lá na Espanha, eles tinham essa brincadeira. Quando tinha algum problema, que alguém haga algo. Que alguém haga algo. Que alguém faça alguma coisa. Tudo bem, você é alguém. Para de falar e faz. Ajuda muito.
Sem a pessoa de ação, sem a pessoa que enfrenta as coisas e com fortaleza. Interessante, né? São Paulo, quando está preso em Éfeso, ele fala com... me alegra dos meus padecimentos. É uma coisa meio forte, né? Porque eu completo na minha carne ao que faltam os padecimentos de Cristo pelo seu corpo, o que é a igreja. É como quem diz bem, isso aqui está chatinho, está preso. Claro que é chato, claro que é ruim. Mas aqui tem um sentido, né?
Eu aguento isso daqui, porque aqui eu estou me unindo a Cristo, eu estou realizando algo importante.
o José do Egito, que é super injustiçado, vendido lá pelos seus irmãos como escravo. E quando finalmente os seus irmãos estão diante dele, e agora ele é um cara poderoso lá no Egito, e ele se revela, eu sou José, vosso irmão, que vocês venderam como escravo. E os irmãos ficam apavorados, ele vai matar todo mundo aqui, porque bem, tudo que a gente fez contra ele. Mas ele os acalma e fala, não.
Não tenham medo, porque foi importante. Deus permitiu que vocês fizessem isso. Porque Deus queria tirar daí coisas boas. Ele minimiza todo o sofrimento que ele passou, que não foi pouco. Ficou preso lá. Não só foi escravo, mas foi preso injustamente. Mas ele veio e dali saíram coisas boas, muito boas. Então, tudo bem. Então, não estou olhando para vocês aqui com desejo de vingança. Porque aquilo fez sentido. Porque eu fui forte para enfrentar aquilo tudo.
carregar peso. Ser misericordioso exige isso da gente. As próprias obras de misericórdia, por exemplo, que é isso, tinha fome, deixe de comer, tinha seis meses de beber, exige que eu tenha, sei lá, comida para dar para a pessoa que tem fome, que eu tenha uma roupa para dar para quem está nu, que eu tenha, que eu seja livre para visitar quem foi preso, que eu tenha algo para dar para as pessoas. As obras de misericórdia espirituais, que é ensinar, corrigir.
Implica, portanto, eu ser forte, eu saber o que é preciso falar. E ser forte para ir lá e falar com a pessoa. Ao invés de ficar dominado por um espírito crítico, será que eu não poderia conversar com essa pessoa? Sentar e falar, olha, às vezes acontece assim, me parece que a tua atitude, né? Confesso que me incomoda um pouco.
porque eu acho que você poderia fazer assim, fazer assado, como ajuda, sabe, você vencer a correção fraterna. Você não fica acumulando listas de ofensas. Eu vou lá e falo, né? Ah, mas é chato falar? Pois é, exige fortaleza. Exige você lealdade, né? Olha, fulano, acho que aqui não está legal, sabe, o que você está fazendo, né? Tua atitude aqui, você ficar falando mal dessa amiga nossa aqui. Isso é uma coisa que pode desleal, né? Você não acha?
Às vezes é importante, sabe, ter essas conversas. E esses dias em São Máximo Confessor. Não fira o teu irmão com palavras em forma de enigmas. As famosas indiretas, né?
Você está achatada com alguém, você fica dando indireta. Enfim, ainda é melhor do que fofoca e falar mal pelas costas. Mas ainda assim não é uma boa solução ficar dando indireta. Não, porque tem gente que não sei o quê. Não sou eu, você está falando de mim. Não fira teus irmãos com enigmas. A pessoa tem que ficar calculando o que está se referindo a mim. Não faça isso. Afim de que recebendo dele a mesma coisa, a pessoa se sente ofendida, ela começa a contra-atacar. Os dois se afastem do amor de Deus.
Você começa lá a criticar, você é criticado e aquilo não faz bem para ninguém. Pelo contrário, com a liberdade do amor, que te dá amizade, que te dá, sei lá, o fato de ser a tua irmã, o teu carinho que tem por ela, vai lá e fala, com a liberdade do amor, vá até ele e repreenda-o, a fim de livrar vocês dois da perturbação e da aflição. Bom, sabe? Criar essa liberdade, essa fortaleza, ter essas conversas difíceis.
de enfrentar situações chatas com as pessoas, com toda a caridade que a gente ficou, com toda a compreensão que a gente vai procurar ter. Mas não é bom. Não falam nada, mas por dentro, estou louco de raiva, né? Porque outra vez, é milhares de uma vez. Então fala, né? Sei lá. Tenta encaminhar-se de outra forma. Uma excelente maneira de combater o espírito crítico que há em nós. Enfrentando.
Na música do Legião Urbana, a Maria Lúcia morreu junto com João, seu protetor, diz assim. Não sei se era muito protetor, mas tudo bem. E a gente pensa nessa outra Maria, cheia de luz, que não morreu fisicamente junto com Jesus na cruz, mas espiritualmente, na espada, transpassará a tua alma, sofreu ali o indizível. E os cinco tiros de João de Santo Cristo podem nos fazer pensar na promessa.
de Nossa Senhora de Fátima, não comunicada pela Maria Lúcia, mas pela irmã Lúcia, que é uma devoção nos cinco primeiros sábados de cada mês. Enfim, não é muito conhecida, mas tem essa devoção, de você fazer uma série de práticas de piedade nos cinco primeiros sábados de cada mês, como uma coisa assim que Nossa Senhora vai te dar graças por ocasião isso. Também os cinco mistérios de cada terço e as cinco chagas de Cristo que ela teve, o cadáver dele nas suas mãos.
Mas apesar de ter tocado literalmente todo o sangue que produziu em nosso Senhor os nossos pecados, a gente sabe que pode acudir sempre a ela com muita confiança, porque a gente vai encontrar sempre esse seu olhar misericordioso, que nos acolhe e que nos dá também a paz.
Dou-te graças, meu Deus, pelos bons propósitos, afetos e inspirações que me comunicaste nessa meditação. Peço-te ajuda para os pôr em prática. Minha Mãe Imaculada, São José, meu Pai Senhor, meu Anjo da Guarda, intercedei por mim.