Episódios de Enquadrando

Enq. 125 - Amanda Jordão: roteirista com muitos trabalhos na Globo e na Globoplay.

24 de abril de 20261h15min
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​Graduada em Comunicação Social (Bacharelado em Cinema) pela UFF, em 2011. Atuou em diversas áreas como edição, transcrição, produção e roteiro para algumas produtoras do Rio de Janeiro. Chegou na Globo em 2013 na função de produtora de conteúdo transmídia. Produziu, roteirizou e dirigiu conteúdo de ficção para diversas plataformas sendo Malhação Sonhos Fanfic um de seus trabalhos indicados ao Emmy Kids Digital em 2016. Nesse mesmo ano, seu roteiro para longa-metragem escrito com Renata Sofia Freire foi semifinalista do prêmio Cabíria. Em 2017 também passou a atuar como roteirista na Globo trabalhando em diversos projetos de humor na emissora. Em 2019 e 2020 trabalhou num projeto de ficção científica para a Globoplay com Igor Verde, Flávia Lacerda e Elísio Lopes Júnior. Em 2021 e 2022 desenvolveu uma série policial para a TV Globo que está em pré-produção, além de um longa-metragem (comédia romântica adolescente) com a roteirista Renata Sofia. Em 2022, escreveu a segunda temporada da série De volta aos 15 (Netflix).

Participantes neste episódio2
R

Rodrigo Carvalho

HostPodcaster
A

Amanda Jordão

ConvidadoRoteirista
Assuntos5
  • Carreira de roteiristaExperiência na Globo · Desafios da profissão · Importância do roteiro
  • Música Eletrônica vs Outras InfluênciasRelação com a criação · Música como elemento narrativo
  • Producao AudiovisualPrecarização do setor · Colaboração entre equipes
  • Representatividade femininaPersonagens femininas complexas · Desafios enfrentados por mulheres
  • Impacto do streamingMudanças na produção · Desafios para roteiristas
Transcrição199 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Eu sou o Rodrigo Carvalho. Oi, eu sou a Amanda Jordão. Opa! Está começando o Enquadrando, podcast feito por amigos apaixonados por cinema e editado por nosso querido Tiago Miro. E hoje estamos aqui para entrevistar a roteirista Amanda Jordão. Obrigado, Amanda, por ter aceitado o convite. Viu? Finalmente está aqui no Enquadrando. Espero que seja muito legal. Imagina. Eu acho que eu estou falando com você há um tempinho. Acho que é desde o meio do ano passado, não foi?

Eu acho que foi, não sei se chegou a ser no meio do ano passado, mas eu sei que foi antes de novembro, porque foi antes da gente se conhecer pessoalmente no Frapa, então... Ah, sim, exatamente. Antes de novembro, com certeza. Foi, foi com certeza. Mas que bom, que bom que você conseguiu. Espero que seja muito legal. E é isso, gente, ó. Nós vamos aqui fazer um papo sobre a carreira da Amanda, vamos falar sobre cinema, sobre filmes em geral. E é isso.

Eu aproveitei para fazer a minha pauta em cima do seu programa do Primeiro Tratamento. Gostei muito. Foi ali que eu conheci você, na verdade, né? Eu passei a ouvir esse podcast, que é muito bom, gente. Se vocês estão interessados aí sobre roteiros, sobre roteiristas e sobre esse universo, ouçam o Primeiro Tratamento. É muito legal.

E aí descobri a Amanda nesse programa, achei muito legal. Achei maneiro não só a sua trajetória, mas a maneira como você respondia as perguntas. Achei muito interessante, vários pontos que eu vou trazer pra cá. E aí eu já vou começar com um ponto na sua história, que eu acho muito legal, que é o seguinte. Entrevistando a Bea Góes, que é do Narratologia, ela teve também um percurso de sair da cidade natal dela pra ir pra São Paulo estudar na USP, porque ela queria muito fazer um curso especificamente.

que no fundo também é uma escolha sua. Você sai, pelo que eu entendi, de Santos para vir para cá para o Rio de Janeiro fazer UF. E, cara, é impressionante isso, porque não é só uma decisão de um curso, né? Não é só uma decisão de uma faculdade. Você está decidindo mudar, sair da sua cidade natal, mudar de cidade, sair de perto da sua família para você cursar o que você quer muito. Como é isso? Como é que você toma essa decisão, Amanda?

Eu decidi que eu ia fazer cinema. Na verdade, eu decidi que eu queria trabalhar com roteiro quando eu tinha 11 anos. Eu era muito jovem e acho que aconteceu pra mim o que aconteceu com muitos roteiristas e pessoas do audiovisual que têm a mesma faixa etária que eu.

são ali no final da década de 80, é uma galera que não via, assim, começou a ver cinema durante a retomada. Então, aqueles filmes Central do Brasil, Cidade de Deus, enfim, os filmes que foram ali daquele período do final da década de 90, início dos anos 2000, e aí

Aí na época eu tinha assistido Central do Brasil, e aí eu lembro de ficar muito emocionada, e eu já era uma pessoa que eu gostava muito de escrever, eu já escrevia muito na escola, e aí eu vi o filme e falei, caramba, né, imagina viver provocando emoções nas pessoas, eu lembro que eu fiquei muito tocada, e até então isso não tinha acontecido com nenhuma obra, e eu...

E aquilo me tocou também porque era uma coisa brasileira, sabe? Então era também próximo, assim. E aí, na época, teve também... Acho que foi logo depois que teve o Alto da Compadecida. Foi meio que esse período, assim, né? E obras muito brasileiras, assim. E eu pensei, cara, isso deve ser bom, assim. Aí eu entendi que as pessoas trabalhavam com roteiro. Mas, obviamente, era uma coisa muito distante. Eu sabia muito pouco, mas eu decidi que eu ia fazer isso na vida.

Caraca, maneiro. Caraca, roteiro, muito bom. É, de maneira, obviamente, completamente fantasiosa, né? Sem ter ideia do que eu precisaria fazer pra isso. Mas eu falei, ah, então é isso. Então existe uma faculdade de cinema. E aí, quando eu chego... E aí, basicamente, eu cheguei até a mudar de escola. Porque eu falei, cara, eu quero fazer uma escola que me permita tentar uma universidade pública. Então eu realmente alejei. Eu entendo que isso é uma coisa também difícil de você... É difícil você ter essa noção quando você é muito jovem, sabe?

totalmente, totalmente e obviamente depois que eu entrei no audiovisual eu já repensei inúmeras vezes essa decisão caramba, o que eu escolhi isso, sabe, mas realmente é uma coisa que me acompanhou desde muito cedo, então eu tentei até, eu me inscrevi no vestibular da Provest, que é pra tentar USP, eu tentei, na época eu cheguei a fazer até o vestibular da UFSCar que também tinha, mas aí eu E aí

Falei, cara, eu vou tentar UF também, porque a primeira vez que eu tentei, eu só tentei São Paulo. Quando eu tentei o segundo ano, eu fiz um ano de cursinho, aí eu falei, cara, eu vou tentar UF também. E aí passei, porque assim, a opção de universidade particular, que no caso a FAP e tal, pra mim não era uma opção. Não teria como... Nossa, sim, sim.

Minha família não teria como marcar com esse custo, assim. Então, eu falei, cara, vai ter que ser uma universidade pública. E aí, eu corri atrás disso, assim. Foi meio que, cara, pelo menos lá... E aí, eu me mudei e fui morar num pensionato que tinha quase 30 pessoas. Caraca. Mal sabia você que já estava adquirindo várias experiências para escrever depois, né? Com toda certeza.

Pô, que maneiro, que maneiro Foi isso, assim, meio que uma decisão E meus pais, assim, curioso isso, né Porque meus pais não são da área artística Meu pai era funcionário público Trabalhava no Instituto Brasileiro do Café E tinha que nada a ver Minha mãe é dona de casa Então não tinha, assim, uma Mas meus pais sempre falaram, não, se é isso que você quer Então tá, bora, sabe

Que maneiro, que maneiro. Mas é um desafio sair de casa, assim, eu acho que como eu queria muito também, eu não tinha muita noção do que seria sair de casa pra correr atrás disso. Eu entendi que quando eu, de fato, entrei na faculdade e conheci as pessoas e via que tinha gente que morava no Rio e que já morava, às vezes, na Zona Sul e que já tinham, sei lá, às vezes, pessoas da família que eram da Aratítica, eu entendi que eu já tava, eu tava muito atrás, assim, sabe? Tem.

Caraca. Entendeu? É. Boa. É interessante que você acabou meio que me respondendo um pouco uma pergunta que eu faria, que é, se tem de fato um filme que vai te tocar de tal maneira que faz com que você não necessariamente pense em roteiro, mas até que você respondeu que sim, mas pense em cinema como algo pra você. E aí seria de fato o Central do Brasil, é isso?

É, eu acho que foi muito, pra mim, foi muito determinante, assim, sabe? Meio que é uma lembrança que eu tenho desde sempre. De ver aquele filme, eu vi em casa, eu não vi no cinema. Eu vi com a minha mãe e com o meu irmão. A gente alugou uma fita. Caraca, pode crer. E aí eu lembro que eu chorei muito, assim. Não era uma coisa tão comum, assim, sabe? Sim, sim. Eu vi obras que eu falava assim, caramba, sabe? E aí eu fiquei muito emocionada. Falei, putz, é isso, assim, sabe? Acho que esse é o caminho.

Nossa, é um filmaço mesmo. Você já pegou um filmaço, né? É muito interessante que não só ouvindo você, mas também fazendo uma pesquisa, dá para ver que você trabalhou em vários projetos muito diferentes. Então, por exemplo, esse ano, pelo que eu vi, você está lançando o filme Roubo do Cão.

agora na Globoplay, não é isso? E Reencarne, que é uma série, né? E também Globoplay, também agora nesse ano. Então, Reencarne é o quê? É um terror. Eu acho que você menciona que é um terror com melodrama. Enquanto que o roubo do cão imagina que seja infantil. Então você vai de um ponto ao outro, né? E continua assim, sua carreira foi toda assim, muito plural, com gêneros muito diferentes.

Sim, eu tenho gêneros que eu gosto mais e eu me sinto mais confortável de trabalhar. Mas a minha impressão é que eu também fui... Acho que são várias coisas, é um conjunto de coisas, né? A gente, quando entra no audiovisório, a gente tem, como eu disse, uma ideia meio fantasiosa de como vai ser isso, do tempo que as coisas vão levar, sabe? E a realidade é muito distante disso, assim. E conforme eu fui entrando na área, eu também fui fazendo amigos.

E aí esses amigos, por sorte, eu entendo hoje que eu tive muita sorte, esses amigos também viraram parceiros de escrita. Então o Igor eu escrevi enquanto, eu conheci ele enquanto a gente fazia malhação, eu trabalhava como transmídia e era assistente de direção. E aí a partir dali ele queria escrever, eu também já queria escrever. Aí a Renata Sofia também, a Renata trabalhava no G-Show, a Renata é colaboradora da Rosane Svartman, enfim, uma roteirista muito experiente. E aí a Renata Sofia.

E a Renata eu conheci também ali, trabalhando no G-Show. Eu entrei na Globo junto com ela, sabe? Então, ela trabalhava numa área editorial e eu trabalhava mais numa área artística. E aí a gente se conheceu e ela também queria escrever. Então, em algum momento, a gente foi escrever uma comédia romântica adolescente. E aí esse roteiro foi pro Cabiria. Enfim, foi meio... Bom, que maneiro!

E essas pessoas foram virando minhas parceiras de escrita, que também são minhas amigas. Então, tem também uma facilidade de serem pessoas com quem eu tinha intimidade. E aí, acabou que eu fui atraída muito. Eu queria escrever. Então, eu iria aproveitar qualquer oportunidade que eu tivesse. Então, na Globo, por exemplo, eu comecei o Transmídia e depois eu migrei.

pra roteiro e eu trabalhei com comédia, né? Então eu trabalhei com roteiristas também que já faziam aquilo há muito tempo e eu não tinha essa experiência em comédia, por exemplo, sabe? Eu trabalhei com a Tati Maciel, sabe? Com o Célio Poto e eram pessoas que já tinham feito coisas que já tinham sido exibidas e tal, sabe? E foi muito bom, assim, sabe? Sim. Você entrou muito cedo, né, na Globo, não foi isso? Você entra bem novinha, não é?

Eu entrei na... É que é isso. Eu trabalhava como... Eu fazia comunicação das redes sociais do projeto chamado Sinema para Todos. E quem cuidava era a produtora da Rosane Svartman, assim, que era a RACOR. Acho que hoje ela não tá mais na RACOR, mas a RACOR foi uma criação dela. E aí... E da Clélia Bessa. E aí eu trabalhei lá. E aí de lá eu saí pra Globo, pro departamento de Transmídia. Eu entrei na Globo em 2013. Eu tinha 26 anos. Pode ter. Então, bom, maneiro.

E ali eu sinto que foi muito Eu sempre falo que o departamento de transmídio Pra mim foi muito uma escola de como Como funciona a TV Assim, ouvindo você explicar No primeiro tratamento, eu fiquei ansioso Só de ouvir tudo que você fazia Essa

Caraca, assim, é muito doido, porque todo o material que era, sei lá, pras redes e pra internet que contornava a novela, era você que produzia tudo, né? Desde um, sei lá, um canal teórico, canal do YouTube de um personagem, ou um blog de um personagem, é você que fazia. E você fazia também as chamadas de televisão de cada episódio, meu Deus. Tipo, loucura, assim.

Era, e assim, foi muito curioso, porque eu entrei sem saber a quantidade de coisas que eu ia ter que fazer, assim. Embora eles me falassem, ah, você vai fazer isso, isso, mas também depende da obra, depende do autor. Eu falei, tá bom, e eu entrei meio sem ter noção, assim. Quando eu vi, eu já tava assim, caramba, olha a quantidade de coisas que eu tenho que fazer, assim, sabe?

sem ter uma, não é que a gente tinha uma equipe assim, tinha uma pessoa que editava tinha uma pessoa que filmava comigo, geralmente e tinha, sempre tinha alguém alguém que filmava e alguém que também entendia tanto de áudio quanto da foto, e aí tinha eu ali, mas assim, era uma equipe reduzida sabe? Caraca, que loucura era um esquema de guerrilha mesmo, assim, sabe? sim, sim, sim, que loucura, assim obviamente deve ter gerado vamos lá, vamos lá, vamos lá

Uma experiência pra vocês gigante. Mas assim, caramba, né? A que custa também essa experiência, né? Ainda que ela venha, né? É assim, eu fico feliz porque não foi também em tanto tempo. Eu acho que eu não aguentaria aquele ritmo. Que era um ritmo que às vezes eu chegava muito cedo e saía muito tarde. Porque o que acontece é, muitas vezes eu chegava, eu ia pra gravação, voltava pra sala de produção.

e aí ficava planejando as coisas dos outros dias que eu teria que fazer então era um esquema realmente é isso, foi muito rico, porque eu acho que eu sinto que às vezes quando a gente só trabalha com roteiro, a gente acaba ficando um pouco blindado de questões de produção sim, sim

Eu não tinha muita noção, quando eu comecei, eu não tinha muita noção de que existe uma porcentagem, de que você vai gravar de estúdio, de cidade cenográfica, que você não pode botar o elenco todo numa sequência gigantesca, porque esse elenco não vai conseguir gravar outras frentes e como é que vai fazer. Então tinha uma questão de organização que eu não tinha ideia.

sabe, de como era, e acho que trabalhar ali na sala de produção e também tem o fato que, assim, as pessoas ali, elas foram muito generosas comigo, assim várias vezes eu falava, pô, como isso funciona, como é que é o orçamento disso e os produtores, eles, sabe sentavam comigo, me explicavam eram disponíveis, assim eu sinto que isso me ajudou muito, assim hoje quando eu escrevo eu tenho noção do custo das coisas, sabe, ah, isso aqui é uma cena cara, isso aqui, o que que eu vou ter que sacrificar pra ter essa cena, entendeu sabe que eu tenho que provocar

E pensando nisso, que hoje você tem uma consciência de produção muito maior, você acha, eu imagino que te ajude muito a você entender o custo do seu projeto, o que você está oferecendo, e adequar talvez alguma produtora, alguma coisa assim. Mas você acha que de alguma maneira pode te, sei lá, te limitar ou te travar? E tem momentos que tem que parar um momento e falar, calma, estou pensando muito na produção, muito no resultado em si financeiro e tal. Sim, sim.

Eu sou sempre um pouco a chata da produção, assim, nas equipes em que eu estive. E eu acho que também é isso, né? Uma sala de roteiro, ela não é pra ter pessoas do mesmo perfil, assim. Isso é ruim pra uma história, né? É bom que você tenha uma pessoa de diferença. Então, sempre vai ter uma pessoa que vai voar um pouco mais, entendeu? Sempre vai ter uma pessoa. E aí, eu sinto também que é parte da minha função falar, gente... Faz sentido. Sabe? Não dá, assim, isso aqui... Eu não tenho...

Porque também chega uma hora que você fala, cara, isso aqui não vai ser feito. Eles não têm dinheiro pra isso, assim. Não tem, não tem como. Claro, claro, claro. E eu acho até, antes de falar com você, eu tava tendo outra conversa. E aí me perguntaram sobre isso, essa coisa do custo e tal, sabe? E eu falei, é isso, você tem que trabalhar idealmente.

Sim, e eu sei que é difícil porque eu sinto que o nosso mercado ele tá ficando cada vez mais segmentado. Então, as pessoas trabalham no roteiro, especialmente série, né? Novela não tem como ser assim, mas série é, você faz e aí depois entra a produção. Isso aí acaba sendo meio ruim, porque é bom você ter a produção ali do seu lado sempre e você fala assim, cara, isso é viável? Porque senão eu não vou nem escrever, entendeu? Sim, sim.

O orçamento que a gente tem é possível? Ah, não, isso é da ordem do inviável, então vamos pensar em outra coisa, sabe? Sim. Ajuda, sabe?

Interessante, porque a gente acaba tendo uma ideia de que o produtor e a produção é sempre um inimigo. E não necessariamente, não necessariamente acho que é dar, de fato, essa consciência, às vezes, ela vai ser, de fato, importante e prática, porque vai ser inviável, como você falou. Mas tem um pouco disso, a demonização do produtor e tal.

Tem, e eu acho que isso é uma coisa que a gente tem que... É isso, tanto o produtor não enxergar a gente como, ah, pessoas malucas que têm ideias que não sabem como eu vou executar, quanto a gente também enxergar o produtor como um parceiro artístico, assim, sabe? Porque, no final, é o produtor que tem o poder de viabilizar aquilo que a gente, sabe, sonhou em contar, então, assim... Exatamente.

É uma parceria, eu não vejo como é possível, assim, então eu sempre jogo junto, assim, pô, queremos fazer isso, queremos contar isso aqui, como é possível, o que você sente disponível, sabe? É meio, eu acho que é sempre uma parceria, sabe, e não duas áreas completamente separadas, eu acho muito ruim.

assim, sabe? Faz todo sentido, faz todo sentido, né? A gente acaba, às vezes, ignorando o fato que se impõe, né? Na verdade que cinema é uma indústria, né? Tipo, não tem como fugir disso, né? Uma produção que, caríssima, ainda que não seja um filme pequeno, ou seja, uma série menor, vai ser caro do mesmo jeito, né? Assustador. Ano passado finalmente eu fui acompanhar um set de filmagem de um filme longa, mas um longa pequeno, sabe?

Pequeno, de uma amiga minha, e mesmo assim é caro, mesmo assim os custos vão aumentando, né? É impressionante, é impressionante, não tem como fugir, né?

É, e mesmo aquilo que se chama de cinema autoral, que às vezes fica muito a coisa do ah, o diretor, o sérgio, o filme, dê fulano. Mas mesmo essas pessoas, se você olhar a lista de créditos, elas geralmente trabalham com as mesmas pessoas, os mesmos montadores, os mesmos diretores de arte. Exatamente.

Então, assim, é autoral? Não é. Se não fosse, ela não precisaria desse mesmo grupo de pessoas sempre. Então, não é. É sempre uma coisa colaborativa, sabe? Se for autoral, é autoral de todas essas outras pessoas que também estão trabalhando ali, sabe? Sim, sim, com certeza. Você falou uma coisa no primeiro tratamento...

várias que eu achei muito interessante. Uma delas que ao longo da produção em si, do set em si, por conta de fato da dificuldade de se fazer uma série, se fazer um filme, independente se vai ser uma produção dentro da Globo ou se vai ser fora, de guerrilha de fato, você vai perdendo um pouco, não só da própria história que está sendo contada.

tá dali, né? E talvez você vai perdendo um pouco da ideia da arte no meio desse processo, porque tudo é solução de problema, tudo é você resolver os problemas e entregar o que tem que ser entregue e você perde um pouco da essência da ideia de que aquilo ainda é arte, né? Aquilo ainda é uma história a ser contada, né? E vendo essa produção desse filme, eu vi o quão difícil é manter isso, né? Como é difícil manter essa percepção de cara, a gente tá contando uma história, sabe?

Pensar um conceito, sei lá, da filmagem, da fotografia ou seja lá o que for, quando você tem inúmeros problemas pra você simplesmente filmar plano, plano, contra plano e entregar, né? Sous-titrage Société Radio-Canada

É impressionante como você vai se perdendo, né? É, porque acho que a gente está passando por uma precarização também do setor como um todo. Dentro disso, o roteiro nem é, assim, embora seja prejudicado, não é o mais prejudicado, assim. A equipe técnica sofre muito, a equipe de sete, assim, sofre muito, assim.

Então, você sempre tem que equilibrar uma certa sensibilidade também de entender que parte do trabalho do diretor, por exemplo, é mobilizar a equipe em torno daquela história. Não achar que as pessoas... Ah, tá todo mundo aqui fazendo trabalho, então tem que fazer do jeito que eu quero. Não funciona assim, sabe?

não funciona desse jeito, assim, porque as pessoas não são máquinas, assim, então, às vezes a pessoa tá ali trabalhando, um dia é um diretor legal, outro dia não é, então aquilo vai cansando, a pessoa chega ali, às vezes, desmotivada, entendeu? Então, tem um monte de variantes, assim, aos poucos eu fui entendendo que, assim, o roteiro é o ponto de partida, mas, é, às vezes você se diverte fazendo e o resultado não é bom, e às vezes o resultado é bom, mas foi horrível o processo. Foi horrível, sim.

Então assim, são tantas coisas que precisam dar certo pra você de fato fazer uma coisa que você gosta e que o resultado é compatível, sabe? É realmente difícil, é uma equação que eu sinto que ela é difícil. E às vezes você entra no set e você fala assim, nossa, o diretor tá tão relaxado, esse set tá tão calmo, e até parece que não tem o esforço, mas aquilo ali não é fácil.

assim, sabe? Eu fui no set do último filme do Jorge Frutado, que ele tava filmando lá em Porto Alegre. Pô, maneiro, cara. Eu não sei qual vai ser o nome final do filme, mas enfim, eu fui lá e o Jorge, é isso, é um cara super tranquilo, assim, no set. Ele planeja...

até bastante, assim, com a assistente dele e tal. Ele se organiza, assim, é tudo muito organizado, tem ensaio e tal. E quando chega ali no set, ele tá muito seguro, a equipe tá confortável, sabe? Não tem ninguém com medo, apavorável, tá todo mundo confortável ali, fazendo seu trabalho, uma produção que tá meio que tudo funcionando, assim, sabe? Sim, sim, sim. E aí talvez entre o que você falou, né? Ele vai ter os colaboradores que ele tem confiança, né? Que ele já tem uma familiaridade, né? Difícil fugir disso também, né?

Eu acho que é difícil, eu acho que assim é sempre bom, eu tô fazendo uma série agora, que as somos eu e Renata Sofia e o resto da equipe a gente não escolheu, foi a Globo que deu pra gente e eu, assim, a gente sempre fala assim, cara, talvez a gente não escolher essas pessoas, não porque elas não são

ótimas, porque a gente não conhecia elas, mas assim, foi ótimo porque deu a chance da gente escolher, assim a gente tá trabalhando com pessoas incríveis, assim sabe, pessoas incríveis, pessoas que tem outras experiências muito diferentes, assim sabe, então eu acho também que a gente tem, eu sinto que sempre tem que tentar equilibrar um pouco isso pra não ficar nas panelinhas e também assim, me colocando no lugar dessas pessoas já estive, assim, na situação de, pô, eu tô de fora disso então

Ele conhece, então é muito ruim, sabe? E eu acho, assim, a gente tem também, eu sempre tento, assim, pensar em, pô, vamos trazer alguém que não teve nenhuma chance ainda, vamos trazer alguém pra... Vamos, manhã, manhã. Também aproximar desse universo, porque eu acho que o que acontece muitas vezes, o audiovisual é um ambiente que pra muita gente é inalcançável, sabe? Então, isso dá uma ideia de que é tudo muito difícil, de que é difícil de você entender.

que é difícil de fazer, que é difícil e eu acho isso muito ruim, assim, quando você tá próximo ali, você entende que é um trabalho que aos poucos você vai sabendo como funciona. Maneiro, maneiro.

Há uma cobrança quando você é roteirista de quando você vai apresentar seu projeto numa rodada de negócio ou você vai apresentar, sei lá, em qualquer lugar, para qualquer profissional, qualquer produtor ou produtora. Há uma ideia de que seu projeto tem que chamar a atenção. De alguma forma, ele tem que ter um frescor, ele tem que ter uma visão, uma outra visão de uma coisa familiar, ele tem que ter algum tipo de inovação, ainda que ele seja muito familiar para quem está vendo, para que ele seja de alguma maneira popular ou tradicional. Mas tem essa inovação, esse elemento novo.

E aí cai no mesmo ponto, né? Que isso é muito engraçado. Quando você falou, eu acho que é uma verdade enorme. Que é assim, quando ele entra em produção, esse mesmo projeto, sabe? Que foi escolhido por conta dessa inovação, por conta desse novo olhar. Esse novo olhar vai se perdendo na produção, né? Talvez por medo do risco, uma questão financeira. Vai se tirando exatamente o que não é tão óbvio, tão familiar, né? Vai se perdendo um pouco isso, né? No geral, eu digo, né? E eu imagino quão frustrante é isso, de algum nível.

Eu acho que tem uma coisa que é, a gente está vivendo um momento inseguro do mercado audiovisual, de a discussão sobre como vamos regulamentar os streamings, enfim, as plataformas. E eu acho que esse ambiente de medo, ele é sempre muito ruim para a criação. Porque nada bom surge do medo. E aí é muito mais difícil, porque os executivos acabam querendo coisas muito certeiras, só que não existe.

Não existe, exatamente. Não existe. Se existisse, se essa fórmula existisse, estaria todo mundo acertando muito. E não é o que a gente está vendo, sabe? Exatamente. Então acho que tem uma coisa de, ah, apostei nisso. E aí o que acontece é que mesmo o Executivo, ele apostou em um projeto que é ousado, que tem alguma coisa ali muito diferente.

Ele, dentro do ecossistema ali, dos outros executivos, ele vai ter que também trabalhar pra vender esse projeto, sabe? Por mais que ele aposte, ele vai ter que vender isso. E aí o que acontece é que ele também acaba tendo que passar isso pra quem tá escrevendo, dirigindo.

E aí vem uma série de cobranças nesse sentido. E aí eu acho que o executivo está fazendo o papel dele. De certa forma, garantir que aquele produto seja bom, que ele esteja dentro do orçamento, etc. Mas eu acho também que é parte do trabalho do roteirista e do criador brigar para contar a melhor história possível, sem fazer loucura no sentido de orçamento e tal, respeitando isso, mas entender que é uma negociação, sabe?

Eu acho que não dá pra gente... E aí eu tô falando essencialmente do mainstream, porque eu acho que quando você faz um edital, é diferente. Você tem uma outra liberdade, assim, sabe? Você vai ter ali uma alimentação financeira, mas em termos artísticos, daquilo que você pode ou não pode, é muito mais livre, sabe? Você tem...

Por isso que é importante você fomentar e ter editais, porque é como você vai realmente tendo pessoas novas, diferentes, obras diferentes. Eu acho que no audiovisual tem isso, a gente está vivendo um momento de muito medo. E eu acho que é sempre... Eu sempre me vejo nessa posição, assim, enquanto roteirista e tal.

Quanto eu posso ir pra que a história seja feita. E o quanto eu tenho que falar. Putz, até aqui eu vou. Até aqui não dá mais. Eu tento o meu máximo, assim, sabe? Sendo respeitosa e tal. Mas essa é uma parte que não te ensinou na faculdade. Sim, sim. E que é feia de falar. Eu sinto que é meio feia de falar. As pessoas não falam muito. Mas que é uma parte grande do trabalho.

É enorme, né? É enorme. A parte da negociação, da política é uma parte grande, assim, sabe? Eu confesso que eu tive dificuldade nisso e ainda luto, porque tenho fases também que eu sou mulher, então às vezes, se eu sou um pouquinho mais assertiva, você já é colocado no lugar de, putz, essa pessoa é difícil. Tô difícil.

Sim, é. Então tem também isso, então é sempre, eu fico ali sempre atenta, assim, tento ser o mais respeitosa possível, mas tento sempre brigar pela história, sabe? É sempre, eu sinto que é o meu papel. No geral, eu tive boas experiências, assim, sabe? Eu não digo nem, eu não falo nem do resultado em si, mas eu falo do processo, assim, de conseguir falar, conseguir negociar, conseguir levar. Sim, sim.

as questões que eu tinha, assim, sabe? Mas eu entendo que, como também é isso, por exemplo, você é contratado pra escrever uma série, aí você escreve essa série, aí você passa um... Essa série vai ser feita, mas assim, você já não tá mais contratado, você já saiu, você já não tá acompanhando o processo, então também é fácil as coisas irem se perdendo, porque você não tá ali, então se você vai segmentando tudo, ah, agora vai escrever...

ver, agora vai produzir, agora. Isso também vai se perdendo, assim, sabe? Nesse esquema de produção, assim, é difícil, assim, por isso que às vezes eu vejo as pessoas analisando filmes sérios, assim, sabe? E hoje eu sempre penso que, cara, tem um processo aí que é um pouco mais complexo do que a gente, sabe? Sim, sim, eu me sinto até mal, porque fiz muito isso no Enquadrando e a gente perde total a dificuldade que é essa construção, né? Como pode ir pra tudo quanto é lado.

É, mas eu acho que quando você faz um enquadrando, por exemplo, tem ali ainda um debate, uma discussão, uma coisa que é um pouco diferente. Acho que na internet, eu sinto que na internet, puramente comentário, ele acaba não tendo tanto esse espaço de nuance, né? É, vira uma coisa muito... E aí, por exemplo, teve um dia que eu tava trabalhando aqui, e a minha mãe tava em casa, e ela tava me ouvindo aqui, ter uma reunião de redação, assim, né?

E a gente ficou umas cinco horas, que era uma leitura de episódio, então a gente tava debatendo, debatendo, debatendo, debatendo. E ela...

Aí eu saía, eu zausto, assim, aí ela falou Nossa, eu trabalho isso, né? Vocês fazem isso pra todo episódio? Falei, mãe, a gente faz pra todo mais de uma vez, assim. Cara, cara. Faz mais de uma vez. Então, assim, quando o episódio chega pra produção, entra a redação, ele já teve umas sete versões, sabe? E aí, você vai debater outras questões, porque aí tá entrando um monte de gente que tá lendo pela primeira vez, e aí você vai ter que falar, cara, isso aqui a gente pensou muito, sabe?

Exatamente, já passamos por essas questões que vocês estão colocando aí lá atrás, né? Exatamente, exatamente. E aí você tem que ter também a paciência de falar, cara, essa pessoa vai trazer coisas que eu nem tinha pensado, nem tinha imaginado. E tá aberto a isso também, sabe? Porque uma vez que ele vai ser feito, isso sai do seu controle. Você não vai ter controle sobre tudo. Eu nunca tive experiência, por exemplo, de encontro roteirista em todos os sets, assim, sabe?

nunca tive essa disponibilidade, porque às vezes quando tá filmando uma coisa que eu fiz eu tô escrevendo outra, então assim você não vai ter esse controle assim, sabe claro, claro, então você tem que também tá disponível pro que vai ser criado a partir disso, sabe claro, claro, e sobre quando você fala sobre essa questão do controle, você tem vontade de dirigir né, pelo que eu vi no primeiro tratamento não sei se você já dirigiu, mas parece é um pouquinho anterior, né, esse programa, né tá

Acabou que eu não dirigi ainda. O que acontecia era, quando eu fazia transmídia, eu tinha que dirigir. As chamadas eu dirigia. Eu dirigia os episódios ali. Alguns episódios eu dirigia, outros eram dirigidos pelos assistentes de direção. Mas eu nunca podia assinar. Então, o crédito de assinatura de direção eu não tenho. Até fiz coisas como assistente, mas não é a mesma coisa. Sim, sim, sim.

Mas é um desejo seu, né? Dirigir. Mas aí, pelo ato do dirigir, ou porque também tem a ver de você conseguir finalmente ter um certo controle do resultado do que você escreveu? Ou tudo junto? Não, eu continuo achando que mesmo dirigindo, você não vai ter esse controle. Não vai ter esse controle, né?

Eu acho que eu chego a acreditar que vai ser mais frustrante ainda. É mesmo? Caramba. É, eu acho isso. Porque, assim, na verdade eu quero dirigir porque eu acho que é uma outra maneira de contar história, sabe? É um outro jeito, assim. Porque aí quando você vai pra realização, você tem que lidar com outras questões, assim, sabe? E me interessa pensar, por exemplo, sentar com a direção de arte, com a fotografia, pensar o conceito disso, sabe?

ver o que surge a partir disso sabe, eu tenho um projeto de direção que é um roteiro que eu escrevi e que eu quero fazer, e aí é isso, já tem umas pessoas que eu gostaria de trabalhar, já falei com elas, já sabe, e eu acho tudo isso isso eu acho interessante, mas eu acho que ainda assim você não tem controle, porque tem também, sei lá, o fotógrafo ou a fotógrafa, ou a diretora de arte ela vai ter as vontades e os desejos específicos dela, e a não ser que você seja uma pessoa extremamente autoritária

Sim. Que é terrível e eu não quero ser essa pessoa, você não vai conseguir controlar isso, entendeu? Sim, sim, sim. E você vai ter que também ali negociar, assim, ah, vamos fazer assim, beleza. A pessoa que está na fotografia, pô, ela entende mais do que eu, sabe? Eu não vou ali falar, ah, não, pô, vamos fazer do meu jeito, sabe? Não, vamos ver, vamos ver qual é, sabe? Então eu acho que esse controle no audiovisual, eu acho que ele é...

impossível. É, não, faz sentido. E, na verdade, não só é impossível, como parece que essa colaboração faz parte do que é cinema, né? O cinema é assim, dessa maneira, né? São vários olhares, cada um na sua especialidade, que, no final, você tem um resultado, né? Então, assim, eu acho que também negar isso também é você negar parte do que, sei lá, do que é a essência do cinema também, sabe? Eu acho que, por mais que você tenha diretores autorais que controlam todas as etapas, hein?

Ainda assim há uma colaboração, ainda assim há os outros profissionais adicionando aquele filme. E torna muito interessante, né? Eu acho que faz parte. É, e aquela pessoa, ela vai ter outras referências, ela vai ter outras soluções, ela vai ter outras ideias, é isso. Ela vai trazer coisas muito distintas, assim, sabe? Claro.

Eu acho que é mais você entender assim, pô, quem eu quero ter junto aqui nesse processo que é cansativo, é longo, entendeu? Quem, pô, vai colar e vai estar junto mesmo. E aí você vai negociando sempre, assim, sabe? Mas esse controle realmente... Eu acho que assim, a não ser que você seja uma pessoa milionária que consiga bancar suas coisas...

Acho impossível. Totalmente. Aí o dinheiro consegue chegar um pouco mais perto disso, né? Exatamente. Mas fora isso, porque também as pessoas querem se sentir parte daquilo, não é só você. Exato. Exatamente. A pessoa quer ver a marca dela ali também, entendeu? É claro. Conversando com você, me reforça muito uma ideia também, que eu vejo que é muito negado nas conversas que há entre roteiristas, principalmente a galera que está começando a gente.

de, sei lá, uma resistência a entender que escrever o roteiro é parte de um processo quase industrial, né? Em que você tá entregando um produto que é técnico, né? Que assim, que vai servir ali pro diretor de fotografia e tal. Que se você tivesse um cinema, teoricamente, só artístico, sabe? Só artístico, só autores. A função do roteirista teria despencado, sabe? Nesse processo, né? Então, assim, eu acho que quando a gente pensa em indústria, pra gente que é roteirista, é bom pensar em indústria, sabe?

É bom pensar em indústria porque você tá construindo algo e vendendo, ou então vendendo o seu serviço, né?

E há uma resistência enorme, porque parece que fica menos artístico, né? Fica menos, não sei, né? Sei lá. Mas é engraçado perceber uma resistência, né? Tipo, quando você é diretor, nem tanto, né? Porque aí você já pensa no diretor como algo mais autoral mesmo, né? Tipo, ah, não, tal. É, mas no final o diretor também, ele vai ter que também solucionar coisas, né? Vai? A não ser que ele fique completamente alienado, porque eu tava até, eu fui ver aquela série, aquela série documental, que é com Scorsese, sabe? Tô ligado, tô ligado. Sim, ainda não vi, pô, de geral.

Vale ver, assim, porque você vê que, assim, primeiro, realmente, o amor dele por contar histórias é uma coisa... ele realmente é apaixonado. E você vê a quantidade de coisas com as quais ele teve que lidar de negociação, de, sabe, de que tudo aquilo fez parte o tempo todo. Ele até fala, tem uma coisa engraçada, que ele fala que ele, assim, ele é conhecido por lidar bem com o executivo, porque ele é... Isso tá na série, tá? Ele que fala. Tá. Ele não se sentia desconfortável porque ele cresceu ao lado de mafiosos.

Então, pra ele, estar numa mesa com pessoas poderosas era uma coisa comum, sabe? Muitas vezes eram caras com quem ele cresceu e aí foram ter uma vida diferente da vida dele, sabe? Mas ele escreve sobre mafiosos e tal, porque era o universo dele mesmo, assim, sabe? Ele cresceu nisso, assim. E aí você vê que ele lidou com todas essas questões, assim, sabe?

Ah, é um diretor super autoral. É, é um diretor super autoral, mas, assim, as personagens femininas dele dizem muito sobre a relação dele com as mulheres, assim, sabe? Tudo veio ali, entendeu? E tudo que ele lidou com a família, com tudo, assim, no final, eu acho que mesmo o diretor ele acaba tendo que lidar. Eu sinto, assim, eu tenho essa coisa de, ah, nós somos artistas, mas artistas são trabalhadoras, assim.

Nós somos sempre operários Eu nunca Isso é uma coisa que eu nunca perco de note É curioso que às vezes eu sinto Que quem está de fora e quem não conhece Muito bem a indústria tem uma ideia Glamorizada daquilo que a gente De que, ah, não, você faz uma coisa Eu faço uma coisa muito legal, tenho noção Disso, assim

que é muito legal você chegar na casa das pessoas pessoas assistirem, comentarem é realmente, é muito legal é difícil você também às vezes não se deslumbrar um pouco nisso porque é uma coisa, sabe, é incrível mas é um trabalho no final, assim, sabe e eu acho que tem uma coisa que a TV te dá, que é se fazer diário, que você sente como cria uma rotina, eu acho que é diferente pra talvez, pra o cara que faz cinema e filma uma vez a cada dois anos talvez seja mais difícil sentir isso que você tem que ver

Porque ele não tem esse fazer diário, né? O fazer diário dele é diferente. Você acaba tendo uma noção de, cara, isso é o meu trabalho, assim, sabe? E aí, a Globo me deu muito isso, assim, sabe? Eu sou muito grato por isso mesmo. Porque eu ia lá e, cara, a pessoa, o cara tá ali, ele tá trabalhando, ele bate ponto, ele tá trabalhando tantas horas por dia, ele tem que voltar pra casa dele, que é no subúrbio, que é longe, que é, sabe?

E eu acho que é, pra mim, foi muito importante isso, assim, sabe? Enxergar... E aí, vamos lá.

um trabalho, e aí você cria, claro eu sempre penso, pô, vou criar o melhor ambiente possível aqui, seja numa sala de roteiro, seja num set, vou tentar fazer uma melhora, que pô, as pessoas estão dedicando é uma arte cara, sabe? É isso que você falou, mesmo que você foi lá num set que era um filme de baixa de assamento, é caro ainda assim é caro, entendeu? É caro você demanda muito tempo das pessoas que você pode provocar as pessoas E aí

As pessoas estão ali 12 horas, sabe? Às vezes 5, 6 vezes na semana. Pô, isso é muito tempo. Então tem que minimamente... Eu sinto que às vezes eu prezo até criar esse ambiente do que acima de tudo ter o resultado. Eu acho que acima está o ambiente, sabe? Ou ter condições de trabalho razoáveis para as pessoas, dignas, sabe? Eu acho que isso está acima.

Cara, concordo total. Você escreveu a segunda e terceira temporada do De Volta aos 15, não é isso? Uma série com a Maísa, muito legal. Esse é o gênero que você sente mais confortável, que você gosta mais? O roteiro que, por exemplo, você pretende dirigir seria nesse teor de, não sei se é uma comédia romântica ou alguma coisa assim, mais para um público mais adolescente?

não é adolescente, mas eu gosto muito eu acho que esse público é negligenciado no Brasil, assim, em comparação com o resto do mundo, especialmente Estados Unidos, Inglaterra, assim eu vejo a minha sobrinha, que tem 16 anos as coisas que ela vê são grindas no geral, assim, sabe sim, sim, verdade eu acho isso frustrante, assim, com criadoras, sabe, ela viu de volta aos 15 mas é isso, não tem tanta coisa sabe, e eu acho que quando a gente perdeu a malhação, eu sinto que a gente perdeu muito, assim eu acho que a gente perdeu muito, assim,

Cara, que verdade, verdade, total, total. É, tanto em formação de plateia, quanto também eu sinto que a gente perdeu em talento, assim, de... Tudo, né? Exatamente, exatamente. De roteiristas, de atores, atores que surgiam ali. Hoje em dia, o ator, muitas vezes, ele é alçado já numa novela, o que é uma coisa muito mais, pô, difícil, assim, sabe? Porque aí ele tá ali já com todo mundo, às vezes, sendo muito mais experiente que ele, então...

Claro. Na Malhação, eu via que tinha uma coisa de uma ideia de escola mesmo, assim.

Pô, muito foda, pode crer, pode crer. E eu sinto falta disso, eu até cheguei a escrever uma malhação quando eu trabalhava na Globo. Maneiro. Não chegou a ser feita, mas era uma coisa que eu queria muito, porque acho que é um público que tem uma disponibilidade de tempo diferente e por isso eles se engajam mais na história, eles gastam mais tempo ali, então eles vão atrás de saber outras coisas da história, então assim, por isso que também o conteúdo transmídia funcionava muito pra eles.

pode crer e aí eu acho que a gente negligencia mas é um público que eu gosto muito muito mesmo, eu escrevo eu não sinto que tem acho que tem uma parte dos roteiristas que até se sente talvez diminuído escrevendo o conteúdo enquanto juvenil, sabe?

malhação mesmo era visto pra muita gente assim, ah, uma coisa menor sim, é, e aí estando ali, assim, eu vi uma coisa que era muito incrível, assim, você ver e foi uma coisa que eu só vivi trabalhando ali na Globo, em TV aberta que é, a coisa lançou, apareceu na TV, a reação imediata, sabe isso é uma coisa impressionante e também viciante, porque você imagina, é por isso que as pessoas, ah, novela, muita paixão né, um feedback com muita paixão, né e aí

É, exatamente, assim, e a novela tem essa coisa, né, da coisa da... é imediato, assim, e aí muita gente fala assim, pô, escrever roteiro de novela é muito trabalhoso, mas é viciante, tem esse aspecto, assim, essa coisa da reação imediata, ela é viciante, sabe? Pô, escrevi tá lá, mas escrevi tá lá. Imagina tanto que ela faz, imagina tanto que ela faz. Sabe? É feedback imediato, né, né?

É, imediato, assim, pô, milhões de pessoas vendo, entendeu? É muito fora da proporção, assim, eu lembro que uma vez até eu trabalhava com conteúdo transmite de Malhação, e aí teve uma vez que o personagem do Rafael Witt, ele escrevia, na Malhação, ele escrevia uma redação pra Karina, que era personagem da Isabela Santoni, uma redação contando a primeira vez. E aí, eles botavam na história, meio que só o início da redação, e aí no Twitter eles foram, em cima da Rosane, pedir, queremos a história completa, qual é a redação completa? Caraca, eu quero... Escreve a redação.

Caraca, manda Na mesma hora eu parei Tudo que eu tava fazendo Falei, vou fazer a redação Fiz a redação Aprovei com o colaborador da Rosane Ele mexendo o texto A gente aprovou com a Rosane Aprovou com o Luiz Henrique Rios Era o diretor Em menos de 24 horas Eu tava no ar, sabe Isso é uma coisa que... Caraca

Qual TV aberta vai te dar, entendeu? Como funciona essa reação imediata, assim. Isso é muito legal. E eu acho que Malhação era muito uma escola. Eu lembro a primeira vez que eu vi o Rafael Vitti. Ele tava gravando a cena de beijo. Eu não sei se eu contei isso no primeiro tratamento. Não sei, acho que não. Acho que não.

É, mas ele tava gravando, era a primeira cena de beijo do personagem. E o Rafaell Vich, ele tinha 18 anos, quando ele foi fazer Malhação. Então ele tava gravando a primeira cena de beijo da vida dele. Caraca! E ele tava nervoso. Ele tava nervoso, assim como o personagem estava nervoso, sabe? Que maravilha. Que maravilha.

E essas coisas, elas têm um frescor Que é difícil Você capturar Sem ser dessa forma, entendeu? E eu achava isso muito legal A forma como eles estudavam Como eles se dedicavam A disponibilidade que eles tinham Porque eles estavam começando Então eles tinham uma coisa de também aprender Claro

Então eu sinto que perder isso foi muito ruim, assim. Mas respondendo essa pergunta, eu gosto de conteúdo infantil veneno, muito por conta de tudo isso. E gosto também, o meu filme, na verdade, ele... Tem gente que lê como uma comédia romântica, mas ele é meio que uma comédia, que é meio que centrado em uma personagem feminina ali, na faixa dos 40 anos.

Ah, maneiro, interessante. Que é uma outra coisa que eu gosto muito, que é dramas centrados em personagens femininas que são, especialmente, que erram muito. Que fazem muita merda pra... Eu ia falar sobre isso porque eu achei isso muito bom. Muito bom. Assim, faz todo sentido, assim.

flipbag há pouco tempo, né? Não tinha visto, né? E fiz uma relação com o que você tinha dito, né? Que você comentou que você se... Acho que a pergunta do primeiro tratamento foi o que você levava muito em consideração pra você se envolver com o projeto, né? Que te chamava atenção. E você falou sobre personagens, principalmente personagens de mulheres, né? E personagens de mulheres que erram.

né? E aí você até menciona a questão do Walter White, do Tony Soprano, se elas fossem mulheres, elas seriam julgadas, rejeitadas pelo público, provavelmente, eu concordo totalmente, né? Tanto é que na época teve aquela polêmica com a Skyler, né? O Walter White fez tudo, atrocidades, mas o problema é que a Skyler traiu o Walter White, né? Exatamente, exatamente.

É foda, cara, é foda. Mas você acha que isso tá melhorando de alguma forma? Não. Essa questão de você ter personagens mulheres é que erram, que são humanizadas de fato, sabe? Que saem dessa caixa de um padrão. E como protagonistas, assim, tá melhorando? Como é que tu vê isso? Eu sinto que tá melhorando.

melhorando, porque é isso também, a gente tem hoje mais roteiristas mulheres ocupando ali algum lugar em que elas também podem tentar negociar isso, assim, sabe? Porque às vezes eu entro num projeto e às vezes ah, talvez essa personagem aqui, ela tá muito certinha, então vamos, vamos sabe? E aí eu sinto que, eu não sinto uma resistência, por exemplo, dos homens da redação, de falar assim, ah não, vamos deixar ela assim, não, bora lá, entendeu?

Vamos tentar, entendeu? Eu confesso que eu tive sorte também, assim, eu trabalhei

mesmo como colaborador, eu trabalhei em projetos que, pô, o Vitor Branche, por exemplo, cara, o Vitor, ele era super disponível, assim, sabe? Ele topava as ideias, ele era um cara muito generoso, assim, então eu sinto que todo mundo, porque, assim, sendo muito sincera, se você é um bom roteirista, você vai querer, quanto mais merda o personagem faz, mais conflito, melhor pra você, entendeu? Exatamente, claro. Mais história você vai ter, entendeu?

Sim, sim. Então, se é homem ou mulher, mais história, mas existe de fato uma resistência do público, assim, sabe? Porra, muito.

existe uma resistência no público e aí você tem que sempre é sempre uma negociação de cara eu quero que ela erre aqui, mas então eu preciso redimir essa personagem em alguma outra espécie, sabe eu preciso dar também até porque é isso, eu preciso dar uma coisa pro público gostar também dessa personagem, porque eu não quero escrever uma pessoa 100% odiável, não é isso

Mas você se vê muito mais preocupada e atenta quando é uma personagem mulher do que é um personagem homem. Quando, nesse espectro. Sem dúvida. Eu já vivi situações em que, assim, às vezes o personagem masculino, a maneira como ele era desenvolvido, ele parecia tão alfa que ninguém nem notava que ele nem tinha um objetivo, sabe? Ele estava a reboque das mulheres, assim. Sim. Mas como ele era um personagem alfa, aí também tem a escalação que influencia isso, assim. Essa coisa da escalação, no final, pesa muito, assim, sabe? Pesa muito.

Eu sinto que, por exemplo, na comédia As Mulheres Errarem é mais aceito Sinto que a comédia, uma comédia já parte De um lugar disruptivo Ela acaba sendo Um lugar mais livre, assim, sei lá Se você pega a Julia Roberts no No filme, no Casamento do Melhor Amigo

ela é a Vimã, sabe? Ela faz absurdos assim, sabe? Ela é invejosa assim, entendeu? Ela só começa a gostar do cara quando ele vai casar, assim. Ela faz coisas absurdas, assim. Condenadas, inclusive, no filme, assim. Mas ela é tão carismática, a atriz, assim. A atriz, sim. Pô, você também compra e você entende ali a solidão dela, a dor dela, sabe? Então, é... Mas é uma comédia, entendeu? Então, assim... Uhum.

É um ambiente que favorece você um pouco além, né? Eu acho que favorece. É isso, o playback é uma comédia, então você também favorece. Favorece, sim. Embora tenha muito drama, favorece. Eu acho que... Porque no final, bem ou mal, você expõe esses personagens ao ridículo também, né? Caraca, sim. Sim.

Entendeu? Então eu acho que isso, no drama, eu sinto que é mais difícil, assim. Você até tem a Lorena, que ela é uma das pareceristas da Globo, assim, né? Ela lê vários projetos e tal. Ela tava até contando que a personagem da Kate Winslet, naquela série Mare of Stown, ela foi rejeitada por parte do público, assim, sabe? E aí eu vi essa série, eu gostava dela e eu ficava... Caraca. Mas que as pessoas rejeitaram, assim, exatamente, sabe? Mas, então é muito louco como funciona, assim, sabe? Até você entender. Uhum.

A lógica do público, assim, também. Às vezes eu sento pra ver novela com a minha mãe, assim, sabe? Como ela tá vendo aqueles personagens ali, sabe? Como ela tá avaliando, assim, sabe? Sim. E às vezes eu também já me vi na posição de, putz, será que eu tô julgando essa personagem mais porque ela é mulher também, sabe? É... fazer esse exercício também.

Caraca, sim. É que eu acho que o roteiro reflete uma questão da sociedade. A gente, quando sociedade, aceita menos mulheres quando elas é. O meio do futebol é um exemplo disso. Então eu acho que é muito... É uma batalha, mas é uma batalha que eu gosto de travar.

Eu percebo isso assim, no Fleabag, por exemplo, né? Eu achei a série incrível. Eu falei, cara, isso aqui é muito bom. Mas sempre quando eu ouço dessa série, vem de uma mulher, sabe? Sempre há uma mulher que menciona a série. Então parece que tem esse espaço, assim. Isso aqui é uma série pra mulheres.

E aí quando você vê Filho Bag, ela fala sobre coisas que todo homem passou também, sabe? Tipo, é exatamente igual, isso não necessariamente é uma série para mulheres, ela só é uma protagonista, sabe? Uma mulher, uma... E aí você começa a perceber que há uma resistência gigante, óbvio que há, né? A gente vive num momento... A gente tá num momento também muito delicado sobre isso, né? Tipo, em que como é que pode debater a questão de Red Pill, sabe?

Como assim, sabe? Isso tá se transformando numa ideia de movimento, sabe? Então assim, nossa, a gente tá talvez num dos piores momentos.

Na verdade, a gente tá conversando sobre algo até muito sofisticado Quando a gente percebe o que tá sendo debatido, né? Tipo assim, a violência que ponto chegou, né? É bizarro Ao mesmo tempo, é algo sofisticado Ao mesmo tempo, é atual No sentido de que a escolha da mulher Ela é negada, né? E quando você bota a personagem pra errar muito Você dá o direito dela escolher Inúmeras vezes, de inúmeras formas diferentes Exatamente

Então eu acho que Cara, escolher Total Eu acho que é um trabalho Que a gente faz E aí a minha esperança é Quanto mais a personagem errar Mais humanizada ela será Mais nós mulheres Seremos humanizadas Sim, cara Não foi o macro, sabe? Sim, sim É isso, entendeu? É isso, sabe? É até a expectativa Tu tem uma comédia romântica Que você fala Esse é um filme De comédia romântica Perfeito pra mim Pra você Tu tem algum? Que eu particularmente Eu gosto muito Eu gosto muito do gênero Eu acho muito legal E aí E aí

Eu gosto muito também, entende? Eu acho que eu gosto, eu vou citar dois. Eu gosto do casamento do meu melhor amigo. Eu gosto, porque eu acho que ele é uma comédia romântica de, pô, se deu errado, sabe? Ela termina sozinha, sabe? Mas acho que também tem uma coisa de, ele era até, acho que ele era um pouco à frente do tempo.

nas representações que ele fazia, na coisa de ter um amigo gay, mas ele também não é o que a gente fazia na época, que ali 96, 97, sabe? Então é um pouco diferente disso. Sim, sim, sim. Eu acho bem executado, eu acho que também mostra o poder da amizade ali, naquelas relações, sabe? E eu realmente acho muito engraçado, assim, como o filme se desenvolve, assim. Eu revi recentemente. E é muito bom. E aí eu vou citar outra que é uma... Que legal.

Uma comédia romântica que eu vi na época. E na época eu não entendi. Acho que eu era muito nova. E tinham coisas que pra mim não faziam sentido. Que era aquela... Com a Diane Keaton e com o Jack Nicholson. Sei, tô ligado. Alguém tem que ceder? Alguém tem que ceder. É isso aí. Alguém tem que ceder.

Eu acho muito bom, foi muito bom rever Porque ela tem questões Muito pertinentes, se você Rever hoje, você vai ver que ela tem questões Muito pertinentes Ao nosso momento, e ao mesmo tempo É um amor mais maduro É uma mulher muito madura E um cara que nunca se apaixonou E aí, tem até uma cena que é muito boa Que ele acha que ele tá infartando Na verdade, ele tá só apaixonado Mas como ele nunca se apaixonou Ele tá achando que vai morrer, sabe? Cara, muito bom

E é muito bom ser o Jack Nicholson, sabe? Ele tem um pouco dessa aura, assim, né? É, exatamente, assim. E é isso, a atuação dela é muito boa, é muito genuína, é muito honesta, assim, sabe? Nossa, nossa. Foi muito bom rever, porque eu tinha visto, eu tinha 17 anos, então acho que é isso, eu nem tinha me relacionado direito, então, assim, muitas coisas ali não batiam como bateram agora quando eu já era adulto, assim. Então, é, mas eu gosto muito do gênero, assim. Eu acho o gênero... Ah, já.

Eu acho o gênero muito rico e eu acho que a gente está num momento também das relações contemporâneas que tem muitas coisas aí a serem exploradas assim no gênero. Exploradas, né? Sim, sim. Concordo muito, concordo muito. Aproveitando, você resgatou um filme que você disse assim, ah, naquele momento eu nem peguei ele tanto, não entendi ele completamente. Tem algum filme? E aí pode ser duas linhas aqui.

Uma, um filme que de fato mudou muito pra você. Assim, você viu muito nova e esse filme mudou completamente. Ou um filme, como é que eu posso dizer? Um filme meio proibido, assim, sabe? Pela idade, alguma coisa assim, que você não pôde ver quando você era muito nova e você meio que guardou ele. E aí, mais velho, você, pô, finalmente pude ver esse filme. Teve alguma coisa nesse sentido.

Não, na verdade tem uma história engraçada Não foi que eu não pude Eu tava de castigo quando Boa parte dos meus amigos da escola Foram ver, eu tinha sete anos de idade Ali, tava estreando o Rei Leão Que foi um marco E aí eu tava de castigo Por um motivo até engraçado Que era eu tinha dado um selinho Num menino da rua E meu pai viu, e aí ele ficou Indignado, assim E aí

E aí ele me deixou de castigo e aí toda a turma do meu prédio foi ver o Rei Leão desse dia e eu não fui. Pô, tu perdeu o Rei Leão. Eu fiquei anos, eu fui ver o Rei Leão já adulto, assim, sabe? Caraca! Eu perdi completamente, eu não entendi as piadas, era uma coisa que eu realmente não fazia ideia, sabe? Depois eu fui ver o Rei Leão e eu entendi que era Shakespeare, assim. Mas eu já vi em outro contexto, assim, sabe? Pô, caraca, teu pai te privou de uma experiência, olha.

E foi uma coisa engraçada, porque na época Meio que meu pai falou e ninguém Sei lá, minha mãe, meus irmãos, ninguém levou muito a sério Sabe? Todo mundo meio que achou ridículo Ele me proibir, mas ninguém também Todo mundo achou engraçado e ninguém me defendeu, sabe? E acabou que você ficou De castigo, né? Exatamente Caraca, é engraçado, o Relião

Meu pai nem era rigoroso, assim, mas ele, sabe, foi uma situação. E aí foi um dia como viaduto. É, e ele não teve o mesmo impacto que teve pra todas as crianças que viram quando eu tinha 7, sabe? Sim. Cara, a Realeão, o impacto foi tão grande pra mim que eu lembro que o primeiro filme que eu acho que eu assisti no cinema, eu não tenho certeza, mas eu acho que foi Jurassic Park. E Jurassic Park foi uma parada, assim, né, gigantesca, assim.

Mas eu não lembro de eu assistindo no cinema. Agora, a Rei Leão eu lembro. A Rei Leão eu lembro. Eu lembro o choque, sabe? As cenas e tal. Caraca, assim. Sofri por você agora. Eu sofri pela sua perda. Eu nunca fui proibida, tirando essa situação, mas assim, de... É até uma coisa... Eu nem sei se é adequada, mas meus pais não tinham essa coisa de isso você não pode ver, sabe? Eu acho que eu vi muitos filmes que eu definitivamente não poderia ter visto na época.

Sabe, que tinham assuntos muito pesados Ou que eram, sei lá, eu lembro que eu vi Sociedade de Poetas e Modos Eu tinha também Caramba, sim, sim Eu tinha 8, 9 anos, sabe Assim, com certeza não era pra eu ver, sabe Mas teve um filme, assim, os filmes Scorsese, por exemplo Eu acho que quando eu era mais jovem Eu vi Cassino, eu tinha 12 anos Muito bom

E aí, revendo esses filmes mais adultos, eu entendi, por exemplo, ali que as mulheres são tratadas sempre de maneira muito violenta, assim, sabe? Caraca, entendi. Interessante. Muito, assim, que na época eu acho que eu não tinha o mesmo olhar, porque eu era muito criança, assim, eu não tinha o mesmo olhar. E depois vendo, depois o touro indomável, assim, nossa, ele é muito, é demais, assim, sabe? Sim. E eu acho que foi uma dimensão que eu fui tendo e já mudou, assim, sabe?

E eu tô falando do Scorsese porque é um diretor que eu gosto muito, assim. Claro.

E é muito curioso, assim, porque tem uma fase ali dele da década de 70, que é quando ele faz os filmes mais estranhos dele, né? Que é o Depois de Horas, que é um filme que eu gosto muito. Cara, muito bom, muito bom. E é pouco lembrado, né? É o Rei da Comédia, são esses filmes, assim, que ainda assim tem o De Niro, né? Sim.

Mas tem uma coisa ali, que não é, e é muito curioso, não é que ele apoia a violência, né? Mas é também como ele via as relações ao redor dele, assim, sabe? Sim, sim. E você entende que é um retrato ali que passava desapercebido por mim, quando eu era mais nova. E que hoje já, assim, eu lembro quando eu ouvi o Torino do Mato, ele saltou, assim, assim, por que isso? Caraca, gente, né?

Uma coisa que saltou, assim, ou então o Taxi Driver, sabe? Muito gritante esse aspecto. Nossa, né? Caraca, muito, né? Eu tive um filme proibido, vamos dizer assim, que ficou durante muitos anos. Minha mãe era muito raro, né? Assim, a família alugava filme pra assistir todo mundo junto, né? Era, no geral, é isso. No fim de semana, a fita e tal. Minha mãe era muito rara ela alugar uma fita pra ela.

um filme pra ela. E ela alugou Entrevista com Vampiro. E eu lembro que eu olhei Entrevista com Vampiro e falei, porra, tem Vampiro. Eu quero ver, né? Tipo assim, eu quero ver. E ela não me permitiu ver Entrevista com Vampiro e eu guardei isso comigo, né? E ficou um tempo. E um dia a Globo anunciou que ia passar Entrevista com Vampiro no Intercine.

Eu falei, caraca, é minha chance. Eu vou fingir que eu vou dormir e eu vou assistir depois quietinho com som baixinho. E foi muito legal ver, não só porque eu senti que eu tava abrindo, sabe, um espaço que eu talvez não tivesse ter aberto, mas eu também tava abrindo algo que eu, sei lá, uma revelação sobre minha mãe, sabe?

Sim, sim. Olha o filme que ela selecionou pra ela assistir sozinha, caramba. E foi muito bom isso, assim. Foi muito divertido. Hoje, quando eu penso nisso, minha mãe ainda assistiu o Dream of the Vampire, eu acho muito maneiro. Cara, que legal, cara. Era um bom filme. Era um ótimo filme, né? Era um ótimo filme. Muito legal, assim. Eu demerei anos pra assistir o filme, mas foi muito legal assistir.

Mas eu sinto que esse horário da Globo, que era tarde, assim, eu vi muitos filmes nesse horário, assim. Eles tinham até uma coisa que o público escolhia, assim, eles apresentavam filme, né, e aí você escolheu o filme do dia seguinte, tinha isso, né? Exatamente, exatamente. E eu vi vários filmes aí também que certamente não eram pra minha idade nesse horário aí, entendeu?

Sim, sim. Tu sente falta dessa ideia de ver de todo mundo estar assistindo no mesmo momento o filme? Tu sente falta disso? Assim, eu acho que isso é uma coisa... Quando acontecem esses fenômenos, assim, sabe? Eu sempre acho divertido, assim, sabe? É maneiro, né? É, e aí, tanto quando acontece ou na TV aberta, quando acontece, sei lá, Game of Thrones, que durante um período todo mundo assistia, sabe? Ao mesmo tempo. Eu achava... Eu acho que tem uma coisa do senso de comunidade que que tem que ver.

fica, assim. Boa, sim. Que eu particularmente gosto bastante, assim, sabe? Eu sinto falta, assim, sabe? Eu também, também. Como tudo que a gente falou, assim, tá ficando tudo muito pulverizado, é muito difícil, né? Alguma história, tomar essa proporção e fazer todo mundo ver junto. Mas quando acontece, eu acho muito legal, assim, sabe? Sim, sim, sim. Porra, pode crer. Isso é uma parada que eu sinto muito à falta, muito à falta.

Eu tive uma conversa com um amigo meu e que ele brincou comigo falando assim, cara, para de romantizar o sofrimento com esse ato de ah, o sofrimento é combustível pra você escrever. E aí eu me pergunto,

É saudável, entre aspas, romantizar esse sofrimento para que gere essa escrita? Ou não? Sabe, não é necessário. O que é o sofrimento para você como escritora, principalmente cinema, sabe? Eu me pergunto muito isso, assim, porque no fundo eu fico pensando, será que a gente escreve talvez porque a gente alimenta esse sofrimento ou a gente sente talvez de uma forma exacerbada? Ou se a gente, sei lá, passa a escrever e aí tem o sofrimento como um certo combustível? Ou não? Como é que é esse negócio para você?

Nossa, que pergunta difícil. Caraca, não, soltei do nada, né? E a gente falando de, tipo assim, entrevista com vampiro e comédia romântica, né? Eu acho que o sofrimento por si só não, né? Mas é, é uma maneira, assim, de lidar com esse sofrimento. Acho que criar, assim. Falando, assim...

sobre mim, assim, o período que eu tava mais sem trabalho, assim, teve um período ali depois que eu saí da Globo, que eu fiquei com o PJ, que eu fiquei uns sete meses, assim, sem fazer nenhuma sala de roteiro e tal, e foi muito desesperador, foi muito angustiante, assim, sabe? Tinha um ano e meio que eu tinha pedido do meu pai, então era muita coisa ao mesmo tempo, assim, sabe? Caracense.

E aí eu lembro que eu tava muito... É isso, sofrendo muito, assim. E aí foi um período que eu criei muito. Eu escrevi muitas histórias e me ajudou muito. Eu até, na época, eu tinha visto uma entrevista da... Eu não sei se eu vou falar o nome dela certo, tá? Mas é da Greta Gary, sabe? Sim, sim, sim.

que fez Barbie e tal, e ela deu uma entrevista na época do Barbie, que ela teve um período assim, e que ela criou muito, e ela até falava assim, ah, se pudesse dizer alguma coisa pras pessoas, seria não se ressentir desse período. Então eu acho que não é romantizar o sofrimento, mas também não se ressentir desses momentos difíceis, assim, porque foi o momento que eu mais criei, que eu aproveitei pra criar várias coisas que eu tinha vontade de escrever, sabe? Porque eu não tava escrevendo sobre demanda, então...

Eu aproveitei esse momento pra criar histórias, apresentei muitas coisas. Porque a verdade é que por mais que a gente fale assim, ah, é legal fazer, escrever, mas assim, no geral, não dá pra você também ficar remoendo tantos nãos que você recebe, porque na vida, de maneira geral, você vai receber muito mais não. Muito mais não. Sabe? De tudo, assim, pessoalmente, profissionalmente. Exato, exato.

sabe? Então, assim, eu acho que não se ressentir desse momento e criar em cima disso, assim. E aí criei com... Fui atrás de escrever com pessoas que eu gostaria de escrever, sabe? E eram situações em que isso não envolvia dinheiro, assim, sabe? Era meio que ali criar relações. Foi nessa época que eu conheci até a Lara, que é uma roteirista de Santa Catarina, assim, que na época ela tinha um projeto de futebol, sabe? E aí, pô, eu conheci ela nesse contexto, assim, sabe? Que era muito difícil, então...

virou minha amiga, entendeu? Então, assim, foi um momento muito importante, assim, sabe? Apesar de difícil. Então, acho que não é romantizar, mas acho que tem, sim, um valor em saber como lidar isso e eu acho que pra mim, né, não existe melhor forma do que criasse. Por exemplo, o episódio do De Volta aos 15, eu até acho que falei isso no primeiro tratamento, mas o episódio que eu escrevi no De Volta aos 15, na segunda temporada, era o episódio 5, que era o episódio que a Anitta, ela perdia o pai, né? Quando ela morria. Ah, sim.

E ela, o que aconteceu foi, como ela já sabia que o pai dela ia morrer, ela adiantava o tempo pra ela não ter que lidar com aquilo. Só que isso gerava consequências horríveis e ela perdia os amigos dela. Então, ela, o mostro do episódio é, cara, você vai ter que voltar no tempo, viver essa dor, pra você também não perder todas as outras coisas, sabe? E tinha, acho que tinha uns quatro meses que eu tinha perdido meu pai quando eu escrevi esse episódio. Caramba, caramba.

Foi, pra mim, foi ótimo, assim, sabe? Foi muito bom, assim, sabe? Depois também, o retorno que a gente teve desse episódio, assim, até às vezes de pessoas próximas, sabe? Da minha, sei lá, da minha sobrinha, que, pô, ela veio falar sobre a morte do avô a partir daí, sabe? Então, assim, eu acho que é não se ressentir desse sofrimento, lidar com ele, assim, aceitar, não... E criar em cima disso, assim, eu acho que é criar em cima disso, assim, pra mim é muito, foi muito rico, assim, sabe? Sim.

Não só em termos das histórias que eu criei, mas pessoalmente mesmo, se sabe. Pô, faz muito sentido. Eu acho que esse é um ponto muito importante, porque a gente tem essa coisa romântica do tipo, o poeta e a poetisa que sofrem, né? Mas é interessante entender como você coloca a ideia de que o ato de escrever vai estar dentro desse ato do luto também, de você processar isso, né? Tipo, de você não só escrever, né?

E de entender que essa tristeza faz parte. Faz parte da vida, assim, como qualquer outro momento melhor. Sim, sim. É inerente, né? Você não é necessariamente romantizar, mas eu vou ceder algo... Isso vai ser combustível inegavelmente, né? Não tem essa, né? Sim. E vai conectar. Não tem pra onde fugir. Não tem pra onde fugir, né? É impossível, né? Mas é engraçado, porque acaba que a gente, nesses momentos, a gente acaba produzindo muito, né?

Eu acho que é uma forma também de você colocar pra fora, né? Quando você tá escrevendo, né?

É, não, com toda certeza, assim, acho que é, e é uma forma que, mesmo que aquilo não vire uma série ou um filme, assim, é uma forma que te ajuda, né, porque aí você bota no papel, aquilo vira uma elaboração de uma coisa que talvez, sem isso, você não conseguiria, sabe, então. Exatamente, exatamente. Ajuda muito, assim, sabe. Bom, maneiro, maneiro.

Você tinha comentado, e já tô mudando completamente de novo, podia ter feito essa pergunta antes, tá vendo? Mas tudo bem. Você fala no primeiro tratamento sobre como música é importante pra você estar no processo criativo, né? Das suas histórias, seus personagens, né? Que você enxerga seus personagens, talvez, por meio das músicas que ele ouve, né? E talvez construa cenas também já imaginando um pouco da música e pode ser como trilha.

minha relação com música é bem diferente. Mas como é que foi? A música, ela é parte do seu amadurecimento. Como é que ela vai se tornando tão importante a ponto de estar entrelaçado nessa sua produção, na forma de você criar as histórias, os roteiros? Isso sim é o terror da produção, né? Porque... Ah, não, é.

Música é uma coisa cara, né? Cara, né? Mas eu... E foi uma coisa que eu só... Eu gosto, eu ouço muita música. Trabalhando... Se eu tô escrevendo, eu não consigo ouvir música com letra, né? Pra mim não dá, porque senão eu vou prestar atenção. Então eu ouço música instrumental. Então eu ouço muita trilha sonora. Mas ouço muita música. E aí acabou que quando eu comecei a escrever, eu notei que a música aparecia muito. Que era sempre... Eu acho que...

é porque eu acho que música é um elemento que sempre é uma forma de contar história e eu acho que assim, em termos de emoção sentimento, eu acho que a música é uma arte muito, é muito, é única assim, eu acho que tem, ela tem ela promove coisas que o cinema não consegue, acho que a TV não consegue, ou nada disso consegue, assim, eu acho que ela chega mais fácil, né?

Tem uma coisa de até... Se a gente olhar pra música brasileira mesmo, tem uma coisa de como não é uma arte tão cara, é uma arte que a pessoa pode fazer na casa dela, a gente acabou tendo mais artistas incríveis e geniares. E é isso, o Brasil é um país que é capaz de ter um cartola, sabe?

que é um cara que foi fazer sucesso para o grande público já idoso já bem mais velho então eu acho que é uma arte muito poderosa e aí eu acho que podendo, e até eu é isso, eu relaciono períodos da minha vida com músicas específicas, sabe maneiro, maneiro

Então, acho que tem essa... Só recentemente que eu fui aprender a tocar... Eu tô aprendendo a tocar violão. Pô, Mariano, tentei algumas vezes e não consegui. Não consegui. Eu também não tô falando que eu toco bem. Sim, sim. Tentando. E é uma coisa que eu gosto muito e eu acho que acaba sendo um recurso, assim, sabe? E eu sinto que nos filmes e nas séries eu acabo usando muito. E às vezes eu tenho que também me policiar porque realmente...

É caro, né? Então, acaba que hoje eu já sei, esse aqui é muito caro, esse aqui, então, sabe, é mais sempre que possível, tanto que no Roubo do Cão a gente tem Rita Lee, que é o nome da cachorra, né? Sim, pô, que maneiro. E a gente conseguiu, eu fiquei muito feliz, porque eu sou muito fã, então, sabe? Boa, mas que bom, sim, sim, sim, cara, que maneiro. Você chega a pensar nisso assim, vou viver, ou estou vivendo um momento maneiro ou importante, e vou colocar uma música pra tornar isso aqui mais memorável pra mim depois, ou marcar pra mim depois, chega a esse ponto?

Eu acho que não chega a esse ponto, mas tem uma coisa de... Isso desde que eu era muito nova, eu sempre tive essa coisa de ligar o som alto e ouvir no escuro. Pô, maneiro. Acho que eu sempre tive isso, é uma coisa que eu nunca perdi, assim, sabe? Adulta eu continuo fazendo, quando eu dividia apartamento e morava em república eu continuava fazendo, sabe? É uma coisa que eu sempre fiz, assim. Como se fosse um lugar, né? Tipo assim, você parece... É, maneiro, maneiro.

É, tipo, ai, tem tempo que eu não faço isso, pô, eu preciso fazer, sabe? Realmente, tem uma importância muito grande, assim, sabe? E acho que no audiovisual, você podendo ter esse recurso, eu acho ele muito bom. Faz no meu sentido, pô, maneiro. Ó, tô chegando ao final, e aí eu tenho uma teoria, e eu queria a sua opinião sobre a minha teoria. Vamos ver se eu consigo trazer alguma esperança nessa fase, né? Claro, a galera que é roteirista também.

porque eu pensei o seguinte, né? Quando a gente pega a história do cinema, você pega o iniciozinho do cinema ali, década de 10, década de 20, né? Você vai ter os montadores, os editores, eles são a grande figura desse momento, até porque a gente não tem muita consciência dos diretores naquele momento, né? Você vai ter o Méliès, você vai ter o Eisenstein, por exemplo, né? A montagem é muito importante porque parece que é a mágica, é onde você transforma a fotografia em cinema, né? Aí beleza, aí você vai pra década de 30 e 40.

50, você vai ter ali a era dos produtores os produtores, eles eram poderosíssimos, tanto é que até hoje você tem o Oscar de melhor filme, é o produtor que recebe, e aí, beleza os estúdios são muito fortes, os diretores a gente menciona, sei lá, Billy Wyder Hitchcock, mas pô eles eram funcionários quase eles vão ganhar relevância muito depois, o Hitchcock demorou muito a ganhar relevância a ter liberdade de fato dos seus projetos os produtores eram muito grandes

E depois você vai ter, né, nos Estados Unidos, por exemplo, em Hollywood, a nova Hollywood que traz essa era dos diretores muito alimentado pela novela e vague, né, o neorrealismo italiano. E aí sim, a gente vai ter essa galera toda aí, né, tipo, ah, o Scorsese vem disso, Coppola vem disso, né, todo mundo. E aí eu fico imaginando, será que por um fluxo histórico não estamos a ponto de termos uma era dos roteiristas, sabe?

E aí eu defendo isso por dois pontos. Um, por essa questão mesmo histórica, sabe? Que vai sendo descoberto, talvez, a importância daquela função no cinema, sabe? Vai sendo reconhecido também. Porque, óbvio, Hollywood sempre tenta cortar custos, né? Sempre essa é a busca. Mas também porque eu acho que, talvez, vai sendo entendido e aceito a importância, de fato, do roteiro, sabe? Porque quando você pensa no cinema como história, como contação de história, é inegável que contar histórias são palavras, sabe? Fugir disso é muito difícil, né?

é o roteiro em si, né? E quando você começa a ler os roteiros, pô, tu vê roteiro... Eu tava lendo o roteiro do... Silêncio dos Inocentes. Caraca, o cara coloca uma porrada de racó nas montagens de cena, tipo, uma fala sendo repetida. Ele coloca várias coisas que parece que vem do editor, que vem do montador, e não é. Tá no roteiro, sabe? Quando você começa a ver também que, pô, as melhores... Não todas, mas as melhores imagens do roteiro que você fala, caraca...

Essa imagem resume o que é o roteiro, resume o que é o personagem. Muitas vezes a essência dela tá no roteiro, sabe? E eu não acho que isso vai ser reconhecido em algum momento, sabe? Não só porque é uma estratégia de você também diminuir custo, porque isso tem que ser entendido, sabe? Você gastar tempo com o roteiro não é aumentar o custo da produção, não faz sentido, né? Mas também por um reconhecimento da importância do roteiro, sabe? Será que não? O que você acha? Será?

Eu sinto que, pelo menos assim, acho que na TV americana, eu acho que teve esse momento. E é isso, né? Na TV americana... Com a figura do showrunner, né? É, ele assina com produção executiva, né? Ele tem muito poder, assim, sabe? O showrunner tem muito poder, assim.

E é geralmente uma pessoa que também entende de orçamento, produção, né? Tem isso, né? Acho que aqui, eu sinto que existe também aqui no Brasil uma glamorização dessa função do showrunner, que é uma pessoa que entende muito mais de produção do que eu acho que a gente aqui tem ideia. Tem ideia, né? Sim. Tem um trabalho ali de produção muito pesado. Eu sinto que isso aconteceu já na TV. Sim, sim, sim. Verdade. Esse ponto...

É, e até mesmo, se a gente pegar na TV aberta, na Globo, né, eu acho que os autores de novela, eles tinham um status... Tinham. Bem, assim, né, era um status grande, assim, e de decisões, e de, sabe, de escolha, de... Então, assim, eu acho que... E novela ainda tem muito isso, né, o autor de novela, ele tem, assim, muito poder de decisão, sabe?

ver a novela do autor, né? Vou ver a novela do... Exatamente. Hoje em dia, eles falam criada por, né? Mas durante muito tempo foi uma novela D. E eu acho que eu sinto que, eu não sei se a gente tá indo pra essa fase dos... Eu sinto que a gente tá caminhando, a gente hoje briga muito por essa valorização, sabe? Eu acho que isso é uma coisa, é uma ideia mais estabelecida, mas eu sinto que enquanto indústria é difícil a gente brigar por esse reconhecimento no Brasil, né? Porque lá fora eles têm sindicatos.

Aqui no Brasil eu sinto que é difícil, porque eu acho que a nossa classe ainda não conseguiu se organizar, talvez, dessa forma. E eu também faço aqui a minha autocrítica, porque eu sinto que eu também preciso me organizar num coletivo melhor. Mas eu tenho dificuldade de enxergar se é o momento dos roteiristas. Às vezes eu fico pensando que seja o momento dos executivos de produção, talvez, voltarem.

Voltarem, né? É, não que seja o ideal, não que seja o que eu gostaria. Sim, sim, sim. Mas eu sinto que talvez a instabilidade do momento cria um pouco isso, assim. Mas eu acho que é um momento tão, tão instável, assim, que é difícil fazer essa aposta, assim, sabe? Eu não consigo fazer essa aposta, sabe? Sim, sim, sim.

Eu acho que você toca num ponto que faz muito sentido, que assim, a gente tá num momento de medo, né? Tá muito grande. Então, teve um momento de euforia, né? E depois, agora, a gente tá num momento de medo, os streaming, né? E aí, eu concordo com você. Eu acho que é um momento que os produtores acabam ficando mais relevantes nesse processo, porque eles têm uma ideia de contenção, né? Talvez, né, a gente esteja caminhando pra um momento de desespero, né?

Que passe do medo, né? Porque, por exemplo, você pega a nova Hollywood, só surge por conta do desespero, né? Porque quando você sai do medo, já chega o desespero, e aí você dá orçamento...

uma galera nova vindo fazer filme de uma forma completamente fora do habitual, né? Só que depois, claro, a indústria vai tentar de novo industrializar aqueles filmes que vêm com muito frescor e tal. Quem sabe esse desespero traga uma mudança aí nesses aspectos, mas realmente, assim, eu acho que é difícil avaliar isso quando você tem algo tão novo quanto o streaming, né? Tipo assim, é tão novo e tão diferente de alguma maneira, é tão mais complexo, né? A construção de público é mais complexa, é muito, né? Caraca.

É, e mesmo lá fora, se você pegar, sei lá, a Marvel fez muitas coisas com diretores novos, tipo, na época pegou o Ryan Kubler pra fazer Conteira Negra e tal, e tem uma coisa, tem um aspecto disso que é, eles também trabalham e aceitam trabalhar pra essas grandes produções pra poderem depois desenvolver as coisas que eles têm vontade, tipo os Pecadores. Tipo os Pecadores, sim.

É uma maneira de viabilizar isso, assim, sabe? E aí eu que falo, no final o cara é um trabalhador, assim, sabe? E aí pra viabilizar as ideias deles também tem uma coisa de ele entende que ali trabalhando ele não vai ter a mesma... Eu vi até a entrevista do Ryan Kugel falando que durante o Tera Negra ele achava que ele ia ser demitido o tempo todo, assim, sabe? Caraca!

tava trabalhando sob muita pressão, assim, mesmo. E os atores que protegiam ele, falavam, não, cara, não vai ser demitido, peraí. Mas você via que era uma insegurança mesmo, assim. O cara tava trabalhando numa estrutura absurda, né? Então, assim, eu acho que tem uma coisa de, nesses casos aí também, do cara fazer aquilo ali pra viabilizar as outras coisas, sabe? E eu acho que Hollywood também tá num processo de entender isso. Porque ao mesmo tempo que eles têm os filmes, eu não diria nem médios, né? Porque esses filmes, tipo, o Pecadores, uma vatória depois da outra, eles...

caros, né? Eles são filmes... Sim, são caros, né? São caros, assim, mas eu acho que são poucas oportunidades, né? E você vê que são cineastas que já tem ali uma filmografia um pouquinho mais extensa e que conseguem fazer, né? E sobra um pouco pra aquelas empresas ali 824 e tal, lançarem alguns ali a colar que são os filmes mais médios, assim, de orçamento, né?

Sim, sim, sim. Eu acho que, às vezes, o público, em geral, não compreende o quão arriscado é um filme desse patamar, né? Principalmente um blockbuster e tal, né? É a ponto de você tiver fracasso, você quebra o estúdio, sabe? Assim, é um processo... Isso aconteceu algumas vezes, né? Porque não é só a grana do filme, também você tem toda a grana de marketing, que, às vezes, é basicamente dobra. É igual. É, exatamente. É igual. É igual. Sim, sim, sim. Não sei se você viu o The Studio, a série.

Não vi, não vi. Eu tô devendo muito ver essa parada. Veja, sim. É muito engraçado, assim, sabe? Porque eu acho que tem uma coisa que é... Ela é pejorativa de um jeito seguro, sabe? Sim. Então, mas é muito real a maneira como retrata, assim, como as coisas funcionam e como não... É muito distante do que as pessoas imaginam também, sabe? É muito distante, né?

Mesmo os trabalhos que a gente acha que são mais artísticos, sabe? Como no final, o Tyne Lee, o Tyne Lee, o Ryan Kool, coitado. Ele tá achando que vai ser demitido, entendeu? Exatamente, exatamente, exatamente. A gente vê hoje o PTA ganhando Oscar de melhor diretor e melhor filme, não sei o que e tal. Você percebe que ele tem uma carreira sólida porque ele é um funcionário sólido, sabe? De entregar, de trocar, de ser um cara que provavelmente ele funciona bem.

com os próprios executivos. É por isso que ele vai ter espaço para fazer o Magnolia, para fazer o Mestre, para fazer... Sei lá. E a ponto de chegar a fazer uma batalha após a outra, que é um filme caro, por exemplo. Mais caro. Então, assim, considera que ele está dando... Há uma troca. Há uma troca. Ao mesmo tempo, tem uma coisa que os Estados Unidos têm, que aqui, para o diretor aqui, é mais difícil, que é essa oportunidade de fazer muitas coisas, errar.

E poder fazer de novo. Ah, sim, sim, sim. E poder exercer a sua vocação. Que eu acho que é o que é mais difícil aqui. A gente tem, sei lá, a gente tem o Kleber Mendonça, a gente tem o Walter, a gente tem o Karim, mas a gente tem poucos exemplos ainda, assim, sabe? Pouquíssimos, né? São muito poucos, assim. A Ana Mulaet, uma pessoa que consegue fazer muito, assim, mas... Sim, sim, sim.

Na média, a gente tem poucos podendo exercitar mesmo, porque o que a gente faz não é uma coisa perfeita. É uma coisa que a falha é importante. Então é sempre essa coisa do medo, de tentar uma fórmula, de tentar ser o mais certeiro possível. É meio complexa também, sabe? Pode crer, né? Como é que você vai aprender algo se não fazendo cinema, né? E aí só que isso custa dinheiro e custa... Exatamente, exatamente.

Isso é muito real, né? E é triste a gente pensar nisso, porque assim, nosso cinema é incrível, eu acho que isso é indiscutível, e a gente tem filme, sei lá, de 1903, a gente tem filme do início do século XX, e ao mesmo tempo, a gente não conseguiu estabelecer essa indústria, né? Essa cultura em si, obviamente questões políticas, sérias, né? Que sempre desconstrói, destrói nosso cinema, né? Então a gente tá sempre tendo que recomeçar nosso cinema, reconstruir nosso cinema de novo.

e a gente tem, por exemplo, um momento agora interessante, tivemos dois filmes em dois Oscars diferentes, pô, é um momento que traz um oxigênio, será que a gente vai conseguir dar passos na construção não só cultural, mas também da indústria em si? Difícil imaginar, porque aí você tem um outro grupo político que vem e destrói, e assim vai, a gente nunca consegue amadurecer nosso cinema também, digo como indústria, porque com morte não.

E às vezes, até entre nós, chegarmos num consenso daquilo que a gente acha que é melhor, assim, também é difícil, assim, politicamente falando. Também existem disputas, né? Também existe disputas. É difícil também, assim, sabe? Pô, é isso. Olha, foi ótimo. Finalmente, ó, demorou, mas foi muito bom, viu? Muito obrigado, Amanda, por ter participado do Enquadrando. Pô, fiquei muito feliz. Que bom, gostei muito do papo também, adorei participar, fiquei feliz.

E eu vou aproveitar que você tá aqui meio que ao vivo, né? De estar gravado. Pra você se comprometer a gente gravar um filme. E de fato, um filme que você escolher. Pode ser o do Oeste. Como é que é o nome? Esqueci agora. Oeste Através. Oeste Através. Esse filme é muito legal. Pode ser que eu escolha outro agora. Pode ser que eu escolha outro. Tá bom. Tudo bem. Tudo bem. Tudo bem. Fique à vontade. Mas é isso. Foi muito bom mesmo. Obrigado de verdade.

Obrigada a você pela oportunidade. Espero que concuta. E é isso. Foi muito bom também. Pô, que legal. Que legal. Que bom. Então tá bom. Ó, ela prometeu aqui que voltará pra falar de um filme especificamente. Sim. Eu achei interessante que conversando com a Amanda, ela tava mega insegura de que não renderia o programa simplesmente falar sobre ela. Como assim, né? Como assim? Tá aí. Nosso programa está terminando. Eu tinha inúmeras coisas pra falar ainda, perguntas a fazer, mas, né?

Tem um limite, né? Mas foi bom, né? Foi bom. Você fez perguntas que outras pessoas não tinham feito ainda.

Que legal, que legal. Então, gente, olha só. É isso. Eu vou passar aqui nossas redes sociais. Então, se você gosta do Enquadrando, gostou dessa entrevista, gostou dessa conversa, vai no nosso Apoia-se. Apoia-se barra Enquadrando. Sabe, apoia a gente. Com 10 reais você já está participando. Você pode acompanhar nosso programa como plateia, tá? Isso é muito legal. E se você quiser seguir a gente no Instagram, é Enquadrando, underline, oficial.

E no YouTube, é arroba Enquadrando. É isso, gente. Obrigado. Um grande abraço e bons filmes.

E aí

Enq. 125 - Amanda Jordão: roteirista com muitos trabalhos na Globo e na Globoplay. | Castnews Index — Castnews Index