MEU PAI É GAY, e agora? - Meu pai é gay, e agora?
[AUDIOBOOK] — MEU PAI É GAY, E AGORA? Neste vídeo, reflito sobre a temática da homossexualidade a partir da experiência humana, considerando o sujeito em sua singularidade e em relação à vida social.
- Saúde Mental Social e AmbientalRelação patológica e ego enfraquecido · Psiconeurose vs. psicose e seus perigos para a criança · Homossexualidade não é perigo, mas sim dependência emocional e alienação parental · O falso self como esconderijo do verdadeiro self
- Winnicott e a importância do holding e do ambiente na formação do selfO papel do holding na saúde mental infantil · Falhas ambientais e a criação de um falso self · Agressão e intolerância como reflexo da distinção eu/não eu · A mãe como 'bruxa' e a alienação parental · A cura da imaturidade através do tempo e da análise
- Casais homoafetivos e reprodução de papéis de gêneroO pai gay como fato da vida cotidiana · Desconhecimento e falta de informação sobre homossexualidade · Impacto da heteronormatividade na percepção paterna · Homossexualidade como questão natural e não escolha sexual · Consequências da informação distorcida sobre homossexualidade na infância
- Masculinidade Tóxica vs. SaudávelVisão tradicional da masculinidade e valor social do homem · Preconceito contra homens gays e perda de masculinidade · Masculinidade tóxica e sua ligação com violência doméstica · O homem como herói e a expectativa de força sobre-humana
- Poder da escutaAcolhimento como guia na escuta psicanalítica · Permitir a elaboração e ressignificação pelo analisando · A importância da escuta para o sujeito em angústia · Interpretações que fazem sentido para o analisando
- Influência de figuras paternaisPrimeiro super-herói gay no cinema Marvel: Fausto · O filme 'A Baleia' e a privação de direitos parentais · O filme 'Close' e o preconceito com a homossexualidade precoce · Análise de pais-heróis em filmes de animação (Procurando Nemo, Pinóquio, Mulan, etc.)
- Teorias psicanalíticas sobre o pai-herói e o desenvolvimento infantilOtto Rank e a glorificação de heróis nacionais e domésticos · Sigmund Freud e o mito do nascimento do herói · O pai-herói como construção social e produto da ficção · A rebelião do filho contra o pai no mito freudiano
Chegando até aqui, significa que estamos no ápice desses escritos e que a pergunta meu pai é gay e agora? pretende uma resposta. No entanto, meu caro leitor, lamento decepcioná-lo se, ao final, não apresentar uma resposta ou qualquer formulação pronta para o e agora. Meu pai é gay é só mais um fato da vida cotidiana.
A condição do pai e da descoberta em nada muda a sua condição de pai. Portanto, para o e agora, eu me arriscaria a dizer agora nada. Pode parecer estranho ao leitor, não é certo? No entanto, o pai gay não perde a sua condição de pai, pois ele continua sendo pai. Entretanto, diante do desconhecimento e da falta de informação, deveríamos oferecer mais esclarecimentos.
Ao fornecer informações e respostas sinceras, evitamos que a criança, que não obteve as respostas às suas dúvidas e questionamentos, encontre-as em suas fantasias. Assim, o diálogo aberto e sincero torna-se uma forma simples e direta de evitar que as fantasias distanciem o indivíduo da realidade.
Quando o filho toma conhecimento da sexualidade do pai e descobre uma sexualidade distinta daquela que compõe o imaginário social e infantil da figura paterna, associada à ideia de masculinidade e, muitas vezes, à relação autoridade-machismo comum, como a heteronormatividade, não há nada que possamos fazer.
Em outras palavras, a sexualidade é uma questão natural e nenhuma escolha sexual afeta a condição de ser pai. A criança muitas vezes tem pouca informação sobre sexualidade e depende do que os adultos lhe transmitem. Se o adulto apresenta a homossexualidade como algo anormal e associa sua fala a um tom de pecado ou desvio,
a criança não tem outra compreensão, além de considerar a homossexualidade como algo inaceitável e pelo qual deve se envergonhar. Para as crianças que recebem informações distorcidas sobre a homossexualidade de seus pais, só podemos lamentar pelo triste destino que essas crianças e indivíduos enfrentarão ao longo de suas vidas.
Essas crianças não apenas terão dificuldade em aceitar a sexualidade de seus pais como algo normal, mas também terão dificuldades em lidar com sua própria sexualidade na fase adulta, especialmente se suas escolhas objetais e amorosas forem homossexuais. Ainda em um simples exercício de inversão, podemos substituir a palavra pai pela palavra mãe e reformular nossa pergunta. Minha mãe é gay e agora?
Nosso cotidiano está repleto de histórias de mães homossexuais. No entanto, nada lhes tira a condição materna. Elas continuarão sendo mães e estarão plenamente capacitadas para oferecer o holding e todo o cuidado materno aos seus bebês.
As mães conservam todas as suas capacidades no exercício da maternagem. Em outras palavras, se a mãe homossexual mantém todas as suas qualidades e capacidades para exercer a maternagem, então o que explicaria o estranhamento em relação ao pai? Algumas considerações simples podem nos ajudar a responder à questão anterior.
Em primeiro lugar, o simples fato de que a masculinidade, na visão tradicional, é vista como um conjunto de características valorizadas pela sociedade em um homem. Para muitas pessoas, um homem gay deixa de ser considerado homem ou perde sua masculinidade, o que não reflete a realidade, mas sim uma visão preconceituosa e distorcida socialmente.
Em segundo lugar, para que um homem tenha valor na sociedade, ele precisa constantemente provar sua masculinidade e a homossexualidade, ser gay, não está entre as atitudes socialmente aceitas em um homem. Portanto, para muitas pessoas, um homem precisa ser forte para comprovar sua masculinidade.
A força antecede o imaginário social do homem e sua autoridade. Porém, muitos dos problemas sociais, como a violência doméstica, agressões contra mulheres e o feminicídio, estão vinculados à construção social da masculinidade tóxica, que associa a força física ao valor masculino e à dominação sobre o outro. Algumas das distorções e atribuições ao homem sobre o ser forte defendem que ele não chora.
Ao homem, de alguma forma, é atribuída uma característica sobre-humana. Nesse contexto, o pai é visto como o herói da ficção, seu vingador pessoal, ou, ao menos, é isso que se espera dele. Nas histórias dos super-heróis, não há lugar para os fracos ou para homens que não se encaixem no protótipo da masculinidade. No entanto, o cinema tem contribuído para uma ressignificação do super-herói como sinônimo de masculinidade.
Uma curiosidade sobre as mudanças embrionárias no universo cinematográfico pode ser observada no primeiro super-herói gay do universo cinematográfico Marvel, o personagem Fastos, interpretado por Brian Tyree Henry. Fastos é apresentado no filme Eternos, como parte de uma família feliz e estável, sendo casado e pai de um menino.
Embora existam outros personagens gays em séries da Marvel, este é o primeiro no cinema. Conforme mencionei anteriormente, as produções cinematográficas estabelecem um diálogo com a realidade, revelando diversas histórias impactantes. Em 2023, tive a oportunidade de assistir a dois filmes extraordinários. Um deles foi A Baleia, The Whale, lançado em 2022.
Protagonizado por Brandon Fraser, o filme retrata a vida de um professor acadêmico, pai e gay, que decide viver abertamente sua sexualidade e se apaixona por outro homem. A trama revela como o pai é privado de seus direitos parentais devido à sua orientação sexual.
Ele é erroneamente julgado como alguém que abandonou sua filha, quando, na verdade, foi impedido pela ex-esposa, incapaz de lidar com a separação e respeitar as escolhas do outro. A personagem da mãe, interpretada por Samantha Morton, influencia a filha Ellie, vivida por Sade Sink, alimentando a ideia de que o pai a abandonou por outro homem.
É nesse momento que esse belíssimo filme se assemelha a um retrato da vida real. O outro filme, Close, lançado em 2022 e representante da Bélgica no Oscar de 2023, aborda um tema nobre. Neste caso, o debate sobre o preconceito e a dificuldade em lidar com a possibilidade da homossexualidade em idade precoce.
A trama se desenrola através de um cinema repleto de simbolismos, carregado de sentimentos, angústias e profundidade. Portanto, o pai gay, o pai homossexual, contrapõe-se a todo o construto social que envolve a figura do pai e da masculinidade, assim como a concepção de força como atributo exclusivo do pai.
Em 1909, em seu livro Moisés e o Monoteísmo, Otto Rank esclareceu a Freud sobre o fato de que quase todas as nações civilizadas proeminentes começaram, em fases precoces, a glorificar seus heróis, príncipes, reis lendários, fundadores de religiões, dinastias, impérios ou cidades.
Esses heróis nacionais foram retratados em uma série de contos e lendas poéticas. Além disso, podemos acrescentar aos heróis mencionados os heróis domésticos, como os pais no ambiente familiar, que desempenham um papel importante nas narrativas e fantasias infantis, associados à figura paterna no contexto lacaniano.
Ainda em relação ao herói e ao mito do nascimento de heróis, conforme apontado pelas pesquisas de Rank, o doutor Sigmund Freud nos leva a considerar a noção do nascimento do herói, como no caso do pai-herói. Segundo Freud, o surgimento do pai-herói é resultado de uma construção social. No entanto, eu acrescentaria que o pai-herói também é produto do mundo cinematográfico e da ficção. No filme Procurando Nemo,
O pai é o herói que busca pelo filho. Em Pinóquio, Gepeto é o herói que dá vida ao boneco. Em Mulan, Fadju é o pai-herói e também um herói de guerra que Mulan não desonra. Na Pequena Sereia, o rei Tritão é o governador dos Sete Mares. Em Hércules, Zeus é o pai de Hércules e senhor do Olimpo. Em Pocahontas, o chefe Paul Ratan é o pai defensor de sua tribo e do domínio do homem branco.
No Rei Leão, Mufasa é o pai de Simba, rei da savana e guardião da autoridade e da ordem. A pesquisa de Otto Rank, citada por Freud, afirma que o herói é alguém que teve a coragem de se rebelar contra o pai e, no final, o superou de forma vitoriosa.
Nosso mito remonta a essa luta até a pré-história do indivíduo, retratando-o como nascendo contra a vontade do pai e sendo salvo apesar das más intenções paternas. O abandono em um cesto é uma representação simbólica inequívoca do nascimento. O cesto representa o útero e a água representa o líquido amniótico.
O filho que se rebela contra o pai gay acredita, em seu imaginário, que está sobrepujando-o, ultrapassando-o e até mesmo superando ou compensando a falta paterna. Assim como no mito freudiano, o nascimento do filho remonta à pré-história do indivíduo.
pois o representa como nascendo contra a vontade do pai e sendo salvo apesar das más intenções paternas. Em outras palavras, no imaginário do filho e na sua relação de identificação, ele acredita que o pai nunca o amou de verdade e nunca quis realmente ser pai. O fragmento clínico, mesmo que me amasse de verdade, eu não acredito, evidencia isso. Sua ideia de ser salvo, o filho do analisando,
atribuiu graças à figura da mãe, ou seja, ela era a responsável por ele estar vivo.
Ela é quem verdadeiramente o tinha amado e desejado, pelo menos é o que ele acreditava em suas fantasias. No entanto, o filho não tinha conhecimento de que o pai seduzido não participou da decisão prematura de ser pai, pelo menos conscientemente, como um sujeito adulto. O pai seduzido, ainda na condição de menor idade, não poderia tomar tal decisão sem implicar o futuro familiar e a si mesmo. A decisão de ter um filho, concordamos todos,
não deveria ocorrer antes de o sujeito ter alcançado minimamente seu desenvolvimento pessoal, maturacional, sexual, social e profissional. No entanto, como um menor de idade poderia ocupar e estar em condições de vir a ser o pai idealizado em suas fantasias? Em todos os casos, retomando algumas aproximações descontraídas anteriormente esboçadas com os desenhos e produções cinematográficas,
o pai está associado a uma figura de poder, autoridade e muitas vezes ocupa o lugar da proibição no imaginário infantil. Na análise de adultos, Winnicott nos lembra que Freud concluiu que os fundamentos da vida sexual e as dificuldades sexuais remontam à adolescência e à infância, especialmente no período entre os 2 e 5 anos.
Em outras palavras, os fundamentos sexuais do filho do analisando parecem ter mais a ver com esse momento de sua vida e como o conhecimento e a noção da sexualidade lhe foram apresentados. Se a criança tivesse sido apresentada uma noção da sexualidade com outra conotação que não fosse pejorativa, é possível que a pergunta que inaugura esses escritos nem fizesse sentido na vida dessa criança.
Isso ocorreria porque a homossexualidade, assim como a heterossexualidade, a bissexualidade ou qualquer outra orientação, seria concebida como plenamente normal e natural, e não como algo que lhe causasse angústia e horror. Todo o conhecimento acerca da sexualidade infantil, inaugurado por Freud em 1905, em três ensaios sobre a sexualidade, assim como todas as contribuições freudianas sobre o assunto, já soma mais de 115 anos.
Entretanto, em algumas situações, como no caso clínico analisado, parece que esse conhecimento não teve qualquer efeito no imaginário social das gerações atuais. Poderíamos, portanto, atribuir essa situação à falta de conhecimento?
Fica completamente claro se trata de um problema do pensamento e do racionalismo cartesiano, ou da real preocupação com o problema do conhecimento, mas sim da manipulação de um ser vulnerável e da situação de alienação parental, que nega à criança aquilo que nego em pleno juízo.
Nesse mesmo sentido, Winnicott esclarece que o mundo, tal como se apresenta, é desprovido de qualquer significado para o ser humano em constante evolução, como no caso da criança, a menos que seja criado e descoberto para ela. Em outras palavras, o significante atribuído à homossexualidade e à masculinidade Tudoごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごごご
diz mais sobre aquilo que foi facilitado à criança do que sobre os reais significados que ela atribui ao mundo. Portanto, somos levados a acreditar, como constatamos na visão winnicottiana, que as imaturidades são os resíduos daqueles estados saudáveis de dependência que caracterizam as fases iniciais do crescimento.
Nesse mesmo sentido, a análise das reações do filho, marcadas por agressão e intolerância em relação ao pai homossexual, reforça, conforme a visão winnicottiana, que a agressão está sempre relacionada ao estabelecimento de uma distinção clara entre o eu e o não eu. Em outras palavras, muitas das agressões em relação ao pai têm mais a ver com o outro do que necessariamente com o eu.
No caso em análise, o filho internalizou o ressentimento da mãe, ou, nas palavras do analisando, o feitiço da bruxa. Nesse mesmo sentido, ampliamos algumas reflexões e retomamos a noção do objeto anterior.
A destruição primitiva ou mágica de todos os objetos, segundo Winnicott, faz parte do fato de que, para a criança, o objeto deixa de ser um componente de mim para passar a não ser eu, deixa de ser fenômeno subjetivo para passar a ser objetivamente precedido.
Com base no exposto, a célebre máxima Winnicottiana reforça que cada pessoa possui um self-educado ou socializado, além de um self-pessoal privado, que só se manifesta na intimidade. Em outras palavras, o self do filho foi educado para negar o pai gay e sentir vergonha dele.
O desenvolvimento e a consolidação da força do ego são características fundamentais que indicam a condição de saúde ou não saúde. O ego educado e socializado para a agressividade e para a negação da realidade, como observamos na negação da homossexualidade como algo anormal e pecaminoso, revela muito sobre a condição de não saúde do filho do analisando e seu estágio de desenvolvimento maturacional.
Portanto, conforme esclarecido por Winnicott, só há uma cura para a imaturidade, a passagem do tempo e o crescimento que ele pode proporcionar em direção à maturidade. Acrescentaria a essa afirmação a importância do processo de análise. Assim, caro leitor, retomando o curso do meu pensamento anterior,
Se há alguma formulação que parece fazer sentido ao propósito desses escritos, não seria uma resposta mágica ou um conselho ao e agora. No entanto, se posso formular algo, é que na escuta psicanalítica o acolhimento seja o guia.
A escuta é muito importante para o sujeito em situação de angústia, como se observa ao longo destes escritos na situação do analisando. Embora a escuta, antes de se precipitar numa interpretação psicanalítica como resposta a essa pergunta, precise permitir ao próprio analisando a sua elaboração e ressignificação.
Nesse sentido, qualquer interpretação que o analista devolve ao analisando tem que fazer sentido antes mesmo do que o analista acredita, para o próprio analisando. Em outras palavras, não espero oferecer ao leitor uma resposta definitiva, mas sim compartilhar observações clínicas e algumas interpretações que podem ou não fazer sentido para ele.
No entanto, esses escritos não têm a pretensão de alcançar e fazer sentido para todos, mas principalmente de evidenciar como os distúrbios psíquicos estão diretamente relacionados à função do holding e às falhas ambientais, na perspectiva winnicottiana. Os estudos dos escritos de Winnicott, no que diz respeito a esse assunto,
nos permitem compreender que não se trata de afirmar que esse ambiente ou a mãe não possa falhar, pelo contrário, mas sim de como essa relação se configura em uma relação patológica que cria todas as condições psíquicas para um ego enfraquecido e doente.
Sobre a condição patológica mencionada, Winnicott em A Família e o Desenvolvimento Individual esclarece que a mãe excessivamente preocupada não apenas permanece identificada com seu bebê por um tempo prolongado, como observamos no caso da bruxa com o filho do analisando.
Em outras palavras, a bruxa não permitiu que ele se libertasse da condição de dependência e alcançasse sua integração e individualidade, pois assim ela perderia o controle sobre ele, o que representaria uma ameaça aos seus planos e à sua imagem.
A bruxa tinha trabalhado arduamente para construir uma realidade interna no filho. Assim, ela subitamente abandona a preocupação com a criança, substituindo-a pela preocupação que tinha antes do nascimento dela. Em outras palavras, nega sua própria realidade interna e os abusos cometidos, projetando todas as suas questões internas no pai, o analisando.
ela não conseguia lidar com essas questões, mesmo que isso resultasse em negligência com a criança, em sua função de holding e em discursos de ódio contra os homossexuais. Pelo exposto, meu estimado leitor, reforço que a escuta da singularidade requer do analista uma habilidade clínica adequada e a capacidade de ouvir e acolher as angústias do analisando que emergem por meio da narrativa.
Em outras palavras, a narrativa consiste na exposição de um evento ou uma série de eventos, como os apresentados neste caso, que podem estar conectados de maneira mais ou menos linear, sejam eles reais ou imaginários, expressos por meio de palavras ou imagens descritas pelo Analisando.
Mais uma vez, nos fragmentos do caso clínico em análise, o filho do analisando acredita que o pai gay seja alguém sem noção, uma pessoa perdida, desprovida de integridade e desconectada da realidade. Essa é a imagem que o filho internalizou do ser gay.
Para o filho, ser gay é sinônimo de falsidade, ou algo irreal e sem sentido. Ele não compreende a homossexualidade como uma expressão natural da sexualidade humana e expressa sua crença ao pai, afirmando, você se perdeu em suas próprias mentiras. No entanto, a internalização e a reprodução do discurso de ódio atribuem ao ser gay uma imagem repleta de imundice.
Dessa forma, o analisando ouve novamente do filho, em um ataque de agressividade e hostilidade contra o pai, as palavras Eu sei das cagadas e das merdas que você fez. Em outras palavras, o ser gay é associado a uma série de desventuras e adjetivações pejorativas.
Assim, meu caro leitor, será que ainda faria sentido tentar responder a nossa pergunta que dá lugar ao título deste livro? O filho tem no seu imaginário que ser gay está diretamente relacionado à indecência. Tal afirmação nasce de um fragmento da mensagem que o analisando recebeu do filho, momento em que ele afirma
Acreditei que uma vez na vida você ia ser decente. Portanto, o pai gay é visto como alguém não decente, ou seja, alguém que não está em conformidade com os padrões morais e éticos da sociedade, um sujeito sem dignidade, falho e indecoroso.
o pai gay passa a ser associado a alguém que não corresponde às expectativas em relação à sua apresentação, condição e qualidade de pai, masculinidade e, ousaria dizer, até mesmo a sua utilidade. Ao filho do analisando, a única ideia que lhe ocorreu e que foi internalizada na sua identificação narcísica com a mãe foi a de que o pai, ao ser gay, havia declarado não querer compromisso com nada.
Portanto, o pai gay, tanto no presente quanto no imaginário do filho, é aquele que foge das responsabilidades e da verdade. Nesse sentido, ao gay é conferida toda a condição de alguém irresponsável e mentiroso. Essas são algumas das angústias que o analisando vai apresentando ao longo de sua análise. Então, se buscamos uma nova formulação capaz de responder a pergunta
meu pai é gay, e agora, essa formulação estaria relacionada à compreensão de que, devido à situação de alienação parental e à extrema dependência emocional da criança, seu desenvolvimento e sua vida não podem ser estudados isoladamente, sem considerar o cuidado que lhe foi fornecido, como no caso de tudo que foi fornecido ao filho pela bruxa, conforme relatado pelo Analisando.
Na perspectiva winnicottiana, a independência surge a partir da dependência, mas é importante ressaltar que a dependência se realiza a partir do que poderíamos chamar de dupla dependência. Em relação à noção de dupla dependência,
Winnicott esclarece que as bases da saúde mental de cada indivíduo são estabelecidas no início da vida, quando a mãe está totalmente dedicada ao seu bebê e este se encontra em um estado de dupla dependência, sem sequer ter consciência de sua dependência. Assim, o filho homofóbico e incapaz de amar e aceitar o pai não tinha consciência de sua dependência em relação à figura materna e de sua condição de alienação.
Mesmo que tivesse essa percepção, seria extremamente doloroso para ele aceitar essa realidade e precisar renunciar à imagem idealizada da mãe, a mãe perfeita em suas fantasias. Essa impossibilidade fica evidente em mais um fragmento clínico, quando o filho expressa sua agressividade em relação ao analisando, ironizando.
Você acha que eu sou algum idiota para acreditar nas mentiras que uma mãezinha diria? Cai na real. No entanto, o que poderia ser uma resposta à nossa formulação inicial parece encontrar ressonância em uma passagem de Winnicott.
Só na presença dessa mãe suficientemente boa, pode a criança iniciar um processo de desenvolvimento pessoal e real. Se a maternagem não for boa o suficiente, a criança torna-se um acumulado de reações à violação.
O self verdadeiro da criança não consegue formar-se ou permanece oculto por trás de um falso self que há um só tempo quer evitar e compactuar com as bofetadas do mundo. Entretanto, o self imaturo ou o falso self surge a partir do sentimento de injustiça que esse filho internalizou.
Para o filho, o pai gay ou o ser gay é sinônimo de alguém injusto. Seu desenvolvimento pessoal e real não foi possível, pois antes mesmo da mãe ser suficientemente boa, ela estava em uma condição patológica de alucinações paranoicas e delírios de grandeza.
o que não lhe permitia exercer em pleno juízo sua maternagem. Assim, como acrescenta Winnicott, a noção de um holding deficiente é capaz de gerar extrema aflição na criança, como ocorre no caso do filho do analisando.
A falha da mãe, a bruxa, tornou-se a fonte da sensação de despedaçamento, de estar caindo num poço sem fundo, de um sentimento de que a realidade externa não pode ser utilizada para o conforto interno, além de outras ansiedades frequentemente categorizadas como psicóticas. Portanto, na ausência da mãe em sua função de holding,
isso revela mais sobre a condição do filho e sua não aceitação do pai homossexual do que a ausência do pai. É devido à falha desse ambiente que esse indivíduo é levado a desenvolver um falso self que esconde qualquer vestígio de seu verdadeiro self.
e todas as possibilidades de aceitação desse pai em sua totalidade. Em outras palavras, o ambiente que passou por tantas reviravoltas não permitiu ao filho a continuidade do ser. Acrescenta Winnicott a esse respeito.
A integração do indivíduo não é um fato que se possa tomar como dado. A integração pessoal é uma questão de desenvolvimento emocional. Para atingi-la, cada ser humano parte de um estado inicial não integrado. Assim, portanto, seguimos o pensamento winnicottiano para novas aproximações e formulações interpretativas sobre o caso em análise.
Segundo o autor, as patologias psiquiátricas podem ser artificialmente divididas em dois tipos, psiconeurose e psicose. Esta última está relacionada à presença de elementos de loucura dentro da personalidade, ou como costumamos dizer, um distanciamento da realidade associado a um delírio de grandeza.
A psiconeurose, nesse sentido, é derivada dos padrões de defesa organizados pela personalidade individual intacta para afastar ou lidar com as ansiedades que surgem dos fatos e fantasias relacionados às interações interpessoais, ou da impossibilidade de manter tais interações, como foi estabelecido na fantasia do filho em relação à condição homossexual do pai.
Nesse mesmo contexto, a homossexualidade parece perpetuar a ideia de um transtorno ou doença, afastando-se mais uma vez da realidade. Na visão winnicottiana, o distúrbio psiconeurótico do pai ou da mãe pode acarretar certas complicações para a criança, mas a psicose de um dos pais suscita perigos mais sutis para o desenvolvimento saudável da criança.
No entanto, não é a condição homossexual do pai que suscita perigo ao filho, mas sim a relação de dependência emocional e alienação parental que a mãe havia investido no filho enquanto objeto de suas vinganças. Assim, portanto, estamos nos aproximando de dar algum sentido à descoberta meu pai é gay.
Neste ponto do texto, espero que os escritos e fragmentos do caso que deram origem a este livro possam ser reintegrados e fazer algum sentido analítico para os nossos leitores.