Um relógio e uma garrafa de vinho: como um plano "perfeito" foi desmontado
📌 Duas mulheres mortas nas próprias camas com apenas 22 dias de diferença. Para a polícia de Bolonha, pareciam mortes naturais. Mas a verdade estava escondida em uma garrafa de vinho guardada em um armário por três anos e nas "pegadas digitais" de um relógio inteligente. Neste episódio, investigamos o caso de Giampaolo Amato, um médico renomado que planejou o que deveria ser o crime perfeito. Como uma irmã persistente e a tecnologia moderna derrubaram o álibi de um dos assassinos mais calculistas da Itália? Assista e deixe sua opinião: culpa ou inocência?-------📧 Contato comercial: contato@mpcampos.com.br
Marcos Campos
- Julgamento de Henrique Volcar e Fabiano ZeddoGiampaolo Amato · Corte d'Assise de Bolonha · Prisão perpétua
- O relógio inteligente como provaGiampaolo Amato · Smartwatch · Batimentos cardíacos
- Roubo de garrafa de vinhoAna Maria Lins Salata · Midazolam · Garrafa de vinho
- Morte de Isabella Lins SalataIsabella Lins Salata · Morte natural
- Exumação e autópsiaGiulia Tateu · Midazolam · Sevoflurano
- Prescrição de Drogas PsicoativasIsabella Lins Salata · Benzodiazepínicos · Midazolam · Giampaolo Amato
- Julgamento e CondenaçãoGiampaolo Amato · Corte de Apelação de Bolonha · Desenho criminoso
- Nova autópsia e descoberta de fármacosIsabella Lins Salata · Midazolam · Sevoflurano
- Foto no celular e discussão sobre inalaçãoGiampaolo Amato · Sevoflurano · Gas soporífero
- Casamento e Despedida de SolteiroGiampaolo Amato · Isabella Lins Salata · Amante · Separação
- Uso Racional de MedicamentosGiampaolo Amato · Herança · Liberdade para amante · Fármacos hospitalares
- Morte de Giulia TateuGiulia Tateu · Morte natural
Duas mortes com 22 dias de diferença entre elas, duas certezas, algumas dúvidas, mas a verdade estava guardada num armário por 3 anos. Uma mulher chega na casa da irmã e encontra ela num estado estranho, esquisito, ela parecia meio bêbada, zonza, sendo que até onde todo mundo sabia, ela não tinha tomado nada além de uma taça de vinho no jantar daquela noite. E aí, Essa mulher vai até o lixo e pega a garrafa de vinho que tinha sido servida no jantar, uma garrafa que inclusive já tinha sido até lavada antes de ser jogada fora, e leva isso aí pra casa dela.
Isso aconteceu em maio de 2019, e a garrafa ficou lá por 3 anos. Aquela garrafa depois iria parar nas mãos da perícia científica da polícia italiana e acabar dentro de um tribunal, no centro de um caso que abalou uma cidade inteira, e o que foi encontrado dentro daquela garrafa é a revelação de um plano que por pouco não foi perfeito. Eu sou Marcos Campos e hoje eu te levo pra Bolonha, na Itália, pra dentro de um prédio de família onde duas mulheres morreram nas próprias camas com 3 semanas mais ou menos de diferença, e onde por muito pouco nada teria acontecido, ninguém teria feito uma única pergunta sequer.
Então já se ajeita porque hoje nós vamos investigar o porquê de a polícia ter encarado como naturais duas mortes dentro de uma casa com pouco tempo de diferença entre elas, e o que um relógio de pulso comum, desses que contam passos, sabe, tem a ver com a virada desse caso, além claro da garrafa de vinho. Então é isso, bota os fones de ouvido, fica confortável e vamos aos fatos. Bolonha é uma daquelas cidades italianas de cartão postal, sabe?
Universidade antiga, prédios cor de terracota e quilômetros de calçadas cobertas que passam por baixo dos prédios, entre colunas e arcos, os famosos pórticos de Bolonha, que funcionam ali como corredores protegidos acompanhando a rua. E é numa área residencial dali, da tranquila cidade, a zona Murri, que fica o prédio da Via Bianconi número 6. Esse prédio aí era na prática um prédio de família. Ali morava Giulia Tateu, uma senhora de 87 anos.
Também morava por lá a filha dela, Isabela Lins Salata, de 62 anos, que era uma ginecologista querida ali na cidade, mãe de dois filhos já adultos, Ana Chiara e Nicola. O apartamento da senhora Giulia era ligado aí ao da família da Isabela, e o Nicola morava num apartamento colado ao da avó, com uma porta interna inclusive entre os dois. E no abaixo desses apartamentos delas ficava o consultório do marido da Isabela, um médico que naquela época dormia no próprio consultório e não na casa da esposa, e eu já vou contar o porquê disso aí.
Na noite do dia 8 pro dia 9 de outubro de 2021, a senhora Giulia morreu. Quem encontrou o corpo dela na manhã do dia 9 foi o neto, o Nicola, bem no quarto dela. E olha, na hora ninguém desconfiou de absolutamente nada, até porque uma senhora de 87 anos que tinha passado por uma cirurgia fazia pouco tempo, morta assim na própria cama, sem nenhum sinal de violência, pra família então, pros médicos, pra todo mundo na verdade, aquilo era um fim natural de uma vida longa sem sofrimento na hora da morte.
A Giulia foi enterrada e não fizeram nenhum tipo de exame nela, só tinha um detalhe que mais tarde ia ganhar um peso enorme, no dia anterior, a outra filha da senhora Giulia A Ana Maria e um dos netos tinha visto e falado com a senhora Júlia, e segundo os dois, ela estava em perfeita forma, nada alarmante. Apesar disso, a senhora Júlia morreu no dia seguinte dessa conversa sem nenhum sinal aparente. Isso poderia ser um Elo? Até poderia, mas também não poderia, não é?
E assim a vida seguiu, só que 3 semanas depois, na noite de sábado, 30 de outubro, a Isabela saiu para jantar com alguns amigos. O marido dela não estava, nesse jantar. Um amigo de longa data que participou da noite contou depois num programa de TV italiano que ela estava muito bem, parecia feliz e tranquila, e que foi ele mesmo quem levou a Isabella depois de carro de volta pra casa, deu uma carona pra ela. Segundo esse próprio amigo aí, isso era por volta da 1 da manhã.
No dia seguinte, na manhã seguinte, melhor dizendo, 31 de outubro, parentes tentaram falar com a Isabella, ligaram pra ela, insistiram, E ela não respondia. Preocupados então, eles contataram o marido dela, que estava no trabalho. Foi ele quem acionou o socorro e relatou ter encontrado a esposa sem vida, por volta de meio-dia e meia daquele domingo. Isabela estava morta na cama do próprio quarto, deitada sob o edredom bem ajeitadinho ali, e ela estava vestindo apenas roupas íntimas.
Não havia sinal de luta nem de arrombamento, e a persiana estava parcialmente abaixada. Era uma cena quase idêntica à do quarto da mãe dela, 22 dias antes disso. E um detalhe que talvez você tenha notado: era um domingo e o marido estava no trabalho. E não era no trabalho no andar de baixo, ali no escritório dele, não, tá? Ele tava trabalhando mesmo num outro prédio, porque ele era funcionário da rede pública ali de medicina. E segundo o que ele próprio contou depois no julgamento, naquela manhã ele estava de plantão no pronto-socorro e disse que quando a família avisou que Isabela não atendia, Ele saiu correndo pra casa, sem nem esperar o colega que ia substituí-lo.
E de novo, a primeira leitura ali foi morte natural, uma tragédia em cima da outra, mãe e filha, só uma infeliz e triste coincidência da vida. No dia seguinte à morte, o marido da Isabela quis cremar o corpo dela. E esse pedido aí chamou atenção, porque uma amiga de décadas já da Isabela contou que ela nunca tinha manifestado em vida a vontade de ser cremada. Que pra ela falar de cremação naquela hora destoava um pouco da dramaticidade do momento.
E o marido dela disse que os dois tinham sim conversado sobre o assunto e que ela teria concordado com a cremação pra no futuro descansarem juntos, por uma questão de espaço, e que a cremação só aconteceria depois de uma autópsia, que segundo ele já estava até decidida no caso dela. Ou seja, existiam ali duas versões, algumas leves desconfianças, Pelas razões que eu vou contar daqui pra frente, mas eu já adianto que os registros do caso mostram que ninguém de fora, digamos, confirmou a versão dele.
E foi nesse ponto que uma pessoa bateu o pé pra que não acontecesse a cremação. Ana Maria Lins Salata, a irmã da Isabela, se opôs a essa cremação aí. E não só se opôs, tá? Ela insistiu para que fosse feita também uma autópsia no corpo da irmã. A família ficou do lado dela. A Isabela acabou sendo enterrada e não cremada. Eu pergunto, será que alguém estava desconfiado de alguma coisa? Talvez quisessem afastar alguma possibilidade da mente?
Seja como for, a primeira autópsia feita por dois médicos legistas do serviço de saúde local não encontrou nenhuma explicação para a morte dela. Os legistas simplesmente não conseguiram estabelecer com certeza a causa da morte de uma mulher de 62 anos que, até onde se sabia, era saudável. E diante desse vazio, digamos, a Procuradoria de Bolonha abriu uma investigação e novos exames começaram quase que imediatamente. Mas o que transformou um laudo inconclusivo num caso de verdade mesmo foi o que a Ana Maria, irmã, tinha pra contar.
Em fevereiro de 2022, ela contou pra polícia italiana tudo que a família vinha guardando fazia um bom tempo, anos até. A história que ela contou começava lá atrás, em 2019. Naquele ano, a Isabella começou a apresentar uma coisa que não batia com a rotina dela, um cansaço fora do normal, crises de sonolência, episódios em que ela simplesmente apagava. Em fevereiro de 2019, uma amiga médica que acompanhava a Isabela decidiu interná-la pra investigar o que estava acontecendo.
Mas a princípio parece que também nada muito alarmante foi encontrado. Em abril, a Isabela chegou a viajar pra Guatemala com uma outra amiga. Uma coisa curiosa aconteceu nessa viagem. Durante o roteiro, longe de casa, ela melhorou. Quando voltou, no entanto, a sonolência voltou junto, e a própria Isabela começou a desconfiar de uma coisa bem específica. Ela tinha o hábito de tomar chás à noite e ela comentou com as pessoas mais próximas ali que vinha sentindo que aqueles chás estavam com gosto esquisito, meio amargo, e pediu que a ajudasse.
Disse que era para fazer alguma coisa. Em maio de 2019, ela fez então um exame de urina e o resultado desse exame é a primeira prova concreta dessa história: valores altíssimos de benzodiazepínicos, que é uma classe de sedativos, incluindo um chamado midazolam, um fármaco potente que a Isabela não tomava, até onde se sabe. A Isabela era médica, ela sabia ler aquele laudo, e a conclusão que ela tirou e confidenciou a irmã e as amigas mais próximas era uma só: alguém estava fazendo aquilo com ela, colocando aquela coisa na bebida dela.
E é aqui que eu preciso te contar o que estava acontecendo dentro daquele casamento, tá? Fazia alguns anos que o marido da Isabela, o senhor Giampaolo Amato, estava mantendo um relacionamento com uma mulher bem mais nova, e a Isabela sabia. Segundo o que a Ana Maria, irmã dela, contou depois em juízo, houve períodos em que a amante fazia ligações contínuas pra casa da Isabela, a ponto, pra você ter uma ideia, de a Isabela cancelar a linha fixa da casa.
Mandava emails também com fotos dos dois pombinhos se beijando, Uma vez mandou até uma pasta inteira de fotos. A Isabela chegou a falar em formalizar a separação com o marido, conversou com ele sobre isso. O arranjo que acabou existindo foi aquele que eu mencionei lá no começo, lembra? Com o casamento em ruínas, o marido saiu do apartamento e passou a dormir então no consultório que ficava no andar de baixo desse prédio residencial aí.
Uma amiga psicóloga que conhecia bem a Isabela, havia mais de 30 anos já, contou à imprensa que a única coisa que a Isabela passou a exigir era que ele não dormisse mais no quarto dela, na da cama dela, mas ele continuava com as chaves do apartamento, continuava ali na mesma, mesmo prédio, digamos, né? Ou seja, eles não dormiam juntos, mas havia sim o convívio. Então, a essa altura dos fatos, a gente tem o seguinte: uma mulher que desconfia que estão sedando ela dentro da própria casa, um exame que confirma que há mesmo sedativo no corpo dela, e um casamento destruído.
E aí, claro, fica a pergunta, não é? Por que a Isabela não denunciou o maridão? As amigas disseram em juízo que insistiram para que ela denunciasse. Ela não quis. Segundo elas, a Isabela não queria expor os filhos e também não queria arruinar ninguém. E segundo a amiga psicóloga, no fundo ela ainda amava o marido e achava que bastava mantê-lo longe da cama dela para estar segura e de repente restaurar, se houvesse alguma coisa a ser restaurada.
Porque na cabeça da Isabela, quem quer que estivesse fazendo aquilo queria sedá-la e não matá-la. Ah, Isabela, minha querida, Ah, sedar pra quê, não é? Bom, as amigas guardaram os laudos daqueles exames e, como você já sabe, alguém da família guardou mais uma coisa. Com esse relato nas mãos então, a Procuradoria de Bolonha nomeou um consultor, o médico legista Guido Pelletti, pra reexaminar a morte da Isabela com mais vontade, mais a fundo.
Em março de 2022, o marido dela ficou sabendo oficialmente disso. Ele era investigado agora pela morte da esposa. E tem um registro dessa época, tá? Um registro das escutas telefônicas da investigação que captaram no dia 5 de março de 2022 um dos filhos perguntando ao pai como a mãe estava naquela última noite. E o pai respondeu que ela estava tranquila. Em outubro de 2022, depois de meses de exames, saiu o resultado da nova perícia sobre o corpo da Isabela.
E a conclusão mudou o caso de patamar: intoxicação aguda por fármacos. 2 especificamente: o midazolam, o mesmo benzodiazepínico do exame de urina lá de 2019, lembra? E também o sevoflurano, que é um anestésico usado em centro cirúrgico, do tipo que se inala. Isabela Linsa Lata não tinha simplesmente morrido. Ela tinha sido envenenada e morreu em decorrência disso. Os consultores da defesa ainda tentaram sustentar uma explicação alternativa pra isso, um coágulo no coração, mas o especialista que estava ali no caso, o Dr.
Pelletti, rejeitou a hipótese. Não havia nos pulmões os sinais que, em tese, deveriam existir pra essa possibilidade. E aí, inevitavelmente, as pessoas começaram a ligar os pontos, a desconfiar de outra morte, que tinha acontecido, como a gente viu, pouco tempo antes da morte da Isabela. Afinal, se alguém envenenou Isabela, o que exatamente tinha acontecido com a mãe dela, morta 22 dias antes na mesma casa, numa cama também, do mesmo jeito, pode-se dizer.
A família da Isabela, com todas essas dúvidas, não é, tomou uma decisão extrema: exumar o corpo da senhora Giulia Tateu. Em janeiro de 2023, 15 meses depois da morte, o corpo daquela senhora de 87 anos saiu da sepultura e foi pra mesa da perícia. O estado de decomposição já era evidentemente avançado, e isso teve uma consequência técnica importante: os peritos não conseguiram estabelecer as quantidades das substâncias presentes, mas eles conseguiram estabelecer quais eram.
E no corpo da Giulia Tateu estavam as mesmas duas substâncias encontradas no corpo da filha dela, midazolam e sevoflurano. Ou seja, eram duas mulheres da mesma casa mortas com 3 semanas de intervalo, no mesmo cenário, cama, sem violência e com o mesmo coquetel de fármacos hospitalares no corpo. A partir daí, a pergunta que os investigadores precisavam responder era: quem no mundo daquelas duas mulheres tinha ao mesmo tempo motivo, acesso àqueles apartamentos e acesso anestésico de centro cirúrgico?
Meios, motivos e oportunidades. E pra responder isso, além do marido da Isabela, tinha também a amante dele, uma mulher que atormentou a Isabela durante anos com as ligações e os emails que eu já contei aqui. Os investigadores então a ouviram ainda em março de 2022, e o que saiu dessa frente da investigação não foi o que se esperava, tá? Quando descobriu que existia uma investigação, Ela terminou o relacionamento com o Giampaolo.
Nas conversas recuperadas e mostradas depois no julgamento, o tom dela não era de cúmplice, era na verdade de medo. Você está me dando medo, ela chegou a escrever pra ele. Em juízo, ela descreveu um homem ciumento que mentia com frequência e tinha atitudes que ela achava preocupantes. E depois do término, quando ele passou a mandar mensagens e fazer ligações agressivas, ela chegou a pensar em denunciá-lo à polícia. E só pra fixar bem, o marido da Isabella, da mulher que morreu, filha da senhora que tinha morrido antes, se chama, como eu disse, Giampaolo Amato, e se você fosse morador lá de Bolonha, esse nome aí provavelmente te diria alguma coisa, tá?
O senhor Amato era um oftalmologista renomado, médico do sistema público de saúde da cidade, e de 2013 a 2020, médico da Virtus Bolonha, do tradicional time de basquete lá da cidade, profissional respeitado, conhecido, admirado por colegas, amigos e pacientes, o tipo de pessoa que ninguém colocaria numa lista de suspeitos de homicídio, que fará de dois. E agora eu posso te entregar a camada que faltava naquela história dos chás, tá?
Aqueles chás amargos que a Isabela tomava à noite, quem preparava, segundo o que a família e as amigas contaram, era evidentemente o marido, Era do próprio Giampaolo que a Isabela desconfiava. A própria Ana Maria, irmã dela, ainda em 2019, chegou a perguntar pra irmã com todas as letras: Não é o seu marido que tá fazendo isso com você? Mas, por alguma razão, não aconteceu nada, a não ser o fato de Giampaolo ter saído do quarto da esposa, da cama dela.
Só que nesse momento aí dessa desconfiança, era só desconfiança e não prova, não é? Mas quando tudo foi sendo apurado, A acusação começou a montar um quebra-cabeça, várias peças, e elas estavam se encaixando com facilidade. Midazolam, cebo-flurano são fármacos de uso hospitalar, e o senhor Amato, trabalhando nos hospitais da rede pública de Bolonha, tinha como dispor deles com facilidade. As vítimas moravam nos andares acima do consultório onde ele dormia todas as noites, trabalhava, ele tinha as chaves do apartamento.
E segundo a reconstrução da acusação, nas duas noites das mortes, ele era a única outra pessoa presente naquela casa. Então pensa, situação complicada, não é? Um covarde do caramba e pessoas inocentes que talvez, por todo o histórico de uma vida juntas, não acreditaram que ele pudesse ser capaz de uma coisa dessas, não é? Haja vista aí o histórico e o relato da irmã Bom, no dia 8 de abril de 2023, um ano e meio depois das mortes, a polícia prendeu Gianpaolo Amato pelo homicídio da esposa.
No primeiro interrogatório diante do juiz, ele ficou em silêncio. Em 30 de outubro de 2023, veio a segunda ordem de prisão preventiva, agora também pelo homicídio da sogra. Só que até aqui, o que existia contra ele era motivo, acesso e oportunidade, e não tinha testemunha ocular. Não tinha câmera dentro da casa, não tinha uma confissão dele. O que pesou de verdade na decisão de prender aquele homem, aquele médico respeitado, foi um conjunto de perícias digitais que os investigadores extraíram dos aparelhos apreendidos com ele.
E a peça mais impressionante desse conjunto estava no pulso dele. Quando os investigadores apreenderam os dispositivos eletrônicos do senhor Amato, iPhone, iPad, computador, eles pegaram também o relógio dele, um smartwatch. Lembra que comentei sobre isso lá na introdução do episódio? Pois é, era um relógio inteligente comum desses aí que monitoram atividade física, batimento cardíaco, sabe, os passos que você dá. Desde o primeiro interrogatório, Amato sustentou a mesma versão sobre a noite da morte da sogra.
Ele teria chegado ao consultório da Via em Cony, ou seja, a casa ali da família, por volta das 8:30 da noite no dia 8 de outubro e não teria saído de lá até a manhã seguinte. Ele, segundo ele mesmo, ficou no andar de baixo a noite inteira, ponto. Mas o relógio, ah, o relógio contava uma história diferente. As famosas pegadas digitais não mentem, não é? Segundo a reconstrução da investigação, o sensor de atividade ali do relógio dele registrou na noite 7 subidas de andar, todas entre 23h da noite do dia 8 e 7h da manhã do dia 9, exatamente a janela em que a Giulia Tadeu morreu no quarto dela, no andar de cima da casa.
Junto disso, o relógio gravou naquela madrugada batimentos cardíacos anormalmente altos para aquele horário, com frequência acima de 90 por minuto. E registros elevados parecidos apareceram também na noite de 30 para 31 de outubro, ou seja, a noite da morte da Isabela, da esposa. Bom, a perícia encarou isso aí como batimentos elevados pra hora, né? Normalmente já tá num ritmo de sono, batimento um pouco mais baixo. Mas eu vou te dizer que 90 batimentos pra um cara que tava fazendo o que ele tava fazendo, sei lá, eu achei meio frio, estranho.
Comenta o que você acha. Bom, a acusação sustentou em juízo que movimentos como aqueles não apareciam em nenhuma outra noite registrada pelo aplicativo do relógio, só naqueles 2 dias ou 2 noites. E o telefone dele tinha mais, tá? No iPhone do senhor Amato, os peritos encontraram uma foto que ele mesmo tirou e salvou como lembrete no dia 7 de outubro de 21, véspera da noite em que a sogra morreu. A foto mostrava a tela de um outro dispositivo aberta numa discussão pública da internet chamada, em italiano, gas soporífero.
Na conversa, alguém perguntava se existia uma molécula capaz de fazer uma pessoa dormir por inalação, e na resposta estavam listados anestésicos similares ao sevoflurano, exatamente o anestésico inalatório que semanas depois estaria no corpo de duas mulheres. Tinha também a questão do midazolam. No interrogatório, o senhor Amato tinha se colocado como alguém distante daquele fármaco, mas a perícia dos dispositivos Mostrou outra coisa, num grupo de WhatsApp de médicos da linha de frente da pandemia à época, criado em 2020, tinha circulado um PDF nesse grupo com as instruções de uso do midazolam em pacientes de COVID, e Amato participava ativamente desse grupo.
Mais que isso, poucos dias antes da morte da Giulia, ele mandou uma mensagem pra amante dizendo que tinha administrado midazolam a um paciente. A uma paciente. E ainda tinha um último detalhe daquela véspera, tá? Pequeno, calculado, eu diria. No dia anterior à morte da sogra, segundo a investigação, tá? O senhor Amato perguntou ao filho se ele voltaria pra casa naquela noite. Faltava responder o porquê de tudo, não é? Se você lembra, só havia ele e as duas mulheres na casa.
E a resposta da procuradoria tinha duas camadas sobre tudo isso, tá? A primeira: dinheiro. Com as duas mortes, o senhor Amato ficava no caminho da herança, em particular dos imóveis lá da Via Biancone, onde a sogra e a esposa moravam, onde havia o consultório. A segunda camada de motivação: liberdade. A relação com a amante era turbulenta, segundo consta, ela estava começando a ter dúvidas e ele, segundo a acusação, queria manter aquela relação a qualquer custo.
Aos olhos dos investigadores então, a sogra e a esposa eram pra ele obstáculos, E quanto ao método, a tese apresentada pela acusação tinha uma banalidade cruel, primeiro sedativo diluído na bebida, no chá, no vinho, pra apagar a vítima, depois, com ela já desacordada, o anestésico inalatório, primeiro com a sogra, depois com a esposa. Bom, com todo esse conjunto de provas, pode-se dizer circunstanciais, mas bem comprometedoras, flertando com provas materiais, não é?
O homem foi preso e finalmente chegou o julgamento dele em março de 2024. O julgamento foi na Corte d'Assise de Bolonha, o tribunal do júri italiano, e a corte estava sendo presidida pelo juiz Pierluigi Di Bari, com a acusação conduzida pela procuradora adjunta Morena Piazzi. Durou 7 meses e foi um julgamento construído inteiramente sobre indícios, sem testemunho ocular, sem imagens, sem confissão, um duelo de interpretações sobre um mosaico de pistas.
Ana Maria, filha e irmã das vítimas, foi uma das primeiras a depor. Na audiência em que as fotos do corpo da irmã foram exibidas, ela afirmou que Isabela jamais teria tirado a própria vida, amava demais a família e os amigos, os pacientes, enfim. Ela disse isso rebatendo o que o Amato falou depois. Veja, Amato passou horas depondo, ele estava seguro de si, falando muito, e segundo os relatos de quem estava na sala de julgamento, ele chegava a interromper a procuradora e até o presidente da corte.
A versão dele era: nunca administrou nada em ninguém, não sabia explicar porque aqueles fármacos estavam nos corpos da esposa e da sogra. Sobre Isabela, ele sustentou que ela sofria de depressão, tomava remédios por conta própria e sugeriu que talvez ela tivesse, sem perceber, exagerado na dose. E aí veio o momento chave: o senhor Amato começou negando conhecer aqueles dois fármacos. Pressionado, no entanto, pela procuradora, ele admitiu que sabia sim pra que serviam, contou que durante a pandemia os médicos precisavam registrá-los nos prontuários de pacientes que já não tinham mais salvação e que sabia que eram usados pra acompanhar uma morte sem sofrimento.
A defesa, por sua vez, atacou a base de tudo, pros advogados dele, os homicídios simplesmente nunca existiram. Giulia Tadeu teria morrido de causa cardíaca, Isabela teria morrido pelos fármacos que ela própria tomava, e uma amiga confirmou em juízo que por volta de 2020, A Isabela contou que tomava remédios mesmo pra conseguir dormir e pediu segredo sobre isso. E a defesa levantou um argumento engenhoso até: o prédio lá da Via Biancone tinha câmeras no hall e nos andares, elas estavam quebradas naquele período, mas como um vizinho contou no banco de testemunhas, nem os moradores que participavam das reuniões de condomínio ali sabiam disso, e as câmeras só foram trocadas depois da morte da Isabela.
Ou seja, por essa tese da defesa, o Amato não tinha como saber que as câmeras não estavam funcionando. Então, por que ele faria isso, né? Subiria ali sendo registrado? Assim, até tem um sentido nessa tese da defesa, não é? Mas eu diria que também pode ser carteada, porque ele simplesmente podia saber, alguém poderia ter falado. Só que a acusação tinha guardado o elo mais antigo dessa história. E aí a gente volta lá para garrafa do começo do vídeo, a garrafa que uma mulher pegou no lixo e guardou 3 anos.
Aquela mulher do início do episódio era Ana Maria Lins Salata, a irmã e também filha das vítimas. A noite era de um jantar comum da Isabela com o marido dela, uma noite que terminou com a Ana Maria encontrando a irmã atordoada, meio bêbada, embriagada. O motivo de ela ter ido atrás justamente daquela garrafa no lixo não foi um palpite, tá? Naquela altura ali, a Ana Maria já vinha vendo a irmã apagar sem explicação fazia meses.
Naquela mesma noite, a Isabela reclamou com ela que o vinho daquele jantar estava amaríssimo, ou seja, um amargor esquisito, o mesmo dos chás. Ana Maria ligou os pontos e falou: quer saber, vou pegar essa garrafa aqui. Na época, Ana Maria ainda tentou mandar analisar essa garrafa aí por conta própria, mas ela não encontrou um laboratório que fizesse isso. E a garrafa então ficou guardada com ela de maio de 2019 até março de 2022, quando ela foi apreendida pela investigação e analisada pela perícia do caso.
O resultado da análise, quem chuta, positivo para midazolam, o mesmo sedativo hospitalar que apareceu no exame de urina de 2019 e nos corpos das duas mulheres depois. Essa substância tava dentro daquela garrafa de vinho, uma garrafa de vinho que foi servida apenas num jantar para o casal. Ou seja, o negócio vinha de longe. E a defesa dizer que a senhora morreu do coração, eu diria que muita sacanagem, né, uma vez que foi feito o exame depois que o corpo dela foi exumado.
Sobre a garrafa ainda, pessoal, a defesa tinha um trunfo pra derrubar essa prova, tá? E o argumento não era tão bobo assim. Veja, uma garrafa aberta que passou 3 anos na casa da irmã da vítima, que já tava desconfiada, sem um lacre, sem nenhum controle oficial sobre onde ela esteve, quem manipulou essa garrafa. Pra defesa, isso não tinha um valor probatório a ser considerado. O advogado da família, o Maurício Merlini, respondeu no tribunal que pode até ser que o senhor Amato não soubesse operar os equipamentos hospitalares de administração do midazolam, mas ironicamente ele disse: certamente ele sabe como colocar isso aí dentro de uma garrafa de vinho.
E agora eu preciso dizer, contando tudo isso para você, fica assim meio que evidente, né? Os pontos eles ficam gritantes. Mas ali, na emoção do júri, defesa falando, acusação falando, uma montanha de provas dos dois lados, eu diria que essa questão da garrafa pode ter colocado uma dúvida razoável na cabeça do júri, não é? Mas no dia 16 de outubro de 2024, depois de mais de 6 horas de deliberação, o juiz leu a sentença numa sala lotada e em silêncio.
Jean Paolo Amato, com 65 anos, estava sendo culpado dos dois homicídios. A prisão era perpétua, com um ano e meio de isolamento de diurno, e a indenização era de 750 mil euros pra Ana Maria, irmã, e de mais de 200 mil pro irmão da Giulia Tadeu, a senhora. Ainda teve uma acusação pelo suposto furto dos fármacos de um dos hospitais onde ele trabalhava, mas ele acabou sendo absolvido disso. O Amato ouviu a leitura e ficou imóvel, sem reação.
Quando a sessão foi encerrada, ele desabou na frente dos próprios advogados, repetindo que não tinha feito nada, que não tinha machucado nem Isabela nem Giulia, e que precisava sair dali naquela noite. Ele foi então escoltado de volta pra prisão de Dozza, em Bolonha. Anna Chiara e Nicola, os filhos da vítima, netos de outra, que nunca entraram no processo contra o pai e depuseram apenas como testemunhas, deixaram a sala incrédulos.
Eles acreditam na inocência do pai, segundo consta até hoje. E tem uma passagem das motivações dessa sentença que mostra o tamanho do abismo desse caso, tá? Os próprios juízes escreveram que acharam difícil aceitar que, na pessoa de Giampaolo Amato, o homem que filhos, amigos e colegas de trabalho conheciam, se escondesse um assassino frio, calculista e impiedoso. Pra fase de apelação, Amato trocou de time e contratou dois pesos pesados da advocacia italiana: Franco Coppi, que já tinha defendido ex-primeiros-ministros como, por exemplo, Giulio Andreotti e também Silvio Berlusconi, e também outro advogado, Valério Spigarelli.
Eles pediram nova perícia toxicológica e absolvição. Processo de segundo começou em 29 de setembro de 2025 e no dia 9 de janeiro de 2026, depois de 4 horas de deliberação, a Corte de Apelação de Bolonha confirmou a perpétua. Nas 331 páginas de motivações de segundo grau publicadas em abril de 2026, os juízes chamaram o conjunto de indícios de granítico, o que quer dizer sólido, feito rocha, e descreveram os 2 crimes como partes de um mesmo desenho criminoso movido por motivações exclusivamente egoístas.
E cravaram ainda a formulação que virou a definição pública desse caso: a morte de Júlia Tadeu foi uma espécie de ensaio geral. A morte de Isabela, a réplica, o método tinha se mostrado eficaz e útil com a sogra, então foi repetido finalmente com a esposa. No final das contas, as mortes ocorrendo antes do divórcio assinado o senhor Amato entrava na linha de herança. A defesa anunciou recurso à última instância da justiça italiana, enquanto ele não for julgado, a condenação não é definitiva e vale pela justiça a presunção de inocência.
O irmão de Amato, Massimo, quebrou o silêncio depois da confirmação da pena e resumiu a indignação da família dizendo que, por essa lógica, bastaria alguém achar uma garrafa numa adega pra reabrirem até o caso Sócrates. D'Amato, da prisão, repete desde o primeiro dia a mesma coisa, que é inocente, que dedicou a vida a cuidar de pacientes e que a simples ideia de ter machucado Isabela e a mãe dela é pra ele insuportável. No fim, se esse caso chegou a um tribunal, foi por causa de duas decisões de uma única pessoa.
Ana Maria tirou do lixo e guardou por 3 anos a garrafa de um jantar que terminou com a irmã atordoada. Numa situação em que ela já desconfiava, E na hora em que todo mundo queria virar a página pra essas duas tragédias, ela bateu o pé e impediu que uma cremação tivesse colocado um selo de crime perfeito nessa história. Os juízes que revisaram a prisão de Amato escreveram, ainda na fase de investigação, que ele tinha organizado friamente um homicídio que caminhava pra ser o crime perfeito mesmo, e que só não chegou lá porque aconteceu isso que eu comentei, né?
Mas a irmã da Isabela não permitiu. Mas é isso, quero saber a opinião de vocês com base em tudo isso que eu contei, que é a investigação pública do caso. Em que vocês votariam se estivessem nesse júri aí? Inocência ou culpa? Comenta aqui para mim. Agradeço imensamente sua companhia. Não esquece seu like, um comentário, nem que seja um emoji, se não quiser falar do caso. Se torne membro, se puder, me ajuda muito. Um beijo do Ruivo e até o próximo episódio.