A Face Comum do Mal: O rastro de horror de Andrei Chikatilo
📌 Num final de tarde de 1978, uma decisão mudaria a história criminal da União Soviética. Neste vídeo, conto a história real e perturbadora de Andrei Chikatilo, conhecido como "O Açougueiro de Rostov". Como um homem absolutamente comum conseguiu enganar o sistema por 12 anos e tirar a vida de mais de 50 pessoas?Vamos analisar o erro irretratável da polícia soviética, que ignorou provas claras e executou um homem inocente no lugar do verdadeiro monstro. Entenda como a ideologia da época, que negava a existência de serial killers no socialismo, permitiu que Chikatilo continuasse agindo livremente nas sombras das "faixas de mato".No episódio de hoje, que é um Remake, eu conto:O encontro no ponto de bonde que assombrou uma testemunha para sempre.O caso de Lena Zakotnova e o álibi ignorado de Alexander Kravchenko.O impacto do Holodomor na mente de Chikatilo.O jogo psicológico entre o inspetor Issa Kostoev e o assassino.Se você gosta de histórias reais, investigações detalhadas e True Crime, inscreva-se no canal! Temos 3 episódios novos toda semana.#TrueCrime #AndreiChikatilo #CasosReais #Documentario #HistoriaReal #VamosAosFatos-------📧 Contato comercial: contato@mpcampos.com.br
Marcos Campos
- Captura e confissão de Andrei ChikatiloOperação Lesopalosa · Issa Kostoev · Dr. Alexander Bukhanovski · Confissão · Jogo psicológico
- O erro policial no caso Lena ZakotnovaLena Zakotnova · Svetlana (testemunha) · Alexander Kravchenko · Retrato falado · Execução de inocente
- O modus operandi de ChikatiloFaixas de mato (lesopalosa) · Mutilação de corpos · Necrossadismo · Ritual de remoção de partes do corpo
- Execução e legado de Andrei ChikatiloCondenação por 52 mortes · Execução com tiro na nuca · Reconhecimento de culpabilidade
- Infância e formação de PessoaHolodomor · Canibalismo · Segunda Guerra Mundial · Fome pós-guerra · Impotência sexual
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O que você vai ouvir agora é uma das maiores falhas da polícia soviética e uma das caçadas mais dramáticas da história do crime, uma história que mistura incompetência, ideologia e puro terror. No fim de tarde do dia 22 de dezembro de 1978, numa cidadezinha pequena do sul da Rússia, Uma mulher chamada Svetlana estava esperando o bonde pra voltar pra casa depois do trabalho. Fazia muito frio naquele dia. Ela apertava o casaco e olhava em volta, e a poucos metros dela, no mesmo ponto, tinha um homem conversando com uma menininha.
Essa menininha tinha por volta de 9 anos, ela vestia um casaco vermelho com um capuz forrado de pele, mas esse capuz estava abaixado, então ela tinha colocado um gorro de pele de coelho marrom escuro, daqueles bem grossos, pra se proteger do frio. Ela carregava uma pasta de escola debaixo do braço. Esse homem era alto, largo nos ombros, mas curvado. Ele usava um sobretudo preto e um gorro de pele de carneiro marrom. Ele tinha uns 40 e poucos anos, talvez 50.
Era difícil ler a idade no rosto dele porque os óculos enormes pareciam desviar o olhar de quem tentasse encará-lo. Ele carregava uma sacola de compras com uma garrafa de vinho saindo pelo gargalo. Svetlana, vendo aquilo, se sentiu desconfortável, um homem de meia-idade conversando baixinho com uma criança de 9 anos, segurando uma garrafa de vinho. Ela naquele momento quase interveio, mas seu bonde chegou e ela subiu, e essa decisão iria assombrá-la pelo resto da vida. 2 dias depois, Svetlana estava atravessando uma ponte sobre o rio Grushievka, Foi quando então ela viu uma multidão se aglomerando embaixo daquela ponte.
Lá tinha a polícia, um fotógrafo agachado, e tinha também um corpo no chão, um cachecol de lã com padrão espinha de peixe amarrado sobre os olhos. O corpo era de uma menininha de 9 anos, o casaco vermelho ainda tava no corpo dela. A Svetlana foi até a delegacia em choque naquele mesmo dia contar o que ela tinha visto. Ela disse pros policiais que podia descrever o homem que possivelmente tinha feito aquilo, ela conseguiria reconhecer aquele homem.
Em 3 dias, um desenhista da polícia tinha um retrato falado pronto. Em poucos dias, o diretor da escola onde o tal homem trabalhava reconheceu aquele desenho, disse até o nome dele. Os investigadores anotaram e mandaram o diretor da escola não comentar aquilo com ninguém. Mas a polícia cometeu um erro gravíssimo, em vez de seguir o que a testemunha ocular tinha dito, o retrato falado estava demonstrando, eles escolheram um suspeito mais conveniente talvez, Alexander Kravchenko, um homem com passagem anterior por crime sexual, e o homem do retrato falado, aquele do ponto de bonde, continuou andando livre por mais de uma década.
O nome desse homem do ponto era Andréi Chikatilo, e o que aconteceu desde aquele dia de dezembro de 1978 até a data em que finalmente colocaram ele numa cela é uma das histórias mais perturbadoras já registradas. Eu sou Marcos Campos, sejam todos muito bem-vindos ao especial do Andréi Chikatilo, especial porque esse episódio, essa história, eu trouxe no canal no primeiro ano de vida, lá na época do Insólito, mas eram fontes escassas e o episódio ficou bem curtinho, só com o resumo do caso.
Mas esse daqui tem uma cronologia muito interessante, vários detalhes, todos retirados de uma das obras mais contundentes sobre essa história, que inclusive é uma história que se passa no sul da União Soviética, num período em que o país recusava admitir que serial killers podiam existir lá dentro dele, porque oficialmente isso era um problema do mundo capitalista. Então hoje nós vamos ver como esse homem conseguiu matar dezenas de pessoas durante anos sem ser pego, porque inocentes confessaram crimes dele e um até chegou a ser executado no lugar dele, e o que aconteceu numa sala de interrogatório durante 10 dias num jogo psicológico com o André Chikatilo para decidir se ele ia pra cadeia ou voltava pra rua.
Tudo isso nos detalhes, então já se inscreve aqui no canal porque toda semana tem 3 episódios novos, se puder se torne membro, me ajuda muito nesse tipo de produção. Recados dados, vamos aos fatos. O erro irretratável. Death row. A man is awaiting a date with his executioner. Like anyone sentenced to death, he's nervous. Any knock at the door could be the last. His name, André Chikatilo. Pra entender o tamanho desse erro que aconteceu naquele inverno soviético de 78, a gente precisa entrar primeiro em uma casa, uma casa secreta, porque o que aconteceu lá foi reconstituído em detalhes 12 anos depois pelo próprio Chikatilo, num depoimento que ele deu sentado numa cela.
A menininha do casaco vermelho se chamava Lena Zakotnova, Ela tinha 9 anos e naquela manhã, na escola, ela tinha contado um segredo pra uma amiguinha dela. Ela disse que talvez mais tarde naquele dia ela ia ganhar um chiclete americano de um senhor muito simpático que às vezes conseguia esse tipo de chiclete, mas que era pra ser segredo porque se contasse todo mundo ia querer. Numa cidadezinha pequena no sul da União Soviética, em 1978, um chiclete americano não era um chiclete qualquer.
Era fruto de contrabando e pras pessoas meio que um status, era a coisa mais cobiçada inclusive pelas crianças. Depois da escola então, a Lena foi patinar e quando ela decidiu ir embora, ela passou na casa de uma amiga pra usar o banheiro e depois caminhou, saiu sozinha andando em direção ao ponto de bonde, foi onde o Andrei Chicatilo cruzou o caminho dela, mas não tinha sido a primeira vez, o chiclete prometido vinha de um outro encontro, mas quando e onde ninguém sabe ao certo, só se sabe que naquela tarde, no ponto de bonde, ele tinha ido reforçar a promessa, disse que o chiclete tava na casa dele e bastava ir buscar.
Mas antes de seguir, é importante você entender uma coisa sobre a União Soviética daquela época, tá? Uma menininha de 9 anos assim voltar da escola sozinha, passar na casa de uma amiga, patinar, pegar um bonde pra voltar sem nenhum adulto supervisionando, por mais estranho que isso soe pra nós, Era cotidiano lá, crianças soviéticas tinham uma autonomia que hoje a gente acha quase impensável, não é? E tem um motivo específico pra isso.
O Richard Lowry, o jornalista que escreveu o livro principal sobre esse caso, que inclusive é a base desse roteiro, descreve a sociedade soviética da época usando uma expressão que é a sociedade quase perfeita. A propaganda do regime repetia todo dia em cartaz, em comício, em hino, Que crime grave era um problema do mundo capitalista, que serial killers e predadores sexuais não existiam no socialismo, que aquilo era doença da decadência ocidental, e quando algum caso de assassinato vazava pra imprensa, a nota saía seca, oficial, sem detalhe nenhum, o que, segundo Lauri, só fazia os rumores ficarem piores.
Pais soviéticos literalmente não tinham repertório cultural pra ensinar os filhos a desconfiar de adultos estranhos, Esse tipo de coisa oficialmente não existia lá, então quando a Lena Zakutnova aceitou seguir aquele senhor simpático em troca de um simples chiclete, ela não estava sendo ingênua, estava sendo uma criança soviética normal. E o Andrei, o tal senhor simpático que a menininha ainda achava que era, tinha duas casas na cidade de Shakhty, que ficava perto de Rostov, que é a cidade inclusive que dá o nome que a imprensa explorou pra ele, o Açougueiro de Rostov.
A primeira casa ficava na Rua 50 Anos da Liga Comunista, onde ele morava com a esposa, com os filhos, com a família, e a segunda casa ficava na Rua Border Lane número 26, uma casinha de estuque com 3 cômodos pequenos, teto baixo, ninguém inclusive da família supostamente sabia da existência dessa segunda casa, e foi pra essa casa que o Chicatilo levou a Lena, a porta fechou atrás dos dois, e ninguém nunca mais viu aquela garotinha com vida.
O que aconteceu nos minutos seguintes, Chicatilo descreveu nas próprias palavras anos depois, ele disse que entrou em frenesia animal, que não conseguia se controlar, que descobriu naquela noite uma sensação que nunca tinha sentido em 42 anos de vida, e que entendeu naquele momento quem ele era de verdade. Quando depois ele jogou o corpinho da Lena naquele rio, As águas congeladas levaram a garota rio abaixo, e Ticatilo voltou pra casa, jantou com a esposa, leu o jornal, dormiu, seguiu a vida dele.
Mas naquela noite do crime, ele cometeu 3 descuidos, e qualquer um dos 3 sozinho já seria suficiente pra pegá-lo. O primeiro descuido foi deixar a luz da casa secreta acesa. Os vizinhos que tavam voltando ali de um compromisso, umas 9 da noite, Comentaram até que acharam estranho aquilo, o cara da casa lá nunca aparecia, mas naquela noite a luz estava acesa iluminando ali a rua e ficou acesa a noite inteira até no dia seguinte.
O segundo descuido foi na hora de carregar o corpo, ele teria atravessado o lote vazio entre a casa secreta e a casa de um vizinho da frente com a menininha debaixo do braço e nisso algumas gotas de sangue pingaram na rua, gotas que 2 dias depois 2 policiais encontraram e que apontavam exatamente pra da porta da casa dele. E o terceiro descuido foi a Svetlana, a mulher lá do ponto de bonde que testemunhou tudo e contou pra polícia.
Pois é, muitas evidências circunstanciais, mas que careciam de uma investigação profunda, não acho? Mas em uma semana, a partir da descoberta do corpo em 24 de dezembro, a polícia tinha o retrato falado, como eu disse, tinha o sangue na rua, tinha confirmação do diretor da escola que aquele retrato falado correspondia com o funcionário, mas Como sempre tem um mas, naquela mesma semana a polícia ganhou um outro suspeito, um homem chamado Alexander Kravchenko, 25 anos, que morava a quase 300 metros da ponte onde o corpo da Lena tinha sido encontrado.
E o Kravchenko tinha um histórico pesado, 8 anos antes, aos 17 anos, ele tinha sido condenado pelo estupro e assassinato de uma menina da mesma idade dele, ele cumpriu a pena, saiu em liberdade condicional, E justamente naquele período da investigação da morte da menininha Lena, ele foi pego cometendo um furto na casa do vizinho. Pra cabeça do delegado adjunto da cidade, isso fechava o caso, dava um match. Eles tinham um homem com um antecedente perfeito de assassinato sexual de menor, esse homem agora estava na cadeia pelo furto, seria fácil então pressioná-lo.
A ordem então foi dada, focar tudo Kravchenko e talvez mandar o resto pra gaveta, por mais incrível que pareça. E mais pra frente eu vou dar mais detalhes sobre quem era o Chikatilo na vida social e talvez isso se correlacione com essa decisão completamente lamentável e equivocada. Bom, a esposa desse tal Kravchenko, a Galina, e também a melhor amiga dela, Tatiana, tinham um álibi pra ele, Disseram em depoimentos separados que Kravchenko tinha chegado em casa às 6 da tarde no dia do assassinato, sóbrio, e que os três jantaram juntos, beberam duas garrafas de vinho e conversaram sobre o que iam fazer no Ano Novo.
Os depoimentos batiam perfeitamente. A polícia detestava álibis perfeitos quando o suspeito já estava escolhido, então fez o que sabia fazer, prendeu Galina como suposta cúmplice do furto. Preendeu Tatiana por suposto falso testemunho, colocou as duas em celas bem complicadas, afinal eles precisavam que alguém corroborasse a grande porcaria que eles teimavam em querer fazer, apesar de todas as evidências apontarem pro Chicatilo.
Em poucos dias, as duas mudaram completamente o depoimento, assim, magicamente, Kravchenko agora tinha chegado em casa às 7:30 da noite, bebado, a Tatiane lembrou de um detalhe que nunca tinha aparecido antes, no caminho do ponto do bonde, naquela noite Kravchenko teria perguntado pra ela, você acredita se eu te contasse que matei e estuprei uma menina? Detalhe que apareceu do nada depois de algumas noites na cadeia. Enquanto isso, dentro da cela do Kravchenko, a polícia tinha plantado um informante, um cara que supostamente era usado numa rotina aí pra arrancar confissão de suspeitos, a função dele então era simples, surrar o Kravchenko todo dia na volta dos interrogatórios até que ele assinasse uma confissão.
Foram quase 4 semanas de surras. Em fevereiro de 79, então, uma semana antes de fazer 26 anos, Alexander Kravchenko confessou. Inventou alguns detalhes que a polícia gostou, entre aspas. Disse que tinha caído na rua bêbado e que a Lena tinha ido ajudá-lo a tentar se levantar. E foi ali que começou o ensejo da morte da garotinha. Ele foi condenado à morte, a pena no entanto depois foi reduzida pra 15 anos pelo Supremo Tribunal de lá, e por um tempo pareceu que ele ia escapar com vida, mas a avó da Lena começou uma campanha pro jornal, pra Ávida, pro Comitê das Mulheres Soviéticas e diretamente pro 26º Congresso do Partido Comunista que estava acontecendo em Moscou, Ela exigia que aquele monstro fosse executado e a pressão acabou funcionando, a pena de morte foi restaurada.
Em julho de 1983, num quarto à prova de som dentro de uma prisão russa, Aleksandr Kravchenko foi obrigado a se ajoelhar e teve a sentença lida em voz alta. Ele foi executado ali com um único tiro de pistola Makarov 9mm na nuca. Aquele tiro não matou um culpado, Matou um homem que tinha sido empurrado pelo sistema até confessar um crime que não cometeu, no exato momento em que ele caía morto no chão daquela cela, a poucos quilômetros de distância dali.
Andréi Chikatilo continuava trabalhando, um trabalho inclusive que segundo consta exigia dele muitas viagens constantes de trem por toda a região. Mas antes de eu te contar quantas vidas Chikatilo ainda tirou desse episódio, e antes de eu te contar como finalmente conseguiram botar as mãos nele de verdade, você precisa entender uma coisa: o André Scatillo não acordou num dia lá em 1978 e decidiu virar um serial killer, aquela noite na Border Lane 26 foi o resultado de 40 anos de fantasias que ele cultivou em silêncio, tudo isso tinha começado muito tempo antes.
Andrei Chikatilo nasceu em outubro de 1936 numa aldeia chamada Yablochnoi, na Ucrânia. E pra você entender que tipo de lugar era esse, 3 anos antes do nascimento dele, aquela região e todo o resto da Ucrânia rural tinham sido devastados por uma das maiores tragédias humanas do século 20. Uma tragédia conhecida como Holodomor, a fome forçada que Josef Stalin impôs ao povo ucraniano por causa da política de coletivização do campo.
Stalin queria acabar com a propriedade privada rural e a Ucrânia, que era o celeiro da União Soviética, resistiu. Stalin respondeu confiscando todos os grãos, todos os animais, toda a comida, selou as fronteiras pra ninguém escapar e esperou. Entre 1932 e 1933, milhões de ucranianos morreram de fome. Aldeias inteiras desapareceram. As pessoas comeram cachorros, gatos, ratos, casca de árvore, capim. E quando a fome chegou num nível incontrolável, até que o canibalismo virou uma realidade.
E documentada. E aquilo não era loucura individual ou coletiva, mas desespero mesmo em escala. Foi nesse cenário, 3 anos depois, que Andrei Shkatilo nasceu. E quando ele era criança, a mãe dele contava uma história que ela supostamente queria que ele nunca esquecesse. Antes do nascimento do Andrei, ela disse que a família tinha tido um outro filho chamado Stepan, e esse garoto tinha 4 anos, e um dia ele saiu de casa durante a fome e foi sequestrado por vizinhos famintos.
Ele teria sido ingerido, comido. Mas eu preciso explicar melhor isso, porque quando a polícia investigou os arquivos lá desse vilarejo onde a família de Catilo morava, eles não encontraram nenhum registro de nascimento de uma criança chamada Estepan Chikatilo. Os moradores mais velhos do vilarejo, entrevistados pelos investigadores, também não se lembravam de nenhum filho mais velho daquela família. A própria irmã do Andrei confirmou que a mãe contava a história do irmão devorado o tempo todo, chorando, repetindo, mas ninguém nunca soube se aquilo era verdade ou não, ou se era apenas de repente um assunto, um aviso assustador que a mãe usava pra manter os filhos perto dela durante todo aquele período complicado.
Mas isso pouco importava pro Andrei. Pra ele, durante toda a infância, ele teve um irmão mais velho que tinha sido devorado. Um irmão que ele nunca conheceu, mas que tinha sido literalmente comido por outros seres humanos, e essa imagem virou uma das fundações da mente dele. A família era miserável, o Andrei comia capim e folhas de árvore quando não tinha o que comer. Disse depois, inclusive já adulto, que só provou pão pela primeira vez aos 12 anos.
E aí veio a Segunda Guerra, os alemães invadiram, o pai do Andrei foi capturado pelos nazistas e mandado pra um campo de prisioneiros de guerra, e quando ele finalmente voltou pra casa anos depois, ele foi recebido como traidor, porque na lógica de Stalin, todo soldado soviético que se rendeu em vez de morrer lutando era um traidor. O pai então foi mandado pra Sibéria pra cortar madeira durante 10 anos como punição pelo crime de não ter morrido.
Aos 12 anos, Andrei já tinha visto coisas que nenhuma criança deveria ver. Não era só os corpos da guerra. Logo depois da guerra, em 1946 e também em 47, veio outra fome, a fome do pós-guerra. E o que o Andrei vai começar a ver pelos campos da Ucrânia rural são corpos de gente que tinham morrido de fome, com as panturrilhas e as nádegas cortadas. Pessoas estavam comendo gente, tudo de novo igual a fome de antes do nascimento dele.
E a mãe puxava ele pelo braço sempre que ela via um corpo desses e dizia uma coisa pesada demais: se esconde ou você vai ser o próximo. Na escola, o Andrei era o garoto que ninguém queria por perto. Ele era míope a ponto de não conseguir ler o que a professora escrevia na lousa, mas a família não tinha dinheiro pra comprar óculos. Os olhos dele chegavam a lacrimejar de raiva enquanto ele tentava decifrar as palavras embaçadas na lousa.
Os outros alunos zoavam disso e também davam apelidos cruéis pra ele. E quando ele, na adolescência, começou a descobrir o que era o desejo, ele descobriu também outra coisa sobre si mesmo: ele não conseguia ter ereção. Ele conseguia ejacular, mas não conseguia ter a ereção. Ele pensou durante anos que tinha nascido sem genitais, Não no sentido literal, mas no sentido funcional, ele achava que a natureza tinha castrado ele. Apesar disso, o Andrei se casou, teve dois filhos, e a esposa dele, no entanto, nunca soube de nada do que se passava na cabeça dele.
Assim, por dentro, ele continuava sendo aquele garoto cego, esquisito, no fundo da sala, mas ali em silêncio, uma fantasia foi tomando forma na mente dele. Não era uma fantasia sexual comum, era uma fantasia de controle absoluto sobre alguém menor, alguém indefeso, alguém que ele pudesse possuir do jeito que ele quisesse, em segredo, sem julgamento. Uma fantasia que depois de tudo que ele vai fazer, olhando, você vai concordar que não é fantasia, é covardia mesmo.
Em 1978, André Schicatillo tinha 42 anos e trabalhava numa escola técnica de mineração cuidando dos dormitórios dos alunos. Ele era casado, como a gente viu, era pai, tinha uma filha de 13 anos e um filho de 9, a mesma idade inclusive da Lena, se lembram dela? Pois é. Ele era membro respeitado também do Partido Comunista, lia jornais, escrevia artigos sobre patriotismo soviético e moral comunista pra publicações locais, era até voluntário como auxiliar não remunerado da polícia, tinha até uma carteirinha ali do sistema que impunha respeito, quando o civil olhava aquela carteirinha obedecia.
E você deve se lembrar que eu comentei que Essas questões sociais dele talvez tenham sido levadas em consideração naquela escolha lamentável de uma pessoa que tinha sim um histórico pesado, mas que não tinha relação com o que estava acontecendo naquele momento da morte da Lena. E o que aconteceu com a pequena Lena Zakotinova naquela noite cruel não foi uma anomalia, tá? Foi um nascimento mesmo nesse sentido. Naquela hora, a fantasia que o Chikatilo construiu e carregou durante 40 anos virou realidade, e a partir dali o apetite dele só crescia.
Os anos seguintes foram os anos em que o Andrei Chikatilo descobriu o tamanho do próprio monstro dentro de si, e também foram os anos em que ele entendeu uma coisa que mudou tudo pra ele: que ele podia matar repetidamente, que o sistema soviético inteiro era estruturado de um jeito que tornava praticamente impossível alguém pegá-lo. Aliás, em 1984 eles quase pegaram, tinham ele literalmente nas mãos, mas soltaram. O ano da caça.
Bom, antes da gente chegar lá em 1984, eu preciso falar de 1982. O chicatilo ali entrou no ritmo, 7 vítimas naquele ano. E o método dele já estava formado, ele se aproximava em estações de trem, pontos de ônibus e principalmente em uma coisa muito típica do sul da Rússia, as faixas de mato, em russo, lesopalosa, que são tiras estreitas de floresta que cortam os campos agrícolas. Teriam sido plantadas no final dos anos 40 por ordem direta de Stalin pra impedir a erosão do solo e reter a neve do inverno.
Eram, em teoria, um símbolo do socialismo melhorando a natureza, lugares discretos, cobertos, onde nenhuma plantação chega, nenhum pastor passa e ninguém escuta o que acontece. O padrão das vítimas variava, algumas eram fugitivas, jovens com deficiência intelectual, mulheres vulneráveis, prostitutas, pessoas que demoravam pra serem dadas como desaparecidas, ou que ninguém ia procurar com urgência. Mas outras eram crianças comuns, filhos e filhas de famílias que iam estar procurando freneticamente essas crianças nas horas seguintes.
Olga Stalmachenok, de 10 anos, estava voltando de uma aula de piano. Lyubov Biryuk, de 12 anos, estava descendo num ponto de ônibus pra comprar pão pra mãe dele. Dmitry Plastnikov, de 10 anos, parado ali numa banca de selos. Anna Lemesheva, 19 anos, estava indo pro dentista. E o Chicatilo aproveitava todos esses momentos de distração, qualquer descuido, qualquer criança sozinha. Não precisava ser uma vítima invisível, precisava só estar momentaneamente sozinha, distraída.
E depois ele matava com dezenas de facadas. Os legistas que examinaram os primeiros corpos ficaram em choque com a quantidade de ferimentos. Os olhos das vítimas quase sempre estavam mutilados Os órgãos genitais eram removidos, nas vítimas mulheres ele arrancava seios e mamilos, e ele também retirava delas o útero, mas não removia de qualquer jeito, tá, ele removia com precisão cirúrgica, tanto que os legistas quando começaram a comparar os corpos chegaram à conclusão de que o assassino tinha treinamento médico, alguém que sabia exatamente onde cortar pra separar o útero das ligações internas em segundos, por causa disso durante anos até médicos e cirurgiões Estudantes de medicina, todos ali da região de Rostov, meio que entraram, figuraram como suspeitos.
A polícia interrogou centenas, mas nenhum era o verdadeiro. A partir de 1984, ele desenvolveu um ritual específico, removia em uma só peça o lábio superior e o nariz da vítima e enfiava na boca ou no estômago dela. Anos depois, nos depoimentos que deu pra polícia, acho que Attilio mesmo explicou por que fazia isso. Em algum momento, o lábio e o nariz tinha começado a aparecer pra ele genitais. Em todos os casos, ele levava partes embora e esses pedaços nunca apareciam.
E tem um outro detalhe muito importante sobre o Chikatilo: ele era impotente desde a juventude. Ele não conseguia ter relações sexuais normais, como eu comentei. E foi exatamente esse trauma, digamos, essa impotência que ele carregava como uma humilhação desde a adolescência que estruturou os crimes dele. Pra ele, o ato sexual era o próprio assassinato. As facadas, as mutilações, o sofrimento da vítima, era ali que ele atingia o orgasmo.
Não havia a intimidade no sentido convencional, havia uma encenação grotesca em que a faca substituía tudo o que o corpo dele não conseguia fazer. O psiquiatra, inclusive, o Aleksandr Bukhanovsky, que traçou o perfil dele anos depois, criou um termo técnico pra descrever isso: necrossadismo, alguém que só consegue sentir prazer no sentido íntimo matando. Foram 8 vítimas em 1983 e 15 em 84. O sul da União Soviética estava entrando em pânico a essa altura, só que esse pânico não conseguia se expressar publicamente, porque a censura soviética não permitia que jornal nenhum dissesse que existia um serial killer à solta atuando em território comunista.
Oficialmente, pra eles, aquilo era um problema do mundo capitalista, Uma doença gerada pela ganância e pela alienação do consumo ocidental. Até então, cada caso era investigado isoladamente, sem conexão, cada cadáver era um cadáver, as famílias recebiam respostas burocráticas, vagas. Mas, ao modo deles, eles seguiam investigando pra identificar o assassino misterioso, e em setembro de 84, eles quase pegaram ele. Lembra o que eu comentei há pouco?
Pois é, aconteceu da seguinte forma: no dia 13 daquele mês, à noite, dois policiais à paisana estavam patrulhando uma estação central de ônibus de Rostov, era uma rotina ali de vigilância, e eles viram um homem alto, mais velho, que andava pelo saguão de um jeito meio estranho, olhando demais, andando devagar, parando do lado de pessoas mais novas. Os policiais, como já estavam ali evidentemente de olhos abertos por causa do assassino misterioso, muito embora não confessassem publicamente assim, não é?
Então eles notaram aquilo e decidiram seguir aquele homem. Eles ficaram observando o homem a noite inteira, em ônibus, em estação de trem, pontos de parada. Na manhã do dia seguinte, 14 de setembro de 84, depois de uma noite inteira sem dormir, o homem foi pro mercado central pra comer alguma coisa, e foi ali que os policiais finalmente abordaram ele, pediram pra ele abrir a maleta que ele tava carregando lá. E dentro dela eles encontraram 3 coisas: uma faca, um pedaço de corda e um pote de vaselina.
Foi aí que o Chikatilo foi detido, mas tem um quase nessa história. Veja, aí vem um detalhe que poderia ter mudado a história, mas que naquela época ninguém fazia ideia de que isso existia. Mais uma vez ele escapou. A polícia já tinha uma característica conhecida do assassino que estava aterrorizando a região ali das outras investigações, que era o sêmen que foi encontrado nas vítimas. E ele indicava supostamente o grupo sanguíneo AB.
Era a única pista biológica concreta que eles tinham. Então, quando eles fizeram o exame de sangue no Chikatilo, quando ele foi preso nessa operação aí que eu comentei, dia 13 e 14, né, o resultado veio e foi do tipo A. Ou seja, tipos diferentes, não é? Logicamente, então, ele não podia ser o assassino, correto? Ah, não. Mas naquela época, ninguém na União Soviética tinha ouvido falar de uma condição que hoje a ciência forense conhece bem.
Existem pessoas chamadas não secretores, é um grupo bem pequeno aí, tá, em representatividade, em porcentagem, melhor dizendo, cujo sangue é de um tipo, mas o sêmen, saliva, outros fluidos não carregam essa informação de forma confiável. Em 1984, isso ainda era uma pesquisa recente, mal divulgada na Europa Ocidental, e praticamente desconhecida na União Soviética. Andrei Chikatilo era um desses casos raros, sangue tipo A semi-analisado em laboratório aparentemente tipo AB.
A polícia soviética olhou pra discrepância e concluiu, com base na ciência forense da época, que ele não podia ser o assassino. A polícia ainda conseguiu condenar ele por um outro crime menor, um pequeno desvio material no trabalho dele, 3 meses de cadeia ele tomou. E saiu em dezembro de 84. Ele voltou pra casa, pra escola, pra rotina, e nas semanas seguintes continuou matando, inclusive mais do que em qualquer outro período da vida dele.
Mas enquanto Chikatilo estava preso pelos roubos, em outubro de 84, depois de muitos anos de investigação, todas elas fragmentadas, os casos foram finalmente unificados numa operação, e chamaram essa operação aí de Lesopalosa. Que em português significa faixa de mato, que eu já expliquei. No ano seguinte, em novembro de 85, um inspetor de Moscou chamado Issa Kostoev foi designado para liderar a força-tarefa. A ironia disso está no fato de que a operação nasceu, essa operação para prender o assassino, o Chikatilo, ela nasceu enquanto ele estava preso por um outro crime.
Bom, o inspetor Kostoev e também o inspetor local Viktor Burakov Mudaram a estratégia inteira agora. Eles ordenaram que todas as estações de trem e ônibus da região fossem patrulhadas, com uma divisão específica: uniformizados nas estações grandes, bem visíveis pra assustar e deslocar o assassino, e à paisana nas estações pequenas, pra tentar pegá-lo em flagrante. A ideia era forçar o cara a usar as estações remotas, onde os policiais à paisana estavam esperando.
A operação cresceu até números que pareciam absurdos. 4 mil pacientes psiquiátricos foram checados, 680 criminosos sexuais, 480 condenados anteriores por crimes sexuais, 147 mil veículos foram parados pela polícia rodoviária e tiveram as placas anotadas. Muita gente foi interrogada e mesmo assim Ticatilo continuava matando. Anos se passaram, mas corpos apareciam. E Kostoev, na delegacia de Rostov, fumava um cigarro atrás do outro tentando entender por que toda aquela estrutura, todo aquele dinheiro, aqueles policiais, o assassino simplesmente não aparecia.
Até que, numa tarde chuvosa de novembro de 1990, a sorte do Chikatilo finalmente acabou. E acabou por causa de um detalhe que nem ele percebeu na hora. 13 de novembro. A virada veio quase por acidente. E veio de um policial novato, num posto que ninguém prestava muita atenção. No dia 6 de novembro de 1990, um agente à paisana chamado Igor Rybakov estava de plantão numa estação de trem chamada Tree Farm, ou seja, Fazenda das Árvores.
Era uma estação minúscula cercada de mato na rota de trens locais, exatamente o tipo de lugar que a Operação Liso Paluza tinha mandado vigiar, não é? Era uma tarde fria, garoava, e o Rybakov estava observando o pouco movimento da estação Quando ele viu um homem chegar. O homem era alto, tinha cabelo grisalho, uns 50 e poucos anos, carregava uma sacola de ombro azul escura que tinha uma das alças quebradas e amarradas com um nó.
E Bakov olhou com mais atenção. O homem tinha um curativo em um dos dedos, tinha arranhões frescos nas mãos, tinha o lóbulo da orelha direita machucado e também tinha folhas e galhos colados nas costas do casaco. Como se tivesse acabado de sair do mato. Mas antes de embarcar no trem, esse homem foi até uma torneira que tinha ali na estação para poder lavar os sapatos. Depois ele atravessou os trilhos, cumprimentou umas pessoas que estavam por ali.
O detetive Rybakov reparou que aquele cumprimento era forçado, caloroso demais, como alguém tentando fingir alguma coisa, uma normalidade. Rybakov então se aproximou e pediu os documentos. O homem mostrou, Rybakov anotou o nome no caderno de plantão e era Andrei Chikatilo. E aí o Rybakov tomou a decisão mais difícil de explicar de toda a história desse caso. Ele queria deter o homem, tinha todos os indícios, mas o parceiro dele naquele dia tinha faltado e o Rybakov estava sozinho e achou que era arriscado demais tentar deter o Chikatilo ali, porque o Chikatilo era um homem mais forte que ele, ele estava numa estação.
Supostamente isolada, e deixou ele ir. O relatório foi pra uma delegacia distrital e não chegou naquele momento ali nas mãos do chefe da operação, o Kostuev, naquela mesma manhã. Antes de chegar na estação, no entanto, o Ticatilo tinha matado e mutilado uma mulher de 22 anos chamada Sveta Korostik, dentro daquela faixa de mato lá perto. Mais uma vez ele escapou. 7 dias depois do encontro de Rybakov com aquele homem na estação, o corpo dessa moça esveta finalmente apareceu.
E foi nesse dia, 13 de novembro de 1990, que Kostoev descobriu sobre o relatório que tinha sido engavetado, o relatório do Rybakov sobre esse episódio lá na estação. Ele foi então até a delegacia distrital para poder ler. Quando ele bateu o olho no nome anotado no caderno de plantão, ele congelou na hora: Andrei Shkatilo. Então ele foi lá nos arquivos antigos e encontrou o homem detido em 1984, Aquele que tinha sido pego com a faca, a corda e a vaselina dentro da maleta, lembra?
E tinha sido liberado por causa da diferença no tipo sanguíneo. Então ele encontrou os depoimentos antigos sobre denúncias de assédio das alunas de uma escola onde o Andrei tinha trabalhado, encontrou a coincidência de que ele tinha mudado de emprego pra Rostov exatamente em agosto de 84, no momento em que os assassinatos na cidade dispararam. Era ele. Sempre tinha sido ele, em 78, 84, 85, em todos os anos. E o sistema tinha tropeçado nele pelo menos 2 vezes escancaradas e tinha deixado ele escapar.
O Kustoev agora mandou colocar Chikatilo sob vigilância imediata. Assim, em 17 de novembro de 1990, agentes da polícia de Rostov começaram a seguir o Chikatilo em cada lugar que ele ia. No dia 20 de novembro de 1990, na cidadezinha de Novotcherkassky, onde Chikatilo estava morando agora, 3 agentes da paisana se aproximaram dele numa calçada qualquer. Pediram para ele se identificar e quando ele disse o nome, sem dizer mais nenhuma palavra, os agentes o algemaram, colocaram ele dentro de um carro e fecharam a porta.
O Chikatilo ficou em silêncio. Naquele momento ele não tinha como saber o que a polícia já sabia de verdade sobre ele, talvez até suspeitasse, não é? Mas o detetive-chefe, o Kostoiev, sabia de uma coisa que ia colocá-lo numa corrida contra o tempo. Na Rússia, um suspeito só podia ser detido por 10 dias antes de ser formalmente acusado. Em 10 dias, Kostoev precisava arrancar uma confissão completa do Chikatilo. Se não conseguisse, e se as provas físicas que eles tinham no momento ali não fossem suficientes pra prender o Chikatilo formalmente, ele teria que ser solto mais uma vez. 10 dias e a contagem tinha começado.
Eram 2 homens numa sala vazia, com um único retrato na parede. Um inspetor que tinha passado muito tempo atrás daquele assassino e um assassino que tinha passado a vida inteira sendo subestimado por todo mundo, sentados ali frente a frente, em silêncio, era até difícil dizer naquela sala quem era a caça e o caçador. Kostoev tinha 27 anos de carreira investigativa, tinha quebrado redes de corrupção, tinha pegado outro assassino em série anos antes, era considerado um dos melhores investigadores da União Soviética.
E ele sabia uma coisa que a maioria dos investigadores soviéticos da geração não sabia: interrogatório não era sobre força, era um teatro, confiança, espelho e principalmente paciência. A sala que ele preparou pra receber o Chikatilo era propositalmente vazia, tinha uma escrivaninha em formato de T, um cofre de madeira no canto e na parede um único retrato de Félix Dzerzhinsky, que é o fundador da Tcheka, que é a primeira polícia secreta soviética, antepassada direta da KGB, um dos rostos mais temidos da história russa.
Não tinha mais nada além disso, sem janela, relógio, nada que pudesse ser olhado, exceto o Kostoev sentado do outro lado da mesa. Nos primeiros dias desse interrogatório de 10 dias, o Chikatilo negou tudo. A estratégia dele era falar muito, reclamar, tentar confundir o investigador com queixas burocráticas, que até pareciam reais, mas ele queria mesmo o controle da conversa. Kostoiev escutava tudo em silêncio, não interrompia, tomava nota, olhava nos olhos do Chikatilo e plantava ganchos, dizia coisas como, eu não consigo acreditar que um homem são fizesse o que esse assassino fez.
Pela nossa lei, um insano não é executado. O cara insano é hospitalizado, tratado. Ele plantava essas ideias, sem forçar, de que confessar era a melhor coisa naquele caminho ali. Depois o detetive recuava, voltava uma pergunta qualquer, e o Chicatilo escutava, não respondia por enquanto, mas escutava. Noitavo dia já, Crusoé fingiu desistir, disse que não ia mais interrogar, que ia fechar o caso só com as provas físicas que eles tinham.
E no nono dia, finalmente, o Chicatilo meio que desabou e pediu para escrever a confissão dele. Ele escreveu 4 páginas, uma declaração meio genérica, sem detalhes específicos, mas reconhecendo pela primeira vez que era ele. E foi como recompensa, naquele mesmo nono dia, que Kostoiev trouxe um outro homem até aquela sala. Era o Dr. Alexander Bukhanovski, subchefe da Faculdade de Psiquiatria da Universidade de Rostov, especialista, por exemplo, em casos psicossexuais raros, que vinha consultando a polícia de Rostov sobre o caso há anos já.
O Kanovski estava ali pra dar pro Chikatilo a chance de discutir tecnicamente com um especialista o que se passava na mente dele. Kostoev deixou então os dois sozinhos por 1 hora e 40 minutos. O Kanovski estava ali pra tentar entender aquela mente. Ele queria dar ao Chikatilo uma chance pra conversar, pra explicar o que passava com ele. E o Chikatilo começou a falar. Pela primeira vez em mais de 50 anos de vida, alguém estava olhando pra ele sem desprezo, pelo menos era o que ele sentia.
Alguém escutou a história dele sem interromper, ofereceu pra ele uma teoria que explicava talvez o que ele era em termos clínicos, sem moral, e Schicatillo, depois de uma vida inteira sentindo que era invisível, sentiu que finalmente alguém estava vendo ele. Buchananov saiu da sala, Kostoiev voltou e continuou esperando. No 10º dia, exatamente na fronteira do prazo, no dia 30 de novembro de 1990, Kostoiev colocou na mesa, na frente do Schicatillo, uma lista com 36 nomes, 36 vítimas que a polícia já tinha conseguido reunir e pediu para o Chikatilo ler calmamente.
Ele pegou a lista, deu uma olhada lentamente, levantou os olhos para o Kostoev e disse: esses dois aqui não são meus, mas o resto todos meus. E foi assim, com essa frase quase administrativa, que a confissão começou. Mas Chikatilo ainda tinha uma surpresa, tá? Quando Kostoev pediu para ele começar do começo, esperando que o começo fosse 82, o ano da primeira vítima conhecida, o Chikatilo voltou mais 4 anos e começou a contar a partir de 1978, a partir de uma menininha de 9 anos de idade numa cidade chamada Shakhty, a partir de uma casa secreta na rua Borderlani número 26.
Você deve se lembrar bem, não é? Aquela mesma menininha, a Lena Zakutnova. Naquele momento, sentado ali na sala, o Kostoev percebeu duas coisas ao mesmo tempo. A primeira era que o caso era muito maior do que ele imaginava, e a segunda era justamente a morte de Alexander Kravchenko. Um homem que tinha sido executado com um tiro na nuca em julho de 83 por um crime que o homem sentado ali na frente dele tinha acabado de assumir.
Ao todo, o Chikatilo confessou 55 assassinatos, segundo o Louhi, que é o biógrafo usado pra confecção desse roteiro, mas há fontes que mencionam 56, cometidos entre 1978 e 1990. Nas semanas seguintes, ele levou os investigadores até as florestas onde ele tinha enterrado parte dos corpos, Recriou as cenas com calma, friamente. Andou pelo mato apontando onde tinha matado, onde tinha enterrado, onde tinha jogado os pedaços que sobravam, sem alterar a voz.
E o julgamento dele começou em abril de 92. Nessa altura, a União Soviética já tinha desmoronado e a Rússia era outro país. E o Chikatilo entrou no tribunal não pra ficar atrás de uma mesa comum, como qualquer réu, tá? Ele entrou numa jaula de ferro. Era uma jaula que existia naquele tribunal pra proteger os réus de ataques de familiares de vítimas. No caso dele, foi muito necessário, eu diria, porque os pais e as mães presentes ali naquela sala gritavam ameaças cada vez mais ferozes contra ele, toda vez que ele aparecia.
Ele foi condenado por 52 mortes e sentenciado à morte em fevereiro de 1994, num quarto à prova de som dentro de uma prisão russa. Ele foi obrigado a se ajoelhar e foi executado com um tiro na nuca. Uma pistola Makarov 9mm. Pois é, a mesma utilizada no Alexander Kravchenko, 11 anos antes. E lembram da Svetlana, a mulher do ponto de bonde, naquela tarde lá de dezembro de 78? Aquela que, quando percebeu que tinha alguma coisa errada ali, entrou no bonde e foi pra casa?
Apesar dessa coisa que deve sim ter atormentado a vida dela, ela fez o correto porque foi até a delegacia. A informação dela era suficiente em 78. Pra desenhar o rosto do Chicatilo. Em 3 dias depois disso, inclusive, a polícia já tinha tudo: endereço, sangue na rua, o testemunho do cara da escola onde o Chicatilo tinha trabalhado. Tinha tudo pra prender ele lá em 1979, em janeiro, mas escolheram outro homem. Assim, deram uma janela de 12 anos pra ele.
Mais de 50 vítimas confirmadas. Um homem inocente executado por um crime do Chicatilo. Outros suspeitos inocentes que se suicidaram nas celas sufocados pelas táticas brutais de interrogatório, vários jovens com deficiência intelectual foram torturados até confessarem assassinatos que não tinham cometido e ficaram presos durante anos antes de serem libertados, quando os corpos continuaram aparecendo quando eles ainda estavam atrás das grades.
Eu resumi, mas aconteceram muitas coisas em paralelo à investigação. E o Crusoé, no fim da carreira dele, escreveu sobre o homem que ele tinha passado 6 anos perseguindo. Diz que Chikatilo não era um monstro, porque monstro é mais confortável. Monstro a gente de repente conhece até de longe, tem cara. O Chikatilo, segundo Kostoev, era a coisa mais perigosa que existe: um homem absolutamente comum. Monstro real não fica escondido na floresta, ele é real, pega o mesmo ônibus que você, senta do seu lado, cumprimenta, lê um jornal, desce no ponto e some na multidão.
E era exatamente assim que um dos piores serial killers da história era. E esse foi o especial do André Schicatillo, espero que vocês tenham apreciado, não esquece seu like, um comentário é muito importante aqui pro nosso trabalho, e eu fiquei aqui com uma reflexão depois desse comentário do Costoeve, quantos monstros normais devem andar por aí, não é? Obrigado pela companhia, beijo do Ruivo. E até o próximo episódio.