O Erro Banal que Parou um dos Serial Killers mais Perversos dos EUA
📌 Robert Berdella parecia um cidadão exemplar, mas escondia um segredo macabro em sua casa em Kansas City. Conheça a história real do serial killer que chocou os EUA.Neste episódio, vamos conhecer o perturbador caso de Robert Berdella, conhecido como "The Kansas City Butcher". De 1984 a 1987, Berdella atraiu jovens para sua casa sob falsas promessas, submetendo-os a torturas inimagináveis. Vamos analisar como a fuga desesperada de Chris Bryson, que pulou de uma janela do segundo andar usando apenas uma coleira de cachorro, finalmente expôs os horrores que aconteciam na Rua Charlotte, 4315.Entenda como a polícia encontrou os diários detalhados de Berdella e como ele conseguia esconder seus crimes vendendo pertences das vítimas em seu próprio brechó, o Bob's Bizarre Bazaar.-------📧 Contato comercial: contato@mpcampos.com.br
Marcos Campos
- A fuga de Chris Bryson e a revelaçãoA captura de Bryson · Tortura e abuso sexual · A ideia de quebrar as cordas com fósforos · O pulo da janela · Chris Bryson
- Caso Zaldio Stark na EspanhaA fuga de Chris Bryson · A casa de Robert Berdella · O brechó Bob's Bizarre Bazaar · Diários de Berdella · Robert Berdella
- Questões legais e processuaisMedo da pena de morte · Dificuldade em provar causa da morte · Acordo: confissão em troca de prisão perpétua · Confissão detalhada
- O desaparecimento de Mark KilroyJerry Howell · Paul Howell (pai de Jerry) · A pasta 'hóspedes' · A busca incansável do pai
- Investigação do crimeA leitura do hidrômetro · Chris Bryson · A casa bege de 3 andares · O apelido 'Bob' · A entrada da polícia na casa
- A visão de São João da CruzTratava vítimas como brinquedos · Influência do filme 'O Colecionador' · Motivação: raiva e controle · Culpa da sociedade
- Estado de saúde das vítimasForça-tarefa para identificação · Antropólogo forense · Comparação de fichas dentárias · Análise das fotos · Busca em fazendas
- Coleta de LixoDesmembramento das vítimas · Sacos de lixo para descarte · Aterro sanitário · O pai de Jerry e o lixo
- Direitos e Indenizacao de VitimasVítimas com perfil marginalizado · Uso de tranquilizantes e choques · Registros em caderno · Descarte dos corpos · Robert Sheldon · Larry Wilson
- Perfil de Martônio Alves BatistaO vizinho exemplar · O grupo de vigilância contra o crime · Ajuda a jovens em situação de rua · Robert Berdella
- Realizações finais de PaesDeclaração de culpa e sentença · Prisão perpétua · Morte por ataque cardíaco
- Satanismo e LuciferianismoLivros sobre satanismo e bruxaria · Teoria de culto e comparsas · Investigação desmente o culto · Robert Berdella como único agressor
- Investigação Policial e EvidênciasA primeira desconfiança em 1984 · Boatos sobre injeções · Falta de prova concreta · Segunda chance de prender Bob
- Infância e formação de PessoaInfância solitária em Ohio · Morte do pai · Mudança para Kansas City · Construção da fachada de cidadão respeitável
Esse é um dos serial killers mais perversos.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Only on Netflix. Sangue e perversidade desse homem começou a ruir numa manhã qualquer de sábado. Era pouco depois das 10:30 da manhã quando um funcionário da companhia de água, fazendo a leitura ali dos hidrômetros da região, uma rua residencial tranquila, escutou alguém gritando atrás dele. Quando ele se virou, ele viu um homem nu vindo na direção dele, descalço, mancando, com marcas pelo corpo todo. O homem tinha uma coleira de cachorro presa no pescoço, com uma guia de couro vermelha pendurada, balançando enquanto ele andava esperado.
Os dois atravessaram e subiram na varanda de uma casa do outro lado da rua, bateram na porta, o morador abriu, reconheceu o funcionário da água, mas não fazia a menor ideia de quem era aquele homem ensanguentado do lado dele. Ele fechou a porta, ligou pra emergência e quando voltou pra janela, o Homem da Coleira já tinha sentado nos degraus encolhido esperando. E ele apontava o tempo todo pra uma casa específica do outro lado da rua, uma casa bege de 3 andares com acabamento marrom, a única coisa que ele conseguia dizer poder sobre o sujeito que tinha feito aquilo com ele era dizer um apelido: Bob.
Ninguém naquela rua imaginava o que tinha do outro lado, nem os vizinhos que moravam ali há anos, nem os primeiros policiais que apareceram. E quando a polícia finalmente entrou naquela casa, o que eles foram encontrando cômodo por cômodo deu aquela sensação que eu comentei há pouco com você, o tipo de coisa que a gente custa acreditar que existe de verdade. Eu sou Marcos Campos e o episódio especial de hoje é sobre Robert Berdella, um serial killer americano que sequestrou, estuprou, torturou e assassinou vários jovens após forçar suas vítimas a suportar períodos que podiam chegar a semanas de cativeiro.
Essa história aconteceu numa casa, numa rua residencial de Kansas City, nos Estados Unidos, onde durante 4 anos um homem fez coisas que ninguém ao redor foi capaz de desconfiar. No acaso, uma caixa de fósforos ajudou a revelar as bestialidades desse serial killer. Prontos? Então vamos aos fatos. Quando os primeiros policiais chegaram àquela casa, ninguém ali levou a coisa muito a sério. Afinal, um homem nu, com coleira, com marca de corda, pra polícia daquela cidade aquilo tinha cara de briga de casal que saiu do controle.
Era sábado de manhã, fazia frio e ainda E ainda por cima, a final do campeonato universitário de basquete estava acontecendo na cidade justamente naqueles dias. O sargento de plantão na Homicídios, um cara chamado Troy Cole, recebeu a ligação naquela manhã de sábado já pensando em despachar alguém rápido para não perder os jogos. Para ele soava como uma crise sexual, talvez um sequestro, nada que justificasse estragar o sábado.
Só que o rapaz que tinha pulado da janela contava uma história cada vez mais sinistra. Ele dizia que tinha sido amarrado numa cama por dias, espancado com uma barra de ferro, levado choque elétrico, e que um tal de Bob tinha injetado soda cáustica na garganta dele. Aquele produto que a gente usa às vezes para desentupir cano. E tudo isso, toda essa maldade, perversidade, só para ele não conseguir falar direito, gritar. Os policiais olhavam para ele, iam vendo as marcas, os olhos vermelhos, inchados, a voz que mal saía, os sulcos fundos de corda nos pulsos, nos tornozelos e em volta da boca.
A história era absurda, mas ela batia com cada detalhe do corpo daquele homem. E aí que, por volta das 11:30 da manhã, enquanto os policiais ainda tentavam processar tudo aquilo, um carro parou na frente daquela casa. Desceu dele um homem pesado, de óculos, de armação fina, bigode caído nos cantos da boca, voz mansa, com um leve problema na fala. Ele se aproximou dos policiais e perguntou com a maior naturalidade do mundo o que estava acontecendo ali.
Era ele, o dono da casa, era o tal do Bob. Quando perguntaram se ele se importava de os policiais darem uma olhada lá dentro da casa, ele recusou com toda a educação do mundo. Foi preso ali mesmo, ainda parecendo não entender o tamanho do que vinha pela frente. Com um mandado em mãos, então, no começo da tarde, os policiais arrombaram aquela porta. E aí a coisa começou a se revelar. A primeira coisa que bateu neles foi o cheiro.
A casa era um acúmulo absurdo de tralhas, papéis, sacolas, antiguidades, lixo empilhado em cada canto, mal dava para andar, tinha fezes de cachorro pelo chão, comida estragada na cozinha e um cheiro químico forte de dedetização por cima de tudo. 3 cães da raça Chow Chow foram retirados da casa, um deles enorme com uma juba que parecia de leão. E ali eles subiram e acharam o quarto que batia exatamente com a história daquele rapaz nu que saiu correndo.
Cordas queimadas amarradas aos pés de uma cama, um transformador elétrico ligado na tomada com fios saindo dele, o mesmo aparelho que a perícia depois descobriu que soltava 7.700 volts. Seringas espalhadas, frascos de remédio, colírio, uma barra de ferro de uns 75 centímetros largada ali em cima do colchão. Tudo o que parecia delírio uma hora antes na boca daquele rapaz estava ali na frente de todos se materializando. E então acharam fotos numa caixa de sapato, dezenas de fotos instantâneas, eram todas do mesmo homem, o rapaz que tinha pulado daquela janela nu, claramente sendo torturado.
Só que conforme eles foram vasculhando, as fotos deixaram de ser só dele. Embaixo de um colchão, numa sacola, mais fotos. Numa maleta, mais ainda. Eram outros homens, vários deles, alguns com sacos plásticos na cabeça. Um deles aparecia pendurado de cabeça para baixo de cabeça para baixo, preso pelos tornozelos, e não dava para dizer se ele ainda estava vivo pela foto. Junto das fotos, páginas e páginas de anotações com datas e horários.
E numa das maletas, uma carteira com uma habilitação de um homem que não era o Bob. Num dos quartos, cheio de máscaras e objetos estranhos, um detetive parou em frente a um crânio humano embaixo de uma redoma de vidro. Um colecionador de bugigangas daquele tipo Até poderia ter um crânio antigo de enfeite, não é? E era isso mesmo que aquele crânio acabou se revelando, uma peça velha de uma coleção, não uma vítima. Mas aí o mesmo detetive abriu o armário daquele quarto e tinha um segundo crânio ali.
Esse não tinha nada de antigo, de coleção, talvez ele era recente, humano, de alguém que o Bob tinha matado. Junto dele, dentro de dois envelopes, um punhado de dentes humanos. Em outro canto da casa, um saco com vértebras e nelas marcas de faca e de serra. E tinha uma coisa na varanda dos fundos que no começo ninguém deu muita importância: uma motosserra. Um dos peritos, no entanto, resolveu olhar mais de perto a carcaça do motor daquela motosserra.
Ele achou que tinha visto ali alguma coisa escura demais para ser só óleo e fez um teste rápido ali mesmo. Deu positivo para sangue. Quando levaram para o laboratório, o resultado foi sangue humano, tecido e pelos presos ali dentro da máquina. E ainda tinha o quintal. A polícia desceu ao porão e encontrou uma área no chão recém coberta com cimento fresco, manchas de sangue numa viga do teto, e ao borrifar um reagente que brilha em contato com sangue, o famoso luminol, um cômodo inteiro se acendeu.
Aí trouxeram uma retroescavadeira pro quintal. Na segunda concha de terra que ela puxou, a uns 40 centímetros de profundidade, apareceu uma coisa cabeça branca e redonda com cabelo ainda preso, era uma cabeça humana. Naquele momento aquilo deixou de ser um crime sexual, tinha um cemitério dentro daquela casa e naquele quintal, mas os policiais ficaram com um problema brutal, eu diria, nas mãos naquele momento. Eles tinham os restos de pelo menos 2 pessoas, aquele crânio do armário e a cabeça lá no quintal, ossos soltos com marca de serra e centenas de fotos com cerca de 20 homens diferentes que pareciam desacordados ou mortos e não tinham um nome sequer naquele momento.
Eles não sabiam nem por onde começar, nem quantas pessoas estavam procurando. E tinha a pergunta mais óbvia e que ninguém sabia ainda: quem diabos era o tal Bob? Thousands of products for every style and budget, plus surprise flash deals July 6th. Don't wait, shop Wayfair's 4th of July clearance now through July 6th at wayfair.com. Wayfair, every style, every home. O homem que tinha acabado de ser preso não era nenhum estranho naquele bairro, muito pelo contrário, ele era praticamente um pilar da rua, um cara respeitado, fazia mais de 20 anos que ele morava naquela mesma casa.
Era um sujeito culto, conhecido, que tinha uma loja de antiguidades, objetos exóticos, num bairro boêmio ali da cidade, com uma banca também numa feira de antiguidades. Antes disso, ele tinha sido cozinheiro, chef, e não era pouca coisa não, tá? Na verdade, ele trabalhava em restaurantes e clubes finos lá de Kansas City. Mas o detalhe mais insólito e irônico da vida dele é outro. Esse homem ajudou a montar e chegou a presidir o grupo de vigilância contra o crime do próprio bairro dele.
Ele conhecia os policiais da área pelo nome, ele dava palestra para os vizinhos sobre como deixar a rua mais segura, sobre acender a luz da varanda, sobre ficar de olhos na casa um do outro. E tem mais, ele se apresentava como uma espécie de irmão mais velho para os rapazes em situação de rua, garotos com problemas sérios em casa, gente que tinha fugido de casa ou se metido em encrenca. Numa festa de rua, ele chegou a avisar os vizinhos com toda a educação que eles iam ver uns rapazes entrando e saindo da casa dele de vez em quando, que ele tava só dando uma força, uma ajuda para eles conseguirem se reerguer na vida.
Os vizinhos acharam aquilo lindo, ótimo. Ele uma vez até levou uma van cheia de garotos da cidade para passear um dia numa fazenda. Para a rua inteira, então, o Bob era aquele cara meio excêntrico, rabugento às vezes, mas no fundo, no fundo, ele era um vizinho muito bonzinho que dava um aceno, um joinha, um oi sempre que alguém passava. Só que tinha uma coisa que ninguém ali na vizinhança percebeu na época. Vários daqueles rapazes que vinham aparecendo ali na casa do Bob de uma hora para outra simplesmente sumiam.
O primeiro deles tinha 19 anos, o nome dele era Jerry Howell. Ele conheceu o Bob ainda adolescente, com os 14, 15 anos, porque o pai dele tinha uma banca também na mesma feira de antiguidades que o Bob, e o Jerry ficava rondando por ali. Ele era um menino que já tinha tido alguns problemas, umas pequenas confusões com a polícia, nada muito grave, e que em algum momento da vida começou a fazer programa na região mais pesada ali da cidade.
O pai chegou a montar uma banca pro próprio filho pra tentar tirar ele dessa vida, da rua. E o Bob, com o tempo, virou meio que um amigo do garoto, dava uma força até com dinheiro, com advogado, em troca de uns serviços, e às vezes os dois tinham relação. O Bob daquele 1984 tinha 35 anos, quase o dobro da idade do Jerry. Não era um jovem perdido, nem um impulsivo de primeira viagem. Era um homem feito, estabelecido na cidade, havia quase 20 anos, com tudo o que a gente acabou de ver: a casa, a loja, o nome na rua, o cargo na vigilância.
Um adulto que, em plena consciência da própria vida, escolheu começar a fazer o que fez. No dia 5 de julho de 1984, no fim da tarde, o Bob passou para buscar o Jerry. O garoto disse a uns amigos que ia encontrar com eles num clube mais tarde naquela noite e que que o próprio Bob talvez desse uma carona até lá. O Jerry entrou no carro do Bob e nunca mais foi visto. E aqui entra a parte mais cruel dessa história e que quebra, digamos, aquele padrão de homem invisível do Bob.
O pai do Jerry, por alguma razão, sabia. Ele desconfiou do Bob quase desde o primeiro dia, e ele passou os 4 anos seguintes apontando o dedo pro Bob e cobrando a polícia sem ninguém levá-lo a sério. O pai do Jerry se chamava Paul Howell. Ele era um sujeito durão, homem bom, trabalhador, batalhador, que tinha criado uma família grande e que conhecia bem os perigos do mundo. Quando o filho dele sumiu, o Bob veio com uma história de que tinha deixado o garoto numa loja de conveniência, mas o pai não engoliu aquilo.
O Paul mandou imprimir panfletos com a foto e a descrição do Jerry. Ele dirigia pelas partes mais sombrias da cidade, parava o carro e perguntava para qualquer um se tinham visto o filho dele. Ele procurou um jornal grande lá Kansas City e contou a história. E o jornal publicou uma matéria sobre o desaparecimento com uma foto dele e da esposa segurando o panfleto sobre o sumiço do filho Jerry. Além disso, o Paul, o pai do Jerry, começou a vigiar o Bob por conta própria.
Ele sentava na frente da casa do Bob de olho em qualquer movimento, chegava a mexer no lixo do Bob que ele colocava na calçada ali procurando qualquer coisa, mas ele não achou nada. E tem um detalhe macabro que só veio à tona muito depois. Quando a polícia finalmente entrou na casa do Bob em 1988, o garoto achou lá dentro uma pasta com a etiqueta "hóspedes". Dentro dessa pasta, entre fichas de vários rapazes, tinha uma pasta só do Jerry, com recortes daquela mesma matéria de jornal que o pai do Jerry tinha lutado muito para conseguir publicar.
E as anotações eram do próprio Bob, feitas à mão. O homem guardava um arquivo sobre o garoto que ele mesmo tinha matado, incluindo a notícia da procura por ele. A polícia, é verdade, até foi atrás nesses Essas primeiras desconfianças, a unidade que cuidava de desaparecidos interrogou o Bob ainda em 1984. Ele apareceu com um advogado, suava, ficava nervoso, mas manteve a versão da loja de conveniência onde ele supostamente tinha deixado o Jerry.
Começaram a circular então boatos pesados de que o Bob gostava de aplicar injeção nos rapazes, de que tinha dado uma dose forte demais pro Jerry. Os detetives ficaram com a pulga atrás da orelha. Internamente aquilo virou quase uma ordem informal de pegar no pé do Bob, mas boato não é prova, não é? E sem prova eles não tinham muito como entrar naquela casa, e o Bob seguiu solto, a frustração da família foi virando outra coisa, no dia em que o Jerry faria 20 anos, o filho mais velho do Paul Howell entrou naquela feira de antiguidades, foi direto até a barraca do Bob, agarrou ele por trás, girou e começou a socar a cara dele ali mesmo no meio das barracas, o Bob caiu por cima de umas mesas, pesas que desabaram, a briga foi separada e ainda foi o Bob quem registrou uma queixa na polícia.
Agora vai vendo, é aqui que a obstinação desse pai chega num lugar que parece roteiro de filme. 4 anos depois, quando o Bob finalmente foi preso depois de toda a descoberta, ele foi levado a um tribunal para uma das primeiras audiências. O Paul Howell, pai do Jerry, entrou no prédio com um revólver carregado no bolso. Naquele dia, pela primeira vez, havia no prédio um detector de metais Mas o pai do Jerry reparou que os frequentadores ali, advogados, funcionários, passavam por fora desse aparelho que supostamente era novo no local, então eles não eram revistados.
E ele fez a mesma coisa, contornou o detector de boa, com a arma no bolso. Só que ele subiu sem saber em qual sala o Bob ia ser ouvido. Lá em cima, naquele prédio, ele esbarrou por acaso com o próprio advogado e perguntou onde o Bob estava. O advogado respondeu que tinham acabado de levar o Bob para ser ouvido num outro prédio do outro lado da rua. E foi aí que o advogado reparou que que o pai do Jerry tava carregando alguma coisa pesada, porque o casaco tava até meio torto pro lado.
Ele falou pra ele não ir até lá com uma arma, mas não adiantou. Só que no outro prédio, o detector de metal da entrada não tinha nenhuma brecha que dava pra passar pelos lados. Então o pai do Jerry até tentou entrar pela garagem, foi testando as portas, mas todas elas estavam trancadas. Um funcionário apareceu e ele acabou recuando sem conseguir passar. Então, com a arma, ele acabou guardando o revólver no carro e entrou no tribunal O Bob estava sentado na sala algemado esperando a vez dele de falar.
Quando ele virou a cabeça e viu o Paul Howell, ele até deu um sorrisinho de canto de boca, sabe? Naquele momento, o pai do Jerry surtou. Ele desceu correndo pelo corredor ali da plateia, atravessou a portinhola que separa o público dos advogados e se jogou de cabeça por cima da grade do júri e começou a socar o Bob, que se encolheu todo ali embaixo dos golpes. Três policiais que estavam num banco ali perto pularam em cima do pai pra arrancar ele dali.
No meio da luta, o pai do Jerry ainda tentou pegar a arma de um dos policiais antes de ser dominado. O Paul Howell, o pai que tentou matar o assassino do filho na frente de um tribunal lotado, não foi nem indiciado por isso. O que esse pai nunca conseguiu em 4 anos de cruzada foi a única coisa que ele queria saber: o que tinha acontecido com o filho dele. Essa resposta não estava na polícia, nem na imprensa, nem no lixo do Bob, ela estava trancada dentro daquela casa de 3 andares no número 4315 da rua Charlotte, no bairro Hyde Park em Kansas City, junto com a resposta sobre todos os outros rapazes que tinham entrado lá e nunca mais saído.
O Jerry evidentemente não foi o único, ele foi só o começo, digamos. Em abril de 1985, um rapaz que já tinha morado com o Bob por temporadas foi mantido preso e morto na casa. Esse rapaz tinha uma história triste e comum. Ele tinha vindo da Califórnia, saído de casa cedo, passado por Las Vegas. Ele chegou lá em Kansas City tentando algo melhor para vida. Ele tinha até começado a se ajeitar, arrumou um emprego numa fábrica, tava trabalhando direitinho.
Um dia simplesmente parou de aparecer no serviço. Em junho ainda de 1985, um outro garoto se abrigou da chuva no galpão do um tal do Bob numa noite de temporal. Esse era um rapaz que cortava grama na região ali de vez em quando, que já tinha até aparado o gramado da própria casa do Bob. Ele tinha passado pelos fuzileiros lá do Baixa de um jeito problemático e andava bebendo demais, estava deprimido. Naquela noite de chuva, ele estava na rua perambulando e lembrou que o galpão do Bob ficava por ali aberto.
Ele se enfiou lá dentro para se proteger. Os cães começaram a latir e o Bob foi ver o que estava acontecendo e achou o garoto lá encharcado chamou ele para entrar para se secar. Esse rapaz também nunca mais saiu de lá. E em setembro de 1985 ainda, um terceiro homem de 25 anos desapareceu depois de ir para casa do Bob. Esse era um sujeito muito viciado que já tinha afastado todo mundo da vida dele, tinha se metido em muita encrenca e com drogas.
A esposa, que estava grávida do primeiro filho desse casal, ainda tinha esperança de que ele largasse tudo, voltasse para os trilhos da normalidade da vida para criar a criança. Ele foi visto pela última vez indo encontrar Bob. E aqui está um dos elos mais importantes dessa corrente. Esse homem tinha uma característica específica por causa de um nariz quebrado num acidente antigo. Ele tinha uma voz naturalmente rouca, fraca, que não conseguia gritar alto.
E foi exatamente daí que o Bob tirou uma das ideias mais doentias dessa história inteira: a de injetar soda cáustica perto das cordas vocais das vítimas seguintes para reproduzir na marra esse mesmo silêncio que esse homem já tinha naturalmente. Quando esse terceiro homem desapareceu, a polícia polícia teve a segunda chance de prender o Bob. A esposa desse homem registrou o desaparecimento dele e de novo apontaram para a mesma pessoa, o Bob.
Os detetives voltaram a interrogá-lo e o Bob foi até esperto. Ele levou os investigadores para ver o porão da casa dele, mostrou que tava tudo limpo. Quando pediram, no entanto, para ver os quartos de cima, ele hesitou e recusou. Mais uma vez, sem prova concreta, eles não tinham como forçar a entrada. Foi a primeira foi a primeira vez que aqueles detetives perceberam que o mesmo homem estava ligado a dois desaparecimentos diferentes, e mesmo assim saíram de mãos vazias de novo.
E é quase impossível não se questionar aqui quanto naquele de mãos vazias era falta de prova de verdade e quanto era a pressa de arquivar o sumiço de mais um rapaz que ninguém ia procurar mesmo, não é? Duas vezes a polícia esteve cara a cara com Bob, perguntou das casas que estavam desaparecendo e foram embora, e as duas vezes ele voltou pra mesma casa onde os corpos estavam. Em 1986, ele capturou um rapaz na casa dos 20 anos que já fazia parte da vida dele havia um tempo, era um sujeito de Oklahoma, viciado, que uns 2 anos antes tinha aparecido na porta do Bob junto com a mulher dele, casal jovem, os dois afundados na droga, que o Bob dizia estar ajudando a largar as ruas.
Lembra que o Bob era visto como aquele vizinho bonzinho que queria ajudar todo mundo? Pois é, os dois bateram na porta dele, chegaram a morar na casa dele por temporadas, saíam, voltavam. Dessa vez o rapaz apareceu sozinho e o Bob o manteve preso por cerca de 2 semanas numa das provações mais brutais de todas. Ele submeteu o rapaz a uma violência sexual que causou uma lesão interna grave e o rapaz acabou morrendo de hemorragia e infecção, definhando ao longo de dias.
Dias sem nenhum atendimento. Em 1987 já veio mais um jovem de 20 anos também, que tinha tido uma infância bem ruim, tirado da mãe ainda criança, criado em uma porção de lares adotivos, com passagem pela cadeia, que tinha acabado de chegar na cidade. O Bom Bob, num gesto que parecia bondade pura, pagou a fiança para tirar o garoto da cadeia e levou ele para morar na casa dele. Esse rapaz foi mantido pelo período mais longo de todas as vítimas, algo em torno de 6 semanas, que acabou virando a vítima cuja cabeça a polícia desenterrou lá no quintal.
Cada um desses rapazes tinha em comum o mesmo perfil que fazia eles serem, na cabeça fria do Bob, descartáveis. Eram jovens sem família por perto que fosse correr atrás deles, gente que a sociedade já tinha meio que desistido. Ou seja, o Bob sabia disso e previa que a polícia, como eu disse, não ia se demorar muito para descobrir o que de fato tinha acontecido com eles. O Bob aplicava remédio de cavalo, tranquilizante de animal, para deixá-los indefesos, amarrava, torturava com choque e com a barra de ferro, e mantinha um registro frio de tudo num caderno, com data, horário e dose, como se ele estivesse ali anotando num prontuário.
Quando ele terminava, o problema dele virava sempre o mesmo: o que fazer com o corpo? Mas antes de eu chegar nessa resposta, a gente precisa voltar para o homem O começo, o sétimo, o único que saiu andando de lá. O homem nu, de coleira no pescoço, que conseguiu fugir se chamava Chris Bryson, ele tinha 22 anos, era lá de Kansas City mesmo, tinha largado a escola cedo e era casado e pai de um bebê. Naquela noite ele estava se virando na rua para conseguir dinheiro para drogas, e até onde se sabe ele foi a primeira pessoa que o Bob capturou sem conhecer antes, era a fim No dia 20 de março de 1988, Bob rodava de carro pela região do centro onde rapazes faziam programa.
Ele estava procurando por isso mesmo e ofereceu uma carona, e o Bryson entrou. Eles foram para casa da Rua Charlotte, a casa do Bob, e quando o Bryson subiu aquelas escadas, o Bob acertou ele por trás na cabeça com um cano de ferro, derrubou o rapaz e aplicou uma injeção que o apagou na hora. O que veio depois foram 4 dias. O Bryson acordava amarrado numa cama de metal, amordaçado, tão apertado que mal respirava. O Bob entrava no quarto O Bob subia em cima do peito dele e batia com uma barra de ferro, prendia eletrodos no corpo desse rapaz e dava descarga elétrica enquanto o flash da câmera instantânea estourava registrando tudo isso.
Ele injetava soda cáustica também perto da garganta dele para calar a voz do rapaz, como eu expliquei antes. E entre uma sessão e outra de tortura, ele abusava sexualmente do rapaz. O Bob deixava claro para o Bryson com a maior calma do mundo que ele agora era um brinquedo dele, que não ia ver o mundo lá fora de novo, e que se tentasse qualquer coisa ia acabar como outros antes dele tinham acabado. Pra controlar o Bryson, o Bob alternava, uma hora era tortura física, outra hora abuso sexual, outra hora ele falava de maneira mais mansa, oferecia um cigarro, uma comida, como se houvesse um jeito de merecer um tratamento melhor ou um simples sadismo psicológico, mas o Bryson tinha a ideia de fugir desde o começo, O Bryson nunca largou essa ideia, isso alimentava o desejo dele permanecer vivo, e a brecha apareceu, e apareceu por causa de um detalhe completamente banal, naquele fim de semana a final do campeonato de basquete universitário tava rolando na cidade, lembra?
Pois é, o Bryson pediu pro Bob deixar ele assistir aos jogos, pra ele conseguir no entanto trocar os canais ali sozinho, o Bob amarrou as mãos dele na frente do corpo, ao invés de esticadas pra cima da cabeça ali como estavam o tempo todo, E aí, num momento qualquer, o Bob confiando naquela situação saiu de casa. O Bryson então começou a se contorcer para afrouxar as cordas dos pulsos. Demorou, mas ele se soltou. Então ele percebeu uma coisa: tinha uma caixa de fósforos largada ali perto da cama, do lado, que o Bob tinha esquecido depois de acender um cigarro.
As pernas do Bryson ainda estavam amarradas nos pés da cama. Ele tinha tanto pavor daquele transformador que ele achava que até os ferros da cama podiam estar eletrificados.
Amarrados.
Então ele pegou os fósforos e foi queimando as cordas sem encostar em nada. Queimava um pouco, apagava para não queimar a própria pele. Eram 4 cordas, ele queimou as 4. Quando se soltou, ele foi até a janela achando que ia estar pregada, né, que ele estava trancado ali. Mas uma delas se abriu. Ele se pendurou pelo parapeito para tentar cair na grama, mas aquilo quebrou, cedeu, e ele despencou direto. Quebrou um osso do pé, Mas nem sentiu nada com a adrenalina da sobrevivência.
Ele levantou e saiu correndo nu pela rua. E foi assim que ele acabou batendo na porta de um vizinho, toda aquela cena que eu já comentei. 4 dias depois de entrar no carro do Bob, era 2 de abril de 1988. Aquela fuga, aquele pulo pela janela, uma caixa de fósforos. Tudo isso ia fazer a porta daquela casa finalmente se abrir e revelar o que o Bob escondia lá há anos. A polícia tinha agora uma montanha de provas e aquele problema enorme: corpos sem nome.
O trabalho que veio depois é uma das partes mais impressionantes desse caso, e é a parte que quase ninguém conta, viu? Sargento Cole montou uma força-tarefa só para isso. Como os crânios não vinham com etiquetas, a polícia chamou um antropólogo forense de outra cidade para examinar os ossos. Ele determinou que os restos de vítima eram eram de homens jovens brancos e que as marcas nas vértebras eram de faca e de serra, mas tinha um limite, ele não conseguia dizer do que cada um tinha morrido.
Aí entrou o trabalho de formiguinha com os dentes, a polícia divulgou que tinha encontrado restos e as famílias de rapazes desaparecidos do país inteiro começaram a mandar fichas dentárias dos filhos. Um dentista legista passou a comparar uma a uma com o crânio do armário armário e com a cabeça do quintal. Imagina o que era isso para as famílias. Cada ficha que chegava era uma esperança e um terror ao mesmo tempo. As primeiras comparações deram negativo, não batia nem com o Jerry Howell nem com o James Ferris, o homem da voz rouca.
Até que finalmente bateu. O crânio do armário era de Robert Sheldon, o rapaz que tinha vindo da Califórnia, e a cabeça enterrada no quintal era do Larry Wilson, o jovem de 20 anos de uma família destruída, lembra? Pela primeira vez, dois daqueles restos tinham um nome. Enquanto isso, outro perito passou mais de uma semana fazendo só uma coisa: olhando aquelas centenas de fotos. Ele usava os códigos impressos atrás de cada uma para agrupar as que tinham sido tiradas na mesma época, procurava cicatrizes, tatuagens para poder cruzar uma foto com a outra, e ele foi montando então quebra-cabeça cabeça de quantas pessoas diferentes tinham ali naquelas centenas de fotos.
A conta dele foi assustadora: cerca de 20 homens pareciam estar desacordados ou mortos naquelas imagens. Mas tinha um ponto aí, uma linha que precisava ser esticada, porque 2 restos mortais só com nomes estavam longe de fechar a conta, não é? A polícia tinha fotos de cerca de 20 homens e o corpo de quase nenhum deles. Então os investigadores foram atrás de qualquer pista de onde mais o Bob poderia ter se desfeito de um corpo. E surgiu uma, uma testemunha Tinha visto Bob levando sacos de lixo pesados para uma fazenda de um conhecido no interior, ao sul da cidade.
Não era a única propriedade rural da história, tá? O Bob costumava frequentar algumas fazendas pela região, então a polícia resolveu vasculhar 3 delas, cerca de 18 hectares no total. E para cobrir tanta terra assim sem cavar no escuro, eles trouxeram um cão treinado para farejar corpos. Numa dessas buscas, um detetive achou uns ossos numa sala e jurou que tinha encontrado uma vítima, mas eram ossos de uma vaca, que inclusive terminaram pendurados na parede ali da sala da força-tarefa, onde eles ficaram até o fim da investigação.
Depois levaram o mesmo cão para casa do Bob. Ali ele se agitou todo perto da chaminé e do galpão dos fundos. A polícia escavou a chaminé e o galpão e só tirou dali uma dentadura velha. Não existia corpo para desenterrar, nem na casa, nem em nenhuma fazenda, entenda. O cão até farejava alguma coisa ali no ar, mas o Bob tinha feito aqueles rapazes sumirem por completo. E como ele conseguiu isso era exatamente o que a confissão dele ainda ia revelar.
E é aqui onde a história ganhou um inimigo que não era o Bob: a fantasia. No meio da tralha toda da casa, os investigadores tinham achado livros sobre satanismo e bruxaria, um disco sobre o mesmo assunto na vitrola, máscaras esquisitas e até uns potes enterrados no quintal com penas de pássaro dentro. Pra muita gente, aquilo fechava uma teoria irresistível: o Bob só podia ser o líder de um culto satânico, e por isso ele tinha que ter comparsas soltos por aí.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Jornal Nacional, o Geraldo Rivera, dedicou inclusive um especial inteiro a essa ideia, com direito a uma mulher afirmando que tinha visto um sacrifício humano em homenagem ao Bob. Uma vereadora lá de Kansas City, a Carol Cole, garantiu que havia cúmplices que ainda iam aparecer. Mas, sempre tem um mas, não é? Não tinha culto nenhum e não tinha cúmplice nenhum. Os investigadores procuraram e não acharam nada que sustentasse essa história de satanismo.
Os tais "pots" com penas, o Bob disse que nem sabia o que era e que provavelmente já estavam lá quando ele comprou a casa. Tinha até um caderno de anotações que à primeira vista parecia ser de mais uma vítima e que lido com calma era só o registro de uma experiência que o Bob tinha feito com um cachorro de rua pra calcular a dose de remédio dele. E nas fotos de tortura só tinha uma pessoa fazendo aquela violência toda, ele mesmo.
Bem mais simples e bem mais mais perturbadora essa verdade do que qualquer culto. Era só ele mesmo. E foi esse homem, encurralado pelas provas, que fez a jogada que definiu o caso. Acima de qualquer coisa, o Bob tinha pavor de uma coisa só: a pena de morte. Desde a primeira semana preso, era só nisso que ele pensava. E aqui vale entender o tabuleiro por trás disso, tá? Prova para prender o Bob para o resto da vida não faltava, não é?
O Bryson tinha sobrevivido para contar tudo, tinha as centenas de fotos Os cadernos com datas e doses, os restos achados dentro da casa, esse homem não ia pra rua de jeito nenhum. O problema da promotoria era outro e bem mais estreito. Levar o caso até a pena de morte é o maior pesadelo desse sujeito. Pra condenar alguém à execução, o júri precisa ter certeza de como a vítima morreu e isso era quase impossível de provar. Da maioria dos rapazes não tinha sobrado corpo pra examinar e nos poucos corpos em que sobrou, a ciência travou.
Um legista de St. Louis achou os tranquilizantes de animal ali nos restos de uma das vítimas, mas não teve como cravar que a dose tinha sido suficiente para matar. Sem corpo e sem causa de morte comprovada, apostar numa sentença de morte diante de um júri era improvável. Foi aí que os dois lados se acertaram. O Bob queria o que pra ele valia mais do Sobretudo, tirar a execução da mesa. A promotoria, por sua vez, trancava a condenação por todos os assassinatos sem depender de um júri e ganhava a única coisa capaz de dar alguma resposta às famílias que até ali não sabiam nem como nem onde os filhos tinham morrido.
O acordo juntou os dois lados: o Bob confessaria tudo, um caso por vez, nos mínimos detalhes, e em troca a pena de morte sairia de cena. E foi nesse ponto que o nome do Bob começou a ganhar as manchetes nacionais. O vizinho prestativo do grupo de vigilância, o dono da lojinha antiguidades. O homem que todo mundo chamava só de Bob, o vizinho bonzinho que ajudava todo mundo, na verdade era o serial killer Robert Berdella. E em 3 dias de dezembro de 1988, numa salinha de cadeia, ele contou tudo do jeito mais frio que dá para imaginar, lendo das próprias anotações com a voz mansa, como quem descreve uma viagem.
Foram 6. Por causa das fotos, a polícia chegou a temer um número bem maior, eram cerca de 20, como a gente sobreviveu, e ninguém sabia quantos tinham sobrevivido de verdade. Mas indo atrás de um por um, os investigadores foram encontrando a maioria deles ainda com vida. E aqui eu tenho certeza que vocês devem estar com uma pergunta óbvia na cabeça, não é? Se eles estavam vivos, escaparam de lá, por que não fizeram como aquele último rapaz, o sétimo, que contou para todo mundo?
A resposta tem camadas, tá? Primeiro, porque eram quase todos rapazes marginalizados, garotos de programa, viciados, alugados, sempre de passagem, com ficha corrida, que ninguém dava por falta. E o que cada um tinha passado naquela casa variava muito. Com alguns tinha sido só programa mesmo, outros passaram por coisas mais pesadas. O Bob drogava, amarrava, ameaçava. Só que justamente porque ele sedava as vítimas, muitas delas acordavam sem saber direito o que tinha acontecido, com as memórias apagadas, achavam que tinham só dormido.
E mesmo os que saíam desconfiados de alguma alguma coisa, não iam para polícia. Alguns deles dependiam do Bob financeiramente, não sei se rolava uma ameaça muito séria. Muitos, como eu disse, tinham ficha suja e sabiam que a palavra deles contra de um vizinho respeitado, presidente da vigilância do bairro, não ia fazer a menor diferença. Então não dá para dizer que simplesmente ficaram calados, não quiseram denunciar o Bob. Eles apenas sobreviveram sem nem perceber o quão perto tinham passado da morte.
E a polícia teve que caçar cada um, um por um, pela imagem, só para confirmar que estavam vivos mesmo. No no fim, 6 nunca mais apareceram. Eles eram Jerry Howell em 84, Robert Sheldon e Mark Wallace em 85, James Ferris no mesmo ano, Todd Stoops em 1986 e o Larry Pearson em 87. Quase todos morreram da mesma forma: drogados, amordaçados e amarrados, sufocados aos poucos. Alguns inclusive com um saco plástico na cabeça amarrado, que o Berdella friamente fotografava.
Enquanto a pessoa parava de respirar. Agora, voltando lá para cena que abriu, lembra que o Robert Berdella, o Bob, chegou dirigindo ali na casa dele naquela manhã que o cara conseguiu fugir? Perguntou o que estava acontecendo. Pois é, ele contou que um vizinho tinha ligado para ele lá na loja avisando que a polícia estava na casa dele. Ele já sabia, sabia exatamente o que aquilo significava, e dirigiu para lá assim mesmo e se entregou.
Ele usou isso inclusive como argumento contra tal teoria no dia do culto, dizia que se fizesse parte de uma organização tão poderosa, teria tido um plano de fuga, alguém para tirar ele do país, mas ele preferiu ir para casa e se render. E aí, já que ele tava confessando tudo, cadê os corpos, não é? A resposta foi que o Berdella desmembrava as vítimas, embrulhava os pedaços, ensacava tudo dentro de sacos de lixo, depois colocava um saco de ração de cachorro, deixava na calçada na frente da casa dele para coleta do lixo levar.
Ele ficava na janela esperando o caminhão passar só para ter certeza de que tinham levado tudo. As únicas partes que ele guardou foram as duas cabeças, o resto foi parar num aterro sanitário, o que significa que para a maioria daquelas famílias nunca houve nada para enterrar. Quando os promotores explicaram isso para mãe e para viúva de uma das vítimas, a viúva gritou para eles irem cavar o aterro, mas já era tarde demais, fazia anos.
E aqui você deve também tá se perguntando sobre sobre o pai do Jerry, né, o Paul. Porque lembra que ele passou anos desconfiando do Bob, os 4 anos, e chegou a revirar justamente o lixo do Bob que ele deixava na calçada atrás de qualquer pista do filho? Pois é, essa é a parte de embrulhar o estômago. Em algum momento, vasculhando ali, o próprio pai cogitou que o Bob pudesse estar escondendo os corpos no lixo, mas ele descartou a ideia depois por alguma razão.
Achou que o Bob era esperto demais para fazer isso assim tão escancaradamente. Afinal, como é que alguém deixa um corpo na calçada, né? Vai que um cachorro do bairro passa ali, rasga pega o lixo e sai espalhando tudo. Por isso ele desistiu e não achou nada. Mas ironicamente, era exatamente isso que o Bob fazia. A resposta que o Paul, pai do Jerry, tanto procurava, estava ali na frente dele e passou batido. Mas depois de conhecer toda morbidez da cabeça desse homem, a crueldade, selvageria, seja lá como você queira chamar, perversidade, a gente precisa entender um pouco melhor quem era o Bob, não é?
Robert Berdella cresceu numa cidade pequena de Ohio chamada Kaihoga Falls, e foi desde criança um tipo solitário, um garoto inteligente, usava uns óculos grossos desde os 5 anos, quase sem amigos, que passava as tardes trancado lendo e cuidando de coleções, enquanto o pai dele na verdade torcia mesmo pelo irmão caçula que era esportista. Ele era visto como um cara esquisito, cresceu com a sensação de não caber em nenhuma caixinha, nenhum grupo, era gay e desde cedo se relacionava com homens.
No Natal de 1965, quando ele tinha 16 anos, o pai teve um infarto fulminante e morreu 2 dias depois, aos 39 anos. Pouco tempo depois, o Bobby ganhou uma bolsa numa escola de arte em Kansas City, fez as malas e nunca mais voltou para Ohio. E para fechar a linha do tempo desse homem, alguns números que ajudam a enxergar quem ele era. O Robert Berdella tinha nascido em 31 de janeiro de 1949, então chegou a Kansas City em 1967, apenas 18 anos.
A escola de arte durou pouco, ele largou o curso, rodou aí por cozinhas de vários restaurantes da cidade, universidade, abriu um ponto numa feira e com o tempo a própria loja, comprou a casa lá da Rua Charlotte ainda no fim dos anos 60 e foi ficando por ali. Entre aquele garoto recém-chegado de Ohio aos 18 anos e o homem que 17 anos depois levou o Jerry Howell pra dentro de casa, foram quase duas décadas construindo peça por peça e à vista de todo mundo a fachada de cidadão respeitável que acabou enganando a rua inteira quando o passageiro sombrio dele invadiu sua alma.
Numa entrevista tempos depois de tudo, o Robert Berdella deu talvez a única explicação real de como ele enxergava o que tinha feito. Ele disse que tratava as vítimas como algo menor do que gente, como um brinquedo mesmo, um objeto. Disse que era, no entanto, só um vizinho que foi capaz de fazer coisas monstruosas e que, segundo ele, isso não era a mesma coisa que ser um monstro.
Any way to do that in Kansas City. The media has so biased my case, portraying me as being non-human, and their motivation is no separate from what— the way I treated my victims.
I treated them as something less than human, nothing more than a play toy, or not a play O Berdella disse que quando era adolescente viu um filme chamado O Colecionador, que é sobre um homem que sequestra uma mulher e que a mantém trancada num porão. Segundo ele, aquela história plantou uma fantasia sombria na cabeça dele, uma fantasia que ele carregou por anos, até que em 1984 ele começou a deixar essa coisa virar realidade. E segundo a confissão do Bob, ele já via antes do Jerry sedando, fotografando pessoas.
Havia um tempo já. Só que o salto para a morte aconteceu naquele julho de 84, e teve até um estopim, segundo ele contou nos mínimos detalhes. Ele andava furioso com os conhecidos que vivia socorrendo e que nunca retribuíam. E quando o Jerry mais uma vez deu para trás num suposto combinado simples que eles tinham, alguma coisa virou na cabeça dele. Por fora, ele disse que manteve a calma. Por dentro, perdeu o controle. E dali em diante, a bestialidade assumiu a personalidade dele.
A partir dali, ele dizia que o que movia ele era a raiva e o controle. Dizia que descontava nas vítimas uma frustração que carregava contra o mundo e que o que ele queria ali era o domínio absoluto sobre o outro ser humano. Ele não culpava os pais nem a própria infância por isso, mas também não botava a conta toda nas próprias costas. Às vezes dizia que tinha sido a sociedade que transformou ele naquilo, que empurrou ele até aquele a esse ponto, e que a raiva em certos momentos tomava conta dele por inteiro.
Enfim, uma mente completamente confusa e perturbada. No final das contas, sobre o porquê de ter feito tudo aquilo, ele mesmo admitia que ainda estava tentando entender, que não sabia. No dia 19 de dezembro de 88, 6 dias antes do Natal, ele se declarou culpado e recebeu a sentença: prisão perpétua, as penas pelas mortes, homicídio em primeiro grau sem chance de condicional. Ou seja, na prática, ele ia morrer na cadeia. E foi exatamente o que aconteceu.
No dia 8 de outubro de 1992, dentro da penitenciária, o Berdella reclamou de dor no peito, foi levado a um hospital, mas em pouco tempo estava morto de um ataque do coração. Tinha 43 anos. O pai dele, como a gente viu, tinha morrido aos 39, também de ataque do coração. O rapaz que escapou, o Chris Bryson, sobreviveu, mas ele afundou nas drogas depois, sumia de casa por dias, e anos depois processou o Berdella em 1 milhão e meio de pelos danos físicos e mentais que sofreu, mesmo tendo assinado lá atrás um documento em que abria mão de processar. 6 rapazes entraram naquela casa ao longo de 4 anos e não saíram.
A polícia tinha estado na porta, tinha conversado com o homem e foi embora 2 vezes. Nem tudo é o que parece, não é? Um pai tentou matar o assassino do filho na frente de um tribunal e foi impedido por centímetros. E no fim, tudo isso só veio à tona por um único motivo: uma manhã de sábado um homem amarrado numa cama conseguiu queimar uma corda com fósforos que tinham sido esquecidos pelo seu torturador, pulou daquela janela e revelou a mente de um dos piores serial killers da história.
E eu espero que você tenha apreciado o conteúdo especial de hoje. Não esquece o seu like, seu comentário, verifique sua inscrição para não perder nenhum episódio, e se puder, se torne membro para contribuir com esse tipo de produção. Obrigado pela companhia, um beijo do Ruivo e até o próximo episódio.