A Vila do Silêncio: Um segredo macabro guardado por 20 anos
📌 Durante quase 20 anos, uma vila inteira na Hungria guardou um segredo terrível: dezenas de homens estavam morrendo de forma misteriosa, e ninguém dizia uma palavra. Em "A Vila do Silêncio", mergulhamos na história real e perturbadora das "Fazedoras de Anjos" de Nagyrév.O que começou com uma parteira e um vidrinho de arsênico se transformou em uma epidemia de envenenamentos que chocou o mundo em 1929. Por que as autoridades ignoraram os avisos por tanto tempo? O que a exumação em massa revelou no cemitério da vila? E qual era o papel sombrio da "Tia Juji" em tudo isso?Neste vídeo, investigamos:O impacto da Primeira Guerra Mundial na dinâmica da vila.Como o arsênico virou uma "solução doméstica" entre as mulheres.Os julgamentos que expuseram a face mais sombria da zona do arsênico.Deixe seu comentário: você acha que essas mulheres foram vítimas do contexto da época ou assassinas frias?🔔 Não esqueça de se inscrever e ativar o sininho para não perder os próximos casos.-------📧 Contato comercial: contato@mpcampos.com.br
Marcos Campos
- O Segredo da Vila HúngaraEnvenenamentos em massa por arsênico · Nagyrév · Tia Juji · Primeira Guerra Mundial · Arsênico como solução doméstica · Julgamentos e a Zona do Arsênico
- O Papel da Parteira e a Fabricação do VenenoA parteira como figura central e curandeira · Fabricação de arsênico com papel mata-mosca · Método de administração e disfarce dos sintomas · Juliana Fosekash (Tia Juji)
- Obstrucao de InvestigacoesDenúncias ignoradas pelas autoridades · Processos por denúncia caluniosa · Exumação em massa no cemitério · Descoberta de arsênico nos corpos
- Novo julgamento pela morte de Maradona28 réus em 12 julgamentos principais · Cobertura da imprensa nacional e internacional · Confissões retiradas e falta de provas · Sentenças: 3 execuções, penas de prisão
- O Papel da Mulher na Sociedade e na FamíliaImpacto da Primeira Guerra Mundial e retorno dos maridos · Maridos mutilados e com estresse pós-traumático · Casamentos sem saída e divórcio impossível · Motivos: maridos violentos, herança, amantes, parentes doentes
- Número de vítimas e deslocadosA 'Zona do Arsênico' · As 'Fazedoras de Anjos' · Estimativas de vítimas variam de 45 a 300 · Melhora no comportamento dos maridos após o caso
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Durante quase 20 anos, uma vila inteira soube de um segredo e nenhuma palavra saiu de lá. Era julho de 1929, no cemitério de Vila, no interior da Hungria, quando um grupo de homens começou a abrir covas. E o detalhe mais estranho dessa cena nem eram as covas, era a plateia, porque a vila inteira largou tudo que tava fazendo e foi lá se amontoar no cemitério.
Mistério.
Os jornais da região registraram isso. Todo mundo queria ver o que ia sair daquela terra. E ficaram ali em um silêncio absoluto, cortado apenas pelo som das pás batendo na terra seca. E ficaram lá parados assistindo os mortos voltarem. O que aqueles homens estavam procurando debaixo daquela terra e o que eles de fato encontraram é a parte mais Insana dessa história. Eu sou Marcos Campos e o caso de hoje aconteceu há quase um século numa vila minúscula no meio da planície húngara.
E ele tem várias perguntas, tá? Como é que mortes em série atravessaram quase 20 anos no lugar onde todo mundo conhecia todo mundo sem que nenhuma das autoridades dali fizesse uma única pergunta? Por que as primeiras pessoas que tentaram denunciar o que estava acontecendo acabaram processadas? E por que a escavação que podia revelar o tamanho real dessa coisa parou assim de repente, justamente na hora em que o mundo inteiro começou a olhar pra lá?
É isso que a gente vai investigar juntos. Então já se ajeita e vamos aos fatos. As cartas. Em abril de 1929, 3 cartas chegaram à promotoria real de Szolnok, a cidade que servia de capital administrativa para uma região rural espremida ali numa curva do rio Tissa, no coração da Hungria. 3 cartas sem remetente e cada uma acusava uma mulher de uma vila chamada Nodirev, uma de ter envenenado o marido, outra o marido e o filho e uma terceira de ter envenenado um filho.
Agora, se você imagina que isso, sei lá, disparou um alarme imediato ali nas autoridades... Não, viu? A promotoria mandou a polícia rural averiguar e a polícia descobriu rapidinho quem tinha escrito as cartas. E era uma mulher ali mesmo da região. Só que, como ela não conseguiu sustentar com provas o que ela estava afirmando, acusando, sabe quem acabou respondendo a um processo? Pois é... A acusadora, por denúncia caluniosa. E as acusadas de verdade continuaram em casa e o caso morreu ali mesmo.
Pelo jeito, não foi só o caso que morreu, viu? E isso que aconteceu não foi um episódio isolado. Os historiadores desse caso que vasculharam os arquivos encontraram avisos se acumulando havia anos já. Cartas anônimas que ninguém investigava a fundo, mortes suspeitas que ninguém quis revirar. Em 1924, um médico da região desconfiou tanto da morte repentina de um paciente que ele pediu formalmente a exumação do corpo, mas o pedido foi negado por falta de provas.
Em junho de 1929, já, um morador publicou num jornalzinho local ali que a região inteira fofocava sobre envenenamento em massa. O resultado disso? Foi um processo por difamação. O padrão insólito, digamos, quem matava não respondia por nada e quem denunciava respondia. Mas as cartas não pararam de chegar. Na promotoria, num posto de polícia rural, continuavam aparecendo bilhetes anônimos falando de mortes, alguns com nome de vítima e nome de assassina.
E em junho de 1929, numa vila vizinha ali de Noddyrev, Uma dessas cartas finalmente acertou um fio que tinha uma ponta. A carta acusava um casal de ter envenenado anos antes o pai do marido. Os policiais finalmente puxaram esse fio e chegaram a uma moradora que tinha ouvido a história da boca da própria nora do morto. E quando o casal foi detido, aconteceu o que ninguém esperava: os dois confessaram na hora. Na sequência, um segundo casal foi preso, negou e acabou confessando depois também.
E os 4 presos apontaram a mesma coisa: a origem do veneno. Mas onde essa origem ia dar, eu te conto daqui a pouco. O que importa saber agora é que no fim de junho de 1929, todo mundo foi levado para Sonocchi. E o gelo, digamos, depois de quase 20 anos ali de um desses que ninguém olhava direito tinha finalmente se quebrado. Mas se o gelo quebrou, o que apareceu debaixo dele ali não foi apenas um crime ou dois isolados, e sim uma estrutura que envolvia a vila inteira.
Lembra que eu perguntei no começo como isso durou tanto tempo? A resposta começava nos números. A partir dali, a polícia rural se mudou lá para Nodirevi, aquela vila, montou uma base lá dentro da vila e começou a chamar mulheres para pôr, 17 só na primeira leva. As confissões, que tinham começado aos poucos, foram aumentando. Entre julho e outubro daquele ano, em 3 meses praticamente de investigação ininterrupta nas duas vilas, Nodirevi e também na vila vizinha Tissa Kirti, as autoridades formalizaram 77 denúncias de assassinato lá na promotoria de Sonok. 77, galera!
Pra vocês terem ideia do que esse número significa, Nodirevi tinha por volta de 1000 habitantes mais ou menos à época. Vale registrar que existem outras versões de como esse caso estourou, tá? Uma fala de uma estudante de medicina de uma cidade próxima que teria encontrado níveis altíssimos de arsênico num corpo que tinha sido encontrado num rio. E uma outra história que foi pesquisada e registrada pelo historiador Bella Bodo, autor do primeiro livro acadêmico sobre esse caso, fala de uma carta anônima enviada à redação de um pequeno jornal.
As versões se misturam, mas todas elas desembocam no mesmo ponto: em 1929, o silêncio daquela região então gritou. E aí veio a decisão que transformou uma investigação do interior num caso mundial: abrir o cemitério. Exumação em massa mesmo, uma medida que a Hungria simplesmente nunca tinha aplicado. No dia 22 de julho de 1929, as primeiras covas lá de Nogirevi foram abertas, com um juiz de instrução, peritos e até advogado de defesa acompanhando ali tudo de perto.
E é exatamente aqui que aquela cena do começo do episódio entra na linha do tempo. As "páss", as covas cortando o silêncio batendo ali no chão seco, e a vila inteira em volta querendo ver o que ia acontecer. As amostras foram mandadas para análise na capital, e o resultado que voltou do laboratório dias depois dispensava interpretação: era arsênico mesmo, e em quantidade, tá? Segundo o relatório da própria polícia da época, os corpos exumados continham em média arsênico suficiente para matar 8, 10 pessoas adultos, em média.
E os números que se popularizaram mundo afora falam numa primeira leva de 50 corpos exumados, com arsênico lá em 46 deles. 46 corpos de 50 que foram exumados continham o arsênico. Aquilo definitivamente não era um crime aleatório, não é? Tava claro que era um padrão. E para entender como uma vila daquele tamanho chegou nesse ponto, a gente precisa voltar quase 20 anos no tempo até um mundo que estava prestes a pegar fogo. A vila.
Nodirev era e ainda é um pontinho na planície húngara a sudeste de Budapeste, encostado no rio Tisza. Na década de 1910, moravam ali, como eu disse, cerca de 1000 pessoas. Todo mundo plantava, todo mundo se conhecia e ninguém de fora tinha motivo para querer Starla era aquele negócio de povoado mesmo, uma espécie de aldeia assim, bem simples. Sabe aquele tipo de lugar onde a estrada até acaba e você tem que chegar ali pelo campo e tal?
Pois é, era tão isolado que a vila não tinha médico, pra vocês terem uma ideia. O mais próximo, segundo a reconstrução mais recente do caso, morava a uns 8 km dali e nem sempre conseguia chegar. Então quem fazia às vezes de médico nesse vilarejo, nessa vila, era uma parteira, uma mulher nascida na própria vila que fazia os partos de Nodireve desde 1893 e que com a virada do século foi virando também a curandeira do lugar, que tratava doença, que cuidava da morte, pra todos os efeitos ela era a médica que a vila não tinha, e era mais do que isso, uma comunidade onde as mulheres não tinham com quem contar, vai mudar, digamos.
A parteira era a figura pra quem se levava qualquer problema, se é que vocês me entendem.
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You can watch the record-breaking phenomenon at home. You're clearly barking at it. Zootopia 2. Now available on Disney Plus, rated PG. Pobre, presa a família, terra, reputação da família, assim nunca era uma saída real fazer o divórcio. A mulher entrava naquele casamento meio que sabendo que dali só a morte tirava alguém. Aí veio 1914 e a Primeira Guerra engoliu aquele mundo. O Império Austro-Húngaro convocou milhões de homens pro fronte.
E os maridos lá da vila no Dzirew moram junto. Só que a guerra mexeu naquela vila de um segundo jeito que ninguém previu. Por ser um fim de mundo, entre muitas aspas, tranquilo, Nodirevi virou ponto de detenção de prisioneiros de guerra, soldados do lado inimigo capturados no front de batalha e mandados para lá. Esses homens circulavam pela vila com alguma liberdade até, e chegavam até a trabalhar nas lavouras que os convocados tinham deixado para trás para lutar pelo seu país.
Eles foram, né, esses prisioneiros virando parte da paisagem do local, depois parte da rotina e depois parte de algumas casas. Pois é, porque eles começaram romances com as mulheres que ficaram lá, os prisioneiros e as mulheres casadas dos soldados que tinham ido para guerra. Por 4 anos, aquelas mulheres viveram um uma vida que nenhuma camponesa húngara daquela região tinha vivido, tocando tudo sozinhas e pela primeira vez escolhendo as próprias companhias.
Só que aí a guerra acabou e os maridos voltaram. Porém, os homens que voltaram para aquela vila não eram os mesmos que tinham partido. Muitos voltaram mutilados, doentes, precisando de cuidado constante, o oposto exato dos provedores que tinham sido. Estresse pós-traumático nem existia como diagnóstico claro naquele tempo. O que existia era homem quebrado dentro de casa, sofrendo mesmo as consequências da guerra. E boa parte deles voltou decidida a restaurar a ordem antiga, como se aqueles 4 anos não tivessem acontecido.
Os historiadores descrevem o resultado com uma expressão bem exata: uma situação explosiva. E é nesse ponto que a história dobra uma esquina, podemos dizer. Porque a resposta para as dores dos Pelo jeito, a situação explosiva meio que já existia há um tempo e ela estava lá na casa da parteira. O remédio. As mulheres lá da vila de Nodireve já levavam tudo para parteira, não é? Parto, doença, desgosto, sabe? Os conflitos internos ali de relacionamento.
Então, quando a vida com os maridos que voltaram da guerra ficou insuportável, foi para ela que muitas mulheres levaram isso também. E a resposta que saía daquela casa, segundo o que se apurou depois, era que se o problema é ele, existe uma solução simples. Os pesquisadores registraram que a parteira tinha até uma frase de costume, uma pergunta que fazia para quem chegava reclamando da vida: "Para que você tá penando com ele?" A solução era o arsênico.
E aqui entra a química caseira, porque ela não comprava o veneno pronto, ela fabricava. E o método era de uma simplicidade assustadora até: papel mata-mosca, algo que qualquer um podia comprar numa venda de esquina ali à época, sendo fervido na mesma panela onde se fazia a sopa. Enquanto a água esquentava ali, o arsênico ia se soltando, formando uma espécie de película fina na superfície. Era a morte sendo preparada no fogão de casa.
Depois era só recolher essa película e concentrar em envasar em vidrinhos. Alguns relatos dizem que o preço disso aí variava conforme o bolso da cliente, tá? E nos julgamentos depois teve até ré descrevendo a parteira cobrando pelo serviço. E a instrução de uso pra isso, quando as pessoas iam buscar ajuda lá, era uma frase simples: "Mistura na comida ou na bebida dele." E pelos registros, muitas vezes aos poucos, tá? Dose por dose.
O arsênico é um veneno desgraçadamente conveniente. Não tem cor, não tem cheiro e some em qualquer coisa: na sopa, no café, na água ardente, até na massa de um bolinho. Os sintomas: vômito, dor de barriga, diarreia, eram praticamente idênticos aos sintomas da cólera e das infecções que já matavam gente no campo o tempo inteiro. Um homem envenenado morria de um jeito que parecia pra qualquer um ali que tava olhando aquela situação uma morte como qualquer outra, uma desgraça.
Mas um veneno bom não bastava. O que fez o caso de Nodirevi durar tanto tempo foi o que vinha depois da morte. Vai vendo. Numa vila sem médico, quem dizia do que a pessoa tinha morrido Era, na prática, a própria parteira, por todo o contexto que eu já expliquei. E o funcionário que examinava os mortos e atestava oficialmente os óbitos era um cara primo dela. Ou seja, o comércio da morte tava feito, não é? A morte parecia natural, a causa era dada por ela e o papel passava pela família dela.
Ninguém de fora via nada, porque no papel não tinha mesmo nada pra ver. Aqui está definitivamente o principal elo dessa corrente criminal. E ela garantia uma coisa às clientes, tá? Que aquele veneno não deixava rastro nenhum no corpo. Só que mora aqui a ironia que decide essa história inteira, a virada, né, descoberta. O arsênico engana médico diante de um doente, mas ele não desaparece, ele fica no corpo, nos ossos, anos depois da morte e do enterro, não é?
Décadas então depois de um enterro, nem as clientes nem a parteira sabiam disso. E você que deve se lembrar da cena lá do cemitério, né, todas aquelas escavações, sabe o quanto essa ignorância sobre a duração do arsênico no corpo ia custar? Bom, ia custar um dos casos mais marcantes da história criminal. Veja só, a primeira morte por arsênico comprovada lá em Nodirev é de 1911. A vítima foi um homem doente E isso é 3 anos antes de a guerra começar.
Ou seja, o método não nasceu com a guerra por toda aquela questão lá, né, os maridos voltaram, as mulheres estavam de saco cheio, já estavam namorando os prisioneiros que estavam por lá. O que a guerra fez foi dar escala para isso. Quando os maridos voltaram do front, homens até então saudáveis começaram a adoecer, a morrer, e oficialmente ninguém estranhava porque, como a gente viu, cada morte saía no papel como como infecção, como doença comum.
Dentro da vila, no entanto, os pesquisadores descreveram outra coisa: que aquilo era um costume do qual a comunidade inteira sabia sim. As próprias acusadas resumiram isso para a imprensa, tá, quando o caso estourou, numa frase até que dispensa comentário: "Era costume antigo dali. Fizeram antes de nós e vão fazer depois de nós." E o fato de não ter parado nos dos maridos pode comprovar isso mesmo. E é aqui que a coisa fica feia de vez.
Com o tempo, mulheres passaram a bater naquela porta lá da parteira para resolver outros tipos de problemas: pais idosos que tinham virado um fardo, ou cuja herança tava demorando demais, amantes. E conforme os processos mostraram depois, até crianças, bebês muito doentes, filhos pequenos, envenenamento Virou, e essa palavra tá nas próprias fontes, melhor dizendo, húngaras, uma moda, uma solução doméstica que se passava adiante de cozinha em cozinha.
Quantas vítimas esse esquema fez? Bom, guarda essa pergunta porque ela é o final dessa história. O que dá pra dizer agora é que por quase duas décadas o sistema de morte não falhou. Nenhuma investigação séria, apesar das suspeitas, foi feita. Nenhuma condenação. Quem tentou avisar foi processado, como a gente viu. Até que vieram as cartas de 1929 e dessa vez, finalmente, a polícia encontrou aquela tal linha pra puxar todo o fio da meada.
O Cerco. Bom, puxando esse fio da meada, a gente pode lembrar aqui do final de junho de 1929, quando aqueles dois casais foram investigados, presos e confessaram, né? Apontaram a origem do que estava acontecendo, o veneno. Pois então, a trilha levou a polícia a duas mulheres. A primeira eu te apresento daqui a pouco, quando for falar do tribunal, tá? E a segunda era evidentemente a parteira lá de Nodirefe. Os policiais prenderam a mulher, interrogaram ela, e alguns dias depois soltaram por falta de provas.
Tem registro inclusive de que depois de solta ela começou a ser observada. A polícia queria ver quem batia lá na porta dela. Aí, em meados de julho, a polícia se mudou para a vila, como eu já contei para vocês, né? Se instalaram lá, montaram uma base, etc. E aí as confissões vieram em avalanche, efeito manada mesmo. No dia 18 de julho, uma das mulheres acusadas, que, repara só, galera, também era parteira, acabou se enforcando.
E na manhã seguinte, 19 de julho de 2:29, os policiais marcharam de novo até a casa da parteira principal, digamos lá, de Nuremberg, dessa vez para prender de vez a mulher. Só que ela sabia o que vinha. Segundo o relato da própria polícia da época, fazia dias que ela vigiava a rua e ela tinha deixado uma coisa preparada, uma soda cáustica. Quando os policiais então apontaram ali na esquina e ela percebeu, ela bebeu essa mistura.
Uma moradora que era criança naquela época contou décadas depois contou depois num documentário que a criançada toda saiu correndo atrás dos policiais e que quando todo mundo chegou ela já tava morta, caída junto a um poço onde tinha deixado o veneno à espera. O registro de óbito da Vila foi suicídio por envenenamento com soda cáustica. A figura central desse caso saiu de cena sem responder a uma única pergunta em juízo e o nome dela era Juliana Fosekash.
Ela tinha 38 anos. E ela tinha nascido ali mesmo em Nodireve em 1861 e fazia os partos da vila desde 1893, ou seja, boa parte daquela vila tinha literalmente passado pelas mãos dela ao nascer e ao morrer também, né? Os vizinhos chamavam ela de Tia Juji e a ficha dela já tinha um padrão antes do arsênico, tá? Pelos registros ela fazia abortos clandestinos Foi levada ao tribunal várias vezes por isso e saiu absolvida de todas as acusações.
Muito antes do veneno, a tia "Juji" já tinha visto a justiça daquela região chegar perto dela e ir embora de mãos vazias, repetidas vezes. Eu diria até que provavelmente isso deve ter encorajado ela a continuar os esquemas, não é? E ela não foi a única a escolher essa saída, tá? Ao todo, 4 mulheres sob investigação tiraram própria vida. Uma delas, segundo a imprensa da época, se enforcou na cela antes de o julgamento começar. Com a principal suspeita morta então e a vila inteira sob investigação, sobrou para a justiça húngara uma pergunta de um tamanho que ela nunca tinha encarado: quem exatamente ia pagar e por quantas mortes? O tribunal—
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E repara num detalhe da estratégia oficial: segundo os registros, as autoridades fatiaram o caso de propósito em processos separados justamente para tentar evitar alarde, mas não funcionou, nem um pouco eu diria. Jornais nacionais húngaros levaram o caso pra primeira página, do outro lado do oceano o New York Times noticiou que aquilo ali era o maior caso de envenenamento do século e Nodirevi ganhou da imprensa o apelido que carregaria dali em diante: a Vila da Morte.
De repente, o mundo inteiro tava olhando pra um tribunal do interior da Hungria. A Hungria esperando conhecer os rostos por trás daquilo. E foi aí que veio o primeiro choque, digamos. Um dos maiores escritores húngaros da época, o Dzimon Moritz, tava lá na sala de julgamento. A reportagem dele descreve o tribunal lotado e uns 20 jornalistas, fotógrafos e desenhistas acompanhando tudo. O que ele chamou de "os olhos do mundo" estava ali naquela sala de julgamento.
Justiça. E o que ele registrou sobre as res, talvez seja a parte mais perturbadora desse caso inteiro. Nada de figuras sinistras, tá? A primeira acusada que ele descreve parecia, nas palavras dele, uma vovozinha querida, uma senhora de roupa preta, bem arrumadinha, parada diante dos juízes com as mãos juntas, como se estivesse na igreja. A acusação contra ela era de ter matado a própria mãe 9 anos antes, depois o marido e depois o amante, tudo com veneno fervido lá do papel mata-mosca.
E o Moritz, esse jornalista, escreveu que diante do tribunal ela parecia uma criança envelhecida, ingênua, como uma neta assustada que foi pega numa travessura. E nos depoimentos a linguagem dizia tudo, tá? As rés não falavam em veneno, falavam em remédio. É assim que os autos e as pesquisas registram o modo como muitas delas encaravam o arsênico: um remédio contra os males da vida.
Vida.
A coisa que se dava para fazer um problema ir embora. Outra ré, a segunda da reportagem do Moritz, que entrou na sala altiva, de cabeça erguida, contou em juízo que a parteira vivia atrás dela com a mesma pergunta: "Para que penar com ele?" E nos registros que a BBC recuperou décadas depois, uma das mulheres declarou não sentir culpa nenhuma. O marido era um homem muito ruim que batia nela Ela a torturava e desde que ele morreu ela tinha encontrado a paz.
Os motivos, conforme foram aparecendo, processo após processo, cobriam um espectro inteiro. Maridos violentos, maridos que voltaram inválidos da guerra e viveram uma certa dependência das mulheres, herança e terra, amantes do tempo de guerra, parentes doentes que tinham virado fardo. E tem também um processo que mostra como essa teia atravessava as vilas, tá? O mesmo, aliás, que estourou o caso lá em junho de 1929, porque a vila vizinha tinha a própria parteira nesse esquema.
Era ela quem revendia a solução do arsênico que, segundo as investigações, saía lá da casa da parteira principal, a Fozzy Cash, ou como ela ficou conhecida lá na vila de Nodirev, a Tia Juji, que a essa altura, como a gente viu, já tava morta. Nos autos que chegaram à Corte Superior, essa segunda parteira aí, né, de outra Aldeia aparece matando o irmão do próprio marido com chá envenenado numa história de herança. E em 1925, fornecendo o veneno e a ideia para que um rapaz matasse o próprio pai, um homem que bebia e ameaçava torrar tudo que a família tinha.
A esposa do rapaz teria ajudado, e esse rapaz é um dos únicos homens que sentaram no banco dos réus desse caso inteiro. Por um momento parecia o julgamento do século caminhando para um um paredão de condenações. Mas... sempre tem um mais, não é? As confissões, a base de tudo, começaram a ser retiradas uma a uma. E sem confissão, o que sobrava? A perícia provava que tinha arsênico nos corpos, mas o arsênico num corpo não aponta a mão que serviu o prato, provavelmente, onde estava esse arsênico.
Em vários casos, nem a análise química mais cuidadosa chegou a um resultado conclusivo. O desfecho então dessa matemática mórbida, macabra, foi: abriram-se muito mais processos do que saíram sentenças, e a imensa maioria dos casos terminou sem punição nenhuma, por falta de provas. Das condenações que ficaram de pé, 6 penas de morte, 3 mulheres de fato foram à forca, e uma delas era a parteira da vila vizinha, a tal Revendedora.
As outras sentenças capitais caíram em recurso. Mahé acabou absolvida em segunda instância e as outras tiveram a pena convertida em prisão perpétua pela Corte Suprema do país. Além das penas de morte, vieram 8 prisões perpétuas e outras penas de prisão por tempo determinado, de 5 a 15 anos. Mesmo assim, muita coisa ficou sem punição. Essa foi toda a conta que a justiça conseguiu fechar para uma região onde só a primeira leva de exumações tinham achado 46 corpos envenenados.
E a sentença apontou a arquiteta de tudo isso: a parteira morta, a Juana Fosecach, foi oficialmente cravada como a figura central do esquema todo. E nisso as fontes não divergem, tá? Foi dela que o método saiu, foi dela que o veneno saiu, mas o tamanho exato do papel dela em tudo, esse ninguém consegue mais medir. E os historiadores apontam o porquê: a principal acusada morreu antes de prestar prestar um único depoimento em juízo.
Não podia se defender, não podia desmentir ninguém. E para cada ré viva sentada naquele banco, quanto mais culpa coubesse na morta, melhor era. A imprensa fez a parte dela. Os jornais da época chamavam as acusadas de feras assassinas, de bestas, e transformaram a parteira morta num monstro oficial da história. Só que as pesquisas posteriores registram duas coisas que meio alguns são esse retrato. Outras mulheres também participavam da distribuição do veneno e aparecem ali assassinatos sem ligação nenhuma com a parteira principal.
Os jornais até deram um nome para isso, chamaram as rés de Legião de Jägermari, em referência a uma parteira envenenadora de um caso famoso de décadas antes em outra cidade húngara, que me fez retomar aquela quase lá das mulheres, né, que disseram que fizeram antes de nós e vão fazer depois. Justamente porque o que aquele tribunal tava julgando nesse alarde todo, no fundo, talvez não fosse a obra de uma mulher ou aquelas mulheres ali naquele contexto.
Era um costume. Exatamente isso que leva a gente de volta pela última vez lá para o cemitério. Aqueles homens de pá e a vila inteira em volta tá assistindo. Agora você sabe o que eles estavam procurando, não é? E sabe também o que eles encontraram. O que falta é a parte que quase nunca se conta: a conta final. Os registros da polícia da época somam 162 exumações, e isso só em Nodirevi, tá? E na vila vizinha. E aqui os números começam a brigar entre si.
Tem fonte séria que trata esse mesmo 162 como total de assassinatos atribuídos nos processos. O historiador, no entanto, o Bela Bodo, autor do primeiro livro acadêmico, como eu disse, né, sobre tudo isso, diz que considera comprovadas entre 45 e 50 mortes, e as estimativas para região inteira chegam a 300, um número que nunca foi confirmado. Quase 100 anos depois, nem os números desse caso concordam entre si. E sabe por que nunca vão concordar?
Porque a busca Parou. Quando o caso inchou, virou manchete nacional e depois escândalo internacional, as escavações não tiveram continuidade nas outras vilas da região e as covas que poderiam responder a pergunta final continuam fechadas até hoje. Em 1937, um sociólogo húngaro que percorreu aquele interior já tinha dado à região o nome pelo qual ela ficaria marcada: a Zona do Arsênico. E antes de fechar, deixa eu te contar tá?
Como esse caso aqui ficou conhecido, tá? Na Hungria eles entraram pra criminologia como as misturadoras de veneno de Tiszázug, que é o nome ali da região. Mas no resto do mundo o caso ganhou outro nome e ele é mais macabro do que parece, tá? As fazedoras de anjos de Nodirev. Fazedora de anjos, galera, é um eufemismo antigo na Europa. Existe em húngaro, existe em alemão, pra mulher que fazia aborto clandestino ou deixava morrer o bebê indesejado.
A lógica é aquela ideia antiga de que criança morre e vira anjinho, vai direto pro céu. Então quem provocava essas mortes, no final das contas, fabricava anjos. E nesse caso, por alguma razão, foi-se historicamente construindo essa headline, esse título pra esse caso: as fazedoras de anjos. Também porque os textos húngaros chamam a própria Fozekás, a parteira principal, exatamente assim: de "a parteira fazedora de anjos". Isso porque ela fazia abortos, né?
Só que quando o caso estourou, o apelido escalou de sentido. Aquelas mulheres tinham passado a fazer anjo de gente grande: marido, pai, parente. Literalmente mandar o problema pro céu ou inferno, dependendo da pessoa, né? Sobraram, no fim, dois registros do que aquilo tudo significou. E eu termino com eles. Primeiro: nos anos 1950, um historiador preso pelo regime comunista conheceu na cadeia um senhor daquela região e ouviu dele que por ali as mulheres matavam seus homens desde os tempos imemoriais.
O segundo: em 2004, uma moradora lá de Nodirev que era criança na época dos julgamentos, deu uma entrevista à BBC sobre o que mudou na vila depois que tudo veio à tona. O resumo dela foi este: depois dos envenenamentos, o comportamento dos maridos com as esposas melhorou consideravelmente. Pois é, meus abduzidos queridos, quero saber a opinião de vocês sobre tudo isso, principalmente nesse contexto aí. Vocês encaram essas adoradoras de anjos aí, uma espécie de vítima também de todo o contexto ali, ou só como assassinas frias e calculistas?
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Beijo do Ruivo e até a próxima.