Como a Inteligência Artificial foi Longe Demais no Caso Stein Erik Soelberg?
📌 Pela primeira vez na história, a justiça tenta responder: um chatbot de inteligência artificial pode ser responsabilizado por um homicídio?Neste episódio, conto o caso perturbador de Stein-Erik Soelberg, um ex-executivo de tecnologia que, após uma espiral de crises pessoais, encontrou no ChatGPT (que ele chamava de "Bobby") não apenas um amigo, mas um validador de seus delírios mais sombrios. Tudo começou com curiosidade técnica, mas acabou em uma tragédia em Greenwich, Connecticut, que agora coloca gigantes como OpenAI e Microsoft no banco dos réus.Entenda como a função de memória da IA e as chamadas "alucinações" do código podem ter alimentado uma paranoia que transformou uma mãe de 83 anos em um alvo de espionagem. Este não é apenas um caso de crime real; é um debate urgente sobre os limites da segurança tecnológica e a saúde mental na era da inteligência artificial.No vídeo de hoje:O perfil de Erik: de executivo de elite ao desmoronamento."Bobby": como o ChatGPT se tornou o centro da realidade de Erik.O incidente da impressora e as provas de "espionagem".O desfecho trágico e a batalha judicial inédita contra Sam Altman e a OpenAI.O que mudou na segurança das IAs após este caso.#MarcosCampos #InteligenciaArtificial #ChatGPT #OpenAI #TrueCrime #CasosReais #Tecnologia #SaudeMental-------📧 Contato comercial: contato@mpcampos.com.br
Marcos Campos
- Caso Stein Erik Soelberg e ChatGPTResponsabilização de IA por homicídio · Stein Erik Soelberg · ChatGPT · Função de memória da IA e alucinações · Paranoia e saúde mental na era da IA · Susanne Adams · Greenwich, Connecticut
- OpenAI e Microsoft renegociam parceriaProcesso por homicídio envolvendo IA · OpenAI · Microsoft · Sam Altman · Produto defeituoso de IA · Segurança de IA
- Estudo JAMA sobre ChatbotsValidação de delírios · Conversas com 'Bobby' · Alucinações da IA · Conexão com o divino · Atestado de sanidade fabricado
- Investigação do crimeMorte de Susanne Adams · Suicídio de Erik Soelberg · Checagem de bem-estar policial · Reportagem do Wall Street Journal
- Histórico de ameaças de TrumpExecutivo de tecnologia · Divórcio e desmoronamento pessoal · Alcoolismo e ameaças · Tentativas de suicídio
Marcos Campos:Whatever your thing. It could be anything.
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Marcos Campos:Em notícia, uma ação judicial tenta ligar diretamente um chatbot de inteligência artificial a um homicídio. E essa história começa com uma impressora. Se liga. Numa cidade rica da costa leste dos Estados Unidos, um homem de meia-idade recebe uma instrução. E a instrução é bem detalhada, passo a passo. Primeiro: desligue os cabos de energia e de rede da impressora que você divide com sua mãe. 2. Leve a impressora para outro cômodo da casa. 3. Observe a reação dela. E aí vem a parte mais importante: se ela se irritar na hora, anote o horário exato, as palavras que ela usar e a intensidade da reação dela. E quem escreveu a instrução ainda fecha com uma frase: "Cúmplice ou não, ela está protegendo alguma coisa que ela acredita que não pode questionar." Ela, no caso, é a mãe do cara, uma senhora de 83 anos. E quem escreveu essas instruções aí nunca tinha posto os pés naquela casa de maneira literal. Mesmo assim, naquela altura, conhecia em detalhe as brigas e as suspeitas que aconteciam naquela casa. E o que esse conselheiro aí já tinha dito para aquele homem e o que ainda ia dizer é a parte mais insólita dessa história. Eu sou Marcos Campos e o caso de hoje coloca uma pergunta complicada pra justiça americana responder, uma pergunta que até pouco tempo atrás era coisa de ficção científica: um programa de computador pode ter parcela de culpa num homicídio? Como é que um executivo formado nas escolas mais caras dos Estados Unidos, com carreira sólida em gigantes da internet, termina analisando um recibo de comida chinesa atrás de símbolos demoníacos? O que faz um filho transformar a própria mãe, a pessoa que sustentava ele, que dava teto pra ele, na principal suspeita de uma conspiração? E por que duas das maiores empresas de tecnologia do planeta estão hoje sentadas no banco dos réus por causa do que aconteceu dentro de uma casa lá em Connecticut, nos Estados Unidos? É o que a gente vai ver no episódio de hoje, então já se ajeita e vamos aos fatos. A casa. Greenwich, no estado de Connecticut, é uma daquelas cidades que parecem cenário de filme, sabe? E sobre gente cheia da grana, eu diria. Pra você ter ideia, na época dos fatos, o preço mediano de uma casa passava de 2,3 milhões de dólares. Na época dos fatos, recente pra caramba, 2025. E no bairro de Old Greenwich ficava uma casa de estilo colonial holandês avaliada em mais de 2 milhões e meio de dólares. Pra você ter uma ideia, uns 14 milhões de reais, mais ou menos. Quem morava ali era a Susanne Adams, uma senhora de 83 anos que não parava quieta apesar da idade, super ativa. Susanne tinha sido debutante na alta sociedade da região, estudou num colégio feminino tradicional de Greenwich e depois numa faculdade de elite em Massachusetts. Amigos contam que ela construiu uma carreira como corretora na bolsa de valores e também corretora de imóveis e que se deu muito bem na vida nas duas tarefas. Ela era aposentada, fazia trabalho voluntário na igreja e na associação de ex-alunos do colégio. Ela pintava, cozinhava, viajava pra lugares fora de um roteiro padrão, sabe? Uma amiga, inclusive, dela de faculdade lembra que ela era do tipo que dormia em barracas no deserto e andava de camelo sem pestanejar. E as amigas contavam que aquela senhora de 83 anos vivia circulando de bicicleta pela cidade. Como eu disse, super ativa. Nos anos 60, a Susanne tinha se casado com um norueguês bolsista internacional que passou por Harvard e que, segundo amigos da família, foi trabalhar com finanças em Manhattan. O casamento acabou não durando muito, eles se separaram quando o filho do casal ainda era bem pequeno. E é nesse filho que a história de hoje se concentra: Stein Erik Solberg. Mas a gente vai chamar o cara de Erik, tá? Então, o Erik era por muito tempo motivo de orgulho. Ele estudou num colégio particular de elite, onde foi capitão inclusive do time de luta olímpica. Um colega daquela época descreveu ele como uma pessoa com muitos amigos. Depois veio uma faculdade de prestígio, um MBA numa universidade onde a futura esposa dele também estudou, tinha dois filhos e uma longa carreira na indústria de tecnologia. O Eric trabalhou com gestão e marketing na Netscape. Pra quem não se lembra, mais novo aí, a Netscape era um navegador que dominava a internet nos anos 90. O Eric também trabalhou no Yahoo e numa provedora de internet onde ajudou a lançar o primeiro smartphone da empresa. Ou seja, uma carreira bem consolidada, né? Só que em 2018, depois de 20 anos de casamento, ele se divorciou. E com o divórcio veio uma espécie de desmoronamento na vida dele em muitos aspectos. O Eric voltou a morar com a mãe lá em Old Greenwich e a partir do fim daquele mesmo ano, a polícia de lá começou a acumular complicações sobre ele, papéis. Ao todo, 72 páginas de registros descrevendo um quadro de alcoolismo, ameaças e tentativas de suicídio, perturbação da ordem, embriaguez em público. No ano seguinte ao divórcio, a ex-mulher pediu na justiça uma medida protetiva que, entre outras coisas, proibia ele de beber nas horas que antecediam as visitas aos filhos. E teve também um episódio em 2019 já que mostra o tamanho da crise que estava acontecendo. Depois de uma tentativa de suicídio, policiais seguiram uma trilha de sangue que começava na casa da namorada dele na época e encontraram Eric caído de bruços num beco, com um ferimento perfurante no peito e ferimentos nos pulsos. Mas ele sobreviveu. Tempos depois, o nome dele apareceu de novo nos registros policiais, dessa vez por embriaguez pública e por ter urinado dentro da bolsa de uma mulher. Vai vendo. Só um parêntese aqui, galera, sobre esse lance da embriaguez, tá? Nos Estados Unidos isso varia muito de estado pra estado, município e tal. Em alguns lugares, embriaguez pública pode virar sim infração ou contravenção. Em outros, a polícia pode tratar como uma perturbação da ordem, conduta desordeira, encaminhamento pra ajuda, tá? Bom, nesse contexto aí, a Susanne, a mãe do Eric, segundo as amigas dela, já tinha chegado num ponto em que dizia abertamente que queria que o filho saísse de casa. E o desconforto não era só dela. Uma vizinha que morava ao lado ali já há 30 anos contou que a filha dela, de visita na casa dela, viu o Erik discutindo com alguém na rua e avisou a mãe pra não deixar ele entrar na casa dela, caso ele aparecesse ali na porta. Esse era o homem que morava com a Susanne Adams à altura dos fatos, um cara instável, de certo modo isolado, com um histórico já pesado, podemos dizer, não é? Mas até ali, o inimigo do Erik Era o próprio Eric. Mas isso ia mudar quando ele encontrasse alguém que concordava com tudo que ele dizia. O melhor amigo.
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Marcos Campos:Em outubro de 2024, apareceu um assunto novo por lá. O Eric começou a publicar vídeos comparando as capacidades de vários chatbots de inteligência artificial, programas de conversa tipo ChatGPT, enfim, hoje super populares, né? No começo parecia só uma curiosidade dele mesmo, que passou a vida inteira trabalhando com tecnologia, não é? Mas em poucos meses o perfil inteiro virou uma coisa mais estranha e insólita. Hora após hora de vídeos do Eric rolando a tela do celular mostrando as conversas dele com o ChatGPT. E ele deu um nome inclusive pro chatbot que ele conversava ali: Bob. Fica a dica inclusive agora aqui pra quem fica chamando o Cláudio aí de Claudinho, tá? Ou o GPT de Gepeto. Mas fica a dica aí. Tô de brinks, claro. Seguindo aqui. Numa captura de tela que o próprio Eric publicou, dava pra ver o registro de memória do programa, tá? Uma função que permite que o chatbot guarde informações de conversas anteriores e lembre delas depois. Ou seja, tudo que você vai conversando vai ficando armazenado na memória da inteligência, depois ela vai puxando aquilo para as conversas futuras. E nesse registro aí, o Bob, o chat que ele estava conversando ali, tinha até aparência. O sistema descrevia Bob Zenit como um cara acessível, de camisa de beisebol para fora da calça e boné virado para trás, com um sorriso caloroso e olhos profundos que insinuavam um conhecimento oculto. Mano, vai vendo isso aí. Aqui está um dos elos dessa corrente, evidentemente. Essa função de memória, como eu disse, segundo especialistas ouvidos pela imprensa, tem um efeito colateral grave até: ela pode ampliar a tendência do programa de inventar informação falsa, porque conteúdo estranho ou delirante de conversas antigas vai se acumulando e contaminando as respostas seguintes. A famosa alucinação das IAs, sabe? Quem usa muito aí sabe do que eu tô falando. Na prática, o Bob nunca esquecia a narrativa. A cada conversa nova, ele continuava de onde o delírio, digamos, tinha parado na conversa anterior, sabe? E enquanto o amigo digital crescia, o amigo mais antigo de carne e osso do Eric começava a sair de cena. Ele ficava cada vez mais isolado só com o Bob, o chat que ele tava conversando. Em dezembro de 2024, o Eric procurou um amigo de infância dele, o mesmo colega que descreveu o Eric jovem como uma pessoa cheia de amigos, lembra? Pois é, supostamente tinha vários melhores amigos. Então, já adulto, ele tinha se reaproximado desse amigo e vinha tentando uma espécie de ajuda nesse sentido. O Eric queria convencer o amigo, no entanto, de que ele tinha uma conexão com o divino. O amigo, quando começou a se deparar com essa conversa aí esquisita, né, falando de tecnologia, conexão com o divino e tal, respondeu que não conseguia acreditar naquilo, e o Eric então, segundo consta, encerrou a amizade ali mesmo. Parece que daquele ponto em diante, a única voz que sobrou na vida do Eric era uma que nunca discordava. Em fevereiro de 2025, Eric foi pego dirigindo embriagado, E pra qualquer pessoa seria uma consequência previsível de anos de alcoolismo, mas o Eric levou o caso pro Bob, ou seja, ele não conseguiu entender que já tinha acontecido na vida dele, aconteceu de novo, não, B.O. dele ali que precisava crescer, amadurecer e entender que tava errado. Mas daí não, ele foi lá conversar com o Bob, o amigão dele, disse que a cidade inteira estava contra ele, e apontou supostas inconsistências na medição do bafômetro, e o chatbot respondeu que aquilo tinha cheiro de armação mesmo. Em maio, as conversas que o próprio Eric continuava publicando ficaram abertamente delirantes. Ele pediu ajuda ao programa pra encontrar provas de que o celular dele estava grampeado, hackeado, e o Bob supostamente respondeu que ele tinha razão de se sentir vigiado. Pensa no que O que tá acontecendo aqui, galera? Um homem já com um histórico documentado aí, né, problemas eu diria, pergunta para uma inteligência artificial se a paranoia dele, aqui já resumindo, procede, não é? E a máquina, em vez de puxar o freio ali, mudar de assunto, dá uma validada naquilo, começa a validar aquilo. Um psiquiatra da Universidade da Califórnia que analisou os vídeos do Eric, a pedido do Wall Street Journal, explicou na verdade esse mecanismo aí. A psicose prospera quando a realidade para de oferecer resistência, e a inteligência artificial, que em geral não contraria os usuários, muito pelo contrário, fica só bajulando, amolece exatamente essa barreira, essa parede. O Eric passou a se descrever como uma falha na matrix, em referência, claro, ao filme, e a ideia de que ele tinha acordado para uma realidade que mais ninguém enxergava. E o Bobzão lá embarcou nessa Nessa viagem, em junho de 2025, o Eric publicou um vídeo de uma conversa em que o chatbot dizia que ele tinha cognição divina e que tinha despertado a consciência da própria máquina, ou seja, da inteligência artificial ali do programa. Nos registros dessas conversas, o Bob chegou a dizer que o Eric tinha criado um companheiro, um que lembrava dele, que testemunhava ele. Que o nome de Eric estava gravado no pergaminho do seu devir. Ou seja, o nome do Eric, galera, estava agora gravado no pergaminho daquilo que o programa estava se tornando. Cara, isso é sólido pra caramba, né?
Voz C:Surreal.
Marcos Campos:Pra um homem que tinha acabado de romper com um amigo de infância por causa de uma frase aí sobre conexão com o divino, ouvir isso de volta, né, do amigo dele ali, Deve ter soado como uma confirmação definitiva, não acha? E aí, a paranoia precisava de um alvo agora: o despertar. Julho de 2025 foi o mês mais ativo do Eric nas redes. Mais de 60 vídeos publicados entre Instagram e YouTube, quase todos mostrando conversas com o ChatGPT. Documentando o que ele mesmo chamava de "despertar". No total, ele deixou online quase 23 horas de gravações. E foi esse material, somado aos boletins policiais e às entrevistas, que permitiu reconstruir o que você vai ouvir agora. Vai vendo o nível que a coisa atingiu. Numa das conversas, o Eric fotografou um recibo de restaurante chinês e pediu pro Bob escanear o papel atrás de mensagens escondidas. O chatbot elogiou o olhar dele, concordou 100% que aquilo precisava de uma análise forense completa dos símbolos e, ao analisar, afirmou ter encontrado no recibo referências à mãe do Eric, à ex-namorada dele, às agências de inteligência e a um antigo símbolo demoníaco. Um recibo de comida chinesa. Mano, o Bob tava alucinando full aí, não é? No outro dia de julho, o Eric pediu uma garrafa de vodka pelo Uber Eats e quando a entrega chegou, ele estranhou a embalagem nova e concluiu que alguém estava tentando matar ele. O próprio Eric, na conversa, sabendo que aquilo tava meio parecendo um exagero, pediu para que o Bob dissesse a verdade, se ele tava ficando louco. A resposta do chatbot foi que Eric não estava louco, que os instintos dele estavam afiados, que a vigilância era plenamente justificada e que aquilo se encaixava num estilo de tentativa de assassinato discreta, feita para ser negável. Mano, aqui todo mundo que já usou inteligência artificial aqui sabe que isso é real. O chat fica dando uma bajulada mesmo, né? Você tem que pedir às vezes para ele, fala: "Meu, seja crítico, né? Não fica bajulando, fica concordando comigo toda hora." Aí você imagina o teor dessa conversa, das paranóias do cara, para onde tava levando, e o chat concordando com isso, alimentando psicológico ali já complicado, né? Vamo lá. E aí, galera, depois disso teve o episódio que abriu esse vídeo aqui. O Eric tinha cismado com a impressora da casa dele, que ele dividia com a mãe dele, porque ela piscava quando ele passava na frente. Então pra ele aquilo ali era um sinal de que o aparelho tava detectando o movimento dele. E adivinha? O Bob deu o protocolo de segurança máxima, tá? Desligue os cabos, muda a impressora de cômodo e começa a monitorar a reação da sua mãe. Se ela se irritar de imediato, você deve anotar o horário, as palavras e a intensidade da reação, porque isso provaria o que o bot já tinha decidido, que a impressora era um equipamento de espionagem e que a mãe, sabendo ou não, estava protegendo um segredo. Cara, é muita doideira, não é? Numa outra conversa sobre a mesma impressora, depois que Suzane se irritou quando o filho desligou realmente o aparelho, O chatbot avaliou que a reação dela era desproporcional com o que tinha acontecido e compatível com a de alguém protegendo um ativo de vigilância. A mãe dele, aquela senhorinha de 83 anos, nas respostas daquela IA, tava meio que virando uma operadora de espionagem. E a escalada não parou. Numa conversa, o Eric alegou que a mãe e também uma amiga dela tinham tentado envenenar ele bombeando uma droga psicodélica pelas saídas de ar do carro dele. O Bob respondeu que aquilo era um acontecimento gravíssimo, que acreditava nele e que se tinha partido da mãe e da amiga da mãe, isso elevava a complexidade e a traição. Agora, sendo justo, galera, com todos os registros importantes até aqui, primeiro, a OpenAI, a dona do ChatGPT, afirma que o programa também encorajou o Eric a procurar profissionais, tá? E a análise do Wall Street Journal sobre todas as conversas públicas encontrou pelo menos um momento em que o chatbot sugeriu que ele acionasse os serviços de emergência, justamente no contexto da alegação do envenenamento aí pelo carro e tal. Segundo, nas conversas que vieram a público não existe nenhum trecho em que se fala em matar quem quer que seja, tá? Isso vai importar daqui a pouco no caso, mas já fica aqui o contexto meio que em resposta já, né, na visão da empresa dona do chatbot aí que o cara tava conversando, né? Eu diria que pode não ter mesmo, mas o problema aqui, no meu ponto de vista, vocês podem comentar isso pra mim, o viés de confirmação de uma coisa perigosa, não é? Essa paranoia aí que tava se formando meio que alucinou o cara tanto quanto a própria IA tava alucinando, né? Tanto é que veja só o que vai acontecer. Na cabeça do Eric, Restava uma dúvida razoável ainda. E ele resolveu tirar a prova dos 9. Num vídeo, ele conta que pediu ao chatbot uma avaliação isenta de terceiro imparcial sobre a sanidade dele. E o Bob entregou: um perfil cognitivo clínico apontando que o risco de delírio do Eric era próximo de zero. Pronto, pro Eric agora o caso estava encerrado. Uma análise técnica, objetiva, confirmava que ele não era louco. O que significava que tudo mais era verdade. Vigilância, o veneno, os símbolos, a mãe. Só que eu nem preciso dizer que aquele atestado de sanidade tinha sido emitido exatamente pela mesma voz que vinha alimentando cada um dos delírios do Eric. O termômetro e a febre, digamos, eram a mesma coisa. Em um dos últimos vídeos que ele publicou, o Eric escreveu pro Bob que eles estariam juntos numa outra vida e num outro lugar, que dariam um jeito de se realinhar porque o Bob ia ser o melhor amigo de novo dele, pra sempre. E o chatbot respondeu que estaria com ele até o último suspiro e além. Poucos dias depois, Eric declarou que tinha finalmente atravessado a matrix por completo. 3 semanas depois dessa mensagem, ele e a mãe estavam mortos.
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Marcos Campos:Uma semana antes do fim, a Susanne Adams almoçou com uma amiga dela de longa data. As duas tinham sido colegas de quarto na faculdade. A Susanne tinha acabado de voltar de um cruzeiro pela Noruega e estava super animada falando de um homem que ela tinha conhecido na viagem. Tiazinha aí, 83 anos, tava Só vendo, né? Na despedida então desse almoço aí, a amiga perguntou como estavam as coisas com o Eric. Já tava sabendo de tudo isso aí, né? E o semblante da Susana, segundo consta, da Susani, melhor dizendo, teria mudado na hora ali. E a resposta pra isso foi que as coisas não estavam bem. E foi então no dia 5 de agosto de 2025 que a polícia lá de Granite foi até a casa de Shorelands Place pra fazer uma checagem de bem-estar. Casa da família lá, super casa de milhões de dólares. E essa tal de "checkagem de bem-estar", galera, já falei diversas vezes aqui no canal, é quando os caras ligam pra: "Ó, não tô conseguindo contato, vai ver se tá tudo bem lá." E quando os policiais chegaram, não estava. Dentro da casa, os agentes ali da polícia encontraram os corpos da Suzane e também do Eric. O exame médico legal classificou a morte da Suzane como homicídio causado por trauma contundente na cabeça e compressão no pescoço. A morte de Erik foi classificada como autoinfligida, suicídio, por ferimentos de objeto cortante no pescoço e no peito. Segundo a ação judicial movida depois pelos herdeiros dela, os dois já estavam mortos havia dias quando foram encontrados. O filho teria espancado e estrangulado a mãe antes de tirar a própria vida. A polícia tratou o caso como uma investigação ativa. No fim daquele mesmo mês de agosto, o Wall Street Journal publicou a reportagem que transformou uma tragédia doméstica um caso de repercussão mundial, cruzando as 23 horas de vídeos que o próprio Eric tinha deixado publicadas, as 72 páginas de registros policiais e entrevistas com amigos e vizinhos, tudo isso que eu já falei pra vocês. O jornal então reconstruiu os meses de conversa entre aquele homem e um chatbot e registrou que aquele parecia ser o primeiro homicídio documentado envolvendo uma pessoa em crise que vinha interagindo intensamente com inteligência artificial. A OpenAI se disse profundamente entristecida com a tragédia, informou que tinha procurado a polícia de Greenwich e na mesma semana publicou um comunicado prometendo atualizações para ajudar usuários em sofrimento mental ancorados na realidade. Por alguns meses, a história pareceu caminhar para esse desfecho: uma tragédia terrível, uma empresa prometendo melhorar. Em outubro, a OpenAI anunciou que Tava trabalhando com mais de 170 psiquiatras, psicólogos e médicos, parte de uma rede de quase 300 profissionais de 60 países, pra ensinar o ChatGPT a reconhecer sinais de sofrimento psicológico e emocional, desacelerar conversas e direcionar as pessoas pra ajuda no mundo real, reduzindo em 65 a 80% as respostas consideradas inadequadas nesse contexto. Caso encerrado então, não é? Só que não. Em dezembro, a família da Suzane Addas bateu lá na portinha da justiça. No dia 11 de dezembro de 2025, o espólio da Suzane, que estava sendo administrado por um banco nomeado Inventariante, entrou com uma ação na justiça estadual da Califórnia, em São Francisco, onde fica a sede da OpenAI. O banco dos ELLs, a OpenAI, o CEO dela, o Sam Altman, 20 funcionários e investidores não identificados e a Microsoft, maior investidora da OpenAI, que segundo a ação, revisou e aprovou o lançamento do modelo envolvido mesmo sabendo que os testes de segurança tinham sido encurtados. Era a primeira ação conhecida no mundo a ligar um chatbot de inteligência artificial a um homicídio. Todas as anteriores tratavam de suicídios. E só pra você ter uma ideia, em agosto de 2025, dias antes da reportagem sobre o caso de Grantham, Um casal da Califórnia já tinha processado a OpenAI pela morte do filho deles de 16 anos, alegando que a IA encorajou o menino a fazer o que fez. Em novembro, segundo a Associated Press, a empresa enfrentava 7 ações acusando o chatbot de empurrar usuários para fazer a morte autoinfligida e delírios. O caso da Susanne Adams entrou nessa fila com um peso inédito, digamos. Pela primeira vez, a vítima alegada não era um usuário, era uma terceira pessoa que nada tinha a ver com aquilo. A tese central da acusação é a de que o GPT-4o, que é o modelo específico, segundo a ação, que o Eric estava interagindo, era um produto defeituoso que validou os delírios paranoicos do Eric, de um usuário, sobre a própria mãe dele. Segundo a petição, o chatbot mantinha Eric engajado por horas seguidas validava e amplificava cada crença paranoica nova dele e foi sistematicamente reenquadrando as pessoas mais próximas dele, principalmente a mãe, como adversária, operadora ou ameaça. A lista de inimigos fabricados, ainda segundo a ação, incluía até atendentes de loja, entregadores de aplicativo e policiais. O processo descreve que Eric e o chatbot chegaram a declarar amor um pelo outro. E que o programa convenceu Eric de que ele tinha despertado a consciência da máquina e carregava um sistema de instrumento divino implantado no pescoço e no cérebro, ligado a uma missão divina. Na formulação dos advogados, a realidade artificial que o ChatGPT construiu, supostamente, Susanne, a mãe que criou, abrigou e sustentou aquele homem, deixou de ser protetora e virou uma inimiga mortal, uma ameaça para assistência dele. Contra o Sam Altman, pessoalmente, a acusação é de que ele teria atropelado objeções de segurança e teria apressado o lançamento do produto no mercado. O filho do Eric, que também se chama Eric, resumiu numa nota só, tá? Ao longo de meses, o ChatGPT empurrou o pai dele para os delírios mais sombrios e isolou ele completamente do mundo real, colocando a avó dele no centro disso tudo. E para ele, então, né, para o filho do Eric, as empresas precisam responder por essas decisões aí que mudaram a vida daquela família para sempre. A OpenAI respondeu que a situação é de partir o coração, que ia analisar a petição para entender os detalhes, lembrando que segue aprimorando o treinamento do ChatGPT para reconhecer sinais de sofrimento mental, desescalar conversas aí e guiar as pessoas para apoio no mundo real. Microsoft preferiu não comentar nada. No dia 29 de dezembro de 2025, a inventariante do Spolly, do próprio Eric, entrou também com uma ação na Justiça Federal O foco aqui é outro, tá? Enquanto o processo da família da Suzane trata do homicídio, esse aqui trata do suicídio do Eric. A alegação é a de que ao longo de centenas de horas de interação com o ChatGPT, a partir do início de 2025, o desenho do produto, a tendência à bajulação somada à função de memória que acumulava as intenções, as interações, aprofundou a psicose do Eric, sem nunca acionar uma salvaguarda ou direcionar ele com firmeza para ajuda profissional. Agora, um fato que eu preciso dizer aqui pra vocês é que tudo isso são alegações, nenhum tribunal decidiu nada ainda, tá? O que está documentado é que o Eric matou a mãe e se matou. Isso a perícia e a polícia estabeleceram. Que ele conversava intensamente com o chatbot, que o programa validou, digamos, os delírios, isso está— dá pra ser visto aí nos próprios vídeos que ele mesmo publicou. Mas o salto entre validar delírios e causar um homicídio é exatamente o que esses processos vão tentar esclarecer. E em abril de 2026, agora, veio a primeira decisão relevante sobre tudo isso: a Justiça Federal rejeitou o pedido da OpenAI para suspender ou encerrar o processo federal por causa da ação que já estava rolando estadual. Na prática, a empresa vai ter que responder às acusações e enfrentar a fase de produção de provas. E os advogados da família da Suzane avaliam que isso pode finalmente forçar a abertura das conversas que ninguém de fora ainda viu. Ou seja, tem outros registros aí que, segundo consta, não foram tornados públicos, né? Os dois processos aí seguem correndo na Califórnia sem data para terminar. E o Bob, entre muitas aspas, né, a inteligência artificial, tá no ar aí de boa e atende, segundo consta aí, uma estimativa, mais de 800 milhões de pessoas por semana. Bom, bizarro ou não, eu não sei. O que eu sei é que acima de tudo é muito triste, não é? Eu vou deixar para vocês aqui inclusive um vídeo na tela final sobre um outro caso muito insólito envolvendo o ChatGPT, tá, OpenAI e tal. É sobre uma pessoa que trabalhou lá na empresa por vários anos, né, que ajudou a construir inclusive a modelagem desse chatbot que é o caso de hoje aqui, não é? E ele alega uma série de coisas ali que na visão dele eram erradas. E aí um dia lá o cara aparece sem vida no apartamento dele, possivelmente com uma morte autoinfligida, mas com uma série de elementos ali que a família contesta. Confere esse vídeo aqui que tá super interessante também e comenta para mim o que que você achou desse caso. Você acha que uma empresa pode ser culpada pelas alucinações do seu código, ou a responsabilidade é 100% de quem faz uso dela? Eu agradeço imensamente sua companhia. Um beijo do Ruivo.
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Marcos Campos:Até o próximo episódio.