O CASO FRITZL FRANCÊS: O PESADELO DE LYDIA GOUARDO
📌 Por quase três décadas, Lydia Gouardo viveu uma realidade inacreditável dentro da própria casa. O que mais assusta nesse caso não é apenas a conduta do agressor, mas o silêncio de uma cidade inteira. Vizinhos, médicos e autoridades sabiam dos fatos, mas ninguém agiu.Neste vídeo, exploramos os detalhes do caso Gouardo, as falhas das instituições francesas e a investigação que tentou ligar Raymond Gouardo a outros crimes não resolvidos de 1987. Como isso foi possível?"📌 Se inscreva no canal para mais análises de True Crime e casos reais que desafiam a compreensão humana.-------📧 Contato comercial: contato@mpcampos.com.br
Marcos Campos
- Caso Sérgio CabralAbusos sexuais e incesto · Silêncio institucional e da comunidade · Falhas na proteção de vítimas · Nascimento de 6 filhos do agressor · Pensão de invalidez em nome do agressor · Lucienne Huppard · Raymond Gouardo · Lydia Gouardo
- Assassinatos em Série em Paris (1987)Desaparecimento e morte de Virginie Delmas · Desaparecimento e morte de Emma Gridari · Desaparecimento e morte de Perrine Vigneron · Desaparecimento e morte de Sabine Dumont · Investigação fragmentada e arquivamento de casos · Hipótese de assassino em série pedófilo · François Verové (Le Grilet) · Robert Black
- A Investigação Pós-Morte de Raymond GouardoExumação do corpo de Raymond Gouardo · Comparação de DNA com Sabine Dumont · Investigação das lajes de concreto na fazenda · Conexão com os casos de desaparecimento de 1987
- Marc Dutroux e o caso na BélgicaSequestro e abuso da própria filha por 24 anos · Geração de 7 filhos com a vítima · Josef Fritzl
- O Livro "Um Incesto Comum"Estudo acadêmico sobre o caso Gouardo · Análise do silêncio da comunidade · Leonor Lecan
Voz A:Where is Daredevil? I'm right here. Don't miss the return of Marvel Television's Daredevil: Born Again. So what's next? I feel liberated. We're going to take this city back. Overmedicated. In an all-new season, now streaming only on Disney+. They're hunting us. It's time we started hunting them. I can work with that. This should be tons of fun. Marvel Television's Daredevil: Born Again, now streaming only on Disney+. Um dos casos mais terríveis e absurdos de que se tem notícias. O que eu vou contar aqui provavelmente vai chocar você, então fica o aviso de conteúdo sensível. Uma mulher estava deitada numa cama de hospital, numa maternidade de uma cidade no leste de Paris. Ela tinha acabado de dar à luz a um menino e estava ali fazendo o que toda mãe faz nas primeiras horas, respirando, processando o que tinha acabado de acontecer. Aquele bebê agora estava ali nos braços dela. Uma enfermeira chegou com uma prancheta na mão E fez umas anotações e perguntou o que sempre pergunta para todas as mães: "Quem é o pai daquele bebê?" A mulher estava na cama, olhou para a enfermeira, respondeu baixinho, sem desviar o olhar, disse uma frase curta, a enfermeira então parou um segundo, pediu para repetir e a mulher repetiu. E aí a enfermeira anotou mais alguma coisa na prancheta, agradeceu com um aceno, virou as costas e foi seguir o expediente. Essa mesma mulher voltou para maternidades parecidas ali na região mais 5 vezes nos 14 anos seguintes. 5 partos, 5 vezes a mesma pergunta e sempre a mesma resposta. E em nenhuma dessas vezes a história saiu daquela sala de parto. A frase que ela falou e o motivo pelo qual ninguém fez nada com ela são o que torna esse um dos piores casos de silêncio institucional do true crime europeu. Eu sou Marcos Campos e hoje a gente entra num caso da França que durou 28 anos, como uma família inteira viveu 3 décadas assim dentro do mesmo vilarejo, com 6 crianças nascendo, de uma situação que os vizinhos comentavam entre si sem que ninguém, polícia, médico, professor, prefeito, assistente social, ninguém tomasse uma única atitude. Porque cada vez que a vítima fugia, ela era devolvida pelas autoridades para dentro da casa que tinha denunciado? E o que conecta esse caso a 4 meninas que sumiram, todas no mesmo verão em 1987, em cidades a poucos quilômetros umas das outras? São essas perguntas que a gente vai responder juntos no episódio de hoje. Então já se ajeita, presta atenção nos detalhes e vamos aos fatos. Antes de eu apresentar para vocês a mulher daquela maternidade, eu preciso te tirar sair daqui por 2 minutos e te levar para outro lugar do mapa francês, um lugar que parece à primeira vista não ter nada a ver com a história que eu acabei de contar, de dar detalhes. Era maio de 1987, no subúrbio do leste de Paris, uma menina de 10 anos desceu do elevador do prédio dela para brincar com as amigas ali no pátio. O nome dela era Virginie Delmas. Aquele era um dia comum, tinha muita gente na rua, sol, criança correndo para lá e para cá. A Virginie sumiu sem que ninguém visse claramente o momento em que ela foi levada. O corpo dela só ia aparecer 5 meses depois, em outubro, num pomar de uma cidade vizinha. 21 dias depois do sumiço da Virginie, em Malakoff, outra cidade ali nos arredores de Paris, uma menina de 10 anos chamada Emma Gridari pediu pra mãe pra descer pra comprar um esquadro na papelaria do bairro. Ela foi vista uma vez no centro comercial perto de casa. Segundo testemunhas da época, Ela estava acompanhada por um homem atarracado de cabelo loiro curto que usava luvas. Menos de 2 horas depois, o corpo dela apareceu em chamas no estacionamento de um prédio em Châtillon, local que ficava praticamente ali do lado, na divisa com Malakoff. 3 dias depois da morte da Emma, numa cidadezinha rural chamada Bouler, uma menina de 7 anos chamada Perrine Vigneron saiu sozinha de casa para ir até a aula de cerâmica. Chovia muito naquele dia, a aula ficava a poucas centenas de metros. A Perrine não chegou. 24 dias depois encontraram ela estrangulada num campo de cousa na periferia de Chelles, uns quilômetros dali. E no dia 27 de junho do mesmo ano, ao sul de Paris, uma menina loira de 8 anos chamada Sabine Dumont saiu de casa para comprar um tubo de gouache para terminar um desenho que ela estava fazendo para a irmã mais velha. E o destino era uns 700 metros, ali perto da casa dela. O corpo foi achado no dia seguinte numa cidade vizinha. Anos depois, em 1999, uma análise nos vestígios preservados, especificamente na camiseta que ela usava no dia em que foi morta, revelou um DNA masculino completo. E esse perfil genético ia virar a principal esperança do caso. 4 meninas, 4 localidades, Menos de 2 meses. A hipótese de um assassino em série pedófilo agindo ali na região de Paris começou a ganhar força, mas as investigações caminharam por muito tempo de forma fragmentada. Apesar das semelhanças, os casos não foram tratados, desde o início, como uma única série. Havia juízes diferentes, serviços de investigação diferentes e pistas que acabavam se perdendo pelo caminho. Em 1990, Eles olharam pra Gérard Le Bourg, que depois seria condenado por um caso parecido em outro lugar, mas ele não tava na região nos meses certos. Em 1995, já tentaram com o serial killer britânico Robert Black, que tinha uma propriedade lá na França, em Dordogne, no sudeste da França especificamente, mas também não deu em nada. Em 1997, o caso da Virginie Dalmas foi oficialmente arquivado, sem nenhum culpado. Naquela altura, quem matou aquelas garotas parecia ter desaparecido sem deixar nenhum rastro. Décadas depois, a investigação ainda ia explorar uma outra hipótese, a do homem que ficou conhecido lá na França pelo apelido de Le Grilet, identificado em 2021 como François Verové. Era um policial francês que se matou quando o cerco da polícia se fechou em cima dele. Essa pista foi estudada em particular nos casos da Virginie e também da Perrine, mas até hoje sem conclusão definitiva. E o caso do François inclusive já foi apresentado aqui no canal. No fim dos anos 70, começo dos 80, uma adolescente foi até uma delegacia de polícia no interior da França. Ela era magra, baixa, tinha uma cicatriz no pescoço que descia assim pra dentro da blusa. Ela chegou perto do balcão e falou baixinho pro policial que o pai batia nela. Ela queria ajuda. O policial escutou, anotou ali, pegou o casaco, pegou a chave do carro, colocou a menina no banco do passageiro e dirigiu até a casa do pai dela. Tocou a campainha, entregou de volta a menina pro pai e assim voltou pra delegacia. Essa cena aconteceu, com pequenas variações, várias vezes ao longo de 28 anos. A menina ia crescendo, virava jovem, virava adulta, as cicatrizes iam ficando maiores Os policiais iam mudando e o resultado era sempre o mesmo, ela voltava para a casa de onde tinha fugido. A explicação que apareceu nos relatos posteriores, pra essa, os policiais tinham medo do pai dela, ele era um homem violento conhecido na região e nenhum dos agentes locais queria entrar em conflito com aquele homem, então a estratégia era devolver a menina que ia lá reclamar do pai e tocar a vida. A própria menina descreveu de tudo isso. Anos depois, quando foi entrevistada, ela contou que quando criança achava que tudo aquilo era normal, que era a vida e existia daquela forma. Só fugia quando o pai batia muito forte. Essa menina se chamava Lydia Guardot. E para te explicar como essa situação foi possível, eu preciso voltar 17 anos antes dessa cena na delegacia, para a noite em que tudo isso. Mais pra frente, talvez todas essas micro histórias que eu te contei até aqui vão começar a fazer muito sentido. A Lydia nasceu em 13 de novembro de 1962 na cidade de Maisons-Alfort, nos arredores de Paris. E o jeito como ela veio ao mundo carrega um detalhe que ninguém ia entender direito por décadas. Em Em 1962, o pai dela, Raymond Guardot, tava preso, ele cumpria 5 anos por assalto à mão armada, mas mesmo preso, em algum momento do ano, ele recebeu uma carta da esposa, a Jacqueline, dizendo que ela tava grávida, o bebê na verdade não era dele, mas quando a Lydia nasceu, ele reconheceu legalmente a criança como filha dele, no papel então, ele era o pai. Quem era o verdadeiro pai biológico da Lydia? Bom, Eu te conto isso daqui a pouco. Por enquanto, segura essa informação bem simples: pra todo mundo do lado de fora daquela família, o Raymond era o pai, pra todo efeito legal, era quem tinha a guarda da criança. Jacqueline, a mãe, tava sozinha, com dois filhos mais velhos, o Bruno e a Nadia, e agora também uma recém-nascida. Em algum momento depois do nascimento da Lydia, ela abandonou os três filhos. Como o Raymond ainda tava preso, o sistema social francês começou a mexer os pauzinhos. Os 3 irmãos então foram retirados e colocados numa família de acolhimento. A Lydia passou os 3 primeiros anos de vida ali. Os 3 irmãos chamavam a mulher que cuidava deles de "a babá" e foi nessa casa, com aquela mulher, que a Lydia teve pela primeira vez em décadas algo parecido com uma infância. E aí, em algum momento entre 1965 e 1967, Raymond saiu prisão. A primeira coisa que ele fez foi descobrir onde os filhos estavam para poder ir buscá-los. Mas ele não foi a um cartório, nem procurou um advogado, nem juiz, nada disso. Uma noite ele pegou uma espingarda de caça e foi até a casa da babá, bateu na porta, entrou, apontou a arma para aquela mulher que tinha cuidado dos 3 irmãos por 3 anos e disse do jeito que ele sabia dizer que ia levar as crianças: família ameaçada entregou, obviamente, as crianças. Afinal, não tinham muito o que fazer ali diante daquele homem armado. A Lydia tinha 3, talvez 4 anos. Ela foi colocada num carro com os irmãos e essa foi a última vez que ela viu uma casa onde um adulto cuidava de criança, um adulto deve cuidar de uma criança. O Raymond tinha uma companheira nova nessa altura dos fatos, uma mulher chamada Lucienne Huppard. Que ia se revelar, já adianto aqui pra vocês, um capeta encarnado. A Luciene era uma espécie de visitadora de presos, uma função de trabalho voluntário, e foi assim que ela se envolveu com Raymond ainda lá dentro da cadeia. Quando ele saiu, eles começaram então a conviver e a Luciene assumiu o papel de madrasta legal dos 3 irmãos. A família então foi morar num apartamento numa cidade chamada Beaumont, uns 50 km a leste de Paris. Cidade industrial, de certo modo movimentada. O Raymond e a Lucienne trabalhavam numa gráfica, imprimindo material em máquina de tipografia. Raymond ia virar, anos depois, impressor ambulante, sabe daqueles que viajam por toda a região com uma máquina dele ali, de porta em porta? E uma das primeiras decisões que o casal tomou na nova cidade foi que nenhum dos 3 filhos ia mais à escola. A partir desse momento, a vida das crianças foi se enterrando dentro daquele apartamento. Em 1971, já no mesmo apartamento, foi o ano em que o Raymond começou os abusos sexuais. Primeiro com a Nadia, a mais velha, depois com a Lydia, que tinha 8 anos. E quando a Lydia tentava se rebelar, o Raymond fazia ela respirar éter. E foi mais ou menos nessa altura, com Lydia ainda com 9 anos de idade, recém-iniciada num foi num pesadelo que ela mal entendia que aconteceu o episódio que ia marcar o corpo dela pelo resto da vida. Em 1972, a Luciene, o pai, olhou para Lídia e disse que era hora do banho. O que aconteceu dentro daquele banheiro, os depoimentos da própria Lídia no livro dela, nos relatórios policiais do processo que veio depois, é realmente chocante. Chocante. São descrições bem fortes, tá, galera? Até difícil de contar. Luciene tinha enchido a banheira com água fervente, no limite, escaldando mesmo. Luciene empurrou a Lídia para dentro. A criança gritou e em segundos desmaiou de dor até. E com a Lídia desacordada, Luciene pegou um galão de água sanitária e jogou dentro daquela água. Depois pegou uma escova com cerdas bem duras e começou a esfregar na pele Quando a Lydia voltou assim, num hospital, o corpo dela tinha queimaduras de terceiro grau do pescoço até os tornozelos, sem contar tanto que ela deve ter inalado dessa água sanitária. Sobreviveu praticamente por milagre. Ela ficou internada por 8 meses, fez aproximadamente 10 enxertos de pele. E aqui aconteceu uma coisa que sozinha talvez seja a maior denúncia institucional desse caso. Depois de 8 meses, o corpo da com a menina ainda em recuperação, Raymond chegou no hospital, falou com os médicos e tirou a filha à força de lá. Os médicos sabiam que ela tinha sido queimada, tinham tratado as queimaduras dela, não impediram a saída. A história das queimaduras teve um segundo capítulo administrativo que diz tudo sobre a lógica daquela família perversa e a falta de lógica de um Estado preguiçoso. As lesões eram tão graves que o Estado francês concedeu pensão de invalidez, mas a pensão saiu em nome de quem? Do Raymond, do próprio diabo como pai responsável. E pra garantir que ele recebesse a invalidez total e não parcial, ele obrigou a Lydia, mesmo depois de recuperada, a continuar usando cadeira de rodas em algumas avaliações. O dinheiro era dele, as queimaduras dela viraram a aposentadoria desse homem. E foi exatamente com esse dinheiro que ele comprou em 1975 uma fazenda velha num vilarejo do interior de Seine-et-Marne chamado Coulon, uma propriedade rural isolada com terreno em volta e quintal bem grande. Segundo consta, a família foi expulsa do apartamento lá em Meaux por causa de barulhos, gritos da Lydia. Dizem até que ninguém sabia ao certo o que era, achavam que era só barulho que tava incomodando, criança gritando. Foi nesse novo lar A fazenda, que praticamente tudo de relevante nessa história aconteceu nos 24 anos seguintes. Tudo de relevante entre muitas aspas, né? Já tinha acontecido praticamente um inferno na vida dessa menina e dos irmãos também, né? A partir de agora a gente consegue, por incrível que pareça, a gente não, né? Esse desgraçado aí consegue cavar mais um buraco para colocar um degrau na direção do inferno. A fazenda Era o reino do Reymond. A primeira coisa que ele fez ao se mudar pra lá foi furar as paredes dos quartos das filhas, buracos pra ele poder observar de fora. E o uso desses buracos não era só dele. Quando o Reymond estuprava a Nadia ou a Lydia, a Luciene, a mulher dele, ficava do outro lado da parede observando pelo olho mágico improvisado. E isso não é especulação, tá? É fato documentado nos depoimentos, no livro, na investigação. A Luciene via tudo, e quando ela escolhia entrar, era pra participar e não parar. Bizarro demais, né, galera? Pelo amor... O Bruno e a Nádia, os irmãos, conseguiram de alguma forma fugir desse pesadelo. O Bruno fugiu de casa aos 15 e a Nádia aos 18. As autoridades, pelo que se sabe, não tentaram trazer eles de volta, talvez porque já eram considerados grandes demais pra justificar uma operação policial. Mas a Lídia, se identificou. E o problema com a Lydia, do ponto de vista do Raymond, era que ela era a única que tinha registro legalmente como filha dele, a única "dele". E aqui, antes de eu contar o que aconteceu quando ela completou 18 anos, eu preciso voltar para uma pergunta que ficou aberta lá no começo do episódio: quem era biologicamente o pai da Lydia, não é? Porque a resposta a essa pergunta era uma coisa que os vizinhos do vilarejo, durante anos, Ficaram sussurrando entre si, sem saber direito o que pensar. Vai vendo, os habitantes de Colum, que conheciam a família, comentavam em particular que o Raymond e a Lydia tinham um ar de família meio estranho. Não pareciam pai e filha exatamente. Um dos vizinhos, um antigo agricultor chamado Robert Serran, anos depois, quando tudo foi exposto, ia contar para uma pesquisadora francesa que ele e os outros sempre suspeitaram de algo estranho ali. Eles conheciam a Jaqueline, a esposa do Raymond, conheciam também o Raymond, sabiam que ele tinha ficado preso e olhavam para Lídia e viam ali um ar de família, entre aspas, como eles diziam, só que diferente de uma relação ali de pai e filha. E a explicação que só veio à tona décadas depois com a investigação do caso era a seguinte: quando Jaqueline engravidou em 62, durante a pena do Raymond, o homem que engravidou ela Era o próprio pai do Raymond, ou seja, o sogro da Jacqueline. Lydia então biologicamente era filha do avô dela. Quando Raymond conheceu a Lydia como filha no nascimento, ele tava reconhecendo na prática uma irmã. Ou seja, a Lydia era uma espécie de meia-irmã do homem que ia torturar ela por décadas. Quando Lydia completou 18 anos, em novembro de 1980, O Raymond chegou na frente dela e disse uma frase só: disse que ela já tinha idade pra ter filhos e começou a engravidar a garota sistematicamente. Pra garantir que a gravidez vingasse, ele chegou a acorrentar a Lydia numa viga do sótão lá da fazenda dele durante vários dias seguidos. O primeiro filho nasceu em 82 e era um menino, a Lydia tinha 19 anos, os outros vieram com diferenças de poucos anos. Em 14 anos, entre 1982 e 1996, a Lydia teve 6 meninos, todos do Raymond. Em cada um dos 6 partos, ela foi pra uma maternidade de hospital público da região, foi internada, deu à luz e ficou ali até receber alta. Ela mesma diz hoje que teve sorte dos 6 terem nascido meninos, porque segundo ela, o "velho", como ela chamava o Raymond, tinha uma preferência conhecida por meninas pequenas. Se uma das crianças tivesse nascido menina, ela não tinha dúvida de qual seria o destino daquela menina. Agora eu pergunto: vocês lembram daquela cena lá no começo do vídeo? Uma mulher na cama, enfermeira com a prancheta perguntando as perguntas que elas fazem ali eventualmente, né? Quem é o pai? Era a Lydia. E aconteceu 6 vezes isso, tá? Além dessa primeira que eu narrei, mais 5 depois. Em cada um dos 6 partos, em algum momento das primeiras horas pós-nascimento, uma enfermeira e uma funcionária do Registro Civil, chegava perto da Lídia com uma prancheta e fazia sempre a mesma pergunta para preencher a certidão de nascimento: "Quem é o pai desse bebê?" A Lídia respondia sempre a mesma coisa, falava baixinho, mas não desviava o olhar. Ela dizia que o pai do bebê era o pai dela, só que parava por aí, ela não pedia ajuda. Para ela, naquele momento, aquilo era simplesmente a vida que ela tinha. Ela ainda nem entendia direito que aquilo era um que era um crime e que ela tava aprisionada, mano. E em nenhuma dessas 6 vezes, em nenhum dos hospitais, nenhuma enfermeira, nenhum funcionário, nenhum médico, nenhum administrador, ninguém pegou aquele formulário e levou para um chefe de polícia ou para um chefe ali do hospital mesmo para ele ligar para o serviço social, para polícia, etc. Os 6 bebês foram registrados como filhos do Raymond e da Lydia. A Lydia foi liberada para casa 6 vezes Isso só. Lydia fugia. Não sempre. Ela diz que só fugia quando Raymond batia forte demais nela. Como pra todos os efeitos legais ele era o pai dela, em algumas dessas fugas, ela ainda era menor de idade, o abrigo simplesmente a entregou. Em outras fugas, ela conseguia chegar à polícia. E aí a cena que eu descrevi lá no começo se repetia. Os caras levavam ela de volta. Só que numa dessas fugas, alguma coisa diferente aconteceu. Durante o pouco tempo que a Lydia ficou longe do Raymond, ela conheceu um homem e eles tiveram então de alguma forma ali um contato mais íntimo. A Lydia acabou engravidando, mas isso ela só ia descobrir semanas depois, quando o Raymond já tinha aparecido para buscar ela. E ela já tava de volta lá na fazenda, sem barriga aparente nenhuma ainda, tá? Quando a gravidez ficou óbvia, Ela teve o bebê dentro de casa como se fosse mais um filho do Raymond. O nome que ela deu pra criança foi Rudy, e aquela então seria a 7ª gravidez dela. O Raymond morreu acreditando que o Rudy era filho dele também. A Lydia até hoje guarda em segredo a identidade do verdadeiro pai desse menino. E a única outra pessoa do mundo de fora com quem Lydia tinha algum tipo de contato durante todo esse período era uma mulher chamada Marianne, a única amiga. Não tem muito detalhe disponível sobre essa amizade, tá? Mas a Marianne aparece em vários relatos da Lydia como a única pessoa em 28 anos, durante toda a trajetória, com quem ela podia trocar uma palavra de adulto pra adulto. E galera, são 28 anos, tá? De 1971, quando a Lydia tinha 8 anos e o Hamid começou a abusar dela, até 1999, quando ela ia fazer 37. Até que num dia comum, Em 20 de novembro de 1999, o Raymond Guardo morreu dentro da própria fazenda, aos 62 anos. Ele não tinha sido preso, investigado, nem acusado de nada. Morreu de velhice na cama dele. E aí, finalmente, a Lydia conseguiu abrir a porta daquela fazenda e sair. E esse abrir de portas é muito mais simbólico do que parece, né? Lydia mal sabia ler, não sabia escrever, tinha o corpo coberto de cicatrizes e a alma também. A história tinha acabado. O agressor estava morto, a vítima estava fora de casa e, pra qualquer narrativa convencional, esse era o ponto final. Mas... sempre tem um mas. Por que o caso da Lydia Aguardo, como o mundo conhece ele hoje, só começou de verdade depois que o Raymond já tinha... já tava, melhor dizendo, debaixo da terra? Tudo o que veio antes foi um sequestro privado dentro de um vilarejo. Tudo que veio depois é o que transformou aquilo num dos casos mais comentados da França. Em 2003, 4 anos depois da morte do pai, a Lydia conseguiu juntar coragem e provas suficientes pra fazer o que ninguém tinha feito por ela. Ela entrou na justiça. Como o Raymond estava morto, ele não podia mais ser julgado. Então o processo foi contra a única outra adulta que tinha vivido dentro dessa casa e sabia de tudo que acontecia lá, inclusive participava. A madrasta, a Luciene. As acusações foram duas: a primeira era omissão criminosa, por tudo que ela tinha presenciado e não fez nada durante décadas. A segunda era de agressão sexual, uma vez que ela olhava lá e queria participar também. Durante esse processo, a primeira instância correu lenta. No dia 13 de março de 2007, a Luciene foi condenada a 3 anos de prisão. Mas, com um instrumento da lei francesa que fez com que a pena fique suspensa, Ou seja, a condenação não era— existia a condenação, mas ela efetivamente não ia pra cadeia, né? Fica só ali o registro que ela foi condenada. Na prática, galera, ela saiu do tribunal, foi pra casa. E no mesmo dia 13 de março de 2007, um dos maiores jornais da França, o Le Parisien, publicou pela primeira vez essa história. O título da matéria era: "Condenada por ter negado os estupros da própria filha". Foi a primeira vez que o nome "Guardo" apareceu fora dos limites do vilarejo. 2 meses depois, em maio de 2007, outro grande jornal francês, o Libération, mandou também uma repórter pra Colombe, lá onde ficava a fazenda. Essa repórter passou alguns dias no vilarejo, conversou com a Lydia, conversou também com os vizinhos e publicou um perfil enorme da vítima. Foi esse texto que fez o caso ganhar uma dimensão nacional na imprensa francesa, mas o resto do mundo ainda não tinha ouvido falar. Aí, em 27 de abril de 2008, em outra parte da Europa, um caso quase idêntico estourou. Na Áustria, um homem chamado Josef Fritzl foi preso depois que se descobriu que ele tinha sequestrado a própria filha lá no porão da casa dele por 24 anos e tinha feito 7 filhos com ela. O mundo inteiro ficou chocado e em paralelo, 9 dias antes do estouro do caso austríaco, a Corte de Apelação de Paris elevou a pena da Luciene de 3 para 4 anos de prisão, mas mantendo a suspensão condenação. É uma burocracia bizarra. Ela seguiu sem ir presa. Luciene, com 68 anos de idade, foi a única pessoa em todo o caso Guardo que recebeu uma única condenação criminal. A Lydia recebeu 3.000 euros de indenização pelo filho abusado e 6.000 euros para ela mesma pelos 28 anos de tortura. Baita grana para uma vida inteira arregaçada, não é? Em maio de 2008, no embalo do mundial com o caso austríaco, a Lydia publicou o livro dela escrito com um jornalista francês veterano chamado Jean-Michel Karandec, e o título do livro em português é "O Silêncio dos Outros", e havia um subtítulo ali também: "Seu pai fez 6 filhos nela. Todo mundo sabia, ninguém fez nada." Como a Lydia mal sabia escrever, ela chamava o parceiro escritor dela carinhosamente de "meu pequeno E foi com esse livro aí que o caso Gouardot deixou de ser um caso francês e virou um caso mundial. E mais cedo, lá no começo do episódio, vocês lembram que eu contei sobre 4 meninas que sumiram? Ficou meio deslocado lá, acho que vocês até pensaram que eu tava ficando meio doidinho, né? Falei: "Não sei, contou 4 meninas sumiram, de repente começou a contar de um pai abusivo." Pois é, isso foi lá em 1987, em cidades próximas umas das outras na França, não é? Todas mortas. Todos os casos arquivados sem culpado. Lembra que eu te pedi pra guardar essa informação? Pois é. Em maio de 2009, alguém na polícia francesa releu uma frase enterrada nas últimas páginas do livro da Lydia. O livro que ela acabou de lançar. Esse livro que eu acabei de comentar com vocês. Ela tinha escrito lá uma suspeita. Tinha dito com as palavras dela que talvez o pai dela tivesse feito outras vítimas. Os investigadores começaram a cruzar os dados E o que apareceu nesse cruzamento foi inquietante. A fazenda do Raymond, lá no vilarejo de Kollum, ficava a 2 km de uma dessas cidades onde criança desapareceu. Exatamente onde a Perrine Vigneron tinha sumido a caminho da aula de cerâmica, lembra? Também ficava a uns 10 km só do pomar onde o corpo da Virginie tinha sido encontrado. O Raymond era impressora ambulante, lembra? Fazia rotas por toda aquela região. Tinha carro, trabalhava em horários irregulares. E aí, com tudo isso, o atual companheiro da Lydia, Sylvain Esquirlot, contou pros jornalistas uma coisa que pegou os investigadores... surpresa, talvez? Uma fisgadinha no fígado. Disse que Raymond tinha derramado várias lajes de concreto suspeitas no quintal da fazenda, lajes que ele mesmo tinha fechado por cima. Em maio de 2009, vários juízes de instrução franceses se reuniram pra trocar informações Lembra as 4 menininhas desses casos aí? A hipótese "guardo" era forte o suficiente para justificar a decisão que veio em seguida. No dia 11 de junho daquele ano, 10 anos depois da morte do Raymond, uma juíza ordenou a exumação do corpo dele. Os policiais foram ao cemitério onde ele estava enterrado, abriram o caixão, coletaram o material genético e mandaram para o laboratório para comparar com o DNA que tinha sido preservado na camiseta de uma das crianças. A Sabine Dumont. Em paralelo, a polícia quebrou as lajes de concreto da fazenda, vasculharam o poço, procuraram dentro das paredes, olharam em todo lugar onde pudesse haver um corpo de criança escondido. 3 semanas depois saiu o resultado da comparação com o DNA da Sabine. Negativo. O DNA da camiseta não era do Raymond. Ele provavelmente não tinha matado a Sabine Dumont, mas para as outras 3 meninas, Virgínie, Emma e Perrine, não havia DNA preservado para comparar. As provas tinham se perdido com o tempo. A justiça francesa não conseguiu confirmar nem descartar que ele tivesse matado as outras três. Assim, os 4 casos seguem oficialmente abertos. E 5 anos depois da exumação do Raymond, uma antropóloga francesa chamada Leonor Lecan decidiu transformar o caso Guarden em objeto de estudo acadêmico. Ela queria responder, do ponto de vista das ciências sociais, a pergunta que ficou pendurada nessa história inteira: como uma cidade inteira consegue saber e não fazer nada diante disso? Pra escrever esse estudo, ela passou um ano morando nos arredores de Kowloon, entrevistou vizinhos, comerciantes, funcionários da prefeitura, professores, aposentados, políticos locais. O livro saiu em 2014 com o título "Um incesto comum". No entanto, todo mundo não sabia. E o que ela documentou é o que fecha esse caso aqui de uma vez por todas. Não foi um caso de ocultação, foi um caso de comentário público. Os vizinhos sabiam, os comerciantes do bairro sabiam. E assim essa pesquisadora escreveu na conclusão do livro dela que o incesto da Lydia não foi uma anomalia secreta naquele vilarejo, foi um elemento quase ordinário da vida cotidiana de Colum. Uma coisa que entrava e saía das conversas, mas nunca se transformava numa única ação concreta. E a Lydia hoje vive num pequeno povoado nos arredores de Paris com os filhos, e construiu a vida dela com aquele homem chamado Sylvain, mesmo que tinha contado da história das lajes de concreto. Teve mais 2 filhos com ele, usa roupas compridas o ano inteiro pra esconder as cicatrizes que ainda cobrem o corpo dela do pescoço aos tornozelos, diz em entrevistas que prefere viver dia após dia, que quando uma conta de luz chega no correio dela, ela fica feliz, porque conta de luz significa que ela está viva. Tem algo que sintetiza esse caso surreal de absurdo, é o que tá no livro da Lydia: todo mundo sabia, mas ninguém disse nada. Pois é, abduzidos, que caso pesado, né? Denso, parece um roteiro de filme de terror daqueles que você vê as pessoas sabendo, olhando, e você fala: "Pô, ninguém vai fazer nada." Tipo aquele ditado escroto de que briga de marido e mulher ninguém mete a colher. Sei lá até que ponto quem vê e não faz nada não tem o sanguinho na mão. E por incrível que pareça, essa não é uma história isolada, tá? Vou trazer ainda brevemente aqui no canal mais uma história mais contemporânea que tem também elementos, inclusive os nomes foram preservados, tamanha bestialidade por trás de tudo. Que lembra também o caso do Fritzl, você fala assim: caramba, o negócio se repete e sempre os mesmos erros. Absurdo. Comenta aqui para mim o que você achou de tudo isso. Agradeço imensamente sua companhia. Um beijo do Ruivo, até o próximo episódio.