Episódios de Vamos aos Fatos

Matar por companhia: O perturbador "vazio" na mente de Dennis Nilsen

05 de junho de 202645min
0:00 / 45:17

📌 Como um servidor público exemplar e sindicalista respeitado pôde esconder doze corpos dentro do próprio apartamento por anos? Neste vídeo, exploramos a mente sombria de Dennis Nilsen, um dos serial killers mais prolíficos do Reino Unido, cujo reinado de terror foi descoberto da maneira mais improvável: por um encanador chamado para desentupir uma privada.Analisamos desde sua infância traumática na Escócia até o modo operandi bizarro de "matar por companhia". Por que a polícia ignorou as vítimas que escaparam? O que leva alguém a preferir a companhia de cadáveres à dos vivos? Acompanhe o passo a passo dessa investigação criminal que chocou Londres nos anos 80.-------📧 Contato comercial: contato@mpcampos.com.br

Participantes neste episódio1
M

Marcos Campos

HostJornalista
Assuntos8
  • Descoberta do CorpoO entupimento da privada · A investigação policial · A confissão de Nilsen · Dennis Nilsen
  • Primeiros assassinatos em Melrose AvenueMudança para Melrose Avenue · O primeiro assassinato: Stephen Dean Holmes · Tentativa de estrangulamento de Andrew Ho · Assassinato de Kenneth O'Kane · Assassinato de Martin Duffy · Assassinato de Billy Sutherland · Assassinato de Malcolm Barlow · Métodos de descarte de corpos
  • Assassinatos em Cranley GardensMudança para Cranley Gardens · Assassinato de John Rowlett · Assassinato de Graham Allen · Assassinato de Stephen Sinclair · Método de descarte de corpos na banheira · O entupimento da privada
  • Julgamento e CondenaçãoAcusações e estratégia da defesa · Divergência entre psiquiatras · Veredito do júri · Sentença de prisão perpétua · Brian Masters
  • Trauma InfantilNascimento e família · A morte do avô Andrew White · Impacto da morte do avô · Andrew White
  • Morte de Figuras ImportantesO livro 'Killing for Company' · Minissérie 'Death' · Vida na prisão · Morte no hospital · Corpo cremado sem familiares · Vítimas não identificadas
  • O papel dos sindicatos e da organização coletivaTrabalho em posto de atendimento · Representante sindical · Isolamento social
  • Sonho de ser policial militarServiço no exército britânico · Descoberta da homossexualidade · Experiência na polícia metropolitana
Transcrição15 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async
MCMarcos Campos

Esse cara aqui matou pelo menos 12 homens. So good, so good, so good.

— Anúncios inseridos dinamicamente —

MCMarcos Campos

Dentro do próprio apartamento dele, guardou os corpos lá por semanas, alguns até por meses, conviveu com esses cadáveres, cozinhou parte deles. E não foi a polícia que descobriu tudo isso, foi uma privada entupida no andar de baixo que destravou um dos casos mais sombrios da história criminal britânica. Eu sou Marcos Campos e hoje eu conto a história de um homem que matou pelo menos 12 rapazes em Londres entre 1970 78 e 83, manteve os corpos lá dentro da casa dele por dias e foi descoberto não porque a polícia estava atrás dele, tá, mas porque, como eu disse, uma privada entupiu de um vizinho ali de baixo, não dava mais descarga, e aí tudo se desenrolou.

Essa pergunta, ou as perguntas, são: como é que um servidor público de carreira, sindicalista, respeitado por alguns, dito encrenqueiro por outros, dono, porém, de uma cadelinha amada por todos no prédio, vira um dos serial killers mais prolíficos do Reino Unido na época? Por que a polícia passou quase 5 anos sem perceber nada, mesmo com várias vítimas escapando vivas e indo até a delegacia? E o que esse caso tem de tão único que mais de 40 anos depois ainda é estudado por psiquiatras forenses e biógrafos do mundo todo?

Bom, é o que a gente vai ver no episódio de novo, então já fica comigo e vamos aos fatos. Existe uma casa no número 23 da rua Cranley Gardens, em Muswell Hill. Esse endereço fica num bairro residencial bem tranquilo no norte de Londres. Sabe desses bairros cheio de casinha geminada, com telhadinho pontudo assim, jardim caprichado na frente? Aquele tipo de rua onde os vizinhos meio que competem para ver quem tem o gramado mais bonito.

Pois é, o número 23 dessa rua era exceção. O jardim tava meio que tomado de mato, a fachada precisava de uma pintura, e por dentro a coisa não tava muito melhor não, tá? Em algum momento alguém tinha dividido aquela casa ali em 6 estúdios, vamos dizer, para aluguel, e a manutenção era praticamente inexistente ali. Quem cuidava era uma imobiliária ali do bairro, mas a dona da propriedade mesmo morava do outro lado do mundo. Provavelmente aquelas pessoas, sabe, que compram para fazer negócios ali, enfim, para alugar, nem botava o pé no lugar.

Assim, em fevereiro de 1983, 5 pessoas moravam naquela casa. 4 no andar térreo, que era um casal. A mulher desse casal era uma atendente de bar e o homem era um pedreiro. E também mais 2 jovens estrangeiras que dividiam um quarto. E na parte de cima, isolado lá no sótão da propriedade, um apartamento ali que foi adaptado de 2 cômodos com cozinha e banheiro próprios, morava o 5º inquilino. Ele era um homem de 37 anos, alto, magro, daqueles que andam meio curvados assim, com os ombros para frente, sabe?

Ele era servidor público, trabalhava num posto de atendimento de empregos do governo. Ele saía cedo de casa de terno cinza e voltava no final do dia, na verdade perto ali do comecinho da noite. Levava cachorrinha dele para passear e era praticamente isso, um cara quietão ali na dele. Para quem morava embaixo, ele era o cara do sótão só, silencioso, educado, não recebia muitas visitas, sem muito barulho. As vizinhas do térreo tinham até subido uma vez lá na casa dele para tomar um sua fé.

Isso meses antes do que aconteceu, e eu já vou contar. E nessa conversa aí, digamos rotineira, talvez cotidiana, melhor dizendo, coisa de 5 minutos, elas descobriram que ele preferia ser chamado de Des. Então, na quinta-feira, 3 de fevereiro de 1983, um cara chamado Jim Alcock, que era um pedreiro que morava ali no térreo, notou que a privada ali da parte de baixo tava entupida. Ele até tentou desentupir com um produto caseiro ali qualquer, mas não funcionou.

No dia seguinte, então, uma sexta-feira, A namorada dele deixou um bilhete avisando os outros para não usarem aquele vaso sanitário. Eles chamaram um encanador que prometeu ir no sábado. Então esse encanador chegou, tentou consertar ali com as ferramentas que ele tinha, mas não conseguiu também. Ele disse que era trabalho para uma empresa especializada nisso. E tinha uma empresa lá em Londres nessa época aí, a Dyno Rod, que era especialista em desentupimento na época.

Aí entra um detalhe que eu diria tem um peso nessa história. A Dyno Rod só apareceu na terça-feira, dia 5 dias depois do entupimento. E nesses 5 dias aí, lá em cima, no apartamento do sótão, aquele tal inquilino, o Des, que gostava de ser chamado de Des, não é? Tava vivendo um episódio muito sinistro e macabro. No domingo, ou seja, 2 dias antes aí da terça, né? Ele tava cortando um pedaço de corpo em 4 partes na sala da casa dele.

Ele tinha posto a cabeça pra ferver numa panela no fogão dele e os outros pedaços ele colocou em sacos plásticos e guardou no armário. Escuta esconderijo. E tem um detalhe mais bizarro que só ele sabia, tá? A cada dia que se passava com a tal privada entupida, todo mundo reclamando, ele começou a entender o que poderia estar realmente acontecendo com esse entupimento. Ele sabia muito bem o que ele tinha jogado naquele vaso nos últimos dias, talvez até últimos meses, e sabia que cedo ou tarde alguém ia descer naquele bueiro lá fora para ver o que tava bloqueando o cano da casa toda.

Bom, quando o técnico daquela empresa, a Dynorod, finalmente chegou Por volta das 6:15 da tarde daquela terça-feira, como era inverno, já tava bem escuro, mas mesmo assim ele desceu lá, examinou os canos meio que por cima ali, viu que o problema tava lá no subsolo. Na lateral daquela casa tinha uma tampa de bueiro que tava meio rachada ali e ela dava lá para o esgoto. A profundidade disso aí era de mais ou menos uns 4 metros. Então esse profissional desceu pelos degraus de ferro ali presos na parede, típico de aqueles subterrâneos de Londres mesmo, sabe?

E o Jim Alcock, o pedreiro que morava ali que estava no primeiro andar foi dar uma mão para ele, uma ajuda, ficou segurando a lanterna lá de cima, apontando para baixo enquanto o profissional descia. E foi nessa descida aí que o encanador percebeu que tinha um cheiro esquisito ali. Quando ele chegou no fundo, a lanterna iluminou aquela camada esquisita cobrindo o piso. Ele pediu para o Jim segurar firme a lanterna apontando para aquilo ali, e ele pegou um pedaço daquilo e levou para superfície para ver melhor.

Naquela hora, o cara já sabia que não era um excremento, um pedaço de cocô. Ele era um encanador que já tinha uma certa experiência ali. Percebeu que aquilo era carne, mas ele não sabia do quê. Ele ficou cauteloso ali, muito embora tivesse com algumas dúvidas surgindo na cabeça dele ali, mas ele podia estar enganado, né? Bom, nesse dia ele voltou para casa, ligou para o gerente da empresa e disse o que ele tinha encontrado. O gerente combinou de eles voltarem juntos no dia seguinte pela manhã para confirmar aquilo ali.

E até então nada de polícia, nenhum alarme assim. Só que tem um detalhe, Antes desse encanador ir embora, quando ele tava subindo ali e tal a escada, ele fez uma pergunta que até parecia inocente. Ele perguntou se algum morador daquela casa tinha um cachorro, porque ele disse que às vezes acontece de, né, alguém jogar ali de repente um pedaço de carne crua no vaso, pedaço de osso de galinha de açougue, sabe, no vaso. Isso aí acaba entupindo mesmo.

O Des, o morador ali do sótão, que tinha descido para ver o que tava acontecendo ali no térreo, né, todo mundo conversando, ele respondeu sem hesitar que ele tinha sim um cachorro, uma cadelinha, mas jogar carne na privada, ele disse que jamais. Então o encanador agradeceu a resposta e foi embora. E na verdade ele nem desconfiou muito assim pela naturalidade com que o cara tinha respondido para ele. Aquela mesma noite, no começo da madrugada, os vizinhos do térreo ali ouviram algo descendo a escada.

Eles ouviram a porta da rua se abrir, ouviram alguém arrastando a tampa daquele bueiro. Eram sons metálicos raspando. Depois, passos na lateral da casa em direção ao quintal. A namorada do pedreiro cochichou conversou até com ele que tinha alguém mexendo no bueiro lá fora, e ela apostava que era o cara lá de cima. E era mesmo, o Des tinha descido pessoalmente até o bueiro com a lanterna dele ali, com saco plástico na mão. Ele tinha catado o que ele conseguiu lá no bueiro, jogou os pedaços por cima de uma cerca num terreno baldio que tinha para os fundos da casa ali.

O plano que ele tinha era bem simples: ele ia cedo depois até uma loja de frango ali, a Kentucky Fried Chicken, para comprar alguns pedaços ali com a intenção de jogar nos canos para confundir o encanador, ou quem quer que seja que fosse lá depois. Mas no fundo ele já tinha desistido desse plano aí. Ele bebeu rum a noite toda depois disso. Ele pensou em tirar a própria vida, mas acabou desistindo também. Pensou em fugir, mas também não rolou.

No fim das contas, ele decidiu só esperar. Será que ele tava sentindo que alguma coisa ia dar muito errado para ele? Bom, na manhã seguinte, dia 9 de fevereiro, o encanador voltou então às 9:15 da de manhã. Ele levantou a tampa do bueiro, apontou a lanterna, e o piso agora tava mais limpo. Ele ficou pasmo, não fazia sentido, porque nenhuma chuva teria conseguido levar aquilo, e ele já sabia que as privadas continuavam entupidas.

Ele desceu então de novo para olhar mais de perto, enfiou a mão num dos canos secundários ali e puxou outro pedaço de carne. 4 pedaços de ossos vieram junto. Quando o encanador saiu do bueiro, a vizinha ali do térreo, a namorada daquele pedreiro, já tava do lado de fora da casa ali para contar o que ela tinha ouvido junto com o namorado dela naquela madrugada anterior. E foi aí que eles decidiram chamar a polícia pra ver o que tava acontecendo.

Quem chegou foi o detetive Peter Jay. Ele chegou ali por volta das 11 da manhã daquele dia. Ele levou os fragmentos que o encanador tinha encontrado pro Hospital Charing Cross, onde o professor David Bowen, um patologista forense da Universidade de Londres, examinou tudo. Às 3:30 da tarde, assim, o Bowen confirmou que aquilo era humano. A carne provavelmente vinha da região do pescoço. E os ossos eram da mão de um homem. Com essas informações confirmadas então, às 16:30 daquele dia, o detetive Jay estava de volta lá naquela casa, e ele com mais 2 colegas então esperaram o tal Des chegar do trabalho. Ele apareceu às 17:40 da tarde, e esse era o início do fim.

— Anúncios inseridos dinamicamente —

MCMarcos Campos

Beleza, perguntou se eles eram do controle sanitário. Aí o detetive Jay explicou que não, que eles eram da polícia, que os pedaços encontrados ali no esgoto daquela casa eram humanos. A reação do Des foi um: "Oh céus, que coisa horrível!" Mas durou pouco. O Jay olhou nos olhos dele e disse para parar de enrolar e perguntou onde estava o resto daquele corpo. E foi aí que o cara calmamente apontou para o armário dele no quarto e disse que estava tava em dois sacos plásticos, que tinha as chaves se eles quisessem abrir.

O Jay disse que nem precisava abrir, que o cheiro que tava ali já era confirmação suficiente. Perguntou se tinha mais alguma coisa que ele quisesse dizer, e o homem respondeu que era uma longa história e que ele ia precisar voltar muitos anos no tempo, e que ele queria contar, mas na delegacia. No carro, no caminho para delegacia, um dos detetives sentado ao lado dele no banco de trás fez a pergunta que ia ficar registrada nos arquivos da polícia britânica como um momento de virada, um dos pontos mais marcantes do caso.

Estamos falando de 1 ou 2 corpos? O Des respondeu sem mudar o tom de voz que eram 15 ou 16 desde 1978. O detetive Steve McCusker ficou no banco de trás e eu fui dirigindo, e eu não sei o que levou o Steve a fazer isso, mas de repente ele perguntou ao Nielsen: estamos falando de 1 corpo ou serão 2? E o Nielsen disse: nada disso, eu acho que são 16. Na sala de interrogatório já, o detetive Jay precisou repetir a pergunta porque ele achou que tinha entendido errado.

Aquele homem estava dizendo que tinha matado 16 pessoas desde 1978. E o homem disse que sim, 3 em Cranley Gardens, essa casa aí do entupimento, né, e mais ou menos 13, 12 ou 13, no endereço anterior em Mulrose Avenue, em Creekwood. E esse homem, o tal Des, tinha um nome completo e era Dennis Andrew Rossen, um escocês, filho de mãe escocesa e pai norueguês. Ele tinha sido militar, tinha sido policial, e nos últimos 8 anos ele era servidor público.

Um cara competente, articulado, conhecido pelos colegas como sindicalista combativo. Os interrogatórios duraram mais de 30 horas durante aquela semana. Ele falou tudo sem ser perguntado, num monólogo autobiográfico ininterrupto e assustador. Os detetives, homens experientes que tinham visto coisa pra caramba na vida já, ficaram em estado de choque com o que ele relatava, com uma indiferença emocional sinistra até. Mas essa é só a ponta do iceberg.

Pra entender como esse homem chegou ali naquele apartamento, naquele dia, com pedaços de 3 pessoas diferentes guardados no armário e na cozinha, como ele entupiu aquele encanamento com restos humanos, a gente precisa voltar no tempo, até uma vila de pescadores no nordeste da Escócia, no inverno de 1951. Dennis Andrew Nilsen nasceu em 23 de novembro de 1945 em Fraserburgh, Aberdeenshire, que é uma cidade portuária no nordeste da Escócia.

A mãe dele, a Betty White, era escocesa e tinha sido eleita rainha do baile da cidade no auge da Segunda Guerra. O pai era Olav Magnus Nilsen, um soldado norueguês das Forças Norueguesas Livres que tinham se exilado na Escócia depois da invasão nazista. Os pais e o Dennis se conheceram numa rua de Freysburg, quando Olav defendeu a Betty de um soldado bêbado que tava tentando ir pra cima dela. Desse encontro aí casual nasceu o amor entre eles e eles se casaram em 2 de maio de 1942.

Tiveram 3 filhos: Olav Jr., Dennis e Sylvia. Mas com o tempo vieram os problemas, o pai passou a ficar ausente, praticamente nunca estava em casa, a família nunca formou uma unidade familiar de verdade. Assim, depois de um tempo, a Betty voltou a morar com os pais dela e os 3 filhos cresceram vivendo na casa dos avós. A mãe e os 3 filhos dividiram um único quarto nessa casa, mãe e filha numa cama, os 2 irmãos na outra. Era uma casa bem simples do avô materno do Dennis, um pescador escocês chamado Andrew White.

E nessa pequena casa apertada, o homem central da vida de Dennis Nielsen não foi nem o pai ausente, nem a mãe que estava sobrecarregada, foi o avô materno Andrew White, pescador, sindicalista informal, religioso fervoroso, contador de histórias, Andrew era o oposto exato do pai biológico do Dennis. Ele levava o garoto pra passear perto do porto, ensinava ele a empinar pipa feita de papel e também galhos amarrados com barbante, levava ele pra ver a construção dos barcos, contava histórias do mar que não contava pra mais ninguém.

O Dennis era o melhor ouvinte que o Andrew tinha. E pro garoto, o avô não era só uma figura querida, era a âncora central da existência dele. Segundo o próprio Dennis Nielsen, o que ele viveu décadas depois numa cela de prisão. Em outubro de 1951, o Andrew White tava se sentindo cansado demais. Ele tinha desistido de cantar no coral local pela primeira vez na vida, dizia que não tinha mais força, mas ele precisava trabalhar e o emprego de pescador exigia bastante esforço.

Ele precisava ir pro mar, então ele se despediu da família num certo dia, acenou pro neto e embarcou. Naquela mesma noite, no barco, ele recusou uma xícara de chá, uma coisa que ele nunca tinha feito. Disse pros amigos que ele tava com má digestão, Foi então se deitar na cama de marinheiro e quando os companheiros foram acordá-lo no dia seguinte, ele estava morto. A causa: ataque cardíaco. Isso aconteceu no dia 31 de outubro de 1951, ele tinha 62 anos e o Dennis a essa altura tinha 5 anos e 11 meses.

O corpo do vovô Andrew foi trazido de volta para Freysborg de trem e foi velado dentro da própria casa deles, ali no quarto da família mesmo. Colocaram o caixão aberto em cima de cavaletes no meio do cômodo. A esposa dele, a avó do Dennis, ficou chorando o velório inteiro, inteiro, mas ninguém parou para explicar para as crianças o que tinha de fato acontecido. A Betty, a mãe, em algum momento entrou no quarto e perguntou se as 3 crianças queriam ver o vovô.

Pegou cada uma, ainda de pijaminha, e levou um por um até a beira daquele caixão. E aqui tem um detalhe que o Brian Masters, o biógrafo que passou anos estudando esse caso, identifica como o eixo de tudo que veio depois, o elo de tudo isso, o elo central. Quando o garoto perguntou o que tava acontecendo, a mãe disse que o vovô estava dormindo, não não disse que ele tinha morrido, não usou a palavra morte porque ela tinha medo de chocar a criança.

Foi uma decisão bem intencionada, claro, e segundo o próprio Nielsen escreveu na prisão, foi a decisão que estilhaçou a personalidade dele de forma permanente. Por meses depois, o garoto ficou esperando o avô voltar. Ninguém voltou a falar o nome dele, era como se o Andrew White tivesse evaporado, e o que se formou na cabeça daquela criança foi uma equação razão insólita. Se o avô tinha ido para um lugar melhor, como diziam, por que ele não tinha sido levado junto?

Por que estar morto era uma coisa boa, mas fazia todo mundo chorar? E por que o pai e o avô, os dois, tinham ido embora e deixado ele para trás? Décadas depois, escrevendo da cela em Brixton, o Nilsen vai dizer que ele passou a vida emocional inteira procurando o avô. Que naquele dia em outubro de 1951, desceram persianas dentro dele que nunca mais subiram. Aqui no fundo ele queria estar dentro daquele caixão dormindo junto com o avô.

— Anúncios inseridos dinamicamente —

MCMarcos Campos

Fit for all times. A infância continuou solitária. O Dennis era um menino que sumia. A mãe precisava até trancar o portão do jardim para impedir que ele saísse vagando aí pela rua. Ele cavava por baixo ali do portão na terra e ia mesmo assim. Ele mesmo se descrevia como um menino infeliz. "Ruminante, secreto, atingido pela inferioridade." Aos 15 anos, ele se alistou no exército britânico, no Corpo de Catering, que é o setor que cuidava da alimentação das tropas.

Ele serviu por 11 anos como cozinheiro do exército, passando por vários batalhões, incluindo um dos mais respeitados da infantaria britânica, que é o Wardhill and Sutherland Highlanders. Ele serviu em vários lugares, incluindo brevemente Berlim Ocidental durante a Guerra Fria, e foi nesse período aí que ele começou a perceber que ele era homossexual, uma descoberta que ele encarou com vergonha profunda. Numa cultura militar britânica dos anos 60, ser gay era um problema grande.

Em 1972, prestes a fazer 27 anos, o Dennis decidiu sair do exército. Ele tentou se reinventar, entrou para a polícia metropolitana de Londres como recruta, mas durou só um ano. Aquilo também não se encaixou nele. Passou alguns meses trabalhando como segurança em prédios do governo até conseguir em 1974 um emprego num daqueles postos de atendimento ao trabalhador desempregado. Era um trabalho burocrático, tranquilo, com salário modesto, e ali ele acabou se acomodando.

Trabalhou nesse tipo de posto pelos 8 anos seguintes, sempre fazendo a mesma coisa: atendendo gente que vinha procurar emprego, processando ficha atrás de ficha, E foi nesse momento, nesse mesmo período, que ele descobriu o sindicato. Ele virou representante dos funcionários, depois presidente da filial local, e dentro dessa função ele encontrou alguma coisa que o exército e a polícia e as coisas que ele já tinha feito nunca tinham conseguido dar pra ele: voz.

Nas reuniões, o Dennis era afiado, articulado, agressivo no debate. Ele defendia colega contra chefia como se fosse uma causa pessoal dele, levava qualquer briga trabalhista até as últimas consequências. Consequências. Superiores meio que torciam o nariz para ele, ganhou rapidamente a fama de encrenqueiro também, mas os colegas, esses gostavam dele, tá, pelo menos por enquanto. No trabalho, Dennis era considerado um cara legal de conviver, muito inteligente, irônico, sabia fazer rir, dava ideias boas nas reuniões, mas era um tipo específico de simpatia, sabe, aquela que funciona dentro do escritório durante o expediente, gente ali na hora do cafezinho, mas que não atravessa, não sai da repartição, digamos.

Nenhum colega ali da profissão dele, da repartição pública, nunca tinha ido ao apartamento dele para tomar uma cerveja, bater um papo. Nenhum tinha visto ele em situação social fora do trabalho. Ele era o tipo de pessoa que no fim do expediente vira as costas, pega ali o casaco e vai embora, e ninguém fazia ideia do que ele ia fazer e para onde ele ia. Ele era um cara bom de papo, tinha muito assunto, mas era sempre sobre o trabalho, sobre o sindicato, sobre as injustiças que ele tava combatendo.

Confidência mesmo, conversa pessoal daquelas que você só tem com quem te conhece de verdade, com um amigo próximo. Disso ele não conseguia falar e ele não tinha ninguém para fazer isso com ele. Em 1976, ele se mudou para um apartamento térreo com jardim no número 195 da Melrose Avenue, em Cricklewood, no noroeste de Londres. E ele foi para esse endereço aí com um rapaz com quem ele estava tendo ali uma espécie de relacionamento que na verdade durou praticamente nada.

O rapaz foi embora e restou ali o Dennis com a cachorra, a Bleep, dentro daquele apartamento. Ele bebia muito rum com Coca-Cola, ouvia muita música clássica e ópera nos fones de ouvido dele. Elgar, Mahler, Britten, Grieg, Tchaikovsky e algumas faixas de pop sofisticado também, especialmente uma chamada Oh Superman da Laurie Anderson, que tinha um efeito quase hipnótico nele. Ele caminhava com a cachorrinha Bleep duas vezes por dia em Gladstone Park, cuidava do jardim, aparentava ser um homem comum levando uma vida pacata e comum.

Mas dentro de casa, em 1978, ele começou a desenvolver um ritual privado e, de certo modo, bem doentio na frente do espelho. Um negócio bem bizarro. Veja, ele se cobria de talco para parecer pálido, esfregava carvão nos olhos, pintava os lábios de azul, criava manchas de sangue calço na pele e se deitava na cama em frente ao espelho com a boca aberta deixando a saliva escorrer, com o olhar fixo, ele fingia ser um cadáver, imaginava outro personagem na cena também, um eremita velho que encontrava o corpo dele na floresta, levava pra casa, lavava, cuidava, masturbava.

No fim de 1978 a depressão dele tava no fundo do poço, uma carreira meio que emperrada por causa do ativismo sindical, Natal. Os colegas que ele defendia não retribuíam o apoio, não tinha ninguém para passar o Natal com ele. Ele escreveu anos depois que se sumisse naquele período da vida dele, ninguém ia nem notar, até pelo menos uma semana depois. E aí entra a noite que vira uma chave e muda toda essa história. Em 30 de dezembro de 1978, o Dennis Nielsen, às vésperas noite do Ano Novo, estava sozinho como de costume, mas nesse dia alguma coisa nele estava incomodando, ele estava um pouco angustiado, cansado de ficar em casa, então ele decidiu sair, porém em vez de ir aos pubs gays que ele costumava frequentar, ele foi para o Cricklewood Arms, que era um bar irlandês perto da casa dele, um local frequentado por operários, diferente do público que ele estava acostumado, ele bebeu umas Guinness, famosa cerveja por lá, não é?

Uma atrás da outra, no meio da multidão ele conversou com várias pessoas, em algum momento da noite ele começou a conversar com um rapaz que também estava sozinho, na verdade era um adolescente magrinho, os dois em algum momento então foram para casa do Dennis, beberam mais ainda, depois foram para cama juntos, mas não rolou nada sexual, os dois na verdade desmaiaram, chapados provavelmente, algumas horas depois o Dennis Nielsen acordou, ele olhou para o garoto dormindo ali do lado dele, pelas próprias palavras dele escritas anos depois, ele teve medo de acordar o rapaz, com receio de que ele levantasse e fosse embora, medo de ficar completamente sozinho de novo, e a ideia de perder aquela companhia era insuportável para ele.

Então ele olhou para o chão, viu a gravata dele mesmo caída ali entre as roupas, pegou essa gravata, subiu em cima do garoto e apertou. O rapaz acordou no meio do estrangulamento, lutou pela vida dele. Os dois caíram da cama, rolaram pelo carpete, derrubaram a mesa de centro com cinzeiros e copos. Em uns 30 segundos, o corpo do jovem amoleceu, mas o rapaz ainda respirava. O Nilson foi até a cozinha, encheu um balde com água e voltou.

Ele pendurou o garoto de cabeça para baixo sobre uma cadeira ali na sala de jantar, enfiou a cabeça dele dentro do balde. Aí ele esperou com uma paciência mórbida as bolhas pararem. Depois, Nielsen passou um período enorme só sentado ali, em choque talvez, olhando para aquilo. E quando ele voltou a se mexer, ele começou um segundo ato que ainda era mais perturbador. Ele encheu a primeira do apartamento, carregou o corpo até lá, lavou o corpo com detergente, colocou ele na cama depois, cobriu com lençol e saiu de casa.

Então ele comprou uma faca elétrica e uma panela grande numa loja de ferragens, mas quando ele chegou em casa, ele achou que aquilo que estava passando na cabeça dele era ridículo e acabou não usando. O que ele fez foi outra coisa: ele vestiu o cadáver com cueca branca e meias novas que ele tinha guardado no armário, deitou-se na cama abraçando o corpo, tentou ter relações íntimas com o cadáver, mas não conseguiu manter a ereção quando sentiu a temperatura caindo.

Nos dias seguintes, ele tirou algumas tábuas do assoalho ali da casa dele e enfiou o corpo ali embaixo. 7 meses e meio depois, em 11 de agosto de 79, ele desenterrou, digamos, o corpo, embrulhou em sacos plásticos e queimou numa fogueira lá no quintal dele mesmo. Pôs borracha velha ali no fogo junto para disfarçar o cheiro. Depois, ele esmagou tudo que sobrou ali para virar um pó e misturou com a terra do jardim. Na época em que o Brian Masters publicou o livro Killing for Company, em 1985, esse rapaz ainda era anônimo, era conhecido só como o jovem irlandês.

Esse menininho adolescente que ele encontrou no pub, eu vou para casa, e esse adolescente nem era irlandês, tá? Os pais eram, mas na verdade ele tinha nascido em Londres. Foi só em 2006, 28 Foi 8 anos depois que a identidade dele foi finalmente confirmada, quando os investigadores estavam revisando arquivos de pessoas desaparecidas e mostraram uma foto pro Nilsen, já com 60 anos dentro da prisão, e ele confirmou. O rapaz era Stephen Dean Holmes, ele tinha 14 anos quando perdeu a vida.

A história diz que ele tinha ido a um show de rock e depois ia pegar um ônibus de volta pra casa dos pais dele, e que no caminho ele acabou entrando naquele pub se esconder do frio. Ele era heterossexual, gostava de futebol e de rock, tinha sumido naquela noite de 30 de dezembro de 78 sem deixar nenhum rastro. A mãe dele morreu em 2002 sem nunca saber o que tinha acontecido com o filho dela. Depois daquela primeira noite, o Dennis ficou quase um ano inteiro sem matar de novo.

Ele tocou a vida como se não tivesse acontecido nada. Não aconteceu nada, foi trabalhar, para o sindicato, passeava com a cachorra no parque, por fora ele era um cidadão comum e ele mesmo, segundo escreveu depois, chegou a acreditar que aquilo tinha sido um acidente isolado, que ele nunca mais ia repetir, só que em outubro de 1979 aconteceu uma coisa que devia ter mudado o rumo dessa história, mas não mudou, o Dennis tinha levado para casa um estudante chinês chamado Andrew Ho, em algum momento da noite, Durante uma conversa sobre sexo, ele pegou uma gravata e enrolou no pescoço desse rapaz.

O Ho entrou em pânico e conseguiu se desvencilhar, agarrou um castiçal, jogou na direção do Dennis e correu direto pra delegacia. A polícia foi até o apartamento meia hora depois. O Ho denunciou a tentativa de estrangulamento. O Dennis, muito calmo, negou tudo, disse que era só uma encenação no meio do sexo. E aí veio o erro que custou caro. O Ho, com vergonha de explicar pra polícia o que ele tava fazendo ali, decidiu não levar o caso adiante.

A polícia então foi embora e o caso foi encerrado. Anos depois, da cela da prisão, o próprio Dennis Nielsen escreveu uma frase que chega a dar calafrios. Ele disse que tinha sido uma pena que ele não tivesse sido preso naquela noite. Se a polícia tivesse investigado melhor aquela denúncia daquele estudante, todas as mortes que vieram a seguir poderiam ter sido evitadas. Mas em dezembro de 1979, chegou o Kenneth Oaken, Wolken Den, um turista canadense que tinha vindo passar férias em Londres.

Os dois se conheceram num pub na hora do almoço, banalidades, simpatizaram na hora ali um com o outro e passaram a tarde inteira juntos andando pela cidade, o Dennis bancando o anfitrião mostrando os pontos turísticos. À noite eles foram para o apartamento do Dennis para continuar a conversa, beberam, ouviram música, em algum momento depois da meia-noite, com o Wolken Den deitado ali na poltrona escutando um disco com os fones de ouvido, o Dennis pegou o próprio cabo do fone e usou para estrangular o rapaz ali mesmo.

O Dennis sentou na poltrona do lado, depois pegou os fones do cadáver, colocou no próprio ouvido e ficou ouvindo a sequência inteira do disco com o corpo do Oakenley ainda quente ao lado dele. Depois, Dennis colocou o corpo na cama e passou a noite inteira com ele. No dia seguinte, ele foi enfiado no armário, no No outro dia, Dennis saiu de casa, comprou uma máquina Polaroid, voltou, posicionou o corpo em várias poses e tirou fotos.

E durante as 2 semanas seguintes, ele ficou tirando o cadáver do esconderijo várias vezes, sentava ele na poltrona do lado dele, assistia televisão, como se fosse uma companhia. E aqui entra um detalhe que fez esse caso ser diferente dos outros, o Okenden virou a única vítima que teve o desaparecimento reportado noticiado nos jornais nacionais britânicos. O Dennis lia essas notícias e ficava quietinho. Anos depois, da cela, ele escreveu que a morte daquele rapaz canadense tinha batido nele como uma bomba.

A partir dali, tudo isso virou um padrão. Em maio de 1980, foi o Martin Duffy, um adolescente de quase 17 anos que tinha fugido de casa no norte da Inglaterra e tinha vindo bater em Londres, tentar recomeçar a vida. Ele conheceu o Dennis, foi parar no apartamento lá da Melrose Avenue, apartamento do Dennis, e foi estrangulado na cama no meio da madrugada. Em agosto do mesmo ano foi o Billy Sutherland, um escocês de Edimburgo conhecido na região como um bebedor pesado.

E daí em diante a coisa só piorou, foram vários outros, a maioria sem nome até hoje, eram rapazes jovens sem teto, viciados, gente que vivia de bico e às vezes se prostituía, gente sem apartamentos, em família esperando em casa, sem ninguém para dar falta. A última vítima lá no apartamento de Melrose Avenue foi um homem chamado Malcolm Barlow, em setembro de 1981. E é aqui que aparece o aspecto mais desconcertante desse caso, talvez.

O Nielsen não escolhia as vítimas com cuidado predatório, no sentido clássico dos serial killers. Ele convidava qualquer pessoa que aceitasse ir para casa dele. Algumas pessoas iam, dormiam, acordavam de manhã, tomavam café e iam embora vivas. Outras ele simplesmente matava. Por própria conta dele foram pelo menos 7 tentativas frustradas, gente que escapou ou que ele mesmo saiu do transe antes de terminar. Algumas dessas pessoas chegaram a procurar a polícia.

Em maio de 1980, um escocês chamado Douglas Stewart escapou e foi até os policiais. A polícia foi até lá, a Melrose Avenue, conversou com o Dennis Nielsen, ouviu a versão dele que era só uma briga banal de dois homens bêbados e foi embora, nem investigaram. E aqui está um dos elos dessa corrente criminal, porque quase 5 anos vítimas conseguiram escapar com vida, procuraram a polícia e foram ignoradas, podemos dizer. O cara que tava matando era um servidor público bem-sucedido, articulado, sem registro criminal.

As pessoas que escapavam eram jovens marginalizados, digamos, jardins, viciados, prostitutos, bêbados. A polícia britânica no começo dos anos 80 simplesmente não levou isso muito a sério. Enquanto isso, o jardim da casa, lá no número 195 da Melrose Avenue, ia se enchendo de cinzas. Nilsen fazia fogueiras periódicas, misturava as cinzas com a terra do jardim, quebrava os ossos maiores com uma pá e jogava por cima da cerca, num terreno baldio.

Mais tarde, quando a polícia escavou jardim, em 1983 eles iam encontrar mais de 1000 fragmentos de ossos. Segundo o próprio Dennis Nilsen no julgamento, seriam 12 homens mortos na Melrose Avenue, só lá, mas pode ter sido mais. E anos depois, em 1992, ele voltou atrás, chegou-se a contar 15, 16 vítimas, mas ele disse que o total eram 12 mesmo nesse endereço e no próximo que eu já vou contar. Mas pro detetive Peter Jay, ele sempre achou que essa contradição, essa retratação aí não fazia sentido.

Mas vamos conhecer então o outro endereço, aquele que abriu esse episódio. Em outubro de 1981, o dono do apartamento da Melrose Avenue mandou o Dennis se mudar, pediu a casa. Antes de entregar as chaves, ele acendeu uma última fogueira no fundo do mortal e queimou tudo que ainda restava como evidência, talvez. E segundo o Brian Masters, o autor do livro que conta essa história, tinha ali pelo menos partes de corpos que ainda não tinham se decomposto totalmente.

Depois, o Dennis pegou um rolo de jardim e passou várias vezes por cima das cinzas, esmagando até virar um pó que se misturava com a terra. Bom, depois disso, ele mudou para o outro lado de Londres, para um bairro chamado Muswell Hill, e mudou o sótão de uma casa antiga, aquela mesma que abriu o episódio. Dennis, na cabeça dele, achava que aquela mudança ia ser o fim do ciclo, porque o apartamento novo não tinha tábua de assoalho que ele pudesse tirar para esconder o corpo, não tinha jardim que ele pudesse usar só para ele, não tinha cantinho nenhum ali onde daria para esconder ou queimar coisas.

E por um momento parecia mesmo que o Dennis tava certo sobre esse pensamento. Em dezembro de 1981, ele encontrou um rapaz chamado Kevin Sylvester paralisado de bêbado numa rua. Ele levou o cara pra casa, deu cama pra ele dormir, alimentou o sujeito no café da manhã, mandou ele embora vivo. Nielsen escreveu que ficou eufórico, achou que finalmente tinha passado, tinha deixado tudo aquilo pra trás, mas não tinha. Primeira morte no novo apartamento aconteceu em março de 1982, poucos meses depois da mudança.

Nome do rapaz era John Rowlett. Ele era um cara da rua, daqueles que tinha passado uma vida inteira sem chão. Família dele tinha cortado laços com ele ainda menino, aos 13 anos, e desde então o Rowlett tinha vivido perambulando, entrando e saindo de abrigos, sendo preso por pequenos furtos, sem nunca conseguir botar a vida nos eixos. Quando ele conheceu o Dennis, ele era um adulto já na faixa dos 20 e poucos anos, com aquela mania de inventar histórias sobre ele mesmo, sobre o passado, para parecer mais importante do que era.

Ele falava para qualquer um que tinha sido soldado na Guarda Real Britânica, ninguém sabia se era verdade ou não, e provavelmente não era. O próprio Dennis nunca chegou a saber o sobrenome dele, pro Dennis era só John, o guarda, e foi com esse apelido que o nome do rapaz acabou entrando anos depois nos arquivos do caso. A segunda morte na Cranleigh Gardens veio em setembro do mesmo ano, um homem chamado Graham Allen, e a terceira vítima foi em 26 de janeiro de 83, e essa é a que importa pra entender como tudo desabou.

O nome dessa vítima, desse rapaz, era Stephen Sinclair. Ele tinha 20 anos, era viciado pesado em drogas, e nos pulsos ele carregava marcas recentes de tentativa de dar um fim nele mesmo. Era o tipo de rapaz que ninguém ia sentir falta, e foi exatamente por isso que o Dennis escolheu, ou viu uma oportunidade nele. Nessas 3 mortes lá na Cranley Gardens, o método de descarte do corpo mudou drasticamente. Como ele que ele não tinha o jardim para fazer fogueira, nem assoalho para esconder o corpo, o Dennis começou a fazer uma coisa muito pior, talvez.

Ele levava o corpo para o banheiro do sótão, botava dentro da banheira, ia desmembrando ali mesmo, cortava os órgãos em pedaços pequenos e ia jogando na privada e dando descarga. E quando esse processo aí ficava lento demais, ele pegava as partes maiores e ia fervendo dentro de uma panela no fogão. A cabeça toda numa panela grande, depois as mãos, os pés, enfim, quando o osso saía limpo, ele quebrava em pedacinhos pequenos e ia jogando no lixo de casa mesmo, que o caminhão da prefeitura passa e recolhe semanalmente.

E o que sobrava de ossos grandes, como crânio, fêmur, ossos do braço, bacia, ele guardava num baú que ele tinha no canto da sala ali, embrulhado em sacos com sal grosso. Ele cobria tudo isso aí com uma cortina vermelha velha que ele tinha trazido lá do antigo apartamento. E foi exatamente esse esquema que destravou o caso. Porque a tubulação do banheiro do sótão, como a gente viu, ficou travada, entupida. Essa tubulação atravessava a casa inteira e se conectava com o esgoto lá embaixo.

Os pedaços de carne e gordura que o Nilsen tava jogando pelo vaso sanitário ficaram presos, entupiram a tubulação. Em janeiro de 83, então, depois de matar o Stephen Sinclair, o Nilsen tava no meio do processo de dissecção quando o sistema entupiu de vez. No fim essa semana de 5 e 6 de fevereiro, ele cortou o corpo em 4 partes na sala do apartamento, ferveu a cabeça, enquanto a privada do andar de baixo já tava bloqueada e os vizinhos estavam esperando o encanador já.

Aí foi o que eu contei lá no começo, o técnico encanador desceu o bueiro à noite, o Nilson tava tentando tirar os pedaços de lá, o técnico voltou no dia seguinte, a polícia chegou, esperou o Dennis voltar do trabalho, e foi assim que E ele finalmente foi descoberto e preso. O julgamento começou em 24 de outubro. Ryan Reynolds aqui, da Mint Mobile, com uma mensagem para todo mundo que paga por internet muito caro.

?Voz B

Por favor, pelo amor de tudo que é bom nesse mundo, pare. Com a Mint, você pode ter uma internet premium por apenas US$15 por mês. Claro, se você gosta de pagar caro, não julgamos, mas isso é estranho.

MCMarcos Campos

Ok, uma julgamento.

?Voz B

Anyway, give it a try at mintmobile.com/switch. Upfront payment of $45 for 3-month plan, equivalent to $15 per month, required. Intro rate first 3 months only, then full price plan options available. Taxes and fees extra. See full terms at mintmobile.com.

MCMarcos Campos

Veterano na magistratura inglesa, conhecido por conduzir casos difíceis e com mão firme. O Nielsen foi acusado de 6 assassinatos e 2 tentativas de assassinato. Os 6 casos escolhidos pela acusação foram aqueles que havia evidência forense suficiente: Kenneth O'Kane, Martin Duffy, Billy Sutherland, Malcolm Barlow, John Rowlett e Stephen Sinclair. O último, as tentativas de homicídio eram contra Paul Nobbs, um estudante de 19 anos de 22 anos da Universidade de Londres que escapou em novembro de 1981 e contra Douglas Stewart, um cara de 26 anos que escapou em novembro de 1980 depois de Nielsen ter tentado estrangulá-lo enquanto ele dormia numa poltrona.

A estratégia da defesa foi declarar inocência e tentar provar que o Dennis tinha alguma forma de transtorno mental que tinha tirado dele o controle sobre os próprios atos. Se essa tese fosse aceita, ele não seria condenado assassinato, seria condenado por uma figura mais branda que existe na lei britânica, que abriria a porta então para ele cumprir pena em hospital psiquiátrico, não em presídio comum. Na prática significava que ele podia sair em liberdade em uns 15 anos.

E aí os psiquiatras divergiram completamente. Os médicos contratados pela defesa argumentaram que o Dennis tinha um transtorno grave de personalidade formado lá na infância em Freysburg. A morte do avô sem explicação, pai ausente, o fato de ele de ter se descoberto gay, que ele teve que esconder durante a vida toda, principalmente no exército. Tudo isso, segundo eles, tinha criado nele uma espécie de falso eu, uma fachada que escondia uma mente fragmentada.

Mas o psiquiatra contratado pela acusação rebateu isso, disse que sim, o Dennis tinha personalidade anormal. Ninguém em sã consciência, afinal, ia matar tantas pessoas. Só que personalidade anormal, do ponto de vista da lei, não é a mesma coisa que doença mental. E o que ele tinha visto no comportamento do Dennis durante os crimes era exatamente o oposto de alguém fora de si. O cara encorajava as vítimas a relaxarem, a beberem, a dormirem, calculava, planejava e executava com frieza, anormal, mas com a cabeça funcionando perfeitamente.

O júri ficou dividido e em 4 de novembro de 1983, no fim da manhã, o juiz avisou que aceitaria o veredito por maioria, não precisava ser unânime. À tarde saiu o resultado: maioria condenou Dennis em todos os 6 casos de assassinato e em uma das tentativas de homicídio. Na tentativa contra um dos sobreviventes, o veredito foi unânime. Todos os jurados acharam Dennis culpado. Vai entender. No fim das contas, o juiz sentenciou Dennis à prisão perpétua, com recomendação de cumprir no mínimo 25 anos antes de poder pedir liberdade condicional.

Mas em dezembro de 94, mais de 3 anos depois da sentença, o ministro do interior britânico revisou o caso e mudou as regras, transformou a sentença numa coisa chamada lá de whole life tariff, que na prática significa prisão perpétua de verdade, sem possibilidade nenhuma de sair em vida, sem recurso, sem condicional, sem revisão. O Dennis ia morrer dentro da cadeia. E aí entra a figura do Brian Masters. Brian Masters é o biógrafo inglês que durante o período em que enquanto o Dennis estava preso aguardando o julgamento, começou a trocar cartas com ele.

Foi a partir dessa troca de cartas que nasceu o livro mais detalhado sobre esse caso, que se chama Killing for Company, que em tradução livre quer dizer matando por companhia, e que foi inclusive a fonte principal para produzir esse vídeo aqui. O Masters foi o único biógrafo que o Dennis autorizou a escrever sobre a história dele, e o motivo do título vem de uma frase que o próprio Nielsen escreveu cartas, ele disse que matava por companhia, pelo medo absoluto de ser deixado sozinho, para que outra pessoa ficasse com ele, quisesse ou não quisesse, exatamente como ele escreveu sobre aquele rapaz da primeira noite, na manhã de 30 de dezembro de 78.

Em 2020, mais de 30 anos depois, uma TV britânica produziu uma minissérie de 3 episódios chamada Death, apelido pelo qual Nilsen se autonomeava, com David no papel principal, Daniel Mays como Peter Jay, o detetive, e Jason Watkins como Brian Masters, o biógrafo. A série, escrita por Luck Neal, ficou inteiramente no período entre a prisão e o julgamento. Não mostrou nenhum dos crimes, que foi uma escolha deliberada para não estetizar a violência.

Foi premiada e teve audiência massiva. Dennis Nielsen passou 35 anos preso. Ele cumpriu pena em vários estabelecimentos aprendeu braile na oficina ali da prisão e passou a traduzir livros. Ele pintava, compunha música no teclado, lia muito, escreveu uma autobiografia chamada The History of a Drowning Boy, que é uma referência aos próprios conceitos dele sobre a tranquilidade da morte. A autobiografia não foi publicada enquanto ele estava vivo, mas ela saiu postumamente em 2021.

E foi em 10 de maio de 2018 que o Nielsen foi transferido da prisão. Ele foi transferido de lá para um hospital. Ele estava com fortes dores abdominais. O diagnóstico foi ruptura de aneurisma da aorta abdominal. A cirurgia foi feita, mas ele desenvolveu um coágulo como complicação pós-operatória e morreu em 12 de maio de 2018, aos 72 anos. O corpo foi cremado em junho de 2018 num serviço com 5 pessoas presentes: 3 oficiais de prisão, mais um indivíduo com quem o Nielsen correspondido por anos, e mais uma pessoa.

Nenhum familiar compareceu. As cinzas, no entanto, foram entregues a um parente segundo o protocolo do Ministério da Justiça britânico, e a prisão pagou as despesas do funeral. E dos homens que o Dennis Nilsen confessou ter matado, 7 ainda continuam não identificados até hoje. 7 jovens que entraram em algum pub de Londres entre o final dos anos 70 e começo dos anos 80, conheceram um servidor público amigável, foram para casa dele, dele e nunca mais voltaram.

As famílias deles em algum lugar do Reino Unido ou da Irlanda provavelmente já não estão mais procurando. Algumas dessas famílias talvez nunca tenham começado a procurar. E o detalhe mais frio dessa história talvez é a frase que o próprio Dennis escreveu sobre essa primeira morte anos depois, lá na cela. Ele disse que não sabia porque tinha começado, que tinha passado a vida toda perguntando isso para ele mesmo e nunca tinha encontrado a resposta.

A pessoa que talvez tenha chegado mais perto de uma resposta foi o Brian Masters. Para ele, tudo voltava àquele quarto pequeno de Freysburg em outubro de 1951. O caixão aberto, o avô que parecia estar dormindo, a mãe que não disse a palavra morte ao garoto de 5 anos e 11 meses que passou meses esperando o avô voltar e nunca conseguiu entender porque a morte era um lugar melhor, para o qual ele não tinha sido convidado. Assim, entre 78 e 83, 12 pessoas pessoas, talvez mais, 15, foram convidadas por ele.

Esse foi o especial do Dennis Nielsen. Espero que vocês tenham apreciado. Comenta aqui para mim o que você achou. Um beijo do Ruivo, obrigado pela companhia e até o próximo episódio.

Matar por companhia: O perturbador "vazio" na mente de Dennis Nilsen | Castnews Index — Castnews Index