Episódios de Vamos aos Fatos

O Serial Killer que Desafiou a Polícia com Cartas Sinistras

30 de setembro de 202652min
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📌 Entre 1976 e 1977, a cidade de Nova York viveu um dos períodos mais sombrios da sua história. Um atirador misterioso espreitava casais em carros estacionados, deixava cartas zombando das autoridades e assinava com um codinome que chocou os Estados Unidos: o Filho de Sam.David Berkowitz mobilizou a maior caçada humana da polícia de Nova York, mas a prisão final deixou perguntas em aberto, contradições nos depoimentos e pistas que apontavam para algo muito mais complexo do que a versão oficial de um "lobo solitário".Neste episódio especial, você acompanha a cronologia detalhada dos ataques, as cartas perturbadoras, os erros de investigação e toda a apuração sobre o caso.📌 Capítulos do vídeo:00:00 - A Madrugada do Crime e os Relatos Conflitantes04:37 - O Ano do Terror: Os Primeiros Ataques em Nova York09:44 - O Assassino do Calibre .44 e as Cartas Sinistras12:36 - A Prisão de David Berkowitz18:47 - Quem era Berkowitz e as Incoerências na Confissão22:53 - Um Nome na Carta: A Pista de John Carr31:10 - O que Dakota Sabia: A Conexão com Rituais34:25 - O Segundo Filho: Reabertura e Mortes Suspeitas39:43 - O Caso Arlis Perry e as Ramificações42:54 - Os 22 Discípulos: Teoria da Conspiração ou Realidade?46:43 - As Revelações de 1993 e o Desfecho do Caso💬 Participe nos comentários:Diante das contradições nos depoimentos e das pistas levantadas ao longo dos anos, você acredita que David Berkowitz agiu inteiramente sozinho ou existiam outros envolvidos? Deixe sua teoria abaixo!👍 Se você gosta de análises detalhadas de True Crime, inscreva-se no canal e deixe seu like para apoiar a produção de episódios longos como este.#TrueCrime #FilhoDeSam #DavidBerkowitz #CasosCriminais #Investigação📚 Fontes e referências:(Maury Terry (com introdução de Joshua Zeman), The Ultimate Evil: The Search for the Sons of Sam, Quirk Books, edição de 2021)🔗 Acompanhe também:• Instagram: @eusoumarcoscampos📧 Contato comercial: contato@mpcampos.com.br

Participantes neste episódio1
M

Marcos Campos

HostJornalista
Assuntos9
  • A madrugada do crime e os relatos conflitantes sobre o atiradorcasal baleado em carro·Stacey Moskovitz e Robert Violante·descrições contraditórias do atirador·prisão de David Berkowitz
  • O assassino do calibre .44 e as cartas sinistras enviadas à polícia e imprensapolícia liga os ataques·retratos falados controversos·pânico na cidade·primeira carta ao capitão·segunda carta ao Jimmy Breslin
  • A prisão de David Berkowitz e as incoerências na confissão dos crimesmulta de trânsito leva à prisão·operadora de Yonkers e Sam Carr·Berkowitz assume todos os crimes·contradições nos depoimentos·testemunhas e a cena do crime
  • A pista de John Carr e a conexão com rituais satânicosMaury Terry investiga·Wicker Street e John Wittes·carta de Berkowitz da cela·morte de Andrew Dupee·John Carr em Dakota do Norte·símbolo do Filho de Sam
  • O ano do terror em Nova York e os primeiros ataques do Filho de Samdivisão de Nova York em regiões·primeiro ataque no Bronx·arma calibre .44·ataques no Queens e Brooklyn
  • Reabertura do caso e mortes suspeitas de pessoas ligadas à investigaçãomorte de Michael Carr·polícia de Nova York reabre caso·promotor do Queens reabre oficialmente·Caverna do Diabo em Yonkers·seita Process e pastores alemães
  • A teoria da conspiração dos 22 Discípulos e as revelações de 1993limpeza interna no Halloween·assassinato de Ronald Sisman·Roy Radin e o produtor de espetáculos·Berkowitz se converte ao cristianismo·Berkowitz revela detalhes do grupo
  • O desfecho do caso e a versão oficial da políciainvestigação de Yonkers suspensa·polícia de Nova York mantém versão oficial·Maury Terry morre investigando·DNA resolve caso Arlis Perry·Stephen Crawford se suicida
  • O caso Arlis Perry e as ramificações da rede de crimeslivro sobre bruxaria·Arlis Perry morta na Califórnia·Berkowitz sabia detalhes do crime·rede de crimes em vários estados
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MCMarcos Campos

Morning darkness Verdade, dirigido por Michael Showalter, classificado R, abaixo de 17 anos sem acompanhante, sábado. Passava um pouco das 2 da manhã de um domingo de verão em Nova York, no ano de 1977, quando uma viatura da polícia fazendo uma ronda passou por uma rua tranquila no Brooklyn, perto de um parque à beira-mar, e notou que tinha um carro ali estacionado na frente de um hidrante, um Ford. Os dois policiais então preencheram uma multa e colocaram no para-brisa desse carro e seguiram devagar pela rua.

Perto dali, uma mulher de 49 anos chamada Cacília Davis estava voltando de um passeio à noite com um amigo, e nesse caminho ela vê um homem de jaqueta jeans se aproximar daquele carro que tinha sido multado há pouco e tirar o papel do para-brisa e ficar ali encostado na porta olhando a viatura da polícia se afastar. Isso já era por volta de 2:20 da madrugada. Então esse homem entrou no carro, saiu logo atrás da viatura de polícia e depois virou à direita numa esquina qualquer.

A Cacília então subiu na casa dela, pegou o cachorrinho que ela tinha e desceu pra dar uma volta antes de dormir. Uns 15 minutos depois, quando ela estava voltando pra casa, ela cruzou com aquele mesmo homem, só que agora ele estava a pé, indo na direção do parque com alguma coisa dentro da manga da jaqueta, que ela pensou que era um radinho. Ela continuou andando e menos de 2 minutos depois ela escutou um estouro, depois outro, e uma buzina que não parava.

Dentro de um carro que estava estacionado debaixo de um poste, um casal de 20 anos que tinha se conhecido 3 dias antes, no primeiro encontro dos dois, tinha acabado de levar 4 tiros pela janela do passageiro. A moça se chamava Stacey Moskovitz, e o rapaz Robert Violante. O rapaz ia perder um olho e quase toda a visão do outro, e a jovem iria morrer no hospital um dia e meio depois daquilo. Naquela noite havia outras pessoas na rua, um rapaz de 19 anos chamado Tommy Zaino, que estava ali dentro do carro dele com a namorada olhando pelo retrovisor.

Ele contou que tinha reparado num Fusca amarelo parado ali perto fazia quase uma hora, e foi de perto desse carro que o atirador saiu. Então ele viu aquele homem agachar, esticar o braço e atirar 4 vezes e depois sair correndo. A descrição que o Tommy deu pra polícia foi de que o atirador era um homem relativamente baixo, mais ou menos 1,70m, de cabelo loiro, liso e despenteado. Ele disse que o cabelo era tão estranho que parecia peruca.

Já a Cacília, quando foi ouvida pela polícia, fez uma descrição completamente diferente. Disse que o tal homem que ela viu era alto, forte, de cabelo escuro, curto e e bem penteado, como se ele tivesse saído pra um encontro. O Robert Violent, o rapaz que sobreviveu aos tiros, contou depois que minutos antes ele e a Stacey tinham ido até o parque e que eles passaram perto de um homem que estava encostado na parede do banheiro do parque, debaixo de uma lâmpada quebrada.

Ele diz que o sujeito parecia meio sujo, cabelo escuro bagunçado, barba por fazer e que olhava fixo pros dois. Eles passearam ali uns 5 minutos E depois voltaram pro carro, talvez intimidados. Nunca ficou esclarecido na verdade quem era aquele homem misterioso. Porém, 10 dias depois disso tudo, a polícia prendeu um homem chamado David Berkowitz dentro do carro dele na rua em frente ao prédio onde ele morava. Ele tinha 1,80m, 90kg, cabelo escuro cacheado, e a primeira coisa que ele disse pros detetives foi: Vocês me pegaram.

E a segunda? Por que demoraram tanto? Eu sou Marcos Campos e hoje eu apresento o episódio especial sobre o David Berkowitz, o filho de Sam, o atirador que aterrorizou Nova York durante um ano inteiro nos anos 70. E eu já posso adiantar que essa é uma investigação bem complexa, com várias perguntas, várias camadas. Afinal de contas, quem era o tal homem de cabelo loiro e o outro mais alto de cabelo escuro? Será que eram a mesma pessoa?

Como que um aviso que foi levado à polícia 7 semanas antes daquela madrugada sangrenta não foi investigado como talvez devesse? E por que nos anos seguintes, cada vez que um nome novo era ligado a esse caso enorme, essa pessoa aparecia morta? É isso que a gente vai investigar em detalhes hoje juntos. Então já se ajeita, pega um lanche, um café, fica confortável, porque hoje é aquele episódio longão. Então vamos aos fatos. O Ano do Terror.

Primeiro, vamos contextualizar a cidade de Nova York. A cidade é dividida em 5 grandes regiões. Manhattan é a Ilha dos Arranha-Céus, a mais famosa e que aparece nos filmes, não é? Em volta dela ficam o Bronx, ao norte, o Queens e o Brooklyn, a leste, e Staten Island, mais afastada. Cada uma dessas regiões é enorme e cada uma tem o próprio promotor-chefe eleito pelo voto, que decide quem vai ou não não ser processado ali. E essa história começa no Bronx, no dia 29 de julho de 1976, exatamente à 1:10 da madrugada.

Donna Lauria, uma jovem de 18 anos, técnica de ambulância, está dentro do carro com uma amiga, Jodie, na frente da casa dos pais dela. Elas estão ali conversando um pouco antes de se despedirem. Um homem se aproxima do carro pelo lado da Donna, tira um revólver de dentro de um saco de papel pardo e atira 3 vezes. A Donna morre ali mesmo. E a Jode leva um tiro na coxa e sobrevive. A arma era um Bulldog calibre .44, um revólver de cano curto e de grosso calibre, feito pra derrubar um homem com um tiro só.

A polícia tratou aquilo ali como algo isolado, talvez uma briga envolvendo o namorado, talvez só um engano. Num relatório da polícia, que nunca foi divulgado, um detetive anotou que um conhecido da dona tinha comentado dias antes que ela tinha uma semana de vida. Esse rapaz foi ouvido pela polícia, só que ele apresentou um álibi. A Jodi também disse que não era ele e que ficou por isso mesmo a investigação. Ninguém nunca voltou nessa pista. 3 meses depois, agora no Queens, um rapaz chamado Cal Denaro leva um tiro na nuca dentro de um Fusca com uma amiga que ele tinha acabado de conhecer num bar, a Rosemary Keenan, de 18 anos de idade, filha de um detetive da própria polícia lá de Nova York.

Ele sobrevive, mas fica com sequelas, passa 3 semanas no hospital e depois precisa colocar uma placa de metal na cabeça. Já a moça, Rosemary, não é atingida. E apesar de ela ser filha de policial, apesar de o pai dela ter entrado pessoalmente na investigação disso, aquilo ali também não deu em nada, porque os dois foram pegos de surpresa e não viram o atirador. Também não havia nenhuma testemunha, nenhum vizinho que tivesse visto alguma coisa.

Em novembro de 1971, 2 adolescentes, Joane Lomino e Dona Demesi, são baleadas na escada de casa por um homem que se aproximou perguntando de um endereço. A Joane, de 18 anos, fica paraplégica. Já a Dona, de 16 anos, leva um tiro no pescoço, passa 3 semanas de colar cervical, mas se recupera. A descrição que as duas deram foi de um homem loiro de cabelo liso. Em janeiro de 1977, é a vez de Christine Freund, uma secretária de de 26 anos que namorava um barman chamado John Dio.

Duas noites antes, o telefone da casa dela tocou duas vezes e uma voz de homem perguntou: Você é a Christine? Mora na Linden Street? Ela disse que era casada com um policial e desligou meio com medo. No sábado, ela e o John saíram pra ver o filme Rocky e quando estavam estacionando o carro perto do cinema, ele reparou num carro amarelo que parou logo atrás, com os faróis acesos, com dois homens dentro. Um deles desceu e ficou olhando os dois.

O John não deu importância na hora. Depois do filme, os dois foram a um bar ali perto e na saída o John esbarrou num homem de capa de chuva bege que vinha entrando ali. Aquilo foi banal, um desculpa de cada lado e pronto. Fazia 10 graus abaixo de zero naquela noite. Os dois voltaram pro carro, que estava no mesmo lugar. A Christine reclamou do frio e no rádio tocava Dancing Queen do ABBA. Passava da meia-noite e meia quando o vidro do lado dela explodiu com 3 tiros.

O John saiu do carro gritando pra rua: Eles atiraram nela! Eles atiraram na minha namorada! A Christine morreu no hospital algumas horas depois. Em março, na mesma vizinhança, Virginia Voskerichian, estudante de 19 anos, é morta com um tiro no rosto voltando da faculdade. Já em abril, Valentina Suriani e também Alexander Issô morrem dentro de um carro no Bronx, a 4 quarteirões de onde a Dona Láuria tinha morrido. Em junho, outro casal é baleado saindo de uma na Queens.

E em julho, no Brooklyn, a Stacy e o Robert, aquele casal da cena que eu contei abrindo o episódio. Nos 5 primeiros ataques, a polícia não tinha ligado um ao outro. Foi só em março de 1977, depois da morte de Virginia, que o chefe de polícia e o prefeito de Nova York foram à televisão anunciar que a mesma arma, a .44, tinha matado Dona Lauria e também a Virginia, e que eles tinham certeza de que era o mesmo homem em todos os outros casos.

Nascia ali o assassino do calibre 44. Mas nem tudo eram flores, não havia tanta certeza assim, e até o retrato falado do atirador que já circulava era controverso. As meninas da escada diziam que ele era um homem loiro, de cabelo liso, repartido de lado. Outras pessoas diziam que era um homem de cabelo escuro e permanente. Assim, jornais chegaram a publicar dois desenhos lado a lado e a legenda dizia: suspeitos, no plural, e ainda tinha o exame de balística.

Segundo Maury Terry, um ex-reporter que eu já vou apresentar melhor pra você daqui a pouco, analisou os documentos da polícia, esse exame era mais fraco do que se pensava, tá? Das 17 balas recolhidas nos casos, só 2 estavam em condições de comparação, e documentos oficiais que vieram à tona anos depois mostraram que a polícia suspeitava fortemente da mesma arma em todos os ataques, mas que a prova na verdade era inconclusiva. A única certeza nesse momento é que a cidade estava em pânico.

Os jornais tinham reparado que quase todas as moças atingidas tinham cabelo comprido e escuro e espalharam a ideia de que o atirador escolhia as vítimas por causa disso. O resultado é que mulheres de Nova York inteira começaram a cortar o cabelo curto e as perucas loiras voltaram nas lojas. A polícia montou uma força-tarefa com 300 homens. E tinha também mais um detalhe, tá? O assassino gostava de escrever cartas. Pois é, a primeira delas foi deixada ao lado do carro do caso da Valentina e do Alexander.

Ela era endereçada ao capitão que comandava a investigação. Eram letras de forma inclinadas e dizia o seguinte: eu sou o filho de Sam. O homem misterioso contava que o pai dele, Sam, era um bêbado que o trancava na garagem e mandava ele sair para matar. E a carta era assinada como Mr. Monster, que significa Senhor Monstro em português. A segunda carta foi enviada pelo correio agora, no começo de junho, pra Jimmy Breslin, o colunista do jornal mais lido da cidade à época.

E começava da seguinte forma: Olá das sarjetas de Nova York, que estão cheias de fezes de cachorro, vômito, vinho velho, urina e sangue. No final, ele deixava uma lista de nomes pelos quais gostaria de ser lembrado. O Duque da Morte, o perverso Rei Wicker, os 22 Discípulos do Inferno e um tal de John Wittes, estuprador e sufocador de meninas. E embaixo, um desenho, um X com setas nas pontas, que virou a assinatura dele. Ninguém entendeu muito bem o que aquilo significava naquele momento, mas um homem chamado Maury Terry, 31 anos, que morava a meia hora de carro do Bronx, Onde tudo tinha começado, recortou essa carta de jornal e guardou. A prisão.

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MCMarcos Campos

Esse Maury Terry era editor de uma revista interna da IBM. Ele era um ex-reporter e morava em White Plains, uma cidade do condado de Westchester, que é uma região ali de classe média colada ao norte de Nova York. Ele não tinha nada a ver com o caso, mas ele ia ficar muito tempo no caso. Lembra-se que eu comentei? Sobre ele agora há pouco na história? Pois é, esse mesmo cara. Terry tava inclusive de férias quando aconteceu o caso da Stacey Moskovitz, mas por alguma razão passou a semana seguinte como a maioria das pessoas, curioso, acompanhando a caçada ao homem misterioso.

Como eu disse, mal sabia o Terry que ele ia ficar um tempão nesse caso. Mas a caçada oficialmente, digamos, nem durou tanto assim, viu? E acabou por causa de uma multa de trânsito. Lembra da Cacília Davis, a senhora que disse ter visto um homem? Tiraram uma multa do para-brisa do carro minutos antes dos tiros, aquilo que eu contei lá no começo? Pois é, os detetives foram atrás dessa informação, mas não acharam registro de multa nenhuma.

Só que no dia 9 de agosto eles finalmente encontraram aquela multa, muito em função da pressão que já tava rolando sobre o caso, e inclusive porque a Cacília estava ameaçando ir pra imprensa contar tudo, que talvez a polícia não tivesse fazendo o que deveria. Bom, e essa multa estava atrelada a um um Ford Galax creme registrado no nome de David Berkowitz, com endereço em Yonkers. Yonkers é uma cidade de uns 200 mil habitantes grudada na fronteira norte de Nova York.

Praticamente você atravessa a rua, sai do Bronx e já tá lá em Yonkers. Só que já é outro município, outra polícia, outro condado. E esse condado é o de Westchester, o mesmo onde morava o Maury Terry, justamente o homem que estava acompanhando o caso e queria acompanhar por muito tempo. Na noite de 9 de agosto, quando a polícia finalmente conseguiu fazer essa conexão com a multa, um detetive lá do Brooklyn ligou para a polícia de Yonkers e disse que precisava que alguém fosse avisar o tal David Berkowitz de que a polícia precisava falar com ele.

Eles achavam que ele podia ser uma boa testemunha, não é? Quem atendeu o telefone foi a operadora da central de delegacia de Yonkers. Estamos falando da década de 70, tá, galera? E quando o detetive falou o nome David Berkowitz, a operadora soltou um: Ah não, ah não. Essa operadora se chamava Whit Carr e ela era filha de um homem chamado Sam Carr. Esse Sam Carr era um aposentado que morava a poucas quadras do prédio onde vivia o tal David Berkowitz.

E desde a Páscoa daquele ano, de 1977, ele vinha recebendo cartas anônimas reclamando do latido do cachorro dele. E essas cartas eram cada vez mais ameaçadoras. Aí, em abril, alguém atirou no cachorro dele. Já em junho, uma família da cidade vizinha que tinha alugado um quarto para o Berkovits no ano anterior, ou seja, os antigos locadores dele, recebeu um cartão bem estranho assinado Sam e Francis, com o endereço da casa do Sankar como remetente.

A mulher dessa família evidentemente ligou para o Sankar, e aí os dois começaram a conversar, trocar figurinhas sobre as cartas e compararam as coisas. Evidentemente a letra era a mesma. E aí O filho dessa família lembrou que o antigo inquilino odiava o cachorro deles também. E a mãe foi na lista telefônica atrás dele, o David Berkowitz, e achou o endereço novo, em Yonkers. Eles começaram a conectar as coisas e no dia 10 de junho de 1977, o senhor Sankar foi pra delegacia de Yonkers contar tudo o que eles tinham descoberto.

Isso aconteceu 7 semanas antes da morte da Stacey Moskovitz. E até então ninguém tinha ido bater na porta do tal David Berkowitz, mas no dia 10 de agosto a polícia finalmente foi. Quando os detetives chegaram, encontraram o tal Galax creme na Rua Ford. Um deles olhou pela janela e viu uma arma dentro do carro. Então abriu o carro meio ali à força, sem mandado mesmo, e no porta-luvas ele encontrou uma carta que anunciava um próximo ataque.

Os detetives ficaram ali na rua esperando a tarde inteira até que às 10 da noite o Berkowitz saiu do prédio carregando ali um saco saco de papel pardo. Ele entrou no carro e foi cercado pela polícia. Naquele saco ali tinha uma arma, o Dog .44, aquela mesma arma que eu já contei que tinha sido comparada com as balas recuperadas nas cenas dos crimes. O Berkowitz sorriu para os policiais e soltou justamente aquela frase que eu contei lá na abertura: vocês me pegaram, por que demoraram tanto?

Naquela mesma madrugada do dia 11 de agosto de 77, promotores das 3 regiões de Nova York onde tinham havido ataques o Brooklyn, o Bronx e Queens, interrogaram o David, um de cada vez. Segundo as anotações do próprio Terry, o ex-reporter que estava acompanhando o caso, cada um entrevistou por um período curto, 20, 30, 40 minutos. Ou seja, a entrevista toda com todos esses oficiais demorou mais ou menos 1 hora e meia. Tudo isso pra esclarecer 8 ataques e 6 mortes.

E o Berkowitz assumiu tudo. Ele contou que o tal Sam das cartas era o Sankar, aquele vizinho aposentado que tinha ido na delegacia em junho para contar o que ele tinha descoberto junto com a antiga mulher que alugava uma casa para o Berkowitz. Só que segundo Berkowitz, o Sankar não era um aposentado qualquer não, tá? Era um homem de 6.000 anos que dava as ordens de matar através do cachorro. As palavras dele, veja: não é um cachorro de verdade, só parece um cachorro.

Enquanto isso, alguns detetives foram ao apartamento do David, lá em Yonkers, e o que eles encontraram lá batia perfeitamente com aquela história de maluco que ele tinha acabado de contar na delegacia. As paredes estavam rabiscadas com frases sobre demônios, tinha um buraco na parede, lixo espalhado por todo o apartamento, um colchão no chão. E quando a história caiu na imprensa, dá pra imaginar, não é? Todo mundo já tinha o quadro completo daquele assassino.

Ele era um funcionário dos Correios solitário que ouvia vozes de um cachorro. E o inspetor que chefiava ali toda a força-tarefa do caso escreveu: caso encerrado numa lousa. E até pousou pra foto. Mas simples assim será? Quem era na verdade o homem por trás desse assassino? O David Berkowitz tinha 24 anos à época. Ele nasceu no Brooklyn, mas ele nasceu com um outro nome, tá? Richard David Falco. Falco era o sobrenome do ex-marido da mãe dele, porque o pai de verdade era um homem casado que nunca assumiu o filho.

Mas apesar de ter ficado com o sobrenome do ex-marido da mãe, ele não ficou com a mãe. Ainda bebê, ele foi entregue pra adoção e acabou criado no Bronx por um casal judeu, Nathan e Per Berkowitz. E aí então ele passou a ser o David Berkowitz. A Per, a mãe adotiva, morreu quando ele tinha 14 anos. Então com 18 anos ele foi pro exército, chegou a servir na Coreia e por lá experimentou LSD. Quando ele voltou pra região de Nova York, ele já tinha se convertido numa igreja batista.

Aos 21 anos ele resolveu procurar então a mãe biológica, aquela que o entregou para adoção. E ele achou, chegou a mandar uma carta de Dia das Mães para ela dizendo: você foi minha mãe de um jeito muito especial. E assinou como RF, ou seja, Richard Falco. Mais ou menos nessa mesma época, por volta de maio de 1975, segundo o próprio David contaria muitos anos depois, ele foi a uma festa no Bronx e conheceu um grupo de pessoas. Ou seja, o tal funcionário dos Correios solitário que ouvia vozes de cachorro, na verdade parece que ele tinha um grupo social, um grupo de amigos.

Bom, que grupo era esse e o que eles faziam juntos eu vou contar mais para frente. Lembra que o inspetor-chefe disse que o caso tava encerrado, foto e tudo mais? Só que tinha um problema aí, tá? O Terry, quando conseguiu ler as transcrições das confissões com calma, ele apontou várias coisas que não batiam. O Cal Denaro, o rapaz que levou o tiro na nuca dentro do Fusca, então o Fusca era azul marinho, mas o Berkowitz disse que era vermelho.

Lembra das duas adolescentes baleadas na escada de casa? Então, o Berkowitz disse que as duas estavam correndo na direção dele. Só que a Joanne, aquela que ficou paraplégica, contou que estava de costas quando foi atingida, e a bala realmente entrou pelas costas dela. A Christine Freund, a moça que morreu depois do cinema, lembra? Bom, essa sim, o Berkowitz descreveu certinho aquele esbarrão que aconteceu na entrada do bar depois do cinema.

O namorado da Christine confirmou depois que o tal homem de capa bege que ele viu era mesmo o Berkowitz. Até aí tudo bem. Mas o Berkowitz disse que atirou escondido atrás de uma árvore. Só que não existia nenhuma árvore naquele local. E ele também nunca mencionou aquele carro amarelo com dois homens dentro que o John, o namorado da Christine, disse ter visto parado atrás deles. Nem explicou aquele telefonema pra casa dela dois dias antes.

Lembra disso? Aqueles telefonemas ameaçadores dizendo que ela tinha mais uma semana? Pois é. Bom, além de tudo isso, tinha um pior problema. E ele estava justamente no caso da Stacey Moskovitz, aquele que abriu o episódio. A testemunha mais importante para a promotoria nesse caso aí era a senhora Cacília Davis, ela que saiu com o cachorrinho lá e tal. E o que ela disse ter visto é o que a gente viu, não é? Supostamente o Berkowitz tirando uma multa do carro e indo embora depois que a viatura da polícia passou, por volta das 2:20 da madrugada.

E depois ela teria cruzado com o suposto Berkowitz a pé, não é, uns 15 minutos mais tarde, na direção do parque. Só que segundo Tommy Zeno, aquele rapaz que viu o atirador, então para ele o atirador estava dentro de um Fusca amarelo no parque havia já quase uma hora. Então pela lógica das testemunhas não dava para ser a mesma pessoa, não é? Lembra claramente que o Tommy disse, né, que havia um carro parado, que o atirador saiu de perto dele ali?

Pois é. E aí vem um detalhe bem importante para o caso. Na madrugada da prisão, ou seja, no dia 11, alguns repórteres foram até a casa da dona Cacília, levaram chamaram a mulher para redação e ela contou tudo que ela sabia. Mas quando o jornal saiu com o depoimento dela assinado, a parte em que o Berkowitz tira a multa do carro, entra no carro e vai ali atrás da polícia, depois vira para uma esquina— pois é, segundo a própria Cacília contou ao Terry, o nosso repórter investigativo aí, tempos depois, esse trecho específico do depoimento dela tinha sido cortado da matéria depois que um detetive apareceu na redação naquela noite.

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MCMarcos Campos

Bom, o Terry, como eu disse, ia ficar um tempão no caso, né? E ele foi o primeiro a começar a puxar os fios soltos dessa história. E ele começou pelo mapa. Na manhã da prisão, quando o rádio deu o endereço do Berkovitz em Yonkers, o Terry ligou pro pai dele, que conhecia bem ali a cidade, e perguntou o que tinha perto daquele prédio. O pai abriu um mapa e disse: atrás do prédio passa uma rua chamada Wicker Street. Não tinha Google Maps não, tá, galera?

Wicker. Lembra dessa palavra? Da lista de nomes lá no final daquela carta que ele mandou para o colunista no começo da história? Pois é, um deles era o perverso Rei Wicker. A rua do Rei Wicker ficava atrás da casa do homem que tinha acabado de ser preso e tava confessando todos os crimes. Aí o Terry foi para a lista telefônica. O endereço do Sankar, o aposentado lá do cachorro, né, tinha um outro nome registrado: John Wheat. O Wheat era o nome da família.

A filha, aquela operadora do ah não, lembra? Também se chamava assim. O Sankar tinha dois filhos homens, o John e o Michael, e essa filha. Lembra do último nome daquela lista da carta? John Wheaties, estuprador e sufocador de meninas? Wheaties é uma marca de cereal matinal americano, tá? Tipo sucrilhos. E o apelido do John, Terry descobriu por um conhecido dele, que era justamente Wheaties. Ou seja, a carta que a cidade inteira tinha lido e ficado com medo, e ninguém tinha entendido na verdade, trazia o nome da rua de trás do Berkowitz e o apelido do filho do vizinho dele.

Inclusive o vizinho que ele chamava de Sam, né, o filho de Sam. Só que enquanto o Terry mexia nisso sozinho, a cidade seguia com a versão de caso encerrado. Em setembro então, 5 semanas depois da prisão do Berkowitz, o New York Post publicou uma carta que o Berkowitz tinha um escrito da cela, datado de 19 de agosto. Ela dizia o seguinte: há outros filhos por aí, que Deus ajude o mundo. A polícia disse que era conversa de maluco.

No dia seguinte, um carteiro de Yonkers chamado Andrew Dupee, de 33 anos, desceu ao porão da casa enquanto as duas filhas pequenas estavam tomando banho no andar de cima e tirou a própria vida com uma espingarda. A rota desse carteiro incluía o prédio do Berkowitz, a Wicker Street, e também a casa do Sankar. Pelo que a família e os colegas dele contaram ao Terry anos depois, desde julho ele andava dizendo no trabalho que tinha medo de morrer.

E o vizinho lembra de uma frase que ele tinha dito, que às vezes um carteiro descobre coisas sobre as pessoas da rota que seria melhor não saber. O Terry só ficaria sabendo dessa história 2 anos depois. Em dezembro daquele ano, o Terry conheceu um sujeito que ia virar parceiro dele nessa investigação. O Dean Mitiger, um ex-policial de Nova York que tinha largado a farda para virar repórter freelancer do New York Post. O Mitiger tinha um contato dentro do hospital psiquiátrico onde o Berkowitz estava preso esperando julgamento.

E o Terry resolveu fazer um teste. Mandou um bilhete para o Berkowitz por esse contato dizendo o seguinte: sabemos que você está envolvido com John Carr, o filho do Sam, não é? Segundo o relato que voltou de dentro do hospital, o Berkowitz leu o bilhete e ficou ficou branco e caiu sentado na cama. Então, no Natal daquele ano, aconteceu uma coincidência dessas que, olha, parece até invenção, tá? Uma prima do Terry comentou uma coisa que ela tinha esquecido completamente.

Você conheceu o John Carr, ela tava dizendo para o Terry. Ele estudou com a gente no primeiro ano do colégio, um garoto de cabelo cor de areia, meio deslocado. O homem que o Terry estava procurando tinha sido colega de classe dele. Então o Terry e o Mittiger, o novo parceiro dele, passaram aquele inverno todo tentando descobrir onde o John Carr estava, porque a pergunta que os dois tinham na cabeça era bem simples: se o apelido do John Carr estava numa carta escrita pelo filho de Sam, será que ele também tinha participado dos ataques e era um dos outros filhos que o Berkowitz tinha dito?

Será que o David Berkowitz não tinha agido sozinho? E o John Carr não estava em Yonkers quando eles foram procurar, tá? Ele tinha servido 12 anos na Força Aérea e ele morava em Minot, uma cidadezinha em Dakota do Norte. Lá no extremo norte dos Estados Unidos, a quase 3.000 km de Nova York. Os dois levaram o nome do John Carr para a polícia e para o promotor do Brooklyn, que era ali quem tinha o caso da Stacey Moskovitz. Ninguém ali tinha ouvido falar nele.

Aí, em 11 de fevereiro de 1978, o Terry passou de carro na frente da casa dos Carr e viu na garagem um carro com placa de Dakota do Norte. O John Carr talvez estivesse ali em Yonkers. O Terry avisou as autoridades e ficou vigiando o carro à distância durante aquela semana. No sábado seguinte a isso, a mãe do Terry contou pra ele que tinha visto no jornal, na coluna de falecimentos, o nome Jonker, de Yonkers, que tinha morrido em Minot, lá na Dakota do Norte, na quinta-feira.

Segundo a polícia de lá, ele tinha voltado pra Dakota do Norte naquela quinta-feira e morreu naquela mesma noite com um tiro de rifle na cabeça, na casa da namorada, dentro da base aérea de Minot. Pelo que os policiais de lá contaram ao Terry quando ele foi se informar, o rifle estava apoiado na perna dele e não havia bilhete. A morte então foi classificada como se ele tivesse feito aquilo com ele mesmo. Portanto, caso encerrado.

Isso foi 5 dias depois de o Terry ter visto o carro lá na garagem da família Carr em Yonkers. Mas então todo mundo deve estar se perguntando: será que esse John Carr tinha a ver mesmo com os ataques? Bom, o John Carr tinha 30 anos, cabelo cor de areia, loiro, né, como descreviam, usava jaqueta estilo militar. E segundo o que o Terry apurou, com gente conhecida ali, que conhecia ele na verdade, ele era canhoto. Então lembra do atirador das duas adolescentes, aquele retrato falado do homem loiro de cabelo liso?

Pois é, um vizinho que viu, teria visto, né, esse homem fugir daquela cena de crime, disse à polícia que ele corria com a arma na mão esquerda e o David Berkowitz destro. Ou seja, para o Terry, o retrato falado de um dos ataques batia muito mais com o John Cardo que com o homem que estava preso. Terry e o Mittiger escreveram então uma matéria para o New York Post contando tudo isso: quem era o John Carr, o apelido na carta, a morte lá em Dakota do Norte e a suspeita de que o Berkowitz não tinha agido sozinho.

Só que o jornal ficou com medo de publicar isso aí. Um repórter ligou para o escritório do promotor do Brooklyn e a resposta foi que eles tendiam a descartar qualquer ligação, né, uma ligação aí entre o John Carr e o caso do assassino do Calibre 44. Com isso, a redação cortou da matéria quase tudo que apontava o John Carr ali como uma peça de uma possível investigação. O que acabou saindo na capa em 22 de fevereiro de 78 foi uma manchete assim: Filho do verdadeiro Sam tira a própria vida.

Ou seja, para quem leu aquilo ali era só uma curiosidade mórbida. E mesmo assim, a polícia e os promotores caíram em cima do jornal que publicou. O editor disse para o Terry: porrada de todo policial e promotor da cidade por publicar isso. Puxaram o tapete dele, acabou. E não acabou só a matéria não, tá? 9 horas depois dessa matéria sair, o Mittiger, o parceiro aí do nosso Terry, foi preso. Motivo? Bom, meses antes, o New York Post tinha pago um guarda para fotografar o Berkowitz dormindo na cela e estampou essas fotos aí na capa com a manchete: Sam dorme.

Quem tinha feito o contato com esse guarda aí era o Mittiger, e foi ele quem recebeu a acusação de suborno e pagou o O processo já estava pronto havia dias, mas a ordem de prisão só foi cumprida naquela manhã. Coincidência ou não, não se sabe. E o Mittiger só seria absolvido disso aí 2 anos depois, quando a justiça entendeu que na verdade quem deveria responder era o jornal e não ele. Bom, em 8 de maio de 78, o David Berkowitz se declarou culpado de todos aqueles ataques, como um assassino solitário, sem parceiro. 2 semanas depois, na primeira audiência de sentença, ele tumultuou o tribunal gritando ofensas contra Stacy Moskovitz, e a sessão teve que ser adiada até.

No fim, em 12 de junho de 78, ele foi condenado a 6 penas de 25 anos à prisão perpétua, uma para cada morte. A imprensa somou tudo e se falou em 365 anos, mas na prática, pela lei de Nova York, ele ficou elegível à liberdade condicional depois de 25 anos já. Mas essa liberdade vem sendo negada desde então. E o caso, como eu já tinha comentado, naquele momento o julgamento foi oficialmente encerrado. O que Dakota sabia? Em outubro de 78, o Terry conseguiu entrevistar o Berkowitz no hospital psiquiátrico do estado onde ele estava internado.

O Berkowitz nessa altura já estava com 25 anos de idade, e nessa entrevista ele falou mais do que já tinha falado com os promotores do caso, viu? Ele admitiu que conhecia o John e o Michael Carr, ou seja, os filhos do Sam, e admitiu que fazia parte de um grupo um coven, que é aí como eles chamam, sabe, um grupo aí de bruxaria. Disse que eram centenas de pessoas e falou inclusive que as pistas que ele tinha deixado na carta sobre onde ele morava foram deixadas de propósito.

Só que durante toda essa entrevista, que começou de manhã e foi até a tarde, houve uma oscilação no que ele falava e nas emoções dele. Ele mudou de ideia, disse que não tinha dito aquilo, disse que o advogado que estava presente ali na entrevista tava com segundas intenções, ele ficava em silêncio, em certo momento começou até a chorar. E sobre a Stacey Moskovitz, ele insistiu que tinha atirado sozinho. Depois dessa entrevista, o Berkowitz saiu do hospital psiquiátrico e foi transferido para um presídio de segurança máxima.

E foi lá que menos de um ano depois, em julho de 1979, outro detento cortou a garganta dele com 56 pontos. 2 meses antes, o advogado do Berkowitz já tinha avisado a administração da penitenciária que havia uma ameaça contra a vida dele. O Berkowitz sobreviveu a esse Enquanto isso, o Terry não tinha sossegado. Ele ainda estava querendo entender a conexão do John Carr com o David, não é? Então, em agosto de 79, ele viajou para Minot, lá em Dakota do Norte, onde o John tinha morrido, não é?

E junto dele foi um detetive da homicídios do Bronx chamado Hank Sinnot, que tinha se interessado pelo caso aí por conta própria, conseguiu uma autorização dos chefes dele e foi junto. E lá em Minot, o Terry ficou sabendo que a história do John Carr era conhecida de todo mundo. As pessoas contaram que o John frequentava um grupo que fazia rituais numa fazenda, que matava cachorros, que falava de demônios. Um casal que foi ouvido pelo Terry e pelo Sinnott contou que numa noite de fevereiro de 77, o John Carr desenhou um símbolo numa lista telefônica.

Era um X com setas nas pontas, misturado com os sinais de Marte e Vênus. Esse era o mesmo símbolo que 4 meses depois ia aparecer no final daquela carta pro colunista Jimmy Breslin, lembra? Lá em Nova York. Berk, assinatura do filho de Sam. O tenente do xerife do condado lá contou para o Terry que ele sabia de tudo isso desde fevereiro de 78. Nos dias seguintes à morte do John, ele tinha conversado com a namorada dele e com os amigos e tinha descoberto que o John conhecia mesmo o Berkowitz e até chamava o David de Berk, apelido carinhoso.

E esse tenente disse que tinha mandado tudo isso, né, ou seja, que ele encontrou, para o xerife de Westchester, aquele condado onde o David morava. O xerife lá de Westchester, por sua vez, disse que repassou tudo ao escritório do promotor do Brooklyn em questão de dias. E o promotor do Queens, que tinha 4 desses ataques nas mãos, disse ao Terry que nada disso jamais passou pelas mãos dele. Ou seja, era um empurra-empurra, não é?

Quando Berkowitz se declarou culpado em maio de 78, o caso foi dado como encerrado. Essa informação já estava em Nova York havia quase 3 meses. Só que a história definitivamente não parou por aí. Aliás, a história não terminava definitivamente O segundo filho. Quando Terry e o Sinnot, o detetive lá que tava com ele, né, voltaram lá de Minot, o Sinnot relatou tudo aos superiores dele. Um capitão da polícia de Nova York escreveu um relatório confidencial pedindo a reabertura do caso agora, e a investigação recomeçou em segredo no fim de agosto de 79.

Dessa vez, os detetives foram atrás do outro filho do Sankar, o Michael, irmão do John. O Michael tinha 27 anos, ele trabalhava como designer e segundo o Terry tinha acabado de voltar da Flórida, onde ficava a sede da Cientologia, que é uma organização religiosa americana bastante controversa, da qual ele fazia parte. Só que na madrugada de 4 de outubro de 79, o carro do Michael Carr bateu num poste numa avenida de Manhattan e ele perdeu a vida.

Pelo que o detetive Sinotti e o Terry levantaram no local, o carro estava a mais de 120 por hora e não havia marca de freio no asfalto. Ele tinha bebido, isso deu ali nos exames, mas onde ele tinha passado as últimas 10 horas de vida, Terry não descobriu. 8 dias depois dessa morte, o jornal lá de Westchester, para onde o Terry tinha passado a escrever, estampou a manchete: Polícia de Nova York reabre o caso do filho de Sam. A polícia de Nova York oficialmente nunca reconheceu essa reabertura, no entanto, tá?

Mas uma semana depois disso, o promotor do Queens também reabriu oficialmente e foi para televisão dizer que que quem tinha afirmado que o Berkowitz era um solitário sem amigos estava redondamente enganado. Então, para resumir a ópera, né, onde a gente está, os dois filhos do Sankar, o John e o Michael, estavam mortos, 20 meses de diferença entre um e outro, e cada um deles morreu pouco depois de ter o nome ligado ao caso do atirador aí, do assassino do calibre 44.

Nesse meio tempo, o Terry recebeu uma ligação de um adolescente lá de Yonkers Esse garoto contava que existia num parque ali abandonado, a 1,5 km mais ou menos inclusive de onde o prédio que tinha o apartamento do Berkowitz ficava. E esse garoto disse que ali um grupo de pessoas encapuzadas se reunia à noite com tochas. O Terry evidentemente foi até lá. No fundo desse parque tinha mesmo uma construção antiga, redonda, e que os garotos da região chamavam de Caverna do Diabo.

Nas paredes havia pentagramas, cruzes invertidas, o número 666 pintado no teto E no meio disso tudo, aquele mesmo X com setas, o símbolo do Filho de Sam. O responsável pelo abrigo de animais da cidade confirmou pro Terry que desde o ano dos ataques, pelo menos 10 pastores alemães tinham aparecido mortos naquela região. E os cachorros incomodavam o Terry por um motivo específico. Lá atrás em 77, quando ele leu as cartas do Filho de Sam pela primeira vez, um conhecido dele que estudava ocultismo tinha comentado uma coisa com ele.

Uma seita que cria pastores alemães, Process. Essa Process, galera, é uma seita aí fundada em Londres nos anos 70 por um casal que tinha saído da Cientologia. Eles pregavam que Deus e o diabo deviam ser adorados juntos, andavam com dezenas de pastores alemães, e no fim dos anos 70 passaram por São Francisco e Los Angeles, na mesma época inclusive, e nos mesmos bairros em que o Charles Manson montava a seita dele, aquela que matou a atriz Sharon Tate em 69, sabe?

Pois é. Depois disso então, a Process abriu uma sede lá em Nova York, e a partir daí o Terry passou a acreditar que o grupo de Yonkers era uma ramificação dessa seita. E foi com isso na cabeça que o Terry voltou àquela carta que foi endereçada ao colunista Jimmy Breslin, a que começava com: Olá das sarjetas de Nova York, cheias de fezes de cachorro, vômito, vinho velho, urina e sangue. Lembra? Pois é, para o Terry aquilo não era só uma provocação, era uma lista de ingredientes de um ritual satânico.

Nada disso ligava Process a crime nenhum, tá? E o Terry sabia disso, mas pelo menos dava um nome ao que ele estava caçando. Depois disso, Oberkowitz voltou a escrever cartas, mas não eram pro Terry, eram pra uma conselheira religiosa, pra aquele tenente de Dakota do Norte, pra pastores. E numa dessas cartas, em janeiro de 80 já, ele contou que o apartamento dele, aquele que estava todo rabiscado, tinha sido montado. Segundo o próprio David, dias antes de ele ser preso, os móveis foram retirados do apartamento dele de madrugada numa van E as paredes foram escritas na sequência para que o lugar parecesse a casa de um louco.

E ele dizia que a ideia não tinha sido só dele. O Terry foi conferir o que dava pra conferir, não é? O pai adotivo dele, que morava na Flórida, confirmou que o David tinha mesmo móveis naquele apartamento. Mas quando a polícia entrou, não tinha nada, não é? Uma vizinha também lembrou de ouvir um barulho estranho, tipo fazendo um buraco na parede, por volta das 5 da manhã daquele dia. E na agenda do David Berkowitz, a polícia encontrou anotações do tipo: Serviço Satânico Secreto do Sun e Local de Reunião Secreta da FALN.

Anotações completamente desconexas no meio de uma agenda toda organizada, em ordem alfabética inclusive. E essa FALN, só pra pontuar aqui, era um grupo armado de Porto Rico que fazia atentados à bomba em Nova York e que tinha ficado meses fora do noticiário até voltar às manchetes na primeira semana de agosto de 77. Ou seja, justamente dias antes da prisão do David. Pro Terry, quem escreveu aquilo ali na agenda provavelmente escreveu naquela semana e não ao longo de meses como parecia, talvez escrito às pressas como parte mesmo de um plano, de um cenário.

A Garota de Bismarck. Em outubro de 1979, aquele tenente do xerife lá de Minot, lembra? O que tinha avisado, né, as autoridades da região de Nova York, recebeu pelo correio um livro sobre bruxaria, sem remetente, com carimbo de Manhattan, no 32 páginas estavam marcadas e numa delas, na margem, alguém tinha escrito em letras de forma: Arlis Perry, caçada, perseguida e morta, seguida até a Califórnia, Universidade de Stanford. O tenente nunca tinha ouvido nem nesse nome nada daquilo.

Ele foi procurar e encontrou um caso de 5 anos atrás. A Arlis Perry era uma moça de 19 anos de Bismarck, a capital de Dakota do Norte, a uns 200 km de Ela tinha se casado com um rapaz da cidade dela que fazia graduação em Stanford, na Califórnia, então ela se mudou pra lá com ele. Na noite de 12 de outubro de 1974, um sábado, ela brigou com o marido por uma bobagem, um pneu de carro, e disse que queria ficar sozinha. Então ela foi rezar na igreja do campus.

Pouco antes da meia-noite, duas pessoas a viram ajoelhada numa fileira da frente, e pouco depois o guarda de segurança trancou as portas. Por volta das 5:40 da manhã, esse mesmo guarda, um homem chamado Stephen Crawford, encontrou uma porta lateral forçada e o corpo da Alice debaixo de um banco da igreja. Ela tinha sido espancada, estrangulada e morta com um picador de gelo cravado atrás da orelha. Tinha velas do altar colocadas sobre o corpo.

A polícia da Califórnia falou em maníaco sexual, interrogou centenas de pessoas, descartou o marido e o caso ficou sem solução. Ou seja, um crime de 5 anos antes, a quase 5 mil quilômetros de Nova York, e alguém estava dizendo pro tenente de Minot que aquilo tinha a ver com o caso do filho de Sam. E esse alguém ficou claro nas semanas seguintes: era o próprio David Berkowitz mandando recado de dentro da prisão, né, pelo intermédio aí de alguém de fora.

Porque nas cartas que ele escrevia para aquela conselheira religiosa que eu citei, uma mulher chamada Lee, o Berkowitz começou a falar da Alice Perry. Numa delas ele escreveu o seguinte: Lee, quem matou Alice Perry? Embaixo ele escreveu: PS, não se preocupe, golpe, não fui eu. Ele dizia que tinha conhecido em Nova York um homem que se gabava desse crime e que ele chamava de Manson 2, em referência evidentemente ao Charles Manson.

Aí os dois detetives da Califórnia que estavam com o caso da Alice, né, parado já há 5 anos, foram até a prisão para ouvir isso do Berkowitz pessoalmente. E ele sabia coisa que não tinha de repente saído na imprensa, sabe? Detalhes demais, a posição do golpe atrás da orelha, a grafia certa do nome dela, que os jornais sempre erravam, como era o interior da igreja. Um desses detetives aí disse depois para o Terry que aquela ali era a melhor informação que eles tinham recebido em 5 anos.

E a partir daí, o mapa do Terry cresceu, né, a investigação. Se um grupo de Dakota do Norte tinha a ver com uma garota de Bismarck morta na Califórnia, e com 2 irmãos de Yonkers, e com um carteiro também de Yonkers, ou seja, o David, aquilo não era culto de bairro, era uma rede enorme, com provavelmente a Process no tronco e o Manson num dos galhos. E o Berkowitz, quando finalmente decidiu falar pra valer, ia confirmar uma parte disso. 22 discípulos.

A partir de 1981, o Terry passou a receber cartas de dois presos que conviviam com Berkowitz na cadeia e repassavam o que ele contava lá dentro. O Terry nunca revelou o nome desses dois, tá? E quase tudo que vem daqui pra frente passou por eles. Então é uma informação de segunda mão, digamos, que vem de presos. Em outubro de 1971, um desses presos escreveu que o grupo ia fazer uma limpeza interna no Halloween. E na noite de 30 de outubro, um fotógrafo canadense chamado Ronald Sisman e também uma estudante de 20 anos que estava ali com ele foram executados com tiros na nuca num apartamento em O apartamento tinha sido revirado depois das mortes e a polícia tratou como acerto de contas de tráfico de drogas.

Semanas depois, o outro preso escreveu pro Terry: eram 22 discípulos, vocês pegaram um, sobraram 21. Aí eu pergunto, vocês lembram da carta do filho de Sam com os 22 discípulos no inferno? Pois é, e esse fotógrafo, o Sisman, segundo o que esses presos aí diziam ter ouvido do Berkowitz, era o homem que estava com a câmera na noite em que a Stacey Moskovitz foi baleada. A história que chegava ao Terry era de que aquele ataque tinha sido ser filmado de dentro de uma van para virar um filme de morte real vendido para gente rica, doente, pervertida.

Isso nunca foi comprovado e nenhuma fita jamais apareceu, tá? Os presos também falaram de um figurão que estaria por trás do grupo. Eles não sabiam o nome completo, só davam pistas, sabe? O primeiro nome era Roy, sobrenome era alguma coisa parecida com Rodan, e o homem tinha uma mansão numa cidade de praia de Long Island. Com essas pistas então, o Terry chegou a um nome: Roy Radin, que era um produtor de espetáculos, dono de um castelo de muitos quartos à beira-mar, e já tinha aparecido no noticiário por causa de uma festa na mansão, nessa mansão dele aí, em que uma suposta atriz de TV tinha sido drogada e espancada.

E tinha mais uma coisa: o Roy Radin era amigo do Sisman, do fotógrafo assassinado. Justamente. Então, em fevereiro de 83, o nome do Roy chegou ao escritório do promotor do Queens, lá em Nova York. 3 meses depois disso, o Roy foi a um jantar com uma sócia dele, uma traficante de drogas, e nunca mais foi visto vivo. O corpo só apareceu um mês depois num desfiladeiro ao norte de Los Angeles, com um tiro na nuca. O Terry conta que foi até o local onde o corpo tinha sido encontrado e ele encontrou escondido ali em meio num arbusto o que ele diz ser uma Bíblia meio que enterrada na terra.

Ali. Essa Bíblia estaria aberta no capítulo 22 de Isaías, com a capa e centenas de páginas arrancadas justamente para que ela ficasse aberta naquele ponto. E esse é um capítulo que fala de um vale da morte e que diz: comamos e bebamos porque amanhã morreremos. O Terry entregou essa Bíblia aí à polícia. O caso do Roy Radeen levou 5 anos para ser resolvido e não foi conectado a nenhuma seita, nada disso. A polícia entendeu que era mesmo um caso de tráfico de cocaína misturado com alguma coisa de Hollywood.

O Radeen estava negociando com um produtor famoso o financiamento de um filme e ao mesmo tempo brigando com aquela sócia dele, a tal traficante, pela divisão do dinheiro. Foi ela, inclusive, quem contratou o matador e mais 3 homens pra executar o Roy. Em 91, já, todos foram condenados à prisão perpétua. Já o promotor de cinema nunca foi acusado de nada, tá, e ficou em silêncio sobre o caso. Mas sabe o que é curioso nisso tudo?

É que, segundo o Terry, entre os pertences apreendidos na casa desse matador, a polícia encontrou um exemplar grifado de um livro que o Terry tinha publicado toda essa investigação. Em 1987, um ano antes dessa prisão. E o Terry suspeitava que esse tal matador era o tal Manson 2 que o Berkowitz andava falando. Suspeita que ele nunca conseguiu provar, no entanto, tá? O Berkowitz, quando foi perguntado sobre tudo isso, disse que não podia falar. O que sobrou?

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MCMarcos Campos

Em 1993, depois de 15 anos preso já cumprindo a pena que ele recebeu, o David Berkowitz aceitou dar uma entrevista. Ele já estava com quase 40 anos, tinha se convertido ao cristianismo na prisão e falou com calma. Contou que entrou nesse tal grupo em 1975, lá naquela festa do Bronx que eu mencionei lá no começo da história, lembra? Que ele foi levado pelo Michael Carr, o filho do Sam. Disse também que era um eram pouco menos de 2 dúzias de pessoas e que os 22 discípulos do inferno daquela carta eram eles mesmos, esse grupo aí.

Disse que ele pessoalmente atirou em 2 dos 8 ataques, o primeiro, o da Dona Lori, e também o do casal que morreu no Bronx, 3 mortes. Nos outros, ele disse que teve algum papel, mas que não foi o atirador. Disse que quem atirou no Caldenaro, o rapaz lá do Fusca, foi uma mulher. Que mulher? Bom, isso ele nunca revelou. Sobre a noite da Stacey Moskovitz, aquela da abertura do episódio, ele disse que o Fusca amarelo que o Tommy Zaino viu era um carro de um uso comum desse grupo satânico e que quem dirigia naquela noite era uma mulher de Westchester, de cabelo loiro liso, e que era cabelo dela mesmo, tá, não uma peruca.

O Berkovitz contou que tentou cancelar esse ataque aí por causa da multa, né, que a polícia deu para ele ali, só que ele perdeu essa discussão com o grupo satânico e recebeu a ordem de voltar para garantir que a polícia tinha ido embora. Ou seja, lembra da Cacília Davis, não é? A senhora que cruzou com ele a pé indo na direção do parque. Pois é, segundo o próprio Berkowitz, ele estava ali só para fazer essa conferência da polícia.

E sobre quem puxou o gatilho contra Stacy, ele disse que foi um amigo do John Carr que tinha vindo de Dakota do Norte. Também nunca deu o nome e ninguém nunca foi acusado por isso. E isso, aliás, não explica o Tommy. Ele viu o cabelo loiro em quem atirou e não quem dirigia, não é? Em 1996, já, a polícia de Yonkers A mesma polícia que tinha ignorado o aviso do Sankar lá atrás em 77 abriu uma investigação própria e passou 2 anos ouvindo Berkowitz, ex-integrantes do tal grupo, testemunhas.

E no início desse mesmo ano de 1996, um homem de quem eu ainda não falei, que o Terry perseguia havia anos e que ele acreditava ser o chefe de toda essa seita, um homem cujo nome o Terry nunca revelou, morreu de causas naturais aos 76 anos. 6 anos. Segundo Terry, um detetive de Yonkers foi ao velório e contou ter visto que no caixão desse homem misterioso havia um rosário, ele tava segurando com crucifixo virado para baixo, e que ao redor dele havia rosas pretas e roxas.

Em 98, já, a investigação de Yonkers foi suspensa sem nenhuma acusação. Para o Terry, a conclusão dessa investigação cabia numa palavra só: conspiração. Só que a polícia de Nova York nunca voltou atrás na decisão dela, tá, lá de quando o Berkowitz fato foi preso. A versão oficial continua sendo aquela apresentada em 77: um homem, uma arma, um assassino solitário, um serial killer. E assim ficou. E já o nosso Maury Terry, o ex-reporter que na verdade se debruçou sobre o caso aí do assassino do calibre 44, morreu em 2015 com quase 70 anos e ainda investigando o caso.

Ele passou os últimos anos de vida num apartamento em Yonkers com uma máscara de oxigênio, tentando convencer um documentarista chamado chamado Joshua Zeman a filmar essa história. O Zeman realmente filmou, mas só depois que o Terry já tinha morrido. E a série está na Netflix, inclusive. Mas ele escreveu na introdução da nova edição do livro do Terry uma coisa bem controversa, eu diria, e de certo modo dura. Disse que o Terry era ao mesmo tempo um mentor que sabia tudo, mas também um narrador em quem não dava para confiar.

Que ao tentar desvendar uma conspiração, ele na verdade acabou criando uma outra. E há uma razão concreta para ele dizer isso, viu? E ela está lá na Califórnia. Lembra da Arlis Perry? Pois é, aquela que morreu na igreja. Em junho de 2018, 44 anos depois da morte dela, a polícia bateu na porta de um homem de 72 anos com mandado de busca. O DNA recolhido na roupa da Arlis, guardado todo esse tempo, tinha batido com o dele. O nome desse homem era Stephen Crawford.

Lembra dele? Pois é, o guarda de segurança, o mesmo que trancou a igreja naquela noite e que na manhã seguinte encontrou o corpo da Alice. Quando a polícia entrou na casa dele, ele tirou a própria vida. Nunca chegou a ser preso nem julgado, mas o DNA batia com o dele. E assim, a investigação deixou o caso como resolvido agora. Ou seja, no caso da Alice Perry não havia culto nenhum, não havia o tal Manson 2, aquilo sobre o Berkowitz sabia sobre a Alice Perry, né, que os detetives da Califórnia acharam a melhor pista em 5 anos, lembra?

Na verdade era tudo papo furado. Então, no final das contas, o que de fato sobra é o que está nos documentos, que o nome do David Berkowitz chegou à polícia de Yonkers 7 semanas antes da morte da Stacey Moskovitz e ninguém foi verificar. Que as confissões erraram metade dos detalhes e ninguém perguntou por quê. Talvez por causa daquele viés de confirmação de sempre, né, tentar encaixar o que eles já têm, o que eles querem que pareça.

Talvez a grande ironia dessa história esteja justamente no nome como essa história ficou conhecida, não é? Filho de Sam. Porque foi justamente o Sam quem tentou acabar com esse caso avisando a polícia. No fim, Berkowitz, que continua preso e tem mais de 70 anos hoje, foi o único que pagou por tudo. E esse, pelo menos pra mim, é sem dúvida um dos casos de serial killers mais insólitos e macabros que existem. Mas claro, eu quero saber a sua opinião, comenta aqui pra mim.

Espero que você tenha apreciado o especial sobre o David Berkowitz, o filho de Sam. É um caso extremamente complexo, com muitas camadas. Eu tentei fazer o melhor que deu. Aqui com o material que eu tinha, tá? Não esquece seu comentário, um like é muito importante para o canal. Se torne membro se puder para a gente conseguir fazer esse tipo de produção.

?Voz A

Beijos do Ruivo e até o próximo vídeo. Você cria ele, camada a camada, até ele finalmente se sentir como outono. Encontre o outono da sua forma, na Ross.

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