O Caso de True Crime Mais Polêmico da Itália - Milena Sutter
📌 O Caso Milena Sutter marcou a história criminal italiana em 1971. Entenda os detalhes do sequestro que parou Veneza.Milena Sutter, filha de um magnata, desapareceu ao sair da escola, desencadeando uma busca intensa. O caso Milena Sutter revelou uma teia de chantagem e segredos, culminando na prisão de Lorenzo Bozano, conhecido como o loiro de Veneza.Analisamos como a investigação policial conduziu as peças desse quebra-cabeça, desde as ligações anônimas até a descoberta do corpo. Este episódio detalha os erros e acertos que definiram o destino dos envolvidos em uma das maiores tragédias de True Crime da década de 70.Inscreva-se para acompanhar novas análises sobre história criminal toda semana e deixe nos comentários qual outro caso você quer ver por aqui.-------📧 Contato comercial: contato@mpcampos.com.br
Marcos Campos
- A descoberta do corpo de Milena Sutter e a autópsia inicialcorpo boiando perto de Gênova·rosto irreconhecível e abdômen envolto em cinto·autópsia no Hospital San Martino·ausência de água nos pulmões e estômago·reconhecimento do corpo por medalha e roupas
- O sequestro de Milena Sutter e o pedido de resgateMilena desaparece ao sair da escola·mãe telefona para a escola e amigos·família Sutter era rica e influente·telefonema anônimo exigindo 50 milhões de liras·confusão sobre os horários das ligações
- A condenação de Lorenzo Bozzano e sua vida após o julgamentoLorenzo absolvido em primeira instância por falta de provas·condenado à prisão perpétua em apelação·fuga para a França e extradição para a Itália·benefícios de semiliberdade e liberdade condicional·morte de Lorenzo Bozzano em 2021
- A investigação policial e o surgimento de Lorenzo Bozzano como suspeitomochila de Milena encontrada perto de canteiro de flores·diário de Milena menciona 'Cláudio'·avistamentos de um carro Spyder vermelho·Lorenzo Bozzano identificado como proprietário do carro·Lorenzo nega envolvimento e muda aparência
- As controvérsias e dúvidas sobre a culpabilidade de Lorenzo Bozzanojornalistas questionam a versão oficial·posição incomum do corpo na água·manchas de hipóstase indicam posição deitada·dificuldade de transporte do corpo por uma pessoa·Lorenzo sempre negou conhecer Milena
— Anúncios inseridos dinamicamente —
The world sees us as heroes, but they don't know what the job really costs.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
O relógio marcava mais ou menos 5:30 da tarde do dia 20 de maio de 1971, quando dois pescadores amadores encontraram uns 300 metros de uma praia perto de Gênova, na Itália, um corpo boiando na água. O rosto estava irreconhecível, mas se tratava de uma mulher com o abdômen envolto em um cinto de mergulho preto com alguns pesos de um A correnteza estava empurrando esse corpo aí na direção de uma outra praia ali da região. Os pescadores, sem condições de fazer o resgate do cadáver, acionaram a polícia e os bombeiros.
Logo, a história se espalhou e rapidamente muitas pessoas estavam na praia aguardando a chegada do corpo. Era o fim de uma história e o começo de outra igualmente assustadora e enigmática. Eu sou Marcos Campos e hoje nós vamos investigar o caso da Milena Suter, Um dos crimes de maior repercussão na história da Itália. Então já pega um café, se ajeita, porque tem muita coisa pra se falar nesse caso. E vamos aos fatos. A autópsia.
Como é de praxe nessas situações, o corpo foi imediatamente encaminhado ao necrotério, nesse caso ao necrotério do Hospital San Martino, em Gênova. Pra ser submetido a uma autópsia, que revelou informações básicas e informações miraculosas. Miraculosas porque seriam cientificamente impossíveis de serem observadas no exame do cadáver, mas elas constam no laudo da necropsia e conduziram as investigações dali em diante. Mas calma que a gente já chega nesse ponto da análise.
Primeiro, vale saber que aqueles dois pescadores acreditaram e divulgaram que o corpo pertencia a uma mergulhadora que havia morrido durante o mergulho. E em segundo lugar, foi a unidade de mergulho dos bombeiros que recuperou o corpo. Mas durante esse processo aí, o cinto que tava ali no corpo se soltou e se perdeu na água. E ele só foi reencontrado muito tarde naquela mesma noite, mas bem mais para frente. E isso, como a gente vai ver depois, compromete um pouco toda a análise e aquilo ali como prova também.
Seja como for, além do rosto desfigurado daquele corpo devido à ação dos peixes, da própria natureza, pedaços de carne também estavam faltando de outros lugares do corpo. O corpo estava seminu, mas foram encontrados vestígios de roupas, como pedaços de uma blusa florida e também um suéter amarelo. Nos tornozelos foi encontrada enrolada uma meia-calça com bordados nas bordas. A estimativa inicial de idade daquela vítima foi de cerca de 20 a 25 anos.
E como eu disse, aquele cinto que foi depois recuperado estava comprometido como evidência do caso, porque passou muitas horas ali dentro da água e fora do controle da polícia. Esse cinto foi identificado como parte de um traje de mergulho da marca Cressi Sub, que é uma fabricante desse tipo de traje de mergulho lá mesmo de Gênova. Porém, o corpo possuía outras informações pra revelar. Não havia água nos pulmões nem no estômago, indicando assim que ela provavelmente não morreu afogada, a vítima já estava morta quando foi colocada na água.
O legista afirmou que a mulher não havia sofrido violência sexual. O reconhecimento do corpo foi oficializado pelo legista Giorgio Chiosa, que assinou inclusive o laudo da autópsia junto com o perito Aldo Franchini, graças a uma medalha com o nome da vítima gravado ali no corpo, né, e outras pequenas joias que ela usava. E pra reforçar, né, toda essa questão de reconhecer o corpo, o resto das roupas também correspondia à de uma pessoa que estava desaparecida há 2 semanas quando o corpo foi encontrado, e essa pessoa era Milena Suter.
Mas a Milena não era mergulhadora, nem tinha mais de 20 anos. Na verdade, ela era uma estudante de 13 anos de idade que havia sido reportada como desaparecida no dia 6 de maio daquele ano, 14 dias antes do cadáver ser resgatado do mar. A autópsia miraculosa mostrou que a Milena provavelmente Foi morta no mesmo dia do seu sequestro, no fim daquela tarde, ou seja, na tarde do dia 6, segundo a perícia, em algum momento entre 17:30 e 18:30 da tarde, por estrangulamento.
Além disso, o assassino teria tentado enterrar o corpo no Monte Fassi, que é um morro ali nos arredores de Gênova, mas ele desistiu por alguma razão e depois jogou o corpo no mar. Aqui já dá pra pontuar algumas questões, algumas inquietações meio que surgem naturalmente, não é? Você pode comentar aqui pra mim se pensou isso também. Em relação a um corpo submerso na água há supostamente vários dias, com partes já destruídas pela ação dos elementos e dos animais, como o médico legista pôde emitir um parecer sobre ela não ter sido abusada, por exemplo?
E como ele pôde apertar tanto a hora exata da morte, uma hora, uma janela de uma hora só, após duas semanas do fato ter ocorrido e o corpo estar no mar? O sequestro de Milena Sutter. Pra entender esse caso aqui, Mais a fundo, pra tentar pelo menos entender, a gente precisa voltar 14 dias nessa história. A Milena Sutter, de 13 anos, era filha de Arturo Sutter, um empresário ítalo-suíço proprietário da empresa de mesmo nome que atuava no setor de produtos de limpeza, e também de sua esposa, a Flora van Glabeck, uma cidadã belga.
No dia 6 de maio de 71, perto das 5 horas da tarde, a Milena saiu da escola particular que frequentava, a Escola Suíça, localizada na Via Pesqueira, bem ali no centro de Gênova. Seu destino era a sua casa, onde ela já era esperada para uma aula particular de história que começaria meia hora depois disso, às 17:30. Quando a Milena não chegou em casa, a sua mãe telefonou para a escola, depois para os amigos da garota. Naquele tempo, galera, que os telefones eram fixos em residências, sabe?
O que essas pessoas que foram contatadas tinham para dizer é que a Milena teve um dia normal na escola e que saiu no horário. Alguns colegas disseram ter visto a Milena indo em direção ao ponto de ônibus no horário de saída das aulas, coisa habitual que ela sempre fazia. Ou seja, dava a entender que o que quer que tivesse acontecido com ela foi posterior à saída da escola. E a princípio, ninguém tinha observado nada de estranho ou suspeito naquela janela ali em que ela foi vista pela última vez.
Logo, com o passar das horas sem receber nenhuma notícia da filha e depois de entrar em contato com hospitais próximos, o caminho foi registrar o desaparecimento na delegacia de polícia. Claro que poderia ser uma fuga voluntária, porém a família não acreditava nessa hipótese. A intuição e o medo dos pais da Milena estavam ligados a um sequestro com o objetivo de extorquir dinheiro deles. E o que aumentava a possibilidade dessa hipótese aí eram dois fatos: a família Suter era a família, assim, sexto contribuinte, vamos dizer assim, da cidade, que mais pagava impostos.
E também alguns meses antes disso, Em 5 de outubro de 1970, um caso bem semelhante aconteceu envolvendo um rapaz chamado Sérgio Gadola, filho de outro rico empresário genovês. Os responsáveis pelo sequestro de Sérgio eram conhecidos como Grupo 22 de Outubro, terroristas que exigiram um resgate milionário. A família Gadola pagou o resgate e depois de 5 dias o jovem de 19 anos foi devolvido são e salvo. Que a partir de março de 1971, antes do sumiço da Milena, esse grupo já tinha sido desmantelado pela polícia, e o chefe desse grupo, Mário Rossi, tinha sido preso.
Pra polícia então, não poderiam ser os mesmos criminosos, mas isso não afastava a possibilidade de uma motivação financeira. Essa teoria foi confirmada, entre aspas, na manhã seguinte ao sumiço, dia 7 de maio, quando o senhor Adolfo Suter, o pai do Arturo e avô da Milena, recebeu um telefonema anônimo exigindo o resgate de 50 milhões de liras, que era a moeda Itália à época. O avô da Milena morava perto do filho, então ele correu pra avisar o filho, que logo depois recebeu o mesmo telefonema, e aqui entra uma confusão que nunca foi resolvida no caso.
Os autos do processo registraram uma chamada às 9:34, o pai de Milena, quando falou à imprensa naquele dia, disse que a ligação que ele recebeu foi por volta das 10:40. Como foram dois telefonemas, o do avô e do pai, ninguém sabe ao certo se esses horários falam da mesma ligação ou de duas ligações diferentes. Seja como for, os detetives estavam na casa e ouviram a mensagem que se deixava em uma dessas ligações. Era uma voz masculina, provavelmente gravada numa fita cassete, que dizia o seguinte: se você quer a Milena viva, vá para o primeiro canteiro de flores, Corso Itália.
O Arturo Suter relatou que não conseguiu entender o que a pessoa do outro lado da linha estava Mas a frase foi anotada por um sargento dos Carabinieri, que é a polícia italiana, que ouvia na extensão do telefone, mas ele não conseguiu gravar a chamada. Os investigadores expressaram inicialmente dúvidas, a chamada era de fato extremamente vaga, não estava claro o que significava primeiro canteiro de flores Corso Itália, também não continha qualquer elemento que confirmasse que o interlocutor doutor tinha de fato a Milena consigo, e por último, o pedido de resgate parecia muito pequeno comparado com a enorme riqueza da família.
Mas esse negócio de curso Itália, como a gente vai ver daqui a pouco, digamos que coloca uma questão aí, um dos enigmas desse caso. Aguenta aí. Obviamente que os pais estavam dispostos a pagar qualquer valor que fosse pedido. E aqui vai uma curiosidade, tá? Consta que na Itália, em 1971, Ainda não existia nenhum mecanismo de bloqueio de bens. Só décadas depois, em 1991, após uma longa onda de sequestros, foi criada uma lei que congela os bens das famílias que têm entes sequestrados.
Desse modo, essas famílias ricas deixavam de ser interessantes como fonte de lucro num crime desses. Bem, a notícia do pedido desse resgate foi transmitida à 13h30 pela RAI, que era a emissora pública nacional da Itália à época. E publicada pelos jornais, mas a comunicação dos sequestradores ficou por isso mesmo, sem detalhes, sem esclarecimentos. Na verdade, nos dias seguintes, a polícia recebeu várias outras chamadas aleatórias e que se revelaram infundadas.
Por exemplo, uma delas anunciava um motel que era esconderijo dos sequestradores, que seria, não é? A investigação acabou descobrindo que na verdade aquilo ali se tratava de uma hospedagem de alguns criminosos franceses rivais de alguns italianos num esquema de prostituição. Em outras ligações foram pedidos resgates com valores mais elevados e pessoas que alegavam estar informadas dos fatos sobre a Milena. Lamentavelmente, teve até trote e alguém que ligou imitando o choro de um bebê pra polícia, uma perda de tempo danada, e pra família, episódios lamentáveis de pura angústia e desespero.
Uma vez que esse suposto pedido de resgate não evoluiu, Os investigadores trabalharam no básico, ou seja, investigaram o passado da Milena, interrogaram os colegas dela de escola. Uma dessas meninas disse que no início de maio, ela e a Milena foram abordadas por um garoto desconhecido que sugeriu que elas fumassem alguma coisa com ele. O garoto em questão foi localizado pela polícia, mas nenhuma evidência surgiu contra ele. A última pessoa a ter visto a Milena foi um aluno da 6ª série que se lembrava dela caminhando em direção ao ponto de ônibus, mas ele disse que depois ele foi pra ali perto pra pegar o ônibus dele também e quando ele chegou, a Milena não estava no ponto.
No dia 9 de maio, 2 dias depois daquele primeiro telefonema do resgate de 50 milhões, lembra? Pois é, um policial de folga encontrou a mochila escolar da Milena Suter, ela tava completa, com tudo ali dentro, e essa mochila tava numa lixeira perto de um canteiro de flores da Corso Itália, exatamente a rua que a voz gravada tinha mencionado. Pois é, apesar da ligação apontar esse lugar, né, uma floreira, ainda não havia sido revistado esse lugar.
Porque lembra que eu comentei que a polícia disse que não tinha nada muito esclarecedor nesse telefonema? No mínimo bizarro, não é? Agora, eu não sei se dentro da mochila ou se na casa da menina os investigadores encontraram o diário dela e examinaram, evidentemente, no qual a Milena havia escrito que tinha recebido investidas de um carinha chamado Cláudio e que ela havia recusado a ser investida, mas ela havia escrito ali no mesmo diário, entre aspas, Cláudio, my love, ou seja, Cláudio, meu amor.
Contudo, essa pessoa em questão nunca foi identificada pelo caso. Poderia ser um adolescente como ela, mas também poderia ser o seu sequestrador, não é? Se hoje acontecesse isso, né, provavelmente esse Cláudio seria procurado nas redes sociais e teria talvez deixado pegadas digitais. Mas lá em 71 isso não rolou. A pista mais promissora que a polícia identificou foram os repetidos avistamentos de um carro Spyder vermelho que, a partir de abril daquele ano, circulou tanto na rua da Escola Suíça, onde a Milena estudava, quanto perto da casa da família dela.
O veículo, com capota preta e carroceria marcada por amassados, chamava atenção quando passava. Uma residente ali da vizinhança relatou que ao volante desse carro estava um indivíduo alto, robusto, com o cabelo castanho comprido, bigode e costeletas, que na opinião dessa pessoa aí vizinha parecia estar esperando alguém, olhando insistentemente pra entrada da escola e fumando nervosamente. A ideia de sigilo na investigação não existia e os jornais começaram a falar sobre o Spider Vermelho, que a polícia local identificou como um Alfa Romeo Spider Vermelho, ninguém sabe ao certo o modelo, só se sabe que o carro era registrado em nome de Lorenzo Bozzano.
O Lorenzo na verdade tinha 25 anos, pertencia à burguesia genovesa e era parente próximo de milionários donos de navios, inclusive o pai dele era funcionário da companhia de navegação Costa, que são navios de cruzeiros. Pois é, ainda em maio, o Lorenzo Bozzano foi detido e mantido na delegacia por alguns dias, As fontes não batem muito bem isso, se foram uns dias ou poucas horas.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
The world sees us as heroes, but they don't know what the job really costs.
One family of federal agents—
it's one thing to put yourself in danger, it's different when it's your family— balances duty Seja como for, ele se declarou nessa primeira conversa com a polícia inocente do caso de desaparecimento da menor Milena, negando veementemente ter estado nos locais em questão, mas supostamente não teria um álibi para aquela tarde do dia 6, nem supostamente para algumas partes da noite desse dia 6 também. Outras suspeitas surgiram contra ele devido ao fato de ele ter agendado uma consulta com um advogado criminal à época em que tava rolando a investigação.
O Lorenzo, quando perguntado sobre isso, afirmou que era apenas uma ação preventiva, porque ele sabia que as pessoas estavam falando do carro dele, o carro tava sendo descrito pelos jornais. Ele também cortou o cabelo e o bigode mudando a sua aparência em relação aos dias anteriores, quando tinha sido visto. Contudo, após o término do prazo de prisão temporária, por não haver provas suficientes contra ele, o suspeito foi liberado, liberado, mas mantido sob vigilância, acreditando-se que ele ainda pudesse estar ligado ao sequestro, talvez em conluio com um grupo de criminosos, porque parecia pra muitas pessoas improvável que aquele homem suspeito pudesse ter cometido o sequestro sozinho.
Por quê? Bom, um dos fatores, né, que surgiu aí como dúvida de ele ter agido sozinho é que a Milena Suter era fisicamente madura para a idade dela, e muito em forma física. Ela praticava vários esportes em nível competitivo. Lembram que inicialmente, quando o corpo dela foi encontrado, disseram que seria uma mulher de 20, 25 anos? Pois é, talvez por isso, pelo porte da Milena, que aos 13 anos de idade, segundo alguns relatos, estaria prestes a entrar pra seleção suíça de esqui, graças à cidadania do pai dela.
Resumindo a ópera, ela era bem atlética. Por isso se teorizou que ela seria capaz de se defender caso fosse atacada pelo Lorenzo, como um homem com as características do Lorenzo. E também parecia improvável que o veículo usado pra esse sequestro fosse um conversível Spyder de 2 lugares, tecnicamente inadequado pra esse propósito. Outro detalhe é que a área da Via Pesqueira, por onde a Milena circulava, era bastante movimentada, especialmente durante o horário escolar.
E naquele dia 6 de maio, ninguém havia notado qualquer confusão, tentativa de agressão, nada. E quando entrevistado sobre o assunto, o Arturo Suter negou categoricamente que sua filha pudesse ter entrado em um carro de um estranho. Ou seja, ela não era uma menina inocente que pudesse ser convencida a seguir com um desconhecido. Mas o que talvez soe meio estranho aí é o fato de ela não ter um segurança e que ela usasse o transporte público em função de ser herdeira de um empresário milionário e de ter um histórico recente de sequestro na cidade, concorda?
Comenta pra mim. Bom, mesmo com a alegação de inocência e nenhuma prova concreta contra ele, o Lorenzo Bozzano estava na mira da polícia. Ele continuou a negar que conhecia a Milena, mas concedeu inúmeras entrevistas parecendo assim estar contente em ser o centro das atenções desse caso, mas é percepção, tá? E percepção que circulava, né, enfim, no senso comum da época. Nisso surgiram novas testemunhas dizendo ter visto em diversas ocasiões o rapaz do tal Spider Vermelho.
A dona de um bar disse tê-lo visto várias vezes, aparentemente lendo o jornal em frente à residência dos Sutter. A governanta de um prédio próximo afirmou que ele começou a observá-la deixando essa mulher desconfortável, e depois voltou sua atenção pra casa da família do empresário. Um dia, a mesma mulher também o viu perto da escola suíça onde a Milena estudava, e a cozinheira da família Suter também afirmou ter reconhecido o rapaz das ruas.
Conclusão: ele admitiu que frequentava mesmo as ruas ali em questão, mas apenas porque se sentia atraído por algumas mulheres que trabalhavam na região. É, uma história bem estranha também, não é? Apesar de toda a circunstancialidade até aqui, quando ele fala, parece que ele mesmo tira os pingos dos is na sua história. Quando o assunto chegou à promotoria, a somatória desses vários testemunhos construiu a tese de que Lorenzo queria conhecer os hábitos da família Suter e potencialmente se familiarizar com a Milena, para depois mais facilmente atrair a menina para uma armadilha.
Foi nessa fase que nasceu na imprensa o apelido Loirinho do Spider Vermelho, quando alguns moradores disseram que tinham visto um menino loiro sentado em um Spyder vermelho amassado. Só que, como a gente viu, Lorenzo, de 25 anos, definitivamente não era loiro e até aparentava ser mais velho do que era. Apesar disso, ele era o suspeito ideal pra polícia naquele momento. Mas tudo era apenas, como eu disse, circunstancial. Pra complicar ainda mais o trabalho dos investigadores, pouco depois da descoberta da mochila da garota, no dia 9 de maio, houve um novo telefonema que reiterava, digamos, o pedido de R$50 milhões, mas solicitava que fosse entregue num lugar específico, que não era o mesmo daquele primeiro telefonema.
O pai da Milena concordou com isso e disse pra polícia que ia se encontrar com essa pessoa em questão. E ele inclusive foi e entregou R$25 milhões, prometendo a um criminoso ali que depois que a Milena fosse libertada, ele entregava o resto. Os detetives evidentemente seguiram e prenderam esse cara que recebeu o dinheiro. Ele era Mário Dini, um homem de 40 anos, sem residência fixa, que tinha antecedentes criminais por ter tentado algum tempo antes raptar uma criança de 10 anos.
Mas ficou claro durante a investigação que se tratava de um oportunista, uma mera tentativa de obter o resgate sem que ele tivesse de fato qualquer relação com o rapto da Milena. Enquanto isso, os dias foram passando, até que no dia 20 de maio aconteceu a descoberta do corpo que eu contei no início desse episódio. Na mesma noite da descoberta do corpo, por volta das 10 da noite, o Lorenzo Bozano foi preso na casa de sua mãe. A presença do cinto de mergulho no corpo de Milena levou os investigadores a agir, visto que o Bozano era notoriamente apaixonado por vela e mergulho.
Mais uma circunstancialidade que se unia a todos os relatos que já vinha acontecendo, né? Nessas duas semanas. Apenas um dia antes, no dia 19 de maio, antes da descoberta do corpo, o Lorenzo havia ido à delegacia pra perguntar sobre o andamento das investigações do caso Milena. Sua irmã, a Jolanda, relatou que assim que soube da notícia do corpo, seu irmão tentou entrar em contato com um amigo, um estudante universitário que depois seria testemunha de defesa dele no tribunal.
Ou seja, ligar pra uma futura testemunha na hora em que um corpo aparece, Dá pra imaginar como a polícia também leu isso na hora, não é? Quando foi interrogado novamente, ele não conseguiu apresentar um álibi que cobrisse um bom período daquele dia 6, precisamente entre 16:15 e 19:45 da noite. A única coisa que ele conseguiu comprovar é que ele passou na casa do pai por volta das 22:00 pedindo dinheiro. Antes e depois disso, nada.
Sua complexa situação familiar, também veio à tona nesse momento da investigação. O pai dele o detestava, ele não era comprometido com os estudos, nem com o trabalho. Fora isso, seu comportamento em geral fazia ele ser considerado como um psicopata e uma ameaça à paz da família. E isso supostamente era tão grave que o próprio pai o denunciou ao Ministério Público da Infância e Juventude lá de Gênova, em 1965, tá? 6 anos antes do caso da Milena.
Segundo o pai do Lorenzo, ele era de fato um sujeito capaz de qualquer crime, um cínico, um mentiroso, um ladrão. Ele tinha inclusive antecedentes criminais na escola e possuía fortes impulsos sexuais que não conseguia controlar. A esse respeito, foi citada a tentativa de aliciamento de uma empregada doméstica que trabalhava na casa dos Bozzano. Isso segundo testemunhos ali ligados a ele, tá, galera, ou seja, da família. Se tudo for verdade, bem brabo, Bom, após a prisão do filho, o senhor Paolo Bozzano ligou imediatamente pro seu advogado pra dizer que não estava disposto a pagar qualquer honorário pra defender o filho, ou seja, o pai acreditava na culpa do filho, ou na provável culpa, e não iria custear a defesa dele.
A notícia da prisão foi amplamente divulgada e comentada na imprensa toda, o próprio chefe da polícia de Gênova, Giuseppe Ribisi, declarou publicamente que o Lorenzo Bozzano era um um indivíduo desprezível, houve até quem defendesse a reintrodução da pena de morte no país a partir desse caso. Assim, julgado pela própria família e pela imprensa, e sem o apoio do pai, o Lorenzo Bozano escreveu de dentro da prisão um memorial de defesa que ele mesmo divulgou.
Na casa dele, os investigadores encontraram um pedaço de papel com as palavras afundar, enterrar, construir uma parede, além de alguns cronogramas que foram relacionados à suposta organização do sequestro Relâmpago da Milena. No total, teriam sido reunidos 23 indícios, mas nenhuma prova que comprovasse a culpa do Bozano. Foi desse jeito que foi construído o caso em cima dele e ele foi levado a julgamento.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
The world sees us as heroes, but they don't know what the job really costs.
One family of federal agents.
It's one thing to put yourself in danger; it's Em 15 de junho de 1973, o Lorenzo Bozzano foi absolvido em primeira instância nesse primeiro julgamento. Por insuficiência de provas das acusações ligadas ao caso da Milena. No mesmo julgamento, ele foi condenado, porém, a 2 anos e 15 dias por um caso anterior, sem relação com a Milena, de natureza sexual contra uma outra mulher, pena que ele já tinha cumprido na prisão preventiva anterior.
A promotoria recorreu da absolvição do caso específico da Milena e em 22 de maio de 1975, a Corte de Apelação o condenou à prisão perpétua pelas acusações de sequestro com o objetivo de extorsão, homicídio por estrangulamento, provável sufocamento e ocultação de cadáver. O Bozano recorreu disso, mas em 25 de março de 76, a Corte de Cassação confirmou a sentença. E aqui vem um detalhe bem importante: absolvido em 73, ele respondia à apelação em liberdade.
Quando o julgamento de apelação começou, em abril de 75, ele não apareceu, alegando estar internado com cólica renal. A corte não acreditou nisso, declarou ele rebelde e o condenou à revelia. Na verdade, ele já havia fugido pra França, depois passou pela África e voltou pra França, vivendo sob identidade falsa. Foi lá na França que em 26 de janeiro de 79 ele foi detido, mas foi por acaso. Tudo começou com um controle de rotina da polícia numa estrada do interior, segundo alguns relatos uma multa por dirigir sem cinto de segurança, que virou uma acusação de fraude por uso de documentos falsos lá na França.
De qualquer maneira, ele foi levado à prisão. E em 15 de maio de 1979, a justiça francesa negou a extradição dele pra Itália pelo caso da Milena. Pela lei da França, uma condenação dada à revelia não podia ser executada sem refazer o julgamento. Mas o governo francês deu um jeito. Em 26 de outubro daquele ano, no mesmo dia em que a justiça francesa colocou o Bozzano em liberdade, policiais à paisana o pegaram e entregaram uma ordem de expulsão que estava guardada ali já fazia fazia um mês.
Colocaram então o sujeito num carro e dirigiram até a Suíça, onde já havia um mandado de prisão pedido pela Itália, sem tempo de recorrer, sem tempo de nada. Então a Suíça extraditou o Bozzano para a Itália em 18 de junho de 1980. Já anos depois disso, em 86, o Tribunal Europeu de Direitos Humanos condenou a França por essa extradição disfarçada. Na Itália já, ele começou o cumprimento da pena na prisão. Em 1989, apesar da condenação a perpétua, ele recebeu o benefício da semiliberdade.
Ele podia sair de dia pra trabalhar e virou um granjeiro, começou a criar galinhas, mas o sistema fiscal italiano o multou por não declarar parte dos ganhos ao fisco. Em 96, os benefícios foram suspensos. Mas em 11 de junho de 1997, não sei se ele já tinha conseguido um outro benefício, Seja como for, ele tava numa saída temporária da prisão e ele tentou molestar uma adolescente de 16 anos em Livorno, na Itália. Na ocasião, Lorenzo estava fingindo ser um policial.
Por esse crime, ele foi condenado em 99 a 2 anos de prisão. Finalmente, em fevereiro de 2019, ele obteve nova semiliberdade e em 2020 a liberdade condicional, passando a viver em um centro de acolhimento de prisioneiros gerido por uma associação de voluntários. E lá ele tinha funções de zelador e secretário. Mas a vida dele estava perto de acabar, porque no dia 30 de junho de 2021, já com 75 anos de idade, o Lorenzo Bozano morreu de um mal súbito.
Ele carregava até o fim a condenação pelo sequestro e morte da Milena Suter, e carregou até o fim também a mesma versão do interrogatório lá de 1971 até a morte em 2021. Lorenzo Bozano nunca admitiu nada, em 2011, com 40 anos já de cadeia nas costas, ele ainda pediu um novo julgamento, e em uma das últimas vezes que falou sobre o caso, já velho, ele repetiu o que disse desde o começo, Milena, eu nunca conheci essa menina. Bom, caso encerrado e justiça feita, não é?
Pra alguns, não, o fato é que a Milena foi assassinada, mas pra algumas pessoas existia apenas a circunstancialidade sobre o Lorenzo, e digamos que o currículo do sujeito não ajudava muito, não é? Mas eu sempre lembro de uma ideia que o Issa Kostoev, um dos investigadores e detetives do caso do Andrei Chikatilo, sempre defendia essa ideia: quando o investigador tenta encaixar as provas na própria convicção, ele cai no viés da confirmação e pode cometer erros.
Será que foi o caso aqui? O caso da Milena continua na mídia italiana até os dias de hoje, muito pelas declarações provocativas de jornalistas investigativos que nunca acreditaram na versão oficial da polícia nem na culpabilidade do único suspeito que foi investigado. Existem as questões desses jornalistas, tá? Consta que naquela tarde fatídica, a Milena saiu correndo da escola, com pressa, entre aspas. Se recusou a ir com os colegas numa sorveteria.
Mas fora dos muros do colégio, disseram que ela foi vista caminhando sem pressa, o que levou alguns a imaginarem que ela talvez tivesse um encontro marcado naquele dia e quis manter isso em segredo de todo mundo. Lembrando que a gente já viu que tinha um nome no diário dela que ninguém nunca encontrou, não é? O tal Cláudio. O corpo flutuando na água ali estava numa posição incomum, de barriga para cima, quando o esperado é que um corpo na água esteja de bruços, com a barriga voltada para o fundo.
Se o corpo estivesse solto no mar esse tempo todo, como ninguém viu em 14 dias, sendo que havia ali pescadores na área, não é? O corpo estava parcialmente despido, de uma forma que, segundo o jornalista Maurício Corti, seria incompatível com a ação do mar, ao contrário do que sustentou o perito Aldo Franchini no seu laudo oficial do caso. O corpo reapareceu exatamente 2 semanas após o desaparecimento, numa quinta-feira, mesmo dia da semana e mesmo horário do sumiço 2 semanas antes.
Isso deu ensejo a uma teoria de que o corpo estava preso, represado ali de alguma alguma forma em algum ponto do litoral até o momento em que foi liberado de maneira proposital para ser localizado. Quando uma pessoa morre, o sangue para de circular e desce, digamos, para as partes mais baixas do corpo por causa da gravidade, né, criando ali manchas escuras chamadas de hipóstases. Essas manchas funcionam como um carimbo, entre muitas aspas.
Elas mostram a posição exata em que o corpo ficou e meio que congelam, se fixam ali, sabe, cerca de 12 horas após a morte. No caso da Milena, segundo os legistas ouvidos pelo jornalista Maurício Curti, as manchas indicam que ela morreu e ficou deitada de costas, em uma superfície reta, num ambiente fresco, pelo menos 12 horas sem ser movida. Se o corpo tivesse sido mexido antes disso, as manchas estariam em outro lugar, o que é incoerente com a tese de ela ter sido transportada e ter passado horas no porta-malas do Spider do Lourenço, como diz a reconstrução oficial do caso.
Lembrando também que pelo tamanho dela, equivalente a uma mulher adulta, né, musculosa, havia dificuldade de transportá-la. Segundo a criminóloga Laura Bacaro, isso dificilmente seria obra de uma pessoa só. Uma situação ainda mais complicada se, como diz a reconstrução da acusação, ele tentou enterrá-la no Monte Fácil, lembra? Desistiu depois e transportou para o mar. Tudo isso esbarra nessa questão, né, né, da dificuldade do transporte, das manchas, né, no corpo que indicavam outra coisa.
Fala-se também sobre a impossibilidade de tudo isso acontecer no intervalo de tempo de poucas horas, quando se sabe que por volta das 10 da noite o Lourenço esteve na casa do pai pedindo dinheiro. As informações não falam em DNA, uma coisa normal para época, mas também não falam de digitais que provavelmente estariam na mochila, não é? Afinal de contas, essa mochila foi encontrada na cidade depois. Tudo muito esquisito. Enfim, mas diante de tudo isso, por que será então, se foi o Lorenzo, por que ele quis matar a Milena?
Pela sentença de 75, ou seja, foi recorrida lá, etc. e tal. Então, ele era um filho, né, que o pai não gostava, que não era sustentado pelo pai, ele tinha dívidas, né, o Lorenzo. E esses 50 milhões aí que ele pediu era para resolver a vida dele. Já na versão da acusação, ele não planejou matar a Milena. Na verdade, o sequestro era pedir o resgate, Mas algo deu errado dentro do carro dele, ele estrangulou a menina e depois só pensou em se livrar do corpo.
Daí então se conectaria aqueles papéis, aquele papel na verdade encontrado na casa dele, lembra que tava escrito afundar, enterrar, construir paredes? Pois é, a imprensa vendeu um outro assassino no entanto, tá? O maníaco sexual, por causa da denúncia do próprio pai e do histórico dele com mulheres, não é? Mas o laudo dizia que a Milena não sofreu violência sexual, então isso nunca entrou na acusação. Muito embora, como a gente viu lá no começo, seria uma situação assim que dá ensejo a pensar: mas será que dava para cravar isso depois de tanto tempo, né, de decomposição do corpo já?
Aí infelizmente precisaria de uma análise mais técnica de um perito, não é? Mas seja como for, tudo isso criou um clima no julgamento. E apesar de todo esse clima, lá no primeiro julgamento ele foi absolvido ainda. O júri não ficou convencido. E que ele Lorenzo Bozano era um mau caráter, um mau elemento, não é? A gente pode até colocar em xeque aqui por todas as questões que foram ventiladas, né? Mas se ele era mesmo arquiteto do sequestro e morte da Milena, aí digamos que dá para colocar umas reticências e um ponto de interrogação, ou não.
Alguns livros, podcasts, reportagens feitos, né, ao longo desse tempo todo, em especial o trabalho do Maurício Corti e da Laura Bacaro, questionam a condenação e apontam o caso como um enorme erro da polícia investigativa e da justiça italiana, onde o nome de Lorenzo surgiu como um bode expiatório. A pergunta que fica então pra esse caso todo é: será? Comenta aqui pra mim o que você achou de tudo isso, tentei trazer todos os elementos aqui, tá?
Existem muitos outros pormenores que eu achei que ia de repente mais atrapalhar do que ajudar, mas vale a pena dar uma pesquisada, Justamente no trabalho desses jornalistas investigativos que discordam, né, da polícia e da justiça. Seja como for, por tudo isso que eu passei aqui, comenta pra mim. Você acha que tem alguma dúvida em relação a esse caso? Agradeço imensamente sua...
— Anúncios inseridos dinamicamente —
The world sees us as heroes, but they don't know what the job really costs.
— Anúncios inseridos dinamicamente —
Companhia, um beijo do Ruivo e até o próximo episódio.