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Entre a cobiça e o amor havia uma cama de UTI: Caso Roberto Guzmán

03 de agosto de 202630min
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📌 Entre a cobiça e o amor havia uma cama de UTI: Caso Roberto GuzmánO que aconteceu na cama 11 do sanatório em Buenos Aires desafia a lógica. Roberto, um homem saudável, piorava a cada dia sob os olhos dos médicos, enquanto seu marido recém-casado não saía do seu lado. O que as câmeras de segurança revelaram é uma história de frieza, cobiça e um plano que quase virou cinzas em menos de 48 horas. Entenda como 10 discos de gravação e uma bolsa de soro estranha levaram a justiça a uma descoberta estarrecedora.-------📧 Contato comercial: contato@mpcampos.com.br

Participantes neste episódio1
M

Marcos Campos

HostJornalista
Assuntos5
  • Caso Neymar e Robinho Jr.Roberto Guzmán · Guillermo Germán Bergelli · Sanatório Anciorena · Envenenamento · Cobiça e herança
  • Manipulação de soro na UTIInstalação de câmeras em guaritas · Troca de bolsas de soro · Mochila com substâncias tóxicas · Frieza e cálculo
  • Motivações do crimeHerança no Chile · Apartamento de luxo em Salvador · Fundo de investimento · Seguro de vida · US$ 300 mil
  • Uso de Álcool e DrogasMetanol · Etilenoglicol · Anticongelante de carro · Exames de sangue e urina
  • Defesa insólita de BergelliSoro fisiológico benzido · Imposição de mãos · Consumo de entorpecentes · Acusação de cobiça
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MCMarcos Campos

Imagine descobrir que o seu irmão morreu e ao chegar no hospital onde o corpo está, encontrar um desconhecido decidindo que o corpo dele deve ser transformado em cinzas em menos de 48 horas, sem autópsia, sem despedida. Um homem desce de um avião depois de cruzar a Cordilheira dos Andes, ele não estava na Argentina a passeio, ainda no Chile ele recebeu a notícia triste de que o irmão tinha falecido, Então pegou o primeiro voo que deu, do aeroporto ele foi direto pra clínica onde o corpo estava.

E é ali na clínica que esse homem fica frente a frente com um sujeito que ele nunca tinha visto na vida, e descobre ali que aquele era o homem desconhecido pra ele que tinha se casado com o irmão recém-falecido. Legalmente então, aquele estranho era agora a pessoa mais próxima do irmão dele, era ele inclusive quem ia assinar os papéis e decidir o que ia acontecer dali pra frente. Mas o que colocou esse caso aqui nas páginas de true crime foi justamente o que aconteceu depois desse encontro aí no hospital, porque um deles tomou uma atitude que ia fazer com que a justiça levasse anos pra enfim revelar o que realmente tinha acontecido naquele quarto de UTI.

E olha, eu vou te dizer que quando eu comentar a justificativa que foi dada pra tudo, vocês vão falar, é insólito demais. Eu sou Marcos Campos e o caso de hoje é um mistério médico. Como que um homem de 58 anos com boa saúde, assim, estado bom, sob controle de saúde, entra no hospital assim do nada, vai pra UTI, fica 27 dias piorando ao invés de melhorar, tem uma melhora ou outra, depois uma recaída, sem que os médicos conseguissem identificar o que estava acontecendo.

Os médicos achavam até que poderia ser uma complicação do HIV, porque ele era portador, mas tava tudo sob controle. Depois eles pensaram numa falência renal inexplicável. Mas a verdade estava mesmo escondida em 10 discos de câmeras de segurança que revelariam algo que ninguém ali naquele hospital suspeitava. Então já se ajeita, fica confortável, porque a gente vai investigar tudo isso nos mínimos detalhes. A Cama 11. Roberto Alfonso Aquiles Guzmán Jaque.

Ele era um chileno de 58 anos que tinha deixado Santiago, no Chile, pra construir a vida em Buenos Aires. Construir não, né? Recomeçar, eu diria. A família dele, que ficou lá no Chile, tinha um bom nível socioeconômico, mas a rotina do Roberto na Argentina era assim das mais simples, sabe? Tipo, ele trabalhava num call center de uma companhia aérea americana e dividia um apartamento na Rua Tâmis, no bairro Vila Crespo, com a mãe dele, a Dona Raquel.

A vida dele tava literalmente repartida entre dois países: o dia a dia com a mãe ali em Buenos Aires e o patrimônio, o irmão e um amigo de confiança que administrava todos os bens lá em Santiago. Roberto, como eu disse há pouco, era portador de HIV, só que, e isso é importante, a doença tava completamente sob controle. Ele fazia o tratamento direitinho e a carga viral era indetectável, o que os próprios médicos confirmariam mais tarde em juízo, inclusive.

Do ponto de vista clínico, então, o HIV não apresentava risco nenhum naquele momento da vida dele. Entre abril e maio de 2019, o Roberto conheceu um homem pela internet, por um aplicativo de namoro. Ele era Guillermo Germán Bergelli, um argentino nascido em Mendoza, podólogo de profissão, dono de um consultório no bairro Recoleta, que segundo consta é uma das regiões mais nobres de Buenos Aires. A relação então começou à distância, mas andou bem rápido.

Em menos de um ano desde o primeiro contato, Bergelli já tinha se mudado lá pro apartamento da Vila Crespo pra morar com o Roberto e com a dona Raquel. E no dia 16 de setembro de 2019, uns 4 ou 5 meses depois de se conhecerem, Os dois se casaram num centro de gestão comunal de Recoleta, o equivalente a um cartório de bairro, sabe? Bom, eles se casaram em tempo recorde, não é? Mas por que será que havia tanta pressa assim? Apesar da pressa, o casório foi feito com muita discrição.

Cláudio, o irmão do Roberto, que morava lá no Chile e tava meio que distanciado do irmão nesse período da vida dele, só ficou sabendo inclusive que o irmão tinha casado quando o casamento já tinha acontecido. Ele ficou sabendo por terceiros, mas só conheceu o cunhado mesmo lá no hospital, como eu disse na introdução. E aí, exatamente 3 meses depois dessa cerimônia, no dia 16 de dezembro de 2019, o Roberto deu entrada no Sanatório Anciorena, lá em Recoleta mesmo.

E aqui cabe um detalhe, não é? Porque lá na Argentina eles usam sanatório aí pra chamar um hospital particular, tá? Não tem nada a ver com o que a gente Enfim, com o significado que a gente dá pra essa palavra aqui no Brasil. E olha, presta bem atenção nisso, tá? Porque 2 dias antes, o Roberto tinha acabado de receber alta de uma internação anterior, não era a primeira vez então, em outra sede do mesmo hospital, tá? Ou seja, a saúde daquele homem já vinha dando sinais ali que não ia muito bem não havia algumas semanas, e ninguém sabia dizer o porquê exatamente.

Bom, na entrada, Os médicos registraram deterioração do sensório. Que sensório aí, galera? Explicando aqui bem rapidinho, é um termo médico pro nível de consciência, tá? O quanto a pessoa tá acordada, lúcida e responde ao que acontece em volta. Além de insuficiência renal, desorientação, dificuldade pra andar e alteração na fala. Tudo isso foi notado ali naquela entrada. Então ele foi direto pra terapia intensiva, pra UTI, e ele ficou então na cama 11.

Os médicos viraram o paciente do avesso, entre aspas, tá, tentando descobrir o que que ele tava, que tava acontecendo com ele, o que ele tinha na verdade. Só que nada. A suspeita natural seria o HIV, claro, só que os exames descartaram essa hipótese logo de cara porque a carga viral seguia indetectável. Então eles tiraram o antirretroviral, procuraram infecção, colocaram Roberto em diálise, e no meio dessa aí aconteceu uma coisa que na hora pareceu uma boa notícia.

No dia 23 de dezembro, o Roberto apresentou uma melhora real do quadro clínico. Mas 3 dias depois, no dia 26, ele despencou de novo e dessa vez ele nunca mais se recuperou. A partir dali foi uma ladeira, pior atrás de pior, sem que nenhum exame apontasse uma doença capaz de justificar aqueles sintomas e aquilo que ele tava sentindo. E o tempo todo, ali do lado dele, tava o marido recém-casado. Ele visitava, acompanhava, conversava com a equipe, ficava ali tentando entender o que tava acontecendo.

Tudo aparentemente dentro do que se espera realmente de um companheiro dedicado, não é? Na manhã do dia 12 de janeiro de 2020, por volta das 7 horas, depois de 27 dias internado, Roberto Guzmán Jaque faleceu. O quadro final Uma acidose metabólica que os médicos não conseguiram reverter, arritmias, distúrbios na condução cardíaca, insuficiência renal, ou seja, praticamente uma falência múltipla de órgãos, não é? E até aqui, olhando de fora, nada chamaria a atenção de ninguém, não é?

Um paciente grave que não resistiu depois de quase um mês na UTI, com sintomas assim bem peculiares. Por tudo isso, é bem provável que essa história seria enterrada junto com o Roberto. Só que, ou melhor dizendo, mas, tem sempre um mas, não é? O Roberto não foi enterrado, as cinzas. Quando o Roberto morreu, quem assumiu a papelada toda foi o marido dele, o Bergelli. Como cônjuge, ele tinha direito legal de assinar os documentos, decidir o destino do corpo, e a decisão que ele tomou foi cremar.

Então, apenas 2 dias depois da morte, o corpo do Roberto já tinha virado cinzas, sem que ninguém da família fosse consultado sobre isso. O Cláudio, irmão, declarou depois que tudo foi feito tão rápido que familiares e amigos que estavam vindo lá do Chile simplesmente não conseguiram chegar a tempo da despedida. E antes que você levante aí uma dúvida, não existe em nenhuma fonte do caso, pelo menos as que eu encontrei, um registro de que o próprio Roberto tivesse manifestado o desejo de ser cremado, Nem documento, nem depoimento pra alguma pessoa que contou isso.

Foi uma escolha então, aparentemente, só do marido dele. E teve uma cena desses dias aí que o Cláudio guardou e que anos depois ele contaria sob juramento. Logo depois da cerimônia de despedida, ele ouviu o Bergelli discutindo com a Dona Raquel, ou seja, a mãe. A mãe do Roberto, a mãe dele, que morava lá junto com o casal. Nessa discussão, ele tava dizendo que já tinha tudo resolvido pra fazer uso dos bens que o Roberto tinha deixado lá no Chile.

O corpo tinha acabado de virar cinzas e o viúvo já tava ali com a papelada do patrimônio encaminhada. E foi exatamente isso que o Cláudio declarou ter estranhado. Diante da morte do marido, aquele homem parecia mais preocupado com os bens do que abalado propriamente dito. Claro que pra família isso soou muito mal, Mas também poderia ser somente a maneira do homem lidar com o luto, não é? Isso é subjetivo de certa maneira, cada um age, reage de um jeito, não é?

Seja como for, dentro do sanatório, o Hospital Antiorena, o chefe da terapia intensiva também não tava conseguindo virar essa página, digamos. Porque pra ele não fazia sentido nenhum que aquela melhora repentina do Roberto entre os dias 23 e 26 de dezembro, simplesmente tivesse terminado assim de uma maneira tão inesperada, abrupta. E foi assim que aconteceu uma cena rara. A família da vítima, a mãe, o irmão e o próprio hospital foram então à justiça denunciar uma morte duvidosa, suspeita para eles.

Ou seja, eles já tinham juntado assim os pauzinhos, juntado uma peça aqui, outra acolá e falando, peraí, tem alguma coisa esquisita aí, o cara melhora e do nada falência múltipla dos órgãos. Não tô dizendo que essa foi a causa oficial da morte, mas pelo que foi descrito aí, né, o corpo tava assim extremamente debilitado. Assim, no dia 4 de fevereiro de 2020, já 3 semanas depois da morte, se abriu a causa penal nas mãos do juiz Diego Slupski.

Só que o juiz e os investigadores herdaram um problema gigantesco aí, e eu quero que você entenda o tamanho desse problema aí tintim por tintim, tá? Uma suspeita de envenenamento que é o que eles estavam em mente naquele momento, a prova disso é a autópsia. Você abre o corpo, faz um exame toxicológico e encontra ou não uma substância. Aqui, no entanto, não existia corpo, e as cinzas do Roberto não podiam contar qualquer história.

Se tivesse havido um crime, o autor tinha conseguido, com meia dúzia de assinaturas, destruir a principal evidência antes mesmo de existir uma investigação. Isso, eu acho que eu nem preciso dizer, era mais um ponto pra família desconfiar de tanta pressa nessa cremação, não é? Todo mundo naquele expediente lá do hospital, na verdade, desconfiava que aquela morte não tinha sido natural assim. Pena que só desconfiaram depois que já era tarde demais, não é?

Mas, como a gente sabe, desconfiança não é suficiente pra colocar alguém atrás das grades, não é? Levar a um julgamento. Faltava uma prova e, pelo menos nesse momento, parece que a prova tinha saído pela chaminé de um crematório. Mas aparentemente, vai vendo. Os 10 discos. A primeira porta que os investigadores abriram foi o prontuário médico dele. Durante os 27 dias de internação, Roberto tinha passado por uma série de exames de sangue e de urina, e esse material, diferente do corpo, Tava guardado.

Quando os peritos debruçaram em cima desses exames então, eles encontraram duas coisas que não tinham nenhum motivo pra estar ali: presença positiva de metanol no organismo e cristais de oxalato na urina. Esse é um achado clássico, entre aspas, tá? Porque cristal de oxalato na urina é a assinatura que o etilenoglicol deixa quando o corpo tenta metabolizar ele. Metanol e etilenoglicol, se esses nomes não te dizem nada, eu preciso traduzir, porque eles são chamados de álcoois pesados, substâncias que você encontra em solvente e em anticongelante de carro.

Os peritos do Corpo Médico Forense, analisando o prontuário inteiro, concluíram que o quadro do Roberto batia exatamente com a intoxicação por esse tipo de substância. Segundo uma médica declarou no processo, os álcoois pesados eram os únicos capazes de causar efeitos tão graves quanto o que estavam registrados ali. Agora, tem uma pergunta óbvia, não é? Como um homem deitado numa cama de UTI, inconsciente, entubado, cercado de profissionais de saúde, tinha anticongelante circulando nas veias dele?

Só podia ser alguém colocando de alguma forma no organismo dele, não é? A pergunta era como e a resposta estava gravada lá dentro daquele quarto, porque o quarto do Roberto, onde ele passou todo esse tempo internado, tinha câmera de segurança. E aqui entra um dado do portal oficial do Ministério Público argentino, foi depois de uma denúncia feita por uma enfermeira que a justiça conseguiu acessar esses vídeos. O hospital lá em Chorenna entregou todo o material, 10 discos compactos de gravação incorporados ao expediente e e analisados pela divisão de homicídios da polícia lá da cidade de Buenos Aires.

Horas e horas de imagem de um quarto de hospital onde quase nada acontece. Enfermeira entra, confere, sai. O médico entra, faz uma anotação ali e sai também. E aí, no meio dessa rotina, os investigadores começaram a perceber um padrão que se repetia. O mesmo visitante que entra no horário de visita, espera os momentos em que fica sozinho com o paciente da cama 11 e mexe no soro. Esse visitante era quem? Um docinho pra quem adivinhar.

Guilhermo Bergelli, o maridão. Os investigadores deram play em todos esses vídeos aí. O que eles viram não foi um marido em luto, mas um homem operando com frieza, cálculo de um cirurgião, trocando bolsas de soro à luz do dia. Em alguns registros, ele tira a bolsa que tá conectada ali nas veias do Roberto pendura no lugar uma que ele mesmo tinha trazido dentro de uma mochila. Já em outros momentos, ele troca as bolsas que estão ali nas mesas.

Sabe aquelas mesinhas que ficam ali no quarto com, enfim, medicamentos, luvas e tudo mais que a enfermeira deixa ali? De repente dá uma saidinha e fica ali. Então ele pegava e trocava as bolsas ali de soro. E detalhe, as bolsas de soro que ele carregava na mochila eram embalagens de soro furtadas do próprio hospital, que ele depois enchia com as substâncias tóxicas. E trazia de volta lá pra UTI, idênticas aos olhos de qualquer um às bolsas legítimas do hospital.

O auto de processamento ao qual o site argentino Infobae teve acesso detalha cada uma das aparições dele nos vídeos, e eu vou te contar aqui essa sequência, porque é ela que revela a frieza, como ele agiu de modo calculista ali naquele quarto. Foram pelo menos 13 manipulações registradas em câmera concentradas num intervalo de apenas 10 dias. A primeira do dia 2 de janeiro de 2020, às 18:47, quando o Bergelli troca um soro que tava na mesa de insumos pelo que ele levou.

No dia 3, já às 17:39, ele faz a jogada mais fria de todas. Ele tira um soro da mochila e deixa na mesa de insumos no meio das bolsas legítimas armando arapuca pra que uma enfermeira, evidentemente sem saber, trocasse as coisas ali. No dia 4, já por volta das 6 horas, ele troca o soro que tava conectado em Roberto. No dia 5, ele age duas vezes. Ao meio-dia e 56, troca o soro, e entre 2:22 e 2:30, ele manipula as válvulas das vias.

Ou seja, de repente pra aumentar ali o gotejamento, né, do soro. No dia 6, por volta das 4:28 da tarde, ele mexe no soro de novo. Já no dia 7, também por volta das 4:40, faz outra troca. Já no dia 8, às 7:26 da noite, ele substitui a bolsa do marido por uma que veio na mochila dele. E no dia 9, às 15 para as 2 da tarde, ele troca mais uma vez. Aí então chega o dia 10 de janeiro, que é o dia com mais registros. Entre o meio-dia e pouco e antes das 10 da noite, o Bergelli trocou o soro 3 vezes, sempre por bolsas que ele mesmo trazia.

No dia 11, às 15:56, ele fez o que seria a última troca registrada, porque na manhã seguinte, por volta das 7 horas, o Roberto faleceu. Cara, é evidente que ele tava ficando impaciente, angustiado porque o cara não morria. Bizarro demais. E olha só o alcance do que a justiça concluiu no final. As câmeras cobrem os dias 2 a 11 de janeiro, tá? Mas a sentença deu como provado que o fornecimento intravenoso das substâncias aconteceu ao longo de toda a internação, de 16 de dezembro a 11 de janeiro.

Aquela piora do dia 26 de dezembro, lembra? Que os médicos lá não conseguiam explicar? Tava dentro do período que a justiça atribuiu ao envenenamento. Agora uma pergunta justa aqui: se colher sangue e urina é uma rotina de qualquer UTI, por gentileza, se tiver algum profissional desse que trabalha, que tem muito mais experiência, comenta. Eu acho que faz parte da rotina colher ali os exames do paciente sempre. Então como é que ninguém viu o veneno nos exames enquanto o Roberto ainda estava vivo, com essas nuances de melhora, piora, melhora, piora?

Bom, essa resposta pode ser gigantesca, mas assim, resumidamente, conforme o que foi divulgado, isso poderia estar no tipo de exame, porque metanol e etilenoglicol não aparecem nos papéis dos exames de rotina que são feitos feitos ali no dia a dia pra ver a evolução do quadro do paciente. Então não deu pra flagrar essas substâncias aí, porque era preciso pedir um exame toxicológico específico procurando a substância que eles tinham desconfiança.

Só que ali, como a gente viu, ninguém desconfiava de envenenamento. Os médicos procuravam uma doença, talvez pelo viés das questões de saúde que ele já tinha, muito embora a saúde dele estivesse sob controle. Dito isso, teve gente ali dentro que chegou perto de desconfiar, no entanto, tá? Mas parece que não aconteceu. Mas veja, uma enfermeira contou que numa dessas ocasiões ela percebeu que uma bolsa que ela mesma tinha instalado tinha sido trocada, e ela reportou isso aí pros superiores.

Outros médicos e enfermeiros relataram situações em que viram Bergelli saindo do quarto, meio esquisito assim, e esses episódios também foram informados à chefia. E aqui fica uma pergunta desconfortável, né, que as fontes do caso infelizmente nunca responderam: por que esses alertas não meio que travaram tudo ali na hora? O que se sabe é que os relatos ficaram como registros internos e que foi só depois da morte, quando o chefe da UTI juntou as peças, que aquilo tudo virou uma denúncia.

Essa é uma das pontas que essa história deixa em aberto Lamentavelmente, não é? Agora, convenhamos, né? Comenta o que você acha sobre isso. O que o tribunal conseguiu estabelecer cruzando as datas é que as manipulações captadas pelas câmeras ali se correlacionavam com a deterioração clínica do Roberto. Nas palavras do falo, que é aí como os argentinos chamam a sentença judicial, a manobra realizada por Bergelli foi determinante na morte do Guzmán Jaque, ou seja, do marido dele.

Manobra no sentido assim, tudo que ele fez, né, todo, enfim, arquitetura do crime, digamos. Gente, aguenta aí porque eu já tô chegando na parte que vocês vão falar assim, cara, surreal. Tem ainda a suspeita levantada pelos investigadores de que o envenenamento pode ter começado antes mesmo dessa internação aí, tá? Lembra da alta daquela internação anterior, né, que aconteceu dias antes aí dele ser internado pela última vez? Pros investigadores é possível que o Bergelli já estivesse estivesse envenenando o marido antes da entrada na UTI.

No entanto, isso nunca foi provado, justamente porque o corpo não existe pra poder corroborar essa investigação, e fica registrado então como uma outra ponta solta que não se amarrou a nada nesse caso. E tem mais um elemento que a equipe médica levou pro processo e que fecha esse quebra-cabeça de um jeito bem arrepiante, eu diria. Durante a internação, numa conversa com os médicos, O Bergelli soltou que se o Roberto for ficar impossibilitado com alguma sequela complicada, olha, eu prefiro que ele morra na hora.

Aquilo ali foi recebido como um marido angustiado desabafando, né, um cara exausto com toda aquela situação, um mês de internação. A conversa meio que passou e ninguém pensou mais nisso. Mas agora eu acredito que todo mundo deva olhar pra isso aí e se arrepiar, como eu disse, né. Haja ato falho ou sei lá. A Cordilheira. Muito bem, abduzidos, certo até aí. Mas tem uma pergunta aí que precisa ser respondida, né? Pelo menos é a pergunta que norteia um caso criminal.

Por que esse sujeito quis fazer isso? O que faz um homem envenenar o próprio marido recém-casado gota a gota durante dias, vendo o marido sofrer, né? Sem qualquer vontade de parar, de recuar com esse intento assassino? A resposta que a investigação encontrou tem cifra e clichê: cerca de US$300 mil. Lembra que eu te falei que a vida do Roberto estava repartida entre dois países? Pois é, do lado chileno que mora o motivo, digamos.

O patrimônio dele incluía um apartamento em Santiago avaliado em US$200 mil e um fundo comum de investimento de cerca de US$100 mil. Guardado numa conta do Banco Security. Com o casamento então de setembro de 2019, o Bergelli tinha virado no papel o herdeiro de tudo isso. Pra justiça argentina, esse foi o motivo do crime, tanto que a acusação incluiu entre os agravantes a cobiça. Mas olha, pelo que vem à frente aí, o assassino não esperava, viu?

Vai vendo. A apuração não parou nas câmeras. O juiz mandou fazer buscas no apartamento do casal lá na Vila Crespo. Onde foram apreendidas bolsas com medicação, também pastas de receitas médicas em nome do Roberto, um notebook, um celular. E também no consultório de podologia do Bergelli, lá em Recoleta, de onde saíram mais elementos do processo, tá? Ou seja, essas buscas, eles reuniram bastante coisas ali. Enquanto isso, Bergelli se mexia pra receber a herança, mas no final das contas, a única coisa que ele conseguiu de fato foi o seguro de vida da MetLife que o marido tinha.

Segundo o Ministério Público, ele recebeu R$68.750 na conta bancária dele no dia 2 de abril de 2020, menos de 3 meses depois da morte. E segundo o Infobae, essa apólice nem estava no nome dele, estava no nome da sogra. O grosso, que era o apartamento lá no Chile, aquele fundo de investimento, ele tentou tramitar como herdeiro. Mas é aí que entra a ironia que eu te falei, a ironia poética do caso. O plano inteiro de Bergelli tinha um furo que ele aparentemente não viu.

Naquela época, o Chile ainda não reconhecia legalmente o casamento igualitário celebrado no exterior. O casamento que fazia dele herdeiro na Argentina não valia nada do outro lado da cordilheira. Bergelli matou o marido por uma herança que a lei chilena nunca ia entregar a ele, e dos 300 mil dólares ficou só com 68 mil pesos de um seguro. E olhe lá, do lado argentino, ainda em 2020, a justiça proibiu Bergelli de sair do país e ele deixou Buenos Aires pra se instalar em Mendoza, a província onde ele nasceu.

A instrução do caso seguiu por 3 anos, que foram os anos da análise dos 10 discos, das perícias em cima do prontuário, dos depoimentos da equipe do hospital, e também daquelas buscas que eu acabei de te contar aqui. E em 2023, o juiz do caso deu por encerrada essa parte da investigação e decretou a captura do Bergelli. Mas o Bergelli sumiu. Ele passou 2 meses foragido, até que a divisão de homicídios da Polícia Portenha, trabalhando aí junto com as forças de segurança lá de Mendoza e rastreando inclusive a atividade dele nas redes sociais, localizou e prendeu o fujão no dia 18 de julho de 2023, lá mesmo em Mendoza.

Dali, ele saiu pra esperar o julgamento preso e teve todos os bens bloqueados pela justiça. O soro benzido. É aqui que a gente chega na parte mais insólita desse episódio. O julgamento começou no dia 17 de março de 2025, diante de 3 juízes do Tribunal Oral Criminal número 5, lá de Buenos Aires. A acusação era pesadíssima: homicídio quadruplamente agravado. Pelo vínculo matrimonial, pela alevosia, que é a covardia de matar quem não pode se defender, pelo uso de veneno e pela cobiça.

Na lei argentina, esse enquadramento só admitia uma pena: prisão perpétua. E aí, diante do tribunal, Bergelli apresentou uma defesa que a imprensa argentina chamou de insólita. Ele admitiu que manipulou mesmo os soros, mas calma, porque a explicação pra essa admissão de culpa aí é uma das mais absurdas que eu já vi. Eu li a versão na fonte oficial da justiça argentina e mesmo assim, olha, Eu precisei confirmar, reler, porque olha só, Bergelli declarou que as bolsas que ele levava na mochila continham soro fisiológico benzido por um padre.

Quando o promotor perguntou que substância era aquela, ele respondeu que era só uma solução fisiológica de limpar lente de contato, só que benzida. A explicação dele pro veneno? Fé. Numa segunda declaração, antes das alegações finais, ele completou o quadro dizendo que fazia uma imposição de mãos sobre o corpo do marido e sobre os soros, pra transmitir energia de cura. E pra explicar de onde teria saído então os álcoois pesados encontrados nos exames do Roberto, o Bergelli sustentou que o marido consumia entorpecentes e bebidas alcoólicas pra caramba e que ele nunca tinha contado isso porque não queria falar mal do morto.

Ele disse ao tribunal que nunca teria coragem de matar ninguém, nem sequer um animal, que sempre confiou nos médicos e enfermeiros do hospital e que jamais imaginou que o marido fosse morrer. Caramba, olha, precisamos reconhecer que o cara é criativo, hein? Sobre o dinheiro, ou a defesa dele, né? Sobre o dinheiro, ele negou qualquer motivação econômica, afirmando que sempre viveu bem com o que ganhou e disse que só sacou o seguro da MetLife, aquele menor, porque a sogra não tinha conta bancária na Argentina.

Ele garantiu que depois teria transferido o valor para ela. Não sei. E sobre a cremação, ele jogou a responsabilidade justamente em em cima da Dona Raquel, disse que foi a mãe do Roberto que decidiu cremar o corpo e definir um velório só de 2 horas, e que ele inclusive era contra. Só que essa versão aí caiu rapidinho porque o Cláudio depois soube juramento e desmentiu o cunhado, dizendo que quem mandou cremar mesmo foi o Bergelli.

O promotor foi direto, pra ele não havia dúvida nenhuma de que Bergelli intoxicava o marido porque queria a morte dele. Tudo foi buscado, planejado e sabido. No dia 28 de maio de 2025, depois de 8 audiências, veio a sentença: prisão perpétua. E a Dona Raquel não tava lá pra ver a condenação, viu? Isso porque ela morreu cerca de 2 anos depois do filho, bem antes do julgamento. Segundo Cláudio contou à justiça, morreu de tristeza, convencida de que Roberto tinha sido mesmo assassinado.

A defesa recorreu, claro, mas em maio de 26, a Câmara Nacional de Cassação Criminal confirmou a perpétua. Pra justiça, o Bergelli desenvolveu um comportamento pré-ordenado e sistemático pra matar, aproveitando que o Roberto tava inconsciente e entubado, sem nenhuma possibilidade de se defender. Pura covardia, frieza e intento assassino mesmo. E é isso que fecha a conta desse caso. Um homem que foi envenenado com anticongelante dentro de uma UTI 13 vezes em 10 dias, na frente de uma câmera, O assassino não percebeu, o corpo virou cinzas em 48 horas pra que ninguém pudesse provar nada, e a prova veio assim mesmo, do sangue e da urina que ele deixou nos laboratórios e de uma bolsa de soro que uma enfermeira estranhou.

Assim, o Guillermo Bergelli vai passar o resto da vida preso por um crime que financeiramente não rendeu pra ele quase nada, porque a herança de $300 mil nunca chegou às mãos dele. Mas eu preciso fazer um adendo aqui sobre esse negócio da perpétua. Eu não sou conhecedor da lei argentina, mas existe um limitador de tempo lá pra poder pedir a condicional e, dependendo da gravidade do crime, esse tempo pode ser indeterminado. Seja como for, pelo menos no papel, pegou a pena máxima aí, não é?

Roberto Guzmán Jacques tinha 58 anos. Entre o dia do casamento e o dia da morte pelo marido, Passaram 3 meses e 27 dias onde tudo que existiu e ele provavelmente não viu foi só a cobiça mesmo. Pois é, Abduziz, realmente só cobiça. Amor passou longe, dá a sensação pela rapidez com que tudo aconteceu. Eu até fiz essa pergunta lá no começo, por que será que tinha essa vontade toda de casar logo? Parece até que era um plano desde o começo, não é?

Parece, eu estou só fazendo uma inferência aqui, não estou... Acusando nada, mas sei lá, comenta o que você acha aqui. Eu agradeço imensamente sua companhia, não esquece seu like, seu comentário, nem que seja um emoji, mas comenta sobre o caso. Se puder, se torne membro, ajuda muito nas produções. Beijo do Ruivo e até o próximo episódio.

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