Episódios de Vamos aos Fatos

A Caçada de 3 Anos que Aterrorizou o Paraná: Os Crimes de Gilmar Reolon

31 de julho de 202633min
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📌 Como um homem consegue desaparecer por 3 anos vivendo em uma cabana de lona, enquanto a polícia e a Interpol o procuravam pelo mundo todo? Conheça a história real e assustadora de Gilmar Reolon, o "Assassino Invisível" do Paraná.Neste episódio, Marcos Campos mergulha em um dos casos mais insólitos do True Crime brasileiro. No interior do Paraná, uma série de carcaças de gado com cortes específicos começou a aparecer na mata. O que parecia um furto comum era, na verdade, a "assinatura" de sobrevivência de um homem que carregava nas costas a morte de seis pessoas — incluindo sua própria família.Créditos e Fontes Este vídeo foi produzido com base em extensas pesquisas e reportagens da época, com destaque para o excelente trabalho do Jornal de Beltrão e o documentário "Os Crimes de Gilmar Reolon" https://www.youtube.com/watch?v=HLN9oGBdtCU#TrueCrimeBrasil #CasosReais #MarcosCampos #GilmarReolon #Mistério #InvestigaçãoPolicial #Paraná-------📧 Contato comercial: contato@mpcampos.com.br

Participantes neste episódio1
M

Marcos Campos

HostJornalista
Assuntos6
  • Inquisição e ConfissãoConfissão da morte do pai · Confissão da chacina da família · Confissão da morte de Índia Mara · Motivações financeiras e vingança
  • A caçada de Gilmar ReolonGilmar Reolon foragido internacionalmente · Avistamentos e boatos · Carcaças de gado com cortes específicos · Sobrevivência na mata
  • Incêndio em galpão de peçasIncêndio na casa da família Reolon · Desaparecimento em Ilhabela · Corpos encontrados nos escombros · Suspeitas sobre Gilmar Reolon
  • Julgamento e CondenaçãoJulgamento unificado das 6 mortes · Pena de 150 anos de reclusão · Insatisfação das famílias com a pena · Inocência de Jesus Pereira dos Santos
  • Morte de Índia Mara Pereira dos SantosAssassinato de menina de 13 anos · Santos e Bragantino · Acusação e prisão de Jesus · Soltura por falta de provas
  • Prisão de Gilmar ReolonDescoberta da cabana de lona · Odisseia e Ilíada · Policial militar José Gilmar de Oliveira · Desconfiança do delegado sobre a prisão
Transcrição11 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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?Voz A

Watch the Hulu original series Furious, now streaming on Hulu and Hulu on Disney+ for bundle subscribers. Terms apply. No decorrer de um ano, em sítios espalhados por uma região rural do sul do Brasil, criadores de gado começaram a se deparar com uma coisa e uma cena que não fazia nenhum sentido. Um boi abatido no meio do mato, a carcaça inteira largada ali apodrecendo, menos um pedaço, um único pedaço de carne cortado e levado embora.

E não foi uma vez, ao longo daquele ano, 6 cabeças de gado sumiram dos pastos e apareceram mortas na mata, sempre do mesmo jeito, o animal abatido, a carcaça inteira deixada ali e um único pedaço de carne retirado. Os casos iam chegando à polícia um atrás do outro e aquilo não se encaixava em nada, até que uma hora acabou se encaixando e quando a polícia entendeu o que aquelas carcaças significavam, ela percebeu que o que ela tinha ali nas mãos não era um caso de furto de gado era a resposta para uma pergunta que estava aberta havia 3 anos.

E o que tinha por trás dessa resposta é uma das histórias mais pesadas que eu já contei aqui no canal. Eu sou Marcos Campos e o caso de hoje aconteceu no interior do Paraná, numa região de comunidades rurais pequenas. E quem é do interior sabe muito bem que nesse tipo de lugar as pessoas se conhecem, não é? De verdade. Tanto que quando aparece um forasteiro lá, todo mundo nota. E é justamente isso, ou seja, o fato de todo mundo se conhecer, que torna essa história ainda mais insólita, difícil de explicar talvez.

Porque como é que um homem consegue sumir do mapa por 3 anos numa região dessas, ainda mais com a polícia do estado inteiro atrás dele? Por que os investigadores passaram dias revirando escombros com uma retroescavadeira procurando um corpo que nunca esteve ali? E como um homem inocente foi parar atrás das grades e passou anos sendo apontado na rua como assassino? Assassino por um crime que ele não cometeu. E as carcaças de bois, gados, vacas, não é?

É tudo isso que a gente vai investigar no episódio de hoje. Mas antes da história, eu preciso fazer um crédito merecido aqui, tá? Boa parte do que você vai ouvir no episódio de hoje existe graças ao trabalho da imprensa do sudoeste do Paraná, em especial ao documentário Os Crimes de Gilmar Reolon, produzido pelo jornalista Jônatas Araújo, pro Jornal de Beltrão e lançado em janeiro de 2023. E também os relatos do jornalista Neomar Pereira, que cobriu esse caso aqui do primeiro dia em 2010 até...

Bom, até o elo final se fechar em 2013. O documentário, inclusive, está no canal do Jornal de Beltrão no YouTube. Eu vou deixar o link aqui na descrição pra quem se interessar em assistir, vale a pena, tá? Então, já se ajeita, fica confortável se você estiver em casa de boa, Aproveita o episódio se você estiver no trabalho, mas não se distraia muito pra não levar bronca e arrumar B.O. aí com o patrão, fechou? Recados dados, vamos aos fatos.

O incêndio. Madrugada de 7 de janeiro de 2010. O Corpo de Bombeiros de Francisco Beltrão, no sudoeste do Paraná, é acionado pra atender um incêndio numa casa na comunidade de Lageado Bonito, zona rural de Enéas Marques, Parques, um município pequeno vizinho de Beltrão, a uns 460 km de Curitiba. Quando as equipes chegam, não tem mais o que salvar ali, o fogo consumiu a casa inteira. E aí começa o rescaldo, os bombeiros vão abrindo caminho pelos escombros e encontram um corpo carbonizado, depois outro, depois outro, depois outro, 4 corpos ao todo, eram os moradores daquela casa, Petronília Maria Casanova, de 84 anos, a filha dela, a Gema Casanova Reulon, de e os dois netos da senhora Petrolina, Gisele Indianara Reolon, de 14 anos, e o Gian Lucas Reolon, de 8.

Só que naquela casa também morava mais uma pessoa, o senhor Gilmar de Jesus Reolon, um agricultor, marido da Gema, pai das duas crianças, genro da dona Petronilha. E do Gilmar, ali naquele momento, nenhum sinal. A primeira hipótese então da polícia foi a mais óbvia: ele também morreu no incêndio e o corpo tá em algum lugar aqui debaixo de todos esses escombros, então eles trouxeram uma retroescavadeira ali pra revirar os escombros, vasculharam até um poço que ficava no porão da casa destruída pelo fogo, nada, nem corpo carbonizado e nem o Gilmar vivo.

Os 4 corpos foram recolhidos ao Instituto Médico Legal de Francisco Beltrão e a polícia científica examinou o local, e a polícia civil abriu então um inquérito, uma investigação. Nos dias seguintes, os detalhes que foram surgindo só profundaram o mistério. Primeiro, a cena não parecia uma fuga. Segundo o jornalista Neomar Pereira, que cobriu o caso desde o primeiro dia, o carro do Gilmar, um Celta, tava lá guardado na garagem da casa.

O cachorro tava preso, nem documento ele tinha levado. Ou seja, se aquele homem saiu vivo dali, ele saiu provavelmente a pé, só com a roupa do corpo. E numa região daquelas, não entrava na cabeça de ninguém que ele pudesse ter ido muito longe, nem que existisse alguém disposto a ajudar um homem depois de uma coisa daquelas, nesse sentido dá pra entender que já havia algumas desconfianças, o porquê? Bom, segura aí e vai acompanhando.

O segundo detalhe nesse primeiro momento foi que chegou aos investigadores a informação de que o Gilmar enfrentava sérios problemas financeiros à época, e tinha ainda uma terceira peça, mais antiga e mais sombria, e que talvez tenha dado ensejo já a essa percepção de que Ninguém vai ajudar esse cara se alguém o vir. Em maio de 2009, 8 meses antes desse incêndio, o pai do Gilmar, o cara que sumiu aí, um agricultor chamado Otávio Reolon, tinha morrido na zona rural da região num caso que, segundo os jornalistas que cobriram a história, foi tratado de início como latrocínio, roubo seguido de morte.

Tinha sumido objetos da casa, uma TV, eletrodomésticos, e vizinhos relataram ter visto um veículo saindo da propriedade sem saber dizer qual exatamente. E esse detalhe do latrocínio é importante nessa história porque ele volta daqui a pouco. O fato é que a investigação foi andando e Gilmar virou o principal suspeito da morte do próprio pai. Segundo a Gazeta do Povo, no fim de 2009, a justiça de Francisco Beltrão já tinha expedido um mandado de prisão contra ele por esse crime.

E aqui fica uma pergunta que as reportagens da época não explicam assim nas minúcias: por quê? Mesmo com mandado na praça, ele seguia solto quando a casa dele pegou fogo e toda a família morreu. O homem que sumiu do incêndio que matou a própria família inteira, não é? Já era suspeito de ter matado o próprio pai meses antes. Verdade ou não, os detalhes de tudo isso, seria bom naquele momento, dadas as circunstâncias desse novo episódio trágico, que ele aparecesse pra colocar todos os pingos nos is, não é?

A hipótese de vítima naquele momento virou a hipótese de autor, e era por isso que rondava da cidade essa percepção. As buscas na região se intensificaram, porém nada do Gilmar. Só que Lajeado Bonito ainda viveria coisa ruim, viu? Porque 7 semanas depois desse incêndio, naquela mesma comunidade, aconteceu uma segunda tragédia. O dia da mudança. Sábado, 27 de fevereiro de 2010, a família Pereira dos Santos, moradora daquela mesma região de Enéas Marques, tinha um dia cheio pela frente.

Era o dia da mudança do patriarca, o Noel Pereira dos Santos, de 77 anos, que tava saindo de Lageado Bonito para ir morar na Linha 3 Coqueiros. A família inteira se mobilizou. Quem puxava a mudança de trator era o Luiz Carlos Mendes, o Carlinhos, como todo mundo ali chamava, casado com uma das netas do seu Noel. Quase todo mundo foi ajudar, menos uma pessoa: Índia Mara Pereira dos Santos, de 13 anos, neta do senhor Noel. A mãe dela tinha viajado e a menina tava passando uns dias ali na casa da irmã Elisângela, casada justamente com o Carlinhos, isso tudo pra irmã não ficar sozinha.

Quando o pessoal saiu pra mudança então, a Indiamara ficou lá sozinha assistindo televisão. Naquela tarde, Indiamara foi encontrada morta num matagal a poucos metros da casa, ela tinha tentado fugir e foi morta a pedradas e com golpes de facão na cabeça, e a perícia depois registrou que não houve violência sexual. Agora imagina o tamanho disso, Uma comunidade rural minúscula que 7 semanas antes tinha enterrado 4 pessoas da mesma família de uma forma repentina, cheia de desconfianças, estava agora velando uma menina de 13 anos num ato extremamente violento.

O velório foi num domingo e na segunda-feira a polícia começou a montar a investigação desse caso. O tio da Índia Amara, o Jesus Pereira dos Santos, recebeu um chamado pra prestar depoimento na delegacia de Enéas Marques, Ele foi, só que ele não voltou pra casa. E aqui é importante você entender uma coisa, tá? A prisão do Jesus não foi um chute, digamos, da polícia. No papel, o caso contra ele parecia sólido, mas vai vendo. Primeiro, a oportunidade.

Sabe o triângulo? Meios, motivos e oportunidades. No dia da mudança, depois do almoço, o Jesus voltou sozinho pra Lageado Bonito, segundo ele, pra buscar um cachorro do pai que tinha ficado pra trás. Ou seja, ele estava na área sozinho no período em que o crime teria acontecido. E segundo o Neomar Pereira, o jornalista, né, que investigou o caso desde o início, foi exatamente isso que chegou aos ouvidos da polícia. Alguém relatou que o Jesus tinha passado por ali sozinho por volta do meio-dia, no momento em que, pelo que se reconstituiu depois, a menina provavelmente já estava morta no mato.

Ele não viu nada, seguiu o dia dele e virou o primeiro nome da lista. Recapitulando então, a família tava de mudança, esse Jesus tava ajudando, fazendo o traslado aí com as coisas, a menina ficou sozinha, foi morta por alguém, ele voltou pra cidade dando ensejo à teoria de que poderia ter sido ele, mas ele não viu nada, não viu ninguém e continuou a vida dele. Mas esse, digamos, esse elemento circunstancial, digamos, o colocou ali, fez Mas parecia que um elo tava se fechando.

Segundo ponto diante desse caso aqui, vai anotando no seu caderno de investigação porque são 3 como a gente viu, não é? Bom, segundo ponto então do caso da Índia Amara era uma possível prova física. Veja só, na delegacia quando Jesus foi prestar seu depoimento, os peritos aplicaram ali nele luminol. Todo mundo sabe aquele produto químico que revela vestígios de sangue, não é? Eles aplicaram nas mãos do Jesus e no chinelo dele, deu positivo.

Sangue debaixo das unhas, sangue no chinelo. Ali mesmo então, o Jesus recebeu voz de prisão e foi levado pra Francisco Beltrão. A explicação dele sobre isso era até simples, e verdadeira eu diria, o Jesus lidava com sangue de animal o tempo todo, na véspera ele tinha carregado galinhas na casa da mãe, no serviço matava porco quase todo dia, só que naquela sala, naquele momento, uma explicação do dia a dia dele não tinha peso de um exame pericial ali que revelou sangue debaixo da mão dele ali no chinelo, não é?

Por isso que ele acabou recebendo voz de prisão. Só que aí veio o detalhe que empurrou tudo nesse caso: o Luminol teria danificado a amostra ali que eles estavam usando, pois quando o material foi mandado para Curitiba para exame de DNA, para fazer o checkmate, digamos, voltou inconclusivo. A prova que prendeu Jesus então era a mesma prova que agora não dava pra dizer que ele era 100% inocente, né? Então, a prova que prendeu era uma que também não conseguia inocentar naquele momento, e essa era a sinuca de bico.

Pra comunidade, no entanto, nem precisava de DNA, o caso tava resolvido já, o tio matou a sobrinha. Jesus ficou 57 dias preso, do dia 1º de março até 27 de abril de 2010, momento quando ele foi solto então porque a polícia não tinha prova suficiente pra indiciá-lo. Mas solto não queria dizer naquele contexto ali necessariamente livre, tá? O Jesus voltou para uma vida em que não dava nem para ir até a cidade sem ouvir ou ver alguma pessoa apontando o dedo para ele, chamando ele de assassino.

Ele ficou praticamente enclausurado no interior. Poucos acreditavam na inocência dele. Ele mesmo contou ao Neomar Pereira, anos depois, que quando entrava no supermercado, as pessoas se afastavam. Nas palavras de quem cobriu o caso, O Jesus virou um pária. E repara na engrenagem disso tudo: preso 2 dias depois do velório, um exame que deu sangue e uma soltura por falta de provas, sem nada que o limpasse. A comunidade nunca ouviu um desmentido oficial.

Mas calma, calma, porque essa história tem chão pela frente, tá? Enquanto isso, o homem que abriu o episódio, né, que sumiu lá da casa, onde aconteceu o incêndio que matou toda a família dele, esse homem continuava sumido, nenhum sinal, nenhum rastro dele. O Homem Invisível. Os meses foram passando e o sumiço do Gilmar Reolon virou o maior mistério policial daquela região. Surgiram versões pra todo lado, boato em cima de boato, a suspeita de que ele tinha fugido do país ganhou tanta força que o nome dele entrou na lista de procurados da Interpol.

Gilmar Reolon tava na lista dos criminosos mais procurados do Paraná. E ao mesmo tempo, alguém tinha um único rastro concreto dele. Será? Vamos ver. Pista de verdade nenhuma oficial. Agora, relato, relato não faltou, tá? Um ano, dois, três, vai vendo. Porque a foto dele se espalhou pelo Brasil inteiro. O caso ganhou repercussão nacional, evidentemente, e os avistamentos começaram a pipocar. A gente já viu diversas vezes isso, não é?

Como lembram aí os jornalistas que cobriram a história, um caminhoneiro até jurou ter visto Gilmar no interior de São Paulo. Caçadores da região contaram topado no fim de uma tarde com um homem cabeludo, barbudo, já grisalho, que saiu correndo quando foi visto. Agricultores diziam avistar de longe um vulto parado, observando. Moradores notavam sinais de que alguém tinha passado pelas propriedades: sal sumindo do cocho do gado, fósforo e utensílio desaparecendo do paiol.

As comunidades do interior viviam um clima de medo. O jornalista que investigou o caso lembra de ter visitado umas comunidades ali Isso depois de vários abates de boi. Você lembra lá da abertura do episódio, onde apareciam bois mortos com pedaço de carne faltando? Pois é, alguma teoria sobre isso já? Não sei. Naquele momento, segundo o jornalista, as pessoas estavam apavoradas e a polícia, nas entrevistas da época, ainda dizia que era de 99% a chance de não ser quem eles estavam procurando, ou seja, o Gilmar estava fazendo isso.

Só que sobrava aquele 1%, não é? E eu vou dizer pra você, Muitos dos avistamentos eram de repente, sei lá, reflexo, né, de todo medo. Mas tem coisa aí nesses avistamentos que, olha, daqui a pouco vocês vão entender. E é aqui que a história volta para cena do começo de novo, tá? Porque ao longo de 2012, os sítios da região de Francisco Beltrão começaram a registrar aqueles furtos estranhos, né, de gado. As 16 cabeças abatidas na mata, com a carcaça toda abandonada ali apodrecendo, mas um pedaço específico de carne levado.

Foi o delegado à frente do caso Reolon, o Davi Ricardo de Andrade Paceirino, da 19ª Subdivisão Policial de Francisco Beltrão, quem apontou publicamente em declaração à imprensa o detalhe que mudava a leitura de tudo. Segundo ele, o pedaço que sumia de cada animal era mais ou menos o que daria pra alimentar um homem por alguns dias. A leitura da Polícia Civil passou a ser essa então: não era um ladrão de gado qualquer, Era alguém que provavelmente estava se mantendo vivo dentro da mata.

E nessa toada aí, né, de eles começarem a achar que alguém estava se mantendo na mata, fazia todo sentido e quebrava de vez aquelas teorias, né, de que o Gilmar teria fugido do país, era procurado pela Interpol. Naquele momento lá eu não comentei, mas as pessoas cravavam, não, ele tá no Paraguai, tá na Bolívia. Só que tinha um cara que nunca comprou essas teses aí, sabe, de fora do país, Paraguai, Bolívia? O próprio irmão do Gilmar.

Segundo ele mesmo contou em entrevistas na época, como relembram os jornalistas do Jornal de Beltrão, o Idemar Reolon, que é o irmão aí do Gilmar, passou 2 anos vasculhando as matas lá da região atrás do irmão dele, do Gilmar, convencido de que ele tava por lá. E ele tinha um motivo claro que mais ninguém no mundo teria: o jeito de carnear o gado. O que quer dizer? O modo como aqueles animais eram abertos ali, né, tava errado.

Errado de um jeito específico, o jeito que os dois irmãos tinham aprendido com o pai deles. Vai vendo, o Wildemar, depois de casado, corrigiu essa técnica aí com o sogro dele. Já o Gilmar nunca mudou, e o irmão sabia disso. E para qualquer pessoa então, aquelas carcaças eram realmente um grande enigma, um mistério medonho. Para o Idemar era uma assinatura. A polícia passou a trabalhar então com a hipótese de que o Gilmar nunca saiu do país, tava ali o tempo todo, nunca saiu nem da região.

Ele tava lá na mata, embrenhado na mata o tempo inteiro. E o cerco então começou a se fechar. Dias antes do desfecho, a Polícia Civil promoveu uma reunião na Associação Comercial de Francisco Beltrão pra montar uma força-tarefa e caçar o foragido dentro das matas lá. Mas como sempre tem um mas, não é? A força-tarefa nem precisou sair do papel, porque quem achou Gilmar Reolon não foi a polícia Pelo menos não do jeito que você tá pensando aí.

Foi na verdade o irmão dele mesmo. Mas veja os detalhes. A cabana. Nas primeiras horas de sexta-feira, 11 de janeiro de 2013, Idemar Reolon, irmão do Gilmar, entra então na mata da região do Rio Tuna, interior de Francisco Beltrão, acompanhado de um policial militar chamado José Gilmar de Oliveira, que, detalhe, era compadre do Idemar. A versão dos dois eles estavam no mato investigando os furtos de gado. Sobre esse policial, um registro aqui, tá?

As reportagens de 2013 o descrevem como soldado da ativa. Os jornalistas do Jornal de Beltrão o lembram como um policial que estava de folga naquele dia. Seja como for, no meio da mata os dois encontraram uma cabana de lona meio que abandonada ali, e dentro dela, dormindo, tinha um homem irreconhecível, descalço, vestido com trapos, o corpo coberto de feridas e picadas ali de insetos, cabelo e barba crescidos, era o Gilmar. Segundo o relato do policial, quando percebeu a movimentação, o Gilmar tentou até ir para cima deles com facão.

Ele foi dominado, então algemado, amarrado numa árvore até a chegada do reforço policial. O relato do próprio policial na época dá a dimensão daquela caçada particular. Segundo ele, foram mais de 2 anos investigando os passos do foragido, vasculhando o matão ali quase centímetro por centímetro, e no fim uns 10 minutos para dominar o homem. Depois de 3 anos já no total, o homem invisível estava de volta. Ele foi levado para o 21º Batalhão de PM, apresentado à imprensa e encaminhado para a 19ª Subdivisão Policial.

E o jornalista Neomar Pereira guarda uma cena da chegada dele à cadeia. A notícia correu na frente e os presos receberam Gilmar aos gritos, até verem a figura que entrou, um homem esfarrapado, ferido, com cara de quem saiu de outro mundo. Aí, nas palavras do jornalista, todo mundo baixou a bola. Só que a forma como essa prisão aconteceu deixou o delegado com a pulga atrás da orelha. Em declarações públicas à imprensa na época, ele disse que desconfiava da versão de que o irmão e o policial simplesmente toparam com o foragido durante as buscas, que havia suspeita de que o Idemar soubesse onde o Gilmar estava e que os dois seriam investigados a partir da semana seguinte, quando tudo isso aconteceu.

E aqui, claro, eu preciso ser muito claro com você, tá? Desconfiança do delegado não é aqui uma acusação, muito menos culpa, ok? É preciso ter cuidado com as alegações justamente para não haver injustiça, como a gente já viu diversas vezes, não é? Nenhuma das fontes que eu consultei para fazer esse roteiro aqui registra qualquer indiciamento, denúncia ou conclusão dessa apuração contra o Idemar ou contra o policial que tava com ele, tá?

E sem isso, então, o que vale pros dois é a presunção de inocência, ou seja, eles não sabiam realmente e foram ali atrás dos ladrões de gado e se depararam com o cara. Do ponto de vista oficial, eles são homens que tiraram da mata um foragido que a polícia procurava havia 3 anos, e essa É a ponta que o caso deixou em aberto até hoje, tá? E aqui, pensando, né, eu nem sei por que havia essa desconfiança. Talvez pelo fato do que foi apurado depois, né, a questão do corte ali da carne que era levada, daquela questão de cortar errado, não é?

Talvez tenha partido daí. Mas isso, como eu disse, não quer dizer que o cara sabia onde o Gilmar tava, não é? Só uma desconfiança dele e se embrenharam na mata. Então, de repente, pra ajudar a encontrar o cara. Bom, seguindo então o dia da prisão, naquela mesma sexta-feira veio uma virada. De manhã, apresentado à imprensa, o Gilmar negou envolvimento com a morte da Índia Mara, lembra? A menina de 13 anos. Mas à tarde, no depoimento à Polícia Civil, ele confessou tudo.

E dali em diante, ele confessou de novo em entrevista diante das câmeras, começando agora pelo pai O Gilmar contou que a morte do Otávio Reolon foi uma espécie de vingança. Ele dizia ter sofrido agressões do pai na infância e, segundo relatou, aos 12 anos, depois de apanhar, ele jurou que um dia ia matá-lo. Essa é a versão que o delegado contou na época. Jornalistas do Jornal de Beltrão lembram de outra marca, tá? Uma última surra aos 16 anos, quando então ele pensou em matar o pai, só que a mãe não deixou, interveio.

Fazendo com que o pai do Gilmar prometesse que nunca mais ia encostar nele. No dia do crime, então, os dois teriam discutido por questões financeiras. E aqui os jornalistas dão o detalhe, tá? Um empréstimo consignado ligado ao pai, com parcela na casa aí dos R$130. Naquele dia, o pai do Gilmar teria cobrado duas parcelas. O Gilmar só tinha para uma. Os dois então discutiram, o pai ameaçou dar uma surra no filho, e ele explodiu?

Na versão do próprio Gilmar, o pai tentou agredi-lo de novo, se desequilibrou, caiu e bateu a cabeça. A polícia sustentava uma outra coisa, no entanto. Segundo o delegado, ele matou o pai usando uma roçadeira. Houve reportagens da época que falaram também em foice, mas eu confesso que não encontrei nada sobre os detalhes desse crime, tá? Como que o corpo foi encontrado, em que estado realmente estava o corpo. Mas lembra do latrocínio lá do começo, né?

Que seria a justificativa desse caso aí antes dessa confissão, não é? Era só teatro, tá? Segundo o relato recuperado pelo documentário dos jornalistas que investigaram esse caso, né, quem montou a cena do roubo foi o próprio Gilmar. Depois de matar o pai, ele pegou TV, rádio, objetos ali da casa e enterrou tudo num lugar escondido pra parecer que um ladrão tinha passado por lá. Anos depois, já preso, ele levou então a polícia até o ponto onde ele tinha enterrado as coisas.

E tem um detalhe mais perturbador: naquele mesmo dia, ele voltou pra casa e contou pra Gema, esposa dele, que tinha matado o pai, ou seja, no dia do crime. A esposa sabia, e sabia também de um outro golpe, um empréstimo tomado enganando a própria mãe dela, a Dona Petronilha. Ela então carregou esse peso aí e nunca o denunciou. Bom, depois de tudo isso então, da morte do pai, ele começou a falar da morte da família dele, inclusive a esposa, não é?

O Gilmar contou que tava afundado em dívidas na época e que pensava em dar por fim nele mesmo. E a justificativa que ele deu pra chacina na família é só dele, tá? Ele disse que matou a esposa, os dois filhos e a sogra pra que eles não passassem fome nem vergonha por causa das dívidas e do crime que ele tinha cometido. Segundo o que ele relatou aos jornalistas, foi numa noite em que ele não conseguia dormir, perturbado então, ele agiu entre as 4 e 5 da manhã do dia 7 de janeiro de 2010, com a família dormindo.

Ele matou a pauladas Pelo relato, uma das vítimas teria ouvido e chegado a se levantar ali durante a chacina, não é? E o que mais marcou quem o entrevistou foi a frieza dele. Ele descrevia tudo sem alterar a voz, repetindo que naquela noite tava na coragem, decidido. E o que ele contou que fez em seguida explica a cena que a polícia encontrou, viu? De manhã, ele pegou o Celta e foi para Francisco Beltrão. Ele rodou o dia inteiro com uma ideia na cabeça, se jogar, né, jogar o carro, melhor dizendo, dentro de um rio ou contra um caminhão, mas não executou isso, né, esperou anoitecer, voltou pra casa, guardou o carro na garagem, por isso então o carro tava lá, né, aí ele entrou no imóvel onde a família tava sem vida já desde a madrugada, ateou fogo e fugiu a pé pro mato, lá dentro teria tentado contra a própria existência mais uma vez, só que não deu certo aí, a corda teria arrebentado, então veio a parte da confissão que mudou a vida de mais uma pessoa, que eu acho que você deve estar se lembrando, não é?

O Jesus, o tio da Índia Mara, adolescente de 13 anos morta daquela forma brutal. Gilmar contou que semanas depois da chacina da família dele, ele tava sem comer já uns 3 dias, e segundo apurado pelas reportagens da época, essa fome aí era mais uma tentativa de deletar a própria vida dele. Ele queria ficar sem comer até adoecer. Do alto então de um morro, ele viu a família do Carlinhos fazendo a mudança, lembra, de trator, e entendeu que aquela casa ali ia ficar vazia.

Ele desceu até lá, encontrou a porta aberta e entrou pra ver se tinha comida. Segundo consta, a fome teria vencido então a vontade de sair dessa vida aqui. Só que a casa não tava vazia, ainda a Mária tinha ficado lá, não é? A menina viu Gilmar, ela se desesperou, saiu correndo e ele perseguiu a menina porque ele viu que ela viu ele. Por uns 200 metros aí foi essa perseguição, ele conseguiu alcançá-la. E o Gilmar, com medo de ser denunciado, matou a menina de 13 anos a pedradas e golpes de facão.

Arrastou o corpo pro mato e voltou a se embrenhar no seu esconderijo. Em entrevista, com a frieza que marcou todo mundo, ele disse que nem conhecia a Índia Amara, matou pra ela não contar que ele estava vivo. 3 anos depois de ser preso então pelo assassinato da própria sobrinha, o Jesus Pereira dos Santos foi finalmente inocentado, mas não era por um laudo nem por um advogado, foi só pela confissão do verdadeiro assassino, não é?

Que passou esse tempo todo escondido ali na mata perto de todo mundo. Imagina se esse cara, sei lá, É, faz o que ele queria fazer, não é? Jesus estaria em maus lençóis, não é?

?Voz B

Pois é.

?Voz A

Mas quanto à sobrevivência do indivíduo aí, com o tempo Gilmar montou então um acampamento e passou a abater gado. Ele mesmo falou em cerca de 10 animais. Os 16 furtos que a polícia registrou se concentraram ao longo de 2012 inteiro, bem depois daquele fevereiro em que ele passava dias sem comer, talvez pelas circunstâncias ele tenha esquecido quantos foram realmente os gados, né? Porque na verdade registraram 16, ele fala é algo em torno aí de 10.

E o documentário e as entrevistas da época permitem hoje remontar, digamos, como era essa sobrevivência aí. Porque o gado era só uma parte. O Gilmar colhia de noite o que as lavouras da região davam, ou seja, melão, milho, mandioca. Com milho ele chegava até improvisar ali uma espécie de farinha, quase uma polenta. Pegava sal também do coxo dos animais, fósforo e utensílio nos paióis. Lembra quando eu comentei que havia as aparições que eram talvez ensejadas aí por todo medo da região, mas algumas pessoas falaram que tava sumindo sal, fósforo?

Pois é. E o Gilmar então dormia numa cabana de lona que ele montou ali no inverno do sudeste do Paraná, onde a temperatura principalmente na mata pode ficar abaixo de zero. Ele nessa condição aí disse que foi picado por uma aranha na barriga e Passou uns 2 meses lidando com a infecção, que diz ter tratado com limão e urina. Fazia barba com um facão afiado na pedra, o mesmo facão apreendido na prisão, gasto e recurvado de tanto uso.

Ele vestia a mesma calça havia 3 anos, trocava de esconderijo, no acampamento em que foi preso ele contou ter ficado uns 6 meses, numa árvore chegou a riscar o próprio nome e uma data. E nas entrevistas ainda ele disse qual foi a pior parte de tudo, e não foi o frio, nem a fome, nem a aranha. Foi a solidão. Vai vendo, o homem que matou a própria família passou três anos sem ter com quem falar. É mole, galera? O cara matou a própria família, matou a menina que não tinha nada a ver, supostamente o pai, e tava considerando aí as piores coisas: o frio, a fome, a solidão. Bizarro, né?

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?Voz A

O júri. Quinta-feira, 3 de abril de 2014, Tribunal dos Júris da Comarca de Francisco Peltrão. Antes de chegar ali, Gilmar tinha passado por exames psiquiátricos e segundo a imprensa da região, os laudos não apontaram nenhuma patologia mental, foi por isso que ele foi considerado apto a sentar no banco dos réus diante de um júri popular, por decisão da juíza Juliane Veloso Stankiewicz. Os processos das 6 mortes foram unificados e julgados num único dia, o julgamento começou às 9 da manhã e terminou às 9 da noite, com o plenário lotado do início ao fim.

Na acusação, o promotor Roberto Tonhon e a advogada assistente Débora Maciel. Na defesa, o advogado Gilberto Carlos. E vale registrar aqui que o Gilmar era réu confesso e as reportagens da época não detalham qual foi a linha de defesa sustentada em plenário. Em determinado momento, o Gilmar falou, ele disse aos presentes que fica pensando no que fez e que não aceita, que não aceita o próprio ato. O julgamento, segundo a cobertura da da imprensa, ele não conseguiu explicar por que cometeu os homicídios.

A conta da condenação funcionou assim, e a conta da condenação dele foi a seguinte: 30 anos de reclusão por cada uma das 6 mortes, o que daria 180 anos. Mas como os 4 homicídios da família aconteceram no mesmo lugar e no mesmo contexto, um dispositivo aí do Código Penal permitiu tratar esses crimes como continuidade um do outro, e a pena dos 4 foi fixada em 90 anos. Somando então 30 pela morte do pai e os 30 pela morte da Índia Amara, o total ficou em 150 anos de prisão em regime fechado.

Só que na prática, pela lei da época, ninguém cumpria mais do que 30 dentro da cadeia mesmo. Gilmar já tinha ficado 1 ano preso à época do julgamento, então restavam 29. As famílias Casanova e Reolon acompanharam tudo e mesmo com a pena máxima possível saíram insatisfeitas. Nilson Casanova, filho da dona Petronilha, disse não entender como 180 anos viraram na prática 30. O próprio Idelmar, o irmão do réu, esperava uma condenação de mais de 200 anos.

E tinha mais alguém naquele plenário, tá? Rosa Pereira dos Santos, a mãe da Índia Amara. Ela disse à imprensa que sentia alívio com a condenação, mas também indignação porque o irmão dela tinha sido preso injustamente pela morte da própria filha dela, e disse que que desde que Gilmar tirou a menina dela, nunca mais teve paz. Terminado o julgamento, Gilmar Reulon foi levado pra Penitenciária Estadual de Francisco Beltrão. Em janeiro de 2023, quando o Jornal de Beltrão lançou um documentário, ele seguia preso na mesma penitenciária e, segundo relatos de pessoas do convívio lá na unidade, recuperados pelos jornalistas, com conduta sem nenhuma vírgula de problema.

Joga bola, toma medicação, respeita pra todo mundo. Quem sentou com ele pra entrevistar descreve ele como um homem cabisbaixo, de respostas curtas, que não olha nos olhos. Questionado uma vez se se arrependia de ter matado os filhos, disse que sim, sem demonstrar emoção, no entanto. Nos últimos anos, passou a recusar pedidos de entrevistas, inclusive o da equipe do próprio documentário. E o Jesus, galera, né, que como a gente viu aí foi injustiçado, só pra resumir a parte dele aqui, ele saiu depois de 57 dias preso, né, porque não havia provas suficientes pra indiciá-lo, né?

Vocês lembram disso? Mas o que aconteceu é que nos 3 anos seguintes, até a confissão do Gilmar, todo mundo olhava torto pra ele, a vizinhança inteira, como se ele fosse realmente o assassino da sobrinha. Em 2013, morando na comunidade lá de São Pedro, no interior de Enéas Marques, e cuidando de um sítio de suínos, ele dizia que ia buscar reparação do Estado por tudo que ele sofreu. E no final das contas, aquelas carcaças de gado que a princípio ninguém entendia, na verdade tinham ali já uma assinatura, né, um sinal de que era o Gilmar Reolon que tava ali se ele continuava vivo.

Inclusive se relatou que ele estaria ali, né, na mata, a cerca de 10 km em linha reta ali da casa onde tudo aconteceu, né, da família, a uns 4 km da área urbana da cidade e a uns 500 metros de uma estrada. É mole, o mateiro. Impossível não lembrar aqui do caso Lázaro, né, apesar de serem coisas bem distintas, mas essa questão aí de viver no mato assim quase invisível, não é bizarro? Mas conta aqui para mim, você aí da região conhecia esse caso?

Espero ter feito um apanhado geral aqui Porventura ficou faltando alguma informação, comenta aqui. Casos brasileiros nem sempre tem aquela cobertura nas minúcias, mas com base no documentário eu acho que deu para fazer aqui um apanhado geral bem interessante. É isso. Não esquece de deixar seu like, seu comentário, nem que seja um emoji. Se puder, se torne membro, ajuda muito o canal. Um beijo do Ruivo e até o próximo episódio.

A Caçada de 3 Anos que Aterrorizou o Paraná: Os Crimes de Gilmar Reolon | Castnews Index — Castnews Index