Episódios de Vamos aos Fatos

Não Suportou Ser Esquecido — e Por Isso Foi Pego | Dennis Rader, o BTK

22 de julho de 202654min
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📌 Como um dos serial killers mais perversos dos Estados Unidos foi capturado por causa de um disquete e do próprio ego? Neste vídeo, exploramos a história completa de Dennis Rader, o assassino BTK.Por mais de 30 anos, Rader viveu uma vida dupla impecável: era um pai de família, líder de escoteiros e membro ativo da igreja em Wichita, Kansas. Enquanto isso, aterrorizava a cidade com crimes brutais que desafiaram a polícia por décadas. Entenda como o desejo de ser lembrado e um erro tecnológico banal levaram à queda do homem que acreditava ser intocável.O que você vai ver neste vídeo:A trajetória dos crimes de Dennis Rader desde 1974.A análise da psicologia do "BTK" e sua necessidade de atenção.O erro fatal: o disquete enviado à polícia que revelou sua identidade.O desfecho no tribunal e o impacto de suas confissões.Se você gosta de documentários de crimes reais e análises detalhadas de casos criminais, inscreva-se no canal para não perder os próximos episódios.#CrimesReais #TrueCrime #BTK #DennisRader #DocumentárioCriminal #CasosCriminais #MarcosCampos-------📧 Contato comercial: contato@mpcampos.com.br

Participantes neste episódio1
M

Marcos Campos

HostJornalista
Assuntos5
  • Gestão do EgoReação à reportagem de 30 anos · Envio de troféus e carteira de motorista · Pedido de comunicação por disquete · Engano da polícia
  • Caso Dennis Rader· SociedadePunição de Antonelli · Ego e vaidade do assassino · Erro com disquete · Investigação policial · Ken Landwehr
  • Primeiro crime: Família OteroFamília Otero · Josie Otero · Invasão e assassinatos · Motivação sexual
  • Julgamento e CondenaçãoConfissão detalhada · Frieza e falta de remorso · Sentença de prisão perpétua · Casos de Vítimas
  • Crimes subsequentes e a assinatura BTKCatherine Bright · Shirley Vian · Nancy Andrigue · Assinatura 'BTK' · Desejo de atenção
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

The Hulu original series Furious is coming to Hulu and Hulu on Disney Plus July 27th. There are three victims we know of. The suspect is female, white, late 20s. Female serial killers kill for power control. I believe there is a deeper motivation here. You have no idea who you're dealing with, and you are going to end up dead. I've been waiting for you. Watch the Hulu original series Furious on July 27th, streaming on Hulu and Hulu on Disney Plus for bundle subscribers.

Terms apply. Essa é a história de um assassino em série que, se não fosse o próprio ego, provavelmente teria ficado impune. Um supervisor de uma fábrica de peças de avião foi morto a tiros, e desde o primeiro momento a polícia já tinha o principal suspeito, um funcionário de lá chamado Larry Bryan, que estava prestes a ser demitido justamente por esse supervisor assassinado. Um caso feio, mas sem grande mistério, e foi pra fechar o cerco em cima do Brian, que dois detetives da homicídios entraram num carro no dia 12 de março de 1992 e dirigiram até uma cidadezinha bem perto de Wichita, no Kansas, nos Estados Unidos, para fazer o trabalho deles, bater de porta em porta na vizinhança para conversar com as pessoas para ver se elas sabiam alguma coisa desse suspeito.

Mas antes de começar, eles passaram na delegacia local e falaram com o chefe de polícia lá de Park City. E esse chefe de polícia então dá uma sugestão aos investigadores, que eles passassem primeiro pra conversar com o fiscal de posturas da cidade, um cara que cuidava ali das regras municipais, tipo mato alto, carro velho no quintal, cachorro solto, esse tipo de coisa. E esse homem, por coincidência, morava bem perto do suspeito daquele crime.

O chefe falou que ele era muito organizado, prestava atenção em tudo e que talvez soubesse de alguma coisa. Os detetives então vão até lá e batem na porta. O homem atende, se apresenta como Denis, um sujeito educado, prestativo, e começa a falar do vizinho suspeito. Conta que o cara era meio quieto, que só saía de casa à noite e que por isso a vizinhança até tinha apelidado ele de vampiro. Diz também que a casa do vizinho vivia com a cortina fechada e que o sujeito tinha uma fascinação esquisita pelas crianças da rua.

Ele contou inclusive que um dia esse vizinho saiu correndo atrás das crianças usando uma máscara de filme de terror. Os detetives Ouviram tudo, anotaram, agradeceram ao cidadão prestativo e foram embora. Só que esse vizinho, o fiscal que acabou de dar uma descrição pavorosa do próprio vizinho, era naquele exato momento um assassino em série procurado pela polícia que já tinha matado 10 pessoas com as próprias mãos. E a polícia de Uishita já procurava esse assassino há 18 anos.

Pois é, 2 detetives acabaram de passar a tarde dentro da casa de um serial killer sádico e vaidoso que estavam caçando há anos, anotando ali as informações sobre um outro crime sem fazer a menor ideia de quem estava na frente deles. E a polícia só ia conseguir prender esse homem muitos anos depois. E só prenderam, esse serial killer só caiu por causa da própria essência dele. Mas calma que eu já conto tudo isso em detalhes. Eu sou Marcos Campos e esse é o episódio especial sobre um assassino em série que o mundo inteiro ficou conhecendo como BTK.

E talvez você já tenha ouvido falar do BTK, o que talvez você ainda não conheça em detalhes é justamente como esse homem vivia, quem era o homem por trás dessa sigla que apavorou o mundo e como ele conseguiu viver essa vida dupla por 3 décadas. Ele era um pai de família que fazia coisas comuns, que era conhecido, respeitado e às vezes nem tanto por muitos ali da região, mas que no silêncio da sua alma era na verdade um assassino calculista e extremamente sádico.

Então já se ajeita porque hoje é aquele episódio longão que a gente gosta, bota o fone de ouvido, fica confortável e vamos aos fatos. O primeiro crime. 15 de janeiro de 1974, fazia um frio congelante em Uitita, neve dura no chão, numa casa de esquina na rua North Edgemore, vivia ali a família O pai, o Joseph Otero, era um homem forte, tinha sido sargento técnico da Força Aérea por 20 anos, também tinha sido boxeador na juventude.

A mãe, Julie Otero, fazia judô, era uma mulher de pavio curto e braço firme. Eles tinham se mudado fazia pouco tempo para Wichita e tinham 5 filhos. Naquela manhã, bem cedo, o pai botou os 3 filhos mais velhos no carro, levou eles para escola: o Charlie, de 15 anos, e o Danny, de 14, e também a Carmen, de 13 anos. Presta bem atenção nesses detalhes porque E esse trajeto comum do dia a dia foi que salvou a vida desses 3 filhos.

E apesar da força do pai e da mãe, não foi suficiente pra evitar o que aconteceria. Quando o pai voltou pra casa, ficaram lá dentro então só ele, a mãe, a Julie, e os 2 filhos mais novos, o Joey, o caçula de 9 anos, e a Josephine, que tinha 11 anos. A Josie gostava de ir pra escola, adorava desenhar, e ela não foi com os irmãos mais velhos naquele dia porque ela estudava ainda em um outro colégio. A Josie Usava óculos, escrevia poesia, fazia desenho.

Do lado de fora daquela casa, naquela manhã cotidiana, encostado meio escondido na garagem, de capuz na cabeça e suando mesmo naquele frio intenso, estava o Dennis Rader. Ele tinha escolhido essa família semanas antes e no vocabulário particular dele as vítimas eram projetos. E essa família já era um projeto, digamos o primeiro projeto dele. Nos bolsos do casaco naquele dia, o Dennis carregava corda, cordão de cortina, fita adesiva, facas, sacos plásticos e uma pistola.

E agora, com toda essa descrição, talvez uma pergunta esteja aí na sua cabeça: como foi que essa família, entre todas as casas de Wichita, foi parar no caderno de anotações e também nos anseios doentios daquele homem, não é? A resposta é a mais assustadora possível e também simples: por puro acaso. Semanas antes, o Ray estava levando a esposa dele de carro para o trabalho porque ela não gostava de dirigir na neve, quando justamente naquela esquina ali da Edmore, essa rua onde ficava a família dessas né, onde ficava a casa dessas vítimas, o Denis cruzou com essas pessoas ali na rua.

Dentro do carro, duas pessoas estavam naquele dia: a Julie e a Josie. Foi só isso, um olhar de segundos no trânsito, e a mente sombria daquele homem travou naquela menininha. Dali em diante, ele passou a vigiar, seguiu a Julie várias vezes no trajeto de levar a Josie e o Joey para escola, os dois filhos menores. Cronometrou quando ela saía, por volta das 8:50, e levava uns 7 minutos para voltar para casa. Ele anotou que o marido saía pro trabalho por volta das 8.

Tudo isso então foi parar no caderno dele, do projeto, e foi com essas anotações que ele montou o plano de invadir aquela casa e iniciar sua onda de mortes. Só que o plano dele começou a dar errado antes mesmo de ele entrar na casa naquele dia. Primeiro, ele viu uma pegada de cachorro na neve do quintal, não esperava cachorro nenhum ali. Depois, quando ele se aproximou mais, o caçula, o Joe, abriu a porta dos fundos e o cão da família começou a latir.

E quando ele empurrou levou o menino para dentro de casa com a arma dele em punho, ele descobriu uma coisa que derrubou o plano dele. O pai daquela família estava em casa. Poucos dias antes, o Joe, esse pai de família, tinha batido um dos carros da família, quebrado algumas costelas, e era por isso que ele não tinha ido trabalhar naquela manhã. O Raider tinha contado com a casa sem um homem, e o homem estava bem ali na frente dele.

O Raider, apesar disso, conseguiu render a família com uma desculpa. Ele disse que era um foragido que só precisava de comida, dinheiro e um carro para fugir, e que ninguém ia se machucar. Então ele foi amarrando todo mundo ali com a arma, e isso com nós que ele já trazia prontos ali na corda. Mas ninguém ali ia sobreviver, e ele sabia disso desde o começo, porque ele tinha entrado de rosto descoberto. Eles tinham visto a cara dele.

Ele matou então o Joseph, matou a Julie, e matou também o pequeno Joey no quarto do menino. E quando os investigadores chegaram, encontraram ao lado da cama da criança a marca fresca de uma cadeira no carpete ali, como se o Rader tivesse puxado aquela cadeira, sentado ali na frente do menino para assistir o que estava acontecendo. E a Josie, a menininha de 11 anos, ele deixou por último. Levou ela para o porão e a enforcou, porque, como eu comentei, a Josie foi o gatilho.

No fundo, ela era o motivo daquilo. Ela despertou aquele monstro na mente dele. O resto da família era só um obstáculo, uma coisa que saiu do rumo ali. Ela era o alvo principal, e o crime tinha um fundo sexual que ele depois descreveria com orgulho. Os cadernos dele, aquela criança não tinha nome. Como eu disse, era um codinome dentro de um projeto. Quem chegou primeiro ali foram dois dos filhos. No fim da tarde, Carmen e Danny voltaram da escola caminhando pela Murdock Avenue.

Eles entraram em casa e foram dar de cara com os pais. Os dois saíram correndo, gritando. E teve um detalhe que mostra o tipo de pesadelo que aquilo ali virou. A linha do telefone tinha sido cortada e uma das crianças, em pânico, tentou consertar o fio com um cortador de unha para conseguir pedir socorro. Os primeiros então a chegar no número 803 da North Edmore foram dois policiais, o Bula e o Lindenberg. A cena destruiu todo mundo que pôs os pés lá dentro e destruiu para sempre os três filhos que sobreviveram só porque estavam na escola.

O mais velho, Charlie, carregaria pelo resto da vida a depressão, a raiva e o trauma daquele dia. E só horas mais tarde, já de tarde, foi que o fotógrafo da perícia entrou ali para registrar a cena cômodo por cômodo. Quanto ao assassino, ele dirigiu o carro da família até um mercado e abandonou o veículo por lá e foi para casa dele. Tomou 2 comprimidos para dor de cabeça naquele dia. E algumas semanas depois, ele sentou e escreveu num documento de várias páginas exatamente o que tinha feito com aquela família.

No fim, ele assinou com 3 letras: BTK. E ele explicou o que elas queriam dizer: amarrar, torturar e matar, em inglês. A polícia, sem fazer ideia de quem era, partiu atrás das pistas erradas. Como Joseph Otero tinha trabalhado com avaliação e viajado pela América Latina, eles levantaram a princípio a hipótese de uma dívida de drogas, e o chefe de polícia e o chefe da divisão de homicídios de lá chegaram a voar até o Panamá e Porto Rico atrás dessa hipótese.

Mas a verdade era um homem que tinha escolhido uma família ao acaso numa cidade que ele conhecia bem e começou a caçar nela por prazer. BTK. 4 de abril de 1974, menos de 3 meses depois da família Otero, Rader sabia que o mais seguro era nunca mais matar, mas aquilo que vivia dentro dele não deixou. Aliás, aquilo que provavelmente foi despertado justamente no crime contra a família Otero. Bom, ele voltou às ruas, voltou a espiar janelas, e dessa vez pôs o olho numa moça que apelidou no caderno dele de Projeto Luzes Apagadas.

O nome de verdade dela era Catherine Bright, tinha 21 anos, tinha tentado um semestre numa universidade do Kansas, em Lawrence, mas sentiu falta da família, uma família enorme e grudada. Então ela decidiu voltar lá pra Wichita, onde trabalhava na fábrica da Coleman, a mesma fábrica onde Júlio Tero tinha trabalhado por um mês. Rader invadiu a casa da Katherine pra esperar por ela, e o plano desandou de novo, porque quando ela chegou, ela não chegou sozinha, ela estava com o irmão dela, o Kevin Bright, de 19 anos.

E o Kevin mudou uma coisa nessa história, porque ele foi o primeiro a reagir e sobreviver. Rader amarrou os dois e tentou estrangular o Kevin. E o Kevin, mesmo amarrado, partiu pra cima dele. Lutaram. O Rader atirou duas vezes na cabeça do rapaz, e mesmo levando dois tiros, o Kevin conseguiu se soltar e correr pra fora da casa, sangrando, gritando por socorro. A irmã dele não teve a mesma sorte. A Katherine foi esfaqueada 11 vezes e morreu no hospital horas depois.

Mas o Kevin sobreviveu, e agora existia uma testemunha viva que tinha visto o assassino de perto. O problema é que a descrição que ele conseguiu dar— homem branco, bigode, suava muito— não levou a lugar nenhum. E foi mais ou menos nessa época que o Ishita ficou sabendo que tinha um caçador de gente à solta. Os presos começaram a se gabar de que sabiam detalhes do caso Otero, mas era mentira, e a polícia percebeu. Mas isso saiu no jornal, e foi assim que a cidade começou a ficar com medo.

E isso, claro, enfureceu o único homem que realmente sabia da verdade, porque ele queria crédito sobre aquelas coisas. Raider ligou para um colunista do jornal de Ishita e mandou o sujeito procurar uma carta escondida dentro de um livro numa prateleira da biblioteca pública. A carta descrevia a cena do crime da família Otero com detalhes que só a polícia e o assassino poderiam conhecer, a posição dos corpos, o tipo de corda usada, os nós, e ele avisava também que ele não conseguia parar, que o próximo projeto já estava sendo escolhido.

Os 3 anos seguintes ensinaram ao Ishita o que era o medo de verdade. 17 de março de 1977, o alvo que o Raider tinha escolhido para aquele dia não atendeu a porta quando ele bateu, Frustrado, ele acabou indo parar na casa da Shirley Vian, uma mãe de família que estava de cama doente com 3 filhos pequenos, todos com gripe. Rader trancou as 3 crianças no banheiro, jogou o brinquedo e cobertor lá dentro para que elas ficassem quietas, estrangulou a mãe num outro quarto enquanto os filhos socavam a porta.

O que salvou aquelas crianças foi o acaso. O telefone tocou no meio da violência, alguém ligando para saber da mulher que estava doente, e o Rader, achando que a pessoa podia aparecer na casa, foi embora antes de fazer com as crianças. O que tinha planejado. O filho mais velho dessa vítima, de 8 anos, conseguiu quebrar a janela do banheiro e tirou os irmãos de lá. Em 8 de dezembro do mesmo ano, o Rader fez aquele que ele mesmo depois chamaria de seu crime perfeito.

A vítima foi Nancy Fox, 25 anos, uma moça que morava sozinha. Ela era organizada, caprichosa, exatamente o tipo de coisa que o Rader admirava de um jeito doentio. Não tinha homem na casa dela, não tinha cachorro, não tinha criança para interromper. Rader cortou a linha do telefone, entrou e esperou no escuro. Estrangulou a Nancy e na manhã seguinte ele fez uma coisa que sabia que era arriscada, mas o ego dele falou mais alto. Parou num telefone público e ligou pra emergência com a voz arrastada pra avisar que tinha um homicídio no endereço da Rua South Pershing.

E olha, ele deu o nome da moça antes de largar o telefone pendurado. A essa altura, ele resolveu transformar tudo num espetáculo mórbido mesmo. Mandou poema, mandou desenho, mandou pra uma emissora de televisão uma carta em que se gabava das mortes, reclamava que não estava recebendo atenção suficiente da imprensa e fazia uma pergunta bem sinistra: quantas pessoas ele ainda precisava matar pra finalmente virar notícia? Foi essa carta que obrigou o chefe de polícia a fazer em 1978 o que ele tinha adiado por por medo de causar pânico na população, anunciar publicamente para meio milhão de pessoas que tinha mesmo um assassino em série morando entre aquelas pessoas, que ele se chamava BTK, que àquela altura já tinha matado 7 pessoas e que ameaçava matar de novo.

A cidade, como não podia ser diferente, entrou em colapso. Muito medo. Virou rotina para milhares de mulheres de Wichita chegarem em casa e checar o telefone na hora, porque todo mundo já sabia que o BTK cortava a linha antes de atacar. Se não tinha sinal, você Teve gente dormindo perto da porta com um cano de ferro do lado. E a polícia, no desespero, tentou tudo, inclusive uma coisa que hoje parece loucura. Durante uma reportagem de TV sobre o caso, eles piscaram na tela por uma fração de segundo uma mensagem subliminar, um desenho de óculos com a frase: agora ligue para o chefe.

A ideia era se comunicar com o subconsciente do assassino e fazer ele se entregar, mas não funcionou. Em 1979, uma moradora local, a Ana Williams, chegou em casa, achou a linha do telefone dela cortada e correu. Dias depois, recebeu pelo correio um envelope com um poema do BTK. E a primeira versão da assinatura estilizada que ele tinha criado pro próprio horror estava nesse bilhete. E ela, depois disso, não deu sopa pro azar. Pegou as coisas dela e saiu do Kansas.

E aí, depois de toda essa escalada, essa confiança, aconteceu uma coisa que deixou a polícia sem chão. Ele, o BTK, parou. A cidade prendeu o fôlego esperando a próxima carta, o próximo corpo, mas só silêncio. 1, 2... Os anos foram passando e o BTK simplesmente sumiu. Ninguém sabia se ele tinha morrido, se tinha sido preso por outra coisa, ou se estava só esperando a oportunidade. E como você pode imaginar, essa incerteza se tornou parte do terror.

A verdade é que o BTK não tinha ido a lugar nenhum. Mas pra entender o que ele estava fazendo nesse tempo todo e quem era esse homem por baixo das 3 letras, a gente precisa voltar lá atrás, pra antes mesmo da primeira morte. Dennis Rader. A parte, ou uma das partes mais insólitas dessa história, talvez esteja mesmo em quem era o BTK nos intervalos das mortes, na rotina comum. Dennis Rader nasceu no Kansas em 1945, ele era filho de uma família de classe média que ia à igreja todo domingo, por fora a infância foi bem normal, por dentro, desde cedo, tinha alguma coisa errada com aquele garoto.

Ainda menino e depois adolescente, ele começou a fazer uma coisa que escondeu a vida inteira. Ele enforcava cães e gatos em celeiros e sentia fazendo isso um tipo de excitação que ele não sabia explicar e guardou isso para ele. Ele entrou para Força Aérea nos anos 60 e mesmo lá dentro continuou matando bichos escondido. Quando saiu da Força Aérea, ele fez tudo que um rapaz comum fazia naquela época. Em 1971, ele se casou com a Paula Dietz.

Pelo que todo mundo via, ele adorava a Paula. As pessoas reparavam que a voz e a postura dele mudavam quando ele estava perto perto da esposa. Ele entrou para faculdade na Universidade Estadual de Uchita. E aqui já tem um detalhe que poderia ser só coincidência, mas não sei. O curso que ele escolheu para fazer nessa universidade aí foi Justiça Criminal. Ele estudou, provavelmente de propósito, como a polícia trabalhava, como os crimes eram investigados, o que deixa rastro e o que não deixa.

Em 1974, ele arrumou um emprego na ADT, que é uma empresa de alarmes residenciais da época. E aí já dá para sentir a ironia macabra que vem por aí, não é? Talvez não seja tão ironia. Tudo já tivesse sendo pensado, calculado para que o start fosse dado em 1974. O trabalho dele era entrar na casa das pessoas para instalar os sistemas de segurança que iam deixar essas pessoas protegidas. Por fora, então, marido dedicado, futuro pai de família, estudante de faculdade, funcionário trabalhador, frequentador de igreja.

Por dentro, Denis já tinha ali dado nome para outra coisa que morava nele. Ele chamava essa outra coisa que ele já tava sentindo muito tempo de Fator X. Chamava também às vezes de o monstro de dentro. Tinha um vocabulário inteiro só dele para essa segunda vida. Tinha até dado um apelido para a própria genitália. E tinha uma palavra para o que fazia quando saía à caça de mulheres. Ele andava pelos becos, espiava janelas, seguia mulheres da casa para o trabalho e do trabalho para casa, e anotava tudo num caderno.

E tinha uma palavra para as mulheres que escolhia, a mesma que eu já comentei com vocês lá: projetos. Era praticamente um catálogo de vítimas em potencial. Isso na verdade era o que o Dennis tinha por dentro, no ser, na essência dele. Mas ele se escondia bem na normalidade do cotidiano, na vizinhança, na vida dupla. Enquanto Itita tremia de medo do BTK, Dennis Rader montava peça por peça a vida mais comum que você pode imaginar.

Sabe aquele raciocínio que eu já compartilhei aqui com vocês? Quanto mais na cara, mais escondido. Talvez ele soubesse disso. Bom, ele e a esposa Paula tiveram dois filhos. O primeiro, um menino, nasceu logo depois do Rader ter escrito a carta se gabando de matar a família Otero. E batizaram esse garoto de Brian. Depois veio uma menina, a Carrie. Inclusive, já adianto aqui, anos depois, a Carrie ia escrever um livro contando suas memórias, o seu pai amoroso até o dia que descobriu que ele, na verdade, descobriu quem ele era de verdade.

O livro se chama BTK, Meu Pai. Mas não é o foco essa visão dela nesse episódio, pelo menos, tá? Continuando aqui então, o Rader se jogou na paternidade quando os filhos nasceram. Ele tava muito entusiasmado. Ele era um pai presente, se envolvia nas atividades, ele era líder dos escoteiros, colocava os filhos dele nessas atividades. E olha, ele era bom nisso, tá? Anos depois, gente que trabalhou com ele no escotismo contaria que o Reyder era um dos melhores instrutores numa coisa específica ali naquele meio do escotismo: dar nós.

Ele ensinava as crianças a fazer os nós que tinha aprendido quando ele mesmo era escoteiro bem menino. E eu acho que eu nem preciso dizer que eram os mesmos tipos de de nós que ele usava para amarrar e estrangular as vítimas dele. Ele era membro ativo também de uma igreja luterana da cidade, não faltava um domingo aos encontros da igreja. E os filhos eram motivo de orgulho. A Carrie aparecia ano após ano nas listas de melhores alunos da escola.

E o Brian, olha só que casualidade irônica também, o Brian fez como projeto voluntário de escoteiro a primeira lista telefônica lá de Park City. Ele organizou uma equipe ali com 10 voluntários e montou o catálogo telefones e endereços da cidade inteira. Foi tão bem feito que o jornal lá de Wichita fez uma reportagem sobre o garoto e o trabalho dele. O que quer dizer? O filho do BTK montou e ganhou elogio público por isso, a lista com o endereço de cada morador da cidade.

Mal sabia que o pai já tinha os endereços todos aí na cabeça. A vida profissional do Rader também era de uma normalidade tediosa, viu? Ele trabalhou anos na empresa de alarmes. Em 1989, foi trabalhar para o censo dos Estados Unidos, batendo de porta porta em porta em cidadezinhas do Kansas. Mais um emprego que colocava ele legitimamente na porta da casa de pessoas comuns. E em 1991, ele assumiu o cargo que mais ia marcar a imagem pública dele: fiscal de posturas de Park City, cidade dele lá.

Sabe aquele cara do mato alto, cachorro solto, que eu contei na introdução? O fiscal da vida alheia. Pois é. E como fiscal, ele era um terror, tá? Ele implicava com os moradores por qualquer coisa. Teve até uma briga famosa por causa de uma multa de $25 num um caso em que ele perseguiu uma moradora por causa do cachorro dela. Em outros casos, com outros moradores, ele simplesmente mandava sacrificar os cães das pessoas. Andava de uniforme sempre impecável, bota lustrada, era o tipo de vizinho de quem todo mundo reclamava.

Ele era um cara chato, rígido, metido. Ninguém olhava para ele e via um monstro, claro, mas via um cara meio babaca da prefeitura. Nem todo mundo, tá? Havia também as pessoas que gostavam dele, que chegavam nele, o cara ali frequentador da igreja, um cara pai de família, do escotismo. Então tinha essa questão também, né? O trabalho dele fazia muita gente olhar para ele com o nariz torto, achando o cara chato, cara que cobrava ali as posturas da cidade.

Enfim, com esse breve contexto da vida dele, a pergunta inevitável, não é? Como a família não percebeu a vida dupla? E a resposta é, pelo que consta oficialmente, que simplesmente não perceberam. E só. Rader era o que ele próprio chamava de compartimentado. Ele conseguia ser uma pessoa em casa e outra na hora de matar. Trocar, digamos, virar essa chavinha, trocar de uma pessoa para outra, era para ele como trocar de roupa. Inclusive, quando eu tava estudando esse caso aqui, eu até me lembrei de uma cena, não lembro qual a temporada, de Dexter, onde o Harrison, filho do Dexter, com a Rita tinha acabado de nascer e ele saía para matar de madrugada enquanto a Rita tava dormindo, o Harrison também.

Aí quando ele chegava de manhã, o Harrison acordava, né, chorando, querendo mamar, e a Rita falava, você não tem como ir lá cuidar, Dexter. Ele passou um tempão sem dormir, não é? Mas conseguia esconder aí o passageiro sombrio. Não sei nem se talvez essa essência do roteiro do Dexter não tenha alguma referência aí na vida real do BTK. Mas seja como for, a Paula, a mulher do Dennis Rader, pelo que se apurou, era tipo a Rita mesmo, sabe?

Assim, ela não fazia a menor ideia de quem o marido era. E o marido continuava matando e cada vez mais perto da própria casa. Então, pra gente ver isso, preciso voltar aqui pra 1985. Esse ano, a vítima foi Marine Hedge, uma avó de 53 anos. E o detalhe talvez mais perturbador desse caso é justamente a distância. A Marine morava na mesma rua que a família do Breider. Para ter álibi, ele usou um acampamento de escoteiros com o filho.

Ele dormiu na barraca, não tava todo mundo dormindo, ele escapou no meio da noite, estrangulou a vizinha e fez uma coisa que só viria à tona anos depois. Ele levou o corpo dela de carro para a igreja que ele frequentava. Dentro da igreja, um lugar onde ele rezava todo domingo, ele posou o corpo da mulher em posições degradantes para fazer fotos. Depois largou o corpo numa vala e voltou lá para o acampamento para acordar de manhã junto com os outros pais e os outros filhos.

E quando a vizinhança começou a desconfiar do namorado da Marine, o Rader fez questão de defender o sujeito. Ele disse que não podia ter sido ele. Olha aí o ego do cara falando já, não é? No ano seguinte, 1986, a vítima foi Vicki Wegerle, uma jovem mãe de dois filhos pequenos. Rader bateu na porta dela disfarçado de técnico da companhia telefônica, capacete amarelo, crachá. Então ela deixou o cara entrar para checar a linha. Mas a Vick lutou pela vida dela, viu?

Lutou de verdade. E no meio da luta, ela arranhou o pescoço do Denis com a unha. Embaixo daquela unha ficou ali preso um pedaço de pele microscópico, uma coisa que ninguém ia conseguir usar por quase 20 anos, mas que estava ali guardada esperando o momento certo. Rader estrangulou a Vick, tirou fotos, roubou a carteira de motorista dela como lembrança e fugiu no carro da vítima, que largou perto de uma Flash, na região lá. E aqui eu preciso marcar um pouco uma coisa importante, tá?

Para essa história fazer sentido lá na frente depois, essa não era a primeira vez que o assassino deixava um pedaço dele na cena de crime, tá? Desde 1974, a polícia guardava já material biológico que ele tinha deixado, por exemplo, na casa da família Otero. E o mesmo tinha acontecido no caso da Nancy Fox em 77. A pele debaixo da unha da Vick agora virou então a terceira amostra desse conjunto. 3 cenas, 3 rastros do mesmo fantasma, tudo guardado em envelopes esperando a ciência chegar.

E aqui entra uma das partes mais injustas dessa história, talvez uma parte que nem todo mundo conhece. Quando a Vick morreu em casa, a polícia desconfiou do marido dela. Nome dele era Bill Wiergerle. O Bill era um homem reservado que não demonstrava muita emoção, sabe? E isso, para um policial desconfiado, pareceu frieza. Pediram para ele fazer o teste de polígrafo, ele topou porque era inocente, só que ele reprovou, reprovou em 2 testes seguidos.

A partir dali, a polícia apertou ele com tudo que tinham, e o Bill, aconselho da família, parou de responder e chamou um advogado. E na cabeça de muitos detetives, ele virou o assassino da própria esposa. Bill Wegerle carregou essa suspeita aí por quase 18 anos. A história correu e tita. Os filhos dele eram zoados na escola, outras crianças diziam que o pai tinha matado a mãe. Mas tinha um detalhe naquela cena que não encaixava na teoria do marido assassino.

Pra quê, eu pergunto, ele levaria a carteira de motorista da esposa? E isso é um detalhe que pode parecer nada a ver, mas que faz sentido com a ação de um serial killer no local. Porque Quem leva o objeto como troféu normalmente é um assassino em série, não é? Eu não sei dar detalhes pra vocês sobre o Bill, se ele chegou a ser processado, preso, mas eu acho que pelas circunstancialidades das coisas que aconteceram, ele foi sim, né?

Desconfiaram dele, ficou com essa reputação manchada, mas nunca conseguiram provar. Então quando o caso foi, como eu disse, reexaminado, eles entenderam que quem levou essa carteira foi um colecionador. E o que mais apontava pra inocência do Bill era a coisa mais simples do mundo. O filhinho de 2 anos que estava na casa naquele dia disse disse que um homem tinha machucado a mamãe. E olha, um menino de 2 anos, será que falaria um homem machucou a mamãe se ele tivesse visto o próprio pai fazer isso?

O pai pode até ter pedido, ó, fala, não fala nada que foi o papai. Mas 2 aninhos ia acabar soltando numa conversa com detetive ali sozinho, não é? Pelo que consta, não falou. Bom, dando sequência então ao rastro de sangue do BTK, veio 1991. Esse ano marcou a última vítima dele. Nome dela era Dolores Davis, uma mulher mais velha que morava sozinha perto de Park City. Mesmo método, o Rader usou um acampamento de escoteiros como um álibi, né, e escapou.

Jogou um bloco de concreto pela porta de vidro da casa da Dolores, estrangulou a mulher com uma meia-calça e largou o corpo dela embaixo de uma ponte. E foi no corpo da Dolores que ele deixou um detalhe macabro: uma máscara de plástico pintada no rosto da vítima só para impressionar a polícia. E olha, aqui cabe um esclarecimento, porque como muitas vezes o caso BTK é retratado com essa máscara, não é, dá a sensação que era uma cara que característica das mortes dele.

Ele deixava em todas as vítimas, mas não era, viu? A máscara na verdade fazia parte de um ritual particular dele. Ele tinha máscaras escondidas e usava ela em algumas fotos que ele tirava de si mesmo, evidentemente em segredo. Mas em cena de crime mesmo, no rosto de uma vítima, ele deixou uma máscara uma única vez em toda a trajetória, e foi justamente na Dolores. E agora, essa altura, o placar desse serial killer era 10 mortos entre 74 e 1991, um assassino sem rosto e um inocente pagando a conta.

E é nesse ponto que a história ganha o outro protagonista dela, porque do lado da lei existia um homem que ia transformar essa caçada na missão da vida dele e que nunca ia desistir. Então eu preciso apresentar agora o caçador. Ken Landwehr era detetive de homicídios lá de Wichita. Ele estudou na mesma universidade estadual de Wichita que do Raider, só que ele fez história em vez de justiça criminal. Ele era um sujeito de cabeça fria, língua afiada e um humor ácido de quem convive com a morte todo dia.

E ele tinha uma relação com o caso BTK que ia muito além do profissional, virou uma espécie de obsessão da vida dele. Em 1992, quando o chefe da divisão de homicídios pendurou as chuteiras, esgotado, e teve que indicar um sucessor, ele apontou justamente o Landwehr. A partir dali, caçar o BTK virou oficialmente o trabalho do Ken Landwehr, mas a investigação já vinha de antes, viu? E foi muito mais mais sofisticada do que parece.

Em 1984, montaram uma força-tarefa secreta só para esse caso. Os próprios policiais se apelidaram, meio na brincadeira, meio na frustração talvez, de caça-fantasmas, porque era exatamente isso que eles estavam fazendo, né, caçando um fantasma. E o trabalho que esses caras fizeram merece ser contado aqui, porque a parte invisível dos crimes reais— o BTK tinha um cuidado obsessivo também. As cartas dele que ele enviava aí, né, que eram, enfim, chegavam à polícia, eram fotocópias de fotocópias, com as margens arrastadas de propósito para esconder qual máquina ele tinha usado, porque o rolo de uma copiadora deixa um tipo de impressão digital na borda da página.

Os detetives então resolveram rastrear assim mesmo, viraram especialistas em copiadora, decoraram nome de peça, tipo de tinta, tipo de papel, trouxeram técnicos de fabricante das máquinas, gente que estudava copiadora para ganhar a vida mesmo. Com isso descobriram que ele tinha copiado uma das cartas num prédio da universidade e outra na biblioteca pública do local, o que sugeria que o BTK talvez fosse um estudante. Eles então cruzaram listas e mais listas: alunos da universidade, funcionários da fábrica, ex-presidiários, gente que tinha comprado o tipo de arma usada nos crimes.

Dezenas de milhares de nomes. Bateram de porta em porta em muitos locais do país, colhendo amostra de sangue e saliva. E o detalhe que frustra é que o homem que eles procuravam estava mesmo numa daquelas listas que eles montaram, a lista da universidade. Denis Breider tinha lá, como eu disse, mas ele não tinha ficha criminal, nunca tinha sido preso e tinha trabalhado na fábrica antes das vítimas que trabalharam lá. Então passava por todos os filtros sem disparar um único alarme.

E galera, essa fábrica aí é a Coleman, tá? Uma fabricante aí de equipamentos de camping. O Rader tinha trabalhado lá por um curto período. Até comentei, né, sobre essa Coleman anteriormente, onde outras pessoas trabalharam, como por exemplo a Julie Otero e também a Katherine Bright. E o Kevin, o irmão dela, só que eles trabalharam lá depois. O que eu quero dizer é que o nome do Raider estava em duas das listas que a polícia tinha montado, mas apesar disso nenhuma suspeita pelas circunstâncias aí, como eu disse.

Mas apesar disso, os caça-fantasmas tinham ali uma carta na manga que ia valer ouro depois: o DNA. Em três das cenas, o assassino tinha deixado material biológico, não é? Isso aí tava guardado desde lá dos anos 70, só que isso Esse ponto da investigação onde foi criada essa lista era o final dos anos 80 e o exame de DNA tinha acabado de nascer, era novidade ainda na investigação criminal. Nem existia ainda um banco de dados genético capaz de você cruzar ali e te devolver um nome.

E aí o detetive Landwehr tomou uma decisão que parecia maluca e que se mostrou genial. Quando surgiu a chance de testar esse DNA, ele se recusou. Por que que ele se recusou? O cara é visionário, veja. Na verdade, testar o DNA naquela época ali era meio que gastar a amostra que eles tinham, sabe? Isso ia só mostrar como era o DNA do BTK, não ia dizer quem ele era. Então o detetive sabia que quanto mais ele esperasse, melhor a tecnologia ficaria, ele poderia chegar numa resposta mais certeira.

Landwehr estava apostando no tempo, pensando anos à frente. E para não restar dúvida, essa recusa aí não deu sobrevida nenhuma ao assassino, tá? Ele já tinha parado de matar. O que ele fez foi preservar, né, o detetive, a única prova capaz de um dia cravar uma identidade para do BTK. E esse dia ia chegar, mas o tempo nesse momento aí, né, final de 80, começo de 90, foi passando. E o tempo é cruel para investigação, não é? Os anos viraram décadas.

A força-tarefa foi desmontada, as caixas de evidência foram parar no porão de uma prefeitura. Para muita gente em Uitita, o BTK virou lenda velha, aquela coisa, sabe, que dava medo nos pais, os filhos mal sabiam agora o que era. E os detetives que tinham gastado a vida nisso, podemos dizer, carregavam uma derrota, uma mancha no currículo. Um deles, já aposentado e muito doente, chegou a dar fim à própria existência em 98, e ele estava com um dos arquivos do caso BTK abertos na mesa de cabeceira.

Tinha estudado o caso até o último dia. O monstro tinha vencido. Dennis Rader tinha conseguido o que quase nenhum assassino consegue: tinha se safado e tinha envelhecido em paz, no meio da própria vida normal, sem ninguém em volta desconfiar de nada. Foram quase duas décadas matando na mesma região debaixo do nariz de todo mundo. E depois de 1991, mais nada. Nenhuma vítima nova, nenhuma carta, um silêncio total. BTK tinha na prática se aposentado.

Se ele tivesse ficado quietinho, provavelmente ele nunca seria pego. Mas o seu passageiro sombrio, o Fator X, tinha um ponto fraco, e esse ponto fraco era o ego. Era 2004, já tinham se passado 30 anos desde o caso da família Otero, a cidade tinha seguido em frente e foi a vaidade doentia, obsessiva do hater que o entregou finalmente pra polícia. Veja só, saiu uma reportagem no jornal de Uishita sobre os 30 anos do crime da família Otero, a matéria citava um advogado da cidade, o Robert Beattie, que estava ali escrevendo um livro sobre o caso BTK e o Beattie comentava chamava de passagem uma coisa que pra ele era só um fato, que muita gente jovem de Uishita nem sabia mais o que era o BTK, que era um assunto velho, esquecido.

Dennis Rader leu aquilo e ficou enfurecido com a sua atual insignificância. Como assim ninguém lembrava dele? Como assim ninguém sentia mais medo daquele terror que ele tinha criado e plantado? Pelo visto, na cabeça dele, alguém estava prestes a roubar a história dele e ninguém mais reconhecia a obra dele. Ele resolveu então lembrar a cidade de quem ele era e quem mandava ali. Ele foi até os esconderijos onde guardava os troféus de décadas atrás, pegou as fotos da Vicki Wegerle, a jovem mãe que tinha matado lá em 86, pegou a carteira de motorista que ele tinha roubado da casa dela e mandou tudo para um jornal.

Ele mandou com um envelope em março de 2004 e ele conseguiu 3 coisas com isso: provou sem deixar dúvida que ele tinha sido o responsável pela morte da Vicki, inocentou de uma vez por todas o Bill, o marido dela, que carregava essa suspeita há 18 anos, e anunciou anunciou ao mundo que o BTK estava de volta. Como remetente, ele pôs ali um nome falso no envelope, só que as iniciais do nome eram, claro, BTK. Boa noite, agora que sabemos que o BTK está de volta, a cidade está ansiosa e com medo.

Acredita-se que uma carta enviada ao Wichita Eagle seja do assassino em série. Wichita então voltou a entrar em pânico, e dessa vez o circo, digamos, era mundial. E a polícia, com o detetive Landwehr, aquele mesmo que já comandava a investigação desde a década de 90 e que nunca tinha tinha largado esse caso aí, à frente da operação montou então uma estratégia ousada com ajuda de um perfilador agora do FBI, o Bob Morton, da unidade de ciências comportamentais.

A ideia baseada numa coisa só: o ego evidente do assassino. Então o lance para eles era o seguinte: em vez de só reagir, eles iam trocar ideia, conversar com o BTK pela televisão, instigar a mente doentia dele. Iam fazer entrevistas coletivas que pareciam entrevistas comuns ali, mas cujo verdadeiro destinatário era o assassino egocêntrico, Landwehr lia frases cuidadosamente escritas, dizia coisas que afagavam a vaidade do assassino, sugeria que ele continuasse conversando e dava a entender que a investigação estava sob controle, porque o perfilador Morton tinha avisado: um assassino em série precisa se sentir seguro para agir.

Se ele achar que a polícia tá no pé dele, no encalço ali, ele recua e some. E para dar um rosto que o BTK pudesse fixar, o Landwehr se ofereceu para ser ele mesmo a aparecer na frente das câmeras, sabendo que estava virando um alvo pessoal de um homem que matava por prazer e que tinha mulher e um filho pequeno em casa. Começou então o jogo de gato e rato. O BTK voltou a mandar pacote atrás de pacote, em caixa de cereal, em saquinho colado atrás de placa de trânsito, em caixa de correio.

Cada pacote vinha com bilhete, com uma boneca amarrada imitando as vítimas, com um troféu, com história. E cada pacote levava os investigadores à correria, porque alguns vinham com uma ameaça de matar de novo. Só que nem tudo era verdade. Numa das cartas, Rader se gabou de ter matado um adolescente, um garoto que tinha morrido sobre os trilhos de trem perto de Ueshita. Os investigadores foram investigar isso mais a fundo e descobriram que era mentira, que o garoto tinha feito aquilo com ele, e o BTK só estava se apropriando daquela morte para parecer mais perigoso.

Então veio a parte que parou o país. Em dezembro de 2004, a polícia cercou uma casa e prendeu um homem chamado Roger Valadez. A informação vazou e em poucas horas as emissoras estavam ao vivo ali na porta da casa daquele homem, helicóptero sobrevoando, um verdadeiro show. Uma dessas informações divulgadas dizia que o homem era suspeito de ser o BTK. Vizinhos na frente das câmeras diziam que não conseguiam acreditar que o BTK era vizinho deles, morava ali pertinho, o fantasma.

Mas claro que não era ele. Roger Valadez era um homem inocente que por azar batia com parte do perfil que o próprio BTK tinha divulgado sobre si. A polícia foi obrigada então a soltar esse homem em poucas horas. O homem teve a vida virada do avesso, a casa revirada, o nome arrastado na televisão nacional e ganhou na justiça uma indenização de mais de 1 milhão de dólares contra a emissora que divulgou seu nome. Foi uma das maiores vergonhas da investigação e todo mundo que conhecia o caso sabia da pior parte.

Enquanto a cidade comemorava e depois se humilhava com aquela prisão errada, o BTK de verdade continuava lá fora, livre leve solto, acompanhando tudo pela TV. E aqui, cara, eu fiquei pensando que talvez se essa prisão fosse parte de uma estratégia mais longa, o BTK real teria feito algo para mostrar que eles estavam errados. E já com a investigação mais moderna, não é, 2004, talvez a polícia pudesse ter encontrado uma forma de pegar ele.

Não aconteceu isso, mas apesar disso, o cerco estava se fechando, ia se fechar por causa de um pedido que o próprio Raider fez a captura. Tudo começou com câmeras de segurança. Em janeiro de 2005, o BTK deixou um pacote na caçamba de uma caminhonete no estacionamento de uma loja de material de construção, uma rede famosa lá nos Estados Unidos chamada Home Depot. O que ele não sabia é que aquele estacionamento tinha câmeras. O detetive Landwehr, os detetives também do FBI, sentaram ali com muita calma e foram revisando imagem imagem por imagem, quadro por quadro, para frente, voltavam, até conseguir isolar o veículo do sujeito que largou o pacote lá.

A imagem não era lá aquelas coisas, o desenho do capô, a inclinação do para-brisa, distância entre as rodas. Eles chegaram à conclusão que aquele carro era um Cherokee escuro. Aí, vendo o tamanho do trabalho, tá, eles foram aos registros de veículos para ver quantos Jeep Cherokee escuros existiam na região de Wichita. A resposta foi 2500. Com algumas teclas, eles tinham então ali espremido uma cidade inteira numa lista de 2500 nomes.

E pela primeira vez em 3 décadas, eles tinham enxergado um relance do BTK numa imagem. E aí veio o erro, o erro que entregou tudo. Num dos bilhetes, o Dennis Rader perguntou uma coisa diretamente pra polícia. Ele queria facilitar a vida dele, tava cansado já de dirigir de um lado pro outro copiando carta em máquina diferente. Então ele perguntou se ele podia se comunicar por um disquete de computador, mas que não fosse ser rastreado.

Então ele pediu com todas as letras: sejam honestos. O Ken Landwehr não era bom de mentir, ele mesmo admitia isso, tá? Quando jovem tinha sido péssimo em trabalho disfarçado, justamente porque ele não levava jeito para enganação. Mas dessa vez ele ia mentir com toda a competência da vida dele. A polícia publicou um anúncio nos classificados do jornal do jeitinho que o BTK pediu, basicamente dizendo: pode mandar o seu disquete, amigão, vai dar tudo certo.

Era, claro, mentira. Um disquete guarda um rastro digital, lá naquela época já a pegada digital, e o homem mais cuidadoso da história de Wichita até então, depois de 30 anos sem cometer um erro fatal, acreditou que a polícia ia deixar passar a chance de pegar um serial killer cruel que viveu uma vida praticamente escondido, se gabando das barbaridades que fez. 16 de fevereiro de 2005, chegou um pacote na recepção de uma emissora de TV, esse vídeo e Xita.

Dentro, entre outras coisas, tinha um disquete. Levaram pro perito de informática da força-tarefa, o Randy Stone, e o Stone então colocou o disquete no computador com meia dúzia de pessoas ali atrás dele. O Landwehr estava lá, claro, outros detetives, todo mundo achando que ia demorar dias para arrancar alguma coisa dali. Só que demorou segundos. O Stone abriu o campo de propriedade do arquivo e ali, em letra de forma, apareceu um primeiro nome.

Dennis. O sistema mostrava ainda que o disquete tinha sido usado num computador registrado em nome de uma igreja, a Christ Lutheran. Alguém digitou o nome da igreja na internet, abriu o site e leu o nome do presidente da congregação, Dennis Rader. 31 anos à altura desses fatos, 10 mortes, dezenas de milhares de suspeitos, e o fim começou com um nome aparecendo na propriedade de um arquivo de computador. Mas o Landwehr, fiel ao seu seu estilo, foi de novo pelo caminho mais difícil.

Em vez de meter o pé na porta daquele homem, ele segurou os investigadores e foi pelo caminho mais longo e mais seguro, porque não podia errar dessa vez, não, pelo menos depois de tantos erros já, né? Pra ter certeza, eles foram atrás do DNA, mas eles não poderiam ir atrás do DNA do Rader, porque ele ia saber, não é? Então, com uma ordem judicial, eles conseguiram uma amostra médica antiga da filha do Dennis, a Carrie. Estava guardado aí dos tempos em que ela era estudante na Universidade Estadual individual do Kansas, compararam com o material do BTK, aqueles das unhas, não é?

E bateu. Não era idêntico, evidentemente, porque era de um parente bem próximo, mas era idêntico. E aquilo era a certeza de que o BTK era mesmo um homem da família Rader. Assim, em 25 de fevereiro de 2005, perto do meio-dia, perto da casa dele, a polícia fez parecer uma blitz de trânsito comum. Quando os carros cercaram e os detetives saltaram de arma em punho, aquele fiscal de posturas de Park City, de uniforme, foi posto no chão e gemado.

E na hora de botar ele dentro do carro, o Dennis Rader olhou pro homem sentado ali e reconheceu o rosto dele, aquele rosto que ele via na televisão fazia quase um ano, o detetive que conversava com ele. Ele cumprimentou o detetive pelo nome, cordial, educado, como se já conhecesse aquele homem há tempos. Foi um dos interrogatórios mais perturbadores já registrados. Por 2 dias e mais de 30 horas de conversa com 2 detetives, o Kelly Oates e o Dana Goudge, o Dennis Rader confessou os 10 assassinatos com a frieza de quem escreve uma lista de compras.

A certa altura, ele se levantou, pôs as mãos atrás das costas e imitou a pequena Josie Otero, chamando pela mãe enquanto ele matava a família, e depois soltou uma risada. Em outro momento, ele estava com fome e os detetives pediram comida para ele. Ele comeu tranquilo no meio de de tudo isso, falava de si mesmo na terceira pessoa, como se Dennis Rader fosse uma outra pessoa. E num instante ele parou, olhou pro detetive e disse que sabia que aquilo ali, cada vítima, tinha sido um ser humano, mas que ele era um monstro.

Não foi força de expressão, tá? Um dos investigadores que esteve com o Dennis, o detetive Clint Snyder, resumiu depois de um jeito bem preciso, eu diria: Rader era a coisa mais perto de um ser humano sem alma que ele já tinha visto na vida. Foi assim que em 27 de junho de 2005, Dennis foi para o tribunal. E aqui acontece a cena mais arrepiante de todas, porque dessa vez é em público, num tribunal lotado, transmitido ao vivo. Dennis Rader chegou para audiência vestindo um paletó cor de creme.

Do lado de fora do fórum tinha o circo de sempre: dezenas de equipes de televisão, vans de transmissão, repórteres de tudo quanto é canto. Rader finalmente tinha a plateia mundial que ele sempre quis. Os detetives, num gesto diz muito, foram buscar as famílias das vítimas a um quarteirão dali e caminharam com elas até o tribunal, fazendo um escudo humano ali com os próprios corpos. As famílias andavam de cabeça baixa, como quem vai a um enterro, algumas de mãos dadas.

E olha, eu diria que tem um simbolismo forte nisso, né, nessa parte do enterro aí. Lá dentro, o Rader se declarou culpado das 10 mortes, mas o juízo Gregory Waller não deixou ele se safar de nada. O juiz exigiu que o Rader contasse com as próprias palavras o que ele tinha feito com cada um dos 10 casos. E quando o Rader tentava só repetir a acusação seca, o juiz cortava e mandava ele detalhar, caso por caso, vítima por vítima.

E foi aí que Kansas e o mundo inteiro ouviram o BTK descrever os próprios crimes com a voz de quem está fazendo algo monótono. Ele explicava como tinha escolhido, como tinha entrado, o que tinha feito, sem um pingo de emoção, parando só pra espiar as fotos das vítimas que apareciam na tela do tribunal. A promotora do condado, a Nola Folston, uma advogada durona, tinha estruturado aquilo de propósito, de propósito pra que a arrogância dele ficasse exposta, gravada sem maquiagem.

E teve um momento naquela audiência que talvez seja o resumo mais cruel de quem era esse homem. O juiz perguntou o endereço da casa onde ele tinha começado tudo, a casa da família Otero, e Rader respondeu um número, disse que achava que era 1834 da Edmor. Só que a casa dos Otero ficava na 803. 31 anos depois, depois de ter destruído aquela família inteira, crianças, ele nem lembrava o endereço, ou fingia que não lembrava pra parecer ser mais nojento do que já era.

Pra ele, aqueles seres humanos eram descartáveis. Em agosto de 2005, veio a sentença. O juiz Waller condenou Dennis Rader a 10 prisões perpétuas consecutivas, uma pra cada vítima. Ele não tem direito a pedir condicional antes de passar pelo menos 100 anos preso. E ele não pegou pena de morte porque, na época dos crimes, Kansas não tinha essa pena prevista. 10 perpétuas, uma pra cada vítima. E antes da gente caminhar pro fim do episódio, eu acho bem justo parar mais do que um instante para nomear cada uma delas, não é?

Porque essa história no fundo é sobre elas, não só sobre ele. Joseph Otero, 38 anos. Julie Otero, 34. O casal tinha acabado de recomeçar a vida em Wichita e os dois filhos pequenos dele, Joey, de 9 anos, e a Josie, de 11 anos, a menininha de óculos que adorava escrever poesia. Isso foi em janeiro de 74. Catherine Bright, de 21 anos, que tinha largado a faculdade em outra cidade por sentir falta da família, em abril de 1974 também.

Shirley Vayan, mãe de 3 crianças pequenas, atacada num dia em que estava de cama doente com os filhos dentro de casa, março de 77. Nancy Fox, de 25 anos, que naquele dezembro estava trabalhando em 2 empregos pra comprar os presentes de Natal da família, isso foi em 1977. Marini Hedge, 53 anos, uma avó miudinha de pouco mais de 1,5m, com um sotaque doce do interior e fama de cozinhar tudo do zero, abril de 85. Vicki Wegerle, jovem mãe de 2 filhos pequenos que passava as manhãs tocando piano em casa, setembro de 86.

E Dolores Davis, a Di, avó que andava com lencinhos umedecidos para limpar o rosto dos netos e escondia os fósforos em cima da geladeira, o medo de que alguma criança se machucasse, em janeiro de 91. 10 nomes, 10 vidas interrompidas pelos desejos doentios e mesquinhos de um homem só. Por elas que essa história merece ser contada. E ali no tribunal estavam as pessoas que carregaram o peso de tudo isso por décadas. Entre elas, Charlie Otero, o irmão mais velho, que tinha 15 anos em 74, um dos 3 que se salvaram porque estavam na escola, e que cresceu carregando o trauma daquele dia.

Ele viveu para ver o homem ser condenado. Hoje, Dennis Rader cumpre as 10 perpétuas numa cela minúscula, trancado 23 horas por dia. Bom, a vida secreta do Dennis tinha tinha enfim se encerrado, não é? Mas e a segunda vida dele? A família que passou a vida ao lado desse homem sem saber de nada? Essa vida também acabou naquele 25 de fevereiro, no dia da prisão. Quando os investigadores foram falar com a Paula, a reação dela foi genuinamente de tristeza e incredulidade.

Ela afirmou que era impossível que o marido dela, que era um homem bom, um ótimo pai, tivesse feito aquilo. Ele era incapaz de machucar alguém. E o detetive que ouviu aquilo saiu da conversa convencido de que ela realmente não estava mentindo, não fazia ideia. Os crimes do Denis custaram à Paula o sustento e a própria casa. Poucos meses depois da prisão, ela conseguiu na justiça um divórcio de emergência, sem precisar cumprir o prazo de espera normal.

Em julho de 2005, a casinha de uns 90 metros quadrados onde eles criaram os dois filhos e onde, sem ninguém saber, ele planejou mortes e escondeu troféus, foi parar num leilão cercada de imprensa do mundo inteiro. Quando o lance vencedor passou bem acima do valor da avaliação, as famílias das vítimas entraram na justiça para confiscar a diferença, com um argumento difícil de rebater, viu? Aquele dinheiro a mais só existia por causa da fama do assassino.

E assim, no meio da briga judicial, o comprador desistiu, talvez para não ser revelado, né? Porque creio eu que se comprou muito acima do valor de mercado, não era para viver lá por necessidade, né? E a Carrie, a filha cujo exame médico antigo, sem ela saber, tinha ajudado a identificar o próprio pai como sendo o BTK, passou anos reconstruindo a sua vida. Tempos depois, foi ela quem contou essa história do ponto de vista dela dentro dentro de um livro sobre o que é descobrir de uma hora para outra que o seu pai é um serial killer.

Aquele livro que eu comentei lá no início do episódio. Agora, imaginar que aqueles detetives lá em 92 que entraram na casa do Dennis para ouvir ele falando de um outro crime estavam diante do BTK— ganha um peso diferente, não é?— a polícia de Wichita esteve naquele dia dentro da casa de um homem que eles procuraram por décadas, ouviu ele falar sobre crime, agradeceu e foi embora. E aquele vizinho que ele descreveu com riqueza de detalhes, o cara da máscara, o cara que metia medo na rua, era a descrição mais honesta que o Dennis Rader já fez de si mesmo, só que falando de outra pessoa.

O homem que ensinava as crianças do grupo de escoteiros a dar nós usou esses mesmos nós para estrangular as vítimas. O homem que ia à igreja todo domingo levou o corpo de uma vizinha para dentro daquela igreja para fotografar. O pai que se orgulhava do filho que fez a lista telefônica da cidade já tinha ele mesmo o endereço de todo mundo guardado num caderno, só que para caçar. Por 31 anos, a cidade de Uixita procurou um monstro.

Esse tempo todo ele esteve na casa ao lado, no banco da igreja, na barraca de escoteiro do próprio filho, atendendo a porta dos vizinhos de uniforme. Ninguém viu. Só viram quando o egocentrismo desse assassino falou mais alto que sua vida secreta. E foi ali que finalmente o mundo inteiro conheceu a face do mal. Esse foi o especial do BTK. Espero que você tenha apreciado o trabalho de hoje. Não esquece seu like, seu comentário, ainda que seja um emoji.

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Não Suportou Ser Esquecido — e Por Isso Foi Pego | Dennis Rader, o BTK | Castnews Index — Castnews Index